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domingo, 21 de março de 2010

PORNOCHANCHADA!!!

Ao ressuscitar a pornochanchada, após décadas de ostracismo, as madrugadas do Canal Brasil repõem em circulação um período atípico do cinema brasileiro, em que evocações alegóricas e o interesse por temáticas sociais deram lugar ao entretenimento barato, de apelo erótico mas de uma sensualidade pudica para os padrões atuais, que fez a alegria de mais de uma geração de adolescentes atravessando aquela fase de, digamos, intensa atividade mano-sexual...

Ao contrário da versão que se tornou mais corrente (e que a Wikpiédia “compra”), a pornochanchada surge no final dos anos 60, com um pólo carioca (Reginaldo Faria, Pedro Carlos Rovai), de temáticas mais “malandras”, praianas e descompromissadas, seguido, já na década seguinte, por um pólo paulista, na “Boca do Lixo”, em que se destacam os produtores A. P. Galante, Alfredo Palácios e Osvaldo Massaini e que acabaria por incorporar, em alguns filmes, um subtexto político.

Um dado interessante das produções da Boca - feitas com orçamentos apertados e prazos bem curtos - é que, apesar de no mais das vezes não serem co-financiadas pelo Estado, elas respondem por cerca de 60% da produção nacional entre 1972 e 1982 (quando a estatal Embrafilme dominava o mercado), pagando-se na bilheteria, um luxo ao qual o grosso do cinema brasileiro atual não pode sequer sonhar.


Experimentalismo e política
Numa primeira fase, o gênero iria servir de plataforma de lançamento para diretores talentosos que iriam trilhar o caminho de um cinema mais autoral ou atuar no Cinema Marginal, com o qual a pornochanchada inicialmente às vezes se confunde. É destacadamente o caso de Carlos Reichenbach – o mais bem-sucedido estética e ideologicamente dos realizadores que dialogavam com a pornochanchada - mas também de João Callegaro (O Pornógrafo) e do porno-horror de José Mojica Marins (o "Zé do Caixão').

Com o tempo, a produção pornochanchadesca iria consagrar um elenco de realizadores identificados com o gênero , como Jean Garret (que dirigiu o "clássico" A ilha do desejo), Alfredo Sterheim, Ody Fraga (que tomou parte na direção dos dois A noite das taras), Fauzi Mansur, o hoje novelista Sílvio de Abreu, Tony Vieira, entre tantos outros.


Gêneros e popularidade

Como anota Nuno César de Abreu no verbete “Pornochanchada” do Dicionário do Cinema Brasileiro, “Servindo-se de um erotismo implícito, combinando títulos com duplo sentido, situações e quiprocós amorosos, piadas maliciosas e gags imaginosas, a pornochanchada condensa um imaginário que chega ao público ‘popular’ de forma precisa”.

Os títulos dos filmes filiados a tal produção fornecem uma ilustração que permite entrever tal relação: Reformatório das Depravadas; Tem Bububu no bobobó; O bem-dotado, o homem de Itu; Oh! Rebuceteio; O beijo da mulher piranha; Emoções sexuais de um jegue e por aí vai.


Musas eternas
A razão de ser das pornochanchadas são suas musas, que inspirariam gerações de adolescentes espinhudos, espectadores da Sala Especial da TV Record. Vera Fisher, no auge da beleza, fez filmes memoráveis, que de certa forma sobreviveram bem ao tempo, como A Superfêmea e Anjo Loiro (refilmagem soft-pornô de O Anjo Azul, com Vera no papel que fora de Marlene Dietrich). Helena Ramos (foto à esquerda)) reinava soberana entre as morenas, ao lado de Matilde Mastrangi, Zaira Bueno, Cristina Aché (que estreou o “clássico” Coisas eróticas, em que o protagonista se “apaixona” por uma... melancia)... Mas Aldine Muller - que anos depois, num ato de alta traição, tingiu os cabelos de loiro - também era páreo duro.

Adele Fátima, protagonista do clássico Histórias que nossas babás não contavam (analisado aqui pela pena do mestre Luiz Antonio Simas) reinava absoluta entre as negras (a rigor, Zezé Motta nunca fez pornochanchada, embora Xica da Silva dialogue com o gênero, como a campanha de marketing do filme de Cacá Diegues evidenciava).

Quanto às loiras, havia a belíssima Monique Lafond, a arrasa-quarteirões Vera Gimenez (mãe da não menos vuluptuosa apresentadora Luciana), as classudas Kate Lyra e Maria Lúcia Dahl (última foto) e a sumida Nádia Lippi (cuja foto encima este post, pois, com seus dentinhos proeminentes e olhos verdes, era uma favorita deste blogueiro), entre tantas outras musas.

Entre os homens (argh!), eram figurinhas carimbadas Nuno Leal Maia, Reginaldo Farias, Jece Valadão (que fazia o tipo machão e, para inveja dos pobres mortais, era casado com Vera Gimenez), Toni Tornado (um raro galã negro, exceção ao racismo dominane) e David Cardoso (que era também um bem-sucedido produtor).

Respeitabilidade e decadência
Havia ainda, em meio a toda essa produção, o caso dos filmes situados numa zona limítrofe entre o drama ou a comédia erótica e a pornochanchada, mas não necessariamente rotulados como esta. É o que ocorre com da obra de Walter Hugo Khouri, repleta de influências do cinema de arte europeu dos anos 60. Ela antecede e supera a época da pornochanchada mas dela se beneficiou até em termos de marketing – o qual invariavelmente enfatizava o harém de belas mulheres em cenas eróticas (a mais famosa delas, protagonizada por uma tal de Xuxa). Também ocupam essa zona limítrofe os filmes do já citado Carlão Reichenbach e, notadamente, dois filmes dirigidos pelo grande batalhador Neville D'Almeida: A Dama do Lotação (estrelado pela musa suprema Sônia Braga e que continua entre as três maiores bilheterias da história do cinema nacional) e Os Sete Gatinhos (1980), este último com um elenco de belas mulheres reunidas para uma sequência de taras de exaurir os aborrescentes mais atléticos. Troféu Pelo na Mão 1970!

A partir dos anos 80, uma série de razões – o advento do videocassete, a competição dom o pornô hardcore de baixo custo importado e, segundo alguns autores, até mesmo a democratização política (?!) – transformaria a pornochanchada no reino do sexo explícito. Ainda assim, alguns talentos excêntricos, como Sady Baby e Juan Bajon, e algumas “musas perversas”, como Sandra Morelli e a hiperfogosa Márcia Ferro se destacariam – mas com temáticas e abordagens não digeríveis por qualquer público.


Desatenção e culto
O preconceito contra a pornochanchada diminuiu nos últimos anos, e até pesquisadores das pós-graduações acadêmicas têm deixado a afetação blasé de lado e demonstrado interesse – ainda pontual e insuficiente – pelo período. Mas são necessárias muita pesquisa e sistematização para propiciar uma visão apurada e sincrônica desse período obscuro do cinema nacional. Fora da universidade, as informações são fragmentadas e imprecisas.

Quando, em meio a um zapping madrugadeiro, me deparo ocasionalmente com filmes da pornochanchada, não raro eles me agastam e não prendem minha atenção, mas às vezes encontro autênticas jóias de criatividade, humor e erotismo – e de uma certa espontaneidade e improvisação que andam faltando no cinema nacional atual, muito pseudo-hollywoodiano pro meu gosto.


(Crédito das fotos, em ordem de apresentação: 1, 2, 3, 4, 5, 6)