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domingo, 28 de março de 2010

Dimenstein: retrato de uma triste decadência

Gilberto Dimenstein ocupa hoje a escala mais baixa do jornalismo nacional – foi acometido dessa certeza que cheguei ao final do artigo “Professores dão aula de baderna”, por ele assinado. Não é vã a paráfrase das palavras que celebrizaram Boris Casoy, outro jornalista outrora respeitado e que hoje é um lame duck da imprensa, visto, justa ou injustamente, como um mero ventríloquo da direita mais retrógrada.


Blogosfera política e ética
Quem acompanha o blog sabe que evito ao máximo ataques pessoais e não gosto de generalizações nem de maniqueísmos; tento não ver tudo branco ou preto. Embora o tempo tenha me ensinado que os artigos mais equilibrados, que criticam os podres de A sem deixar de citar as vaciladas de B, são os que despertam menos reação (e comentários), tenho preferido, quando o sentimento de revolta o permite, produzir análises o mais ponderadas possível.

Assim, embora considere central no tipo de atividade blogueira por mim e por outros exercida a crítica de mídia e a produção de discursos contra-hegemônicos, nunca utilizo a denominação PIG (Partido da Imprensa Golpista) para me referir à mídia corporativa nem me furto a apontar o que considero pontos falhos do governo Lula, embora reconheça suas qualidades (e a prevalência destas sobre aqueles, no cômputo geral).

Perdão se soo cabotino: a intenção é sublinhar que um número enorme e crescente de blogueiros compartilha de critérios éticos, se não iguais, equivalentes, que propiciem um exame o mais justo possível de seus objetos de análise e incentivem diálogos críticos civilizados com seus leitores.

A despeito das acusações que reiteradamente sofremos da mídia corporativa, segundo a qual seríamos “blogueiros amestrados”, escrevendo numa blogosfera que equivaleria a “terra de ninguém”, estando “a soldo do governo” e daí pra baixo, o fato, diariamente constatado, é que o rumo que setores majoritários da imprensa vêm tomando, notadamente após o convescote do Insituto Millenium, demonstra cada vez de forma mais explícita (embora, é claro, não assumida) que quem não está nem aí para buscar o equilíbrio e a defesa do interesse público demandados pelo bom jornalismo – o qual alardeiam praticar - são os principais jornais e revistas do país. Pior: têm ultimamente agido de forma mancomunada, como um partido, com evidentes objetivos eleitorais.


Era uma vez um jornalismo inovador...
Mas confesso que por um tempo alimentei a ilusão de que pelo menos um número reduzido de personalidades jornalísticas de destaque resistiria – se não por razões propriamente éticas, ao menos como forma de manter a credibilidade, bem maior do profissional de imprensa - à guinada à direita e ao jornalismo descriterioso empreendida pela Folha nos últimos anos. Ledo engano. Após o outrora promissor Fernando de Barros e Silva, com seu inegável talento para a escrita e para a crítica, ter se tornado mero burilador do discurso de defesa dos interesses corporativos do grupo Folha, e na mesma semana que o outrora intocável Janio de Freitas publica um artigo de um maniqueísmo pobre, Dimenstein abre mão dos poucos pudores que alimentava e parte para um ataque injusto e sem a mínima sustentação na realidade contra os professores estaduais em greve.

Não que surpreenda. Mas não deixa de ser paradoxal constatar que, enquanto a blogosfera procura elevar o padrão do debate, Dimenstein sucumba à bajulação servil aos interesses dos Frias de forma tão manipuladora e anti-ética. Afinal, a partir dos anos 80 e por mais de uma década, ele foi um dos representantes de um jornalismo inovador, que tirou o cheiro de naftalina da impensa nacional, onde tornou-se um dos principais representantes da “sensibilidade social” – seja através de suas colunas, em que privilegiava temáticas educacionais e ações inovadoras do chamado terceiro setor, seja por meio de livros que focaram em temas como a prostituição infantil e a infância marginalizada.

Havia desde sempre na produção de Dimenstein, é verdade, um certo ranço uspiano e, a despeito das posições aparentemente progressistas, uma pretensão proto-iluminista manca, pois com mais ênfase na forma do que na ética. Aos poucos o canastrismo elitista foi ficando evidente. Em um longo artigo acadêmico de 8 anos atrás eu já o chamava de “o principal representante do bom-mocismo voluntarista e ingênuo, apaziguando a má consciência da classe média nas páginas dominicais da Folha de São Paulo”. Era cada vez mais óbvio que os “critérios” que adotava para elogiar os projetos educacionais do terceiro setor, evidenciavam - além de interesses pessoais nem sempre legítimos – a aderência ao ideário neoliberal, com o decorrente menosprezo pela educação pública (no sentido de estatal).


Omissões e distorções a granel
Mas um certo cuidado formal e a preservação da lógica interpretativa o mantinham, até uns anos atrás, em um nível acima da média encontradiça na “grande imprensa” brasileira. Porém, no governo Lula embarcou no partidarismo deslavado da Folha, atingindo o ponto mais baixo de sua carreira no artigo opinativo de ontem, em que acusa professores covardemente espancados. Trata-se de uma peça jornalística tão medíocre que sequer condiz com uma seção chamada – reparem a pretensão proto-iluminista da Folha – “Pensata”. Nela, Dimenstein finge confundir direito à mobilização social com “baderna”. Como não fornece contextualização alguma, fica a sugestão de que os professores foram à passeata armados de paus e pedras e iniciaram o ataque contra as pacíficas forças da ordem.

Daí, tal qual um bedeu interiorano do século passado, pergunta o que os alunos vão achar de seus “professores desrespeitando a lei” (qual lei, se as constitucionais de fazer greve ou de ir e vir, ele não diz); acusa-os de “sem limites, indisciplinados”, logo eles, mestres que “devem zelar pela disciplina”. Por mil palmatórias, choquei!

Mas o chilique moralista é só cortina de fumaça. Serve para preparar o terreno, injetando indignação moral para em seguida disparar a acusação que pretensamente desqualificaria o movimento dos professores: as ligações de uma das dirigentes da Apeoesp com o PT e seu (óbvio) apoio à candidatura Dilma comprovariam tratar-se tão-somente de uma manobra política, visando atingir o coitado do José Serra. “Trata-se apenas de uma minoria organizada e motivada”, morde e assopra ao mesmo tempo o colunista.

As dezenas de milhares de participantes na manifestação? o relato fidedigno de pessoas que estavam lá? a pauta de reivindicações? a questão salarial, para uma categoria sem aumento real há 14 anos? os alunos que não têm nem carteira para sentar? o sucateamento do ensino paulista? a arrogância de um governo que se recusa a dialogar com a categoria profissional responsável pela essencial área da educação? As seriíssimas evidências de infiltração de policiais à paisana em manifestação cívica, em plena democracia? Qualquer fato jornalístico além da redundante constatação de que uma das sindicalistas pertence ao PT e apoia Dilma (o que ele esperava, um sindicato todo tucano em que todos apoiassem Serra? É essa a concepção de democracia do Dimenstein?)? Nadica de nada: o artigo do bom-moço passa ao largo de todos esses temas.


Artigo é confissão de culpa
Mas, apesar de tais omissões, o trecho proporciona o aspecto mais interessante do artigo, pois evidencia, para o leitor com um mínimo de discernimento psicoanalítico, que as acusações que Dimenstein faz aos professores não passam de uma confissão de culpa imposta por seu inconsciente. Pois não são os professores, mas ele, Dimenstein, como jornalista, quem está dando um péssimo exemplo profissional, deixando de cumprir, com padrões éticos mínimos, a tarefa que lhe cabe: analisar os fatos com equilíbrio, ponderação e atenção a todos os lados envolvidos. Também ao contrário do que afirma, não são os professores – que abraçam diferentes credos políticos – que agem por interesses partidários, mas o colunista, defendendo, com informações negligenciadas e distorcidas, o PSDB de seu patrão e do patrão de seu patrão.

Por fim, diferentemente do que escreve, não é a classe profissional em greve que, tal um bando de cordeirinhos, é manipulada por seus dirigentes: os professores que entraram em greve e decidiriam aderir à passeata o fizeram de forma autônoma, obedecendo a uma decisão de fórum íntimo e individual. Já Dimenstein não viola apenas a ética jornalística ao redigir, a soldo e a mando do patrão, um tal panfleto partidário travestido de artigo opinativo, mas os frangalhos que restam de sua própria imagem pública.

O outrora jornalista-cidadão, paladino da democracia internacionalmente premiado, não passa hoje de um pitt bull da Barão de Limeira, bem alimentado no canil da plutocracia mediática, e cuja função é latir alto e morder forte, na esperança de que a reação violenta dê pretexto para invocar um golpe de estado. Pois a vitória das forças que seu patrão apoia – as mesmas que ordenaram o covarde ataque policial aos manifestantes – está, a despeito de pesquisas “da casa” - de última hora, pra lá de suspeitas -, cada vez mais distante no horizonte. E a ordem na “grande imprensa” brasileira atual é essa: atiçar ânimos para provocar reações violentas. Um filme que já vimos em 1964, com longuíssimas e desastrosas consequências para o país.


Conclusão
Porém, mais importante do que todas essas considerações sobre mais um jornalista que sucumbiu ao poder do capital, é a serena constatação de que, ao contrário do que a diatribe partidária disfarçada de lição moralista de Dimenstein afirma, os professores, ao se munirem de paus e pedras para revidar a agressão gratuita das forças públicas (que a eles e à democracia deveriam proteger), dão sim uma grande lição a seus alunos: a de que as lutas sociais, no Brasil, ainda demandam sangue, sofrimento e capacidade de resistência em estados governados por certas forças políticas, acostumadas a reprimir manifestações pacíficas com práticas ditatoriais. Uma senhora lição de cidadania.

domingo, 14 de março de 2010

A manipulação da ética no "caso Folha x Nassif"

Que após o convescote no Café Millenium o comportamento da mídia se tornou ainda mais agressivo, irresponsável e distante, muito distante, do que se espera de um setor encarregado da nobre missão de informar a sociedade, parecem não restar dúvidas.

Os inacreditáveis factóides em sequência de O Globo - culminando com “notícia” de que Lula se licenciaria e Sarney assumiria por dois meses - e a chamativa capa de Veja afirmando que a casa do partido X caiu, para já na mesma semana ser desmentida por decisão judicial que não apenas recusou as denúncias, mas repreendeu o promotor pelo parco embasamento da denúncia, além de confirmamem a nova fase suscitam urgente discussão sobre quais os limites da imprensa.

A insistência de Veja na denúncia recusada pela Justiça, na edição agora nas bancas, leva-nos a uma questão ainda mais inquietante: estaria a mídia brasileira acima da Justiça? Pois em qualquer sociedade de fato democrática, após os acontecimentos da semana passada envolvendo as denúncias do promotor Blat, a revista estaria judicialmente obrigada a ostentar na capa um desmentido cabal das acusações peremptórias, feita em linguagem da marginália, na semana anterior. Alheia aos fatos e à honra alheia, segue impunemente com a “denúncia”.

Nesse cenário, o ataque da Folha de S. Paulo a Nassif, no melhor estilo vendetta mafiosa mas travestido de matéria jornalística, embora ofensivo à honra do jornalista e blogueiro, não surpreende. Apenas corrobora a degringolada ética da mídia brasileira.

Muito foi comentado, na blogosfera, sobre o caso. Não creio que eu tenha algo de substancialmente inovador a acrescentar. Miguel do Rosário escreveu um post curto mas definitivo; o Blog do Len, de forma corajosa e contundente, encaminhou diretamente à Folha uma série de perguntas sobre o “jornalismo” que tem praticado, perguntas que embora não digam respeito apenas ao “caso Nassif”, debatem temas éticos a este correlatos; e o próprio Nassif defendeu-se com prontidão, argumentação convincente e a objetividade costumeira.

No entanto, como veremos a seguir, o enfrentamento de Nassif pela Folha tem razões de fundo ainda não discutidas em profundidade, conectadas a um embate ideológico mais insidioso, ora muito tensionado pelas proximidades das eleições presidenciais.


Maniqueísmos éticos
Um dos êxitos mais duradouros do Brasil pós-ditadura militar foi ter levado cidadãos e cidadãs de todos os estratos sociais e faixas etárias a assimilar um alto grau de precaução ética em relação ao que diga respeito à esfera estatal e aos bens públicos. Essa postura, que deveria ser saudada como um avanço positivo rumo a um maior exercício da cidadania democrática, não propiciou, no entanto – em grande parte devido ao fato de ter-se dado durante o período de hegemonia neoliberal - , uma atenção equivalente à ética das relações corporativas privadas (e do quanto afetam o bem público, não apenas no âmbito material) nem anticorpos que propiciassem uma atenção redobrada quanto ao tanto que a mídia poderia explorar a atenção da sociedade à ética da esfera pública como forma de fazer valer seus interesses privados.

Assim, o que poderia ser uma oportunidade para uma revolução ética nas práticas político-insitucionais brasileiras tornou-se, pouco a pouco, terreno fértil para o neomoralismo de tons udenistas, feito de indignações seletivas, anti-sociais e classistas.

As acusações da Folha contra Nassif servem-se precisamente desse cadinho de ideologia, ainda enfronhado tanto no inconsciente coletivo quanto nos parâmetros valorativos de setores da população – notadamente, da classe média: desconfiado de tudo o que diga respeito à esfera pública, mas extremamente permissivo em relação ao âmbito corporativo privado.

Tais setores, cuja maioria luta arduamente para receber minguados caraminguás ao final do mês, tendem, assim, à humana, demasiadamente, humana indignação moral – que segundo a boutade de George Wells Herbert “é a inveja com uma auréola” – ao serem informados que um jornalista supostamente recebe R$ 55 mil por mês pagos com dinheiro público. Que daí ele seja acusado de fazer um jornalismo chapa-branca não é questão de constatação factível, mas de hipótese "lógica" decorrente.

Talvez todo esse moralismo pré-dirigido impeça alguns leitores de se aperceberem do quão contraditório é um órgão jornalístico que por décadas foi beneficiário de contratos milionários de publicidade governamental - graças a seu então notório saber em imprimir tinta no papel e vender jornal - lançar suspeitas sobre um jornalista respeitadíssimo no mercado, com anos de atuação destacada na própria Folha e reiteradamente premiado pelos próprios colegas – portanto, um profissional com notório saber - por este ter sido contratado para produzir, por um valor que o jornal finge julgar alto, programas para a TV Brasil, que é pública (mas, como tem reiteradamente demonstrado, serve ao Estado, e não ao governo, como se espera de um órgão estatal).

O jornal tinha a obrigação de saber que o montante do contrato entre a TV Brasil e a agência Dinheiro Vivo, da qual Nassif é proprietario, está rigorosamente dentro dos valores cobrados pelo mercado. Para isto, bastaria ter consultado algumas das principais produtoras do país. Mas sejamos indulgentes: consideremos que foi um descuido. Já quando a “matéria” deliberadamente confunde os custos do programa televisivo com salário de Nassif, aí não há como ignorar a manipulação, pois o caso passa a deixar a esfera jornalística e abrir interessantes perspectivas no âmbito judicial.


Acusações hipócritas
Resta, por fim, a acusação de chapa-branca, talvez a mais grave das contidas na matéria, pois potencialmente danosa à carreira de um jornalista. Mas que, n o caso, não deixa de ter um certo sabor humorístico, por advir de um órgão que, sendo vergonhosamente tendencioso em relação ao governador e pré-candidato à Presidência José Serra, com quem tem relações de longa data, não tem moral para acusar ninguém.

Nassif deixou a Folha, onde por mais de uma década ocupou espaço de destaque, após inúmeros entreveros – inclusive judiciais, quando Sarney era presidente - com os governos de turno. Isso é ser chapa-branca?

Deixou de renovar contrato com a TV Cultura – esta, sim, uma emissora pública aparelhada politicamente, que fala a linguagem do governo, não do Estado, como o demonstram seus telejornais - por ter feito críticas ao governador. Isso é ser chapa-branca?

Quem lê com assiduidade o blog do Nassif sabe que ele, com frequência, critica aspectos essenciais do governo Lula, notadamente em relação à não-adoção de um planejamento estratégico de longo prazo para o país, à política industrial, à política de cotas e, sobretudo, à valorização artificial do dólar e à política de juros, temas que vem tratando há anos, com diagnósticos desfavoráveis à atual administração federal. Além disso, republicou, no último mês, 2 artigos com o mesmo título de “A herança maldita de Lula” (um por Julia Dualibi, outro, no link, por Yoshiaki Nakano) e tem alertado para o perigo de que a recusa de de Lula em adotar uma política efetiva para o câmbio acabe por gerar graves problemas no médio prazo, à semehança do que ocorreu com FHC, com potencial danos à imagem que a história legará ao atual presidente. Isso é ser chapa-branca?

É fato que Nassif não se furta a elogiar os pontos positivos da administração Lula, nem a criticar o governo Serra, nem a analisar negativamente o comportamento da mídia. Estas três práticas jornalísticas – reconhecer acertos do governo de turno, ao invés de só criticá-lo; não poupar, por interesses próprios, críticas à administração de um possível candidato a presidente; e denunciar as práticas sujas e contrárias ao jornalismo democrático levadas a cabo pela mídia corporativa -, de tão rarefeitas no momento atual de nossa imprensa, talvez soem como heréticas. E heréticos não podem ser acusados de serem chapa-branca.

I rest my case.

domingo, 7 de março de 2010

Aniversário e convescote

Hoje faz um ano que este blog está no ar. Ele surgiu, como uma imposição íntima, em decorrência direta do protesto organizado por Eduardo Guimarães contra a Folha de S. Paulo e sua “ditabranda”, em um momento em que as recorrentes violações éticas da mídia ultrapassaram todos os limites.

Ele comemora seu primeiro ano de vida quando essa mesma mídia corporativa à qual a Folha pertence acaba de se juntar em um evento tão cômico quanto ameaçador. A máfia ítalo-americana costumava reunir-se em Cuba, em meio a daiquiris e praias tropicais, para tramar suas jogadas mais sujas e ousadas. A mídia brasileira, ainda mais jeca e alérgica a tudo o que seja tropical, prefere convescostes a R$500 a cabeça (não se assuste: só otários pagam, a maioria entra na faixa) em hotéis metidos a besta. Lá articula – em público, pela primeira desde 1964, como aponta o jornalista Gilberto Maringoni em artigo intitulado “O rosnar golpista do Instituto Millenium” – uma reação conjunta contra uma das candidaturas presidenciais – no caso, a de Dilma Rousseff (PT).

Isso não quer dizer, no entanto, que eles assumirão em seus veículos “jornalísticos”, de forma clara e transparente, a posição que fazem questão de ostentar através do convescote: a Folha continuará a se autodefinir como “Um jornal a serviço do Brasil”, a Veja como a principal e mais vendida publicação brasileira graças ao alegado alto nível profissional de seus colaboradores, e o/a Globo, assim como alega jamais ter deixado de cobrir as Diretas Já ou manipulado o debate entre Collor e Lula em 1989, continuará exaltando a imparcialidade inerente ao tal Padrão Globo de Qualidade. Não seria muito mais honesto se fizessem como alguns bons jornais norte-americanos e assumissem suas preferências eleitorais junto ao eleitor/telespectador? Esta é, aliás, uma das sugestões saídas do evento, mas quantos acreditam que será mesmo seguida?

No evento, ao menos dois dos palestrantes do evento – os inacreditáveis Demétrio Magnolli e Denis Rosenfied – fizeram acusações diretas ao PT relativas a seu suposto totalitarismo. Para o primeiro, que parece ignorar a revolução silenciosa que ora ocorre na internet, na difusão das pequenas e médias publicações no interior do país e nos Pontos de Cultura espalhados de forma capilar pelo território nacional, o partido “dá marcha a ré em todos os assuntos que se referem à democracia”. Já para o filósofo gaúcho, “"O PT é um partido contra a liberdade de expressão. Não há dúvidas em relação a isso” – o eminente masturbador mental não se preocupa em oferecer exemplos que permitam que sua afirmação peremptória soe como algo além de mero devaneio pessoal emitido por um ator político folclorizado pelo conservadorismo anacrônico de suas posições.

Não deixa de ser irônico que, como seus dois acólitos o demonstram, um dos sucessos da mídia brasileira em seu penoso estágio atual tenha sido, em conluio com o demotucanato, atribuir ao lulopetismo pendores autoritários – aos quais costumam se referir com a acusação genérica e conceitualmente imprecisa de “stalinismo”. Mas a verdade largamente comprovada por fatos históricos é que o PT nunca foi stalinista – muito pelo contrário, surgiu sindicalista e em oposição às linhagens soviéticas em confonto no interior do PCB, evoluindo, a partir dos anos 90, para uma espécie de social-democracia de resultados.

Também desconhece-se qualquer medida efetiva de cerceamento da liberdade de expressão durante a Presidência de Luís Inácio Lula da Silva. O único momento da história mais ou menos recente do pais em que houve, de fato, de forma inegável, censura institucional e sistemática – a ponto de destruir carreiras artísticas – foi durante a ditadura militar, notadamente no pós-AI-5. E quem apoiava tal regime? A maioria dos grupos de mídia presentes ao convescote – alguns inclusive com a cessão de carros para transporte de presos para a tortura - e os mesmos políticos do DEM (então Arena, depois PDS) que hoje berram ante qualquer proposta de regulação da atividade midiática. Será que não é evidente a contradição aqui, a sustentar o truque de acusar em outrem aquilo que o próprio acusador pratica?

Um dos recorrentes prolemas com o lulopetismo, em parte devido à concentração da mídia corporativa em mãos inimigas, em parte à crônica incompetência comunicacional própria, é a baixa capacidade de reação ante acusações e campanhas difamatórias. Cola-se com extrema facilidade no PT, em Lula e em membros do governo acusações que são claramente falsas. O exemplo acima é eloquente, com uma gritaria anti-autoritarismo petista ocultando, como tão bem diagnostica Luiz Egypto, a luta por manter a mídia acima da lei, livre para praticar um "jornalismo" que não atende nem à demanda pública nem à busca pela fidelidade aos fatos, mas tão-somente à satisfação de seus próprios interesses corporativos.

Assim foi também com o factóide desta semana - provavelmente o primeiro de uma escalada - , segundo o qual Lula licenciar-se-ia por 2 meses, sendo substituído durante tal período por Sarney. Desde o primeiro momento esteve clafro, para mim, tratar-se de um absurdo total, ao qual Lula, por consciência dos danos que tal ato poderia trazer a si e à sua candidata, jamais recorreria. Mas a “notícia” espalhou-se como rastilho: da coluna de O Globo para os blogs corporativos da empresa – que, numa clara orquestração, incluiu até os que cobrem segurança pública e cultura – e daí para os tuiteiros tucanos, os simpatizantes e os indecisos, todos a difundir freneticamente o que não passava de uma especulação sem valor jornalístico algum. E na sequência, como a corroborar a ideia de uma articulação conjunta, vem à tona a manchete de anos atrás requentada por Veja – que, de novo, tem feito muita gente boa cair como patinho.

Portanto, o segundo ano do blog começa com a perspectiva de uma disputa de baixíssimo nível à frente. Mas nossa intenção é de continuar, defendendo os valores que julgamos importantes - notadamente a ética no jornalismo e a prioridade ao social na política. E, quem sabe, como era a ideia inicial, inserir mais cinema, mais música e mais literatura nos posts, para a brincadeira ficar mais gostosa. Aos seguidores e seguidoras, agradeço pelo estímulo e reitero o convite ao diálogo.


(Imagem retirada daqui)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

"Quem tem medo do Estado forte?" - Mídia anacrônica e seu auto-engano

A mais recente – mas de modo algum nova – estratégia adotada pela mídia corporativa como forma de denegrir a candidatura de Dilma Rousseff é pespegar-lhe o rótulo de “estatizante”.

Como demonstrou com propriedade Celso Lungaretti, tal empreitada não se baseia no retrato fiel da visão que a candidata tem sobre a questão, expressada em um livro-entrevista, em discursos, em interlocuções com jornalistas, políticos e empresários ou mesmo no modo como vem gerenciando o PAC. Esta, quando levada em conta, é reiteradamente distorcida de modo a sugerir uma espécie de stalinismo econômico, em que a intromissão pervasiva do Estado nos diversos setores da economia dá-se por intermédio de métodos autoritários.

A Folha de S. Paulo é o órgão de imprensa que mais vem insistindo em tal tecla, na base do “se colar, colou”, tal como faz com as fantasias plenas de distorção que alimenta em relação a um terrível passado da terrorista Dilma, as quais têm lugar uma vez mais na manchete deste ensolarado domingo.

Trata-se, ao meu ver, de uma estratégia duplamente reveladora do grau de auto-engano em que se encontra (sic) a chamada grande imprensa em sua fase atual, em que, em bloco e explicitamente partidarizada, repete à exaustão, para um círculo cada vez menor e mais elitista de leitores, um ideário neoliberal desautorizado pela crise econômica mundial e - tal como o candidato presidencial que apoia, ele próprio a tais mantras ainda preso - anacrônico e em franca decadência.

Tal anacronismo, insistente na defesa de um receituário que se revelou falho em âmbito global e catástrófico em termos de América Latina – Brasil inclusive – é o primeiro indício do duplo auto-engano midiático acima mencionado. As desrazões que sustentam tal manutenção de ideologias em estado de putrefação se aliam em cadeia:

- Seu motivo precípuo é, na era do que Dênis de Moraes chama de “capitalismo infotelecomucacional”, a ligação estrutural entre mídia corporativa e capital “telefinanceiro”;

- Sua consequência regional é o apoio não assumido mas explícito ao candidato presidencial do PSDB, partido que há muito abandonou uma incipente plataforma social-democrata como forma de se tornar linha política auxiliar do mercado financeiro;

- E seu ponto cego é a recusa em enxergar que, a despeito da persistente relutância do governo Lula em deslocar-se para fora da órbita neoliberal, a ênfase sociologizante que sua administração imprimiu às políticas de Estado equivalem a uma reificação do neoliberalismo tal como preconizado pelo Consenso de Washington – como, aliás, tem sido amplamente reconhecido nos fóruns internacionais.

O segundo indício do auto-engano de nossa mídia é o profundo desconhecimento do estado de ânimos da maioria da população em relação a esse feixe de temas conectados à dicotomia privatização-estatização. A “naturalização” da visão positiva acerca de um estado mínimo e das privatizações foi, na verdade, um longo processo de convencimento da opinião pública, top-down, promovido pela mídia corporativa (na época em que não havia o contraponto proporcionado pela internet), um tanto paradoxalmente sob o patrocínio estatal do governo Collor e, a seguir, do duplo mandarinato fernandista.

Nunca se soube se tal processo massificado de lavagem cerebral foi bem-sucedido. O certo é que as pesquisas feitas de 2008 em diante mostram que a rejeição da população a privatizações é da ordem de 70%, em média. Talvez ela se sinta enganada pela alegada panaceia das privatizações do patrimônio público - que salvariam o país mas o levaram à insolvência.

De qualquer modo, migrando da miséria dos tempos de FHC – quando a energia elétrica era racionada e as estradas estavam intransitáveis – para a bonança dos últimos anos – quando o consumo explodiu e as classes C e D ascenderam -, é muito provável que, ao contrário do que as editorias jornalísticas pensem, a defesa de um Estado forte, marca do período, soe como música aos ouvidos da maioria da população, que tende a associá-las a melhorias sociais e estruturais e à criação de empregos.

Mas a mídia corporativa brasileira, como sabemos, nutre um total desprezo pela opinião pública – até porque leva a sério a boutâde de Millôr Fernandes segundo a qual “opinião pública é a opinião que se publica”.

Temos assim que a tentativa de desqualificar Dilma Rousseff exagerando seus pendores estatizantes tem tudo para ser mais um tiro no próprio pé da mídia.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Como agem os covardes

Tom Jobim é um dos meus grandes ídolos. Encarna, na minha opinião, algumas das características mais agradáveis de uma imagem idealizada do brasileiro: é gentil, criativo, inteligente, sensível, espirituoso, boêmio; admira e exalta as mulheres, foi ecológico avant La lettre, é internacional sendo profundamente brasileiro, tem reverência pelos predecessores mas é inovador, faz lindas músicas e – talvez o que mais me agrade – é muito engraçado, um figuraça.

No entanto, numa entrevista para o Roda Viva a que eu assisti tantas vezes que estraguei a fita (nos tempos do VHS), mas cujos links para a versão digital integral me foram fornecidos por Raphael Neves, do politikaetc., com os dizeres: “aí vai um presente” – o qual eu, maravilhado em poder rever o programa, assim o considerei -, Tom insiste numa oposição entre “homens de bem” (entre os quais ele se inclui) e “os outros” que me incomoda.

Não gosto dessas distinções peremptórias entre seres humanos estabelecidas a priori, sejam positivas (“homem de bem”, “cidadão exemplar”), sejam negativas (“bandido”, “marginal”, “pivete de rua”). Desagradam-me sobretudo porque tais diferenciações facilitam o agravamento da confusão reinante entre pobreza e criminalidade. Transgrediu-se a lei? Que seja julgado e punido, podendo, aí sim, ser considerado um criminoso enquanto estiver cumprindo pena. Pagou sua dívida com a sociedade? Volta a ser cidadão. É assim que a lei funciona, goste-se ou não.

Decorre dessa posição - e do horror ao neoudenismo - minha opinião contrária a campanhas do tipo “Parlamentar ficha limpa”. Primeiro, porque o cidadão, queira ou não concorrer a cargo público, só pode ser considerado culpado após sentença transitada em julgado - e, mesmo neste caso, como exposto no parágrafo acima, recupera seus direitos após pagar a pena.

Segundo, porque seria facílimo para o grande capital criar uma usina de processos contra políticos de esquerda – e nossa Justiça, que condena Erundina e poupa os que “roubam mas fazem”, certamente acabaria por acatar alguns deles.

Se a Justiça não funciona a contento, que seja reformada, sem estuprar a Constituição.

Essa posição, digamos, legalista, não quer dizer, no entanto, que eu considere que a lei abarque todas as transgressões sociais – não o faz particularmente em relação a uma série de violações morais. Por exemplo: parece-me inegável que o rumo que a atuação política de personagens como Sonsinha ou Gabeira tomou nos últimos tempos, em contraposição às suas respectivas atuações pregressas pode levar seus seguidores de longa data a considerarem-se traídos. Mas a resposta à metamorfose de tais figuras não é da alçada da Justiça, e sim das urnas.

Já quando debilóides ressentidos da pseudoesquerda se aliam a pasquins decadentes ligados à pior direita para difamar cidadãos trata-se de covardia da pior espécie.

O mesmo se dá quando crackers anônimos, a soldo ou por escravidão voluntária aos interesses do grande capital, atacam o blog de quem está apenas exercendo seu direito de expor, de maneira polida e argumentativa, suas idéias – como ocorrido neste espaço nos últimos dois dias, sempre no mesmo post sobre o "caso Cesinha" na Folha e incluindo, no primeiro ataque, a colocação de banners saudando a ditadura militar brasileira.

Tais ataques corroboram e legitimam minhas críticas à direita e vêm confirmar que esses são seus métodos: antidemocráticos e visando interditar o debate através da truculência.

A história não se repete, senão como farsa, já dizia o velho Marx: ontem, bombas e espancamento de atores; hoje, intimidação a blogueiros e uso truculento e ilegal da tecnologia.

Por mim, tudo bem: tenho backup do blog inteiro e, se necessário, migro para um hospedeiro mais seguro. Como dizia, em plena ditadura, o grande letrista Paulo César Pinheiro – que compôs a bela Matita Perê com Tom Jobim -, “Você corta um verso, eu escrevo outro”.

A luta será renhida.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

MSM e o protesto contra a Folha

Está marcada para amanhã a segunda manifestação pública contra o jornal Folha de São Paulo – desta feita devido, sobretudo, à publicação do artigo “Os filhos do Brasil”, de César Benjamin, um ataque à honra pessoal de um cidadão (e presidente da República), covardemente travestido de análise, em que o perturbado articulista sugere, sem apresentar qualquer indício minimamente consistente, que Lula teria tentado estuprar um preso 30 anos atrás.

O estuprado, claro está, foi o jornalismo, ente cujas premissas éticas básicas vêm sendo reiteradamente desprezadas pela Folha, como este blog tem comentado há tempos. É por agir como partido político e não como órgão de imprensa que um grupo privado de comunicação toma o lugar usualmente reservado ao âmbito da política institucional e ao Estado como alvo das manifestações públicas de repúdio.

A primeira manifestação contra o jornal dos Frias ocorreu no dia 07 de março deste ano, como reação ao emprego do neologismo “ditabranda” para relativizar as práticas do regime militar brasileiro (1964-1984) e como manifestação de solidariedade aos professores Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato, agredidos verbalmente pelo diretor de Redação Octávio Frias Filho por protestarem contra a novilíngua adotada pelo jornal para se referir ao arbítrio.

Trata-se de um marco, a expressão de um grito há muito engasgado contra uma imprensa desavergonhadamente partidária, tendenciosa e manipuladora. Eduardo Guimarães, do Movimento dos Sem Mídia, e todos os que, como Aarles, do Arlesophia, colaboraram intensamente para que o protesto se efetivasse, merecem todo o reconhecimento pela coragem, trabalho e capacidade de organização que empregaram para concretizar tal manifestação pública, caracterizada, convém registrar, pela civilidade e respeito às normas democráticas.

O protesto catalisou um sentimento anti-mídia que, graças aos desmandos da imprensa brasileira, pulsava intensamente na internet – sobretudo na blogosfera –, para a formação do qual colaboraram sobremaneira a crítica sistemática à mídia e a série de artigos de Luís Nassif denunciando as práticas “jornalísticas” da Veja.

Numa dessas noites de troca de idéias no twitter, um grupo de blogueiros realçava a importância da passeata para a profusão de blogs políticos que foram criados no bojo da manifestação – inclusive este que o leitor ora visita -, e a quantidade incrível de blogs cujo primeiro post diz respeito justamente ao “caso ditabranda” - duas tendências que os sites de pesquisa qualitativa em blogs confirmam plenamente e que um dia, quando os estudos de jornalismo na academia brasileira saírem da penúltima década do século passado e descobrirem que já adentramos o século XXI, serão devidamente reconhecidos.Embora tão próxima do presente, lembro dessa época com carinho e algum saudosismo: representou o início de uma fase de intensa atividade na internet, de “dar a cara a bater”, depois de anos – décadas – limitados à produção acadêmica ou, com menos freqüência, cinematográfica.

Foi um espanto e uma alegria, para mim, quando o blog começou a receber os primeiros interlocutores constantes – nominalmente, os queridos Hugo Albuquerque, de O Descurvo – que escreveu um post em que defende a participação no protesto -, e Flávia, do Algodão Hidrófilo. Mas hoje um forte questionamento sobre os limites desse tipo de ação começa a se impor com urgência em minhas reflexões.

Na passeata, vi pela primeira vez Eduardo Guimarães pessoalmente. A impressão de arrogância que ele me passava nos textos se desfez completamente. Mas o excesso de personalismo e a vocação para criar uma imagem de mártir persistiram e, no meu entender, se agravam em relação à passeata convocada para amanhã.Soa-me pra lá de cabotino que Eduardo escreva em seu blog coisas como:

"Comunico aos leitores deste blog que já me decidi: irei à porta da Folha de São Paulo ler um manifesto de repúdio contra o ataque insidioso à honra do presidente Lula praticado hoje pelo jornal. E irei nem que tenha que ir sozinho”.


Ou, num post significativamente intitulado “Alguém tem que fazer”, chegue ao cúmulo de afirmar, em relação a si mesmo:

“Há uma beleza poética em bradar num deserto de ouvidos moucos. É uma imagem romântica e verdadeira. A epopéia humana encerra muitos visionários que só foram “ouvidos” depois de séculos ou até de milênios”.


O ato convocado para amanhã não pertence ao MSM nem a Eduardo Guimarães. Ele tomou forma espontaneamente na blogosfera e na tuitosfera, onde no mesmo dia em que a “matéria” de Cesinha foi publicada já se combinava um protesto a realizar-se no primeiro fim-de-semana viável – ou seja, amanhã.

Portanto, com todo o respeito a Guimarães e ao muito que ele tem feito pela luta por uma mídia melhor, insisto: esse messianismo está fora de lugar e esse personalismo é excessivo e contrário ao espírito de coletividade que marca a internet – onde não há ouvidos moucos, Eduardo, mas uma profusão de seres, uns mais conscientes, outro menos, em permanente diálogo. As relações não são verticais: um fala, os outros ouvem – como com freqüência você me dá a impressão de concebê-las – mas horizontais, dialógicas. Expressando-me nos seus termos: não queremos um líder a nos conduzir nas trevas dos combates, mas um companheiro a lutar ao nosso lado.

Uma outra questão que precisa ser pensada em relação ao protesto de amanhã diz respeito à sua procedência. O jornalista Rodrigo Vianna coloca, em post em seu blog, duas questões importantes, que merecem ser refletidas com calma:

“1) Acho que não devemos levar a "Folha" mais a sério; um ato em frente a jornal, no fundo, é uma forma de (ainda) dar legitimidade ao diário decadente. Acho que é melhor tratar essa gente na base da galhofa. Da crítica mordaz aqui, pela internet.

2) Às vésperas de uma campanha eleitoral que deve ser a mais suja da história (o próprio artigo do pequeno "Cesinha" mostra isso), não me surpreenderia se alguém aprontasse alguma provocação. Não custa nada um "provocador infiltrado" lançar - por exemplo - uma pedra contra a "Folha", o que transformaria o jornal em vítima da "esquerda".”

Concordo integralmente com Vianna. A provocação é uma possibilidade real, da qual a Folha certamente tiraria proveito. O que me parece mais importante, neste momento, é intensificar a campanha pelo cancelamento da assinatura da Folha ou do UOL, movimento que, segundo informações confiáveis de bastidores (parcialmente corroboradas por este post do Nassif, que sugere que as telefonistas do jornal estão sendo orientadas a apresentar justificativas referentes ao artigo de Cesinha) estaria surtindo efeito, com um número expressivo de cancelamentos.

Agastado pelo excesso de personalismo messiânico de Guimarães eu, após ler o arrazoado de Vianna, pensei seriamente em não ir ao ato. Fatores que transcendem a certeza de que essa seria a melhor forma de protestar convenceram-me do contrário: irei (e levarei uma câmera para coletar material para um documentário - e registrar qualquer eventual provocação). Mas vou como parte de uma coletividade, mais um na multidão de cidadãos e cidadãs politicamente ativos que encontraram na internet um meio para se organizar e combinar ações conjuntas – e não como um liderado por ninguém.

P.S. Após o lamentável episódio da intimidação ao blogueiro Antonio Aarles através de medida extra-judicial, fica ainda mais evidente que a campanha pelo boicote à Folha e ao UOL está surtindo efeitos concretos e que preocupam a direção do grupo - muito mais do que manifestações o fazem.

Deixar de comprar e deixar de comentar qualquer matéria da Folha: este me parece o melhor caminho para legar ao jornal a irrelevância que ele, por suas próprias ações, faz por merecer.

domingo, 29 de novembro de 2009

Cesinha na Folha: a ética no lixo

2009 é um ano marcado, na imprensa brasileira, pela degringolada inconteste da Folha de São Paulo. Foram nada menos do que cinco episódios de extrema gravidade, que atentam contra os parâmetros éticos mínimos que deveriam reger a atividade jornalística:

1) Em fevereiro, a adoção do neologismo “ditabranda” para se referir à ditadura militar brasileira, numa clara tentativa de promover um revisionismo histórico à direita e de relativizar a gravidade das práticas levadas a cabo por um regime que usurpou o poder democrático e utilizou-se do Estado para perseguir, torturar e assassinar opositores;
2) Em seguida, a agressiva reação do diretor de redação Octávio Frias Filho a carta de protesto contra a utilização do termo “ditabranda” enviada pelos eminentes professores Maria Victoria Benevides e Fabio Konder Comparato. Como procurei demonstrar em texto escrito no calor da hora, a truculência trazia em seu bojo uma tentativa de restringir e dirigir o debate público, além de reforçar o processo de relativização da ditadura em curso;
3) Em maio, a perda de referenciais éticos mínimos se evidencia com a utilização de ficha policial falsa da ministra e pré-candidata Dilma Rousseff, em matéria fantasiosa e jornalisticamente insustentável sobre um seqüestro que jamais ocorreu. Após peritos da UnB e da Unicamp atestarem que a ficha era falsa, o jornal produz uma pérola de cinismo ao afirmar que não podia confirmar a autenticidade da mesma nem sua falsidade – o que corresponde a admitir como lícita a publicação de qualquer material, verdadeiro ou não (leia post certeiro de Nassif sobre o caso);
4) O show de desrespeito a normas básicas do jornalismo – e a transformação deste em atividade político-partidária – prossegue no segundo semestre com a sustentação, semanas a fio, de um factóide dos mais grosseiros – o alegado encontro de Dilma com a ex-Secretária da Receita Federal Lina Vieira -, baseado tão-somente na palavra desta, que fora demitida pela acusada. Apesar dos rocambolescos esforços e das diversas tentativas, seguidas de desmentidos, não foi possível encontrar uma data na agenda da esposa do ex-ministro de FHC para sequer tornar plausível o encontro. Após exploração intensa, o assunto morreu, como sói acontecer com factóides.

Embora muitos não cressem que a Folha poderia descer ainda mais, eis que, covardemente travestida de “análise” do filme Lula, o Filho do Brasil, o jornal publica, com grande destaque e no primeiro caderno, artigo melífluo de César Benjamin – candidato à vice-Presidência pelo PSOL nas últimas eleições -, com acusações tão graves quanto risíveis acerca do passado do presidente Luís Inácio Lula da Silva, que, segundo a mente doentia de “Cesinha”, teria estuprado um preso em 1979.

As fantasiosas acusações não ficaram em pé 24 horas, tendo sido desmentidas tanto pelos que conviveram com Lula na prisão – incluídos o delegado, o potencial “estuprado’ e diversos colegas de cela, até um membro do PSTU que, mesmo na oposição a Lula, fez questão de desmentir Cesinha - quanto pelos que presenciaram o momento em que Lula, descontraído em uma mesa de bar, anos antes de ser presidente, fez uma piada “sacaneando” um companheiro e tentando escandalizar um conviva norteamericano.


Que eu saiba a histeria politicamente correta ainda não chegou a um ponto tal que alguém deva ser condenado por uma piada de mau gosto contada há 14 anos... Mas, na combinação de sanha oposicionista e abandono de valores jornalísticos que ora caracteriza nossa imprensa, o artigo de Cesinha repercutiu nas vejas e globos da vida.

O texto é exemplar de um processo que venho há tempos apontando: o quanto os métodos da extrema-esquerda brasileira atual coincidem com os da pior direita, além de coadunarem com os da “grande mídia”, ao qual se submetem para perpetuar ataques contra o inimigo comum, fingindo não perceber que são majoritariamente os setores mais conservadores que se beneficiam de tal estratagema. Como levar a sério o discurso ético que a extrema-esquerda reiteradamente chama para si, se, na prática, se presta a atos tão deploráveis?

Para compreender o que leva um ser humano a incorrer na leviandade cometida por Cesinha é preciso conhecer essa figura trágica da esquerda brasileira. Entrou na luta armada aos 14 anos e, preso três anos depois, foi submetido a longas e brutais torturas, que lhe tiraram a audição de um ouvido. Findo o período das sevícias físicas, foi mantido em solitária, completamente isolado de qualquer contato com o mundo exterior, por três dos cinco anos em que ficou preso. Evidentemente, tal experiência foi traumática para uma mente adolescente e não é possível precisar a extensão das seqüelas que possa ter causado.

O fato é que o desequilíbrio e a tendência a lançar mão de acusações levianas e estratagemas questionáveis em nome da luta política são há décadas uma constante em sua trajetória. O jornalista com J maiúsculo Luiz Antonio Magalhães traçou um imperdível perfil de Cesinha em sua fase madura (no sentido etário, evidentemente, pois imaturidade política é um traço constante em sua trajetória, que inclui rompimento com o PT - que ajudara a fundar - em 1995 e filiação em 2004 ao PSOL, partido do qual, numa demonstração de grande coerência e caráter, sairia dois anos depois, atirando baixarias para todos os lados). Hoje, Cesinha - que, segundo vários relatos, alimenta ódio obsessivo em relação a Lula - é uma daquelas espécimes curiosas da fauna brasileira: o soi disant esquerdista que detesta um governo que tirou mais de 30 milhões da pobreza, consumando assim uma das bandeiras precípuas da esquerda e promovendo, em plena crise mundial, um ajuste estrutural na divisão social brasileira, com a ascensão de um volume significativo das classes D e E à classe média.

Porém, nunca é demais reforçar, o absurdo maior não é a redação de um artigo tão desqualificado – que jamais seria aceito por qualquer publicação séria do planeta, já que não obedece a premissas básicas do jornalismo –, mas sim o fato de ter sido publicado – e com destaque - sem que as graves acusações contra um cidadão tenham sido minimamente checadas ou que o outro lado tenha sido ouvido, como manda o próprio Manual de Redação da Folha. Trata-se de matéria baseada no "juridicamente espúrio" julgamento pelo testemunho, como assinala Diego Calazans num promissor novo blog político.

Que o cidadão em questão seja o presidente da República constitui um dado que só reforça um dano colateral dessa temporada de insanidade ética da mídia: o desrespeito pela instituição Presidência da República. Ademais, note-se que a mesma imprensa que preservou a vida privada do presidente Fernando Henrique Cardoso (apesar da notícia sobre seu filho com a jornalista da Globo despertar potenciais questões de interesse público, concernentes à relação entre mídia e governo) investe agora em um episódio do passado privado de Lula que, além de altamente improvável, é irrelevante para a administração do país (mas talvez não para a popularidade do presidente e para questões eleitorais).

Evidenciada pelos episódios acima retratados, a perda de referencial ético da mídia se efetiva, prioritariamente, devido a seus interesses político-partidários, que alimentam não apenas objeções ideológicas e de classe ao governo de turno, mas uma guerra movida por interesses materiais, já que os maiores órgãos de imprensa têm sido duramente atingidos em seu faturamento, pois, pela primeira vez na história do país, a administração federal decidiu pulverizar verbas em pequenas e médias publicações e rádios do interior do país, ao invés de concentrá-las nos “grandes órgãos de imprensa” do Sudeste.

É preciso levar em conta, porém, que tamanha liberdade de ação da mídia só foi propiciada pela impunidade garantida por recentes decisões do STF, que enfraqueceram ainda mais o parco controle sobre a atividade jornalística. Infelizmente, até pessoas que se dizem de esquerda vibraram com o fim da exigência do diploma para jornalista determinado pelo STF, em decisão que levou de roldão também o direito de resposta – único meio para obtenção de espaço para se defender de ataques oriundos da imprensa. Tais pessoas não se apercebem que quanto mais regulada e mais regulamentada a atividade jornalística, menor é a chance de tais excrescências como as praticadas pela Folha este ano ocorrerem. Não é por outra razão que a plutocracia midiática da qual Frias Filho faz parte vibrou com a decisão do STF e bloqueia sistematicamente qualquer tentativa de regulamentação da atividade jornalística – como o fez no início do governo Lula e faz agora em relação à Confecom.



(Imagem retirada daqui)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Serra e Ahmadinejad

No dia da visita de Ahmadinejad ao Brasil, a Folha de São Paulo exibe chamada de capa para um artigo do governador de São Paulo, José Serra, atacando pesadamente o presidente Luís Inácio Lula da Silva por recepcionar o presidente iraniano.

Não há dúvidas de que Ahmadinejad representa posições inaceitáveis no mundo atual: repressão e condenação a homossexuais, opressão às mulheres e ao feminismo, supremacia do poder religioso sobre a esfera leiga; sob seu governo, a censura, que esteve ativa desde a Revolução Islâmica, tornou-se ainda mais intransigente, levando até cineastas consagrados à prisão.

Mas, por paradoxal que pareça, é justamente para não acirrar tais posições que a recepção que o Brasil proporciona ao presidente iraniano é importante. Pois isolá-lo, na atual conformação internacional, significa colaborar para levar o Irã a um duplo radicalismo: o da extremamente conservadora teocracia panárabe; e, como líder-mártir que ousou confrontar o Império norteamericano e como uma das principais forças políticas contrárias a Israel, ao do terrorismo internacional patrocinado pela Al-Qaeda.

É precisamente contra esse duplo perigo que se insere a estratégia da diplomacia brasileira, que de quebra ganha a simpatia de importantes setores do Oriente Médio e da Liga Árabe para postular uma vaga no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O que está em jogo, portanto, é mais um passo no realinhamento da posição do Brasil no mundo, de forma particular em relação aos Estados Unidos, país que, por razões diversas – notadamente suas relações com o grande capital judaico, neste momento delicado da economia norteamericana - não pode e não quer adotar publicamente uma política soft power em relação ao Irã.

Não há como entender o fenômeno iraniano sem recapitular as relações que os EUA mantiveram com o país. Ao patrocinar, via agentes infiltrados da CIA, a derrubada do moderado primeiro-ministro Mohammed Mossadegh, em 1953 – naquele que é considerado por muitos analistas internacionais como o maior erro na história da política externa norteamericana – o, com o perdão da ironia, país-líder do “mundo livre” acirrou ódios maniqueístas no Oriente Médio, reforçando sem querer a radicalização de uma posição pró-Palestina, ao mesmo passo em que ajudou a colocar no comando do Irã a ditadura do xá Reza Pahlavi, cuja brutalidade agravou-se a partir dos anos 70, com milhares de mortos, torturados e mutilados pelo regime.

É do esgotamento desse modelo ditatorial – durante o qual o povo iraniano foi levado a aderir maciçamente a credos religiosos, pois, entre outras razões, eram essas das poucas manifestações populares então permitidas no país - que brota a Revolução Islâmica levada a cabo pelo Ayatolah Khomeini, em 1979. Caracterizada não apenas pela forma aberta com que se opôs aos EUA (em que pese o caso Irã-Contras) mas pela progressiva radicalização do conservadorismo religioso, a Revolução está nas raízes tanto do extremo conservadorismo de Ahmadinejad quanto do terrorismo de bin Laden (pois foi como forma de combatê-la que os EUA deram armas e poder a Sadam Hussein, decisão cuja consequência última foi a criação de um exército-reserva para o terrorismo).

Portanto, a diatribe eleitoreira de José Serra – a quem Luis Nassif acusa de, com o artigo em questão, ter aderido ao jornalismo neocon – é não apenas descontextualizada em termos históricos como ignorante das sutis dinâmicas da política internacional. Além de hipócrita para um governante que recebeu líderes sionistas acusados de assassinato, revela o despreparo do mandatário paulista para lidar com o sofisticado universo das relações exteriores.


(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Erundina e a Justiça no Brasil

Luiza Erundina é uma das figuras públicas mais injustiçadas da história da política brasileira.

Nas eleições à Prefeitura de São Paulo, em 1988, a mídia moveu-lhe pesada campanha antes, durante e depois de sua gestão à frente do mais alto cargo ocupado por essa assistente social que iniciou sua militância política nas míticas Ligas Camponesas de Francisco Julião e foi, por isso, perseguida pela ditadura.

Primeiro os jornais manipularam descaradamente as pesquisas pré-eleitorais até quando puderam: as últimas parciais divulgadas apontavam vitória de Paulo Maluf por margem razoável – mas nas urnas, três dias depois, refletindo o sentimento que pulsava nas ruas, a então candidata petista venceria por uma diferença ainda maior de votos. A imprensa fez que não era com ela, o Judiciário idem, e ficou por isso mesmo.

Para desespero do conservadorismo paulista e da mídia corporativa - sua porta-voz -, um partido de esquerda assomava à Prefeitura da maior cidade do país pela primeira vez após a ditadura. Tais forças incumbiram-se da tarefa de tudo fazer para desestabilizá-la.


A Prefeitura de São Paulo

Acompanhei a gestão Erundina muito de perto. Morei na cidade durante 3 dos 4 anos em que ela esteve à frente da Prefeitura, utilizando regularmente - assim como uma das minhas irmãs - o sistema público de transporte, cujas empresas inicialmente a boicotaram de todas as maneiras e depois, enquadradas, foram obrigadas a oferecer o melhor serviço de ônibus que a cidade teve nas duas últimas décadas (vingaram-se rodando de madrugada com os coletivos vazios, de forma a fazer a Prefeitura – que passou a pagar por quilômetro rodado – encher-lhes as burras).

Minha mãe era professora primária municipal, e forneceu-me provas irrefutáveis de que a Educação, que tinha como Secretário Municipal ninguém menos do que Paulo Freire, foi de fato tratada como prioridade, como nunca mais seria: estruturou-se o Plano de Carreira – uma reivindicação velha de décadas -, permitindo que os bons professores progredissem na estrutura organizacional; foram aumentados substancialmente seus salários (bem como os dos funcionários), que pela primeira vez superaram os da rede estadual; e, o mais importante, aprimorou-se substancialmente a qualidade do ensino (oferecendo cursos de aprimoramento aos professores, distribuindo em definitivo farto material didático e garantindo a presença de uma Coordenadora Pedagógica em todos os turnos); do uniforme (2 jogos completos distribuídos gratuitamente) e da merenda (que, ao contrário dos arremedos de lanche oferecidos pelas administrações subseqüentes, era composto de uma refeição completa – incluindo suco e sobremesa -, mais um lanche com leite e bolachas ao final do turno).

Além dissso, os chamados MOVAs - Movimentos de Alfabetização, baseados no método internacionalmente reconhecido desenvolvido por Freire, promoveram instrução massiva a adultos de forma inédita em âmbito municipal.

Também a gestão de Marilena Chauí à frente da Secretaria de Cultura não pode ser considerada menos do que brilhante. Levou, pela primeira vez na história da cidade, arte à periferia, montando programações anuais completas. A utilização de parques municipais para programações artísticas foi otimizada, e locais originalmente a elas destinados – destacadamente o Centro Cultural São Paulo, no Paraíso, hoje periférico na ordem cultural da cidade – ferviam de atrações gratuitas ou a preços simbólicos. (Lembro de lá ter assistido, pela primeira vez, a um filme de Nelson Pereira dos Santos, cineasta que seria, anos depois, objeto de estudo recorrente em minha vida acadêmica e sobre quem dirigi um documentário. Na fila à minha frente, muito baixinha, Regina Duarte, então considerada de esquerda...).

Nunca depois desse período foi dada a oportunidade à população paulistana em geral de assistir a tantas peças de teatro (arte que hoje tem preços proibitivos ao cidadão comum), nem oferecida uma interação tão azeitada entre produção acadêmica e universo cultural, com palestras e congressos memoráveis.

Na área da saúde, os avanços foram inegáveis: os postos passaram a funcionar no horário devido e com a equipe completa, acrescida de fonoaudiólogos e neurologistas; consulta e tratamento dentário regulares a estudantes da rede pública tornaram-se um fato cotidiano, e não uma quimera prevista na letra morta da lei.


Distorções midiáticas
Mas não é essa a imagem da administração Erundina legada à posteridade. Numa época em que não havia a internet para produzir contraposições ao enfoque adotado pela mídia corporativa, a prefeita sofreu uma campanha implacável, liderada pela Folha de São Paulo. O foco era exclusivamente negativista. A dissociação entre fato e notícia era total e a manipulação evidente a qualquer pessoa com senso crítico.

Pode-se ponderar que uma ou outra tese acadêmica escondida numa biblioteca universitária qualquer desmente essa distorção grosseira – mas quantas pessoas têm acesso a tais trabalhos? Muito me entristeceu constatar, anos depois, em conversa com um então professor que considero um dos maiores intelectuais brasileiros, com mais de uma dezena de livros publicados, que essa visão distorcida da administração Erundina prevalece, até fora do estado de São Paulo e mesmo entre pessoas progressistas - evidência que se corroboraria repetidas vezes nos anos seguintes.


Avis rara

O próprio PT, sempre titubiante em relação à auto-imagem, acabaria por introjetar tais críticas, delas se valendo para justificar o pragmatismo eleitoral do tratamento dispensado a Erundina. Num processo desgastante, o partido primeiro a suspendeu pelo período de um ano, "de todos os deveres e direitos partidários" por ela ter aceitado o cargo de ministra-chefe da Secretaria de Administração Federal na Presidência Itamar Franco, em 1993. Quatro anos depois, logo após ter sido abandonada por setores do PT nas eleições municipais de 1997 (o que facilitou sobremaneira a vitória do candidato que viria a ser o pior prefeito da história de São Paulo, Celso Pitta), ela deixa o partido e ingressa no PSB.

A saída de Erundina marca um dos pontos mais baixos da história do PT e um erro crasso - como o próprio partido acabaria por admitir, nas várias e malfadadas tentativas de aproximação que tiveram lugar nos últimos anos. Resultou na perda de um quadro político do mais alto gabarito e eticamente inatacável.

Palpável à época, o ódio contra a paraibana Erundina vem não apenas do preconceito de classe, mas do machismo e, talvez sobretudo, do preconceito contra nordestinos – que foram úteis à cidade quando, em posições subalternas, ajudaram a construí-la, mas agora são tratados como câncrios a importunar a paulistanidade. Justiça poética, são justamente esses segmentos populacionais que têm garantido a Erundina votações expressivas nas sucessivas eleições à Câmara Federal, onde sua atuação como deputada tem sido reiteradamente reconhecida e premiada por ONGs e por comitês de jornalistas.

Mas, nas duas vezes que concorreu novamente à Prefeitura, seu eleitorado – em que também se destacam militantes socialistas, setores da juventude de esquerda e a velha guarda do professorado municipal - não foi suficiente para elegê-la. Isso se deve, notadamente, à divisão da esquerda patrocinada pelo PT. Nesse processo, não bastasse a cerrada oposição da direita corporativa, até Marta Suplicy, com a arrogância típica que a impede de realizar voos mais altos, destratou grosseiramente Luiza Erundina na campanha eleitoral à Prefeitura, em 2004. Ainda assim, a candidata do PSB não hesitou em apoiar a petista no segundo turno, demonstrando, uma vez mais, sua retidão de caráter e sua coerência ideológica.


Condenação absurda
Agora, aos 75 anos, essa avis rara da vida nacional – um dos poucos interlocutores com os quais se pode conversar olhos nos olhos, certo de que franqueza e sabedoria se receberá em troca -, enfrenta um duro e inesperado desafio, na forma de uma condenação judicial que a obriga ao pagamento de inacreditáveis R$350 mil.

Seu pecado? Numa época em que os jornais e TVs vetavam-lhe acesso e que a direita praticamente monopolizava as administrações municipais e estaduais, com livre divulgação de suas posições políticas, ter publicado material comunicacional divulgando que a a Prefeitura de São Paulo, como instituição - e não ela, Erundina - apoiava a greve geral convocada pelas centrais sindicais. Ou seja, por uma prática rotineira nos âmbitos municipal, estadual e federal, que tem lugar cada vez que Lula utiliza a radiodifusão pública para expressar a posição da Presidência sobre determinado fato político ou cada vez que Serra utiliza-se do porta-voz - que é sustentado por dinheiro público - para condenar, por exemplo, a atuação do Banco Central em relação ao câmbio. Que, como observa André Borges Lopes em comentário que você, caro(a) leitor(a), pode ler aqui (clique em "Leia Mais", ao final do post), a situação político-comunicacional da época fosse particularmente peculiar, é um dado que só torna a condenação mais absurda.

Para pagar essa dívida, foi penhorado seu único apartamento, seu carro e imposto um desconto mensal a seu salário – mas, ainda assim, a quantia arrecada é insuficiente, e entidades e amigos mobilizam-se para ajudá-la. Foi aberta uma conta bancária para arrecadar contribuições: Banco do Brasil, agência 4884-4, conta corrente 2009-5, em nome de “Luiza apoio você”.

Como parte dessa movimentação, ontem à noite teve lugar um jantar de desagravo a Erundina, voltado à arrecadação de fundos para ajudá-la a honrar a dívida judicial. O evento - ao qual, infelizmente, não pude comparecer - foi, como reporta Luís Nassif, um enorme sucesso, com lotação esgotada, o que prova o reconhecimento e o carinho que a homenageada fez por merecer.

Mas essa revoltante punição a uma cidadã honesta e coerente, que passou a vida dedicando-se à construção de um país melhor, enquanto tantos pistoleiros, bandidos políticos da pior espécie, continuam impunes, é um retrato acabado do absurdo chamado Brasil.



(Foto, da autoria de Antonio Cruz, retirada daqui)

sábado, 15 de agosto de 2009

O Ombudsman no jornalismo atual

Meses após a criação do cargo de Ombudsman pela Folha de São Paulo, há 20 anos, uma piada circulava nos meios jornalísticos: “o Estadão já tem o seu ouvidor, falta a Folha arrumar o dela”. O chiste dizia respeito à alegada tendência do primeiro ocupante do cargo, Caio Túlio Costa (1989/1991), de reiteradamente criticar o jornal concorrente ou de comparar instisfatoriamente a cobertura que o jornal dos Mesquita fazia de determinado assunto em relação à oferecida pela Folha.

O gracejo me veio novamente à cabeça ao ler coluna do atual Ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva, intitulada “A internet a serviço do jornalismo”. Como seu título indica, nela são elencados, nas palavras do jornalista, “ exemplos de como a internet pode contribuir muito positivamente para melhorar a qualidade do jornalismo e das relações entre a sociedade e seus governantes”.

Tais exemplos advêm do jornalismo norteamericano e não há qualquer correlação à atividade de imprensa no Brasil nem ao órgão em que Lins da Silva trabalha e o qual está incumbido de criticar, alegadamente em nome do leitor e do aperfeiçoamento do jornal. Essa omissão leva a curiosas distorções. Por exemplo: Lins da Silva afirma, corretamente, que “Há quem enxergue na internet um inimigo do jornalismo. É um erro conceitual e estratégico”. Mas tal afirmação não é correlacionada a exemplos recorrentes de profissionais que alimentam tal anacronismo, facilmente encontráveis entre alguns colunistas do jornal, destacadamente na outrora “nobre” página A-2. Perde-se, portanto, uma oportunidade efetiva de agir de acordo com as prerrogativas do cargo, criticando objetivamente aspectos preconceituosos e datados vigentes em setores do jornal.

Embora haja os que defendem a licicitude de tal prática, não considere correto que, dada sua posição de representantedo leitor, um Ombudsman ocupe uma coluna semanal com temas genéricos sem correlacioná-los às práticas do veículo em que trabalha. No caso particular do ouvidor da Folha, a tal discordância vem somar-se o receio de que a incursão por aspectos genéricos do jornalismo internacional funcione como sintoma de cerceamento das possibilidades de intervenção do Ombudsman no jornal e/ou de esgotamento da disposição crítica do próprio Lins da Silva em decorrência do efeito de tais limitações, tornadas evidentes na forma como a Folha vem sistematicamente ignorando suas sugestões, objeções e críticas. Ou seja, de fatores que apontam para a exaustão do modelo de ouvidoria jornalística representado pela adoção do cargo de Ombudsman pela Folha de São Paulo.


Marketing iluminista
A criação do Ombudsman, em 1989, mostrou-se uma bela jogada de marketing, de grande repercussão, numa fase em que o jornal acabara de perder alguns dos profissionais que, em cerca de vinte anos, transformaram um diário pouco expressivo num dos líderes de venda e – em grande parte graças à postura da Folha durante a campanha pelas “diretas já” – de credibilidade, fazendo muita gente levar fé em seu lema de inspiração iluminista de que se tratava de um jornal a serviço do Brasil.

Ao contrário do que a campanha publicitária e o próprio jornal martelavam a cada oportunidade, não se tratava do primeiro Ombudsman da imprensa brasileira. Muito possivelmente era a primeira vez que a denominação de origem sueca era aplicada a um profissional nativo, mas a atividade de analisar de forma crítica a própria imprensa já fora exercida antes, e na mesma Folha, por Alberto Dines, no caderno dominical Jornal dos Jornais, que durou de julho de 1975 a setembro de 1977, como aponta Celso Lungaretti, em texto repleto de informações valiosas sobre a experiência.

De qualquer forma, o caráter aparentemente institucional do cargo e um contrato com cláusulas que impedia o profissional que o exercesse de ser demitido - garantindo, ainda, sua permanência no jornal por um determinado período após o término das atividades de ouvidor - acabaram por afiançar a credibilidade da “inovação democrática” junto ao público.

No início, tinha-se a impressão de que as críticas surtiam efeito: pareciam ocorrer alterações significativas, por exemplo, no relacionamento dos colunistas com determinados temas e um cuidado maior (embora ainda insatisfatório) com a interlocução com o leitor; as restrições do citado Túlio Costa ao estilo, digamos, pouco afeito a convenções de Paulo Francis – então considerado por muitos o principal articulista do país, com sua cultura enciclopédia, seu texto de alto nível e um estilo que prefigurava, em nível bem mais alto do que corrente, a moda neocon - foram o principal motivo por ele alegado para sua transferência para o Estadão, em 1990.

Seguiu-se um longo perído durante o qual jornalistas de renome ou com a carreira em ascensão se revezaram no cargo, uns mais incisivos, outros mais parcimoniosos, uns agradando a gregos, outros desagradando a troianos, mas sem que provocassem grande celeuma (veja aqui a lista completa de ouvidores, seu tempo no cargo e a primeira e última coluna de cada um deles).


Figura decorativa
O caldo começou a entornar com a posse e a disposição crítica demonstrada pelo nono Ombudsman, Mario Magalhães (2007/2008), que se recusou a compactuar com o jornalismo partidário que a Folha insiste em praticar desde a posse de Luís Inácio Lula da Silva. Seguiu-se uma queda-de-braço entre Redação e Ombudsman, culminando com a decisão daquela de restringir ao “público interno’ a circulação da crítica diária. Para Magalhães, foi o estopim e ele não renovou o contrato, tornando-se o primeiro Ombudsman do jornal “a deixar o posto por não compactuar com sua descaracterização e esvaziamento”, nas palavras de Lungaretti.

Sua substituição por Lins da Silva inicialmente causou apreensão. Embora se tratasse de um profissional com um currículo jornalístico e acadêmico dos mais respeitáveis, temia-se que o fato de assumir o cargo com suas funções originais parcial mas gravemente reduzidas, somado à sua relação de proximidade com o jornal, pudesse significar uma postura de anuência para com o jornalismo praticado pela Folha, acusado, com frequência e intensidade inéditas, de tendencioso e antiético. Afinal, quando o diário dos Frias criou o cargo de Ombudsman, em 1989, Lins da Silva havia acabado de publicar em livro sua tese de livre-docência, sob o título de Mil Dias: Os Bastidores da Revolução em um Grande Jornal e a “orelha” do volume o apresentava aos leitores como “Um dos líderes da equipe que provocou profundas transformações na Folha de S. Paulo (onde é diretor-adjunto de redação)”. São precisamente tais transformações – em relação às quais a criação do cargo de Ombudsman é uma espécie de culminância –, enfocadas criticamente como um processo de profissionalização da produção jornalística em todos os níveis, incluindo o ético, o tema do livro.

As suspeitas em relação ao novo Ombudsman logo revelar-se-iam infundadas, com Lins da Silva assumindo postura crítica em relação não apenas a questões mais comezinhas, mas a episódios extremamente graves como a utilização do neologismo “ditabranda” para se referir à ditadura militar, o ataque aos professores Maria Victoria Benevides e Fabio Konder Comparato, e a utilização de ficha policial falsa da ministra e pré-candidata Dilma Roussef em reportagem sobre sequestro hipotético que nunca ocorreu.

O problema é que a postura correta e incisiva do atual Ombudsman não tem surtido efeito algum, com a Redação ignorando de forma olímpica o resultado de suas análises e suas objeções. É motivo passível de constrangimento não apenas para o próprio Lins da Silva, mas para o leitor, logrado em sua representação junto ao jornal, a manutenção do Ombudsman como mera figura decorativa.

Assim, só me resta concordar com Lungaretti quando, em outro artigo, publicado em seu blog em 31/07 e desta feita acerca do “caso Sarney”, afirma:


“Infelizmente, os leitores há muito deixaram de ser representados no jornal, que só mantém a seção do ombudsman para não passar recibo de que sua arrogância olímpica é incompatível com os limites que jornais mais sérios impõem a si próprios. Criou tal seção, apresentou-a como um grande avanço na democratização dos meios de comunicação, depois arrependeu-se do que havia feito e a esvaziou, mantendo-a apenas como fachada.

Então, de nada adianta Carlos Eduardo estar sempre com a posição correta, salvo em benefício de sua biografia como profissional de dignidade exemplar. Mas, a única obrigação da redação da Folha tem sido a de escutar pacientemente suas ponderações; depois, age como bem entende”.

Em decorrência das constatações elencadas acima, duas questões se impõem:


1) Por que um profissional de primeiro nível e um homem público da estatura
ética de Carlos Eduardo Lins da Silva se presta a tomar parte dessa pantomima?

2) Ombudsman, para quê?

(Artigo originalmente publicado no Observatório da Imprensa. Fiz mínimas modificações).

Adendo (15/08):
A quase totalidade das respostas a este artigo, na ocasião – em comentários ou via email –, ressalvaram que a função que o atual Ombudsman exerce diretamente junto aos leitores, dando encaminhamento e respondendo às suas queixas, seria de suma importância e justificaria a manutenção do cargo e de Lins da Silva, ainda que este tivesse suas demandas praticamente ignoradas pela Redação.

O próprio Lins da Silva, com uma urbanidade e firmeza que confirmam as considerações acerca de seu caráter feitas ao longo do texto, dedicou coluna dominical comemorativa dos 20 anos da criação do cargo de Ombudsman na Folha aos temas cobertos por mim e por Lungaretti (coluna disponível aqui, infelizmente só pára assinantes do UOL ou da Folha). Embora admita "que experimente frustração vez ou outra ao ver minhas sugestões e linha de raciocínio ignoradas", Lins da Silva não apenas corrobora a visão dos leitores acima citada - afirmando que "Mesmo que nunca a Redação acatasse as opiniões do ombudsman, ainda assim ele teria um papel importante" - como, traçando analogias com o o mito grego de Cassandra e com o personagem Grilo Falante, de Pinóquio, aponta a importância histórica das críticas, concluindo: “Mas Cassandras, grilos e alter egos só têm valor quando são atendidos?”.

Como o perfil do público do blog costuma divergir consideravelmente do dos leitores do Observatório e como há o dado novo das considerações de Lins da Silva, republico o artigo aqui para um renovado exame da questão e nova coleta de opiniões.

(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 28 de julho de 2009

O “Colunismo Negativista” de Clóvis Rossi

O dia 12 de julho deveria ser decretado comemorativo para o jornalismo nacional. Nessa data, o colunista da Folha de São Paulo Clóvis Rossi surpreendeu a todos fazendo, numa mesma coluna – intitulada "No topo do mundo, mas solitários" -, não apenas uma saudação congratulatória ao Brasil mas, pasmem, um elogio explícito ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Como não poderia deixar de ser, há ironia ferina no modo como Rossi, 66 anos, saúda o ingresso do Brasil no G14: "Palmas para o Brasil, que acaba de ser lançado ao topo do mundo, o tal de G14 (por enquanto 14, mas sabe-se lá em que número vai parar)", mas ela é menos evidente nos elogios à determinação de Lula para fazer o país ingressar no grupo decisório, agora expandido, dos países mais ricos do mundo.

O duplo elogio, raríssimo – quiçá inédito – na produção diária de um colunista que é com frequência acusado de rabugice e de intransigência para com o governo federal, ocupa quase 20% do espaço da coluna (323 dos 1687 caracteres do texto). Ao final do segundo parágrafo, Rossi volta a si e, como que justificando a conjunção adversativa do título da coluna, proclama: "Chega de palmas e vamos às vaias".

O "Jornalismo do ‘mas’"
Trata-se de mais um exemplo do "jornalismo do ‘mas’", expediente recorrente na Folha de S. Paulo durante a "Era Lula", segundo o qual quando o jornal comete a ousadia de se permitir um elogio às autoridades ou ao governo, ele quase sempre é seguido de críticas que o minimizam ou contradizem. Tem ocorrido com tal frequência e até nas manchetes de capa que constitui tema potencialmente prolífico não apenas para matérias analíticas, mas para pesquisas acadêmicas de maior fôlego.

Está implícita nessa lógica do "jornalismo do ‘mas’" uma visão negativista da prática jornalística, sintetizada na famosa frase atribuída a Millôr Fernandes segundo a qual "Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos & molhados". Sob a administração do diretor de Redação Octávio Frias Filho, tal lógica tem sido levada ao paroxismo. E, embora Rossi fosse muito próximo do pai do atual publisher, Octávio Frias de Oliveira – a quem costumava chamar de "o sábio que habita esta Folha" –, ele teria se tornado, nos últimos anos, como aponta com alguma frequência o jornalista e por anos colega de trabalho Luís Nassif, o mais fiel seguidor dessa política que se baseia quase que exclusivamente na crítica negativa.

Mas as raízes da mudança de Rossi para uma postura niilista e com traços de sisudez têm motivos mais profundos e de maior dimensão histórica. Não é mera coincidência que tais mudanças tenham se tornado perceptíveis mais ou menos na época da derrocada do socialismo soviético, simbolizada pela queda do Muro de Berlim. A débâcle das esquerdas em âmbito mundial marca um ponto de inflexão na postura analítica de Rossi – suas colunas dos anos imediatamente seguintes sugerem um sentimento de rancor para com o ideário esquerdista, como se de traição pessoal se tratasse. Ao mesmo tempo, ocorre não apenas a radicalização de uma postura (a princípio saudável, quando não radicalizada, o que é o caso) de absoluto descrédito em relação às ideologias, mas também a adoção, de forma acintosa, do deboche para com elas como postura crítica recorrente.

Colunismo negativista
Não há como precisar se e a que nível o desgastante período final do regime militar e a titubeante retomada democrática também o afetaram, mas o certo é que foi durante esse longo período que se solidificou uma sua característica crítica que constitui atualmente, na minha opinião, o mais grave problema concernente ao ocupante da coluna "São Paulo", da Folha: um forte sentimento anti-Brasil (para utilizar o conceito que o notável Janio de Freitas usa para se referir à presidência de FHC) e a retroalimentação do complexo de inferioridade do país. Estes tomam forma com frequência, tanto em comparações pontuais com aspectos positivos dos países que, como repórter internacional, visita quanto na utilização recorrente da jabuticaba como metáfora para tudo que, segundo ele, só o Brasil produz – de ruim, é claro.

Utilizando de forma maniqueísta tal metáfora, desprezam-se as qualidades de um fruto a cujo sabor delicioso soma-se o prazer sensorial de espocá-la entre os dentes, antes que o rico sumo inunde o palato (para não mencionar as delícias do prazer lúdico-infantil de colher jabuticabas no pé). De forma análoga, Rossi, recorrentemente, negligencia avanços comprovados da economia e da ordem social brasileira em prol de uma visão invariável e exclusivamente negativa do país.

Tal operação baseia-se num modelo analítico no qual tem pouca ou nenhuma importância os dados da economia real ou as conquistas da sociedade civil. Ambos são relativizados através de quatro estratégias argumentativas principais:

1) A ênfase nos problemas socioeconômicos que permanecem, mesmo após eventuais
avanços (como se possível fosse reverter a brutal assimetria que caracteriza o
país no espaço de um ou dois mandatos);

2) A comparação com aspectos positivos de nações mais desenvolvidas, sem contextualização alguma;

3) A comparação entre as conquistas de determinada administração e as promessas de campanha do respectivo candidato (esta estratégia torna-se recorrente com Lula; com os governantes anteriores foi utilizada com extrema parcimônia);

4) E, sobretudo, a persistência da corrupção, este um tema obsessivo de Rossi, pois, endêmica, funciona como um álibi que lhe permite sempre criticar, e com razão, o governo – qualquer governo.

Não há como negar que se trata de quatro dos mais graves problemas do país, assim como não dá para negar que são problemas só solucionáveis a médio ou longo prazo. Além disso, não é preciso ser nenhum gênio para notar que tais critérios criam uma fixidez avaliativa que não só não permite levar em conta as alterações temporais nas conjunturas às quais está submetida determinada administração, mas impede o reconhecimento de eventuais avanços por esta alcançado.

Exemplos concretos: durante o primeiro mandato, a administração federal criou 7,5 milhões de empregos. Para Rossi, isso é avaliado negativamente, pois Lula prometera criar 10 milhões de vagas; o bolsa-família (que ele, como a maioria dos colunistas da Folha, trata pejorativamente) tirou quase 40 milhões de pessoas (11.250.623 famílias, segundo dados oficiais) da miséria ou da pobreza; para Rossi isso nada significa, pois, como repete à exaustão, o lucro do capital continua superando o lucro do trabalho. Ou seja, alhos misturados a bugalhos.

Não que tal negativismo do colunista seja voltado exclusivamente a Lula. Na “Era FHC” – sobretudo no segundo mandato – Rossi foi dos mais enfáticos críticos da administração do então presidente. Acontece que com Lula tais críticas parecem mais recorrentes e mais cheias de azedume – além de muito raramente direcionadas a outros políticos, particularmente ao governador José Serra (o que não seria de se esperar de um colunista que ocupa uma coluna intitulada “São Paulo”, mesmo sendo esta prioritariamente voltada à análise da conjuntura política nacional).

Essa ausência de parâmetros comparativos condizentes, substituídos pela supremacia do criticismo exclusivamente negativo, leva o colunista a fomentar, como já dito, um sentimento anti-Brasil e um complexo de inferioridade do brasileiro em relação ao resto do mundo. Faz, ainda, com que ele emita opiniões por vezes esdrúxulas, pois sem correspondência na realidade. Para ficar só em exemplos recentes – por conta das acusações de corrupção contra Sarney, ele afirma que o Brasil é pior do que uma república bananeira e que deve desculpas a estas por ter comparado o país com elas (coluna "É puro deboche, de 15/07); que "A África é aqui" (título da coluna de 16/07), afirmação que negligencia dados oficiais e qualquer outro parâmetro de comparação que não a alegação de o Brasil não ter, segundo ele, instituições fortes; por fim, como um último exemplo, na coluna analisada na abertura deste artigo, ele corrobora o dito de Fernando Henrique Cardoso de que o Brasil seria um país caipira, pois voltado ao próprio umbigo e com poucos participantes no fórum de Davos...

Luís Nassif, em seu blog, livre das amarras de uma propalada e questionável "ética profissional" vigente na "grande mídia" segundo a qual "colega de profissão não fala mal de colega de profissão" tem produzido, amiúde, críticas diretas aos textos de alguns colunistas, os quais disseca analiticamente, aponta contradições e contrapõe argumentos. Dora Kramer, o "professor de Deus" Alexandre Schwartsman e o colega de Rossi na Folha, Valdo Cruz, estão entre os que receberam a atenção do blogueiro. No último domingo (19/07), ele analisa a coluna que Rossi publicara naquele dia, intitulada "É proibido silenciar" e na qual, lamentando que no Brasil alegadamente não exista a cultura do "accountability" (prestação de contas) da parte de servidores públicos, evidencia o complexo de inferioridade ao qual me referi acima.

"Por que o "accountibility" demorou vinte anos para ser praticado em relação à Sarney e só se manifestou agora? E por que a Folha deu vinte anos de espaço a Sarney sem jamais tê-lo cobrado por seus atos? E por que a cobrança é apenas sobre Sarney, se todos os senadores participaram de uma lambança que tem no mínimo 14 anos?" – pergunta Nassif.

Notáveis coberturas internacionais
O talento e o currículo de Rossi são indiscutíveis quando se trata de coberturas internacionais, área em que atua há 36 dos 40 anos dedicados ao jornalismo, tanto pelo Estadão (onde foi editor-chefe) quanto pela Folha, sendo que nesta foi correspondente em Madri e em Buenos Aires (ele trabalhou ainda no Jornal do Brasil, onde exerceu outras funções). Assinou matérias de alta qualidade, como as relativas aos primeiros encontros do Fórum Econômico Mundial em Davos (Suiça) e aos atentados terroristas em Madri, em 2004 (na qual, como assinalou Carlos Chaparro em texto reproduzido no Observatório da Imprensa, "produziu uma cobertura de valiosa densidade interpretativa").

Rossi forneceu, ainda, em algumas colunas memoráveis, uma visão mais pessoal e crítica dos temas internacionais tratados, como em "Auto-retrato em corpo alheio", em que, por ocasião da Declaração sobre a Comunidade Sul-americana de Nações, em Cusco (2004), analisa a devastação social que o neoliberalismo produzira no país, ou, como voz virtualmente solitária, na corajosa analogia entre os métodos israelenses e os nazistas na coluna "Massacre no gueto de Gaza" (30/12/2008).

Sua excelência na editoria internacional – que lhe valeu o prestigioso prêmio Maria Mors Cabot em 2001 - fica uma vez mais evidente na coluna do último sábado (18/07), "Os EUA vão para o spa", em que expõe e analisa, com grande capacidade de síntese, as novas diretrizes básicas da economia norteamericana, mais voltadas à exportação do que ao consumo e com claras preocupações ecológicas.

Avaliação histórica
Mas, se o correspondente internacional tem seu nome inscrito na história do jornalismo brasileiro, é incerto como essa mesma história julgará o colunista de política Clóvis Rossi, que ao negativismo e à intransigência que de ordinário o caracterizam (manifestadas não apenas nas colunas, mas na forma agressiva com que responde a leitores que ousam questioná-lo), vem acrescentar a forma anacrônica e mais uma vez ríspida com que se relaciona com as novas mídias (que a maioria dos jornalistas de ponta reconhece como um importante fórum de debate), as quais insiste em desqualificar com afirmações preconceituosas e genéricas - que acabam por sugerir receio ou desconhecimento.

Não fosse pela coluna-exceção referida na abertura do texto, quem acompanhasse o Brasil da "Era Lula" a partir da coluna de Clóvis Rossi teria a impressão de que atravessamos um período negro da história brasileira, e não uma fase de redução substancial das desigualdades sociais – bandeira histórica da esquerda que nenhum presidente conseguiu tornar efetiva nas bases atuais -; de bom desempenho econômico reconhecido pela maioria dos economistas; de uma administração federal aprovada por 67% da população e chefiada por um presidente com 80% de aprovação pessoal, para ficar em apenas três exemplos. Como a história julgará um colunista de política que se recusa a reconhecer tais fatos, enfatizando apenas os aspectos negativos – que também são consideráveis - do governo de turno?

(Originalmente publicado no Observatório da Imprensa em 21 de julho. Fiz modificações.)