O próprio resultado dessa próxima eleição – vença o candidato apoiado pelo lulismo, vença seu opositor – tende a exercer um grau considerável de influência no julgamento histórico acerca da “Era Lula”, e com isso chegamos à primeira consideração sobre a especifidade do modus operandi da História – a constatação de que ela tende a variar, em relação ao seu objeto de estudo, até mesmo devido a mudanças contingenciais imediatas. Levada ao paroxismo, essa característica evoca a famosa boutade de Napoleão segundo a qual a história seria “Um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo”.
Além do papel que a dinâmica política imediata pode vir a exercer na avaliação do legado do atual presidente, há outro fator essencial a considerar: o comportamento da mídia. Este tende a ser potencialmente decisivo numa era em que informação e capital protagonizam, nas palavras de Antonio Rubim (no livro Comunicação e Política), “uma sociedade estruturada e ambientada pela comunicação, como uma verdadeira ‘Idade Mídia’, em suas profundas ressonâncias sobre a sociabilidade contemporânea em seus diversos campos” (2000, p. 29).
E há, na própria política nacional mais ou menos recente, precedentes que demonstram os efeitos potencialmente nocivos, para a memória histórica, do comportamento da mídia . Como escrevi em post anterior, considero a prefeitura de Luiza Erundina em São Paulo (1989-1992) o mais bem-sucedido exemplo do papel da mídia em legar, para o país, uma visão negativamente distorcida de uma administração que não poderia ser considerada menos do que ótima. É claro que o peso das forças antagônicas em âmbito federal e a possibilidade de continuidade do lulo-petismo no poder podem tornar esta última tendência política menos suscetível à brutalmente desonesta manipulação que vitimou Erundina. Mas todo o cuidado é pouco.
Uma terceira e última ressalva, em relação ao que a História fará do governo Lula, diz respeito ao fenômeno descrito por Eric Hobsbawn na introdução a Era dos Extremos (2000), segundo o qual as novas gerações crescem atualmente “numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação com o passado público da época em que vivem” (p. 13). Ou seja, a tendência à dispersão e ao imediatismo ditadas pelo ritmo veloz do jornalismo contemporâneo – e tão nociva a este, como aponta com brilho Sylvia Moretzsohn no livro Jornalismo em Tempo Real (Ed. Revan, 2007) – tenderia a estender seus tentáculos à História. É matéria de debate se novos ambientes comunicacionais como a blogosfera tendem a minimizar ou acirrar ainda mais esse fenômeno do “contínuo presente” - de qualquer forma, caberá ao historiador se vacinar contra ele.
Impressões atuais tendem a ser relativizadas
A despeito de tais restrições - e de todas as objeções pós-estruturalistas -, a História tem sido bem-sucedida em legar ao futuro – e ao grande público, que no âmbito deste artigo nos interessa mais – visões mais ou menos consolidadas (embora sempre passíveis de questionamentos ou matizações) dos principais fenômenos políticos, culturais, sociais e econômicos brasileiros. Não sem raridade, as interpretações mais aceitas e consagradas dos fenômenos históricos contrariam fortemente a percepção socialmente dominante no momento histórico analisado.
Tomemos dois casos como exemplo: o “Milagre econômico” de meados dos anos 1970 e a Presidência de Juscelino Kubitschek (1956-1961). O primeiro, saudado à sua época por mídia e sociedade como prova da eficiência de uma administração que tornava o Brasil a 8ª. economia do mundo, revelar-se-ia, sob perspectiva histórica, um fenômeno fugaz e artificioso proporcionado por vultoso endividamento externo, que acirrou ainda mais as desigualdades sócioeconômicas internas e levou o país a décadas de crise econômica e alta inflação por conta, sobretudo, dos custos do pagamento dos juros da tal dívida.
Já a Presidência de JK, vitimizada por três golpes de estado (abortados a tempo) e enxovalhada semanalmente em O Cruzeiro (a Veja da época, que tinha em David Nasser o seu Reinaldinho Azevedo), embora permaneça ainda hoje volta e meia questionada por humoristas que se autointitulam economistas por conta do ínfimo endividamento externo, é reconhecida pela História como a última administração produtora de um modelo de desenvolvimento orgânico e planificado que contemplou destacadamente a indústria (e pela primeira vez a automobilística), os transportes (rodovias Belém-Brasília e Régis Bittencourt), o setor de energia (hidrelétricas de Furnas e de Três Marias, aumento exponencial da produção de petróleo pela Petrobrás), além da incisiva política externa em prol da América do Sul (fundação da Operação Pan-Americana) e, mais importante, da propulsão inicial à integração nacional propiciada pela construção de Brasília (como aponta Venício A. de Lima, a cidade mais discriminada pela mídia nacional, que a confunde com os políticos que a habitam). Isso para não mencionar a democracia plena e a efervescência cultural que caracterizaram o período presidencial de JK e colaboraram sobremaneira para que este tenha acabado por receber o epíteto de “anos dourados”.
Caberá à História julgar legado de Lula
Como os exemplos acima evidencializam, os métodos históricos operam em outro diapasão em relação aos interesses políticos imediatos e ao modus operandi da mídia. Este, como tem apontado Luis Nassif, tem se caracterizado pelo que o jornalista chama de “priapismo midiático”, ou seja, a geração de um escândalo por dia para manter o leitor em permanente orgasmo. Trata-se de procedimento recorrente, mas potencialmente perigoso, como o demonstra um caso clássico da relação poder-imprensa no Brasil:
Quando o povo brasileiro foi dormir no dia 23 de agosto de 1954, o presidente era, segundo quase todos os jornais, que vendiam como nunca, o mais corrupto presidente da história do país; ao acordar no dia seguinte, e constatar que Vargas se matara, esse mesmo povo o elege seu mártir e sai em turba empastelando - ou tentando empastelar - as redações, preservando apenas a do Última Hora, único jornal que apoioara Vargas e que bateria, naqueles dias, recordes de venda.
Destarte, casos que hoje, graças ao moralismo tosco que continua dominando nossa imprensa, parecem ter uma importância vital - como Sarney no Senado, Dilma não ter renovado o Currículo Lattes, a tapioca comprada com cartão funcional e todos esses episódios que a mídia e a oposição (acredite, prezado leitor, são entidades diferentes) alardeiam como se se tratasse de motivo para impeachment de Lula - tendem, por sua própria insignificância e por dizerem respeito a práticas secularmente estabelecidas no país e não a ações do atual presidente, a desaparecer ou a virar uma vírgula no compêndio que a História reservará para a análise do que foram as duas Presidências de Lula.
Em compensação, um programa social que tirou cerca de 40 milhões de pessoas (11.250.623 famílias) da pobreza como o Bolsa-Família, a redução da mortalidade infantil em inacreditáveis 50%, o redirecionamento da política externa no sentido Sul-Sul /BRIC como forma de construir novas alianças internacionais e minimizar a influência norteamericana no país, a descentralização dos investimentos culturais para fora do eixo Rio-SP e a inédita proliferação de pontos produtores de cultura (inclusive audiovisual) nos mais longínquos rincões e a revitalização de um ensino superior quase destruído pelo governo Fernando Henrique Cardoso - seguida da criação de dezenas de universidades bem equipadas em regiões não-centrais do território - são medidas concretas, fatos comprováveis, em relação aos quais há uma chance enorme de a História demonstrar o obrigatório interesse e reconhecer o devido mérito, a despeito destes serem hoje largamente negligenciados por uma mídia tendenciosa e irresponsável como poucas vezes se viu - e, em decorrência dessa omissão, praticamente desconhecidos, em seu conjunto, da maioria da população do Brasil neste momento.
Caberá à História rever tais injustiças e estabelecer os devidos erros e os méritos da Presidência de Luis Inácio Lula da Silva.

O “Poetinha”, como era carinhosamente apelidado, Vinicius de Moraes tende a ser naturalmente associado à poesia, seja como autor de sonetos (formato que inicialmente preferiu) e de outras modalidades de poemas ou como letrista de algumas das canções mais impregnadas de lirismo na música brasileira.