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sexta-feira, 17 de julho de 2009

Lula e a História

A hora de fazer um balanço do legado das duas Presidências de Luis Inácio Lula da Silva se aproxima, mas ainda não chegou. De qualquer modo, essa primeira avaliação terá lugar, inevitavelmente, em meio ao fogo cruzado de uma nova campanha presidencial e, em decorrência disso, tende a estar sujeita a toda a sorte de distorções e parcialidades ditadas pelos interesses das partes em disputa.

O próprio resultado dessa próxima eleição – vença o candidato apoiado pelo lulismo, vença seu opositor – tende a exercer um grau considerável de influência no julgamento histórico acerca da “Era Lula”, e com isso chegamos à primeira consideração sobre a especifidade do modus operandi da História – a constatação de que ela tende a variar, em relação ao seu objeto de estudo, até mesmo devido a mudanças contingenciais imediatas. Levada ao paroxismo, essa característica evoca a famosa boutade de Napoleão segundo a qual a história seria “Um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo”.

Além do papel que a dinâmica política imediata pode vir a exercer na avaliação do legado do atual presidente, há outro fator essencial a considerar: o comportamento da mídia. Este tende a ser potencialmente decisivo numa era em que informação e capital protagonizam, nas palavras de Antonio Rubim (no livro Comunicação e Política), “uma sociedade estruturada e ambientada pela comunicação, como uma verdadeira ‘Idade Mídia’, em suas profundas ressonâncias sobre a sociabilidade contemporânea em seus diversos campos” (2000, p. 29).

E há, na própria política nacional mais ou menos recente, precedentes que demonstram os efeitos potencialmente nocivos, para a memória histórica, do comportamento da mídia . Como escrevi em post anterior, considero a prefeitura de Luiza Erundina em São Paulo (1989-1992) o mais bem-sucedido exemplo do papel da mídia em legar, para o país, uma visão negativamente distorcida de uma administração que não poderia ser considerada menos do que ótima. É claro que o peso das forças antagônicas em âmbito federal e a possibilidade de continuidade do lulo-petismo no poder podem tornar esta última tendência política menos suscetível à brutalmente desonesta manipulação que vitimou Erundina. Mas todo o cuidado é pouco.

Uma terceira e última ressalva, em relação ao que a História fará do governo Lula, diz respeito ao fenômeno descrito por Eric Hobsbawn na introdução a Era dos Extremos (2000), segundo o qual as novas gerações crescem atualmente “numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação com o passado público da época em que vivem” (p. 13). Ou seja, a tendência à dispersão e ao imediatismo ditadas pelo ritmo veloz do jornalismo contemporâneo – e tão nociva a este, como aponta com brilho Sylvia Moretzsohn no livro Jornalismo em Tempo Real (Ed. Revan, 2007) – tenderia a estender seus tentáculos à História. É matéria de debate se novos ambientes comunicacionais como a blogosfera tendem a minimizar ou acirrar ainda mais esse fenômeno do “contínuo presente” - de qualquer forma, caberá ao historiador se vacinar contra ele.


Impressões atuais tendem a ser relativizadas
A despeito de tais restrições - e de todas as objeções pós-estruturalistas -, a História tem sido bem-sucedida em legar ao futuro – e ao grande público, que no âmbito deste artigo nos interessa mais – visões mais ou menos consolidadas (embora sempre passíveis de questionamentos ou matizações) dos principais fenômenos políticos, culturais, sociais e econômicos brasileiros. Não sem raridade, as interpretações mais aceitas e consagradas dos fenômenos históricos contrariam fortemente a percepção socialmente dominante no momento histórico analisado.

Tomemos dois casos como exemplo: o “Milagre econômico” de meados dos anos 1970 e a Presidência de Juscelino Kubitschek (1956-1961). O primeiro, saudado à sua época por mídia e sociedade como prova da eficiência de uma administração que tornava o Brasil a 8ª. economia do mundo, revelar-se-ia, sob perspectiva histórica, um fenômeno fugaz e artificioso proporcionado por vultoso endividamento externo, que acirrou ainda mais as desigualdades sócioeconômicas internas e levou o país a décadas de crise econômica e alta inflação por conta, sobretudo, dos custos do pagamento dos juros da tal dívida.

Já a Presidência de JK, vitimizada por três golpes de estado (abortados a tempo) e enxovalhada semanalmente em O Cruzeiro (a Veja da época, que tinha em David Nasser o seu Reinaldinho Azevedo), embora permaneça ainda hoje volta e meia questionada por humoristas que se autointitulam economistas por conta do ínfimo endividamento externo, é reconhecida pela História como a última administração produtora de um modelo de desenvolvimento orgânico e planificado que contemplou destacadamente a indústria (e pela primeira vez a automobilística), os transportes (rodovias Belém-Brasília e Régis Bittencourt), o setor de energia (hidrelétricas de Furnas e de Três Marias, aumento exponencial da produção de petróleo pela Petrobrás), além da incisiva política externa em prol da América do Sul (fundação da Operação Pan-Americana) e, mais importante, da propulsão inicial à integração nacional propiciada pela construção de Brasília (como aponta Venício A. de Lima, a cidade mais discriminada pela mídia nacional, que a confunde com os políticos que a habitam). Isso para não mencionar a democracia plena e a efervescência cultural que caracterizaram o período presidencial de JK e colaboraram sobremaneira para que este tenha acabado por receber o epíteto de “anos dourados”.


Caberá à História julgar legado de Lula
Como os exemplos acima evidencializam, os métodos históricos operam em outro diapasão em relação aos interesses políticos imediatos e ao modus operandi da mídia. Este, como tem apontado Luis Nassif, tem se caracterizado pelo que o jornalista chama de “priapismo midiático”, ou seja, a geração de um escândalo por dia para manter o leitor em permanente orgasmo. Trata-se de procedimento recorrente, mas potencialmente perigoso, como o demonstra um caso clássico da relação poder-imprensa no Brasil:

Quando o povo brasileiro foi dormir no dia 23 de agosto de 1954, o presidente era, segundo quase todos os jornais, que vendiam como nunca, o mais corrupto presidente da história do país; ao acordar no dia seguinte, e constatar que Vargas se matara, esse mesmo povo o elege seu mártir e sai em turba empastelando - ou tentando empastelar - as redações, preservando apenas a do Última Hora, único jornal que apoioara Vargas e que bateria, naqueles dias, recordes de venda.

Destarte, casos que hoje, graças ao moralismo tosco que continua dominando nossa imprensa, parecem ter uma importância vital - como Sarney no Senado, Dilma não ter renovado o Currículo Lattes, a tapioca comprada com cartão funcional e todos esses episódios que a mídia e a oposição (acredite, prezado leitor, são entidades diferentes) alardeiam como se se tratasse de motivo para impeachment de Lula - tendem, por sua própria insignificância e por dizerem respeito a práticas secularmente estabelecidas no país e não a ações do atual presidente, a desaparecer ou a virar uma vírgula no compêndio que a História reservará para a análise do que foram as duas Presidências de Lula.

Em compensação, um programa social que tirou cerca de 40 milhões de pessoas (11.250.623 famílias) da pobreza como o Bolsa-Família, a redução da mortalidade infantil em inacreditáveis 50%, o redirecionamento da política externa no sentido Sul-Sul /BRIC como forma de construir novas alianças internacionais e minimizar a influência norteamericana no país, a descentralização dos investimentos culturais para fora do eixo Rio-SP e a inédita proliferação de pontos produtores de cultura (inclusive audiovisual) nos mais longínquos rincões e a revitalização de um ensino superior quase destruído pelo governo Fernando Henrique Cardoso - seguida da criação de dezenas de universidades bem equipadas em regiões não-centrais do território - são medidas concretas, fatos comprováveis, em relação aos quais há uma chance enorme de a História demonstrar o obrigatório interesse e reconhecer o devido mérito, a despeito destes serem hoje largamente negligenciados por uma mídia tendenciosa e irresponsável como poucas vezes se viu - e, em decorrência dessa omissão, praticamente desconhecidos, em seu conjunto, da maioria da população do Brasil neste momento.

Caberá à História rever tais injustiças e estabelecer os devidos erros e os méritos da Presidência de Luis Inácio Lula da Silva.


(Fotomontagem a partir de imagens retiradas daqui e dali)

domingo, 3 de maio de 2009

Boal, um grande brasileiro

Augusto Boal
Diretor de Teatro, Homem de Esquerda
e Fundador do Teatro do Oprimido
(1931-2009)

"Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais".

"Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de idéias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!"

"Teatro é a Verdade Escondida”.

"Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma! "

"Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel."

"Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível."

sábado, 14 de março de 2009

A prosa de Vinicius e a homenagem a Antônio Maria

O “Poetinha”, como era carinhosamente apelidado, Vinicius de Moraes tende a ser naturalmente associado à poesia, seja como autor de sonetos (formato que inicialmente preferiu) e de outras modalidades de poemas ou como letrista de algumas das canções mais impregnadas de lirismo na música brasileira.

A proeminência da poesia em sua produção naturalmente relegou a um plano inferior o Vinicius prosador, que também é de alto calibre. É fato que alguma visibilidade foi dispensada ao autor de crônicas, embora ele jamais chegasse a se tornar especialista no formato, como um Drummond – que, trabalhando na imprensa diária, assina mais de 500 crônicas -, ou dele tenha se aproximado respeitando strictu sensu as características do gênero. O ritmo insano e a obediência a rígidos padrões formais não combinariam com o espírito livre de Vinicius - segundo o mesmo Drummond, "O único poeta que viveu como poeta".
Sua produção bibliográfica sob tal rubrica varia de 1 a 4 títulos, dependendo da fonte consultada, embora o único livro que publicou em vida que realmente autorize tal classificação seja Para uma menina com uma flor (1966); os outros três apresentam um híbrido de poesia e crônica, com as características formais da primeira estruturando um texto em que o humor leve, a temática do cotidiano e a forma coloquial de se dirigir ao leitor remetem à segunda. É o caso de textos que viraram canções, como "Para viver um grande amor", título de um dos livros mencionados.

Essa tendência a produzir híbridos de poesia e crônica não se restringe, no entanto, a tais publicações: tendo evidenciado-se, anteriormente, em algumas de suas criações poéticas, como na “Balada das duas mocinhas de Botafogo” (com tantas potencialidades narrativas que até virou filme) e em “Mensagem a Rubem Braga" – poema pouco conhecido e que, de toda a produção de Vinicius, é um dos favoritos deste blogueiro, pela abordagem lírica das temáticas do saudosismo e da amizade e pela evocação de tardes boêmias no Rio de Janeiro de então.

Mas é em alguns dos textos avulsos escritos nas contracapas de LPs, nas orelhas de livros ou em artigos avulsos frutos de vontade criadora e inspiração, trazidos à luz por vontade própria, que o talento do Vinicius prosador se apresenta de forma mais desenvolta, livre das amarras dos gêneros literários. Confira abaixo, em texto (retirado deste site) escrito em meio à agitação de julho de 1968 e dedicado ao grande compositor, cronista, jornalista, locutor esportivo, homem do rádio, humorista e figuraça Antônio Maria (Recife, 1921 - Rio de Janeiro, 1964).


Oração para Antônio Maria, pecador e mártir

"Nós saíamos os dois do "Vogue", e depois de deixar Aracy no táxi que a levava ao seu subúrbio, seguíamos de carro até o Leblon, às vezes acompanhando a matilha madrugadora de vira-latas a transitar entre as calçadas do Jardim de Alá; havia sempre um que parava para fazer pipi, o que provocava o reflexo dos outros, e era aquela mijação feliz — que eu nunca vi raça de bicho mais contente da vida que vira-lata carioca ao nascer do Sol. Parecia, mal comparando, uma fileira de lingüiças semoventes, uma a cheirar o rabinho da outra.

Você ria uma grande gargalhada, contente com o seu Cadillac velho, com a explosão da aurora no mar, com os vira-latas transeuntes e com seu novo amigo e poeta. E depois de passar pela casa de Caymmi, para ver se o baiano ainda ralentava a noite, acabávamos nos Pescadores enfrentando um filé com fritas, ou uns ovos com presunto — os melhores de Copacabana, porque eram feitos para a nossa grande fome. O pão era fresco e a cerveja bem gelada. Depois você me deixava em casa, eu dilacerado de saudades de tudo: de você, das conversas na boate amiga, onde dois barões, von Schiller e von Stuckart, disputavam em carinho e gentileza. E sobretudo da mulher amada ainda não tida. Você, maciste ao volante, cantava a marcha que tinha feito para a minha infinita dor-de-corno:

É muito tarde pra esperar por ela
Ela não vem ouvir a tua voz
Esquece, amigo porque a vida é bela
A noite é grande e cabe todos nós...

Um elo forte e viril se fizera entre nossas almas, e nós passamos a ser imprescindíveis um ao outro. A noite — que esperança! — não era grande, era pequena para a nossa gula de vivê-la em toda a sua plenitude. Tudo passava tão rápido, nós olhávamos as moças dançando, Aracy cantava, surgia a figura amiga de Fernando Ferreira, de repente a porta da boate deixava filtrar a luz da manhã. "Ele", como dizia Américo Marques da Costa, tinha despontado. Mais um dia, mais uma morte. Muitas mortes morremos nós, meu Maria, antes que a sua acontecesse para deixar-me mais só vivendo as minhas.

Tantos já se foram, atraídos pela Grande Noite... Evaldo Rui, Bicudo, Stuckart, Waldemarzinho, Louis Cole, Alzirinha, Mauro, Dolores, Ozorinho, Ismael Filho, Ari... Mas em compensação ai estão Paulinho Soledade e Carlinhos Niemeyer, respirando por um fole só, mas cada dia fazendo mais viração; Verinha, esse amor de Verinha, uma graça total, a nossa boa Araça, rainha das vagotônicas, e o querido Rinaldinho, que neste particular nada lhe fica a dever, ele e sua gargalhada que o rádio silenciou. E de vez em quando ainda acontece uma grávida, em geral moça do Norte. Porque a verdade, meu Maria, é que depois da pílula, moça carioca quase não muda mais de silhueta.

Às vezes eu fico pensando. Não sei se você gostaria de estar vivo agora, meu Maria, depois de 1964. Tudo piorou muito, o governo, o meu caráter, a música. Agora só se faz música para Festival e perdeu-se aquela criatividade boa e gratuita da década de 50. Todo mundo faz música com objetivo: comprar apartamento, ter um carrinho, ganhar popularidade, dobrar o cachê, vencer Festival, namorar as moças, bater papo furado. Isso não quer dizer que os caras não sejam ótimos compositores: eles o são. Mas tudo é feito num espírito muito toma-lá-da-cá, cada-um-por-si-e-Deus-por-todos. Assim, a meu ver, perde a graça. Aliás, não é culpa deles. Em absoluto. É o "esquema", como está em moda falar. Eles têm que estar na onda, senão não tem apartamento, não tem carro, não tem cachê, não tem Festival, o papo micha e as moças não dão. Ficam, por assim dizer, marginalizados, e aí nem o "Globo" nem a "Record" querem nada com os infelizes. Em resumo, meu Maria, não se perdeu a música; perdeu-se a sua dignidade.

Mas por um motivo eu sei que você gostaria de estar vivo: as moças. Elas estão, meu Maria, cada dia mais lindas e esportivas, havendo mesmo uns espécimes de se espetar na parede com alfinete. E acho que você iria gostar do "Antonio's", um restaurante novo do Leblon onde todo mundo vai, e tem de certo modo o espírito do velho "Maxim's" dos anos 51/53.De vivo mesmo, meu bom Maria, há Oscar Niemeyer e Di Cavalcanti, certamente os dois maiores homens do atual Brasil. Di está, nos seus 70, a coisa mais jovem, trêfega, inteligente e lírica do mundo, pintando cada dia mais lindo e batendo o melhor papo da República. E Oscar então, desse nem se fala. Elevou-se muito acima de todos, pelo gênio, pela consciência política, pela compreensão humana, pela simplicidade autêntica.E há os estudantes. Estão maravilhosos, e dando lição de cultura aos pais e professores. Saem à rua como um fogo que se alastra, fazendo comícios relâmpagos, topando as paradas com a polícia e conseguindo unir todas as camadas da população, com exceção dos milicos. Outro dia nós saímos em passeata cívica, e éramos 100.000 na Avenida Rio Branco: estudantes, intelectuais, clero, donas de casa, protegidos por um extraordinário esquema de segurança bolado pelos próprios garotos. Uma beleza. Se alguma coisa de bom tem que sair deste país, vai ser à base do novo movimento estudantil.

E, naturalmente, Chico Buarque de Holanda."