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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A farsa petista na Comissão de Direitos Humanos

A possibilidade de um petista ser eleito para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados foi, em um primeiro momento, saudada nas redes sociais, até mesmo pela oposição à esquerda. Isso se deu pela nomeação supostamente significar a retomada da comissão para o campo progressista, após um mandato sob o comando do pastor Marco Feliciano (PSC/SP), que fez dela palco para o proselitismo religioso, o ataque contra gays e minorias e o retrocesso na pauta dos Direitos Humanos.

No entanto, o alívio pela eleição de Assis do Couto (PT/PR) logo cedeu lugar a frustração e raiva, à medida que se evidenciava o perfil do deputado: um especialista em agricultura familiar, conservador, contrário ao aborto e sem conhecimento ou experiência mínima no campo dos Direitos Humanos.



Baixa política
Sua nomeação é fruto direto do desleixo e do descaso petista para com os DHs: Couto já estava assegurado para a presidência da Comissão de Agricultura, a preferida do PT, disposto a abrir mão, uma vez mais, da Comissão de Direitos Humanos. Porém a forte reação contrária nas redes sociais e entre setores da militância, inconformados ante a possibilidade de que os DHs permanecessem mais um mandato nas mãos do conservadorismo religioso, obrigou o partido a recuar.

Esse recuo, no entanto, foi meramente cosmético. Sem renegociar, sem sequer empenhar-se em nomear um quadro com histórico de lutas pelos DHs - os nomes mais cotados eram os de Nilmário Miranda (MG) e Erika Kokay (DF) –, o PT, uma vez mais, privilegiou a pequena política e seus obscuros acordos paroquiais, em detrimento de uma ação republicana, consistente e socialmente responsável.



Prêmio de consolação
Ao encarar a presidência da CDHM como um "prêmio de consolação", uma troca desvantajosa imposta pela forte reação contrária, o partido deu vazão a um comportamento que sequer dissimula sua má vontade e seu caráter pirracento, pouco consequente.

Em decorrência, ao optar por preterir quadros reconhecidamente capazes no campo dos DHs e nomear um agricultor familiar, inexperiente no tema e ligado à "Frente Mista Em Defesa da Vida – Contra o Aborto" (que reúne evangélicos e católicos, como ele), o partido se omite e, uma vez mais, deixa explícita a pouca importância que atribui aos Direitos Humanos.



Os DHs sob ataque
Tal omissão é particularmente grave neste momento histórico do país, em que os índios são vítimas de um novo genocídio, em nome de um modelo arcaico de desenvolvimento e sob o silêncio cúmplice da mídia.

Em que gays são rotineiramente agredidos e assassinados, seja no Baixo Augusta ou nos arrabaldes de cidadezinhas perdidas no tempo.

Em que, a despeito do esforço civilizante e da Lei Maria da Penha, a violência contra as mulheres se mantém em níveis endêmicos.

Em que cresce impunemente a ação de linchadores contra pequenos delinquentes, amarrados a postes como figuras de Debret, numa reatualização muito além de iconográfica do legado da escravidão.

Em que à violência policial como repressão periférica soma-se – e se torna rotineira - a brutalidade da PM contra os que exercem o direito constitucional à manifestação pública.



Truculência recorrente
Não que chegue a causar estranhamento essa postura do petismo. A falta de dialogo com o sindicalismo, com as organizações públicas e com a sociedade em geral é um traço distintivo desses três anos e pouco de governo Dilma. Renato Janine Ribeiro relata a estupefação de um grupo de grandes empresários com o imperscrutável comportamento presidencial: -"Ela não ouve. Nem fala".

Ainda mais explícitos em seus intentos autoritários são o endosso do governo a uma legislação draconiana de combate ao terrorismo – AI-13? -, supérflua ante o Código Penal e desautorizada por juristas de gabarito e democratas de juízo; a aposta de Cardozo na repressão e a facilidade com que oferece a Força Nacional para reprimir os "vândalos baderneiros"; e, entre outras tantas manifestações de truculência antidemocrática, o entusiasmo de Fernando Haddad ante a "Tropa Ninja" da PM paulista, que ajudou a brutalizar as últimas e até então pacíficas manifestações em São Paulo.

E sendo que tudo se dá num contexto no qual o Ministério dos Direitos Humanos, sob a complacente Maria do Rosário, mantém os olhos cerrados para toda a violência oficial, fingindo ser um órgão destinado tão somente a defender cidadãos fardados.


Pingos nos is
A eleição de Assis do Couto insere-se, portanto, em um contexto maior, a partir do qual sua intencionalidade se explica (mas não se justifica). Ela vem fornecer mais um exemplo cabal do quanto o PT negligencia os Direitos Humanos.

Tornou-se corrente, entre as hostes governistas, atribuir tal percepção negativa ora à má vontade da mídia, ora a uma alegada falha de comunicação do próprio governo. Mas claramente não é este o caso no que concerne à atuação do partido no episódio, fruto de uma política deliberada, um cala-boca improvisado e desdenhoso contra a gritaria dos que ousaram protestar.

Tudo somado, a nomeação, pelo PT, de Assis Couto para a CDHM deve ser entendida como o que é: um acinte e um deboche.


(Cartum de Latuff retirado daqui)

domingo, 23 de fevereiro de 2014

A "nova" Secom e a blogosfera

A posse de Thomas Traumann como ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), ocupando o lugar que fora de Helena Chagas desde o início do governo Dilma Rousseff, acena para uma reformulação na política de distribuição de verbas publicitárias federais, com a chance de uma incorporação mais substancial de sites independentes e blogs políticos em detrimento do benefício virtualmente exclusivo à mídia corporativa até então vigente.



Trata-se de uma possibilidade altamente salutar e de uma medida há tempos acalentada pela blogosfera não corporativa. No entanto, por razões que serão elencadas ao longo do artigo, o sucesso de sua implementação depende da capacidade de levar em conta a trajetória e a atual conformação do campo político na web, as quais examinaremos a seguir.







A mídia na mira

A consolidação de uma arena política na internet brasileira está diretamente ligada ao exercício da crítica à mídia, que se dissemina de forma expressiva nos blogs a partir do início do terceiro milênio, no bojo do advento da web 2.0, mais interativa e veloz, e da consolidação, nas redes sociais, de uma militância engajada na primeira eleição presidencial vencida por Luiz Inácio Lula da Silva.



Antes disso já era exercida amiúde por um punhado de atores virtuais e, desde 1996, a razão de ser do Observatório da Imprensa, capitaneado pelo decano Alberto Dines e o modelo para uma série de iniciativas semelhantes, na academia e fora dela. Se em tais projetos o exercício do media criticism, pluralista, primava pela busca (nem sempre bem-sucedida) por equilíbrio analítico e equidistância político-partidária, nos blogs e redes sociais viria, ao contrário, a assumir a piori suas inclinações: tratava-se, sobretudo, de combater e denunciar as falsidades da mídia corporativa como estratégia de contrainformação que desmontasse eventuais factoides a favor da oposição ao petismo – notadamente, os tucanos - e de dar visibilidade a políticas lulistas que alegadamente a mídia boicotava.







Conquistas e limitações

Tal reação virtual contra a mídia, em um primeiro momento caracteristicamente voluntária, amadora e sem uma coordenação central, obteve conquistas importantes. No atacado, acabou por chamar a atenção de um número significativo e crescente de pessoas para as manipulações, a teia de interesses implícitos com o grande capital e o baixo grau de confiabilidade da mídia corporativa em nosso país. No varejo, destacou-se em uma série de episódios políticos relevantes: provou tratar-se de uma mera bolinha de papel um alegado bólido de aço atirado contra o cocuruto do candidato José Serra; reagiu em peso contra a tentativa da Folha de S. Paulo de abrandar o período militar, solidarizando-se ainda com os professores Fabio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides contra as grosserias do publisher Octávio Frias; por diversas vezes desconstruiu, em questão de horas, manchetes da Veja intentadas para repercutir durante a semana toda; não raro contrapôs dados e conhecimentos técnicos à mera verborragia ideológica, entre tantos outros eventos cuja atuação desmistificadora contra a mídia foi digna de nota. Talvez não seja exagero afirmar que outros teriam sidos os rumos das três últimas eleições presidenciais sem a ação da blogosfera e da atividade política nas redes sociais – o que dá uma medida de sua importância e de sua atualidade.



Não obstante a efetividade de tais conquistas e o fato de constituírem um indiscutível avanço no âmbito de uma esfera comunicacional que há décadas mantém-se altamente concentrada e controlada, uma análise criteriosa do fenômeno exige que se tenham claros seus limites de alcance e reais dimensões. Pois se, por um lado, tais novos atores políticos/comunicacionais abriram os olhos de parcelas da população com acesso à internet - para as quais constituíram-se, a um tempo, alternativa à mídia corporativa e polo de contrainformação -, por outro seu raio de alcance, em relação ao conjunto da população brasileira, segue sendo bem inferior ao que o "efeito bolha" dos que convivem diuturnamente nas redes sociais e blogs quer fazer crer. Quem convive em ambientes não virtuais diversificados em termos etários, educacionais e socioeconômicos constata com facilidade que um número enorme de pessoas não leva em conta, mal ouviu falar ou sequer teve algum contato com a blogosfera e os debates políticos nas redes sociais, os quais estão longe de constituírem suas fontes recorrentes de informação ou de exercer alguma influência direta na formação de seu raciocínio político ou decisões eleitorais.







Duplo paradoxo

Além desse problema – que, reflexo da própria relação de parcelas da população com a política, é de cunho socioeducativo, transcendendo o âmbito da comunicação política na internet -, uma análise mais detida evidencia que esta não tem sido uma atividade desprovida de percalços. No I Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, em 2010 - quando ainda havia um sentimento de união entre diversos desses atores virtuais, hoje inexistente -, Luiz Carlos Azenha, do site Vi o Mundo, apontou para os limites da crítica diária à mídia tal como exercida nos blogs e redes sociais, e para a necessidade de que, como forma de se firmarem como alternativa real à mídia corporativa, fosse produzido, de forma regular, material jornalístico original.



Com raríssimas e fugazes exceções, muito pouco se avançou, em tal sentido, nos quatro anos que separam a observação de Azenha do presente, o que torna a blogosfera política presa de um paradoxo: o fato, por um lado, de a critica à mídia continuar sendo sua atividade precípua e mais frequente e, por outro, de ainda depender em larga escala da reprodução de material pela mídia publicado para assegurar uma postagem diária substanciosa, faz com que a blogosfera se mantenha presa a uma situação de dupla dependência em relação à mídia. Basta consultar as postagens dos principais blogs do país ou atentar para a origem dos tópicos que alimentam as principais discussões de cunho político correntes nas redes sociais para se certificar de tal impasse, que fere a autonomia dos blogs e suscita questões relativas a copyrights. Há a esperança de que tal questão tenda a ser melhor equacionada à medida que se obtenham formas de financiar a atividade em bases profissionais.









Desqualificações e descritérios

Uma segunda e grave distorção característica desse meio tem sido a forma inapelável e genericamente pejorativa como a mídia passou a ser tratada. A sigla PIG [Partido da Imprensa Golpista] difundiu-se e se tornou de uso corrente nos ambientes virtuais, generalizando a priori uma grave acusação sem uma respectiva e necessária análise caso a caso que a corroborasse – e sem claros critérios metodológicos que a embasassem.



O maniqueísmo e a falta de critérios que marcam a relação com a mídia apontam para contradições essenciais da blogosfera política brasileira, hoje. Um exemplo pedagógico desse processo é que os principais jornais, como O Globo e Folha de S. Paulo, considerados "PIG" por definição, se tornam automaticamente fonte de informação confiável – ou mesmo inquestionável - quando dão notícias a favor do governo, republicadas com fervor pela blogosfera governista.



Tal incongruência tem alcance internacional: quando a The Economist colocou o Brasil na capa como uma economia fulgurante (simbolizada pela estilização da imagem do Cristo Redentor como um foguete), grande parte da blogosfera exultou. Porém, alguns meses depois, quando a mesma publicação aludiu ao baixo desempenho de nossa economia (com o Redentor/foguete caindo, após um "voo de galinha"), muitos dos mesmos blogueiros falaram em "PIG" internacional e na imaginosa influência de um ex-ministro de FHC sobre o periódico.







Partidarismo

Numa blogosfera amplamente dominada pelo petismo – sobretudo no que tange aos blogs de grande audiência -, tais contradições e maniqueísmo dão a medida do caráter tendencioso de um amplo conjunto de atores políticos virtuais. São capitaneados pelos "blogs progressistas" e por uma brigada de agentes de mídia social – multiplicada neste período pré-eleitoral -, pouquíssimos com explicitada filiação profissional/partidária, mas tão benevolentes para com medidas governamentais quanto implacáveis contra seus diletos inimigos, dos quais Joaquim Barbosa e a mídia ora se destacam.



Esse cerrado partidarismo que marca as ações de tais atores, os ataques desqualificadores a dissidentes ou críticos nas redes sociais e a recusa dos blogs "progressistas" de grande audiência em, malgrado a alegação de pluralistas, publicarem textos que critiquem frontalmente o petismo (ainda que à esquerda) sugerem que hoje repetem amiúde, em sentido inverso, o tendenciosismo, as distorções e omissões que sempre atribuíram exclusivamente a mídia. Tais vicissitudes fizeram com que lhes fosse atribuído o duplamente mordaz apelido de "PIG do B", numa indicação de que não apenas emulam procedimentos e lassidez ética da mídia, mas o fazem a favor de uma determinada força política, muitas vezes sem admiti-lo de forma explícita, repetido um procedimento que sempre criticaram nos meios de comunicação corporativos.



Piora ainda mais esse quadro a indistinção entre a participação espontânea e voluntária de indivíduos nas redes sociais e a ação de agentes de mídia remunerados pelos partidos, indistinção diretamente relacionada à recusa antidemocrática destes em admitir e tornar pública a própria condição profissional, numa conduta que, paradoxalmente, aposta no obscurantismo e no falseamento como estratégia de ganhar respeitabilidade e conquistar apoio político e votos. Para complementar a farsa, tornaram o tema um tabu e reagem agressivamente contra quem quer que ouse questionar tal omissão e questionar seu caráter farisaico, que fere a ética pública e acrescenta mais um elemento de falseamento ao jogo político.









Dilemas éticos

A combinação, por um tempo considerável, de falta de critérios objetivos, paixões partidárias exacerbadas e baixa porcentagem de produção de material original não analítico (lacuna esta que tende a levar à repetição e ao agravamento tanto do efeito de manada açulado pelas redes sociais quanto da dependência em relação ao jornalismo corporativo enquanto fonte primária) tem feito com que a blogosfera – notadamente a mal chamada "blogosfera progressista", cujo comprometimento com o projeto de poder petista é atávico - se defronte atualmente com sérios dilemas de validação da veracidade de suas publicações e de capacidade de comunicar-se e interagir com audiências que não comunguem de suas paixões político-partidárias.



Mais grave: episódios recentes, como a delação de manifestantes à PMERJ via redes sociais ou a difusão, por um dos principais "blogueiros progressistas", de uma foto digitalmente alterada de um protesto popular, em que, por artes do Photoshop, uma suástica nazista substituiu o que era na verdade o símbolo do anarquismo, agravam ainda mais a situação e demonstram que, além de nem sempre a blogosfera aplicar a si mesma o rigor ético que cobra da mídia corporativa, eventualmente incorre ela própria em graves deslizes deontológicos – e sem reconhecê-los publicamente ou por eles se desculpar.







Mudanças à vista

A questão da mídia no Brasil, desnecessário dizer, continua sendo um assunto de máxima urgência. Oligopolizada, classista, concentrada na mão de poucas famílias com interesses políticos em comum, usada como moeda política. Nesse ambiente, a relação da blogosfera e de muitos dos atores políticos virtuais com a mídia, eivada das contradições e do maniqueísmo acima apontados, se deu, até agora, sob a égide de uma contradição essencial: quem, em larga medida, vem sustentando financeiramente as corporações midiáticas – muitas em situação pré-falimentar - é o próprio governo Dilma, através da insistência de Helena Chagas em seguir à risca o tal "critério técnico" na divisão de verbas oficiais.



A possibilidade de que o novo ministro da Secom diversifique as verbas publicitárias governamentais para além das corporações midiáticas até agora beneficiadas é, como já dito, alvissareira e tem potencial de colaborar para o avanço do debate democrático no país. É natural que a blogosfera política receba parte desses insumos, mas isso deve ser feito com critérios claros, transparência e pluralidade e em troca da obediência a pressupostos éticos republicanos. Do contrário, corre-se o risco de que o dinheiro público venha a servir tão somente para alimentar a correia de transmissão do partido governista de turno – o que, à revelia de quem estiver no poder, seria um desserviço à democracia.


(Imagem retirada daqui)

Segunda versão de artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Violência nas manifestações e o show de oportunismo


Há de se lamentar a morte de um ser humano, ainda mais se pacificamente exercendo o seu ofício, e em condições perigosas. Manifestar solidariedade com a interrupção abrupta de uma vida aos 49 anos, e com a dor dos familiares e amigos de Santiago Andrade, é, portanto, prioritário neste momento. Mas a solidariedade e o respeito ao luto são uma coisa; o sensacionalismo e a exploração da dor alheia para fins políticos, outra.

Talvez a maior parte das pessoas que leem este texto nunca tenha ido a uma manifestação pública do tipo das que vêm acontecendo no Brasil desde junho do ano passado. São eventos tensos, perpassados pela possibilidade iminente de violência, onde o risco à integridade física é real e imprevisível. Por isso mesmo, os profissionais de imprensa que os cobrem fazem uso de um equipamento de segurança que inclui capacete e colete à prova de balas. Infelizmente – e por mais desagradável, neste momento, que seja apontar essa lacuna –, Santiago não gozava de tais proteções, alegadamente porque a emissora não as forneceu. Porém, com uma ou outra exceção, na cobertura midiática e nos tantos artigos plenos de corporativismo que os analistas têm produzido após a morte do cinegrafista, tal omissão criminosa tem recebido pouquíssima atenção, talvez por esta estar quase exclusivamente direcionada ao revanchismo contra os manifestantes apontados como responsáveis pela tragédia.



Violência disseminada
O caráter violento das manifestações, derivado em grande parte do despreparo e abuso das forças policiais e de estas serem instruídas por seus superiores a reprimir - e não meramente a acompanhar - tal exercício constitucional do direito ao protesto, não se evidenciou a partir da morte de Santiago Andrade. Muito pelo contrário: há dezenas de jovens feridos com gravidade – inclusive casos de cegueira por bala de borracha - e flagrantes filmados de violência policial que incluem espancamentos diversos, uso abusivo de bombas, spray e gases, além do atropelamento intencional de uma jovem recém-torturada. Mais revelador: no mesmo dia em que o cinegrafista da Band foi atingido, outra morte ocorreu em decorrência dos protestos, mas como não se tratava de um profissional de uma grande corporação midiática - e sim de um velho jornaleiro, de nome Tasman Amaral Accioly -, a mídia não se ocupou em lastimá-la.

Essa indignação seletiva eivada de corporativismo acabou por reunir um arco inusitado de vozes do espectro politico-midiático, de Mário Magalhães a Reinaldo Azevedo, passando pelos mais fanáticos blogueiros governistas e pelos mais famosos apresentadores de telejornais, numa catarse que mais evidencia do que disfarça o intuito de criminalizar as manifestações populares, cuja independência e imprevisibilidade incomoda tanto setores da velha esquerda – desde órfãos do "partidão" a renitentes petistas - quanto o conservadorismo, além de atentar contra o "complexo de Tirébias" e o cerrado corporativismo dos jornalistas, cuja reação histérica ante a morte de "um dos seus" contrasta com a passividade resignada com que aceitam as milhares de mortes de jovens negros e pobres que a repressão periférica institucionalizada - esta sim, autenticamente fascista – promove com regularidade diária.



Pesos e medidas
A comparação com o pouco caso para com tanta violência pregressa - e até para com outra morte em contexto de manifestações populares - evidencia que a reação midiática, inflamada a partir do anúncio do óbito do cinegrafista, jamais foi a expressão de uma genuína indignação, cívica ou moral, mas o aproveitamento oportunista de uma tragédia que, ao contrário das várias anteriores, reúne quatro características únicas: permite culpabilizar os manifestantes (e não as forças policiais); está documentada, em registros videográficos diversos, do início ao fim (não possibilitando justificar-se como emprego necessário da força, como de ordinário as forças policiais o fazem); devido ao fato de registrar um profissional de mídia no exercício de suas atividades, facilita tanto a mobilização corporativista – de ordinário enorme entre jornalistas - quanto, de modo geral, a identificação do homem comum com o falecido (não por acaso, editoriais e colunas deram repetida ênfase à descrição "trabalhador morto no cumprimento do dever").

Deflagrado o show midiático, o que seria uma justificada comoção pela morte de um valoroso ser humano começou a dar lugar a um show de oportunismo e manipulação da boa fé da audiência. A aparente comoção dos apresentadores de telejornal foi tão somente a face mais visível de uma batalha pela opinião pública, com os atores políticos disputando um pedaço do cadáver para fazer avançar a própria agenda política, pois logo ficou claro que aquela era a oportunidade esperada tanto pelo governismo quanto pela mídia para criminalizar os protestos, simular a urgência da instauração de uma legislação antiterrorismo e impor o vigilantismo na internet via aprovação do projeto do Marco Civil. Já no dia seguinte, o governo Dilma comandava, a toque de caixa, tais votações. [Graças aos partidos de esquerda e a um rasgo de sensatez de parte da bancada petista, a votação do projeto foi adiada em duas semanas, mas continua na pauta de votações do Senado.]



O mundo ao avesso
Referindo-se a esse atual conluio fúnebre entre mídia e "blogueiros e comentadores de 'esquerda'", Bruno Cava vai ao ponto nodal da operação discursiva posta em prática:

"Invertendo a relação de causa e efeito, atribuem a responsabilidade sobre a violência para o lado dos manifestantes (é exceção e raridade machucarem alguém), e não na polícia (é regra e modus operandi machucarem muitos, sob ordens superiores). Nesse raciocínio invertido, os não-violentos deveriam cessar a violência para que os violentos de sempre não possam ter mais um pretexto para ser violentos."
Corroborando a descrição de Cava, a violência aparece nos relatos indignados que hoje infestam páginas e bites como uma tática voluntariosa e gratuita dos manifestantes, e não como o que de fato tem sido: uma medida reativa à violência desproporcionalmente maior, institucional e ilegal - pois violadora do direito constitucional à manifestação pública – sofrida.



Fatos negligenciados
Além disso, a atmosfera de turba, em que à justificada revolta por uma morte em tais circunstâncias somam-se sentimentos corporativos, interesses políticos inconfessos e o desejo de maior liberdade de repressão por parte do Poder, parece ter impedido que se atentasse para dois fatos de suma importância:

O primeiro é que não se tratou, a rigor, de uma tentativa intencional de assassinato, mas de uma fatalidade. Certamente foi uma imprudência deixar o rojão aceso no chão – e quem o fez deve arcar com as consequências legais – mas daí a se falar em homicídio doloso ou a comparar a irresponsabilidade do ato com o sadismo dos que deliberadamente prenderam um rapaz nu a um poste - como fez uma comentadora a quem muito respeito mas de quem neste caso discordo frontalmente - vai uma distância considerável, que passa pelo contexto violento inerente ao protesto em questão, pela imprevisibilidade da trajetória do rojão, pelo caráter aleatório da ação e, sobretudo, pela ausência de intencionalidade assassina.

O segundo fato que tem sido negligenciado é que se tratou, alegadamente, da ação isolada de dois indivíduos – cujo direito à presunção de inocência tem sido amplamente negligenciado, como observa o professor Pablo Ortellado. Portanto, sua tipificação como uma ação criminosa dos Black Blocs não passa de uma generalização, uma projeção injustificada que, num misto de wishful thinking e oportunismo, se quer impor aos fatos, à revelia destes. Achar que os manifestantes vão deixar de reagir violentamente à violência que sofrem tão somente por exercerem seu direito ao protesto é ingenuidade, assim como atribuir toda e qualquer reação a Black Blocs é generalização improcedente.



Bode expiatório
Mesmo assim, como seria despropositado culpar, de forma genérica, os manifestantes pela morte do cinegrafista, a mídia e o governismo na internet aproveitam a oportunidade para atribuí-la, embora sem prova alguma, aos Black Blocs, aos quais devotam um ódio figadal tanto por terem infundido coragem e determinação a muitos manifestantes quanto pelo caráter errático e agressivamente anticapitalista de sua ação. Muito se tem escrito sobre esse fenômeno, infelizmente por gente que não os conhece, não os entende, nunca os estudou e sequer sabe que denominam tanto um coletivo eventual de manifestantes quanto uma tática urbana.

Essa ignorância pode vir a provocar mais violência futura, pois os Black Blocs são o sintoma e não a doença, a reação do organismo a uma violência periférica cotidiana, a um brutalismo que transcende o âmbito da fisicalidade e impregna o inconsciente coletivo. Daí a identificação que desfrutam em amplos setores da juventude e o ódio que despertam em quem tem banzo por protestos bem comportados, como o Poder determina. Não é com a desqualificação a priori , com o incremento da já inaceitável violência policial ou com a eventual adoção de eventuais leis de exceção que se vai detê-los. Afinal, presume-se que estamos numa democracia.


Mudanças essenciais
A não ser que se aposte em um banho de sangue, a diminuição da violência nos protestos populares não virá nem através de leis draconianas nem com a criminalização dos manifestantes, sejam os dois bodes expiatórios da vez, um punhado de Black Blocs ou milhares de protestantes. Pois ela passa, em primeiro lugar, pelo diálogo aberto entre população e governos, item básico das democracias contemporâneas, mas que tem sido amplamente negligenciado no Brasil. Demanda, obrigatoriamente, a extinção da polícia militar e sua substituição por uma força policial profissional treinada, bem remunerada e orientada a respeitar a Constituição, inclusive no que tange ao direito à manifestação pública. Por fim, passa pela equação dos pornográficos índices de violência brasileiros, cuja reverberação nas passeatas é um pálido reflexo, mas cuja presença cotidiana na vida da juventude tende a ser introjetada e reproduzida. Paz sem voz é medo.





terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A viagem de Dilma e o Direito à Informação

As 15 horas em que a presidente Dilma Rousseff passou em Portugal, no último sábado, acompanhada por uma comitiva de dezenas de convivas, têm suscitado muita indignação e levantado uma série de questões mal respondidas por conta da desproporção entre o curto período de tempo da estadia e os gastos nababescos da trupe. 

Além de um jantar no badalado e caríssimo Eleven, "Dilma e sua comitiva ocuparam 30 quartos dos hotéis Ritz e Tivoli. A presidente se hospedou em uma suíte presidencial do Ritz, ao custo de 8 mil euros por dia, o equivalente a R$ 26,2 mil", informa o G1. Pairam no ar suspeitas sobre quem arcará com tais gastos, ou pelo menos com a maior parte deles, e muitos se perguntam porque a embaixada brasileira em Lisboa não foi acionada para hospedar ao menos Dilma e os cinco ministros que a acompanharam.

Colabora intensamente para a confusão o comportamento do Palácio do Planalto e do ministério das Relações Exteriores, os quais, numa atitude incompatível com a democracia, se recusam a precisar o número de acompanhantes da presidente e a apresentar provas de que o erário não arcará com tamanhas despesas. Para piorar, as poucas informações que divulgaram, confrontadas hoje com informações de autoridades portuguesas, mostram que os porta-vozes palacianos mentiram acerca do alegado caráter improvisado da viagem a Portugal, como veremos com detalhe.



Fazendo-se de ingênuos
Mas sejamos benevolentes: admitamos, como exercício mental, que a volumosa comitiva - estima-se algo entre 45 e 47 convivas - era realmente necessária, que a embaixada teve um problema qualquer e não pode mesmo hospedar nem uma pequena parte da entourage, que o hotel mais caro de Lisboa era o único disponível, que na hora de pagar a conta do pantagruélico jantar nenhum conviva confundiu – sem querer, naturalmente – seu cartão de crédito pessoal com o cartão corporativo. Mesmo com todas essas assunções – que nos transformam em uma espécie de Pollyanna -, resta uma grave questão sem resposta: por que o Palácio do Planalto afirmou que a parada no país ibérico foi uma decisão de ultima hora e, sem mencionar hospedagem ou jantares, falou apenas em "algumas horas em Portugal"? Sabe-se hoje que se trata de falsa alegação: autoridades portuguesas estavam avisadas desde o dia 23 de que Dilma & seus 40 e tantos acompanhantes pernoitariam na capital. Faz sentido: tinha-se conhecimento, há tempos, de que a autonomia do avião não permitiria um voo Zurique-Havana sem escalas: a questão era onde parar – os responsáveis pelo planejamento da viagem, naturalmente, sabiam, só não o admitem em público.

Ora, quem não deve não teme. Essa mentira flagrante lança ainda mais suspeitas ao caráter lacônico e pouco preciso das notas do Palácio do Planalto acerca da viagem, bem como à sua recusa em apresentar a sociedade, com presteza, comprovantes de que o dinheiro público não serviu a banquetes faustosos e luxos supérfluos para um mero pernoite. É absolutamente inaceitável esse comportamento por parte de um órgão público: em um regime democrático, é direito básico do cidadão ser correta e integralmente informado acerca do uso do erário.



A frouxidão moral governista
Para piorar ainda mais a situação, repete-se com frequência preocupante, entre governistas, uma mesma reação ante as denúncias, que pode ser resumida nas seguintes palavras:

    - "Queriam o quê? Que a presidente ficasse num albergue?"

Li várias vezes variações desta resposta – inclusive, numa rede social, da pena do editor de uma das principais revistas da "esquerda" -, eventualmente acrescida da referência nada lisonjeira aos "coxinhas" que ousaram levantar tal lebre.

Trata-se de uma reação exemplar do modus operandi governista: foge da questão atacando, procurando desqualificar o denunciante, e desvencilha-se das graves e numerosas implicações éticas da denúncia valendo-se de um exagero despropositado, com a sugestão do albergue. Ignora, assim, os meios-termos e reage como se tal sugestão - de resto, jamais feita pelos denunciantes - fosse a única resposta possível às múltiplas interrogações acerca do tamanho da comitiva, dos custos do jantar e da hospedagem, do porquê desta se dar no hotel mais luxuoso do país já que, se tratava de passar, segundo a já mencionada nota do próprio Planalto, "apenas algumas horas" em Portugal.



Direito à informação
Tal reação ignora, ainda, o direito dos cidadãos de saberem quem realmente arcou com os cursos, inclusive com apresentação imediata das evidências que o comprovem, bem como uma série de questões absolutamente procedentes, mas que o governismo, através do deboche, gostaria de manter ocultada sob uma nuvem de opacidade.

Trata-se de uma mudança relativamente recente de postura: quando o PT estava na oposição, vivia vigilante, atiçando seus quadros no Ministério Público ante qualquer viagem tucana com mais de três pessoas. No que, alias, na minha opinião, fazia muito bem: a transparência no trato das coisas públicas é item imprescindível às democracias contemporâneas.



Relativismo moral
Porém o petismo no poder, sobretudo após o "mensalão", sob o pretexto de proteger-se do denuncismo midiático, viu-se presa de um relativismo moral que, ao dificultar-lhe a distinção entre o que é moralismo barato para fins propagandísticos e o que são legítimas demandas éticas da sociedade, acabou por torná-lo presa do obscurantismo e da falta de transparência. O caso da viagem de Dilma exemplifica didaticamente as consequências de tal processo.

Esse apego à opacidade é incompatível com uma contemporaneidade onde tanto as facilidades trazidas pela tecnologia digital quanto o avanço dos direitos públicos instituem plena transparência dos gastos públicos. Comitivas menores e gastos com viagens e hospedagens rigorosamente controlados pelos cidadãos tornaram-se a tendência mundial, e cobrar que o Brasil também adote padrões rigorosos no trato da coisa pública no âmbito das viagens presidenciais - como, de resto, em tudo o mais - não é moralismo barato, e sim atitude imprescindível para o amadurecimento de nossa democracia.


(Imagem retirada daqui)


domingo, 26 de janeiro de 2014

Adulteração de fotos e a ética dos "progressistas"

A publicação, nas redes sociais, de uma foto dos protestos populares adulterada digitalmente, com a suástica nazista substituindo o que na imagem original era uma bandeira negra sem estampa, é, ate agora, a mais grave – mas de forma alguma a única – das evidências de que a campanha pré-eleitoral deste ano será muito suja, e de que o mal chamado "campo progressista", a despeito de sua postura de eterna vítima da mídia, não terá escrúpulos para valer-se de métodos por esta consagrados e promover a lambança.

O divulgador da foto – um dos principais "blogueiros progressistas" – alega ter copiado a imagem de uma campanha no Facebook (como se isso o isentasse de verificar sua autenticidade), mas, no mesmo dia, divulgou um registro fotográfico dos protestos dos camelôs cariocas como se das manifestações de ontem em São Paulo se tratasse - nos dois casos, com o objetivo de criminalizar o movimento popular paulista. Para piorar, tais armações, mesmo depois de desmascaradas, continuam sendo divulgadas à exaustão nas redes sociais, num processo que depõe contra a ética e a própria democracia, e que tem a clara intenção de desqualificar manifestações populares em prol da repressão oficial.



Da genealogia do esgoto
Ao menos desde os anos 90 foi se formando uma espécie de consenso, em setores do centro à esquerda do arco político, de que a mídia corporativa e os partidos com os quais ela se identifica seriam os responsáveis pelo baixo nível das campanhas eleitorais. A própria constituição da chamada blogosfera progressista e da atividade política individual na internet se deu, em ampla medida, como reação a tal estado de coisas, que chegou ao paroxismo nas eleições disputadas por José Serra, frequentemente acusado de se valer de dossiês e textos apócrifos. Caberá à história rever criteriosamente tais eventos e avaliar responsabilidades.

Mas em 2014 o fato é que José Serra não está mais em campanha e já temos ao menos um texto apócrifo (contra Eduardo Campos e Marina Silva) muito divulgado a partir de site oficial do PT e mentiras e armações como as citadas sendo repetidas à exaustão nas redes sociais – só que agora, em ambos os casos, o beneficiário de tais métodos inaceitáveis em uma democracia é o petismo no poder. 

Agrava a situação a inexistência de informações oficiais que permitam distinguir entre os blogueiros e ativistas digitais que exercem sua atividade por identificação com a causa e os que o fazem como compromisso profissional. Tal comportamento só faz alimentar os rumores – neste momento, intensos - sobre quem estaria na folha de pagamentos petista, lançando ainda mais suspeições sobre a blogosfera "progressista" e seus satélites nas redes sociais. Como apontou com propriedade o professor e ex-blogueiro Idelber Avelar, seria mais ético e proveitoso para todos que os remunerados assumissem publicamente sua condição.

Chama a atenção, no caso, o quanto um movimento político da internet que teve na crítica e no combate aos desmandos da mídia corporativa a sua razão de existência mostra-se disposto, cada vez mais, a mimetizar, por um lado, as transgressões éticas, estratégias desqualificadoras e baixa fidelidade aos fatos que caracterizam a atividade midiática no país e, por outro, os truques empregatícios historicamente associados à pior direita. Em relação aos primeiros quesitos, isso inclui desde a tática, muito usada por blogueiros com grande audiência, de postar um ou dois textos medianamente críticos ao governo em meio a uma enxurrada de artigos chapa-branca (algo que, em sentido inverso, a Folha de S. Paulo sempre foi acusada de fazer), passa pelo uso generalizado aos ataques pessoais agressivos (a marca registrada do jornalismo neocon de Veja) e chega à desfaçatez com que evidências são fabricadas (como não notar, no citado caso das fotos adulteradas, as semelhanças com a publicação, pela Folha, da ficha policial falsa de Dilma? Até as desculpas dadas em um e no outro caso se parecem).



À semelhança da mídia
Essas mudanças no modus operandi de blogs e perfis governistas fazem com que, na internet, o debate sobre as questões político-sociais mais urgentes ceda cada vez mais lugar a ataques desqualificadores contra os críticos do governo, os manifestantes nas ruas, os candidatos oposicionistas de 2014 (alguns dos quais eram ícones ou aliados do petismo até anteontem) e, de forma intensa, a Joaquim Barbosa, que desde o processo do "mensalão" passou a dividir com a mídia corporativa o papel de principal alvo do ódio chapa-branca.

Nas críticas a Barbosa, não raro com tinturas de racismo,  merece destaque a constatação de que mal disfarçam as motivações revanchistas e partidárias e concentram-se quase sempre em picuinhas e denúncias artificialmente infladas, que raramente se inserem em uma crítica sistêmica aos problemas estruturais da Justiça brasileira – mesmo porque isso demandaria, necessariamente, examinar a relação do governo que há mais de 11 anos comanda o país com o Judiciário (da qual, convém não esquecer, decorre a própria nomeação ao STF de Barbosa - e de outros sete juízes que atuaram no julgamento do "mensalão").

Convém frisar que não se trata, aqui neste texto, de defender a mídia ou Barbosa. Muito pelo contrário: o ministro do STF já deu varias demonstrações públicas de que seu comportamento irascível, pontuado de grosserias contra repórteres, destoa do que se espera de um homem público em sua posição num regime democrático. E a mídia corporativa, dada sua extrema concentração como oligopólio e o fato estar aliada, na raiz, aos interesses do grande capital, prossegue como um dos mais graves obstáculos para a conquista da democracia plena no país – para o que, na contramão do discurso histórico do PT, muito tem contribuído não só a recusa do governo Dilma em debater um projeto de democratização das comunicações, mas as vultosas verbas que a SECOM pontualmente repassa a empresas em situação pré-falimentar, nos âmbitos econômico e ético. Trata-se, isso sim, de apontar contradições essenciais e parâmetros axiológicos viciados que distorcem e tornam tendenciosas, a favor das forças ora no poder, as análises produzidas pelos "progressistas".



Medos e urgências
Parece razoável supor que, para além da questão da militância virtual remunerada, parte dessas distorções explique-se por paixões partidárias, identificação com o governo Dilma, tensão pré-eleitoral, atmosfera de turba e mesmo a existência de uma linha editorial invisível mas efetiva a permear, por osmose ou identificação de grupo, as análises advindas dos chamados "blogs progressivos".

Porém minha opinião é que o acirramento de tal comportamento nos últimos meses se deve, em ampla medida, aos esforços para renegar e sublimar as evidências, cada vez mais claras, de que há graves e reais ameaças à continuidade do projeto de poder da aliança governista e que o "paraíso petista" forjado justamente por tais blogueiros não passa de uma quimera. Pois ações temerárias - como as adulterações de imagens levadas a cabo neste final de semana - indicam desespero, e desespero denota medo. E as manifestações nas ruas são tão temidas pelos governistas não apenas por sua imprevisibilidade ou por um seu caráter alegadamente "golpista", mas por se constituírem no sintoma que denuncia o grau de enfermidade do país e a urgência das mudanças.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A política e as redes

O debate político brasileiro tem sofrido forte influência da internet, meio que não só reavivou, em muita gente, o interesse por política e o hábito cotidiano de discuti-la, mas deu voz a uma diversidade de atores na arena, acabando com o monopólio da mídia corporativa.

O jornalista Tácito Costa, editor do site Substantivo Plural, comenta o processo:
"As redes sociais abriram uma fenda na monolítica imprensa tradicional, que durante séculos monopolizou os canais de comunicação como alicerces de seu poder e dos seus interesses. Definitivamente, acabou o tempo da comunicação unidirecional. Um pouco antes da explosão das redes, os sites e blogs já tinham equilibrado esse jogo, oferecendo contraponto indispensável aos conglomerados da mídia e, com isso, fortalecendo a pluralidade e a democracia,"
Deflagrados a partir da confluência entre desenvolvimento, barateamento e difusão de tecnologias digitais e num contexto em que a passividade do espectador dá lugar à interatividade, os resultados concretos dessa atividade virtual se fazem sentir em fenômenos mais ou menos recentes e por vezes antagônicos entre si, como a emergência da chamada blogosfera progressista, o uso do tumblr como ferramenta para o humor político e a mobilização popular via redes sociais. Estas, além de se constituírem, cotidianamente, como arena pública de debates, tiveram papel relevante nas manifestações de junho e acabam de servir de meio para deflagração de "rolezinhos" em shoppings. No bojo da Copa e da campanha eleitoral, prometem seguir dominando a cena em 2014.



Bolha de certezas
Não obstante positivo em sua essência, o debate político que se dá via redes sociais traz, inerentes, aspectos contraditórios ou mesmo intrinsecamente negativos, os quais se tornam mais evidentes à medida que a interação por elas proporcionada se torna um elemento rotineiro no cotidiano de cidadãos e cidadãs.

Talvez o mais evidente - e empobrecedor - deles, na seara política, seja a tendência à formação de "igrejinhas", em que a timeline [o conjunto de perfis seguidos e que te seguem] tende a se apresentar expurgada dos perfis que expressam opiniões francamente contrárias ou divergentes às do dono da conta, acabando por forjar uma falsa unidade discursiva em prol do ideário, partido ou programa político por este professado. Assim, seu universo político pessoal é conservado em uma espécie de bolha que, embora perfurada amiúde pela própria impossibilidade de se prever e vetar toda e qualquer opinião contrária, o mantém no mais das vezes preso, a um tempo, de convicções que seus pares reafirmam a todo instante e do contato com a multiplicidade de opiniões divergentes – dinâmica que lhe impede acesso a uma visão realista da intensidade da oposição à linha política que defende.



Carimbador maluco
Deriva de tal dinâmica um segundo efeito dessa "segmentação opinativa" inerentes às redes sociais: a tendência, em um cenário político pobre em termos de diversidade e fortemente concentrado na oposição PT X PSDB, a "carimbar" as opiniões de acordo com a régua estabelecida por tal dicotomia.

Assim, se você defender o Bolsa Família ou mostrar simpatia pelos condenados do "mensalão" é grande a probabilidade de ser carimbado como simpatizante do PT ou mesmo xingado de "petralha" e termos derivados, os quais, disseminados a partir do jornalismo neocon, explicitam a intolerância e a tentativa de desqualificação do que entendem por esquerda.

Já se você ousa defender a classe média ou dá pinta de pender para uma posição com tinturas de conservadorismo ou de liberalismo econômico, se tornam grandes as chances de ser repelido pelas hostes dominantes nas redes e carimbado como "coxinha", o xingamento máximo do petismo militante, não obstante a ascensão de pobres à classe média ser comumente desfraldada pelos próprios partidários como principal conquista dos governos petistas.



Desqualificação a priori
Nesse cenário polarizado, há pouco espaço para nuances ou para assimilação de críticas que procuram ir além da dicotomia PT x PSDB. É sintomático dessa intolerância a evocação do fantasma dos anos FHC – ou seja, elitismo, precariedade social e crise econômica – à mínima restrição dirigida ao governo petista: Com tais reações, o debate é interditado por uma confusão deliberada entre a crítica pontual à atual administração e a negação total do petismo em prol do que seria inapelavelmente, de acordo com a reação citada, a única alternativa: o retorno aos anos FHC. Trata-se de uma atitude que não só revela-se autoritária e diversionista ao se recusar a debater os termos específicos da crítica, mas, mostrando ignorar não só a significação última do dito marxista de que a história só se repete como farsa, não se apercebe que se a volta ao Brasil do ex-presidente fosse uma mera questão de deixar de optar pelo PT, então seria porque as mudanças por este partido promovida, nos últimos 11 anos, não foram suficientes sequer para nos colocar a salvo de tal perigo como uma ameaça imediata (muito pelo contrário, até as privatizações estão de volta, sob patrocínio petista).

Em decorrência da tendência a pouca tolerância com opiniões nuançadas – no sentido de não circunscritas à troca de chumbo entre petistas e peessedebistas -, cria-se um processo vicioso de desqualificação a priori das críticas, denunciadas na origem como ideologicamente tendenciosas e cujo teor sequer é levado em conta, e de restrição à sua circulação, seja através da recusa pessoal (e legítima) a repercuti-la nas redes sociais, seja na recusa (dissimulada) dos blogs de grande audiência em repercutir opiniões que se oponham frontalmente às linhas partidárias que efetivamente (mas não assumidamente) apoiam.



Boicote autoritário
Destarte, malgrado o pleno direito à expressão e as múltiplas modalidades possibilitadas pela internet, acaba-se por observar-se atualmente, no que concerne ao debate político brasileiro, o germe de um processo de caráter totalitário, por vezes macartista, de abafar vozes críticas divergentes, processo este em que tem papel precípuo as paixões partidárias e é protagonizado por entidades virtuais que até recentemente se publicizavam como pluralistas e progressivas.

Trata-se, em última analise, de um fator de retrocesso no debate púbico, pois enquanto as paixões partidárias se manifestarem como elementos de desqualificação e de repressão à livre abordagem crítica dos problemas, será a fé se sobrepondo à razão, até na seara política. Verdadeiros democratas não temem o debate.


(Imagem de Joseph McCarthy retirada daqui)

domingo, 12 de janeiro de 2014

O legado petista e a esquerda

Em artigo recente, no qual propõe uma reflexão sobre o futuro dos direitos sociais no Brasil, o filósofo Renato Janine Ribeiro alude a uma dicotomia que, às raias da campanha eleitoral, vem se consolidando no debate político do país. Trata-se da oposição entre o conservadorismo - os autointitulados "liberais", um amplo leque que reúne ex-aliados petistas, tucanos e até parte do que restou do DEM - e o petismo ora no poder, que para muitos de seus entusiastas ainda representaria a esquerda (ou centro-esquerda), por promover, via atenção ao social, uma alternativa ao neoliberalismo desbragado dos anos FHC e Collor, com destaque para as políticas de erradicação da miséria e de ascensão de cerca de 35 milhões de cidadãos à classe média.

Mas será que a relação entre esses entes políticos é, de fato, tão dicotômica quanto tais esquemas analíticos sugerem, ou oposições aparentes encobrem afinidades que os dois lados preferem camuflar? Mais: para além do desgaste conceitual de termos como "direita" e "esquerda", até que ponto, se usarmos de rigor metodológico, eles se aplicam a tais forças em oposição? Se não restam dúvidas de que os políticos que descendem da genealogia Arena/PDS/DEM têm formado, nas duas últimas décadas, em conluio com os tucanos, o núcleo duro do conservadorismo no país, isso automaticamente outorga ao petismo no poder o cetro do progressismo? Ou as sucessivas correções de rumo e guinadas conservadoras do PT de tal modo relativizam essa dicotomia que estaríamos assistindo, hoje, a um vácuo de representação no campo da esquerda?



Pobres e milionários
As políticas redistributivas implementadas em larga escala pelo PT têm se mostrado, de fato, o que de melhor os governos Lula e Dilma legam ao país, com resultados efetivos e relativamente rápidos no combate à chaga da pobreza, o pior dos males sociais gerados por séculos de negligência. Devido a relevância de seu humanismo e eficácia, trata-se de uma política que, com eventuais correções pontuais, não deveria ser abandonada no curto ou médio prazo, à revelia da coloração partidária dos futuros presidentes do país.

Sua implementação, no entanto, não se deu em consonância com a redução dos ganhos obscenos das elites historicamente responsáveis pela mencionada negligência para com o social - ou seja, através do redesenho integral da pirâmide social brasileira, de modo a torná-la, de ponta a ponta, mais justa. Pelo contrário: o que se vê são ajustes entre a base e o meio da pirâmide, à custa dos estratos médios e da dilatação do consumo causada pela própria incorporação econômica da base, num processo que, malgrado seus já citados benefícios, multiplicou os lucros do topo da pirâmide e tornou o Brasil o país que mais produz milionários no mundo. Ignorar a assimetria inerente a tal processo de combate à pobreza e tomá-lo por modelo exemplar de justiça social é tapar os olhos para os lucros extras que gera ao grande capital e aos oligopólios privados.

Essa aliança do petismo, a um tempo, com a base e o topo da pirâmide social serve de molde e metáfora tanto para a orientação de suas políticas econômicas quanto para suas alianças no âmbito da política partidária – que o digam Sarney, Collor, Calheiros, Maluf, Kátia Abreu, entre tantos outros políticos indubitavelmente associados ao conservadorismo (e à violação da ética na política). Esse duplo arranjo – e as medidas dele derivadas – relativiza, na origem, o caráter esquerdista do projeto de poder petista e evidencia a impropriedade de qualificá-lo como oposição ispsis litteris ao liberalismo.



O jogo do mercado
Mas é na seara econômica que o despropósito de tal qualificação fica ainda mais claro. Tendo recebido de Lula um governo com grande aprovação popular e, malgrado algum déficit de caixa, em situação financeira incomparavelmente melhor do que a do Brasil que FHC entregara ao primeiro presidente operário, o governo Dilma iniciou-se com o mais duro choque anticíclico de toda a era petista, um aperto fiscal de tal ordem que as de ordinário altas metas para o superávit primário deram lugar ao objetivo de zerar o déficit nominal. Mesmo economistas simpáticos ao petismo reconhecem que a reação aos revezes provocados por tal erro inicial – que, segundo Luis Nassif, quase levaram a economia à recessão – está no bojo do realinhamento das políticas macroeconômicas aos moldes desejados pelo mercado. Em decorrência dessa derrapada, encerra-se o breve ínterim durante o qual, no governo Lula, o noticiário econômico deixou de ocupar a proeminência costumeira e a encoleirar o governo.

Porém, ao promover o retorno da ortodoxia econômica como padrão orientador das politicas econômicas e, ao mesmo tempo, se recusar a regularizar a mídia em bases democráticas e de acordo com o que determina a Constituição, o governo Dilma aceitou tácita e passivamente jogar o jogo de acordo com com os parâmetros ditados pelo conluio entre mercado financeiro e mídia.



Dormindo com o inimigo
À revelia do fato de serem sustentadas pelo "critério técnico" da Secom, governistas e entusiastas continuaram a qualificar as corporações de mídia como "PIG" (Partido da Imprensa Golpista) e, num processo de autocomiseração que ora se firma como característica distintiva do petismo, a se considerarem vítimas inocentes de uma oposição midiática mancomunada com as elites. Porém, o modo deliberado como Dilma se aproximou da mídia corporativa e seu voluntarismo em resgatar a ortodoxia financeira como modelo macroeconômico fizeram com que, ao invés de vitimização, muitos enxergassem em tais gestos um movimento deliberado de aproximação para com o conservadorismo, no bojo de um processo de expansão da hegemonia do petismo em direção à direita, corroborado pelo retorno às privatizações, a subserviência ao agronegócio em detrimento dos direitos dos índios e a vista grossa para as questões de gênero em prol de pactos com o poder religioso. O sucesso dessa guinada conservadora seria atestado pelos mapas das pesquisas eleitorais pré-Jornadas de junho, com Dilma batendo recordes de aprovação em setores antes infesos ao petismo.

Mais corrobora do que desmente o caráter voluntário dessa aproximação entre Dima e o mercado a velocidade com que desistiu de baixar os pornográficos juros praticados no Brasil e, ante as primeiras acusações de Marina Silva de que gastara excessivamente, em reafirmar sua fé no tripé neoliberal de sustentação da economia, implementado pelo plano Real e composto de alto superavit primário, inflação abaixo de um dígito e câmbio flutuante. 

Tal guinada torna indistinguível, no âmbito da macroeconomia, as práticas petistas das do tucanato anteriormente no poder,  além de dissipar qualquer laivo de originalidade ou esquerdismo. O efeito se faz sentir: quem ainda acredita na oposição simplista entre a mídia e governo Dilma deveria prestar mais atenção ao comportamento dos colunistas econômicos durante os leilões do Pré-Sal ou ao fato sintomático de que, hoje, a defesa do governo Dilma na imprensa está a cargo de alguns dos jornalistas mais identificados pelos próprios petistas com o "PIG" - como Clóvis Rossi, da Folha, que, em plena batalha pré-eleitoral, foi categórico ao reafirmar o esmero de Dilma com o rigor fiscal: "o governo, supostamente irresponsável, gasta menos do que arrecada e ainda pinga 1,3% de tudo o que o país produz de bens e serviços na conta dos mais ricos e apenas 0,4% na dos pobres entre os pobres. E os ricos ainda choram."



A voz do dono
Em decorrência dessas mudanças, e sem que muitos se dessem conta, o jogo se embaralhou. Grande parte da militância petista e dos governistas, outrora tão empenhada em impulsionar o governo em direção a pautas progressistas como a disseminação da banda larga, a regularização da mídia ou a taxação das grandes fortunas, passa a se contentar em comemorar cada índice da economia: o superávit primário X, a inflação Y, os juros Z. Para isso passa a exaltar rotineiramente os mesmíssimos valores do mercado financeiro e da mídia que sempre criticara. Ou seja, sob a égide do "novo petismo", age como um torcedor fanático, jogando o jogo do grande capital para que sua legenda partidária ganhe hegemonia e poder eleitoral, à revelia das perdas ideológicas, identitárias ou programáticas.

Seja como for – e mesmo entre governistas conscientes dos danos das alianças excessivamente elásticas e da rendição à mídia e ao mercado -, resta o indefectível argumento de que os fins justificariam os meios, ou seja, de que benefícios sociais trazidos pelos petismo compensariam tais retrocessos. É um argumento a se examinar.


Direitos sociais em crise
Janine Ribeiro, no texto mencionado, intitulado "O Brasil pode dar certo?" dá a dimensão das graves lacunas sociais do país: "A Europa desenvolvida tornou realidade, na metade do século XX, direitos sociais relevantes. Ninguém precisa perder o patrimônio para ser tratado de uma doença séria, ou gastar boa parte de sua renda para se locomover. É isso o que chamo um país 'dar certo'”. Isto, para ele, corresponde "a atender à demanda da rua por transporte, educação, saúde e seguranças decentes".

Creio não ser preciso alongar o texto para constatar que, após mais de uma década sob o petismo, estamos longe, muito longe de atingir patamares básicos referentes a tais quesitos. Mesmo com a ressalva de que tal estado de coisas deriva de uma pesada herança patrimonialista, é forçoso constatar que 11 anos não são 11 dias - e que se afigura altamente questionável se a aliança entre o PT e caciques conservadores fez regredir, manteve inalterado ou expandiu a velha prática patrimonialista.



Paliativos
Reforça o parco comprometimento da administração petista com questões sociais de suma importância, caras à esquerda, o encaminhamento que o petismo tem dado a áreas como Saúde, Educação e Transportes. Em relação a esta última, fala por si a crise de mobilidade urbana, agravada pela expansão exponencial da frota de veículos patrocinada pelo crédito farto e barato e, como tal, uma das principais motivações das manifestações de junho. À revelia do marketing oficial, Saúde e Educação também apresentam graves problemas, como veremos a seguir.

Na Saúde, o Mais Médicos, longe de ser (parte de) uma política estratégica para a área, constitui um paliativo ditado pelo improviso, explorando a peculiar – e injusta – situação trabalhista dos médicos cubanos (a qual decorre, em última análise, dos efeitos do criminoso boicote imposto pelos EUA à economia da ilha). Assim como é inegável que traz benefícios à população mais pobre, não dá para ignorar o seu caráter pontual, mínimo e não sistêmico enquanto política de saúde pública. Esta, após mais de 11 anos de governo petista, permanece uma quimera, um objetivo distante cujas bases não se encontram sequer esboçadas.



Prioridade à Educação?
De modo análogo, a tão propalada expansão do ensino superior está longe de corresponder a um aumento qualitativo da educação universitária no país. O governo divulga, como se de uma grande conquista se tratasse, o fato de ter dobrado o número de universitários nas instituições federais desde 2002. No entanto, trata-se de um fato que, por si só, está longe de constituir um benefício, posto que: no mesmo período, o número de docentes contratados (que já estava em níveis baixíssimos ao final do governo FHC) tem sido percentualmente bem inferior ao de novos alunos – num processo que aponta para o risco concreto de sucateamento do sistema, posto que a proporção professor/alunos é, histórica e mundialmente, um dos pilares básicos para a qualidade do ensino e da pesquisa no âmbito das universidades.

Além dessa questão crucial, o investimento em ampliação ou na criação de novos campi não atende às demandas de tal crescimento discente, gerando situações como a da UFRB, em que os alunos foram às aulas trajados de biquíni ou sunga em protesto contra a ausência de um sistema de refrigeração, em pleno Recôncavo Baiano, seis anos após o início das obras de construção do campus. Também as bibliotecas – item essencial para o sucesso das melhores universidades do mundo – têm sido solenemente negligenciadas durante esse processo de alegada "prioridade à educação", seja nas novas universidades ou nas já existentes, com acervos incompletos, extremamente defasados e insuficientes para atender à velha demanda - o que dizer da nova. 


Pequenas divergências
O caráter não estrutural, relativo, insatisfatório, às vezes apenas cosmético dos benefícios que o petismo, após 11 anos, trouxe a áreas sociais essenciais como Educação, Saúde, Mobilidade Urbana – para não falar no imenso retrocesso reativo aos Direitos Humanos e à ecologia – faz com que hoje, após a virada conservadora do governo Dilma, haja muito mais relativa convergência do que autêntico antagonismo entre o petismo e a oposição. Ou posto de outra forma, as divergências são de ordem adjetiva, não substantiva: ambos concordam em relação à adoção do "tripé básico da economia" (, ), ambos defendem a privatização; a regularização da mídia ou a auditoria da dívida pública não está no horizonte de nenhum dos projetos. O que ocorre são divergências quantitativas: qual o ponto de regulação de juros e crédito que não tensiona a inflação?qual o nível de aumento do salário mínimo desejável? Até a desregulamentação dos encargos trabalhistas, objetivo eterno do conservadorismo, vem sendo pontual e paulatinamente adotado pelo governo petista.

Em termos político eleitorais, o principal efeito dos 11 anos de petismo é a mimetização, por este, de plataformas caras ao conservadorismo, somada, graças sobretudo aos programas de renda minima, à capacidade de manter-se (ainda) simbolicamente situado, no imaginário de uma grande parcela do eleitorado, no campo da centro-esquerda. Em decorrência, este encontra-se ora esvaziado: as eleições presidenciais de 2014 será disputada por candidatos e alianças que aceitam passivamente os principais ditames do mercado financeiro sob a égide neoliberal, no que concerne a temas fundamentais como privatização, rigor fiscal e inserção na ordem econômica mundial, entre tantos outros.



Herança
Dilma pode até ganhar as eleições, mas, após mais de uma década de petismo, a esquerda está morta no cenário eleitoral feeral, dominado pela hegemonia do liberalismo econômico em conluio com um conservadorismo moral apoiado em dogmas religiosos e que retroalimenta atrasos e preconceitos. Os prognósticos não são bons.