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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Kassab, Claudia Costin e os limites da realpolitik

Os limites entre, de um lado, a composição de alianças necessárias à governabilidade e à expansão da hegemonia política da aliança governista e, de outro, seus contraefeitos programáticos, ideológicos e éticos têm sido uma questão recorrente desde a ascensão do PT ao poder.

Apesar de toda a indignação que algumas dessas alianças provocam, soa a autoilusão e falta de realismo político a presunção de que o Partido dos Trabalhadores conseguiria efetivamente governar o Brasil sem a aliança com o PMDB - ou seja, sem dividir o poder com Sarney, Renan Calheiros e demais personagens que, em pleno século XXI, evocam, justa ou injustamente, a mística do coronelismo, do patrimonialismo e da corrupção. O sistema político brasileiro – que um cientista político chamou, com mordacidade, de “parlamentarismo presidencial” - praticamente impõe a formação de amplas coalizões governamentais. Do contrário, o isolamento palaciano e a impossibilidade de consumar um programa de governo tornam-se ameaças reais – Jânio Quadros e Fernando Collor que o digam.

Por outro lado, seria negligência desprezar o quanto tais alianças acabam por abrir flancos que tornam o PT vulnerável a críticas que exploram implicações éticas. O próprio escândalo do “mensalão” deriva de tal dinâmica, já que seu dínamo indutor vem da instisfação do PTB de Roberto Jefferson para com o modo como a Casa Civil de José Dirceu vinha partilhando as benesses do poder.


O fator mídia
A mídia nativa, por sua vez, comprometida com a agenda do conservadorismo e visceralmente antipetista, explora ao máximo tais flancos, valendo-se das armas do denuncismo neodenista e de um duplo sistema de valores, o qual, por um lado, supervaloriza e trata como fato consumado os mínimos indícios de irregularidades dos governos petistas e, por outro, negligencia a cobertura até de graves e comprovados casos ocorridos na seara demotucana – como o modo como a privataria tucana e a invasão de Pinheirinho (não) foram tratadas nos jornais e na TV ilustra de forma irrefutável.

O fato de a política petista de alianças receber dos órgãos de comunicação campanha condenatória a priori, numa prática incompatível com a deontologia do jornalismo, com a verdade dos fatos e com uma democracia avançada, não significa, no entanto, que toda e qualquer aliança seja válida e esteja isenta de questionamentos éticos – e a prova disso é o mal estar que algumas coligações recentes, cuja elasticidade extrapola consideravelmente a faixa do espectro político à qual o partido historicamente se filia, têm causado entre simpatizantes e eventuais eleitores do PT, muitos dos quais vacinados contra o moralismo casuísta da mídia.


Realpolitik e hegemonia
Para melhor contextualizar a questão, convém recordar, ainda que de forma breve, o processo de formação da coligação que levou Lula à Presidência: superando resistências internas e externas, a aliança capitaneada pelo PT, que teve como principal parceiro o PMDB, incluiu partidos conservadores como o PP, o PL e o PMN (além do PTB e dos esquerdistas PCB e PC do B). Foi amalgamada sob o comando de José Dirceu, com a colaboração decisiva de José Alencar para o estabelecimento de diálogo com alguns setores do empresariado, refratários ao petismo. Por ter sido anunciada antes da eleição, foi dado ao eleitor saber a que forças políticas estaria dando o seu voto.

A partir daí, porém, se assiste, no bojo do início claudicante da presidência Lula, da crise política advinda com as denúncias do “mensalão” e das tentativas ininterruptas da imprensa e da oposição de manterem, via denuncismo, o governo nas cordas, a um esforço renitente de ampliação da base aliada, o qual volta e meia provoca surpresa ou indignação, como na aliança com o ex-presidente Fernando Collor, que, além dos ataques baixíssimos a Lula na campanha presidencial de 1989, um dia após tomar posse como senador eleito pelo PRTB trocou este partido pelo PTB, a convite de ninguém menos que Roberto Jefferson.

Nessa altura, ao passo em que setores da militância tornam-e adeptos, eventualmente entusiasmados, de um pragmatismo infeso a poderações éticas ou ideológicas, um sentimento antes difuso de que há limites para a realpolitik - presente em maior ou menor grau desde o início do governo - e o questionamento acerca da relação custo-benefício inerente à ampliação da hegemonia petista – e dos limites desta - ganham corpo mesmo entre setores pró-PT. O choque entre essas duas visões, latente no decorrer da última década, se tornaria explícito nas eleições municipais paulistanas deste ano.



Eleição de Haddad
Durante tal campanha eleitoral, a aliança com o PP de Maluf provocou quase um cataclismo nas hostes petistas, e justamente por, com direito a foto e beija-mão no palacete do político, ter soado menos como uma aliança partidária visando tempo televisivo e mais como um pacto para exploração do decadente mas ainda efetivo prestígio de Maluf entre segmentos do eleitorado. Se o apoio do PP e de Maluf foi determinante para eleger Haddad não se sabe, mas que talhou uma ferida ética a evidenciar a falta de escrúpulos no atual modo petista de fazer política, afagando um criminoso internacional procurado pela Interpol, não há dúvidas.

Para completar, mal se elegeu e Haddad viu-se numa saia justa herdada de tal aliança, com seu silêncio ante as inquirições acerca da condenação imposta pela corte de Jersey ao político brasileiro mais suspeito de corrupção na história recente do país, a qual o obriga a devolver U$22 milhões aos cofres da Prefeitura de São Paulo. A militância petista tentou culpar a imprensa, mas desta vez não procede, pois é, sim, interesse do cidadão saber o que a Prefeitura fará para se certificar de receber o ressarcimento determinado pela Justiça.



Tucanos e peessedistas
Neste momento, a questão das alianças uma vez mais se recrudesce: anteontem, o governo Dilma anunciou a nomeação da tucana Cláudia Costin para a Secretaria de Ensino Básico do MEC, para desgosto de pedagogos sérios, temerosos da gestão de uma administradora que já deu mostras suficientes de ter uma visão privatista de educação. Causa estupefação que um partido como o PT, com acesso a quadros de alto nível na universidade brasileira, prefira colocar uma área essencial da Educação sob responsabilidade de uma típica gestora aos moldes peessedebistas.

Mas não para aí: acaba de ser costurado um acordo com o PSD de Kassab para que apoie a gestão de Fernando Haddad – em troca, entre outras benesses, da manutenção de uma grossa fatia de poder na Câmara Municipal, é claro.

Deve ser difícil para o cidadão comum compreender como o mesmo partido que passou meses , desqualificando Kassab, chamando-o de serrista, higienista, “fascista” e outros istas, se alinha com o futuro ex-prefeito já no mês seguinte às eleições municipais. Trata-se do tipo de procedimento que, à revelia de ser politicamente proveitoso para o PT ou não, tende a soar extremamente questionável, desabonador para os padrões éticos da sigla, mesmo no julgamento de muitos eleitores ou simpatizantes.


Vácuo ideológico
Além disso, é desnecessário apontar que Kassab – que tem elos históricos com José Serra - já deu mostras mais do que suficientes de não ser confiável como aliado, além de amorfo do ponto de vista político-ideológico (tornou-se um clássico do oportunismo sua declaração de que “O PSD não é de direita, esquerda ou centro”). Soa no mínimo displiscente que um partido que acaba de vivenciar o imbroglio do “mensalão” insita em se aliar com raposas políticas, como tais, pouco leais e comprovadamente volúveis.
Assim, Insisto em questionar:

1) Se o PT quer se apresentar, na capital paulista, como uma alternativa ao demotucanato, como fazê-lo se aliando justamente a uma figura política que ven sendo, por muito tempo e até um mês atrás, um dos símbolos da hegemonia demotucana em São Paulo e de muito do que o PT alega combater?
2) Qual o limite, para a centro-esquerda, de relativização dos valores éticos e ideológicos, e a partir de que ponto, ao adotar esse relativismo, ela mimetiza valores conservadores, os relativiza enquanto tais, e com o conservadorismo se confunde?

O risco da indistinção 
Esta última questão afigura-se fundamental, e tem levado à reflexão setores que historicamente apoiaram o PT, no funcionalismo público, humilhado na campanha salarial deste ano; na classe média urbana progressista, que se tornou vítima da histeria totalitária ora vigente contra tal classe social; e entre ideólogos e intelectuais, hoje tão desprezados pelo partido e por sua militância, cujo culto messiânico a Lula inclui a exaltação da intuição em detrimento da reflexão – uma inversão de valores que, paradoxalmente, o próprio Lula repetidas vezes desautoriza, com a centralidade que atribui à educação.

É palpável - e fenômenos como a movimentação causada pela candidatura de Marcelo Freixo no Rio o demonstram - que há, atualmente, entre parcelas dos apoiadores e aliados históricos do PT, um cansaço para com o excesso de pragmatismo em detrimento da coesão político-ideológica, vicissitude que está longe de se limitar às questões relativas a coligações – abrangendo temas como retorno à privatização, ênfase na gestão econômica, não-priorização de Educação e Saúde e trato truculento com o servidor público -, mas para a qual as alianças com tudo e com todos, à revelia da coerência e da ética, contribuem consideravelmente. 

A partir do momento que o PT se alia com o adversário demo-peessedista que até ontem combatia e que nomeia uma tucana para cuidar do ensino básico, torna-se cada vez mais iminente o risco de o partido, malgrado os inegáveis avanços sociais que vem patrocinando, nublar os princípios e conteúdos programáticos que o distinguiriam dos partidos que a ele se opõem.


(Imagem retirada daqui)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Diretas-Já


Eu tinha 16 anos, dezenas de namoradas e cantava em uma banda de punk rock. Minha vida era plena de hedonismo. A principal preocupação era impedir que uma namorada descobrisse a(s) outra(s) – algo que hoje me parece sem sentido, pois é óbvio que elas sabiam, mas na época eu não atinava com isso.

Lembro perfeitamente do dia do comício das Diretas-já: era uma tarde quente, e eu estava no pátio da escola, beijando uma namorada – que era tipo a número 1. Aproximou-se a mais temida das inspetoras de alunos (que nós chamávamos “serventes”, o que hoje me parece preconceituoso), dona Elza, e começou a berrar com ela, me esculachando: que ela era a terceira garota que eu beijava naquele dia, se ela não tinha auto-respeito, o que a mãe dela ia pensar disso e por aí vai. Achei que a garota fosse embora, mas não. Ela sorriu. E continuamos ali, nos divertindo. No meio da tarde a levei pra casa e depois fui buscar outra garota, chamada Ana. Foi com ela que fui ao comício (sinto-me incrivelmente canalha escrevendo isso, mas é a verdade).

Aninha me presenteou com um chapéu de feltro vermelho, que eu adorava, e o utilizei o tempo todo. Havia no ar, desde o momento em que pegamos o ônibus, uma atmosfera especial, que parecia nos dizer: hoje é um dia único, vocês estão protagonizando a história.

A praça da Sé estava apinhada. Ficamos de frente para a catedral, do lado direito, e ainda hoje, quando olho uma grande fotografia aérea que tenho emoldurada, costumo brincar, apontando um ponto em meio ao mar de gente, dizendo: “Este aqui sou eu”.

É vívida na minha memória a voz do locutor Osmar Santos – que foi um dos grandes fenômenos radiofônicos do país antes de sofrer um grave acidente - gritando: “Diretas quando, São Paulo?”, e todos respondendo, em uníssono, “Já!!!!”. E das tentativas de, cantando o refrão: “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”, derrubar uma perua da vênus platinada, emissora que jamais cobrira o movimento popular até então – embora hoje, apelando até a truques de edição posteriores, tente renegar isso.


Lembro bem da emoção que provocou o discurso de Franco Montoro, então governador de São Paulo – e um político anos-luz à frente do que o PSDB, então inexistente, se transformaria. Ouço ecos de Faoro, de Bicudo, de personalidades que eu ou intuía ou sabia devido à militância de meu pai serem figuras importantes, mas que não tinha elementos para julgar por mim mesmo. Havia também momentos indefectíveis, como “Coração de estudante”, de Milton Nascimento, e o hino nacional cantado por Fafá de Belém, que já àquela época pareciam algo piegas (embora, a bem da verdade, no calor do ato cívico, não deixassem de ter seu encanto).

Lembro também que havia uma enorme bandeira do Brasil, que passava de tempos em tempos, nos encobrindo por vários minutos, permitindo que Aninha e eu nos agarrássemos de forma mais ousada. Num desses “amassos” roubaram meu chapéu... Que raiva!

A minha memória das Diretas-Já é assim: mescla personagens e situações históricas e memórias de uma sexualidade adolescente vivida ingenuamente e sem culpas.

Mas o dia da votação da emenda Dante de Oliveira no Congresso não teve nada de erótico. Foi triste, muito triste. Lembro do sentimento de derrota que nos acometeu ao final da noite, quando, embora a votação fosse avançar madrugada adentro, estava evidente que seríamos derrotados. Lembro de faces com lágrimas escorrendo, de um sentimento de uma derrota que nos custaria anos, como de fato custou. Lembro de um abraço longuíssimo e doloroso de uma pessoa de que eu gostava muito, cujo sentido era claro e se confundia com o político: poderíamos ter sido muito felizes, mas não fomos. Nunca mais, nesses anos todos, a vi de novo.

Figueiredo foi o mais burro e o mais inapto dos mandatários brasileiros. Poderia ter passado à história como o presidente que promoveu a transição democrática, mas não. Passou como um bronco, que dizia preferir o cheiro dos cavalos ao do povo.

Respeito a posição do PT à época, de recusar as eleições indiretas no Congresso. Era o que um partido de esquerda tinha a obrigação de fazer. Mas nunca comprei a versão – aparentemente consolidada - de que Tancredo seria “mais do mesmo”, como afirmam tanto blogueiros imaturos quanto comentaristas suspeitos, como Nelson Motta – cuja alma matter de todas as horas, a Rede Globo, foi a principal fiadora e apoiadora de Sarney.

Primeiro porque personalidade conta muito em política. Dilma não será Lula, Eduardo Gomes não foi JK. Segundo porque Tancredo tinha uma história política consolidada: principal ministro do Getúlio eleito, negociador da posse de Goulart sob o parlamentarismo. Um centrista, um conciliador. Não dá para comparar com Sarney, egresso da Arena – partido de apoio ao regime militar – e coronel do estado mais pobre da federação (e, como alguém já observou, o mais insensível socialmente dos coronéis, pois até ACM legou o Pelourinho e uma Salvador modernizada aos baianos, enquanto as magníficas construções de São Luís caem aos pedaços e a pobreza grassa no Maranhão).

De qualquer forma, a derrota nas Diretas-Já, seguida da trágica e altamente suspeita morte de Tancredo foram episódios traumáticos e de consequências nefastas para o país – as décadas perdidas, como a história as denominou e como os inegáveis avanços propiciados pelo governo Lula – em relativamente pouco tempo – confirmam. O quanto poderíamos ter avançado se tívéssemos tido um presidente eleito em 1985?

Apesar de tudo, confesso que sinto um grande orgulho de ter participado das Diretas-Já. Foi uma luta justa, que – numa época em que não havia internet – uniu amplos contingentes da população em oposição ao governo de turno e à então toda-poderosa Rede Globo.

Na minha opinião, tratou-se de um movimento mais autêntico do que aquele contra Collor – no qual, embora eu também viesse a tomar parte como cara-pintada, foi, hoje se constata, excessivamente manipulado pela imprensa, Folha de São Paulo à frente. As Diretas-já foram mais intensas, expressaram desejos coletivos longamente repressados e que poderiam vir a ter consequências certamente maiores, se bem sucedidos.

Perdemos a batalha, mas de coração jovem e nobre e de cabeça erguida.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Brasil, país da alegria

Pode-se acusar o Brasil de muitas coisas, menos de não ser um país engraçado. Neste exato momento, por exemplo, vivemos uma situação curiosíssima: a candidata da auto-denominada “esquerda” à Presidência, Marina Silva, deve lançar-se pelo Partido Verde (a cor, caro leitor, não se refere à imaturidade política do mesmo, mas sim à alegada priorização da ecologia), agremiação política comandada pelo notável defensor da natureza que é Zequinha Sarney (MA).

Zequinha, como o nome indica, vem a ser filho do cordial coronel José Sarney (PMDB-AP), até há pouco o homem forte do governo no Senado, o qual preside, e atual recordista de resistência individual no jogo de derruba-governo praticado pela oposição e pela mídia (que, em mais uma das peculiaridades dessa terra fascinante, vêm a ser a mesma coisa).

Não para por aí: o PV tem como estrela eleitoral Fernado Gabeira (RJ), aquele sujeito que muda de ideia como troca de sunga, que já foi guerrilheiro, depois virou ambientalista e defensor das minorias sexuais e canabisais, dai tornou-se deputado petista, depois mudou radicalmente de opinião uma vez mais e aderiu ao neoudenismo, tornando-se queridinho da mídia nacional, candidato da direita tucana no Rio de Janeiro e, completando esse triste quadro de decadência, colunista da Folha de S. Paulo. Pessoa muito coerente, como se vê. Pois Gabeira, sabe-se lá com que interesses (mas com conhecimento de caso), já declarou que Marina será “linha-auxiliar” do PSDB.

O prezado leitor está confuso? Eu também. Então vamos resumir a ópera-bufa: a candidata da “esquerda” será lançada pelo partido do filho do líder governista no Senado, partido este que é ligado à direita, capisce?

Não que essa transfiguração da esquerda em direita constitua novidade, longe disso. O PSOL, que pode vir a ceder sua “estrela” Heloísa Helena (AL) como candidata à vice de Marina, segue quase sempre os votos do PSDB e do restante da direita nas casas legislativas, a um ponto tal que certas línguas ferinas (no caso, a minha) deram pra sugerir que a sigla significa Partido de Suporte à Oligarquia.

A divisão da esquerda pela direita, para que esta ganhe eleições, também é historicamente recorrente. A única exceção à regra são os dois pleitos vencidos por Lula (João Goulart, numa piada institucional hilária, fora eleito para vice de um presidente contra o qual seu partido concorrera).

Mas o próprio Lula protagonizaria a mais nociva das divisões da esquerda em prol da direita, ao disputar com Brizola, em 1989, quem iria ao segundo turno com Collor. Segundo as pesquisas, Brizola, vencendo o primeiro turno, derrotaria Collor. Ao invés de um acordo que lhes garantiria vitória certa no primeiro turno, os dois oposicionistas preferiram o confronto entre si. E assim o país, numa piada de humor negro, perdeu a oportunidade de, após 25 anos de ditadura militar, eleger um candidato de esquerda, que significasse o repúdio de facto e de direito ao período autoritário.

Mas por que mesmo devaneio por esse triste passado se o assunto do post é o humor que perpassa a política brasileira, atualmente encarnado pela candidatura de Marina Silva, saudada, com isenção de interesses, por todas as nossas revistas semanais? Perdão, caro leitor, não há relação alguma de uma coisa com a outra, ne-nhu-ma.

O Brasil, como eu escrevi lá no início, é um país engraçado. Só não estou certo se poderemos continuar dando risada se a irresponsabilidade dessas “esquerdas” que não se avexam de servir sempre à pior direita acabar por entregar de novo o poder ao privatismo anti-Brasil e anti-povo do conluio PSDB/DEM. Pois se a combinação de ingenuidade e leviandade política prosseguir, eles podem vir a rir por último.


(Imagem retirada daqui)

domingo, 9 de agosto de 2009

Ataque à democracia disfarçado de campanha cívica

Desde que o atual Presidente da República tomou posse, em 2003, a oposição não se preocupou em apresentar um projeto alternativo ao país, em debater idéias, em criticar objetivamente os problemas e dizer qual seria a solução que adotaria se fosse governo.

Ao invés disso, preferiu brandir tão-somente a bandeira da ética, como se condições para tal tivesse. Como demonstram a cada vez mais complicada situação da governadora Yeda Crusis (PSDB/RS) - contra quem o Ministério Público Federal/RS acaba de ajuizar denúncia por improbidade administrativa -, e do cara de madeira do senador Arthur Virgílio (PSDB/AM), não as tem.

Há várias maneiras de se contar a história dos dois mandatos presidenciais de Luís Inácio Lula da Silva. Uma das mais plausíveis é a da atuação de um conluio entre oposição e mídia tentando sucessivamente criar escândalos para derrubar o governo – daí deriva a denominação jocosa PIG (Partido da Imprensa Golpista), criada por Paulo Henrique Amorim e que eu, embora reconheça ser, no mais das vezes, procedente, evito usar para não generalizar.

Apesar do hercúleo esforço do conluio mídia-oposição nesses seis anos e meio, nenhuma denuncia sequer chegou perto de atingir diretamente a figura do presidente Lula, ao contrário do que aconteceu com Fernando Henrique Cardoso, que foi reiteradas vezes acusado de compra de votos para a reeleição, incluindo capa na revista Caros Amigos (porque os demais veículos da “grande imprensa” logo “esconderam” a notícia) em que o jornalista Fernando Rodrigues, da Folha de São Paulo, mostra uma fita em que alegadamente estariam gravadas as provas da operação ilegal.

No entanto, ao contrário da difusão, na Era Lula, de termos como “aloprados” e “mensalão”, não foi pespegado nem em FHC nem em outros membros de seu governo - sobre os quais pesam suspeitas no caso Sivam, de instalação de radares na Amazônia; no socorro financeiro aos bancos Marka e FonteCindam; e, para ficarmos em apenas três exemplos, no processo de privatização feito “no limite da irresponsabilidade”, como confessou o assessor e ex-tesoureiro Ricardo Sérgio a FHC – nenhum rótulo de fácil identificação visando associá-los a atos supostamente corruptos. Isso porque poucos governos na história da democracia no país tiveram da mídia um tratamento tão benevolente e camarada – recompensado a contento, é claro.

O caso Sarney representou uma espécie de culminância do denuncismo como arma políitca. A um ano das eleições, a remoção do Presidente do Senado que apoia Lula significaria, no mínimo, abrir caminho para uma nova e atabalhoada eleição interna na Casa: poderia-se tentar jogar o PT contra o PMDB como forma de empossar Marconi Perillo (PSDB/GO) ou, no mínimo, criar um tertius, um novo Severino Cavalcanti para “bagunçar o coreto”.

Agora, com o arquivamento das acusações contra o senador maranhense na Comissão de Ética do Senado, e com a possibilidade de sua retirada do poder restringindo-se à execução de uma combinação de estratégias-limite, cria-se um novo factóide, sob a alegação de que a sociedade não aguenta mais: a renúncia coletiva do Senado.

Trata-se de uma espécie de “Cansei II, o Retorno”. Manipula-se a plenamente justificável indignação popular para uma manobra político-partidária das mais baixas, pois não apenas a renúncia coletiva da Casa teria efeitos paralisantes na administração federal (que depende da anuência do Senado para aprovar verbas e orçamentos, Medidas Provisórias e nomeações de agentes públicos), mas porque o caos que se criaria em decorrência de tal vazio institucional seria, fatalmente, jogado nas costas do presidente Lula, que ficaria, por um bom tempo e às vésperas da eleição, à frente de um governo inoperante.

À medida em que se minimizam as chances eleitorais da oposição, é palpável o desespero que dela se apodera ante a perspectiva de passar mais quatro anos longe das benesses do poder - e da possibilidade de acabar de privatizar o Estado e de entregar o país de vez ao grande capital internacional. A proposta de renúncia coletiva ao Senado pertence a esse contexto.

Trata-se, evidentemente, de uma medida extrema, que atenta contra a própria noção de democracia, pois os senadores lá estão porque foram eleitos pela população. Se a população os considera corruptos ou não está satisfeita com seu desempenho, ela que troque o Senado nas próximas eleições, como manda a Constituição. Qualquer outra solução significa rompimento da ordem institucional e ataque frontal à democracia: trata-se de solução golpista com aparência cívica.

É simplesmente inacreditável que pessoas que se dizem democráticas apoiem tal medida. Ingenuidade em excesso, definitivamente, faz mal.


(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Entre o pragmatismo e a repugnância

Um orador sobe à tribuna e passa a fazer um discurso eloquente. Seu nome é Fernando Collor de Mello, e por mais que eu me esforce para reagir racionalmente, sou sempre dominado por emoções intensas quando o vejo novamente em ação: lembranças traumáticas, repulsa, nojo – uma sensação de inconformismo ante a constatação de que uma figura pertencente a uma página que eu supunha virada da história está de volta: “belo e formoso”, como diriam com sarcasmo minhas tias italianas – e, pior, eleito.

Seu eloquente discurso é contra seu colega de Senado Pedro Simon. Nunca consegui confiar nesse gaúcho franciscano, que descende da ala esquerdista do PMDB e fez uma longa carreira brandindo a bandeira da moral. Se eu fosse fazer um filme sobre política ele seria minha primeira opção para representar um demagogo que se vale do denuncismo moralista como forma de manutenção do poder político. Não que eu saiba de qualquer denúncia séria em que ele estivesse envolvido – simplesmente não vou com a cara dele, só isso. O que há de concreto em relação a Simon é a insistência na contradição surrealista de dar apoio à governadora de seu partido contra a qual pesam graves acusações de corrupção ao mesmo tempo em que defende, com seu teatralismo excessivo, a saída do senador também de seu partido igualmente acusado de corrupção.

E é justamente contra a defesa que Simon fez da saída de Sarney da Presidência do Senado que Collor se insurge no discurso. Eu sei que só as “velhinhas de Taubaté” e (o que vem a ser a mesma coisa) a ala poliana do PT não percebem que ejetar Sarney da Presidência do Senado não passa de uma estratégia da oposição para tentar tirar das forças situacionistas uma posição vital da República a pouco mais de um ano das eleições presidenciais. Há de se considerar, ainda, que mesmo se a operação de extração do coronel maranhense fosse bem-sucedida, faltaria ainda expurgar do Congresso mais 299 “picaretas”, segundo as contas e as escolhas vocabulares que nosso atual Presidente da República fez tempos atrás.

De qualquer modo, ao atacar Simon e defender Sarney, o discurso de Collor visa beneficiar, em última análise, o governo Lula. Como esse apoio teoricamente ajudaria a tornar ainda mais remota a possibilidade de o país, após as próximas eleições, voltar a ser governado pelo privatismo anti-Brasil e anti-povo do conluio DEM/PSDB – hipótese que considero catastrófica – eu deveria me regojizar com a atitude de Collor, como outros colegas que compartilham de visões políticas semelhantes fizeram e continuam fazendo, na internet ou no mundo, vasto mundo, ante o destemido discurso do ex-caçador de marajás alagoano.

Afinal, a pantomima cínica e hipócrita de virgílios, álvaros e rauls, que disfarça pragmatismo político em moralismo tosco, pede uma resposta à altura. Por outro lado, como o PSOL – que sofre da doença infantil do esquerdismo – empurrou o governo Lula no colo dos representantes da pior elite, preferindo transformar-se em linha-auxiliar da direita privatista/financista sem receber nada em troca, o jogo político tem de ser jogado com as peças à mão. No entanto, mesmo fazendo todas essas ressalvas, a aliança do atual governo - sabe-se lá em troco do quê - com o ex-presidente enxotado do poder ultrapassa os limites do bom senso e esgarça ainda mais o tecido da realpolitik lulista.

Afinal, Collor atacando Simon para defender Sarney, tendo por fim preservar interesses políticos de Lula soa, para mim, como realismo fantástico em forma de política.

Ao mesmo tempo em que marca, à revelia da razão, o ponto a partir do qual minhas escolhas políticas perdem importância ante minhas convicções éticas, como indica o enjoo de estômago e os engulhos de repugnância que sinto ante tamanha nojeira.


(Imagens retiradas, respectivamente, daqui e dali)

domingo, 26 de julho de 2009

Hipocrisia e Corrupção

Rodoviária do Rio de Janeiro – um dos terminais mais feios e anacrônicos do Brasil. O sujeito, cansado após um dia de trabalho sob o calor carioca, encosta a boca no guichê da empresa de ônibus e pede uma passagem para São Paulo. Paga e fica aguardando o troco:

- "O doutorrr qué viajá sozinho ou acompanhado?"

Com um sorriso amarelo e cara de pateta, o “dr.”, que não tem grana nem pra pegar uma ponte aérea, solta um muxoxo:

- "Sozinho..."

E se afasta do guichê, deixando os R$5 e pouco como pagamento pelo “conforto extra” da viagem solitária.


Rodovia Ayrton Senna – uma das melhores vias intermunicipais do país. O Corolla “voa” no tapete de piche. Subitamente, após uma curva mais fechada, o “guarda” manda encostar:

- "'Carteira' e documento do carro" – exige o sisudo homem da lei, os olhos frios por detrás do falso Ray-Ban – "O sr. sabe a velocidade em que estava?"

- "Tava abaixo do limite, 'seu' guarda, uns 110, 120, não pode ser mais que isso...eu tava controlando..."

- "183, meu amigo, tu tava a 183" – grunhe o “polícia”, devolvendo os documentos.

Segue-se um silêncio sepulcral. Nem o motorista insiste em alegar inocência, nem o guarda começa a lavrar a multa .

- "...e..não teria como a gente resolver isso? – arrisca timidamente o motorista, embora quisesse soar como malandro escolado".

- "O sr. está tentando me subornar?" – replica, seco, o agente da lei.

Segue-se um brevíssimo momento de tensão para o motorista (“será que além da multa ele vai me prender por corrupção ativa?!!”), logo desarmado pelo sorriso irônico com que o guarda encerra o seu ato teatral.

Negocia daqui, pechincha de lá, e o motorista arranca com seu carrão, não sem antes dizer, meio como desaforo ao guarda, meio como forma de se auto-consolar:

- "É... 'vamo' ajudar o governo a construir outra estrada como essa" – (como se o dinheiro que o guarda embolsou fosse para os cofres municipais...).

[Aviso para fins legais: esta é uma história de ficção saída de minha mente excessivamente imaginativa; qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais terá sido mera coincidência.]


Os exemplos acima são ilustrações das mais pueris de um problema crônico do pais: a corrupção. Escancarada ou implícita, em espécime ou em cargo e favores, ela, secular, vem sendo, há décadas, mais e mais capilarizada, corroendo o tecido social e ferindo de morte a meritocracia.

Quanto a esse último item, a área em que o preparo e o conhecimento são substituídos de forma sistemática e há décadas pelo compadrio e pelos laços de panelagem é justamente aquela em que os primeiros são de essencial importância para o exercício da profissão: os concursos para professores das universidades públicas. Trata-se de um dos maiores escândalos continuados da história do país, digno de várias CPIs - se CPIs dignas de alguma coisa fossem; material para manchetes sucessivas nos jornais e para o Willian Bonner franzir tanto suas sobrancelhas, antes de vocalizar sua indignação, que elas ficariam com torcicolo.

Mas a mídia não dá a mínima bola para o tema, assim como se recusa a discutir as razões estruturais da corrupção, preferindo manter o foco exclusivamente voltado aos políticos, fulanizando e atendo-se sempre ao acusado da vez – como se este fosse a exceção, e não uma das milionésimas partes da regra. Afinal, business is business e o negócio do jornalismo é vender jornais. Aquela história de “um jornal a serviço do Brasil” e patranhas semelhantes que invariavelmente invocam o ideal iluminista que o jornalismo clama para si não passam de uma jogada de marketing para valorizar o produto e incrementar as vendas. Serviço público? Não me faça rir...

Em decorrência dessa dinâmica, a corrupção revela um de seus efeitos secundários: o florescimento (sic) da indústria da denúncia seletiva, que fabrica pseudo-motivos para os berros dos datenas e dos bóris, os suspiros indignados dos waacks e dos sardenbergs e a pena nervosa das elianes, lúcias, doras e demais meninas dos jôs (aaargh). Além, é claro, de municiar os animadores de auditório do Congresso, como virgílios, álvaros e até um senador gaúcho que consegue a proeza de defender a renúncia de Sarney e apoiar a governadora Yeda Crusius ao mesmo tempo. Forma-se, então, um nefasto círculo vicioso, em que corrupção e hipocrisia se confundem e se retroalimentam mutuamente, para deleite da platéia – pois trata-se de panis et circenses, como adivinha o Mello.

E assim chegamos ao escândalo da vez: é preciso ser um analfabeto político para achar que as acusações contra Sarney têm motivação outra que a mais cruenta briga política. Como aponta Luis Nassif, “a atual campanha contra ele tem propósitos nada moralizantes. O que se quer é derrubar o senador e transformar o Senado em fator de instabilidade política para 2010”. Só mesmo o PT e seu polianismo politicamente amador para querer brincar de entregar o ouro ao bandido numa hora dessas. Nâo vou nem me estender no debate do absurdo que é um político que há 44 anos protagoniza a vida pública tornar-se da noite para o dia o corrupto-mor da nação – como se todos não conhecessem suas práticas de há muito -, pois já escrevi o que penso sobre o tema. Trata-se de algo tão absurdo quanto o fato de ele não ter sido investigado antes.

Portanto, só para concluir, mesmo achando a corrupção um mal terrível, um verdadeiro câncer, um entrave ao desenvolvimento do país e uma das razões principais para que o Brasil seja o Brasil e algumas nações desenvolvidas paupérrimas em recursos naturais sejam nações sócio-economicamente desenvolvidas em âmbito mundial, sou contra a renúncia de Sarney e denuncio como hipócrita e oportunista a súbita escalada de acusações contra ele patrocinada pelo conluio entre PSDB/DEM e a “grande mídia”.

Eu apoiaria uma ação global de combate à corrupção, nos âmbitos municipal, estadual e federal, de caráter não-populista, não-neoudenista, sem caça pública às bruxas, executada estritamente dentro das margens da lei e com eventuais vazamentos de informações prejudiciais à honra de outrem rigorosamente punidos. Por razões óbvias, não creio ser possível executar algo assim nem agora nem a médio prazo, mas trata-se de uma idéia para se meditar sobre e para ser paulatinamente inserida no debate público.

terça-feira, 7 de julho de 2009

O PT e a Síndrome de Pollyanna


Durante anos ouvi e li críticas ao Partido dos Trabalhadores (PT). Como elas vinham mais de setores conservadores do que de partes da esquerda, e como eram publicadas na imprensa em número muito maior do que as que se referiam a outros partidos, sempre as encarei com desconfiança.

Algumas me pareciam francamente injustas – como a recorrente acusação de que o PT se valia de denuncismo como principal forma de oposição aos governantes dos outros partidos. Basta pesquisar nos anais do Congresso o número de vezes que o partido votou a favor de medidas propostas pela base aliada de FHC porque as julgava procedentes (e compará-lo com as vezes que o PSDB e o DEM fizeram o mesmo em relação à Presidência de Lula), para que tal afirmação se mostre inverídica. Mais: ante o denuncismo real e exacerbado que desde a posse de Lula é a única forma de “fazer política” de uma oposição (PSDB, DEM, PPS) que, apoiada pela “grande mídia”, viciou-se num jogo de derruba-presidente, chega a ser hipócrita atribuir tal característica unicamente ao PT, como de ordinário diversos colunistas o fazem.

Isso não quer dizer que o moralismo não fosse um dos traços definidores – e, como veremos, uma razão central para algumas das maiores crises – do partido. Mas, a despeito dessa característica, havia espaço para a prática política pragmática - comportamento que não se verificou nos partidos que fazem oposição a Lula quando este assomou à Presidência.

Ascenção marcada por recuos e hesitações
Com a dèbâcle do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partido dos Trabalhadores passou a ser, desde sua criação em 1980 e ao menos até o momento anterior aos preparativos para a campanha presidencial de Lula em 2002, o partido mais capacitado para representar a esquerda. E não apenas por contar com os melhores quadros entre sindicalistas, intelectuais, economistas e demais profissões; mas por oferecer o mais elaborado conteúdo programático, mesmo porque este era ferozmente debatido nas disputas entre os grupos internos do partido – disputa essa que, embora fosse um prato cheio para a mídia explorar suas divisões internas, fazia do PT a agremiação política mais arraigadamente democrática. (Só para efeito de comparação, lembremos que o PSDB escolhe seus candidatos reunindo seus quatro caciques em torno de uma garrafa de vinho num restraurante 5 estrelas.)

Assim foi até o momento em que o Partido dos Trabalhadores começou a ganhar eleições importantes. A passagem de pedra a vidraça fez muito mal à agremiação. Começou com Maria Luiza Fontenelle, eleita prefeita em Fortaleza em 1984 e largada pelo partido às traças quando passou a ser sabotada pelo neocoronelismo cearense; se repetiu com Thelma de Souza (eleita prefeita de Santos em 1988) e, sobretudo, com a primeira grande conquista eleitoral do partido, a prefeitura de São Paulo, através da derrota que, em 1989, Luiza Erundina impingiu a Paulo Maluf (e à mídia, que distorceu os números das pesquisas eleitorais o quanto pôde, fazendo-os saltarem bruscamente na véspera da eleição).

Considero Luiza Erundina a dirigente mais injustiçada da história política do Brasil. O estudo do comportamento da mídia em relação a sua não menos do que brilhante administração pertence ao saldo devedor da academia e dos estudos de mídia para com a população brasileira. Pois não é que em meio ao boicote da imprensa, do empresariado e da burguesia paulista (e não apenas paulistana, pois a resistência a ela transcendia a cidade), o PT resolve brincar de Pollyanna e dar “apoio crítico” a prefeita que elegeu? “Apoio crítico” a uma administração sitiada por todos os lados equivale, como diria minha avó, a entregar a rapadura pro inimigo. E foi precisamente o que aconteceu, com a cidade entregue à direita mais retrógrada e corrupta nos 12 anos seguintes.

Mas eis que, aos trancos e barrancos, devido em grande parte ao governo antiBrasil e antipovo do PSDB de Fernando Henrique Cardoso, a possibilidade efetiva do três vezes candidato Luís Inácio Lula da Silva vencer a eleição presidencial começou a brilhar no horizonte no segundo semestre de 2001. E assim, por vias transversas, entramos na delicada questão da relação de Lula com os “movimentos sociais” (categoria sociológica, aliás, que precisa urgentemente ser rediscutida).

Lula, o PT e a realpolitik
A versão corrente assegura que Lula teria deixado à míngua os “movimentos sociais”, preferindo se aliar a forças conservadoras e a seus velhos caciques políticos como forma de garantir condições de se eleger presidente em 2002. Seu então escudeiro José Dirceu teria sido o arquiteto e muitas vezes o negocista de tais alianças. Endossei algumas vezes essa versão, pois trata-se de um fato.

Mas, ao mesmo tempo, de uma meia-verdade. É a conclusão que cheguei após muito meditar sobre a questão e consultar documentos de época. Pois o que essa versão omite é que, quando do início da negociação de Lula/Dirceu com os petistas, parte do partido agiu, uma vez mais, de forma intransigente, querendo impor certas demandas irreais e um padrão de alianças que teria, na prática, inviabilizado a vitória da candidatura Lula. Portanto, as reiteradamente criticadas alianças firmadas pela realpolitik adotada por Lula já por ocasião da campanha presidencial (que, note-se, era menos elástica do que a atual, por razões que veremos a seguir) deve ser creditada não somente ao pragmatismo-trator da dupla Lula-Dirceu, mas também ao misto de intransigência, falta de visão política e “pollyanismo” de setores do próprio PT.

Para piorar a situação, de posse do poder federal, à ingenuidade característica do partido somou-se a soberba (alguém conheceu arrogância maior do que a de José Dirceu no comando da Casa Civil?). Em política, trata-se de combinação explosiva, que acabou por envolver desastrosamente o PT num grande escândalo de corrupção que a mídia chamou de “mensalão”. Sou esquerdista, mas não estou entre os que fazem ginásticas retóricas para dizer que o “mensalão” não existiu (mesmo porque a atitude de dirigentes como Genoíno comprova o contrário). Mais do que isso: condeno tanto a prática de “caixa 2” do PT (que é do que se trata no dito “mensalão”) como a dos demais partidos que a adotam (que, segundo a crônica política, são todos. De qualquer modo, não nos esqueçamos de que o próprio mensalão que regaria o petismo brotou do governo tucano de Eduardo Azeredo, aquele parlamentar mineiro que quer censurar a internet mas não vai conseguir). Que fique claro: o fato de a prática ser disseminada não inocenta o PT, embora demonstre cabalmente tratar-se de problema estrutural, sistêmico.

Isso posto, o que interessa reter aqui é que a bandeira da moralidade que o partido brandira durante toda a sua história revelou-se subitamente falsa; o bom-mocismo e o “pollyanismo” que o distinguia - e que tantos danos causou ao desempenho de suas próprias administrações – não passava de jogo retórico. Ciente dessa realidade que fingiam desconhecer (ou melhor, cientes que já não podiam mais simular desconhecimento, pois a opinião pública o sabia), grupos de políticos abandonaram o partido por ocasião da denúncia do “mensalão”, migrando para o PSOL ou para outras siglas à esquerda, como o PSTU. Se a realpolitik de Lula já abarcava setores conservadores, ela se torna, como forma de repôr essa debandada, ainda mais elástica, chegando ao cúmulo de incluir políticos com a ficha corrida de Fernando Collor de Mello. Fica a pergunta: Lula teria condições de governabilidade sem tais alianças? Tendo a concordar com Luis Nassif quanto à resposta ser não (o que, convém frisar, não equivale a corroborá-las), pois:
“Há que se discutir os limites entre a real politik e a falta de coragem política. Em minha opinião, sem o realismo político e a incrível capacidade de fazer alianças e esvaziar armações, Lula teria caído. Mas sem a crítica aos pontos essenciais que foram deixados de lado, ele não teria avançado, especialmente nas medidas anti-cíclicas que impediram que o país fosse arrastado pela crise mundial”.
O retorno da Síndrome de Pollyanna
E eis que, após o longo período de discrição e low profile a que o partido se obrigou após o “mensalão”, a Síndrome de Pollyanna ataca de novo E justamente no momento em que o PT é o fiel da balança para a definição da saída ou não de Sarney da Presidência do Senado. Qualquer pessoa com mais de 2 neurônios já se deu conta que a fulanização das denúncias na figura do senador maranhense não passa de estratégia da oposição na briga pelo poder. Se não, vejamos: os “atos secretos” ocorrem há mais de 14 anos (começaram logo após o início da primeira Presidência de FHC); analistas políticos sérios e experientes como Janio de Freitas estimam que eles envolvem benefícios diretos a algo entre 80 e 90% da Casa, em suas diferentes formações ao longo dos anos; um dos maiores e mais espalhafatosos denuncistas, Arthur Virgílio (PSDB-AM), está envolvido até a raiz dos cabelos na falcatrua, por contratação inexplicada de parentes, pelo fato de um filho de um amigo seu receber salário de seu gabinete embora more na Europa, por um empréstimo mal explicado de U$10 mil dólares junto ao pivõ da crise, Agaciel Maia, além de devido a um desvio de R$723 mil do Senado para pagar o tratamento de saúde de sua mãe.

No entanto, "curiosamente", ele continua sendo uma das principais fontes da mídia, figurinha fácil no Jornal Nacional, onde volta e meia aparece afetando indignação e atacando Sarney como se moral para isso tivesse. A colunista Dora Kramer, que tem em seu currículo a glória de ser uma das "menininhas do Jô" (aarrgghhh!), defende Virgílio dia sim, outro também. Há limites até mesmo para a hipocrisia na política e na mídia brasileiras.

A consequência direta de uma eventual - e probabilíssima, se o PT o deserdar – saída de Sarney seria tão-somente entregar a Presidência da Casa a Marconi Perillo (PSDB-GO), político há décadas envolvido em denúncias de corrupção e em atos truculentos. Trocaria-se um “coronel” por outro. Que “moralização” é essa defendida pela mídia e pelos partidos de oposição que consiste na retirada de um presidente do Senado acusado de corrupção que apoia o governo e em sua substituição por outro senador acusado de corrupção, mas este ligado à oposição? Desnecessário responder.

Portanto, posicionar-se pela manutenção de Sarney no posto que ocupa não equivale a defender as práticas do político maranhense. Já me manifestei com clareza a respeito do que penso a seu respeito. Trata-se, isso sim, de assegurar o poder no Senado, conquistado nas urnas, nas mãos das forças que apoiam Lula e suas políticas progressistas – e não entregá-lo de bandeja à oposição privatista, renegada pelo voto popular e tão envolvida na corrupção sistêmica do Senado quanto os senadores da situação.

É preciso, portanto, que o PT demonstre ter um mínimo de profissionalismo político neste momento e pare com essa atitude hipócrita - e que tantos danos causou à imagem do partido - de bancar a Pollyanna. Do contrário, estará colaborando para o aumento considerável do poderio da oposição no Senado, numa mudança com potencial para influenciar decisivamente as próximas eleições presidenciais, já que o presidente da Casa tem plenos poderes para interferir na criação de CPIs e para comandar as votações de projetos do interesse do governo.

Espera-se que o Partido dos Trabalhadores, aos 29 anos de vida, demonstre alguma maturidade, pare de ameaçar repetir os mesmíssimos erros que já o prejudicaram no passado e desperte ouvindo o clamor que Antônio Mello fez em seu Twitter: “Gente, vamos nos ligar. Toda essa pseudobriga no Senado é entre Serra e Dilma. O resto é conversa pra boi dormir. Ou pra tucano acordar”.


(Fotomontagem a partir de imagem da capa do livro Pollyanna, de Eleanor H. Porter, retirada
daqui. Colocada à direita do post em "homenagem" ao espectro político que o PT insiste em beneficiar).

quarta-feira, 24 de junho de 2009

CPIs

(Imagem retirada daqui)

Sempre fui contra as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs). Mesmo quando a maioria dos brasileiros – e a quase totalidade dos esquerdistas – vibrava com a atuação daquela que acabou por depôr Fernando Collor de Mello, essa já era minha posição.

Mantive-a desde então, tanto para a Presidência FHC, suas suspeitíssimas privatizações e compra de votos para aprovação da emenda da releição, quanto para o governo Lula e seu mal explicado "mensalão". De antemão, a mantenho em relação ao próximo presidente, seja quem for.

Por quê? Primeiro, por uma questão de ordem institucional, de respeito à divisão entre os três Poderes à maneira sugerida por Montesquieu. Ao assumirem para si o papel de investigadores e juízes, os parlamentares passam a desempenhar funções que pertencem, respectivamente, ao Executivo e ao Judiciário (mais a este do que àquele).

Segundo, porque a bem-sucedida CPI que investigou Collor acabou por modificar profundamente o modo de se fazer política no país. Desde então não há mais, no Congresso, debates de projetos que tornem visíveis as diferenças programáticas entre os partidos e, sobretudo, entre as forças de oposição e de situação. O objetivo número um dos partidos de oposição – sejam eles quais forem – é o de criar, a partir de denúncias comprovadas ou não, fatos políticos que permitam a instalação de CPIs - para, daí, atingir as principais figuras do governo e, se possível, o próprio presidente, através da instalação de processo de impeachment. Desnecessário dizer que a mídia desempenha papel primordial nesse processo, na veiculação de denúncias (raramente bem apuradas), na intensificação de um sentimento (verdadeiro ou não) de indignação popular e na cobertura (mais interessada no escândalo do que nos fatos) das sessões das CPIs.

Terceiro porque, devido ao despreparo e ao baixo nível ético da maioria de nossos parlamentares, as CPIs tornam-se, com frequência, palco para congressistas loucos por holofotes, muito mais interessados em aparecer perante o grande público televisivo e fazer demagogia – com o propósito único de prejudicar o governo ao qual se opõem - do que em investigar seriamente o que quer que seja (mesmo porque quase nunca tem qualificação para tal).

A instalação de uma CPI deveria ser uma medida extrema, para casos excepcionais, raríssimos. Do modo como vem sendo praticada no Brasil tornou-se uma excrescência jurídica que há muito atrapalha o funcionamento da democracia no país. Há de se pensar na sua extinção para que os próximos governos – sejam de quais partidos forem – possam governar em paz, confrontados por uma oposição crítica e programática (mas não viciada num jogo de derruba-presidente). Corrupção e demais desvios administrativos? O Judiciário que se encarregue de examiná-los.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O Caso Sarney: Tríplice Tragédia

(imagem retirada daqui)

O nome José Sarney está associado a práticas políticas retrógradas e a uma trajetória pública questionável, a começar do apoio dado à ditadura militar. Tornado presidente por mero acaso, seu governo foi marcado pela corrupção, com a relação do Planalto com o Congresso sendo chamada de “balcão de negócios”; pelo populismo econômico do “Plano Cruzado”, que levou a classe média ao paraíso enquanto o truque durou, para em seguida remetê-la a uma longa temporada no inferno; e pela pior das muitas crises inflacionárias do país, em que os índices mensais chegaram à casa das centenas. A crônica musical do período – no Brasil quase sempre o melhor termômetro do humor popular -, a cargo do grupo Exporta Samba, resume a bandalheira (“Se gritar pega ladrão/Não fica um, meu irmão”).

O Maranhão, que ele governa há quase meio século (in persona ou por prepostos), com um poder que se estende ao Judiciário e depõe governadores eleitos, é hoje, a despeito de seu tamanho e abundância de riquezas naturais, a mais miserável das unidades federativas do país. Num acinte à ética eleitoral, candidatou-se pelo Amapá quando viu que seria rejeitado pelo voto na sua capitania hereditária maranhense. Morto ACM, Sarney é hoje a imagem escarrada do coronelismo. Eis a tragédia número um.

Dada a folha corrida do autor de Marimbondos de Fogo, é de causar espanto que, de repente e só a partir do momento em que Sarney assume a presidência do Senado, a mídia e a oposição – que no Brasil atual por vezes se confundem - passem a associá-lo, diariamente, a uma sequência aparentemente interminável de falcatruas. A mais escandalosa delas – os inacreditáveis “atos secretos” do Senado, que distribuíram cargos a granel sem notificar a sociedade de tal decisão – vem, como até o jornal O Globo de hoje reconhece, ocorrendo há anos e, no entanto, não se tem a oportunidade de ver congressistas demo-tucanos ou jornalistas acusando presidentes anteriores da casa, mesmo porque alguns deles eram da oposição.

Oposição esta que, representada por figuras que a cada dia se tornam mais fanfarrônicas – como Arthur Virgílio, Álvaro Dias e Raul Jungman – não demonstra o mínimo pudor em adotar um moralismo raso e falso, pois aplicável apenas às forças políticas às quais se opõem, nunca às condutas dos membros dos partidos que, para desalento da sociedade, representam.

Nem a velhinha de Taubaté acreditaria que tais figuras ajam por amor à ética, mas sim pela mais cruenta guerra política. Aliás, um dado essencial do caso ao qual não tem sido dada a devida atenção é que a eventual remoção de Sarney da presidência do Senado poria esta no colo de Marconi Perillo, membro do coronelato peessedebista goiano e inimigo do Planalto. Por todas essas razões, eis porque, apesar da gravidade das denúncias, se trata, de fato, de denuncismo. Essa atuação do conluio mídia-oposição compõe a segunda parte da tragédia.

Para completar a ópera-bufa, o presidente Lula, sempre tão cioso em conservar a blindagem pessoal e manter-se afastado dos membros de sua aliança acusados de corrupção, vem a público afirmar que “Sarney tem história suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”. E eu que pensava que, segundo a Constituição do país que Lula governa, todos os cidadãos fossem iguais perante a lei...

O blog do Mello aventa a possibilidade de José Serra estar por trás da perseguição denuncista a Sarney. Afinal, costuma-se debitar na conta do governador paulista a operação da Polícia Federal que, em 2001, retirou a filha do senador, a então candidata presidencial Roseana Sarney (atual governadora não-eleita do Maranhão) do páreo. Ora, mas o presidente Lula, com toda sua louvada sapiência política, ao firmar aliança com a ala do PMDB comandada por Sarney, não sabia dos humores figadais que opõem o truculento bandeirante e o coronel maranhense? Exímio enxadrista que já demonstrou ser, não foi capaz de prever desenrolar tão evidente do jogo político?

Esse é o tipo de episódio em que nenhum lado tem razão, a despeito dos esforços argumentativos dos detratores do governo Lula e de seus apoiadores - alguns dos quais teimam na tática eticamente inaceitável de minimizar atos de corrupção. Sarney, pelas práticas a ele associadas, por tudo o que representa e, sobretudo, pela insensibilidade em não perceber que pertence ao passado e que está manchando de forma indelével sua própria biografia; a oposição e a mídia por apostarem, uma vez mais, num denuncismo histérico e “fulanizado” como forma de luta política, sem atacar as razões estruturais da corrupção; e, pairando acima de todos, o presidente Lula, não só pela realpolitik por demais elástica que pratica – e que junta no mesmo saco Sarney, Collor de Mello e Geddel Vieira Lima, entre outros -, mas por não preservar a Presidência, posando como defensor de práticas e figuras políticas que não coadunam com um regime verdadeiramente democrático nem com seu passado político. Esta, a terceira e última parte da tragédia.