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domingo, 4 de março de 2012

Ato falho de Serra reflete mentalidade tucana


Em um samba composto em parceria com Maurício Tapajós, o grande letrista Aldir Blanc contrapõe o Brasil – território lúdico-mítico de “Sertões, Guimarães, bachianas” e de “Jobim, sabiá, bem-te-vi” - ao Brazil – projeção ditatorial de um país subalterno e ignorante, condenado a imitar os modismos, a estética e o consumismo norte-americanos. Gravada magnificamente por Elis Regina, “Querelas do Brasil” tornou-se, se não um sucesso, um objeto de culto nacional.


Que me perdoe Aldir (cujas crônicas boêmias e malandras eu cultuo como a objetos de arte feitos do mais genuíno humor), mas a lembrança da música foi a primeira coisa que me veio à cabeça ao ver José Serra chamando o país que sonhou um dia governar de Estados Unidos do Brasil.

Para além do aspecto cômico da fala e do que revela de desconhecimento histórico básico, trata-se de uma troca de palavras significativa, que explicita – como o clássico ato falho freudiano que é - a visão de mundo do político peessedebista e evoca a dinâmica da relação entre o nacional e o internacional em um passado não muito distante.


Nunca fomos tão vira-latas
Refiro-me, é claro, aos oito anos em que Fernando Henrique Cardoso esteve no poder, um período durante o qual o deslumbre com o que fosse estrangeiro atingiu um tal nível de transbordamento que só pode ser equiparado à vergonha de ser brasileiro exibida pelo tucanato e por seus eternos apoiadores na mídia – e por estes bombardeada noite e dia à população.

Não que a baixa auto-estima nacional fosse uma novidade trazida pelo tucanato. Nelson Rodrigues, antes da Copa de 1958, afirmava que o “complexo de vira-latas” - por ele definido como "a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo" - era o principal adversário do "escrete canarinho". Mais importante: toda uma reflexão sobre o país, dominante por quase duas décadas a partir de fins dos anos 50 - e que seria tematizada de forma recorrente pela produção cultural do período - identificava no atraso estrutural da nação e em sua condição de subdesenvolvimento a chave para compreender seus problemas e superá-los.


Razões de fundo
A novidade trazida por Collor e aprofundada pelos tucanos foi que o complexo de inferioridade do brasileiro deixou de se apresentar apenas como um sintoma (a ser, portanto, mitigado à medida que a defasagem estrutural fosse sendo superada) para se tornar objeto de culto, a ser estimulado e agravado - tarefa da qual se incumbiram com deleite jornais, revistas e programas televisivos (cujo exemplo acabado é o anacrônico Méanrratan Conéquichion). 

Em uma época em que globalização e neoliberalismo ainda eram largamente compreendidos como termos obrigatoriamente indissociáveis - como se pode aferir pela leitura de alguns dos principais textos teóricos da primeira metade dos anos 90 -, tal operação se deu, sobretudo, devido a um imperativo ditado pelo receituário do Consenso de Washington, adotado como princípio orientador das políticas de Estado: a necessidade de predispor ideologicamente o público a se convencer,  primeiro, de estarmos condenados a ser uma nação atrasada e subalterna ante a superioridade insuperável do "primeiro mundo". Em segundo lugar, de que a única solução para nossa redenção seria acatar os pressupostos da "nova ordem econômica mundial" ditada pelos EUA e, enxugando ao máximo o tamanho e as funções do Estado brasileiro, em torno de tal país orbitar, abrindo mão de nossa identidade como nação e aceitando passivamente a incapacidade de comandar nosso destino. O objetivo final a coroar tal empreitada seria a adesão à ALCA, o tratado de "livre-comércio" engendrado por Washington e que - como o exemplo mexicano o demonstra de forma cabal - fatalmente levaria o Brasil a um penoso retrocesso econômico e social.


Príncipes e jecas
É dentro dessa lógica que se insere o fato de que o príncipe – digo, o presidente – de turno, no seu chilique mais aloprado, tenha reagido à pressão popular contrária às medidas recessivas que tomara afirmando que “os aposentados são vagabundos e os brasileiros, caipiras”. O adjetivo “caipira”, nesse contexto, é não só utilizado no intuito claro de desqualificar, mas de atingir seus alvos com uma grave acusação de ignorância e desconhecimento do que seja o mundo. O caipira, para FHC, não diz respeito ao ser social, inserido em uma cultura telúrica e historicamente premido por um processo de "persistências" e "alterações", de que nos fala Antonio Candido - mas a um emblema estático da brasilidade como traço negativo. Daí resulta um paradoxo: para o outrora celebrado sociólogo, todos os brasileiros são caipiras, e o problema de ser caipira é justamente ser brasileiro.

Por outro lado (mas em lógica análoga), dizer que algo é “de Primeiro Mundo”, embora fosse uma expressão antiga, tornou-se, nos anos FHC, moeda corrente, a expressão valorativa por excelência. Enquanto a população sofria com os baques que a economia do país sofria à mínima crise internacional (fosse ela russa, mexicana ou dos "tigres asiáticos), o desprezo ao que fosse nacional e o ódio ao que fosse estatal eram incentivados pelo tucanato no poder e pela mídia corporativa (que apoiou o governo FHC com uma subserviência deslumbrada e acrítica indigna de ser chamada de jornalismo). Foi nessa toada - e exibindo o salário do mais abonado magistrado como se fosse a regra entre o funcionalismo - que se convenceu parte da população de que as privatizações modernizariam o país e acabariam com os "barnabés" (a gíria pejorativa com que 9,9 de cada dez colunistas - esses mesmos que aí estão - se referiam aos trabalhadores empregados pelo Estado)


Cenário em mutação
O pós-11 de setembro, com a diminuição do poder norte-americano, a ascensão dos BRICs e a chegada ao poder – na América Latina, sobretudo – de governantes de centro-esquerda, trouxe, aos poucos, uma mudança de cenário, a qual, somada às possibilidades interativas da web 2.0 e ao grande acréscimo na inclusão digital mundial, permitiu vislumbrar que o fenômeno globalizante e a ideologia neoliberal não eram, sempre e necessariamente, indissociáveis. Havia, percebeu-se, aspectos da globalização - como um maior volume de interação transnacional, a ação comunicacional e político-social a partir da internet ou a troca gratuita de arquivos de áudio e vídeo - que permitiam, na verdade, contra-atacar pontualmente e questionar o neoliberalismo. 

É no âmbito desse novo cenário que o governo Lula, a partir de sua política externa - caracterizada por prioridade às relações Sul-Sul e aos BRICs, parcerias e auxílio aos países mais pobres da América do Sul, África e Oriente Médio e ímpeto de representar países em desenvolvimento em fóruns internacionais, recusa à Alca e tentativa de diminuição do poder de influência dos EUA no país - e de sua atuação cultural interna - em que se destacam a valorização da cultura nacional, a pulverização das verbas para além do eixo Rio-SP, e a inclusão sócio-cultural via Pontos de Cultura -, paulatinamente insere uma nova dinâmica no imaginário acerca do locus do Brasil e do brasileiro no contexto de um mundo globalizado. 

Um aspecto muito importante a ressaltar em relação a esse processo é constatar que a redenção de um complexo de inferioridade secular, ainda que se dê, atualmente, de modo parcial e para parcelas da população, não foi substituída, via de regra, por um nacionalismo tacanho nem por um patriotismo fanático. 


Provincianismo em crise
Há de se considerar, como pontos polêmicos a discutir, a presença do exército brasileiro no Haiti e o temor crescente, entre alguns de nossos vizinhos sul-americanos, de que o Brasil esteja se tornando imperialista (acusação que não é nova: trabalhando como jornalista na Bolívia, em 2001, fui fisicamente agredido por skinheads que demonstravam ódio ao “imperialismo brasileiro”). 

Mas é preciso ser obtuso ou desonesto para negar que a melhora da economia real verificada na última década, com decréscimo substancial das taxas de desemprego e aumento do poder de compra, a ascensão de uma nova e volumosa classe média, bem como o acesso - ou o incremento do acesso - a bens de consumo durável, lazer, acesso digital e viagens aéreas acabaram por modificar para melhor a auto-imagem de parcela revelante da população - um fenômeno que tende a se tornar ainda mais evidente ante a contraposição da atual situação brasileira à grave crise econômica que ora aflige, infelizmente, a população dos EUA e de vários países europeus a amargar uma penosa débâcle social. 

Além disso, não obstante os muitos desafios postos ao Brasil em termos de redução da desigualdade, saúde, educação e demais itens da pauta dos direitos humanos avançados, tanto o grau quanto o perfil axiológico da visibilidade do país no exterior são hoje maiores e mais positivos do que nunca. "A crítica permanente ao Brasil está fundada em excesso de provincianismo", observou o sociólogo Alberto Carlos Almeida, em artigo no Valor Econômico. E com um número cada vez maior de brasileiros viajando ao exterior, cada vez mais gente descobre que a oposição simplista entre um país incompetente e fadado ao fracasso e um "primeiro-mundo" perfeito e irretocável não passa de uma falácia. -  o que, evidentemente, também reverte em acréscimo da auto-estima nacional.


A volta do atraso
Tudo isso faz com que o discurso negativista sobre o país, só enxergando suas mazelas, além de alimentar provincianos convictos, tenha se tornado uma das principais bandeiras dos setores conservadores, mais um componente a se juntar ao discurso moralista que se tornou praticamente a única estratégia discursiva de uma oposição que não tem projeto para o país e que há mais de uma década combate o governo de turno valendo-se tão-somente de ataques neoudenistas.
 
Ora, é a essa mesma oposição a que José Serra pertence. E não é preciso nenhum esforço para enxergar no ora pré-candidato a prefeito de São Paulo a mesma empáfia, a mesma arrogância, o mesmo desprezo pelo Brasil e pelo povo brasileiro que o presidente a que serviu como ministro da Saúde e do Planejamento ostentou por oito anos - os quais só foram dourados na boca e na pena dos colunistas a serviço do mercado, pois para a maioria da população foram de penúria, desemprego e carestia. 

Mais do que um lapso eventual, a menção aos "Estados Unidos ao Brasil", feita por Serra, é a expressão do desejo de regresso a um estado de coisas em que as elites brasileiras traficavam a riqueza do país em troca das migalhas que se lhes atirava o grande capital internacional, enquanto o povo chafurdava no subemprego e na miséria.


(Imagens retiradas, respectivamente, daqui, daqui e daqui)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Repensando a Universidade Brasileira - 4a. parte (Final)

Este quarto e último post da série sobre a universidade brasileira debate o modelo estruturante do ensino superior brasileiro, sua ideologia orientadora e seus possíveis efeitos a médio e longo prazo, produzindo reflexões relativas a autonomia e soberania nacionais, imperialismo cultural e linguístico, e globalização e universidade.

O modelo estrutural adotado para o gerenciamento da universidade no Brasil - baseado em quantificação sistemática e qualificação “ranqueada” da produção acadêmica - tem sido importado e disseminado de forma pouco crítica, aí incluídos os critérios valorativos que regem tal ranking e a indistinção com que vêm sendo aplicados - seja, digamos, em relação a um mestrado em Biofísica ou a um doutorado em Comunicação.


Imperialismo acadêmico e a questão idiomática
Na raiz da questão, no bojo de fatores econômicos, encontra-se a intrincada questão idiomática, que desempenha papel fundamental na presente hegemonia acadêmico-cultural norte-americana. Assim, o emprego do inglês como língua franca é tema essencial ao debate. Na academia, a exigência de absoluta correção gramatical e do emprego canônico da sintaxe, mesmo por parte de pesquisadores que não têm o inglês como idioma nativo, significa a manutenção de um sistema hierárquico que privilegia os pesquisadores para os quais o inglês é a língua-mãe, pois estes, naturalmente e com raras exceções, o dominam de uma forma dificilmente alcançável para a maioria dos não-nativos. Tal estado de coisas é particularmente deletério em campos ligados às Humanidades lato sensu, nos quais a qualidade do texto é quesito essencial.

Some-se a essa distorção – que produz graves assimetrias em âmbito internacional – os efeitos da supervalorização, pelos rankings acadêmicos vigentes no Brasil (mas não só aqui), da publicação de artigos em periódicos acadêmicos internacionais, que tendem, pela própria constituição média do corpo de avaliadores - em ampla maioria ligados a instituições euro-americanas - a privilegiar um restrito arco teórico em voga em tais centros universitários em detrimento de teorias originárias ou majoritariamente difundidas em outras partes do globo. Com tal conformação, que estimula temas e objetos de estudo internacionalmente reconhecíveis, a tendência, em longo prazo, é que o modelo acabe por impor uma agenda importada também no âmbito dos cânones teóricos, o que, por conseguinte, acabaria por afetar – como já o faz no Brasil em certas áreas - a oferta temática de disciplinas e a escolha de objetos de estudo para pesquisas.

Compreende-se que a necessidade de integração e de diálogo acadêmicos em âmbito internacional dê-se em inglês – uma realidade que deve ser atribuída não apenas ao fato de se tratar do idioma mais falado do mundo, mas como decorrência do poder que emana da posição proeminente ocupada pelas universidades anglo-americanas no cenário internacional. Tal entendimento, no entanto, não deveria significar aceitação acrítica de tal modelo, como parece ser o caso no Brasil. Por exemplo, é preocupante a proliferação de publicações acadêmicas que, no afã de alcançarem projeção internacional (e o que isso provoca em termos de reconhecimento interno em um país de mentalidade colonizada), são publicadas unicamente em inglês, quando o protocolo básico da soberania acadêmica pediria ao menos que a edição fosse bilíngue.

Como sugere Peter Ives no artigo “Global English: Linguistic Imperialism or Practical Lingua Franca?”, o relativamente baixo interesse acadêmico pelo debate acerca das relações entre linguagem, globalização e imperialismo pode ser parcialmente explicado pelo predomínio do liberalismo no interior da teoria política e pela incompatibilidade entre linguagem enquanto tema e os parâmetros que o pensamento liberal usualmente adota para lidar com diversidade. No entanto, particularmente no Brasil, colabora para a escassez de debates acerca de tais temas a até há pouco bem-sucedida operação discursiva neoliberal que promove uma oposição entre globalismo e nacionalismo caracterizada pela fixidez, em que o primeiro termo tende a ser associado a valores como liberdade e pluralismo, e o segundo a anacronismo e obscurantismo.

Em "As artimanhas da razão imperialista" (que você poide ler na íntegra aqui) Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant sintetizam magistralmente tal dinâmica, inserindo-a no presente contexto sócio-econômico global:

"A noção fortemente polissêmica de "mundialização" (...) tem como efeito, para não dizer função, submergir no ecumenismo cultural ou no fatalismo economista os efeitos do imperialismo e fazer aparecer uma relação de força transnacional como uma necessidade natural. No termo de uma reviravolta simbólica baseada na naturalização dos esquemas do pensamento neoliberal (...), a remodelagem das relações sociais e das práticas culturais das sociedades avançadas em conformidade com o padrão norte-americano (...) é aceita atualmente com resignação como o desfecho obrigatório das evoluções nacionais quando não é celebrada com um entusiasmo subserviente".

A academia brasileira é pródiga de exemplos capazes de ilustrar tal análise: o hábito de fazer perguntas em inglês para um conferencista internacional ante uma platéia brasileira, bem como a arraigada mania de palestrar em inglês nos congressos internacionais, dispensando, ao mesmo tempo, a tradução simultânea ao público e as regras básicas de respeito à soberania – como, aliás, costumava fazer um ex-presidente da República -, além de constituírem exemplo acabado do comportamento de um estrato social que um célebre jornalista brasileiro costumava classificar como “elite-jeca”, são exibições públicas de colonialismo cultural passivo.

Assim, o procedimento de naturalização da importação de práticas e sistemas valorativos forjados no âmbito da universidade norte-americana ao qual a academia brasileira voluntariamente se submete significa o endosso a um exitoso processo de imperialismo pós-colonial, pois, ainda segundo Bourdieu e Wacquant:

"O imperialismo cultural repousa no poder de universalizar os particularismos associados a uma tradição histórica singular, tornando-os irreconhecíveis como tais (...) Hoje em dia, numerosos tópicos oriundos diretamente de confrontos intelectuais associados à particularidade social da sociedade e das universidades americanas impuseram-se, sob formas aparentemente desistoricizadas, ao planeta inteiro".

O dado objetivo a se considerar é que esse desprezo pelas ligações entre produção de conhecimento, idioma e imperialismo pode vir a ser custoso para o futuro da academia no país.

Sistemas avaliativos e estruturas acadêmicas
"Qual é hoje a vocação maior do pensamento brasileiro? O caminho a evitar é o percorrido pelas ciências sociais e pelas humanidades nos países do Atlântico Norte. Nas ciências sociais, a começar por economia, prevalece lá a racionalização do estabelecido: explicar o que existe de maneira a confirmar a necessidade, a naturalidade ou a superioridade das instituições estabelecidas e das soluções triunfantes (...) Nas humanidades, a fuga da vida prática: divagações e aventuras no campo da subjetividade, desligadas do enfrentamento da sociedade como ela é. (...) No Brasil, estamos, em matéria de alta cultura, a reboque disso (...) Para compreender nossa experiência nacional, temos de executar obra de pensamento de valor universal".

No texto acima, uma das mais contundentes análises acerca dos descaminhos do pensamento acadêmico brasileiro e de suas relações com a “metrópole” publicada na mídia nacional, é paradoxal - porém altamente revelador - que a perspectiva adotada pelo colunista advenha de um profissional que ocupou, por décadas, uma cadeira de professor numa das mais bem-conceituadas universidades norte-americanas (e do mundo), Harvard University. Acadêmico e figura pública polêmica, Roberto Mangabeira Unger pode ser acusado de várias coisas, mas não de antiamericanismo.

O artigo critica um processo em plena execução. À promoção passiva do modelo acadêmico norte-americano na universidade brasileira tem correspondido, como seria de se esperar - ou, quiçá, temer -, uma maior presença, nas salas de aula, em publicações especializadas e nos congressos, de temas, disciplinas e referenciais teóricos originários naquele ambiente acadêmico. Notadamente, assiste-se a um crescimento do debate sobre temáticas largamente predominantes na grade curricular das universidades americanas – que têm sido, não sem frequência, enfocadas através do construcionismo social em voga nos EUA nas últimas três décadas.

Assim, embora a estrutura formada pelo MEC, pelas agências de fomento e pelas próprias universidades tenha diversos aspectos positivos - e o papel preponderante desempenhado sobretudo por CNPq e CAPES mereça ser destacado como estimulador da produção acadêmica e do incremento de seu nível qualitativo -, parece-me necessário refletir de forma mais detida e particularizada acerca das especifidades da cultura universitária brasileira, das necessidades que o país demanda de suas universidades e da necessidade da criação de condições, também no âmbito acadêmico, para uma inter-relação transnacional mais equilibrada, ao invés de reforçar metodologias que tendem a engessar assimetrias.

Afinal, a universidade brasileira tem de se manter à altura de um país que produziu algo tão estética e politicamente engenhoso quanto a antropofagia cultural - e não pode, em plena revisão do locus estratégico do Brasil em relação ao mundo, manter-se em passiva submissão acadêmico-metodológica e submeter seus profissionais a avaliações produzidas por critérios axiológicos estrangeiros.

Naturalmente, tais reflexões implicam numa revisão do modelo de meritocracia que tal sistema intenta implantar. Uma questão central diz respeito à avaliação dos professores universitários, baseada no trinômio "desempenho em sala de aula\condução de pesquisas\publicações acadêmicas". Ao contrário do que seus entusiastas apregoam, a adoção de tais critérios não gera necessariamente um sistema justo de avaliação - ao contrário, cria uma série de protocolos-padrão que beneficiam aqueles que se especializam em manipulá-lo a seu favor e as sumidades acadêmicas consagradas.

Esse ser idealizado - o tal super professor com desempenho superlativo em três diferentes práticas acadêmicas é uma quimera - e algo não necessariamente desejável. Há professores que são excepcionais na sala de aula, mas não têm aptidão para pesquisas; há pesquisadores inatos, que têm um desempenho pífio na sala de aula; e existem aqueles que, não necessariamente devido a méritos profissionais, publicam muito - mas cuja pesquisa não se traduz em evolução de seu campo acadêmico.

Ademais, é preciso, tanto quanto buscar modelos de avaliação acadêmica que levem em consideração tais características, atentar para as gritantes disparidades materiais e, em decorrência destas, nas condições de trabalho de professores e pesquisadores de uma universidade pública para outra. Solucionar tais disparidades é tão ou mais importante do que estabelecer métodos justos de avaliação de desempenho docente.

- X –

Vou aproveitar o espaço restante para abordar, de forma breve, temas que, ao longo dos debates que os quatro posts sobre a universidade brasileira suscitaram, revelaram-se importantes e que não seriam contemplados pelo projeto original da série.

No Twitter, o prezado @flavioas lembrou-me de um tema urgente que eu havia negligenciado: as eleições internas às universidades, seja em âmbito estudantil, profissional ou letivo.

Tenho uma visão muito objetiva do problema: os atores da universidade pública, em seus três níveis, têm de ser trazidos à realidade tecnológica do século XXI. É tarefa relativamente simples, mesmo para os orçamentos universitários mais apertados, dotar cada aluno, funcionário e professor de um email de domínio próprio (isso algumas universidades públicas já fazem), com configurações de segurança apropriadas para votarem uma única vez a cada eleição convocada.

Isso acabaria com a tática velha de guerra dos lumpempartidos da extrema-esquerda (sic) de “cansar” os professores quando da votação, por exemplo, da decretação ou não de uma greve, só permitindo que a votação se encaminhe quando o plenário se esvazia e se tem a certeza da vitória. Deixemos o século XIX para trás: convoca-se a eleição, reserva-se um tempo para as campanhas, com ampla liberdade, e um prazo xis para votação: cada um entra no sistema "logando" com seu nick e, se quiser, vota - no decorrer, digamos, de uma semana letiva. Ao final, o sistema processa os votos. Simples assim.

- X –

Outro tema originalmente negligenciado mas que merece atenção diz respeito à frequência, no mestrado e no doutorado, de alunos que, na condição ou não de ouvintes ou de “alunos especiais”, almejam ingressar em um dos dois níveis dos programas de pós-graduação strictu sensu.

Sou totalmente contra essa prática, cada vez mais arraigada, pelos motivos que exponho a seguir.

O ingresso em uma pós-graduação tem se tornado, para um contingente cada vez maior de candidatos, não apenas um meio de aquisição de cultura e formação, mas de ascensão social via diploma e, não raras vezes, de manutenção econômica (precária) via bolsa de estudo. Esses fatores têm feito com que, ordinariamente, chegue à casa das centenas o número de candidatos para diversos mestrados, superando a meia centena no caso de alguns doutorados.

O meio de ingresso em um mestrado ou doutorado é um processo seletivo público, regido por edital. São as regras determinadas por esse edital – e tão-somente elas – que devem reger o processo, que pressupõe a isonomia entre os candidatos.

Porém, após um semestre ou um ano de convívio informal de um futuro candidato com um programa de pós-graduação, tal isonomia está, para o bem ou para o mal, violada.

Quero deixar claro que não ‘fulanizo” essa discussão: conheço pós-graduandos brilhantes que adentraram em programas após terem-no frequentado informalmente. O que defendo, no entanto, é o respeito ao princípio da isonomia em processos seletivos públicos. Trata-se de um princípio basilar da democracia e, afinal, cabe à universidade dar o exemplo.


("O Rei do Mau-Gosto", de Rubens Gerchman (1966), retirado daqui)

domingo, 6 de setembro de 2009

Humor e racismo

Este post trata de um tema delicado e que mobiliza, com o perdão do oxímoro, ódios apaixonados. Ele examina, de forma pontual, a relação entre humor e racismo nos dias atuais, buscando a máxima independência analítica possivel e, portanto, evitando certos discursos em voga, que são muito bonitos no papel mas cuja efetividade em termos de práticas sociais ainda precisa ser comprovada.

Em outras palavras: a análise pretende se ater aos fatos e não a um wishful thinking politicamente correto cujas intenções últimas eu compartilho, embora, por razões que deixarei claro ao longo do texto, tenha sérias dúvidas quanto a algumas de suas premissas – e, mais ainda, em relação a seus resultados objetivos. Por se tratar de um tema delicado e inflamável, peço aos leitores e leitoras que tiverem a paciência de me acompanhar ao longo do texto que se certifiquem de que sou mesmo merecedor das pedras, antes de atirá-las.


A internet e o humor
O ponto de partida para a análise é o crescente mal-estar que piadas de cunho racistas têm despertado nos setores mais esclarecidos da sociedade, do qual a reação à pretensa piada de Danilo Gentili (que, há cerca de um mês, “tuitou” a seguinte mensagem: “Agora, no Telecine, o filme 'King Kong', um macaco que, depois de ir para a cidade, pega uma loira. Quem ele pensa que é? Jogador de futebol?”) do CQC, foi exemplar.

Utilizando-se das novas ferramentas de comunicação na internet, esses setores resolveram dar uma espécie de “basta” ao humor que se utiliza de forma derrisória de estereótipos racistas, sexistas e expressivos de preconceitos de forma geral.

A partir sobretudo dessa reação, uma espécie de lema passou a ser insistentemente repetido através da internet, como o demonstra, por exemplo, um tweet colhido ao léo, enviado no último sábado por @flabrito: “Não, piadas racistas, xenófobas, sobre terrorismo, assassinatos e maus-tratos de animais não são engraçadas”.


De lemas e de fatos
Trata-se de uma afirmação cujas premissas são genuina e verdadeiramente compartilhadas por muitas pessoas e, como tal, espelha um posicionamento ideológico de determinados setores da sociedade – posicionamento este que se alia, por um lado, ao desenvolvimento do que Norberto Bobbio vê como uma etapa avançada na batalha pelos direitos humanos e, por outro lado, a uma visão que identifica um processo de retroalimentação do racismo através do humor preconceituoso.

Suas genuinidade e implicações polítcas não fazem, contudo, que a afirmação seja um dado histórico incontestável. Na verdade, pelo contrário: uma análise fria e desapaixonada dos fatos tenderia a constatar que a existência – e a persistência ao longo do tempo - de tantas piadas racistas e xenófobas denota que, para muitos e há tempos, elas são – e, pior, continuam sendo - engraçadas. Afinal, se não houvesse quem delas risse, haveria poucas piadas a respeito de tais temas e elas tenderiam a diminuir ao longo do tempo. Infelizmente, não é isso que ocorre – e a mesma internet que dá voz a essas parcelas da sociedade que querem estancar as vertentes racistas e preconceituosas do humor tornou-se, por outro lado, o principal repósitório e incubadora das piadas que têm raça, gênero e preconceitos como tema (e, veja bem, não estamos falando de nichos minoritários, mas de sites de humor com altíssima audiência e que estão, há muito, no top 10 da internet brasileira).

Ignorar esse fato e seguir repetindo um mantra que pode ser belo, coberto das melhores intenções e totalmente “do bem”, mas que não corresponde à prática social efetiva - como o presente estatuto do politicamente correto tem feito -, é incorrer em um grave erro tácito de ação política: ignorar os fatos. E a história desconhece exemplos de ações políticas bem-sucedidas baseadas em diagnósticos falsos.

Repete-se, assim, no Brasil contemporâneo, um dos graves problemas com o construcionismo social made in USA, cujos preceitos estão por trás dessa forma de militância politicamente correta ora em voga (com 3 décadas de atraso, como de praxe nas relações entre metrópole e colônia): apostar tão-somente em marcos regulatórios socialmente impostos , de cima para abaixo, ignorando tanto pressupostos psicanalíticos específicos, strictu sensu – como o estudo desenvolvido por Freud em Jokes and Their Relation to the Unconscious e seus desdobramentos na psicologia coletiva moderna - quanto as implicações genéricas, metafóricas de mecanismos reativos à repressão, notadamente o conceito de “retorno do oprimido”.


Os EUA e a mídia
A cultura popular industrial afigura-se terreno fértil para a análise das consequências de tal miopia. Tomemos, pois, como exemplo, a produção contemporânea de filmes e séries norte-americanas. Com maior vigor a partir de fins dos anos 80, movimentos organizados de defesa dos gays e dos negros passaram a fazer ingerências junto aos grandes estúdios de Hollywood visando coibir representações depreciativas e obter maior e mais qualificada presença de seus representados nos filmes. O resultado foi, inicialmente e por um bom período, positivo, talvez menos em relação a questões de gênero do que raciais, mas neste âmbito proporcionou resultados palpáveis, com a ascenção profissional e econômica de gerações de astros negros e, pela primeira vez, sua presença frequente e distinção eventual nas principais premiações do cinema e da TV (sendo que Denzel Washington, Halle Berry, Cuba Gooding Jr. e Jamie Foxx estão entre os multipremiados).

Porém o que acontece hoje em dia? O politicamente correto tornou-se, ele mesmo, mais do que um tema de humor, o fio que perpassa toda uma linhagem de comédia, que tem em Sacha Baron Cohen um de seus ícones maiores, mas de forma alguma o único. Mesmo nas comédias mais pedestres – como em Se Beber Não Case (The Hangover, Todd Philips, EUA, 2009) , em cartaz no Brasil - estabeleceu-se um procedimento-padrão para driblar as restrições impostas pelo establishment do politicamente correto e reforçar preconceitos: elas são explicitamente enunciadas pela trama, artifício que funciona a um tempo como um sinal de que serão desrespeitadas e um salvo-conduto para transcendê-las sem constrangimentos.

É esse mesmo mecanismo que sustenta uma das vertentes do humor de House, a série com o médico tão brilhante quanto rabugento que é um fenômeno mundial de audiência. O politicamente correto é não apenas desprezado, mas sua própria superação cumpre um duplo papel: é em si um tema de piada e uma desculpa para tornar as piadas de cunho racista (ou preconceituosas) ainda mais livres de qualquer contingência imposta pela moral vigente (como se observa inúmeras vezes não só em relação a Foreman, o médico vivido por Omar Epps, mas particularmente - e com uma virulência poucas vezes vista na TV - contra o personagem de Cole “Big Love”, o mórmon candidato a médico na quarta das até agora seis temporadas da série).

Ou seja, o politicamente correto tem se tornado, paradoxalmente e cada vez mais, um elemento de intensificação do racismo na produção audiovisual. Trata-se, metaforicamente, do retorno do oprimido de que nos fala Freud, puro, escarrado e, como pelo fundador da psicanálise previsto, mais forte e insidioso.


Sem saídas fáceis
Como sair desse impasse? Deve-se deixar que o humor baseado em preconceitos e discriminação circule livremente? Decerto que não. A militância anti-racismo na internet pode funcionar efetivamente como uma estratégia de convencimento a médio prazo? Talvez. O contra-ataque na forma de piadas que têm como alvo estereótipos ligados aos poderes dominantes é válido como estratégia? Na minha opinião pessoal, sim. Poucas assuntos são mais potencialmente engraçados do que figuras do autoritarismo patriarcal e conservador (pense em José Serra).

Porém não tenho a pretensão de ter a resposta para tão complexa questão. Não posso deixar de registrar, no entanto, que , como já colocado anteriormente, ignorar fatos quando se trata de se desenhar uma estratégia para um objetivo político é burrice – e eventualmente uma burrice contra-producente, como o presente status da representação social na produção audiovisual norte-americana o demonstra.

É o que ocorre no Brasil atual, em relação a essa relação entre humor e preconceitos: fica-se um grupo de pessoas bem-intencionadas de um lado, afirmando que piadas racistas e/ou homofóbicas não têm graça; e, do outro lado, outro grupo, ao que tudo indica numericamente maior, consumindo diariamente piadas do tipo produzidas pelos principais sites de humor. Mesmo correndo o risco de sofrer o destino do mensageiro do rei que é imolado por trazer más notícias, tal estado de coisas me leva a constatar que a atual estratégia de combate ao humor politicamente incorreto não está funcionando.


Que há formas mais inteligentes de se criticar o racismo - e com humor - o clip abaixo reproduzido não deixa dúvidas.



segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Drogas, imperialismo e falso esquerdismo


Intervenção
é um programa de TV que acompanha o cotidiano de uma pessoa com algum vício em estágio destrutivo (seja em álcool, jogos, compras, atos bulímicos ou numa ampla variedade de drogas, legais ou não): historiciza seu vício, documenta suas crises agudas de abstinência, seus surtos e picos de “doideira”, bem como o sofrimento da família e de pessoas próximas. Ao final - após uma sessão catártica e lacrimosa em que familiares e amigos íntimos leem cartas declarando seu afeto e implorando para que o usuário aceite ajuda para se tratar – a produção oferece a possibilidade de o retratado passar por um programa de reabilitação gratuito, do qual poderá sair a qualquer hora ou ficar até ser considerado apto a se readaptar à sociedade sem recorrer aos antigos vícios.

Trata-se de um reality show – o único no gênero que realmente me agrada – exibido pelo canal a cabo A&E e rico em temas para análises em áreas tão diversas quanto Audiovisual, Comunicação, Medicina, Psicologia, Saúde, Segurança Pública, Serviço Social, entre outras. A abordagem da questão das drogas pelo programa dá-se estritamente pela via clínica – que é uma espécie de “outro lado da moeda” da abordagem policial, disseminada nos EUA e de lá exportada para boa parte do mundo, inclusive o Brasil, num processo típico de imperialismo cultural –prática que, segundo Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant, “repousa no poder de universalizar os particularismos associados a uma tradição histórica singular, tornando-os irreconhecíveis como tais”.

Mas o aspecto que eu gostaria de sublinhar, no âmbito deste post, advém de um momento recorrente em todos os programas da série: o da justificação do vício. Logo no início de cada episódio, após um breve resumo do que nos será mostrado a seguir, o personagem retratado se apresenta ao espectador, falando diretamente à câmera; é relatado o grau de seu vício e são entrevistadas pessoas próximas. Daí, invariavelmente, ocorre um flashback: o infeliz usuário de hoje - às vezes em estado de profunda decadência física e psicológica - é apresentado, em filmes caseiros ou em fotos, como uma criança – tímida ou hiperativa, doce ou arteira, mas, de qualquer modo, um pequeno ser feliz e inocente, em relação ao qual seus ora arrasados pais nutriam tantas esperanças. Trata-se, do ponto de vista da tipologia narrativa, de um momento que corrobora, no âmbito do reality show, a boutade da pesquisadora Linda Williams, segundo a qual todo filme norteamericano é melodramático.

De repente, sob uma indefectível e tensa trilha sonora, essa reminiscência lúdica é interrompida e dá-se o relato de um episódio traumático que teria sido o responsável pelo vício desenvolvido pelo adulto. Em raríssimas vezes trata-se de algo passível de ser realmente interpretado como um grande trauma pelas tradições sócio-culturais latinas ou européias – cujas visões realistas do constante vigor requerido para o embate pela vida advêm de séculos de guerras e fome. Mas, para os padrões da classe média suburbana americana – a retratada preferencial de Intervenção -, criada numa espécie de “zona artificialmente pacificada”, como diagnostica Camille Paglia , o que predomina no mais das vezes como o acontecimento traumático que o retratado teria sofrido é descrito nos termos nebulosos e imprecisos de “abuso na infância”. Aliás, é simplesmente inacreditável o número de crianças americanas que teriam sofrido abuso desde que essa categoria indefinida que precede mas não inclui o estupro – que é, evidentemente, considerado mais grave - passou a frequentar a fértil imaginação - e os códigos de regulação de conduta - estadounidense, país que também concentra o maior número de pessoas que se declaram abduzidas por ETs no mundo.

Mas o que interessa reter, por ora, nesse processo, é a necessidade da justificativa para o vício. É inconcebível, segundo o programa, que uma pessoa sem algum trauma profundo faça uso de drogas para fins recreativos – e que daí tenha evoluído para um quadro crônico de vício – ou que uma adolescente plenamente saudável tenha, numa sociedade tão consumista, se excedido nas compras com o cartão de crédito até que isso se tornou um sério problema, ou desenvolvido um distúrbio de alimentação a partir da cobrança social por uma forma física perfeita, sem que ela tenha sido abusada ou estuprada na adolescência (clique aqui para ver episódios e trechos de Intervenção disponíveis no youtube).

Trata-se de um exemplo didático do construcionismo social em voga nos EUA no último quarto de século. Há muito da “ideologia da vítima” – que vulgarizou os estudos sociais no país, notadamente os women studies – perpassando essa abordagem, mas, acima de tudo, há, sob o império do “científico” e do “clínico”, a crença na instalação de uma ordem racional – que reprime a animalidade, o instintivo e o desviante – através da normatização de todas as formas de relação inter-social, das que incluem intimidade - como o afetivo e o sexual - às que se dão em plena arena pública – como o verbal e o comportamental.

Chegamos, assim, à razão de ser deste post: é precisamente essa tendência à normatização geral da sociedade, com toda sua carga opressiva, que vem sendo assimilada, de forma cada vez mais intensa e menos crítica, pela sociedade brasileira. Não me refiro apenas às ações dos políticos conservadores brasileiros, iconizadas nas leis anti-fumo promulgadas por José Serra – de aparência protofascista, mas originadas exatamente desse cadinho de "cultura" -, mas, entre vários outros exemplos possíveis referentes ao espectro político que se lhes opõem, à aderência cada vez maior, em setores que se dizem de esquerda, à defesa de mecanismos de controle e repressão da expressão verbal, inclusive em sua forma mais espontânea e popular: o humor.

Trata-se do conservadorismo mais repressor travestido de progressista, de uma proteção que vitimiza e enfraquece àqueles que alega querer defender e de uma bomba-relógio armada contra a identidade e a peculiaridade da convivência democrática no Brasil, saudada por intelectuais e homens públicos do quilate de Stefan Zweig e de Darci Ribeiro como única no mundo. É, ainda, um caso exemplar de como “numerosos tópicos oriundos diretamente de confrontos intelectuais associados à particularidade social da sociedade e das universidades americanas impuseram-se, sob formas aparentemente desistoricizadas, ao planeta inteiro”, como identificam Boourdieu e Wacquant no imperdível texto “Sobre as artimanhas da razão imperialista” – que você pode ler, na íntegra, aqui. E, por fim, afigura-se como um atestado de óbito da esquerda, que alguns ingênuos e incautos, aparentemente bem-intencionados, teimam em assinar.



(Imagem de Caylee, que se tratou por vício em speedball (heroína + cocaína injetadas na veia), retirada daqui)