Blog sobre cinema, jornalismo, política e música, com críticas, análises e perfis.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
FHC, Aécio e o jogo político de 2014
domingo, 11 de dezembro de 2011
A Privataria Tucana e a indignação seletiva da mídia
Todos os governos civis, desde a República Velha até a presidência Dilma Rousseff, sofreram, em maior ou menor grau, acusações de envolvimento em corrupção. Como a atual oposição gosta de lembrar, o PT, quando não era governo, vivia fazendo denúncias e procurando mobilizar o Ministério Público. E isso é verdade. A diferença - que se esquecem de mencionar - é que a repercussão que a mídia fazia das denúncias petistas contra FHC (e demais membros de seu governo), nas raras vezes que ocorria, era incomparavelmente menor do que o barulho – semanal, diário – que ora faz, por exemplo, quanto às denúncias contra os ministros do atual governo.
Assim, enquanto as gravíssimas denúncias, gravadas, do jornalista Fernando Rodrigues contra FHC por alegada compra de votos no plenário (para aprovar a emenda da reeleição) mal foram divulgadas pela Folha de S. Paulo – sem repercussão por nenhum outro grande órgão de mídia, só encontrando eco na Caros Amigos -, a revista Veja produziu mais de quarenta capas sobre supostos atos de corrupção, muitas delas sistematicamente reproduzidas na Folha e nas rádios, TVs e páginas do sistema Globo.
E a mídia pode (ou ao menos podia, antes da internet e da blogosfera militante), fazer toda a diferença – como a eleição de um obscuro governador alagoano (patrocinada e manipulada pela TV Globo, como admitiu recentemente o ex-todo poderoso global Boni) e, posteriormente, sua derrocada rumo ao impeachment, ilustram com precisão.
Recentemente, as eleições presidenciais têm aparentemente mostrado a diminuição do poder de persuasão da imprensa, mas o primeiro ano do governo Dilma evidencia que a mídia é ainda capaz de causar indignação em certos estratos de nossa sociedade e, assim, somado à disposição da presidente de sacrificar quadros em nome da governabilidade, manter o governo acuado, nas cordas.
Essa atuação extremamente tendenciosa do jornalismo brasileiro tem levado à difusão da ideia de que os governos Lula e Dilma seriam os mais corruptos da história da República. Trata-se de uma falácia e de uma injustiça, como sabe qualquer pessoa realmente a par da evolução – quantitativa e qualitativa - dos órgãos e mecanismos estatais de apuração e combate ao crime e à corrupção nos últimos nove anos.
Ante denúncia de tamanha gravidade, minuciosamente documentada, feita por profissional reconhecido e em um livro que, mal lançado, acaba de esgotar a primeira edição de 15 mil cópias, qual é a atitude da mídia brasileira, sempre tão suscetível à indignação? Capas na Veja, editoriais em O Globo, colunas de gente cheirosa na Folha? Nada disso. Tão-somente o mais gritante e auto-denunciador silêncio. O qual evidencia, em sua plena epifania, que a indignação de tal imprensa não é, nem nunca foi, por conta do interesse público contra o qual a corrupção atenta, pois se assim fosse essas vozes da moral estariam agora clamando, indignadas, por investigações rigorosas sobre o governo FHC e o processo de privatização do patrimônio público brasileiro – um crime de lesa-pátria que essa mesma mídia promoveu e endossou, e do qual é cúmplice.
Da próxima vez que você vir uma capa escandalosa da Veja com mais uma uma denúncia mirabolante e sem provas, lembre-se disso.
domingo, 14 de agosto de 2011
Haddad e as eleições paulistanas
As eleições para a Prefeitura de São Paulo, que ocorrerão no ano que vem, têm uma importância especial, que transcende o poder de comandar a maior cidade e o sexto maior orçamento do país: estará em jogo não só a manutenção ou a quebra da hegemonia demotucana no estado – prestes a completar duas décadas -, mas a movimentação de peças decisivas no xadrez eleitoral presidencial.
Demotucanos em guerra
O campo governista mostra-se, ainda e uma vez mais, preso da rivalidade entre o governador Alckmin e José Serra, este insistente em sua obsessão pelo caminho mais curto à Presidência, escoltado por seu pupilo Kassab (agora a bordo do PSD, partido que nem o mais experimentado dos analistas políticos tem sido capaz de dizer a que realmente veio).
As últimas sondagens internas indicam que Serra, pesquisas à mão, teria desistido de sair candidato, mas não se pode descartar de pronto sua candidatura, nem a inacreditável possibilidade de os paulistanos voltarem elegê-lo, mesmo após ter largado a Prefeitura para candidatar-se a governador, e o governo para concorrer à Presidência – e de estar claramente disposto a fazer o mesmo percurso de novo.
Por outro lado, com Serra lame duck, fragilizado por duas derrotas eleitorais, e com os índices de aprovação do atual prefeito Kassab em queda livre, o petismo enxerga nas eleições municipais uma grande oportunidade de ampliar ainda mais o raio de seu poder e de penetrar no bastião demotucano, conquistando uma posição privilegiada para influir nas eleições ao governo estadual e à Presidência em 2014.
Petismo entre a inovação e a experiência
O dilema central do PT concentra-se em apostar no novo ou insistir com candidatos mais experientes, conhecidos dos paulistanos, mas com histórico de derrotas em eleições majoritárias. É este o caso tanto de Aloizio Mercadante, 57 anos, atual ministro da Ciência e Tecnologia e um dos quadros mais preparados do partido, com sólida formação em Economia, quanto da senadora Marta Suplicy, 66 anos, que governou a cidade entre 2001 e 2005, com avanços nas áreas sociais, inédita atenção às periferias, caos nos transportes urbanos por conta de quedas-de-braço com empresários do setor e uma perseguição implacável por parte da mídia corporativa paulista. Ao tentar a reeleição, mesmo recebendo 2,7 milhões de votos, foi derrotada por José Serra no segundo turno; quatro anos depois, perderia para Kassab. Já Mercadante, não obstante a expressiva votação conquistada, perdeu as duas últimas corridas ao Palácio dos Bandeirantes.
A nova face do petismo em São Paulo, por sua vez, vem representada pelo ministro da Educação Fernando Haddad. Mais acostumado a contribuir com o partido com a produção de análises conjunturais do que através do exercício da política partidária, esse intelectual multidisciplinar (é graduado em direito, mestre em economia e doutor em filosofia, tendo publicado vários livros) destacou-se como uma quase-unanimidade positiva no governo Lula e manteve-se em alta na atual administração. Articulado, com pinta de bom moço, goza ainda do privilégio de ser o candidato preferido do ex-presidente. Aos 48 anos, mesmo que não venha a vencer as eleições, ganharia projeção e cacife para futuros pleitos.
Aposta e risco
Não é, no entanto, desprovida de riscos a candidatura Haddad. De início, é claro, aquelas relativas à sua estreia em eleições: a necessidade de criar empatia, o traquejo para fechar acordos, o estabelecimento de uma química de confiança com o eleitorado. Na semana passada começaram as rondas por bairros periféricos da capital e o candidato teria demonstrado não conhecer as lideranças locais, as quais é praxe chamar pelo nome. Enfim, nada que dedicação, intuição e uma boa equipe de marketing político não possam resolver.
Há ainda um paradoxo que perpassa a candidatura do ministro a prefeito e ao qual não se está dando a mínima atenção: a cidade de São Paulo, que conta com a USP e com a maior e melhor rede de ensino pago do país, é não só onde menos se vê os frutos da gestão Haddad, como um dos principais endereços da classe média conservadora e radicalmente neoliberal. Se se precisa conquistar parcelas desse eleitorado para vencer o pleito, como as projeções sugerem, um candidato que representa - ou durante um bom tempo representou - o investimento estatal maciço em educação talvez não seja a melhor opção petista.
Mesmo a medida populista, mal-explicada e desprestigiosa para a universidade brasileira de mandar, em conluio com a iniciativa privada, 75.000 estudantes bolsistas para frequentar sabe-se-lá-quais instituições internacionais não parece ter potencial de impressionar o jovem reacionarismo paulistano.
Os efeitos do fiscalismo
Mais grave, não se está prestando a devida atenção à possibilidade de que questões potencialmente bem mais danosas à candidatura possam advir do único legado que Haddad tem para sustentar seu projeto político: sua gestão no MEC.
Há desde questões pontuais, aparentemente comezinhas - como o veto ao ensino de História da África nas escolas de segundo grau, capaz de gerar a animosidade dos movimentos negros e de setores do professorado - até problemas potencialmente desastrosos, sendo quase certo, por exemplo, que as confusões que envolveram o ENEM, com vazamento de dados sigilosos e com provas apresentando problemas, sejam explorados à exaustão e ponham em questão a capacidade gerencial de Haddad. Mas esta é uma reação esperada, um risco calculado.
Porém, aquilo que pode se voltar com mais força contra a candidatura é justamente o que poderia ser considerado um dos maiores legados do ministro: a extraordinária expansão da universidade brasileira durante a última década. Pois acontece que o que deveria ser motivo de júbilo e prestígio eleitoral - ainda mais por se dar após o governo FHC, que tentou destruir a universidade brasileira – encontra-se, neste momento, por conta do rigoroso aperto fiscal adotado pelo governo Dilma Rousseff, sob risco de sucateamento (“aqui tudo parece que é ainda construção, mas já é ruína”, diz a canção).
Prato cheio para a oposição
É difícil acreditar que a oposição perderá a oportunidade de demonstrar ao eleitorado que, ao invés de contratar professores doutores e mestres, como é padrão internacional seguido pelas federais, tais unidades, assim como boa parte do PROUNI, vão ser tocadas por professores temporários – uma categoria ainda mais aviltada que a de professor substituto, com regime trabalhista precário e salário vergonhoso; que ao aumento exponencial das vagas para alunos não corresponde o aumento da contratação de docentes; que a terceirização e o déficit de funcionários grassam.
Do mesmo modo, os entraves para a compra de equipamentos e constituição de bibliotecas tende a ser explorado, assim como a insatisfação dos funcionários – que, aliás, neste momento se encontram em mais uma daquelas greves que a mídia não noticia (no que tem sido seguida pelos blogs chapa-branca).
Prioridade à educação?
Resta pouco mais de um ano até as eleições de 2012. Haddad pode vir a ser um candidato forte, com um potencial eleitoral que talvez nem Marta nem Mercadante possam, neste momento, aspirar – além de contar com a preferência de Lula, reconhecidamente um ás na arte da política, e que parece disposto a lutar por seu pupilo.
Mas é preciso que, até lá, as superlativas potencialidades evocadas pelas gestões de Haddad deixem de ser quimeras no papel e se concretizem na forma de um salto efetivo de qualidade e quantidade de oferta do ensino no Brasil. Para isso, é preciso superar o fiscalismo tacanho, neoliberal e mais realista que o rei que tem caracterizado a presidência de Dilma Rousseff e fazer com que a prioridade à educação anunciada na campanha e corroborada no discurso de posse dê o ar de sua graça e torne-se um fato.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
A peculiar democracia paulista
O direito ao protesto pacífico é prerrogativa básica da cidadania, assegurado por todas as democracias avançadas.Em São Paulo, no entanto, há tempos ele não vale mais. Aqui, se um manifestante levantar uma faixa durante um discurso de prefeito leva uma gravata de seus seguranças; se um bando de estudantes resolver gritar palavras de ordem contra o aumento na passagem de ônibus, toma tiro de bala de borracha da PM.
Uma das grandes conquistas do demotucanato bandeirante – ao lado do transporte público de primeiro mundo, dos altos salários dos professores e delegados, dos rios sempre desassoreados e das ruas que não alagam – é, justamente o que muitos paulistas, orgulhosos, chamam de “vitória da ordem contra a baderna”.
Agindo com pulso firme, o ex-governador Serra conseguiu, acreditem, igualar um feito do bravo coronel Erasmo Dias em plena ditadura, quando este invadiu a PUC. O ex-candidato presidencial fez melhor: mandou às favas os escrúpulos e ordenou que sua mansa polícia invadisse a USP, violando, eis que enfim, o outrora sacrossanto espaço de uma universidade pública, cuja utilização foi deturpada por uma juventude que vive a gazetear, a cheirar maconha e a fumar cocaína.
Como sempre, houve quem chiasse, uns defensores de direitos humanos para bandidos, falando em truculência e abuso policial. Porém, como demonstrou um brilhante jornalista, em esforço de reportagem, o que os manifestantes praticaram na USP foi, na verdade, mais do que agressão: terrorismo. Observem os flagrantes das fotos dos guerrilheiros e o texto imparcial do escriba e confiram vocês mesmos, caros leitores.
Mídia imparcial
Pois o tal pessoal do contra acha que uma das principais funções sociais da mídia seria justamente registrar e difundir o que chamam, afetadamente, de “violações e agressões contra a cidadania perpetradas por forças do estado”. Felizmente, o que temos visto em São Paulo é o oposto disso: quando não simplesmente deixa de publicar essas arruaças inconsequentes, nossa briosa imprensa, sempre ao lado dos mais fracos, exagera na indulgência e noticia a ação das forças da ordem contra os provocadores e desordeiros com palavras “neutras” ou que sugerem reciprocidade, tais como “confusão”, “conflito”, "tumulto", “confronto”.
O modo comedido como a imprensa aborda tais temas, recusando-se a demonizar a esquerda e as manifestações populares, embora não de todo fiel à verdade, tem uma razão de ser. Reflete o seu cuidado para com os jovens leitores que, graças à melhoria constante do jornalismo ético que pratica, conquistou.
Pois o governo tucano, através de seu impoluto secretário Paulo Renato, ciente da preciosa fonte de informação confiável que é a nossa imprensa – e com a certeza de que R$250 milhões jamais alterariam sua criteriosa linha editorial - generosa e desprendidamente contratou milhares de assinaturas de nossos mais destacados periódicos para melhorar ainda mais – se é que isso é possível - o nível de ensino nos colégios estaduais.
Assim, em plena liberdade democrática e com a aliança entre estadistas no poder, imprensa ética e povo esclarecido, construiremos, em São Paulo, a civilização do futuro.
domingo, 24 de outubro de 2010
Eleições: campanha do ódio ameaça democracia
Os olhos da imprensa mundial para o Brasil agora, como de ordinário faziam antes do governo Lula, refletem uma visão negativa do país, expressando ora preocupação com o despudor com que a religião foi e continua sendo explorada eleitoralmente ante temas como aborto e homossexualidade; ora noticiando, de forma jocosa (não poderia ser diferente) o escarcéu que José Serra e Rede Globo armaram em torno de uma bolinha de papel atirada contra o candidato tucano.
O candidato sem programa
Enquanto isso, Serra vai caindo nas pesquisas, mas ainda se m
antém em patamares, a meu ver, surpreendentemente altos para um candidato que sequer se preocupou em apresentar um programa de governo, quanto mais condizente e factível, limitando-se a promessas pontuais que até os economistas midiático-tucanos consideram irrealistas.Não que tal lacuna chegue a surpreender: dos vários eleitores de Serra que conheço – na universidade, nas ruas, ou entre amigos e parentes – nenhum se declara como tal por conta de propostas para o país ou por uma razão ideológica strictu sensu.
No máximo, apresentam uma racionalização – no sentido freudiano do termo, ou seja, uma explicação lógica coerente mas que encobre seus verdadeiros motivos -, ainda assim reativa, acusando o petismo de corrupto ou de promover o “aparelhamento” do Estado. Mas ora, para ficar só no exemplo mais gritante, quem tem em suas hostes Paulo Preto – um sujeito que, segundo a Isto É, não só é acusado de nepotismo e de, segundo os próprios tucanos, ter desviado R$4 milhões, mas que foi preso EM FLAGRANTE como receptor de jóia roubada – não tem moral para falar de corrupção. E, com a filha do receptador tendo sido empregada pelo próprio erra, muito menos de aparelhamento. Portanto, alegar tais motivos como justificativa de voto é incoerente e não cola mais, deixando evidente que a razão de fundo de tal escolha eleitoral não significa adesão a determinada proposta política, mas uma reação ditada pelo ódio de classe contra o lulismo e o seu legado.
Assim, a campanha de Serra é a campanha do ódio porque sua candidatura encarna o sentimento contra Lula e o que ele representa, contra esse novo Brasil em que jovens da periferia vão à universidade, empregadas domésticas andam de carro e a classe D viaja de avião. Presas desse irracionalismo reativo, pouco importa, para as elites e os setores wanna be elite que a sustentam, que a candidatura tucana não seja propositiva. Em outras palavras : o ódio é tamanho que, ante a possibilidade de continuação da inclusão social da Era Lula, preferem passar um cheque em branco a um político sem propostas e que nunca terminou um mandato sequer.
Desrespeito à democracia
Afigura-se extremamente negativo para a democracia tal processo, pois abre mão do contrato social implícito entre eleitor e candidato, consubstanciado em um acordo por meio do qual aquele vota neste em troca do cumprimento, anda que inescapavelmente parcial, de um determinado conteúdo programático pré-estabelecido.
É a essa lógica contratual que seguiu a campanha de Lula em 2002 – prometendo criar 10 milhões de empregos e, ao final, gerando mais de 14 milhões – e, agora, a de Dilma Rousseff. Senão, vejamos: enquanto Serra utiliza o horário eleitoral gratuito não para apresentar projetos, mas para sustentar o ridículo atroz do #bolinhagate, como parte de uma pantomima não menos patética e que vai na contramão dos fatos – vide os comunicados do partido e da candidata nos últimos dias -, segundo a qual “o PT estimula a violência”, Dilma tem, dia após dia, apresentado os itens programáticos de seu projeto de governo: meio ambiente, indústria naval, inclusão digital, entre outros temas específicos.
Por sua vez, após chafurdar na boataria religiosa, ser autuada distribuindo comida em troca de votos e protagonizar o #bolinhagate, a campanha de Serra volta a viver de ataques contra a adversária, municiados pela mídia amiga -esta, descompromissada de uma mínima ética jornalística e ciosa da impunidade, aja como agir. Mandando às favas os escrúpulos – como em um certo dezembro – e sem demonstrar o mínimo apreço pela incipiente democracia brasileira, a qual humilha com o despudor de seus métodos truculentos, o tucano aposta na negatividade para ganhar as eleições. No momento, só não enxerga quem não quer ver que está armando o clima para um confronto físico e público, o qual, seja protagonizado por quem for (mesmo que por um provocador tucano inserido na multidão), a culpa recairá sobre os petistas.
O novo astral da campanha de Dilma
Enquanto Serra, sob o patrocínio da Rede Globo, Veja e congêneres, trava o seu combate nas trevas, parecendo "acreditar que o povo, em toda a parte, é uma entidade incapaz e como tal deve ser tratado" - como afirmou Gilson Caroni Filho em um artigo imperdível -, o país vai de vento em popa: o desemprego é o menor já medido e, enquanto boa parte do mundo vive as agruras da crise, com pesados contra-efeitos sociais, estamos em vias de consolidar, em questão de meses, o maior crescimento econômico em 30 anos - só que, desta vez, com inclusão social. É insano imaginar que o povo de um país possa abrir mão de tal cenário em prol de um aventureiro sem nada a oferecer exceto sua obsessão em se tornar presidente.
Talvez por estarem os eleitores tomando ciência de tal disparate, a campanh
a petista, após ser levada às cordas no início do segundo turno, passou a reagir ao bombardeio pleno de acusações mas vazio de propostas. Isso se deu de forma mais efetiva a partir do momento em que Dilma, sem abrir mão do viés propositivo, trouxe à baila o caso Paulo Preto, no debate da Band. A partir daí, com um momento culminante no evento com artistas e intelectuais no Teatro Casa Grande (RJ) – que, iconizada na imagem emocionada de Chico Buarque, artista prenhe de significações anti-autoritarismo, lhe conferiu uma respeitabilidade com que Serra não pode nem sonhar - , sua candidatura, vitaminada ainda pelo apoio de personalidades e intelectuais do Brasil e do exterior, tomou prumo.E se em 2002 a esperança derrotou o medo; agora a verdade vencerá o ódio.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Serra no Jornal Nacional
Pois se há, em graus variados - e ora em profusão -, manipulações e práticas inaceitáveis no jornalismo nacional decorrentes dos interesses das corporações midiáticas, não deixa também de haver outras que derivam de vícios profissionais e de defasagem técnica - se comparadas aos padrões do jornalismo de ponta internacional.
É exemplar nesse sentido o suadouro que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tomou em programas de entrevista anglo-americanos, notadamente no Hard Talk: desacostumado às perguntas frontais e em ser corrigido pelo repórter – este de posse de dados atualizados -, o ex-presidente, habituado a ser tratado como um príncipe pelos jornalistas durante seus dois mandatos, mostrava-se estupefato.
Em entrevistas, duas das habilidades que mais faltam ao jornalismo nativo são:
1) o recurso a dados e fatos como forma de contradizer conteúdos comprovadamente inverídicos da fala do entrevistado;São habilidades que exigem uma equipe profissional e treinada – o que o JN certamente tem – e jornalistas com destreza e genuíno interesse investigativo – o que não é exatamente o caso do casal Bonner ou do jornalismo global de modo geral, manietado que é por uma política editorial tendenciosa.
2)A capacidade de intervir – de forma polida, mas efetiva – na fala do entrevistado de modo a evitar que ele introduza novos temas e descarte o assunto polêmico.
Apesar de tais limites, a entrevista com o candidato José Serra ontem poderia ter sido um evento jornalístico de alto nível se não acontecessem alguns disparates, tais como deixar de refutar, com dados e fatos, a resposta em que Serra se desvencilha da acusação de ter trazido a questão do aborto à campanha, afirmando que quem o fez foi Dilma (como se esta tivesse algum interesse em levantar o tema).
Quando, em entrevista a um candidato à Presidência, o jornalista se cala ante uma resposta que contraria um fato notório, facilmente atestável pela consulta aos arquivos da emissora, mostra-se leniente, deixando de cumprir sua função precípua de informar a população.
Pois, em tal momento da entrevista, o que um jornalista profissional de alto nível faria seria interromper a fala leviana de Serra e objetar, exibindo nas mãos as fontes da informação: “Mas candidato, nós temos aqui a prova que o senhor foi o primeiro a abordar o tema no dia X, no lugar tal, como o comprovam N registros”.
Mas nem a técnica defasada, nem os interesses corporativos do jornalismo nacional nos permitem desfrutar de um tal profissionalismo.
Resta-nos o padrão Globo de qualidade.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Marina e o segundo turno
Essa divisão é o aspecto que mais me atrai no artigo, que de resto soa a mim quase como uma peça oficial da intelectualidade petista – se esta tivesse intelectuais públicos do quilate, da projeção e da capacidade de produção de Idelber Avelar -, que estrategicamente sobrevaloriza Marina por conta da necessidade de conquistar parte de seu espólio eleitoral.
De qualquer modo, na tal tríplice divisão, a “novidade” Marina advém dos dois últimos estratos, que, no último mês, tiraram a candidata verde dos quase 10% em que se manteve por 13 meses e levaram a eleição para o segundo turno, ressuscitando José Serra.
Voto estético
Dos três estratos marinistas, o voto “ético”-classe média me parece o mais refratário tanto a uma cooptação por parte de José Serra quanto, em maior grau, por Dilma Rousseff: é um voto estético, na acepção pobre do termo - um voto “fashion, descolado” como apontou Hildegard Angel no imediato pós-apuração; um voto Caetano Veloso, diria eu.
É, portanto e ainda, um voto reativo, anti-establishment político, de cidadãos e cidadãs particularmente suscetíveis ao discurso neoudenista, que tanto interessa à direita. Para os que o proclamam, Marina representa uma outsider, ainda não corrompida pela “sujeira” da política oficial. Nesse sentido, por paradoxal que pareça, a figura com a qual ela mais se aproxima, na história das eleições presidenciais brasileiras, é com Fernando Collor: só que o que antes era um playboy nordestino com “aquilo roxo” e à caça de marajás hoje é uma cabocla amazonense, nos trajes étnicos do multiculturalismo e cheirando a Natura.
Corroboram as impressões elencadas nos dois últimos parágrafos o fato de que todas as pessoas que conheço pessoalmente e que se encaixam nesse voto o proclamam da mesma maneira: salientando, a um tempo, a “independência” da candidata Marina e, com um tom de picardia que traz implícito a crítica à política convencional – leia-se PT versus PSDB -, a “elegância”, o “charme”, a unicidade da “figura fina” encarnada pela senadora acreana.
Esse estrato tende a dispersar-se ou diminuir tremendamente sua fidelidade a Marina à medida em que ficar evidente que o PV – de Zequinha Sarney, de empresários duvidosos radicados em Londres, e manietado por José Serra – é, para usar a linguagem que tanto os mobiliza, um partido tão corrompido como outro qualquer, a chafurdar na lama da política nacional.
A cartada religiosa
Já o voto religioso – que não é apenas em “evangélico”, haja vista a virulência com que os boatos anti-Dilma circularam e foram difundidos pela direita católica – obedece a outra dinâmica. Trata-se, essencialmente, o voto do medo, emprenhado pelas entranhas do conservadorismo brasileiro, se valendo, sem o mínimo pudor, da ignorância e da manipulação (se você assitiu a Terra em Transe, de Glauber Rocha, pense no personagem de Paulo Autran).
No que concerne a tal estratégia, é preciso reconhecer o drible que o serrismo deu na militância petista: enquanto esta, entrincheirada na blogosfera, aguardava uma “bala de prata” anunciada por dez entre dez “blogueiros sujos”, as igrejas e casas de culto dos subúrbios e das periferias eram literalmente tomadas por boatos - uma tática que, tanto na desfaçatez com que joga a incendiária carta da manipulação política da religião quanto na forma sorrateira de agir, sugere o modus operandi serrista, mesmo porque o PV não tem estrutura ou traquejo para empreender uma operação tão capilar.
Esses estratos religiosos são, no momento, as áreas potencialmente mais perigosas para a candidatura Dilma. Ela precisa reagir, não se deixar acuar pela histeria anti-aborto e, ao mesmo tempo em que repõe tal discussão em um âmbito institucional, não dogmático, que leve em conta posições religosas sem abrir mão do viés laico e relcionado a saúde pública, aproximar-se de forma coordenada das lideranças evangélicas e católicas, procurando ainda se dirigir, nos programas eleitorais, diretamente aos fiéis religiosos, de maneira franca e clara.
Aqui me parece necessário, uma vez mais, para evitar novas auto-lusões, salientar os malefícios do efeito-manada que o formato de militância virtual atual, açulada pelo twitter, tem provocado: ninguém, absolutamente ninguém foi capaz de detectar o enorme crescimento de Marina nos dois segmentos eleitorais que dobraram seus votos e levaram Serra – a maior ameaça pós-ditadura ao aprimoramento da democracia brasileira – ao segundo turno.
Batalha feroz
Enquanto uma Dilma surpreendida e um Serra rejuvenescido – e, como sempre, vitaminado pela mídia amiga – se digladiam, o foco se volta para Marina Silva, possível fiel da balança.
Se firmar aliança com José Serra, Marina vai valer o equivalente a uma nota de três reais no dia seguinte a sua eventual vitória: em primeiro lugar, porque Serra não cumpre acordos; em segundo, porque, cooptada pelo sistema político oficial, a candidata verde, sem o auxílio da manipulação religiosa, perde a aura de outsider.
Tal aura igualmente se desfaz se preferir se aliar a Dilma – a diferença é que a chance de que os acordos sejam cumpridos é maior.
A Marina interessa, portanto, manter-se alheia à disputa, preservando seu volúvel mas ora efetivo capital eleitoral – e, sobretudo, a aura de sua figura púbica, dividendo fundamental numa democracia tão afeita à pessoalidade e ao carisma quanto a brasileira.
O problema é que a opção por tal eqüidistância é pouco efetiva em termos partidários, já que Serra controla o PV, como, a despeito das ilusões marinistas, demonstrou de forma cabal ao levar uma eleição perdida ao segundo turno.
Agora ou a sabedoria política de Lula e a capacidade de mobilização da militância petista se manifestam ou o legado de desenvolvimento e inclusão da melhor Presidência que o país já teve pode cair no colo do neoliberalismo privatista.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
As entrevistas dos candidatos no Jornal Nacional
Entrevistas televisivas em série, cada dia com o candidato de uma coligação - como as que o telejornal se propôs -, demandam, necessariamente, a adoção de um mesmo e pré-determinado padrão de conduta por parte dos entrevistadores, seja qual for o entrevistado.
Ainda que, de acordo com o perfil, as alianças e a história de cada candidato, o feixe de perguntas necessariamente varie, a postura dos entrevistadores em relação aos inquiridos, o modo como formulam as perguntas e seu grau de incisividade devem apresentar a menor variação possível, sob pena de suscitar acusações de tendenciosismo, favorecimento e discriminação, as quais minam o alegado esforço para inteirar a massa de espectadores sobre as candidaturas presidenciais que se apresentam ao país.
É fato que cada entrevista tem uma dinâmica própria, mas, se o entrevistado não tergiversa nas respostas ou não agride o perguntador, a obediência a um padrão minimamente igualitário de tratamento aos diferentes candidatos é condição sine qua non para assegurar confiabilidade. Quem assistiu às três entrevistas conduzidas por Fátima Bernardes e William Bonner com, respectivamente, os candidatos Dilma Rousseff (PT/RS), Marina Silva (PV/AC) e José Serra (PSDB/SP) sabe que tais regras básicas de conduta jornalística foram largamente negligenciadas.
Dilma e a entrevista-inquérito
Senão, vejamos: Dilma Rousseff, que inaugurou a série, foi submetida a algo mais parecido com um inquérito policial, durante o qual mal começava a formular um raciocínio já era cortada pelos entrevistados, um dos quais chegou às raias da grosseria, a ponto de ser interpelado por sua parceira de trabalho e esposa. Isso gerou um grave problema técnico para a entrevista, identificável por qualquer estudante de Jornalismo: interrupções excessivas que não deixavam a entrevistada se expressar e aproximavam a duração de suas falas da duração das perguntas dos jornalistas.
Em termos temáticos, a entrevista com a petista denotou menos o interesse em informar o espectador e mais a tentativa de pespegar em Dilma o rótulo de “autoritária” e de dependente de Lula. Tratou-se, assim, tanto em termos jornalísticos quanto eleitorais, de uma entrevista duplamente mal-sucedida. Em primeiro lugar porque os Bonner poderiam perfeitamente – na verdade, deveriam – mostrar-se incisivos, perscrutórios, mas sem abrir mão da educação e da polidez no trato.
Em segundo, porque perderam uma ótima chance de inquirir a candidata acerca dos projetos através dos quais pretende dar continuidade a uma administração que, embora apoiada pela maioria da população, não é desprovida de problemas. Ao final, o espectador terminou desinformado sobre o que realmente importa, administrativa e eleitoralmente.
Marina e as reticências
O tom dos apresentadores já era outro no dia seguinte, na entrevista com a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva. Enquanto Fátima, aparentando menos nervosismo, mantinha a postura entre firme e ponderada, Bonner, bem mais educado do que no dia anterior, já em sua primeira pergunta pediu perdão à candidata por inquirir sobre a falta de apoio de outros partidos que não o PV. Ainda assim, Marina, talvez receosa de se ver seguidamente cortada por ele sem poder formular seu raciocínio - como o fora Dilma -, passou a insistir em responder, ignorando os apartes do jornalista e cobrindo sua voz. Por conta disso, teve lugar uma espécie de jogo de disputa de palavras entre os dois.
Do ponto de vista técnico, os Bonner subestimaram a um tempo a atual dinâmica de financiamento de campanhas e a urgência da agenda ambiental ao perguntar como a candidata faria para “convencer o eleitor de que a sua candidatura é para valer” e não apenas "para marcar posição nessa questão do meio ambiente?”. Tal impressão foi reforçada pelo dissimulado espanto de Fátima ante a descrição das graves consequências, para a sociedade brasileira, do aumento da temperatura da Terra, segundo Marina. Reforçou-se, assim, traços de uma postura do casal de jornalistas em relação à candidata do PV que eu descreveria como "reticente-leniente".
Além disso, ao invés de aprofundar a discussão dos abundantes temas espinhosos para a candidatura verde, os jornalistas perderam vários minutos discutindo o ex-partido de Marina, de forma particular o indevidamente chamado “mensalão do PT” – tema, aliás, recorrente nas três entrevistas. Ao final, não restaram dúvidas de que a postura e o grau de incisividade do casal para com a entrevistada fora outro, em relação ao do dia anterior.
Serra e a subserviência global
Mas foi a entrevista com Serra que evidenciou, de maneira clara, o descritério “três pesos, três medidas” que o jornalismo global reservou aos candidatos. O ex-governador foi poupado não apenas de quase todos os temas espinhosos suscitados por sua péssima gestão, mas de sua polêmica passagem pelo Ministério da Saúde.
Na entrevista, enquanto Fátima fingia desempenhar, de forma tíbia e elegante, o papel de bad cop (mas “esquecendo” o quase-vice Arruda e o mensalão tucano de Eduardo Azeredo), Bonner substituia a grosseria de segunda-feira por uma amabilidade tão exagerada quanto imprópria.
Os cortes bruscos e ríspidos com que ele seguidas vezes interrompeu a fala de Dilma deram lugar a intervenções em voz de travesseiro, incluindo um “o senhor me permita” quase ganido. Ao final, quando Serra, mesmo ciente há dias de que disporia de 30 segundos para se despedir, “estourou’ o tempo, a subserviência atingiu seu grau máximo, com o apresentador-galã se desmanchando em desculpas pela interrupção: “Me perdoe... me perdoe”. Patético.
Vitrine para seu candidato
A assimetria de tratamentos verificada no trato com os candidatos na série de entrevistas do JN é particularmente grave por se dar no telejornal de maior audiência do país, em uma TV aberta – ou seja, que opera graças a concessão pública de um bem pertencente ao povo brasileiro. Claro está que isso não é o bastante para frear o ímpeto da Globo de manipular o jornalismo e tentar “vender” seu candidato, utilizando como vitrine para tal o principal programa jornalístico da emissora.
O cúmulo da cara-de-pau, na verdade, é que a Vênus Platinada segue alegando isenção e qualidade, como se os brasileiros fossem trouxas. E daqui a alguns anos, quando o esperneio dos críticos contra tal assimetria tiver passado, a emissora reescreverá o seu passado - como fez com as Diretas-Já -, editando uma fala ou outra da "série de entrevistas que contribuiu para a democracia brasileira". E comemorará, em grande estilo, os 75 anos do padrão Globo de qualidade.
No entanto, o absurdo do "três pesos, três medidas" não se limita a interesses de fundo eleitoral e corporativo. Há também marcados traços ideológico-culturais a estimulá-lo. Numa campanha em que duas mulheres estão entre os três primeiros colocados nas pesquisas, as entrevistas do JN, através dos diferentes tratamentos dispensados aos candidatos, evidenciaram, uma vez mais, a premência da questão de gêneros e a persistência dos “valores” machistas em nossa - com o perdão do oximoro - cultura jornalística.
Machismo e questão de gêneros
Pois se a insistência do bad cop Bonner quanto ao alegado autoritarismo de Dilma trouxe, latente, o culto ao estereótipo de que mulheres, mesmo no comando, devem ser “femininas” e “delicadas” – como se isso tivesse alguma importância no exercício de cargos administrativos - e a feminilidade delicada de Marina acabou por lhe render um tratamento que não poucas vezes soou paternal e leniente – como se de um ser essencialmente frágil e, fica implícito, medianamente competente se tratasse -, Serra, por outro lado, foi tratado como um autêntico patriarca.
A interação do casal de entrevistadores com ele – da qual o tímido o “ senhor me permita”, vocalizado por Bonner, é expressão cabal de subserviência - claramente reverenciou “o político experiente”, “o administrador”, “o realizador”, encarnações do poder fálico decidido e destemido, o qual, ao contrário do que ocorre, na visão do JN, com as candidatas mulheres, não precisa mostrar a que veio.
Se isso não é uma demonstração cabal de ideário machista, a se somar a interesses classistas e empresariais, eu sou o Pato Donald.
domingo, 13 de junho de 2010
A Globo e o cheiro de golpismo no ar (atualizado após cobertura de lançamento de candidatura Dilma no Fantástico)
Os sete minutos que o Jornal Nacional dedicou ao lançamento da candidatura José Serra no sábado (12/06), comparados aos menos de 20 segundos dedicados a Dilma Rousseff elevam a um novo patamar o grau de preocupação quanto ao comportamento da mídia nestas eleições.Há um cheiro de golpismo no ar, exalado pelas declarações de mais de um membro do Judiciário quanto à possibilidade de cassação da candidatura Dilma em seu nascedouro, e incensado nos vapores das sucessivas multas aplicadas pelo sistema eleitoral ao lulopetismo por campanha antecipada, sem que sejam estas acompanhadas de punição similar ao DEM e ao PPS por seus programas televisivos, em que generosa e explicitamente promoveram a candidatura de José Serra – que aliás fez, impunemente, propaganda da Sabesp até no Acre.
O telejornalismo global pode, potencialmente, se seguir com essa cobertura escandalosamente assimétrica, vir a inflamar tal atmosfera golpista.
A mídia impressa não tem mais poder de mobilização popular. Avançamos: longe se vai o tempo em que a Folha de S. Paulo burilava sua imagem às expensas das Diretas Já ou do Fora Collor. Mas é uma incógnita o que pode acontecer se a Rede Globo decidir mesmo partir para o tudo ou nada. Em 2006, mesmo com os factóides do “escândalo do mensalão” transmitidos diuturnamente pela Globo News e chegando a ocupar 2/3 da grade do Jornal Nacional, não funcionou. Mas é arriscado demais fiar-se apenas nesse caso isolado para afirmar que no pasarán.
O fator blogosfera
Parece inegável que a blogosfera – com a Carta Capital e um ou outro veículo menor - tem exercido um papel preponderante na resistência à atuação orquestrada da mídia que se seguiu ao convescote no Millenium, desmontando factóides e produzindo contra-discursos que, se não atingem milhões, chegam a muitos – incluindo uma minoria em posições-chave no jornalismo e na política.
Ao menos até agora não pudemos, infelizmente, contar, nessas eleições, com o blog de Idelber Avelar – cuja lacuna como centro plural de debates permanece impreenchida. Mas, graças a esse fenômeno de renovação autóctone da internet, além da continuidade da atuação aguerrida de Nassif, Azenha, PHA, Vianna, Guimarães e outros mais, tanto o veterano Altamiro Borges, em excelente fase, como o renovado blog de Maria Frô e o Tijolaço, do novato Brizola Neto – que herdou o destemor e a coerência do avô - têm desempenhado um papel destacado de contra-resistência midiática.
A questão, entretanto, é qual o real poder de fogo desse setores da blogosfera brasileira ante um eventual bombardeio global às hostes lulopetistas? Seja qual for a resposta a essa pergunta, a euforia que, ante a subida de Dilma nas pesquisas eleitorais, ora nutre tanto tais novos comunicadores quanto entusiastas da candidata, pode não apenas resultar infundada como contraproducente. Grandes pensadores políticos como Lênin e Gramsci alertaram que subestimar a capacidade do inimigo é um erro ainda mais grave do que superestimar a própria capacidade.
Portanto, a se confirmar a radicalização anti-Dilma na Rede Globo, com o abandono de parâmetros éticos mínimos e de uma postura que ao menos simule imparcialidade em prol de uma campanha aberta e massificada pró-Serra não restará caminho outro que a constituição de um movimento cívico que de fato mobilize a sociedade brasileira para a defesa da democracia.
Globo versus sociedade civil
A emissora em questão tem um histórico que depõe contra si. Cresceu sob a ditadura, a qual apoiou intensamente e, para ficar só nos dois episódios de maior gravidade, como analisa com o brilho costumeiro Venício A. de Lima no ótimo livro Mídia – crise política e poder no Brasil (Perseu Abramo, 2006), a Globo, em consonância com a Proconsult, tentou fraudar as eleições para governador do Rio de Janeiro em 1982, surrupiando votos de Leonel Brizola; e, ao contrário do que tenta hoje, à custa de edições posteriores, provar, negligenciou a cobertura das Diretas-Já em 1984 (e eu não precisaria ler o livro para me dar conta disso, pois lembro-me perfeitamente do fato e do momento histórico, o qual, aos 16 anos, vivi intensamente, como relato aqui - "0 povo não é bobo/abaixo a Rede Globo" era o slogan berrado a plenos pulmões contra a indiferença da emissora para com a luta pela democracia).
Convém lembrar, uma vez mais, que a TV Globo opera graças a uma concessão pública para exploração de sinal de teledifusão, concessão essa regulada pela Constituição Federal e que inclui – ou deveria incluir - não apenas a obediência à legislação eleitoral mas à deontologia, internacionalmente consagrada, do telejornalismo em relação a coberturas de eleições majoritárias.
O engajamento explícito da emissora na candidatura serrista é, portanto, uma questão que transcende os interesses político-partidários das agremiações A, B ou C e se apresenta como grave transgressão aos pilares básicos do exercício da política em uma sociedade democrática. Se tal desatino vier de fato a se concretizar nos dias que virão, será necessário uma reação à altura da sociedade civil organizada.
ATUALIZAÇÃO (14/06):
Após os 5 minutos dispensados à cobertura do lançamento da candidatura de Dilma no Fantástico, interlocutores questionaram a validade do post, e ao menos um acusou o blogueiro de leviano.
Reconheço que é auspicioso constatar que há, na Vênus Platinada, ao menos a intenção de soar equânime, ainda que tal comportamento continue aquém dos padrões que se espera de um jornalismo de alto nível, que deve de fato ao menos buscar a inatingível imparcialidade.
Isso posto, é preciso levar em conta que a cobertura do Fantástico dispensou dois minutos a menos à candidatura Dilma (tempo que é uma enormidade na TV); que no mesmo programa voltou a enfocar Serra por um tempo bem mais generoso do que os 18 segundos concedidos à petista no dia anterior; que o Fantástico não tem o "peso jornalístico" do Jornal Nacional - e, acima de tudo, que a reportagem sobre Dilma foi ao ar uma hora mais tarde e num domingo - com índices de audiência lá embaixo. Sem esquecer que o Fantástico não endossou didaticamente o programa de governo de Dilma como o JN fez com o candidato peessedebista no dia anterior.
Ademais, deve-se enfatizar que, como o bom leitor certamente se apercebeu, o post acima foi todo escrito no condicional. Faz conjecturas, ante o impacto de inéditos 7 minutos dedicados ao lançamento de uma candidatura que já está na praça há tempos e com base no retrospecto profundamente manipulador da emissora em eleições passadas. Fica no ar a questão sobre se os para alguns suficientes 5 minutos dedicados a Dilma no domingo deveu-se ou não, e em que medida, à pressão exercida em decorrência da cobertura espantosamente generosa dedicada ao tucano no dia anterior.
No final, o mais importante é não perder de vista que, somados o sábado e o domingo, o tempo dedicado à candidatura Serra (cerca de 8 minutos) foi mais de 50% maior do que o dedicado a Dilma (pouco mais de 5 minutos). E isso continua sendo, na minha opinião, uma grave distorção.
Quanto ao título infeliz, reconheço, errei. Por isso retitulei.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Obama, Serra e o imperialismo
Afinal, ao mesmo tempo em que alegadamente significava o fim do imperialismo bélico da “era Bush”, culminava, com a chegada de um negro à Casa Branca, como episódio-símbolo da consumação da luta pelos Direitos Civis que teve seu auge nos anos 60.
A jovialidade do candidato, seu sorriso fácil, o otimismo contagiante do “Yes, we can” que se seguiu ao outono neoliberal, tudo parecia indicar que até um revival, em menor escala, do otimismo inebriante do pré-1968 seria possível.
Tratava-se, hoje se sabe, de uma mera ilusão. Como fica cada vez mais evidente, o acordo que, em nome da governabilidade, o presidente se viu forçado a fazer com a linha-dura do partido democrata, encarnada por Hillary Clinton – que se torna, cada vez mais, uma figura trágica, que parece ter direcionado todas as frustrações repressadas de esposa publicamente traída à acumulação de um poder tão intransigente quanto insensível - acabou por gerar não o fim dos falcões bélicos republicanos, mas tão-somente sua substituição por seus iguais democratas. (Leia no ótimo blog de Arnobio Rocha, uma reconstituição detalhada de tal processo)
O retorno do oprimido
Dois episódios, graves e recentes, parecem confirmar tal premissa. O primeiro é a reação intempestuosa dos EUA ao acordo Brasil-Irã-Turquia. Comandada pela Secretária de Estado – que, na prática, desautorizou o próprio presidente Obama -, a tratativa em prol da adoção de sanções contra o Irã, acompanhada da retórica belicista, contraria esforços em prol da paz saudados pela maioria da comunidade e da imprensa internacionais.
Foi como se o sorriso de dentes brancos e alinhados de Obama uma máscara se revelasse, dando lugar à verdadeira face da nação – a do enrugado imperialismo bélico, invasor e antidemocrático, com um desprezo pela vida humana que só rivaliza, em intensidade, com seu grau de ganância materialista.
Nem bem as pessoas de bem se recuperaram do susto ante a carranca, a brutalidade patrocinada pelos EUA uma vez mais se manifestou, na forma do inadmissível ataque do exército israelense a um comboio marítimo pacífico, que levava víveres e remédios ao campo de concentração, digo, à Faixa de Gaza. No mínimo, nove pessoas morreram.
A reação dos EUA, que sistematicamente boicotam qualquer ação contra o terrorismo de estado israelense? O de sempre: declarações afetando indignação, mas não acompanhadas do anúncio oficial da adoção de nenhuma medida para punir o prolongado banho de sangue - entre forças covardemente desiguais - no Oriente Médio.
Imperialismo brazuca
No Brasil, por sua vez, presencia-se o retorno de um discurso lumpen-imperialista que julgávamos condenado às teias de aranha da história. Vocalizado por um cada vez mais desequilibrado José Serra, apela, a um tempo, ao imaginário preconceituoso que ainda predomina, em nossa sociedade, em relação aos povos andinos e à caricaturização que nossa imprensa faz de Evo Morales – “amigo de Lula” - para culpar a Bolívia pelo tráfico de cocaína no Brasil e, de quebra, atingir a candidatura Dilma.
Se o caso fosse mesmo acusar os países vizinhos pelo tráfico no Brasil – negligenciando, como sempre, o quanto nossa própia estrutura socioeconômica colabora para tal - o candidato tucano deveria endereçar-se não ao “índio” esquerdista Morales, mas ao seu colega colombiano Álvaro Uribe, direitista e branquinho, cujo país exporta três vezes mais cocaína ao Brasil do que seu vizinho andino.
Porém, muito mais preocupante do que essa diatribe eleitoral desesperada de Serra – que subitamente deixou de ser o pós-Lula – é a soma de sua postura destrutiva em relação ao Mercosul e belicista quanto aos nossos vizinhos sul-americanos com a defesa desabrida que faz do realinhamento automático com os EUA.
Pois, no momento em que Brasil começa a se impor de forma mais visível no cenário internacional, com os avanços e retrocessos que tal condição provoca numa arena geopolítica altamente competitiva, o retorno a uma postura submissa em relação aos EUA significaria não apenas um estímulo indevido ao imperialismo desumano do qual sua história é composta, mas a renúncia a nosso direito por reafirmarmo-nos como nação livre e autônoma no cenário internacional.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
A surpreendente candidatura de José Serra
Antes à tarde do que nunca (como dizia Zózimo Barroso do Amaral a respeito da vida sexual de uma certa socialite carioca), José Serra admitiu sua candidatura à Presidência.Como noticiou à exaustão a imparcial grande imprensa paulista, a festa de lançamento reuniu - espontaneamente, é claro - 4 mil pessoas, ao invés das duas mil originalmente esperadas.
Não poderia ser diferente: trata-se de uma candidatura ungida pelo povo e para o bem do povo concebida. Destarte, o evento de lançamento só poderia ser em um verdadeiro ponto de encontro da gente simples de São Paulo: o Palácio dos Bandeirantes.
No discurso, aliás, a mais célebre cria política da Móoca fez questão de frisar que seu mandato foi popular (quase tão popular quanto Hebe Camargo e Adriane Galisteu, duas filósofas pós-estruturalistas do mesmo bairro). Governos do PSDB são assim: o povo é invocado a todo momento, e não apenas às vésperas de eleições.
Estupefata ante a surpreendente revelação de que Serra quer se eleger presidente em outubro – notícia que, como disse minha avó, “pegou todo mundo de calça curta” -, o petit-comité, quer dizer, a entusiasmada multidão, ouviu o predestinado líder exaltar suas muitas obras e realizações.
Porém, num gesto que demonstra a humildade sem par que sempre caracterizou o venturoso bandeirante, Serra preferiu deixar de mencionar obras em que muito investiu, mas que foram lamentavelmente prejudicadas pela natureza indomável desta cidade-selva, em que a terra engole metrôs e vigas de rodoaneis, enquanto a chuva castiga sem dó, a tudo inundando e tornando nulos todos os esforços dos mandatários para proporcionar bem-estar ao povo que amam.
Mas o momento que realmente a todos comoveu foi quando o ínclito político sublinhou que seu governo foi limpo como véu de noiva lavado com Omo, relembrando, para júbilo geral, que não foram publicadas denúncias de corrupção.
Não poderia haver verdade mais cristalina. Preocupados em fazer jornalismo de qualidade e fornecer uma visão crítica e justa - seja das administrações petistas, seja das peessedebistas, ambas tratadas com o mesmo rigor - a mídia em geral nada publicou que desabone Serra e seu secretariado.
Tal papel, típico da imprensa marrom, ficou para os blogues – que, como sabemos, não são confiáveis (afinal, quem está por trás deles?, costuma perguntar minha tia). Ademais, ao contrário da plateia que foi saudar Serra, eles são amestrados. E a um ponto tal que teve gente que ousou sugerir que a Secretaria de Educação, comandada pelo galã tucano Paulo Renato de Souza, seria um foco de negócios suspeitos da administração tucana.
Ora, façam-me um favor! Há um limite para se denegrir a honra alheia com falsas acusações. Esses blogueiros porra-loucas deveriam se inspirar em tradicionais órgãos de imprensa como a Folha, o Globo e, notadamente, a Veja, que só publica acusações na capa após checá-las com rigor. Do contrário, será preciso calar a blogosfera. Tenho dito!
Este post é dedicado aos ilibados professores Hariovaldo de Almeida Prado e Temístocles Sabóia Filho, que são a prova viva de que nem todos os blogueiros vivem do ouro da Albânia.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
O enigma do voto em Serra
Agrava tal quadro a constatação de que à insistência do atual governador de São Paulo em políticas econômicas recessivas, “suavizadas” pelo uso intenso do marketing, vem se somar a instrumentalização da quase totalidade da mídia corporativa – numa operação de “blindagem” do candidato que é vergonhosa para a imprensa, mas muito diz também em relação aos métodos de Serra em relação à comunicação social em uma democracia.
Não se pode, ainda, deixar de lado - sob o risco de negligenciar a análise de aspectos essenciais do serrismo -, seu retrospecto propriamente político-eleitoral nos últimos anos. Este não se limita à quebra do compromisso assumido publicamente com o eleitor de cumprir até o fim o mandato de prefeito pelos paulistanos lhe outorgado, trocando-o pela ambição eleitoral de curto prazo; nem ao patrocínio à candidatura do então virtualmente desconhecido Gilberto Kassab, que é, do ponto de vista administrativo, muito provavelmente o pior prefeito eleito da cidade no período pós-ditadura militar, e que, além de protagonizar de forma reiterada ataques agressivos contra populares, ora ostenta a honra de ter sido o primeiro alcaide cassado, em primeira instância, em São Paulo. Os estratagemas eleitorais de Serra incluem, ainda, o anúncio público da possibilidade de uma composição, para as eleições presidenciais, com José Roberto Arruda (ex-DEM–DF). O ex-governador do Distrito Federal, para quem não está ligando o nome à pessoa, é aquele político reincidente em falcatruas - e de um modo tão desabrido que, mesmo pertencendo ao andar social de cima e ao primeiro escalão político do país, conseguiu a façanha de, no Brasil, acabar atrás das grades. Diz-me com quem anda e eu te direi quem és.
A gestão Serra
Porém, para além da análise dos problemas ideológicos e metodológicos que cercam a candidatura peessedebista, é preciso escrutinar o que tem sido efetivamente a gestão Serra naqueles quesitos que, dizem os mandarins da pesquisa política, tendem a exercer maior influência sobre o voto do “eleitor médio”. A pergunta, neste caso, é: qual o legado, para o estado de São Paulo, da administração do atual governador em quesitos-chave como transportes, segurança, educação e saúde?
Transportes: O grau de deteriorização do Metrô de São Paulo nos quase quatro anos em que Serra ocupa o Palácio dos Bandeirantes é superlativo. Ele construiu a estação Sacomã, é verdade, e eu não me surpreenderia se por conta disso vier a receber uma boa votação no bairro e em suas imediações – trataria-se do reconhecimento a um político que trouxe benfeitorias à região.
Mas e o enorme contingente que, diariamente, é obrigado a encarar um serviço de transporte público que por décadas foi tido como modelar em âmbito mundial e hoje se encontra degradado a olhos vistos, ostentando, a qualquer hora, enormes filas nos poucos guichês que funcionam, escadas rolantes desativadas e vagões lotados?
Ante tais críticas, evoca-se a alegação de que São Paulo cresceu demais. Ora, o crescimento da maior metrópole do país, fato passível de previsão por técnicos especializados em demografia, não pode servir de desculpa à gestão ineficiente de um determinado governador – pelo contrário, deveria ser item contabilizado para um planejamento eficiente de como administrá-lo. Ademais, foram menos de 4 anos desde que Serra assumiu o governo. Por qualquer critério, o grau de crescimento da metrópole foi bem menor do que o de degradação do sistema metroviário.
Sair da análise da situação do transporte público da capital e passar a enfocar as condições de transporte no interior do estado é defrontar-se com outro quadro, mas que conserva intacto o desprezo pela locomoção dos estratos sociais de baixa renda: na prática, o custo dos pedágios nas rodovias estaduais paulistas cerceia o direito constitucional de ir e vir dos cidadãos menos capitalizados. O governo federal tem demonstrado, de forma cabal, que é possível construir belas estradas sem esfolar o bolso dos humildes. Nada justifica o descalabro que são os preços praticados nas praças de pedágio de São Paulo, a não ser a falta de vontade política - ditada pelo elitismo – para resolver a questão.
Educação: Talvez a área mais problemática da gestão Serra, embora muitos não o saibam, graças ao reforço extra na blindagem midiática que a presença do sempre bem relacionado Paulo Renato de Souza à frente da Secretaria da Educação assegura.
O setor encontra-se, como veremos a seguir, atrelado a um número impressionante de denúncias de corrupção – algumas já alvo da atenção do Ministério Público -, além de ser acusado de manipular índices de desempenho (em um momento em que a educação pública paulista despencou nos rankings nacionais), de humilhar e sub-remunerar funcionários e professores e, em pleno 2010, de comprovadamente fazer alunos sentarem-se no chão por falta de... carteiras.
Comecemos pelo saco de maldades: anunciada com estardalhaço pela mídia amiga, a linha de financiamento disponibilizada a professores para que comprem um computador oferece juros anuais extorsivos: 26,4%, enquanto para empresários é de 4,5% para aquisição do mesmo bem. Já em relação aos aposentados, o governo Serra, a exemplo do que fez FHC quando presidente, os mantêm a pão e água: 5% de aumento em quase quatro anos de governo.
A aplicação do SARESP, a tal prova para avaliar professores e alagadamente melhor remunerar os com bom desempenho, foi um caos total – como demonstra esta série de posts -, com atrasos enormes, provas e gabaritos trocados e a disponibilização de uma linha telefônica para informações que, é claro, não funcionou. Os resultados, tanto da aplicação da prova quanto do desempenho global dos professores foram pífios, embora este último se deva em larga medida ao boicote que muitos professores promoveram, se recusando a responder às questões. Tal como fazia em relação ao Provão dos tempos de FHC, a mídia não registrou esse “detalhe”, preferindo desmerecer o nível educacional do professorado. No início deste ano letivo, novo caos, desta feita para a atribuição de aulas.
As denúncias de corrupção começam com casos regionais – como as acusações contra a Diretoria de Ensino de Araraquara –, passam pela libertinagem das transações cibernéticas feitas à sombra da “inexigibilidade de licitação” e chegam à teia de ligações envolvendo a gestão de Paulo Renato, editoras do setor privado e compra milionária e sem licitação de uma série de revistas e livros, que têm em comum a característica de ser produzidas por empresas da mídia amiga. E isso tudo é só parte do imbroglio, em grande parte desvendado pelo brilhante trabalho jornalístico do blog Na Maria News, onde se encontra mais, muito mais evidências perturbadoras acerca da, digamos, falta de transparência na administração da educação estadual.
O modo como o governador lida com tais denúncias? Além da cumplicidade silenciosa da imprensa amiga, espera aprovar uma “Lei da Mordaça” que impeça a gritaria.
Saúde: Como melhor ministro da Saúde da história deste país, José Serra, à frente do governo estadual, certamente está dando especial atenção à área e realizando uma gestão que não pode ser considerada menos do que marcante. O difícil é encontrar evidências que comprovem esse fato consumado – mas isso certamente se deve à omissão da imprensa, que persegue e boicota José Serra, tentando impedir que ele chegue ao Palácio do Planalto.
Devemos mencionar, no entanto, as enchentes que destruíram São Luis do Paraitinga e mantiveram alagados (e, em alguns casos, ainda mantêm) diversos bairros da região metropolitana. A água acumulada das enchentes é, como se sabe, manancial bacteriológico e fonte potencial para uma série de doenças, algumas mortais. Mas, como nos informou a sempre imparcial imprensa paulista, a enchente se deveu exclusivamente ao azar e à maldade de São Pedro para com São Paulo – nada a ver, portanto, com o desassoreamento do rio Tietê ter sido negligenciado pela administração estadual desde 2005. Seria injusto, portanto, responsabilizar o governador pelas enchentes.
Segurança Pública: Enquanto modalidades diversas de crimes, como o homicídio, campeiam no estado bandeirante – de uma forma tal que muitos cidadãos vivem em pânico ante a ameaça cotidiana de violência -, o governo estadual é reiteradamente acusado de manipular o sistema de registro de ocorrências adotado pelas forças policiais de forma a artificialmente minorar os números reais. Trata-se de um problema crônico e que, apesar das tentativas da secretaria de Segurança de barrar seu estudo, já fora detectado por pesquisa acadêmica séria quando o antecessor de Serra, o também tucano Geraldo Alckimin, estava à frente do governo. A “novidade” trazida pelo atual mandatário é o suposto agravamento de tais métodos.
Outra inovação trazida pelo atual governador – esta devida a seu apreço pela democracia - é o recorrente emprego de força policial para reprimir, de forma desnecessariamente violenta, manifestações pacíficas, como ocorreu na USP e no protesto dos moradores do Jardim Romano, alagado há quatro meses. Alguns tuiteiros amigos sugerem que no Distrito Federal e no Rio Grande do Sul também é assim – e que este seria, portanto, um ranço autoritário das administrações demotucanas. Ok, a violência de forças policiais públicas contra manifestantes pacíficos ocorre também em tais paragens – e isso, é claro, é lamentável -, mas o ex-governador do DF encontra-se preso e Yeda Cruzes tornou-se um zumbi eleitoral – nenhum dos dois é, como Serra, um candidato presidencial com poucas mas efetivas chances de vitória. E isso faz toda a diferença!
Há, ainda, a chocante onda de incêndios em favelas paulistanas, com frequência e peculiaridades que sugerem tratar-se de atos criminosos. É evidente que não se deve, a princípio, responsabilizar diretamente o governador por esse inovador método de tornar os miseráveis mais miseráveis e beneficiar a exploração imobiliária. Mas é mister constatar que seus órgãos de segurança têm sido incapazes de deter o fenômeno ou de fornecer explicações convincentes sobre as razões de sua ocorrência. Por incrível que pareça, garantir a segurança dessa gente pobre e bronzeada que tem o mau hábito de morar em barracos fincados na lama também é função das forças policiais sob as ordens de Serra.
Não se pode deixar de mencionar, ainda, outra inovação serrista para a insegurança pública: a condução de obras que vêm abaixo de forma estrondosa e imprevisível, como o acidente na construção da linha Amarela-4 que matou sete pessoas ou o desabamento do Rodoanel, a megaobra que custou uma fortuna inexplicável e cujo prazo para finalização efetiva provavelmente superará o tempo de vida deste blogueiro e de você, caro(a) leitor(a). Tal “onda de desabamentos’ se deve ao emprego de material de construção vagabundo e barato, como forma de “fazer caixa” eleitoral, como sugerem as más línguas? Não creio.
Um enigma sem respostas
Nesse quadro, como entender que os índices de intenção de voto em Serra, embora em queda, ainda se mantenham em torno dos 30%? A cada vez que uma nova pesquisa é anunciada, o que mais me surpreende não é o crescimento de Dilma, mas, ante a pífia administração serrista, a queda relativamente pequena das intenções de voto no candidato tucano. Será que esses seus supostos eleitores conhecem o que é, documentadamente, o “choque de gestão” de Serra, cujos resultados práticos foram acima mencionados?
Teria a parcela expressiva do eleitorado do Sul/Sudeste que ora alimenta os sonhos eleitorais de Serra ciência de que seu candidato, além de não ter palavra e aliar-se a figuras públicas visadas pela Justiça, promove tamanho desgoverno? O que a levaria, então, a declarar votos nele? Estaria, em nome de uma luta política de cunho ideológico e, convenhamos, não desprovida de preconceitos e ódios de classe contra seus opositores, fazendo como um célebre coronel que, antes de pespegar sua assinatura no AI-5, mandou “às favas os escrúpulos”? Trataria-se, portanto, tão-somente de um voto ideológico e/ou reativo, de repulsa ao lulopetismo?
Sei que são perguntas que tendem a ficar sem respostas – ou, o que é mais provável, respondidas com a agressividade desprovida de argumentos dos trolls fanáticos. A criação de nichos na internet - alguns deles por afinidades político-ideológicas – é um fato e, com raras exceções, creio que a maioria dos poucos mas prezados leitores deste blog é de pessoas mais afinadas a um ideário que se projeta do centro à esquerda.
Eu sinceramente gostaria de obter respostas sinceras e objetivas em relação às questões acima colocadas, ao invés de meras acusações reativas que procuram desclassificar a candidata governista por conta de seu perfil ideológico, de seu suposto passado ou da alegada frouxidão ética das forças que a apoiam. A questão, aqui, não é Dilma, mas Serra: o que leva pessoas que afirmam prezar a ética e a boa administração pública a votar em tal candidato?
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Grandes Figuras do Carnaval Brasileiro
Verdadeiro Lampião da folia, por puro amor ao carnaval e ao Nordeste levou à região seu entusiasmo contagiante, encantando os populares com sua espontaneidade, talento para a dança e sorriso envolvente. Desfila no Bloco do Eu Sozinho.
Porta-bandeira do carnaval amazônico, abandonada em pleno desfile pelo Mestre-Sala Gabeira, apresenta-se na Unidos da Natura com o enredo “Viva o Serra e desliguem as serras: a ecologia como truque eleitoral no Eldorado tupiniquim”. De cara limpa (a pedido de Caymmi), desfila no bloco Corre Atrás”.
Um tipo tão popular que carrega seu próprio isopor – repleto de cervejas - na praia, este fã de Zeca Pagodinho decidiu inovar este ano: aposenta a batida fantasia “Lulinha Paz e Amor” e estreia a “Com Dilma no peito e na raça". Autêntico molusco das sapucaís da vida, costumava desfilar também no Barbas, mas este ano sai no Meu Bem, Volto Já!.
Após sair no bloco carioca Tá Pirando, Pirado, Pirou, este habitante da Caverna do Ostracismo, conhecido de outros carnavais, anunciou que, tal qual um Clóvis Bornay redivivo, quer voltar ao bailes de gala de Brasília. Este ano ainda desfila pelo bloco Senis, Invejosos e Sem-noção - com uma ambulância de plantão, é claro. Na foto, o incansável folião demonstra o quanto ficou incontrolavelmente excitado com as fotos de Sonsinha nua.
Piadista de primeira, passa o ano brincando de administrar horário de feiras e de padronizar fachadas de lojas. Carnavalesco até debaixo d’água, trouxe para São Paulo o enredo “De Roma ao Jardim Romano: as exuberantes ruínas da política na cidade submersa de Zé Alagão e Aquassab”. Desfila no Não Mexe que Fede.
Após promover uma folia nababesca com panetones, um bacanal com dinheiro público e manipular seus eleitores tal qual um Arlequim, o Pierrô acabou sem Colombina, passando o carnaval na cadeia, fantasiado de presidiário. Sair em bloco, só na hora do banho de sol.
Outra foliã inata, provocou comoção entre os sempre desanimados baianos e pernambucanos, tamanha sua empolgação carnavalesca. É uma identificação imediata: basta pensar em carnaval para se lembrar dela, não é mesmo? Também, com esse soriso contagiante...! Dizem as más (ou seriam as boas?) línguas que, em nome de sua paixão incansável pela festa popular, vai deixar cair a pinta de séria e desfilar no Vem Ni Mim Que Eu Sou Facinha.