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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O retorno da polemista destemida

Camille Paglia está de volta. Após anos de relativa calmaria, a polemista desbocada que fez furor ao longo dos anos 90 com seus ataques ao establishment acadêmico, suas críticas ao caráter repressivo e vitimizante do feminismo norte-americano e sua ojeriza ao pós-estruturalismo francês de Foucault & cia, lança o livro Glittering Images: A Journey Through Art from Egypt to Star Wars, no qual dá sequência à sua revisão do cânone artístico, buscando ampliá-lo para além dos limites eurocêntricos e, como o título indica, incorporando artefatos gerados no âmbito da cultura pop.

A primeira polêmica derivada do livro foi ocasionada pela publicação, como artigo, de um trecho de sua introdução pelo jornal italiano La Republica. No texto, que já está disponível em português, Paglia põe a mão na ferida ao elencar como uma das razões da atual marginalização das artes o isolamento dos artistas entre pares, fazendo com que percam o contato com as pessoas comuns, das quais desprezam e zombam os gostos e os valores.

"Uma ortodoxia monolítica abandonou os artistas em um gueto de opiniões óbvias e os cortou fora das ideias novas. Nada é mais banal do que o dogma progressista, segundo o qual um valor chocante automaticamente confere importância a uma obra de arte. A última vez que isso foi verdade foi, talvez, no fim dos anos 1970, com as fotografias homoeróticas e sadomasoquistas de Robert Mapplethorpe […] Quem subordina a arte à agenda política contemporânea é tão culpado por literalismo rígido e por propaganda quanto um pregador vitoriano ou um burocrata stalinista qualquer", provoca ela.

Mas suas críticas não se dirigem apenas ao universo liberal dos artistas. Para ela, que se diz discípula e foi orientanda de Harold Bloom, os conservadores, "Apesar dos seus toques de trombeta por um retorno da educação ao cânone ocidental, se comportaram como filisteus provincianos com relação às artes visuais". Traçando um paralelo entre a iconoclastia e a frugalidade artística do protestantismo e a exuberância artística e imagética do catolicismo, ela lamenta, por um lado, que "os conservadores cristãos nunca permitiriam exibir nas escolas públicas os heroicos nus da arte ocidental. O puritanismo norte-americano hesita na suspeita conservadora de que há uma feitiçaria na beleza."

Por outro lado – e aqui está o centro da polêmica -, Paglia, em um momento de forte e disseminado sentimento antirreligioso no Ocidente - notadamente entre a jovem esquerda e os liberais -, não só reconhece que "uma quantidade enorme da melhor arte ocidental foi intensamente religiosa", como tem a coragem de sustentar que "Embora em seu nome se tenham cometido males, a religião tem sido uma força enorme de civilização na história do mundo. Zombar da religião é algo pueril, sintomático de uma imaginação atrofiada. Porém, essa posição cínica tornou-se de rigor no mundo artístico, um motivo a mais para a banal superficialidade de grande parte da arte contemporânea à qual não restou nenhuma grande ideia."

Um erro grave da publicação do trecho da introdução do livro em forma de artigo é, na minha opinião, não permitir a contextualização de tal posicionamento de Paglia em relação à postura incisiva que há décadas mantém como militante pró-sexo e pró-pornografia, contrária, como reiteradamente afirma, a qualquer intervenção do Estado e da religião institucional na vida sexual dos cidadãos. Ela, nos trechos em questão, está claramente falando a partir da perspectiva da historiadora e da cultora da arte, e como testemunha desesperada da dêblacle desta ante o que vê como conspurcação por ideais políticos que pouco ou nada têm a ver com excelência artística. Ao menos uma nota explicativa deveria ter sido publicada.

Ainda assim, é prazeroso saber que Paglia, depois de tanto tempo, mantém a coragem de ir contra a corrente e dizer coisas que muitos não querem ouvir, sobretudo por saberem-nas verdadeiras. 


(Imagem retirada daqui) 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A decadência das redes sociais

Em um país em que a mídia corporativa encontra-se, há décadas, concentrada na mão de meia dúzia de famílias caricaturalmente conservadoras e aliadas aos interesses das elites, a blogosfera e as redes sociais logo se afiguraram como meio alternativo de informação, de exercício do debate democrático e, eventualmente, da militância política.



Foi a atuação de cidadãos e cidadãs, nos últimos dez anos, que acabou por gerar um verdadeiro fluxo de contrainformação, desmentindo factoides criados pela mídia e desvelando episódios risíveis como o da bolinha de papel que atingira o candidato José Serra, na penúltima de suas tantas derrotas eleitorais.



Agora, porém, as redes sociais transformaram-se num campo de batalha permanente – e, se um dia foi possível acessar o Twitter ou o Facebook e deparar-se, em poucos segundos, com um punhado de links sugestivos e dois ou três debates instigantes, hoje o que se vê, na seara da política, são subcelebridades e anônimos se digladiando, seja através de farpas e indiretas, seja via os cada vez mais frequentes ataques frontais, que não levam a nada, interditam o debate político e só constrangem aqueles que esperam respirar um pouco de inteligência nas redes sociais.



Não estou falando dos trolls que durante tanto tempo prestaram serviços ao PSDB e nem sequer do embate entre os simpatizantes dos tucanos e aqueles que apoiam o PT. Chegamos a um ponto em que o debate é entre figuras que se dizem de esquerda, mas que, seja apoiando incondicionalmente o PT ou se colocando contra tudo o que o PT faz, se comportam como Stalin redivivo.



É um debate muito pobre, esse, entre os chamados governistas e os antigovernistas.



Para os primeiros, Lula é o Deus encarnado e a administração Dilma é uma perfeição, a despeito das privatizações vergonhosas para um governo que se elegeu com um discurso antiprivatização, da total falta de diálogo com os movimento sociais, da repressão a greves com uma truculência só vista no regime militar, das ameaças constantes aos direitos indígenas e trabalhistas, do anacronismo no trato com questões caras à bancada evangélica, como aborto e união civil homossexual, do PIB a 1%, da prioridade à educação só da boca para fora. Fingem achar normal que Haddad se alie com Maluf e que Kassab, um dia após ser derrotado numa campanha em que os próprios petistas o qualificaram como "higienista" e "fascista", seja recebido com tapete vermelho pelo partido. Para tais governistas, o pragmatismo tudo justifica. O que vale é o poder.



Para os que a estes se opõem, Dilma é a Porca e vale tudo para atacar o governo. Vibram com o julgamento do mensalão, fingindo não ver os desatinos apontados por juristas do quilate de Bandeira de Mello, Konder Comparato e Dalmo Dallari. Enchem a boca para criticar as alianças governamentais, fingindo hipocritamente não saber que, no sistema político brasileiro, não há como governar sem tecer amplas alianças partidárias. Não reconhecem nenhum mérito no governo, sequer nas políticas sociais que tiraram quase 40 milhões de pessoas da pobreza e criaram uma nova classe de cidadãos e consumidores. Pouco importa para eles que, em plena crise econômica mundial, no Brasil  os índices de desemprego sejam os menores da série histórica e os salários apresentem inédito ganho real. Não têm vergonha de fazer eco à pior direita para defenestrar o governo que odeiam.



Se o embate entre um e outro grupo se desse no plano das ideias, das confrontações programáticas, do debate em busca de um consenso, talvez fosse possível aturar, tomando um Sal de Frutas por dia, esse binarismo cego. Como ele se dá através de provocações pré-adolescentes, desqualificações grosseiras, xingamentos e demais baixarias, acompanhá-lo, nas redes sociais, tornou-se um martírio em que se assiste a uma baixaria digna dos piores programas mondo cane da TV, em relação aos quais as redes sociais foram, um dia, uma opção inteligente e mais divertida.

Assim se comportando, tais figuras fazem o jogo da mídia corporativa, que há tempos se esmera em afirmar que a internet e as redes sociais são o território de ninguém, dos ataques agressivos, da não-razão - uma falsa assertiva que tem como premissa a suposição de que o jornalismo profissional das mídias seria o locus da razão, da argumentação e do equilíbrio. 



Em um cenário que passou a ser dominado, recentemente, por listas apócrifas no pior estilo macartista, por ameaças de processo jurídico a granel e por agressões machistas grosseiras, quem não se identifica com nenhuma das extremidades acima elencadas, e acredita ser possível manter uma postura crítica acerca do governo Dilma, sem deixar de reconhecer seus eventuais méritos – apoiando-o ou não - vive agora, nas redes sociais, o pior dos mundos.



Falo a partir de uma perspectiva pessoal, é claro, mas tenho a impressão de que tem muita mais gente saturada desse ambiente em que adultos se comportam como colegiais exaltados, de estilingue e mamonas à mão, e gostaria de ver restabelecido o diálogo civilizado e politicamente construtivo nas redes sociais.


(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O que penso sobre o caso Enem

A polêmica sobre o Enem, deflagrada no último final de semana, tem acirrado ânimos de uma forma tal que, seja entre seus críticos ou entre seus defensores, a razão e o bom senso têm sido as principais vítimas.

Um dos argumentos mais repetidos ao longo da polêmica é que, por se tratar de um problema que só teria afetado uma ínfima parcela percentual dos que prestaram o Enem - de 0,04 a 0,06%, a depender da fonte consultada -, a falha seria pouco significante. Trata-se de um argumento tão lógico quanto falacioso. Pois, evidentemente, só é possivel aferir a gravidade de um fato a partir de dados percentuais se se leva em conta a dimensão numérica da amostra. Ou seja, numa classe de aula com 40 alunos, por exemplo, é absolutamente insignificante algo que incida sobre 0,05% da amostra; mas se pensarmos num desastre natural - digamos, um tsunami - que atingisse fatalmente 0,05% da população brasileira, constataríamos que quase 100 mil pessoas morreriam - o que seria, sob qualquer critério, um desastre de enormes proporções, com manchetes no mundo todo.

Como o universo total de prestadores do Enem é da ordem de 10 milhões de jovens, portanto, a priori, não se pode descartar o problema ocorrido no exame apenas com base em dados percentuais.


Insegurança geral
Outro dado importante a se levar em conta é que o dano sequer se limita ao universo de 4,5 mil alunos diretamente prejudicados - pois, como os problemas ocorreram no sábado, primeiro de dois dias de exame, a divulgação de sua ocorrência instaurou um processo de insegurança psicológica que certamente afetou um contingente bem maior de alunos - o que persiste agora, com a incerteza jurídica a respeito de sua validade.

Esses são problemas reais, efetivos e de grande dimensão. Fechar os olhos para isso, atribuindo a reação tão-somente à oposição intransigente e ao PIG malvado, como tantos vêm fazendo na internet, equivale a adotar a tática-avestruz, enterrando a cabeça na terra para não ver nada.

Mesmo porque,em qualquer lugar do mundo, a imprensa "cairia matando" - e com razão - contra um ministério que, pelo segundo ano consecutivo, prejudica milhares de estudantes no momento crucial de se qualificarem para entrar na universidade. Que, no Brasil, a mídia que se confunde com a oposição alcance os trinados de histeria golpísta em relação ao tema é algo a denunciar e refutar, mas não surpreende nem, de modo algum, torna o caso menos grave.


Enem contraria interesses
Por outro lado, é evidente que, como Stanley Burburinho e outros vêm seguidamente argumentando na tuitosfera, é do interesse de diversos setores da elite boicotar e se possível provocar o fim de um exame que reconhecidamente aumentou o grau de democratização do acesso ao ensino superor, convertendo-se em meio de ingresso à universidade para segmentos historicamente segregados. Não se pode, portanto, descartar a hipótese de sabotagem proposital contra o exame - assim, as investigações devem contemplar todas as hipóteses, ainda mais por se tratar de problema reincidente (embora não exatamente da mesma natureza do havido o ano passado).

Ocorre, porém, que justamente pelo montante de interesses contrários que o exame desperta - e por tal possibilidade de sabotagem estar há mais de um ano no horizonte -, o Ministério da Educação tinha por obrigação redobrar a vigilância e assegurar a excelência do Enem. Ao, na prática, não fazê-lo, parece inevitável que o ônus por tal falha recaia sobre o ministro Fernando Haddad.


Questiúncula eleitoral
Chegamos, assim, ao mencionar o nome do até então possivel candidato petista à Prefeitura de São Paulo em 2012, a uma razão agravante não só para a virulência da mídia partidária - em seu eterno jogo de derruba-candidato-lulista -, mas da reação dos setores esquerdistas na internet e fora dela, os quais reavivem o irrespirável clima das eleições presidenciais.

Ora, é preciso uma boa-fé de Pollyanna para acreditar que o caso não provocará efeitos danosos à candidatura do ministro. Quer queira, quer não, mídia, oposição e amplos setores da população do mais conservador estado da federação vão cobrá-lo incessantemente por conta de uma falha reincidente que afeta milhares de alunos - e não serão tags de apoio no Twitter que vão redimi-lo.


Enem sim, incompetência não
Ademais, com exceção do papel eleitoral da imprensa - que deve ser sempre denunciado e combatido -, não se trata de algo que surpreenda: o mesmo se daria, em qualquer país do mundo, com um ministro-candidato que, por dois anos seguidos, se mostrasse incapaz de gerir com competência um exame destinado a selecionar, entre 10 milhões de jovens, aqueles que ingressarão no ensino superior.

Mas a ilusão, esse veneno eleitoral, consome quem quer ser consumido. Como o compromisso desse blog é com o jornalismo e com políticas progressistas - e não com um partido ou com a campanha do candidato x ou y - preferimos manter a cabeça acima da terra: a luta para a manutenção do Enem é primordial e necessária, mas transcende e não deveria se confundir com questiúnculas partidárias nem abrir mão de critérios de excelência na aplicação do exame.