Recebo de um querido amigo, que sempre me pareceu apolítico e a quem, para minha grande alegria, reencontrei depois de anos, a mensagem-corrente que reproduzo a seguir. Intitulada "ONDE ESTÃO "AS MENINAS DO JÔ"? NÃO DEIXE DE LER".
Ela explicita o grau a que chegou o desespero eleitoral e a falta de escrúpulos da oposição. O texto está entre aspas e meu comentários em amarelo.
"LEIA, REFLITA E ENCAMINHE ESTE DEPOIMENTO A TODOS OS SEUS CONTATOS, POR AMOR AO BRASIL.
A COISA ESTÁ FICANDO PRETA. PATRULHAMENTO GERAL
O primeiro jornalista a sofrer cerceamento do direito de bem informar, em consequência dos seus verdadeiros, contundentes e procedentes comentários contra os desmandos do atual governo, foi o Boris Casoy. De acordo com o noticiário da época, ele foi demitido a pedido do próprio Lula."
De início achei que se tratasse do episódio dos garis - em que foi Bóris, após dar provas e seu apreço pelos menos favorecidos, quem pediu para sair -, mas não: refere-se à demissão da Record, em abril de 2006. Segundo a extremamente confiável opinião do próprio Casoy, ela teria ocorrido a mando de José Dirceu. Provas, indícios? Nadica de nada.
Agora, me explica uma coisa: se o governo conseguiu que Casoy fosse demitido da Record, porque deixaria que ele fosse contratado em seguida pela Band, empresa muito menor e mais fácil de pressionar?
"Entretanto aos olhos dos menos atentos, a coisa vem se agravando de maneira avassaladora e perigosa, senão vejamos: O Programa do Jô tirou do ar (sem dar qualquer satisfação ao público)o quadro "As Meninas do Jô" que era apresentado às quartas feiras onde as jornalistas Lilian Witifibe [sic], Ana Maria Tahan, Cristiana Lobo, Lúcia Hippólito e, por vezes, outras mais, traziam à público [sic] e debatiam todas as falcatruas perpetradas por essa corja de corruptos que se apossou do país."
Deixa eu ver se entendi: o fato de Jô Soares, notório entusiasta da administração petista, não ter dado satisfação ao público por retirar do ar um debate tão profundo e isento é sinal de autoritarismo de Lula? Ô, Jô, deixa de ser comunista, rapaz.
"As entrevistas sobre temas políticos não têm sido mais levadas a efeito atualmente.
Virou um programa de amenidades e sem qualquer brilhantismo".
Não sei a que canais o brilhante redator assiste, mas desconfio que ele se refere ao programa do Serra.
"O jornalista Arnaldo Jabor, considerado desafeto pelo governo atual, vem sofrendo, de forma velada e sistemática, todo tipo retaliação. Já foi processado, condenado, amordaçado e por aí vai".
Amordaçaram o Jabor? Têm certeza de que não foi algum fetiche mais intenso do rapaz? E quer dizer que o cara foi processado, condenado e... AMORDAÇADO - por quem mesmo? - mas a retaliação é "velada"? Imagino o que aconteceria com o coitado se a retaliação fosse explícita.
"Sua participação diária, às 07:10 na Rádio CBN tem se limitado a assuntos sem a relevância que tinha, haja vista que está impedido de falar sobre assuntos que envolvam a política nacional e o atual governo".
Impedido por quem? (deixa eu tentar adivinhar: pelo Lula, que manda também na Globo?) Por que só ele teria se calado e os outros continuam descendo a ripa? Será que não foi a iminência de uma surra vexaminoa da oposição que o teria feito perder a voz? (Até Arnaldo Bloch, "coleguinha" de O Globo escreveu uma coluna desabfando que não aguenta mais o pessmismo do ex-maior cineasta do Brasil (ele tem mais de 1,90m...)).
"A jornalista Lúcia Hippólito, que tinha uma participação diária, às 07:55 hs na Rádio CBN, não está mais ocupando o microfone da emissora como fazia e nenhum comunicado foi feito pelo âncora do horário, o jornalista Heródoto Barbeiro. Sorrateiramente, colocaram-na como âncora em outro horário, onde enfoca matérias mais amenas e sem a habitual, verdadeira e procedente contundência".
Enfim o Émile Zola de Belfort Roxo deu uma dentro: "puseram" a Lúcia na geladeira, como retaliação à reação dela contra o blogueiro da Veja. E quem é o patrão do blogueiro da Veja mesmo?
A tempo: e sobre a derrubada do Herótodo da bancada do Roda Viva, nem uma palavrinha?
"Diogo Mainard [sic], da Revista Veja, além de processado, vem sofrendo várias ameaças de morte por parte do jornal do MR-8 (que faz parte da base aliada ao Lula) e de integrantes dos chamados "Movimentos Sociais".
Processado? Mas que absurdo! Onde está o Estado Democrático de Direito? Como pode um jornalista, por expor de forma equilibrada e bem-fundamentada suas opiniões, sem JAMAIS incorrer em ataques pessoais, ser PROCESSADO? Mesmo que ele eventualmente se exaltasse (afinal, ninguém é de ferro) não poderia ser processado, pois a imprensa está acima a lei, não é mesmo?
O autor não dz, mas o jornalista Paulo Henrique Amorim, que processa Mainardi, certamente está agindo a mando de Lula, tá na cara, nénão?
"O jornal "Estadão" de São Paulo está sob forte censura governamental há pelo menos 300 dias. Pelo que se vê, Fidel Castro está fazendo escola na América do Sul. O primeiro a colocar em prática estes ensinamentos, aniquilando o direito de imprensa foi Hugo Chaves [sic, foi sem querer querendo], e pelo andar da carruagem o nosso PresiMENTE está trilhando pelo mesmo caminho."
Nossa, fiquei sem palavras ante tamanho autoritarismo. Manter um processo em sigilo de justiça, impedindo que se publique informações é coisa de país atrasado, como a Inglaterra e a Alemanha. E a culpa pela decisão da Justiça é, naturalmente, de Lula (aliás, PresiMENTE foi ótimo, você deveria se candidatar a redator do Casseta & Planeta).
Quanto a ANIQUILAR direito de resposta, o Gilmar Mendes, digo, o Chávez é mesmo um MONSTRO!
"Constitucionalmente:
Onde está o ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO?
Onde está o
LIVRE DIREITO DE MANIFESTAÇÃO?
Onde está a
LIBERDADE DE EXPRESSÃO?
Onde está a
LIBERDADE DE UMA NAÇÃO?"
Aqui tinha um poema do Afonso Romano de Santanna sobre a mentira. Mas, em respeito ao poeta - que não tem nada a ver com o peixe -, o suprimi.
"ESSE TEXTO DEVE-SE TRANSFORMAR NA MAIOR CORRENTE QUE A INTERNET JÁ VIU, PARA QUE, NA ÉPOCA DAS ELEIÇÕES CONSIGAMOS FREAR A ESCALADA DO MAL!!!
ACORDA BRASIL, ENQUANTO É TEMPO, E REAJA".
Enfim - e agora falando sério - , o pseudo-sub-olavo de carvalho e eu concordamos em alguma coisa: acorda, Brasil, contra os manipuladores baratos, que não hesitam em lançar mão de calúnias e deturpações para divulgar suas convicções políticas.
Desperte, Brasil, contra os que atribuem até a autoria de atos sabidamente perpetuados por seu líder a Lula e à Dilma.
Erga-se, Brasil, contra aqueles que, numa era em que a imprensa negligencia os fatos e suas diversas interpretações e, assumidamente, faz o papel da oposição, difamando a granel e aplainando o terreno para o golpismo, tentam manchar a liberdade e a democracia vigentes.
Blog sobre cinema, jornalismo, política e música, com críticas, análises e perfis.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
O golpismo em plena gestação
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domingo, 12 de setembro de 2010
Veja e a liberdade de difamação
Publicada a três semanas da eleição, a matéria da revista Veja - mirando na ministra Erenice Guerra para atingir a candidata Dilma Rousseff - evidencia, uma vez mais, a necessidade de uma Lei de Imprensa que possibilite ao injuriado obter Direito de Resposta em tempo hábil e em volume e condições de exibição correspondentes aos da matéria que o difama.
A inexistência de tal mecanismo corresponde, na prática, a uma autorização para a difamação, a calúnia e a produção de matérias de cunho eleitoreiro, desossadas dos procedimentos mínimos determinados pela deontologia do jornalismo, e tão descompromissadas com a verdade dos fatos quanto comprometidas com interesses político-econômicos.
Factóides ao léu
É fato que, como aponta Idelber Avelar, o repetitivo padrão de comportamento pré-eleições da Veja dê mostras de esgotamento e, no caso da matéria sobre Eunice Guerra - não tendo sido até agora sequer repercutida pelos principais telejornais da Rede Globo -, afigure-se insignificante para a alteração das colocações na corrida presidencial.
É evidente também que a “grande imprensa” parece suscitar cada vez mais a desconfiança dos leitores, mostrando-se pouco influente em termos eleitorais, ao passo que a internet – a blogosfera, notadamente – dá mostras de atrair a atenção de um volume crescente de interessados em informação não manipulada por interesses corporativos.
Vácuo legal
As constatações acima, no entanto, embora alvissareiras, não servem de desculpa ou de atenuante para a necessidade de mecanismos realmente democráticos de regulação da imprensa, os quais garantam tanto a liberdade de expressão quanto sua não-transformação em liberdade de difamação, ou seja, em salvo-conduto para a transgressão legal e para o ataque desprovido de provas contra a honra alheia.
Assim como advogados não podem levar drogas para seus clientes presos ou como médicos não podem drogar suas pacientes para abusar-lhes sexualmente, não deveria ser permitido a um profissional da comunicação deliberada e comprovadamente mentir, manipular seus leitores com informações sem fatos que as corroborem, ou deixar de ouvir e explicitar os argumentos do acusado.
Exercicio de imaginação
Pois imaginemos, à guisa de exemplo, que, ao contrário do que à primeira vista se deu, o atual factóide sobre Eunice Guerra obtivesse alta repercussão, martelado no Jornal Nacional e congêneres, transformando-se na tal "bala de prata" capaz de levar a eleição presidencial ao segundo turno. Ainda como exercício mental, imaginemos que, então, um novo escândalo fabricado com matérias falsas levasse à derrota de Dilma (toc, toc, toc).
No vácuo legal em que atualmente se encontra o jornalismo, levaria ao menos
um ano para que a Justiça decidisse sobre o caso, e ainda que fossem constatadas todas as mazelas jornalísticas e a parte ofendida ganhasse pleno Direito de Resposta, as eleições – e os rumos da administração do Brasil – estariam irremediavelmente consumados.
Liberou-geral
Ou seja, o liberou-geral jurídico em que se encontra a atividade jornalística no país tem potencial de intervenção indevida no andamento institucional da democracia brasileira. Se tal potencial é factível de consumar-se ou não é irrelevante: do ponto de vista da manutenção da ordem legal-institucional do país é premente levar em conta que ele existe - e agrava-se pela ampla defasagem entre os prazos da Justiça comum e os prazos da comunicação na era digital. Tal diferencial, referente ao alcance, à velocidade e a capacidade de disseminação da comunicação contemporânea, faz com que tal campo tenha de, necessariamente, ser objeto de uma legislação específica.
E a autorregulação do setor, defendida pela plutocracia midiática como panacéia para a questão, não passa, em uma seara no qual a própria presidente do sindicato patronal admite que a imprensa faz hoje o papel de oposição, de uma piada.
Regulação da atividade jornalística
De qualquer forma - e deixando, por ora, as especulações eleitorais para lá - graças à irresponsável matéria de Veja, a honra de uma pessoa pública está sendo neste instante atacada sem provas minimamente consistentes, sem direito a “outro lado” e com a certeza da impunidade por parte do órgão acusador, pois, como já dito, a imprensa brasileira ora se encontra infesa à ação da Justiça no prazo devido.
Por isso, se o Brasil quer ser um país verdadeiramente democrático, em que todos são iguais perante a lei e os direitos individuais estão assegurados, é necessário priorizar a instauração de mecanismos modernos e democráticos de regulação da atividade de imprensa.
Do contrário é o golpismo sob o guarda-chuvas da liberdade de imprensa.
A inexistência de tal mecanismo corresponde, na prática, a uma autorização para a difamação, a calúnia e a produção de matérias de cunho eleitoreiro, desossadas dos procedimentos mínimos determinados pela deontologia do jornalismo, e tão descompromissadas com a verdade dos fatos quanto comprometidas com interesses político-econômicos.
Factóides ao léu
É fato que, como aponta Idelber Avelar, o repetitivo padrão de comportamento pré-eleições da Veja dê mostras de esgotamento e, no caso da matéria sobre Eunice Guerra - não tendo sido até agora sequer repercutida pelos principais telejornais da Rede Globo -, afigure-se insignificante para a alteração das colocações na corrida presidencial.
É evidente também que a “grande imprensa” parece suscitar cada vez mais a desconfiança dos leitores, mostrando-se pouco influente em termos eleitorais, ao passo que a internet – a blogosfera, notadamente – dá mostras de atrair a atenção de um volume crescente de interessados em informação não manipulada por interesses corporativos.
Vácuo legal
As constatações acima, no entanto, embora alvissareiras, não servem de desculpa ou de atenuante para a necessidade de mecanismos realmente democráticos de regulação da imprensa, os quais garantam tanto a liberdade de expressão quanto sua não-transformação em liberdade de difamação, ou seja, em salvo-conduto para a transgressão legal e para o ataque desprovido de provas contra a honra alheia.
Assim como advogados não podem levar drogas para seus clientes presos ou como médicos não podem drogar suas pacientes para abusar-lhes sexualmente, não deveria ser permitido a um profissional da comunicação deliberada e comprovadamente mentir, manipular seus leitores com informações sem fatos que as corroborem, ou deixar de ouvir e explicitar os argumentos do acusado.
Exercicio de imaginação
Pois imaginemos, à guisa de exemplo, que, ao contrário do que à primeira vista se deu, o atual factóide sobre Eunice Guerra obtivesse alta repercussão, martelado no Jornal Nacional e congêneres, transformando-se na tal "bala de prata" capaz de levar a eleição presidencial ao segundo turno. Ainda como exercício mental, imaginemos que, então, um novo escândalo fabricado com matérias falsas levasse à derrota de Dilma (toc, toc, toc).
No vácuo legal em que atualmente se encontra o jornalismo, levaria ao menos
um ano para que a Justiça decidisse sobre o caso, e ainda que fossem constatadas todas as mazelas jornalísticas e a parte ofendida ganhasse pleno Direito de Resposta, as eleições – e os rumos da administração do Brasil – estariam irremediavelmente consumados.
Liberou-geral
Ou seja, o liberou-geral jurídico em que se encontra a atividade jornalística no país tem potencial de intervenção indevida no andamento institucional da democracia brasileira. Se tal potencial é factível de consumar-se ou não é irrelevante: do ponto de vista da manutenção da ordem legal-institucional do país é premente levar em conta que ele existe - e agrava-se pela ampla defasagem entre os prazos da Justiça comum e os prazos da comunicação na era digital. Tal diferencial, referente ao alcance, à velocidade e a capacidade de disseminação da comunicação contemporânea, faz com que tal campo tenha de, necessariamente, ser objeto de uma legislação específica.
E a autorregulação do setor, defendida pela plutocracia midiática como panacéia para a questão, não passa, em uma seara no qual a própria presidente do sindicato patronal admite que a imprensa faz hoje o papel de oposição, de uma piada.
Regulação da atividade jornalística
De qualquer forma - e deixando, por ora, as especulações eleitorais para lá - graças à irresponsável matéria de Veja, a honra de uma pessoa pública está sendo neste instante atacada sem provas minimamente consistentes, sem direito a “outro lado” e com a certeza da impunidade por parte do órgão acusador, pois, como já dito, a imprensa brasileira ora se encontra infesa à ação da Justiça no prazo devido.
Por isso, se o Brasil quer ser um país verdadeiramente democrático, em que todos são iguais perante a lei e os direitos individuais estão assegurados, é necessário priorizar a instauração de mecanismos modernos e democráticos de regulação da atividade de imprensa.
Do contrário é o golpismo sob o guarda-chuvas da liberdade de imprensa.
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segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Reflexões sobre artistas, política e eleições
Começou no Twitter, nesta segunda-feira mezzo feriado: alguém repassou uma mensagem do Léo Jaime afirmando que o #DilmaFactsbyFolha – a febre satírica que tomou conta da rede social – “é a militância acusando o golpe. O caso do vazamento do sigilo é a origem desta cortina de fumaça”.Quanto ao teor da declaração de Léo, ela denota, em primeiro lugar, ao generalizar como “militância” todos os que participaram da brincadeira, ou uma tentativa pouco democrática de desqualificar os que dele divergem em termos de política, rotulando-os, ou desconhecimento do que seja tal rede social.
Em segundo lugar, revela desconhecimento do caso ou vontade de confundir propositadamente as coisas: o escândalo da Receita está no ar desde o início da semana passada, enquanto o #DilmaFactsbyFolha só se deu ontem (domingo, 05/09), dia em que o diário paulista publicou manchete afirmando que ”Consumidor de luz pagou R$ 1 bi por falha de Dilma”. Como registram diversos blogs, foi em reação a tal “informação” – já desmentida, com documentos, pela assessoria de Dilma – que teve início a piada que chegou ao topo dos trending topics.
Arte e política
Esse contato um tanto decepcionante com um artista do qual, há muitos anos, costumava ouvir, entusiasmado, o primeiro disco – intitulado “Phodas C” e permeado de humor sacana e de romantismo – e que lançaria algumas músicas que embalaram minha adolescência, me fez refletir sobre o papel político do artista nos dias de hoje.
Parece lícito supor que, com o fim da ditadura, tem lugar uma desmobilização da classe artística – e da sociedade civil tal como então concebida -, causada, sobretudo, pelo desaparecimento de um inimigo em comum para combater (“é o bem contra o mal/E você de que lado está?”, cantava Legião Urbana na canção “1964 (Duas tribos)"). Podemos especular que ocorre, também, em termos de presença no imaginário popular, uma desvalorização qualitativa da figura do artista enquanto referência intelectual, em prol de uma valorização quantitativa da “celebridade”.
Assim, o processo de “despolitização” da vida social é duplo – uma tendência que talvez a internet esteja só agora começando a reverter. Pois, ocorrendo de forma concomitante, tanto a diminuição dos elos entre política e a arte no âmbito midiático (comparem, por exemplo, os festivais dos anos 60 com o cenário atual) quanto a velocidade, a fugacidade e a tendência ao não-aprofundamento intelectual das celebridades instantâneas levam, em última análise, à virtual dissociação entre arte e política.
Artista, mídia e eleições
Talvez a seara onde tal dissociação seja mais visível seja a eleitoral. Coincidentemente, em coluna recente, Fernando de Barros e Silva discutiu o papel do artista nas eleições. Fernando é um dos melhores textos jornalísticos do Brasil e, quando elevou o nível da crítica televisiva, mostrou-se um analista dos mais perspicazes e atentos – mas tais talentos vêm há tempos se eclipsando, sufocados pela vassalagem que presta às preferências políticas do patrão Frias Filho na deteriorada Folha de S. Paulo.
Dessa forma, sua coluna sobre artistas e política se torna, em essência, mais um dos muitos sinais da mídia de que, ante o naufrágio de Serra, Marina é o plano B dos confederados do Instituto Millenium. Após citar o apoio de Caetano Veloso à candidata do PV, Fernando filosofa:
“Não há nenhum artista da mesma estatura histórica engajado dessa maneira em favor de Dilma Rousseff ou de José Serra (...) Em parte, porque as grandes figuras da intelligentsia com inserção pública e simpatias à esquerda não devem se sentir motivadas o bastante, ou moralmente à vontade, para sair da toca e hipotecar seu apoio a uma candidata semi-desconhecida, que Lula tirou do bolso do colete”.Pausa para as gargalhadas... O despeito da mal chamada grande mídia com uma candidata com intenções de voto suficientes para vencer no primeiro turno, derrotando José Serra, o queridinho dos barões da imprensa, está ficando cômica.
Sem falar que um jornalista profissional deveria, em nome da justeza da análise, ao menos mencionar o histórico de volubilidade eleitoral de Caetano Veloso – uma figura que, por maior que seja como artista, muitos têm dificuldade de levar a sério quando abre a boca para falar de política, justamente porque se mostrou, reiteradas vezes, leviano nessa área.
Por fim, vejam o encerramento do artigo, que primor de nonsense:
“O realinhamento histórico que Marina propõe não deixa de ser uma maneira de renovar (ou reanimar) as ilusões perdidas das classes médias letradas que fizeram sua educação sentimental e política em torno da velha e boa “MPB”.O que será que o Fernando quis dizer com essa baboseira elogiosa? Cartas para a redação.
(Colagem de fotos de Mário Faustino retiradas daqui)
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sábado, 4 de setembro de 2010
No Rio, emocionante disputa pelo Senado
A manutenção da grande distância que separa Dilma Rousseff (PT/RS) de José Serra (PSDB/SP) tem feito com que muitos analistas priorizem o exame das disputas estaduais, em detrimento do foco amplamente concentrado nas eleições presidenciais, usual no Brasil.
Com a inexplicável reticência dos paulistas em por fim aos desgovernos tucanos, Minas Gerais se converte no centro da atenção dos analistas políticos. O estado, tanto devido à acirrada disputa entre Hélio Costa (PMDB) e Antonio Anastasia (PSDB) – este o protagonista da primeira virada espetacular dessas eleições, ainda que com sua legitimidade contestada – quanto, sobretudo, por ser o domicílio eleitoral do tucano Aécio Neves, praticamente eleito para o Senado, de onde, com a eventual vitória petista, deve procurar se credenciar como o candidato da oposição em 2014.
Mudanças aceleradas
No entanto, se ao invés de pensarmos a médio prazo priorizarmos a análise dos cenários que se nos apresentam a partir do pleito em curso, será preciso dispensar maior atenção ao Rio de Janeiro, mais especificamente à disputa das eleições para o Senado.
Embora o atual governador Sergio Cabral (PMDB) deva se reeleger com folga, pondo fim às aspirações executivas do excessivamente volúvel Fernando Gabeira (PV), a disputa pelas duas vagas legislativas vinha sendo liderada com uma certa folga por Marcelo Crivela (PRB) e pelo ex-prefeito Cesar Maia (DEM), com o candidato petista Lindbergh Farias amargando, a uma boa distância, a terceira colocação.
No entanto, a última pesquisa Ibope, divulgada na terça-feira (03/09), sugere uma rápida mudança de cenário: enquanto Crivella amplia a distância em relação a seus concorrentes, chegando a 34%, Lindbergh se aproxima de Maia de forma acelerada: o demo caiu de 33% para 30%, enquanto o ex-prefeito de Nova Iguaçu subiu de 24% para 28%. Ou seja, dois pontos os separam.
Como a margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais para mais ou para menos, pode-se falar que todos os candidatos estejam em situação de empate técnico – embora a experiência histórica tenha mostrado a inexatidão por demais elástica de tal conceito.
O papel de Maia
A eventual eleição de Lindbergh tende a ser muito importante – menos pela presença do jovem político no Senado e mais por evitar um osso duro de roer para o eventual governo Dilma. Com efeito, parece não haver duvidas de que César Maia não só passaria a ser uma das vozes recorrentes da oposição nos noticiários globais – a exemplo do que foram Álvaro Dias, Arthur Virgílio e Raul Jungmann -, mas que desempenharia o papel de maneira menos obtusa e potencialmente mais danosa.
Tal impressão se deve a três fatores:
Oposição encolhe
Assim, se consolidadas como tendências eleitorais, as novidades trazidas pela recente pesquisa Ibope podem significar não apenas uma vitória partidária regional, mas se transformar em mais um elemento facilitador para a eventual gestão petista – e, em decorrência e de forma mais aguda, em mais um dos muitos fatores de constrangimento e de preocupação para uma oposição que, projeta-se, tende a encolher significativamente após o pleito.
Com a inexplicável reticência dos paulistas em por fim aos desgovernos tucanos, Minas Gerais se converte no centro da atenção dos analistas políticos. O estado, tanto devido à acirrada disputa entre Hélio Costa (PMDB) e Antonio Anastasia (PSDB) – este o protagonista da primeira virada espetacular dessas eleições, ainda que com sua legitimidade contestada – quanto, sobretudo, por ser o domicílio eleitoral do tucano Aécio Neves, praticamente eleito para o Senado, de onde, com a eventual vitória petista, deve procurar se credenciar como o candidato da oposição em 2014.
Mudanças aceleradas
No entanto, se ao invés de pensarmos a médio prazo priorizarmos a análise dos cenários que se nos apresentam a partir do pleito em curso, será preciso dispensar maior atenção ao Rio de Janeiro, mais especificamente à disputa das eleições para o Senado.
Embora o atual governador Sergio Cabral (PMDB) deva se reeleger com folga, pondo fim às aspirações executivas do excessivamente volúvel Fernando Gabeira (PV), a disputa pelas duas vagas legislativas vinha sendo liderada com uma certa folga por Marcelo Crivela (PRB) e pelo ex-prefeito Cesar Maia (DEM), com o candidato petista Lindbergh Farias amargando, a uma boa distância, a terceira colocação.
No entanto, a última pesquisa Ibope, divulgada na terça-feira (03/09), sugere uma rápida mudança de cenário: enquanto Crivella amplia a distância em relação a seus concorrentes, chegando a 34%, Lindbergh se aproxima de Maia de forma acelerada: o demo caiu de 33% para 30%, enquanto o ex-prefeito de Nova Iguaçu subiu de 24% para 28%. Ou seja, dois pontos os separam.
Como a margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais para mais ou para menos, pode-se falar que todos os candidatos estejam em situação de empate técnico – embora a experiência histórica tenha mostrado a inexatidão por demais elástica de tal conceito.
O papel de Maia
A eventual eleição de Lindbergh tende a ser muito importante – menos pela presença do jovem político no Senado e mais por evitar um osso duro de roer para o eventual governo Dilma. Com efeito, parece não haver duvidas de que César Maia não só passaria a ser uma das vozes recorrentes da oposição nos noticiários globais – a exemplo do que foram Álvaro Dias, Arthur Virgílio e Raul Jungmann -, mas que desempenharia o papel de maneira menos obtusa e potencialmente mais danosa.
Tal impressão se deve a três fatores:
1) Se Maia, como governante, produzia factóides em profusão, desconcertando imprensa e os cidadãos a um ponto tal que ninguém sabia dizer, com certeza, o que era fato e o que não, imagine o que faria na oposição...;
2) Ele teria como parceiro privilegiado o filho Rodrigo, menos hábil do que o pai mas com bom trânsito com líderes oposicionistas. O grau de confiança entre pai e filho – irreproduzível nas relações políticas convencionais – poderia dar margem a toda sorte de armações contra o governo Dillma;
3) Colunistas políticos de diversas tendências - e mesmo seus opositores - reconhecem que Maia não só é um hábil analista político como sabe manipular a imprensa. A repercussão de seu “ex-blog” é prova patente de tais “qualidades”.
Oposição encolhe
Assim, se consolidadas como tendências eleitorais, as novidades trazidas pela recente pesquisa Ibope podem significar não apenas uma vitória partidária regional, mas se transformar em mais um elemento facilitador para a eventual gestão petista – e, em decorrência e de forma mais aguda, em mais um dos muitos fatores de constrangimento e de preocupação para uma oposição que, projeta-se, tende a encolher significativamente após o pleito.
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domingo, 29 de agosto de 2010
Viajando nos road movies
Convidado para organizar uma pequena mostra de road movies, acabei me empolgando e fazendo uma pesquisa sobre o subgênero que acabou por produzir muita reflexão prazerosa e, para minha surpresa, uma lista não de quatro, como originalmente acordado, mas de mais de 40 títulos que eu gostaria de exibir...Os dois filmes que lideraram a lista – e que, de certo modo, foram a razão de ser da mostra – são o cultuado (mas pouco visto no Brasil) Detour (Curva do D
estino) - um noir dirigido por Edgar G. Ulmer em 1945, o qual comento aqui - e Sans toi ni loi, a a um tempo dilacerante e maravilhosa elegia a 1968 dirigida por Agnès Varda em 1995 e que a dispensável criatividade nacional para títulos renomeou Os Desajustados (depois, ao descobrir que já havia um filme com esse nome - dirigido por John Huston -, passou para Os Renegados). Para quem gosta de ler textos acadêmicos, na revista paranaense ÍNTERIN há um artigo meu (em pdf) sobre esse filme tão rico em questões feministas, existenciais, éticas, étnicas, políticas.Buscando a essência do subgênero
Em um primoroso texto sobre road movies, Walter Salles – que logo acrescentará mais um título à lista, c
om o lançamento do suado On the Road, baseado no clásico beatnik de Jack Kerouac -, além de citar alguns títulos que possivelmente me escapariam - como O Mundo, dirigido pelo chinês Jia Zhang-Ke e Neste Mundo, dirigido por Michael Winterbottom em 2002 -, desenvolve não só um histórico mas uma espécie de taxonomia da evolução do subgênero.Ele observa, por exemplo, que “road movies são raramente guiados por conflitos externos” e que os “mais interessantes são justamente aqueles em que a crise de identidade do protagonista da história reflete a crise de identidade de uma cultura, de um país”. Penso que Gosto de Cereja, dirigido pelo mestre iraniano Abbas Kiarostami em 1997, poderia ser apontado, em relação ao chamado “cinema de arte” internacional, como a quintessência modelar de tal linhagem de filmes.
Mas em termos de cinema americano - epicentro do subgênero - o western seria, segundo tal definição, o habitat primário do road movie - Walter, canônico, cita Rastros de Ódio, de John Ford –, a partir de onde se diversificaria em novas versões.

Exemplares disso – e do processo de dupla significação personagem-nação aludido por Salles – são os retratos e questionamentos da sociedade norte-americana perpetuados por filmes que, citados em sequência cronológica, acabam por formar um painel crítico evolutivo do tema nas últimas quatro décadas: Acorrentados (Stanley Kramer, 1958, um dos melhores filmes sobre o racismo produzidos em Hollywood), o emblemático Easy Rider (Dennis Hopper, 1969), Espantalho (Jerry Schatzberg, 1973, com Gene Hackman e Al Pacino amargando o refluxo pós-1968), Estranhos no Paraíso (Jim Jarmusch, 1984), Rain Main (Barry Levinson, 1988, contrapondo, no momento de afirmação do neoliberalismo, o yuppie Tom Cruise e o autista mas milionário Dustin Hoffman), A História Real (David Lynch, 1999, flagrando a morte de uma geração), Confissões de Schmidt (2002) e Sideways (2004), ambos dirigidos por Alexander Payne e tematizando, respectivamente, a velhice e a meia-idade; além do hit Pequena Miss Sunshine (2006), que prefigura – ou ao menos parece querer prefigurar, um novo país.
A questão da motivação
Eu tenderia a relativizar a generalização de Walter sobre a não-preponderância dos conflitos externos nos road movies e a distinguir, no subgênero, a modalidade acima citada daquela em que a crise de identidade de um país também aparece como tema central, mas não deriva, necessariamente, de uma crise individual. É o caso, notadamente, de dois grandes filmes latino-americanos, Bye Bye Brasil (Cacá Diegues, 1979, com seu instantâneo da controversa modernidade do país como nova "aldeia global") e Guantanamera (Tomás Gutiérrez Alea e Juan Tabío, 1995, com seu retrato mordaz das mazelas e da burocracia cubanas). Incluiria nessa lista, ainda, Coração Selvagem (1990), que faz uma crítica explícita – na medida do possível em se tratando de David Lynch – ao moralismo norte-americano e o surpreendente retrato da globalização de Quase uma história de amor, produção de Hong Kong de 1996 dirigida por Peter Chan e estrelada pela deusa do cinema chinês Maggie Cheung.
Argumentaria, ainda, que nos filmes brasileiros Iracema, Uma Transa Amazônica (Jorge Bodanzky e Orlando Sena, 1976), Central do Brasil (Walter Salles, 1998) e Cinema, Aspirinas e Urubus (Marcelo Gomes,2005) são antes os condicionamentos externos que acabam por fazer aflorar dilemas individuais passíveis de se metaforizarem em manifestação de crise de identidade do país.Estradas do Oriente
Do normalmente negligenciado cinema asiático fiz uma seleção, creio, atípica. Talvez o leitor não concorde comi
go, mas considero Era uma vez em Tóquio (1953), uma das obras-primas de Ozu, um road movie da terceira idade, com direito a profunda meditação sobre a crise de identidade da sociedade japonesa do pós-Guerra. De modo semelhante – e invocando historiadores do cinema como Pierre Sorlin e minha saudosa professora Michèle Lagny, os quais entendem que um filme, mesmo com a ação localizada em um passado remoto, sempre nos diz muito sobre o presente –, incluo O Intendente Sansho (1954), do super esteta Mizoguchi, como um incomum road movie pelas paisagens do Japão feudal. Resistindo muito para não incluir nenhum título do meu ídolo Takeshi Miike, finalizo a seleção nipônica com o plástico Hana
-Bi (1997), de Takeshi Kitano.Filmes como Mâe Índia (Mehboob Khan , 1957) e Engraxates (Prakash Arora, 1954) seriam opções óbvias em se tratando do cinema indiano – no Brasil, na minha opinião, de longe a mais maltratada das cinematografias nacionais. Pois nem em cultuadas revistas nacionais de cinema nem da pena de especialistas a quem admiro costumam sair textos que reflitam minimamente a riqueza do cinema indiano. Por alguma razão que me escapa parece haver, para além do mero desconhecimento – ou, quem sabe, prevenção -, uma forte incompatibilidade entre os parâmetros críticos brasileiros e o cinema indiano. Pior: para minha profunda irritação, predomina o deboche, até mesmo na academia. Mas tenho convicção de que uma platéia minimamente familiarizada com as peculiaridades do cinema indiano se emocionaria com a história do cientista de ponta que, morando confortavelmente nos EUA e trabalhando na Nasa, faz uma visita à terra natal que modificará sua vida para sempre – tema de Uma Luz do Passado (Ashutosh
Gowariker, 2004). Ou que vibraria e torceria pelo carismático Shah Rukh Khan como o muçulmano disposto a, por amor, superar o ódio entre paquistaneses e indianos em Veer-Zaara (Yash Chopra, 2004).À seleção asiática incluí, ainda, o ótimo filme sul-coreano Bombom Hortelã-Pimenta (Lee Chang-dong) - o qual, a exemplo de Detour, tem narrativa em flashback (com a trajetória do protagonista sendo recontada a partir de seu aparente suicídio) - e o cult A Última Vida no Universo, do diretor malaio Pen-ek Ratanuruang, protagonizado pelo astro japonês Asano Tadanobu e com a participação especial de Takashi Miike como vilão-mór.
Narratividade e gênero
Além do contundente tratamento que recebe de Agnès Varda no citado Sans toi ni loi, a questão de gêneros tem sido tematizada, se não de forma tão recorrente, com enfoques privilegiados na seara dos road movies. O exemplo icônico é, claro, Thelma & Louise (Riddley Scott, 1991), mas entre os imprescindíveis eu incluiria o esquecido Sexy e Marginal, primeiro longa de Scorsese, o mexicano E a sua mãe também (2001), de Alfonso Cuarón, e Bonneville/A força da amizade (Christopher Rowley, 2006, uma espécie de Sideways feminino), além
de dois filmes dirigidos por Bernardo Bertolucci: O Céu que Nos Protege (1990), com grande atuação de Debra Winger e o dilacerante La Luna (1979) - para mim, o melhor filme do cineasta italiano. No que concerne ao universo gay, não podem faltar Garotos de Programa (1991), do supervalorizado Gus Van Sant e a hipercolorida produção australiana Priscilla, A Rainha do Deserto (Stephan Elliott, 1994). Tudo isso supondo que não me deixariam exibir uns três episódios de Star Trek e de Perdidos no Espaço, séries que me parecem essenciais para debater tanto os road movies quanto a questão de gênero...rs....Voltemos ao texto de Walter Salles. Ele sustenta que:
“Pelo fato de que road movies procuram registrar a transformação interna dos seus personagens, a maioria dos filmes que pertence a esse gênero não é sobre aquilo que pode ser verbalizado, mas sobre aquilo que deve ser sentido - sobre o invisível que complementa o visível. Nesse sentido, road movies contrastam drasticamente com os filmes comerciais contemporâneos - aqueles em que ações são criadas a cada três minutos para segurar a atenção do espectador. Em filmes de estrada, um momento de silêncio é geralmente muito mais importante do que a ação mais elaborada”.Ao contrário do que tais assertivas podem sugerir, isso não se traduz, necessariamente, em filmes “arrastados”, de narrativa contemplativa. Pensemos, por exemplo, em Na Natureza Selvagem, um dos mais belos filmes produzidos nos EUA nos últimos anos, ao qual a direção de Sean Penn impõe um andamento que, sem afugentar o tal espectador contemporâneo, consegue transmitir com intensidade o universo interior do personagem principal, que abandonou tudo pela vida livre nas geleiras do Alasca.
Além disso, há filmes com levada contemporânea, capazes de prender o espectador pós-MTV, que são ótimos road movies, como Assassinos por Natureza, roteirizado por Quentin Tarantino e dirigido por Oliver Stone em 1994 – e que atualiza, em ritmo frenético, algumas das ousadias do clássico road
movie Bonnie & Clyde (Arthur Penn, 1967) -, a comédia besteirol (adoro!) Caindo na Estrada (Todd Phillips, 2000), o contracultural à la anos 80 Totalmente Selvagem (Jonathan Demme, estrelado por Melanie Griffith no auge da sensualidade) ou mesmo o retrato do jornalismo gonzo de Medo e Delírio (Terry Gilliam, 1998). Eu optei, ainda, por incluir na lista filmes de ação antigos, tais como o noir Dentro da Moite (Raoul Walsh, 1940) e o clássico francês O Salário do Medo (Henri-Georges Clouzot, 1953).Grande arte na estrada
Por fim – e sem querer fornecer uma lista exaustiva das tipificações do road movie -, há aqueles em que a uma viagem na forma de deslocamento físico no tem
po presente corresponde outra viagem, esta retrospectiva e operando no âmbito da memória. Morangos Silvestres, o clássico de Bergman – no qual Woody Allen se inspirou para realizar Desconstruindo Harry (1997) - é exemplar nesse sentido, com sua sucessão de imagens e situações ora diáfanas, ora assustadoras no presente e no fluxo de memória de um velho professor que viaja para receber um prêmio.Entre o seleto time de road movies que investem tanto no cinema como grande arte quanto em perscrutar questões profundas da existência eu incluiria, ainda, Passageiro, Profissão Repórter (1975), de Antonion
i, mestre do tempo cinematográfico como indutor de reflexões existenciais e que dirigiu outro cultuado - e enigmático - road movie: Zabriskie Point (1970); o cultuadíssimo Paris, Texas, de Win Wenders, um dos filmes-símbolo dos anos 80; e, por fim, uma obra algo obscura, perdida nos escaninhos dos festivais de cinema, mas pelo qual nutro uma espécie de culto: Navegador – Uma Odisséia Medieval, co-produção entre Austrália e Nova Zelândia, dirigida por Vincent Ward em 1988, em que, liderados por um garoto vidente, habitantes da Idade Média empreendem uma viagem (de ida e volta) a uma metrópole contemporânea – certamente, o trajeto mais longo dentre todos os road movies aqui elencados.
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Eleições: redes sociais dão mostras de saturação
Torna-se cada vez mais notório, nas redes sociais da internet, o quanto as atuais eleições vêm se tornando um fator de fastio e de monotonia para muitos. Há meses já se ouvia queixas nesse sentido, mas ultimamente até pessoas que acompanham o cenário político e gostam de discutir o tema têm reclamado.
De maneira ainda mais intensa e polarizada do que acontece com fenômenos como a repercussão do Big Brother Brasil – que a tantos, incluindo este blogueiro, agasta -, o efeito multiplicador de blogues e Twitter, somado ao caráter contínuo e incessante do fluxo de mensagens na rede, tende a levar o tema eleições à saturação – para o que muito contribui o longo tempo de campanha, que na internet começou, de fato, há meses.
Fazer tal constatação não significa desmerecer ou diminuir a importância da militância virtual, nem deixar de ressaltar que – ao contrário do que afirma o trololó serrista de “blogs sujos financiados pelo governo” – trata-se de um fenômeno largamente espontâneo.
Pelo contrário: é justamente a preocupação com o caráter politicamente alienador do fenômeno que se intenta ressaltar – pois se o objetivo da militância é justamente amealhar atenção, simpatia e votos para o seu candidato mas o resultado é, para muitos, o tédio e o “não agüento mais isso” é porque a ação virtual-eleitoral, dada sua virulência e onipresença, está resultando, ao menos em parte, contraproducente.
Desnecessário, no âmbito da abordagem aqui desenvolvida, assinalar que ao menos parcialmente tal efeito se liga ao alheamento de setores da sociedade em relação à política. Ainda assim, para ao menos amenizá-lo seria talvez recomendável que à ininterrupta postagem de dados, especulações e análises a favor ou contra os candidatos não apenas correspondesse um incremento do nível e da diversidade de abordagens acerca das ilações entre candidaturas e futuro do país, mas que fosse dirimida a impressão, generalizada nesses setores enfastiados com as eleições na internet, de que o bombardeio de mensagens de cunho político-eleitoral está tomando lugar de algo muito mais atraente e prazeroso, que vou chamar de fluxo de conteúdos culturais, com a cultura entendida aqui em sua acepção ampla.
Trata-se, portanto, de uma questão complexa, cujo melhor equacionamento passa não apenas pelo incremento das práticas comunicacionais nas redes virtuais e por um maior interesse social na política – duas mudanças em relação às quais não há garantias efetivas de que um dia virão a ocorrer -, mas por uma calibragem no próprio conceito de utilização da web para fins eleitorais, seja a partir de uma perspectiva institucional ou individual.
Uma coisa é certa: se muitos não agüentam mais o excesso de retórica vazia e de belicismo de baixo nível verificável nas hostes virtuais/eleitorais, a própria onipresença das eleições como tema cotidiano - com frequência vivenciado como se de torcidas arquivais em jogo de futebol se tratasse – é, para outros tantos, motivo de exasperação. Não me parece correto culpá-los por isso.
De maneira ainda mais intensa e polarizada do que acontece com fenômenos como a repercussão do Big Brother Brasil – que a tantos, incluindo este blogueiro, agasta -, o efeito multiplicador de blogues e Twitter, somado ao caráter contínuo e incessante do fluxo de mensagens na rede, tende a levar o tema eleições à saturação – para o que muito contribui o longo tempo de campanha, que na internet começou, de fato, há meses.
Fazer tal constatação não significa desmerecer ou diminuir a importância da militância virtual, nem deixar de ressaltar que – ao contrário do que afirma o trololó serrista de “blogs sujos financiados pelo governo” – trata-se de um fenômeno largamente espontâneo.
Pelo contrário: é justamente a preocupação com o caráter politicamente alienador do fenômeno que se intenta ressaltar – pois se o objetivo da militância é justamente amealhar atenção, simpatia e votos para o seu candidato mas o resultado é, para muitos, o tédio e o “não agüento mais isso” é porque a ação virtual-eleitoral, dada sua virulência e onipresença, está resultando, ao menos em parte, contraproducente.
Desnecessário, no âmbito da abordagem aqui desenvolvida, assinalar que ao menos parcialmente tal efeito se liga ao alheamento de setores da sociedade em relação à política. Ainda assim, para ao menos amenizá-lo seria talvez recomendável que à ininterrupta postagem de dados, especulações e análises a favor ou contra os candidatos não apenas correspondesse um incremento do nível e da diversidade de abordagens acerca das ilações entre candidaturas e futuro do país, mas que fosse dirimida a impressão, generalizada nesses setores enfastiados com as eleições na internet, de que o bombardeio de mensagens de cunho político-eleitoral está tomando lugar de algo muito mais atraente e prazeroso, que vou chamar de fluxo de conteúdos culturais, com a cultura entendida aqui em sua acepção ampla.
Trata-se, portanto, de uma questão complexa, cujo melhor equacionamento passa não apenas pelo incremento das práticas comunicacionais nas redes virtuais e por um maior interesse social na política – duas mudanças em relação às quais não há garantias efetivas de que um dia virão a ocorrer -, mas por uma calibragem no próprio conceito de utilização da web para fins eleitorais, seja a partir de uma perspectiva institucional ou individual.
Uma coisa é certa: se muitos não agüentam mais o excesso de retórica vazia e de belicismo de baixo nível verificável nas hostes virtuais/eleitorais, a própria onipresença das eleições como tema cotidiano - com frequência vivenciado como se de torcidas arquivais em jogo de futebol se tratasse – é, para outros tantos, motivo de exasperação. Não me parece correto culpá-los por isso.
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domingo, 22 de agosto de 2010
Música: ótimos lançamentos da safra 2010
Quatro álbuns recém-lançados mostram que a música brasileira vai bem, obrigado.Nina Becker, vocalista da cultuada Orquestra Imperial, lança dois álbuns ao mesmo tempo, ambos primando por desenhos melodiosos extremamente cuidados: um se chama Azul, é tem um clima "frio", noturno, intimista sem ser melancólico. Destacam-se a regravação soft de "Samba Jambo", de Jorge Mautner e Nelson Jacobina e a deliciosa faixa de abertura, composta pela própria Nina, "Ela adora" (ouça na página dela no myspace).
O outro disco, intitulado "Vermelho" é um pouco mais quente, mas não abrasivo: um sol de inverno colorindo uma paisagem melódica de fim de tarde. Há, não apenas nessa ênfase na melodia, mas no controle da emissão, algo da Gal Costa de "Cantar" (1974, na minha opinião seu melhor disco) - impressão que a inclusão de "Lágrimas negras" (Mautner/Jacobina) parece corroborar. Essa leveza solar dá o tom do álbum, que é uma sucessão de canções suaves e envolventes, que flertam com o pop sem jamais se prostituirem.
Os arranjos - e a mixagem - merecem atenção especial, às vezes com um insuspeito protagonismo da bateria, ou um uso criativo do xilofone. Tirando a chatinha "Tropical poliéster", os dois dicos são uma amostra cabal que não serestringe ao superestimado cenário musical pernambucano as mais promissoras faces da música brasileira.
Música de gente grande
Confesso que eu tenderia a não prestar a minima atenção ao Pato Fu, mas a originalidade da proposta do último disco da banda, "Música de brinquedo", comentado no blog de Idelber Avelar, despertou minha curiosidade - e surpreendeu!
Utilizando-se de instrumentos musicais infantis - incluindo uma mini-bateria, aqueles "saxofones" coloridos e bugigangas várias -, do uso econômico e pontual dos backing vocals de uma garota e de um menino de seis anos, e de uma Fernanda Takai que - tendo achado o tom certo para sua pesona cool - está cantando cada vez melhor, o resultado final é do tipo que não dá vontade de parar de ouvir.
A escolha do repertório é algo a parte: minha favorita - que você pode ouvir acima - é a versãode "Live and let die" (que Paul e Linda McCartney compuseram para um filme de Bond, James Bond), com um hilário backing vocal gritado do garoto. Mas tem muito mais: "Rock and roll lullaby", "Twiggy, twiggy", "My girl" parecem canções novinhas em folha. Já a versão de "Ska" dos Paralamas é coisa de gente grande, com Fernanda brilhando, com uma dicção que explicita trechos da letra perdidos na interpretação original de Herbert Vianna, ao mesmo tempo em que valoriza a melodia.
O álbum vem se somar a Adriana Partimpim e ao disco de Arnaldo Antunes com Edgard Escandurra e Taciana barros como exemplo do que de melhor e mais criativo inspiração no universo infantil pode trazer à música.
O eclético Zeca
Por fim, há Zeca Baleiro: "Concerto" mostra que o formato acústico não diminui ou modula a versatilidade do artista maranhense.
A abertura, magistral, valoriza a bela combinação de melodia e letra de "Barco" (Chico César):
"Choro contigo, barco pela praia que deixas/Zeca canta em inglês - "Best ou you", dos Foo Fighters -, espanhol - a paródia "Milonga del mejor", dele e de Vanessa Bumagny - e, vá lá, francês - "Tem francesa no morro" (do compositor dos anos 30 Assis valente); reverencia Cartola ("Autonomia") e Walter Franco ("Respore fundo"), além de investir, é claro, na alquimia brega-chique ("Chuva", de Gílson e Joran, que você pode ouvir abaixo).
pelo sol que se deita, longe das pedras do cais/
(,,,) Choro saber que os açudes não são o mar/
Que não se pode guardar em alguidares de areia/
Choro o destino da sereira e o desatino do astrolábio/
Choro saber que o homem sábio pode morrer se não souber nadar/
Choro contigo e parto, nas ondas vagas e incertas/
As nossas velas abertas são ferramentas do caos/
Chore comigo, barco, a sina de todas as naus").
Há uma ou outra idiosincrassia - notadamente, "Eu não matei Joana D'Arc", do Camisa de Vênus - compensados por momentos plenos de humor, como em "Armário" (sobre o medo de sair deste que acomete um rapaz cujo irmão foi skinhead), na genial "Bangalô", e, combinado com uma certa melancolia - como só Zeca sabe fazer -, em "Mais um dia cinza em São Paulo".
Ao final, fica a vontade de pedir bis.
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quinta-feira, 12 de agosto de 2010
As entrevistas dos candidatos no Jornal Nacional
Para fazer uma análise justa das entrevistas do Jornal Nacional com os candidatos à Presidência pareceu-me necessário aguardar que a última delas fosse ao ar e a série se encerrasse. Cri que só assim, ciente do tratamento dispensado a cada um dos candidatos, poderia formular, de forma condizente, juízos de valor acerca do evento.
Entrevistas televisivas em série, cada dia com o candidato de uma coligação - como as que o telejornal se propôs -, demandam, necessariamente, a adoção de um mesmo e pré-determinado padrão de conduta por parte dos entrevistadores, seja qual for o entrevistado.
Ainda que, de acordo com o perfil, as alianças e a história de cada candidato, o feixe de perguntas necessariamente varie, a postura dos entrevistadores em relação aos inquiridos, o modo como formulam as perguntas e seu grau de incisividade devem apresentar a menor variação possível, sob pena de suscitar acusações de tendenciosismo, favorecimento e discriminação, as quais minam o alegado esforço para inteirar a massa de espectadores sobre as candidaturas presidenciais que se apresentam ao país.
É fato que cada entrevista tem uma dinâmica própria, mas, se o entrevistado não tergiversa nas respostas ou não agride o perguntador, a obediência a um padrão minimamente igualitário de tratamento aos diferentes candidatos é condição sine qua non para assegurar confiabilidade. Quem assistiu às três entrevistas conduzidas por Fátima Bernardes e William Bonner com, respectivamente, os candidatos Dilma Rousseff (PT/RS), Marina Silva (PV/AC) e José Serra (PSDB/SP) sabe que tais regras básicas de conduta jornalística foram largamente negligenciadas.
Dilma e a entrevista-inquérito
Senão, vejamos: Dilma Rousseff, que inaugurou a série, foi submetida a algo mais parecido com um inquérito policial, durante o qual mal começava a formular um raciocínio já era cortada pelos entrevistados, um dos quais chegou às raias da grosseria, a ponto de ser interpelado por sua parceira de trabalho e esposa. Isso gerou um grave problema técnico para a entrevista, identificável por qualquer estudante de Jornalismo: interrupções excessivas que não deixavam a entrevistada se expressar e aproximavam a duração de suas falas da duração das perguntas dos jornalistas.
Em termos temáticos, a entrevista com a petista denotou menos o interesse em informar o espectador e mais a tentativa de pespegar em Dilma o rótulo de “autoritária” e de dependente de Lula. Tratou-se, assim, tanto em termos jornalísticos quanto eleitorais, de uma entrevista duplamente mal-sucedida. Em primeiro lugar porque os Bonner poderiam perfeitamente – na verdade, deveriam – mostrar-se incisivos, perscrutórios, mas sem abrir mão da educação e da polidez no trato.
Em segundo, porque perderam uma ótima chance de inquirir a candidata acerca dos projetos através dos quais pretende dar continuidade a uma administração que, embora apoiada pela maioria da população, não é desprovida de problemas. Ao final, o espectador terminou desinformado sobre o que realmente importa, administrativa e eleitoralmente.
Marina e as reticências
O tom dos apresentadores já era outro no dia seguinte, na entrevista com a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva. Enquanto Fátima, aparentando menos nervosismo, mantinha a postura entre firme e ponderada, Bonner, bem mais educado do que no dia anterior, já em sua primeira pergunta pediu perdão à candidata por inquirir sobre a falta de apoio de outros partidos que não o PV. Ainda assim, Marina, talvez receosa de se ver seguidamente cortada por ele sem poder formular seu raciocínio - como o fora Dilma -, passou a insistir em responder, ignorando os apartes do jornalista e cobrindo sua voz. Por conta disso, teve lugar uma espécie de jogo de disputa de palavras entre os dois.
Do ponto de vista técnico, os Bonner subestimaram a um tempo a atual dinâmica de financiamento de campanhas e a urgência da agenda ambiental ao perguntar como a candidata faria para “convencer o eleitor de que a sua candidatura é para valer” e não apenas "para marcar posição nessa questão do meio ambiente?”. Tal impressão foi reforçada pelo dissimulado espanto de Fátima ante a descrição das graves consequências, para a sociedade brasileira, do aumento da temperatura da Terra, segundo Marina. Reforçou-se, assim, traços de uma postura do casal de jornalistas em relação à candidata do PV que eu descreveria como "reticente-leniente".
Além disso, ao invés de aprofundar a discussão dos abundantes temas espinhosos para a candidatura verde, os jornalistas perderam vários minutos discutindo o ex-partido de Marina, de forma particular o indevidamente chamado “mensalão do PT” – tema, aliás, recorrente nas três entrevistas. Ao final, não restaram dúvidas de que a postura e o grau de incisividade do casal para com a entrevistada fora outro, em relação ao do dia anterior.
Serra e a subserviência global
Mas foi a entrevista com Serra que evidenciou, de maneira clara, o descritério “três pesos, três medidas” que o jornalismo global reservou aos candidatos. O ex-governador foi poupado não apenas de quase todos os temas espinhosos suscitados por sua péssima gestão, mas de sua polêmica passagem pelo Ministério da Saúde.
Na entrevista, enquanto Fátima fingia desempenhar, de forma tíbia e elegante, o papel de bad cop (mas “esquecendo” o quase-vice Arruda e o mensalão tucano de Eduardo Azeredo), Bonner substituia a grosseria de segunda-feira por uma amabilidade tão exagerada quanto imprópria.
Os cortes bruscos e ríspidos com que ele seguidas vezes interrompeu a fala de Dilma deram lugar a intervenções em voz de travesseiro, incluindo um “o senhor me permita” quase ganido. Ao final, quando Serra, mesmo ciente há dias de que disporia de 30 segundos para se despedir, “estourou’ o tempo, a subserviência atingiu seu grau máximo, com o apresentador-galã se desmanchando em desculpas pela interrupção: “Me perdoe... me perdoe”. Patético.
Vitrine para seu candidato
A assimetria de tratamentos verificada no trato com os candidatos na série de entrevistas do JN é particularmente grave por se dar no telejornal de maior audiência do país, em uma TV aberta – ou seja, que opera graças a concessão pública de um bem pertencente ao povo brasileiro. Claro está que isso não é o bastante para frear o ímpeto da Globo de manipular o jornalismo e tentar “vender” seu candidato, utilizando como vitrine para tal o principal programa jornalístico da emissora.
O cúmulo da cara-de-pau, na verdade, é que a Vênus Platinada segue alegando isenção e qualidade, como se os brasileiros fossem trouxas. E daqui a alguns anos, quando o esperneio dos críticos contra tal assimetria tiver passado, a emissora reescreverá o seu passado - como fez com as Diretas-Já -, editando uma fala ou outra da "série de entrevistas que contribuiu para a democracia brasileira". E comemorará, em grande estilo, os 75 anos do padrão Globo de qualidade.
No entanto, o absurdo do "três pesos, três medidas" não se limita a interesses de fundo eleitoral e corporativo. Há também marcados traços ideológico-culturais a estimulá-lo. Numa campanha em que duas mulheres estão entre os três primeiros colocados nas pesquisas, as entrevistas do JN, através dos diferentes tratamentos dispensados aos candidatos, evidenciaram, uma vez mais, a premência da questão de gêneros e a persistência dos “valores” machistas em nossa - com o perdão do oximoro - cultura jornalística.
Machismo e questão de gêneros
Pois se a insistência do bad cop Bonner quanto ao alegado autoritarismo de Dilma trouxe, latente, o culto ao estereótipo de que mulheres, mesmo no comando, devem ser “femininas” e “delicadas” – como se isso tivesse alguma importância no exercício de cargos administrativos - e a feminilidade delicada de Marina acabou por lhe render um tratamento que não poucas vezes soou paternal e leniente – como se de um ser essencialmente frágil e, fica implícito, medianamente competente se tratasse -, Serra, por outro lado, foi tratado como um autêntico patriarca.
A interação do casal de entrevistadores com ele – da qual o tímido o “ senhor me permita”, vocalizado por Bonner, é expressão cabal de subserviência - claramente reverenciou “o político experiente”, “o administrador”, “o realizador”, encarnações do poder fálico decidido e destemido, o qual, ao contrário do que ocorre, na visão do JN, com as candidatas mulheres, não precisa mostrar a que veio.
Se isso não é uma demonstração cabal de ideário machista, a se somar a interesses classistas e empresariais, eu sou o Pato Donald.
Entrevistas televisivas em série, cada dia com o candidato de uma coligação - como as que o telejornal se propôs -, demandam, necessariamente, a adoção de um mesmo e pré-determinado padrão de conduta por parte dos entrevistadores, seja qual for o entrevistado.
Ainda que, de acordo com o perfil, as alianças e a história de cada candidato, o feixe de perguntas necessariamente varie, a postura dos entrevistadores em relação aos inquiridos, o modo como formulam as perguntas e seu grau de incisividade devem apresentar a menor variação possível, sob pena de suscitar acusações de tendenciosismo, favorecimento e discriminação, as quais minam o alegado esforço para inteirar a massa de espectadores sobre as candidaturas presidenciais que se apresentam ao país.
É fato que cada entrevista tem uma dinâmica própria, mas, se o entrevistado não tergiversa nas respostas ou não agride o perguntador, a obediência a um padrão minimamente igualitário de tratamento aos diferentes candidatos é condição sine qua non para assegurar confiabilidade. Quem assistiu às três entrevistas conduzidas por Fátima Bernardes e William Bonner com, respectivamente, os candidatos Dilma Rousseff (PT/RS), Marina Silva (PV/AC) e José Serra (PSDB/SP) sabe que tais regras básicas de conduta jornalística foram largamente negligenciadas.
Dilma e a entrevista-inquérito
Senão, vejamos: Dilma Rousseff, que inaugurou a série, foi submetida a algo mais parecido com um inquérito policial, durante o qual mal começava a formular um raciocínio já era cortada pelos entrevistados, um dos quais chegou às raias da grosseria, a ponto de ser interpelado por sua parceira de trabalho e esposa. Isso gerou um grave problema técnico para a entrevista, identificável por qualquer estudante de Jornalismo: interrupções excessivas que não deixavam a entrevistada se expressar e aproximavam a duração de suas falas da duração das perguntas dos jornalistas.
Em termos temáticos, a entrevista com a petista denotou menos o interesse em informar o espectador e mais a tentativa de pespegar em Dilma o rótulo de “autoritária” e de dependente de Lula. Tratou-se, assim, tanto em termos jornalísticos quanto eleitorais, de uma entrevista duplamente mal-sucedida. Em primeiro lugar porque os Bonner poderiam perfeitamente – na verdade, deveriam – mostrar-se incisivos, perscrutórios, mas sem abrir mão da educação e da polidez no trato.
Em segundo, porque perderam uma ótima chance de inquirir a candidata acerca dos projetos através dos quais pretende dar continuidade a uma administração que, embora apoiada pela maioria da população, não é desprovida de problemas. Ao final, o espectador terminou desinformado sobre o que realmente importa, administrativa e eleitoralmente.
Marina e as reticências
O tom dos apresentadores já era outro no dia seguinte, na entrevista com a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva. Enquanto Fátima, aparentando menos nervosismo, mantinha a postura entre firme e ponderada, Bonner, bem mais educado do que no dia anterior, já em sua primeira pergunta pediu perdão à candidata por inquirir sobre a falta de apoio de outros partidos que não o PV. Ainda assim, Marina, talvez receosa de se ver seguidamente cortada por ele sem poder formular seu raciocínio - como o fora Dilma -, passou a insistir em responder, ignorando os apartes do jornalista e cobrindo sua voz. Por conta disso, teve lugar uma espécie de jogo de disputa de palavras entre os dois.
Do ponto de vista técnico, os Bonner subestimaram a um tempo a atual dinâmica de financiamento de campanhas e a urgência da agenda ambiental ao perguntar como a candidata faria para “convencer o eleitor de que a sua candidatura é para valer” e não apenas "para marcar posição nessa questão do meio ambiente?”. Tal impressão foi reforçada pelo dissimulado espanto de Fátima ante a descrição das graves consequências, para a sociedade brasileira, do aumento da temperatura da Terra, segundo Marina. Reforçou-se, assim, traços de uma postura do casal de jornalistas em relação à candidata do PV que eu descreveria como "reticente-leniente".
Além disso, ao invés de aprofundar a discussão dos abundantes temas espinhosos para a candidatura verde, os jornalistas perderam vários minutos discutindo o ex-partido de Marina, de forma particular o indevidamente chamado “mensalão do PT” – tema, aliás, recorrente nas três entrevistas. Ao final, não restaram dúvidas de que a postura e o grau de incisividade do casal para com a entrevistada fora outro, em relação ao do dia anterior.
Serra e a subserviência global
Mas foi a entrevista com Serra que evidenciou, de maneira clara, o descritério “três pesos, três medidas” que o jornalismo global reservou aos candidatos. O ex-governador foi poupado não apenas de quase todos os temas espinhosos suscitados por sua péssima gestão, mas de sua polêmica passagem pelo Ministério da Saúde.
Na entrevista, enquanto Fátima fingia desempenhar, de forma tíbia e elegante, o papel de bad cop (mas “esquecendo” o quase-vice Arruda e o mensalão tucano de Eduardo Azeredo), Bonner substituia a grosseria de segunda-feira por uma amabilidade tão exagerada quanto imprópria.
Os cortes bruscos e ríspidos com que ele seguidas vezes interrompeu a fala de Dilma deram lugar a intervenções em voz de travesseiro, incluindo um “o senhor me permita” quase ganido. Ao final, quando Serra, mesmo ciente há dias de que disporia de 30 segundos para se despedir, “estourou’ o tempo, a subserviência atingiu seu grau máximo, com o apresentador-galã se desmanchando em desculpas pela interrupção: “Me perdoe... me perdoe”. Patético.
Vitrine para seu candidato
A assimetria de tratamentos verificada no trato com os candidatos na série de entrevistas do JN é particularmente grave por se dar no telejornal de maior audiência do país, em uma TV aberta – ou seja, que opera graças a concessão pública de um bem pertencente ao povo brasileiro. Claro está que isso não é o bastante para frear o ímpeto da Globo de manipular o jornalismo e tentar “vender” seu candidato, utilizando como vitrine para tal o principal programa jornalístico da emissora.
O cúmulo da cara-de-pau, na verdade, é que a Vênus Platinada segue alegando isenção e qualidade, como se os brasileiros fossem trouxas. E daqui a alguns anos, quando o esperneio dos críticos contra tal assimetria tiver passado, a emissora reescreverá o seu passado - como fez com as Diretas-Já -, editando uma fala ou outra da "série de entrevistas que contribuiu para a democracia brasileira". E comemorará, em grande estilo, os 75 anos do padrão Globo de qualidade.
No entanto, o absurdo do "três pesos, três medidas" não se limita a interesses de fundo eleitoral e corporativo. Há também marcados traços ideológico-culturais a estimulá-lo. Numa campanha em que duas mulheres estão entre os três primeiros colocados nas pesquisas, as entrevistas do JN, através dos diferentes tratamentos dispensados aos candidatos, evidenciaram, uma vez mais, a premência da questão de gêneros e a persistência dos “valores” machistas em nossa - com o perdão do oximoro - cultura jornalística.
Machismo e questão de gêneros
Pois se a insistência do bad cop Bonner quanto ao alegado autoritarismo de Dilma trouxe, latente, o culto ao estereótipo de que mulheres, mesmo no comando, devem ser “femininas” e “delicadas” – como se isso tivesse alguma importância no exercício de cargos administrativos - e a feminilidade delicada de Marina acabou por lhe render um tratamento que não poucas vezes soou paternal e leniente – como se de um ser essencialmente frágil e, fica implícito, medianamente competente se tratasse -, Serra, por outro lado, foi tratado como um autêntico patriarca.
A interação do casal de entrevistadores com ele – da qual o tímido o “ senhor me permita”, vocalizado por Bonner, é expressão cabal de subserviência - claramente reverenciou “o político experiente”, “o administrador”, “o realizador”, encarnações do poder fálico decidido e destemido, o qual, ao contrário do que ocorre, na visão do JN, com as candidatas mulheres, não precisa mostrar a que veio.
Se isso não é uma demonstração cabal de ideário machista, a se somar a interesses classistas e empresariais, eu sou o Pato Donald.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
A volta do "jornalismo do mas"
Ultimamente, parcela da mídia corporativa brasileira, um pouco por começar a inalar o incenso da falência, um pouco para fingir, aos ainda incautos, que pratica jornalismo equilibrado, tem procurado dissimular o ódio a Lula e a Dilma e o apoio ao tucanato e a seu candidato.
Assim, nas últimas semanas têm aparecido em setores da imprensa, com uma freqüência inaudita, artigos aparentemente justos com os fatos, e que insinuam, enfim, reconhecer méritos – esporádicos e mínimos que sejam – em uma administração federal apoiada, segundo as pesquisas, por cerca de 73% da população, em média.
O aparente equilíbrio jornalístico, porém, não resiste a um ou dois parágrafos, pois logo tem lugar o chamado “jornalismo do mas”, em que à mera menção do que possa ser positivo no governo Lula dá lugar a uma avalanche de conjunções adversativas – mas, porém, contudo, todavia, e por aí vai – que introduzem arrazoados sem razão e diabólicas diatribes na tentativa de convencer o leitor de que não é bom o país crescer, que essa história de deixar de obedecer cegamente aos EUA não vai dar certo e que o Bolsa-Família sustenta vagabundos.
Para completar, quando o jornal em questão é a Folha de S. Paulo, ao lado de uma matéria desse tipo há um box, intitulado “outro lado”, que, democraticamente, se dedica a ouvir... o mesmo lado, ou seja, os tucanos, demos e psolentos encarregados de entoar a cantilena dominante no artigo.
Na Folha, aliás, o tal “jornalismo do mas” não é novidade. Só que, no longo período em que o jornal parecia prestes a se tornar uma Veja diária – com direito a ficha falsa na capa, ataque de Frias a professores renomados, "denúncias" de Cesinha e anomalias do tipo -, essa exótica modalidade de jornalismo era de uso prioritário de seus colunistas – os quais, premidos pela necessidade de aparentar isenção, se viam, de quando em quando, obrigados a reconhecer um avanço ou outro, para logo em seguida sapecar um "no entanto" e começar a artilharia anti-Lula.
Por isso, a primeira vez que me apercebi do “jornalismo do mas” foi num artigo sobre Clóvis Rossi que escrevi para o Observatório da Imprensa e depois republiquei, com alterações, no blog. De lá para cá, tornou-se recorrente tal modalidade de apelação pseudo-jornalista, que não se restringe mais ao casmurro colunista e seus colegas que desempenham a mesma função no diário dos Frias.
Aliás, a Folha é, sem dúvida, o órgão que com mais frequência e da maneira mais deslavada tem recorrido a esse estratagema dissimulador, até para tentar convencer que à reforma gráfica recente do jornal, que tornou os infográficos ainda mais coloridos e pululantes, correspondeu uma revisão – com sinal progressista - de sua linha editorial. O que acontece, a bem da verdade, é exatamente o contrário, com colunistas mais liberais – como Paulo Nogueira Batista Jr. – tendo sido defenestrados, substituídos por imberbes colunistas de formação neocon.
O problema é que, longe dos círculos mais informados e da blogosfera de esquerda, há quem se deixe enganar pelo truque. Para meu espanto e decepção, tenho presenciado in loco tal fenômeno.
Assim, nas últimas semanas têm aparecido em setores da imprensa, com uma freqüência inaudita, artigos aparentemente justos com os fatos, e que insinuam, enfim, reconhecer méritos – esporádicos e mínimos que sejam – em uma administração federal apoiada, segundo as pesquisas, por cerca de 73% da população, em média.
O aparente equilíbrio jornalístico, porém, não resiste a um ou dois parágrafos, pois logo tem lugar o chamado “jornalismo do mas”, em que à mera menção do que possa ser positivo no governo Lula dá lugar a uma avalanche de conjunções adversativas – mas, porém, contudo, todavia, e por aí vai – que introduzem arrazoados sem razão e diabólicas diatribes na tentativa de convencer o leitor de que não é bom o país crescer, que essa história de deixar de obedecer cegamente aos EUA não vai dar certo e que o Bolsa-Família sustenta vagabundos.
Para completar, quando o jornal em questão é a Folha de S. Paulo, ao lado de uma matéria desse tipo há um box, intitulado “outro lado”, que, democraticamente, se dedica a ouvir... o mesmo lado, ou seja, os tucanos, demos e psolentos encarregados de entoar a cantilena dominante no artigo.
Na Folha, aliás, o tal “jornalismo do mas” não é novidade. Só que, no longo período em que o jornal parecia prestes a se tornar uma Veja diária – com direito a ficha falsa na capa, ataque de Frias a professores renomados, "denúncias" de Cesinha e anomalias do tipo -, essa exótica modalidade de jornalismo era de uso prioritário de seus colunistas – os quais, premidos pela necessidade de aparentar isenção, se viam, de quando em quando, obrigados a reconhecer um avanço ou outro, para logo em seguida sapecar um "no entanto" e começar a artilharia anti-Lula.
Por isso, a primeira vez que me apercebi do “jornalismo do mas” foi num artigo sobre Clóvis Rossi que escrevi para o Observatório da Imprensa e depois republiquei, com alterações, no blog. De lá para cá, tornou-se recorrente tal modalidade de apelação pseudo-jornalista, que não se restringe mais ao casmurro colunista e seus colegas que desempenham a mesma função no diário dos Frias.
Aliás, a Folha é, sem dúvida, o órgão que com mais frequência e da maneira mais deslavada tem recorrido a esse estratagema dissimulador, até para tentar convencer que à reforma gráfica recente do jornal, que tornou os infográficos ainda mais coloridos e pululantes, correspondeu uma revisão – com sinal progressista - de sua linha editorial. O que acontece, a bem da verdade, é exatamente o contrário, com colunistas mais liberais – como Paulo Nogueira Batista Jr. – tendo sido defenestrados, substituídos por imberbes colunistas de formação neocon.
O problema é que, longe dos círculos mais informados e da blogosfera de esquerda, há quem se deixe enganar pelo truque. Para meu espanto e decepção, tenho presenciado in loco tal fenômeno.
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sábado, 7 de agosto de 2010
À espera do Encontro Nacional de Blogueiros
Ontem fiz minha inscrição para o I Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas. Alimento uma ansiedade boa em relação ao evento e estou com grande expectativa – creio que será mais do que uma oportunidade de conhecer e confraternizar com outros blogueiros e entusiastas das novas comunicações, mas um evento histórico.
Só o fato de se realizar tal encontro, com uma programação de três dias e reunindo centenas de pessoas, já merece ser saudado como uma prova a mais de que, definitivamente, há uma nova força a se contrapor aos jornalões e grandes corporações midiáticas, com suas manipulações a favor do capital e de seus próprios interesses empresariais.
Desafios e conquistas
É evidente, no entanto, que se trata de uma luta de Davi e Golias. Talvez não nos encontremos mais em uma fase meramente embrionária da comunicação alternativa via web, mas, sendo realista, ainda são incipientes as bases materiais, legais e institucionais que permitiriam a constituição de um sustentáculo à atividade blogueira a médio e longo prazo. Muito precisaremos caminhar para nos consolidar como força capaz de vencer a longa luta da blogosfera por viabilização profissional, segurança jurídica, capacidade de se manter infesa ao poder do grande capital e de resistir contra as tentativas de intimidação e censura, entre outros desafios.
Assim como muitos têm afirmado, tenho a impressão de que o Encontro será o primeiro passo concreto e abrangente para a concepção de ações articuladas para começar a enfrentar de forma objetiva tais demandas. O incansável jornalista Altamiro Borges, dono de um dos melhores blogs de política do pedaço, acrescenta, em entrevista ao site Vermeho, a oportunidade para atacar uma questão premente da blogosfera: “o blog produz muita opinião e pouco conteúdo informativo. Para Miro, trata-se de uma ótima oportunidade para a articulação de uma agência de notícias.
Festa e confraternização
Como se não bastasse a oportunidade de nos unirmos e agir para a melhoria da blogosfera, teremos uma festa de abertura ao som de chorinho, com um grupo comandado por ninguém menos do que Luís Nassif (ao bandolim), com canjas de quem entende do riscado (infelizmente, não é o meu caso...).
Quem está querendo ir e não sabe como fazer para se inscrever, arrumar hotel e passagens em conta, etc., é só clicar no banner grandão lá encima ou aqui, que a minha grande amiga @Maria_Fro (a.k.a. Conceição Oliveira) explica tudim procê, como se diz aqui em Minas!
Miro, Nassif e Frô fazem parte da comissão de organização do evento, que conta ainda com as presenças do prezado Diego Casaes, de Paulo Henrique Amorim, Rodrigo Vianna, Eduardo Guimarães e Luiz Carlos Azenha - todos, desnecessário dizer, de parabéns pela capacidade, persistência e raça para viabilizar o encontro.
Pauta variada
Azenha, aliás, em post sobre suas perspectivas quanto ao encontro, observou, de forma realista e na contramão de análises mais derramadas, que “a blogosfera é muito diversa e é difícil encontrar dois blogueiros que concordem absolutamente sobre um único tema. Por isso, quem imagina que os 200 blogueiros já inscritos vão se submeter a algum tipo de controle, de comando centralizado ou de “ordens superiores” decididamente não conhece a blogosfera”. Para ele, os pontos fundamentais seriam: interação entre blogueiros, com troca de informações e de ensinamentos visando aprimorar os blogs, discussão sobre “a viabilidade comercial da blogosfera” e debate acerca das “as ameaças já existentes à blogosfera”.
De minha parte, insisto – pois já abordei o tema aqui - na importância da constituição de um sistema permanente de defesa jurídica para a blogosfera. Não se trata, a meu ver, de mais um tema entre outros de igual importância, mas de uma necessidade premente, pois têm sido recorrentes – e em intervalos cada vez menores - os processos contra blogueiros, uns poucos por descuido próprio (e aí faltou orientação legal sobre que cuidados tomar para exercer jornalismo sem infringir a lei), mas uma maioria como forma de intimidar e calar o escriba. Que, um dia, tais estratégias venham a tomar a forma de uma ação articulada visando censurar e desarticular a blogosfera - através de uma enxurrada de processos e com as armas do poder econômico - é mera questão de tempo. Arrisco dizer que isso só não aconteceu nas eleições em curso porque, para os agentes do grande capital capazes de financiar tal empreitada, o naufrágio da candidatura da direita se evidenciou muito cedo – muito antes que as pesquisas eleitorais o detectassem.
A hora é essa!
Essas e outras questões serão certamente debatidas nos três dias de encontro e, ainda que muita polêmica e até algumas discussões devam ocorrer, estou certo de que sairemos de São Paulo mais fortes e com projetos concretos para o aperfeiçoamento e fortalização da blogosfera, que nestas eleições têm mostrado seu tremendo potencial como força de comunicação interativa e livre de interesses corporativos.
Quem ainda não se decidiu, esta é a hora (inscrições só até dia 13/08)!
Só o fato de se realizar tal encontro, com uma programação de três dias e reunindo centenas de pessoas, já merece ser saudado como uma prova a mais de que, definitivamente, há uma nova força a se contrapor aos jornalões e grandes corporações midiáticas, com suas manipulações a favor do capital e de seus próprios interesses empresariais.
Desafios e conquistas
É evidente, no entanto, que se trata de uma luta de Davi e Golias. Talvez não nos encontremos mais em uma fase meramente embrionária da comunicação alternativa via web, mas, sendo realista, ainda são incipientes as bases materiais, legais e institucionais que permitiriam a constituição de um sustentáculo à atividade blogueira a médio e longo prazo. Muito precisaremos caminhar para nos consolidar como força capaz de vencer a longa luta da blogosfera por viabilização profissional, segurança jurídica, capacidade de se manter infesa ao poder do grande capital e de resistir contra as tentativas de intimidação e censura, entre outros desafios.
Assim como muitos têm afirmado, tenho a impressão de que o Encontro será o primeiro passo concreto e abrangente para a concepção de ações articuladas para começar a enfrentar de forma objetiva tais demandas. O incansável jornalista Altamiro Borges, dono de um dos melhores blogs de política do pedaço, acrescenta, em entrevista ao site Vermeho, a oportunidade para atacar uma questão premente da blogosfera: “o blog produz muita opinião e pouco conteúdo informativo. Para Miro, trata-se de uma ótima oportunidade para a articulação de uma agência de notícias.
Festa e confraternização
Como se não bastasse a oportunidade de nos unirmos e agir para a melhoria da blogosfera, teremos uma festa de abertura ao som de chorinho, com um grupo comandado por ninguém menos do que Luís Nassif (ao bandolim), com canjas de quem entende do riscado (infelizmente, não é o meu caso...).
Quem está querendo ir e não sabe como fazer para se inscrever, arrumar hotel e passagens em conta, etc., é só clicar no banner grandão lá encima ou aqui, que a minha grande amiga @Maria_Fro (a.k.a. Conceição Oliveira) explica tudim procê, como se diz aqui em Minas!
Miro, Nassif e Frô fazem parte da comissão de organização do evento, que conta ainda com as presenças do prezado Diego Casaes, de Paulo Henrique Amorim, Rodrigo Vianna, Eduardo Guimarães e Luiz Carlos Azenha - todos, desnecessário dizer, de parabéns pela capacidade, persistência e raça para viabilizar o encontro.
Pauta variada
Azenha, aliás, em post sobre suas perspectivas quanto ao encontro, observou, de forma realista e na contramão de análises mais derramadas, que “a blogosfera é muito diversa e é difícil encontrar dois blogueiros que concordem absolutamente sobre um único tema. Por isso, quem imagina que os 200 blogueiros já inscritos vão se submeter a algum tipo de controle, de comando centralizado ou de “ordens superiores” decididamente não conhece a blogosfera”. Para ele, os pontos fundamentais seriam: interação entre blogueiros, com troca de informações e de ensinamentos visando aprimorar os blogs, discussão sobre “a viabilidade comercial da blogosfera” e debate acerca das “as ameaças já existentes à blogosfera”.
De minha parte, insisto – pois já abordei o tema aqui - na importância da constituição de um sistema permanente de defesa jurídica para a blogosfera. Não se trata, a meu ver, de mais um tema entre outros de igual importância, mas de uma necessidade premente, pois têm sido recorrentes – e em intervalos cada vez menores - os processos contra blogueiros, uns poucos por descuido próprio (e aí faltou orientação legal sobre que cuidados tomar para exercer jornalismo sem infringir a lei), mas uma maioria como forma de intimidar e calar o escriba. Que, um dia, tais estratégias venham a tomar a forma de uma ação articulada visando censurar e desarticular a blogosfera - através de uma enxurrada de processos e com as armas do poder econômico - é mera questão de tempo. Arrisco dizer que isso só não aconteceu nas eleições em curso porque, para os agentes do grande capital capazes de financiar tal empreitada, o naufrágio da candidatura da direita se evidenciou muito cedo – muito antes que as pesquisas eleitorais o detectassem.
A hora é essa!
Essas e outras questões serão certamente debatidas nos três dias de encontro e, ainda que muita polêmica e até algumas discussões devam ocorrer, estou certo de que sairemos de São Paulo mais fortes e com projetos concretos para o aperfeiçoamento e fortalização da blogosfera, que nestas eleições têm mostrado seu tremendo potencial como força de comunicação interativa e livre de interesses corporativos.
Quem ainda não se decidiu, esta é a hora (inscrições só até dia 13/08)!
sábado, 31 de julho de 2010
Lula e os apedrejadores
À medida em que o desespero e a certeza da derrota vão tomando conta dos tucanos e da mídia amiga, cresce o grau de apelação - e de irracionalidade. O último factóide, na base do “se colar, colou”, é a tentativa de culpar o presidente Lula pelo eventual apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani, uma iraniana de 43 anos, mãe de dois filhos, por adultério.
Presa desde 2006, Sakineh foi inicialmente condenada a receber 99 chicotadas por alegadamente manter “relações ilícitas” com dois homens. Executado o castigo, ela viu-se submetida a uma nova pena, desta vez capital, pelo cruel método do apedrejamento: enterra-se o condenado na terra, só deixando a cabeça de fora, que é esmagada por pesadas pedras, atiradas de cima para baixo.
Barbarismo e crueldade
Trata-se, indiscutivelmente, de um caso que une, em grau superlativo, o conservadorismo sexual, a discriminação contra a mulher e a violação dos direitos humanos. De uma forma tal que um grande movimento internacional de ONGs – a bem da verdade, açulado, por questões geopolíticas, pelos EUA – tomou forma nos últimos meses.
Creio que não há como deixar de se solidarizar com tal causa, independentemente de simpatias políticas ou inclinações ideológicas. Corretismos multiculturais às favas, trata-se de um barbarismo, um anacronismo gritante em pleno séxulo XXI.
Isso posto, fica a pergunta: qual a responsabilidade de Lula pelo episódio? No raciocínio tucano-direitista, o fato de o presidente do Brasil ter sido um dos fiadores do acordo relativo à não-expansão do programa nuclear iraniano coloca as pedras na sua mão.
Simplismo desinformado
Trata-se não apenas de uma premissa absurda, mas de um raciocínio simplista e desinformado. Há limites claros às ações de presidentes no que tange a decisões judiciais de países soberanos, por mais absurdas que estas sejam. Lula governa o Brasil, não pode e não deve responder por assuntos internos de cada uma das dezenas de nações aliadas ao nosso país.
É esta, aliás, a prática internacional recorrente em termos de política externa. Para ficar em dois exemplos óbvios, nem mesmo casos gravíssimos como o massacre da Paz Celestial, na China, e a política belicista de Israel - que inclui ataques a barcos de civis e bloqueio de víveres e de assistência médica a palestinos - fez com que o Brasil (ou os EUA, ou as principais nações europeias) rompesse relações com tais países. Mas quanto a isso a mídia conservadora cala.
Essa prática institucionalizada no âmbito das relações entre nações soberanas não significa, evidentemente, que não se deva tomar atitudes quanto a tamanhos disparates. Há, porém, fóruns apropriados para fazê-lo. É, portanto, um total disparate acusar do crime cometido pela Justiça do país X o presidente do país Y (não sendo este uma potência imperialista).
De qualquer modo, pressionado nos últimos dias para tomar uma atitude, Lula, após justificar-se dizendo não poder interferir nos assuntos internos da Justiça de outro país – como visto, argumento irretocável, do ponto de vista da diplomacia internacional -, mudou de ideia e, quando o factóide já era martelado por jagunços da mídia e por políticos volúveis como Fernando Gabeira, resolveu oferecer asilo à condenada, declarando que “"nada justifica que o Estado tire a vida de alguém” e sustentando que “Se minha amizade com o presidente do Irã vale algo e essa mulher está incomodando lá, estamos dispostos a recebê-la no Brasil".
Infelizmente, é muito pouco provável que a oferta de asilo feita por Lula resulte efetiva. A Justiça iraniana é soberana e intrincada. Mesmo na remota hipótese de Mahmoud Ahmadinejad demonstrar bom senso e abraçar a oportunidade de fazer um aceno à comunidade mundial neste momento em que o país sofre sanções internacionais, teriam de ser vencidas outras barreiras internas para libertar Sakineh. Não é impossível, mas é difícil.
Imprensa sem rumo
Lula é macaco velho. Farejou que o factóide teria potenciais consequências eleitorais e fez o que está ao seu alcance. Sabe que nesse caso a emoção tende a sobrepor-se à razão – mesmo porque se esta prevalecesse e se não vivêssemos um período negro da mídia nacional, a imprensa sequer encamparia esse despropósito.
A torcida pela liberação da prisioneira iraniana, que une todas as pessoas de bem, não pode permitir que finjamos não ver o incessante linchamento moral - feito de deturpações, mentiras e previsões que não se realizam (como o alardeado terceiro mandato) - ao qual a mídia e o definhante PSDB continuamente submetem o governo Lula. Pois s maiores vítimas de tais vicissitudes são, em última análise, o eleitor e a verdade.
Presa desde 2006, Sakineh foi inicialmente condenada a receber 99 chicotadas por alegadamente manter “relações ilícitas” com dois homens. Executado o castigo, ela viu-se submetida a uma nova pena, desta vez capital, pelo cruel método do apedrejamento: enterra-se o condenado na terra, só deixando a cabeça de fora, que é esmagada por pesadas pedras, atiradas de cima para baixo.
Barbarismo e crueldade
Trata-se, indiscutivelmente, de um caso que une, em grau superlativo, o conservadorismo sexual, a discriminação contra a mulher e a violação dos direitos humanos. De uma forma tal que um grande movimento internacional de ONGs – a bem da verdade, açulado, por questões geopolíticas, pelos EUA – tomou forma nos últimos meses.
Creio que não há como deixar de se solidarizar com tal causa, independentemente de simpatias políticas ou inclinações ideológicas. Corretismos multiculturais às favas, trata-se de um barbarismo, um anacronismo gritante em pleno séxulo XXI.
Isso posto, fica a pergunta: qual a responsabilidade de Lula pelo episódio? No raciocínio tucano-direitista, o fato de o presidente do Brasil ter sido um dos fiadores do acordo relativo à não-expansão do programa nuclear iraniano coloca as pedras na sua mão.
Simplismo desinformado
Trata-se não apenas de uma premissa absurda, mas de um raciocínio simplista e desinformado. Há limites claros às ações de presidentes no que tange a decisões judiciais de países soberanos, por mais absurdas que estas sejam. Lula governa o Brasil, não pode e não deve responder por assuntos internos de cada uma das dezenas de nações aliadas ao nosso país.
É esta, aliás, a prática internacional recorrente em termos de política externa. Para ficar em dois exemplos óbvios, nem mesmo casos gravíssimos como o massacre da Paz Celestial, na China, e a política belicista de Israel - que inclui ataques a barcos de civis e bloqueio de víveres e de assistência médica a palestinos - fez com que o Brasil (ou os EUA, ou as principais nações europeias) rompesse relações com tais países. Mas quanto a isso a mídia conservadora cala.
Essa prática institucionalizada no âmbito das relações entre nações soberanas não significa, evidentemente, que não se deva tomar atitudes quanto a tamanhos disparates. Há, porém, fóruns apropriados para fazê-lo. É, portanto, um total disparate acusar do crime cometido pela Justiça do país X o presidente do país Y (não sendo este uma potência imperialista).
De qualquer modo, pressionado nos últimos dias para tomar uma atitude, Lula, após justificar-se dizendo não poder interferir nos assuntos internos da Justiça de outro país – como visto, argumento irretocável, do ponto de vista da diplomacia internacional -, mudou de ideia e, quando o factóide já era martelado por jagunços da mídia e por políticos volúveis como Fernando Gabeira, resolveu oferecer asilo à condenada, declarando que “"nada justifica que o Estado tire a vida de alguém” e sustentando que “Se minha amizade com o presidente do Irã vale algo e essa mulher está incomodando lá, estamos dispostos a recebê-la no Brasil".
Infelizmente, é muito pouco provável que a oferta de asilo feita por Lula resulte efetiva. A Justiça iraniana é soberana e intrincada. Mesmo na remota hipótese de Mahmoud Ahmadinejad demonstrar bom senso e abraçar a oportunidade de fazer um aceno à comunidade mundial neste momento em que o país sofre sanções internacionais, teriam de ser vencidas outras barreiras internas para libertar Sakineh. Não é impossível, mas é difícil.
Imprensa sem rumo
Lula é macaco velho. Farejou que o factóide teria potenciais consequências eleitorais e fez o que está ao seu alcance. Sabe que nesse caso a emoção tende a sobrepor-se à razão – mesmo porque se esta prevalecesse e se não vivêssemos um período negro da mídia nacional, a imprensa sequer encamparia esse despropósito.
A torcida pela liberação da prisioneira iraniana, que une todas as pessoas de bem, não pode permitir que finjamos não ver o incessante linchamento moral - feito de deturpações, mentiras e previsões que não se realizam (como o alardeado terceiro mandato) - ao qual a mídia e o definhante PSDB continuamente submetem o governo Lula. Pois s maiores vítimas de tais vicissitudes são, em última análise, o eleitor e a verdade.
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domingo, 25 de julho de 2010
A crise econômica na Europa e no Brasil
Os primeiros tempos foram duros. De início, como fazia no Brasil, sobreviveu como faxineira – porém melhor remunerada. Depois foi camelô, enrabichou-se com um português com o qual aprendeu artes da cozinha e agruras do fogão; casou, descasou. Aos 42 anos passou a conseguir, pela primeira vez na vida, chegar ao final do mês no azul: abrira uma loja de lingerie, que prosperou ao mesmo tempo em que Portugal, ingressando na Comunidade Econômica Europeia, assistia ao maior e mais veloz crescimento econômico de sua história.
Há dois anos, porém, sobreveio a grave crise mundial trazida no bojo do estouro da bolha de hipotecas nos EUA. No início ela tentou resistir, tentou diversificar o mostruário, crente de que o mau momento se devia à concorrência com os chineses – que, segundo ela, vendem lingerie de péssima qualidade a 1 euro a peça.
Em vão. Cortou despesas, dispensou funcionários. As últimas esperanças, depositadas nas vendas de fim de ano, não lograram: estava pagando para trabalhar. Em fevereiro deste ano ela fechou as portas. Agora reveza-se entre as casas dos filhos, esperando a poeira baixar para começar de novo.
Cenário desolador
A história de Luzete é, com uma ou outra variação, recorrente em Portugal. Em Lisboa, as zonas comerciais ao longo da Beira-mar ostentam um número impressionante de portas cerradas em pleno dia, que conferem uma atmosfera um tanto lúgubre à bela capital, como se de um eterno pesar fúnebre se tratasse.
No Porto, ouvidos 17 comerciantes e prestadores de serviços da zona comercial do Bolhão, a estimativa média é de uma queda de mais de 30% nas vendas em relação a dois anos atrás – e isso em uma cidade que previa um crescimento substancial no afluxo de turistas, tanto pela posição estratégica que agora seu aeroporto possui – como uma das bases da companhia aérea de baixo custo Ryanair – quanto pelos investimentos maciços do Estado em publicidade dirigida a turistas da Europa setentrional.
Esses relatos, somados, entre outros tantos fatores, às violentas manifestações na Grécia e ao acirramento das greves na França e na Itália (onde cartazes de protesto como os que encimam ente post estão em toda a parte), evidenciam que a crise mundial, que se prolonga no tempo e, em diversos países, se aprofunda, está tendo para as populações desses países consequências de monta. Tanto mais porque redução de salários (como anunciava o jornal português Diário Econômico a semana passada), quebra dos contratos de aposentadoria, redução da seguridade social – enfim, o agravamento da ortodoxia neoliberal – são, até agora, o remédio anunciado. Algo como receitar morfina para desintoxicar um viciado.
Brasil: só marolinha
Enquanto isso, no Brasil, as elites, a mídia que as vocaliza e um grupo de velhinhas de Taubaté e preconceituosos que não engolem Lula nem com desemprego a 7% fingem não se dar conta de que a ousadia de sua política econômica anti-recessiva e includente poupou o país das desventuras ora vividas nos EUA e no velho continente.
Estivéssemos sob o PSDB e sua obsessão pelo Estado mínimo, com cortes de gastos públicos e o que chamam pomposamente de “desinchaço da máquina governamental”, estaríamos agora repetindo o velho ritual de nos agachar, pires à mão, ante o FMI, recolhendo algumas esmolas salvadoras em troca do sacrifício dos estratos mais pobres da população.
Por isso é necessário refletir, para além das picuinhas e factóides da mídia, sobre qual é, de fato, o o fator essencial dessas eleições a oposição entre neoliberalismo e políticas econômicas includentes, entre recessão e desenvolvimentismo, entre o retorno a um modelo que faliu seguidas vezes o Brasil e outro que nos levou e nos têm mantido atrelados a uma fase de ouro de nossa economia.
(Foto tirada em uma rua do bairro de Aventino, em Roma)
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reportagem
domingo, 18 de julho de 2010
As férias dos homens bons
Começamos por Portugal, país que, sem a mão firme de Salazar a guiá-lo, se afunda cada vez mais numa espécie de “populismo tecnológico”, proporcionando ao populacho trens-bala, energia eólica, redes públicas de wi-fi e uma série de benesses de direito exclusiva dos de boa estirpe e com as quais a plebe rude e ignara da península ibérica, cambaleante sobre seus tamancos, não está sequer preparada para lidar. Um horror.
Nossa segunda parada foi na Itália, lar de veneráveis homens bons como Nero, Mussolini e o nosso querido Berlusconi. Lá tivemos que nos misturar ao repulsivo populacho mediterrâneo, com seus batedores de carteira e mulheres de índole duvidosa, para ver não apenas os monumentos da antiga e saudosa Roma – onde , alvíssaras, senhores e escravos sabiam o seu lugar – mas grande obras do século passado, como o Monumento a Vittorio Emanuele II, pelo qual tenho especial predileção. É pena que, embora os italianos tenham aprendido a votar, deixando de lado as ilusões armadas, o abominável socialismo e o patético PCI e escolhendo uma figura séria e íntegra como Berlusca, continuem uma absoluta negação na cozinha – embora insistam em fazer risotos, pastas e pratos exóticos como coda alla vacinara, que não passa da horrorosa rabada, tão apreciada pelos botocudos tupiniquins, mas com molho de tomate no lugar da batata e agrião. Culinária, definitivamente, não é com eles. A verdade é que nem um simples sorvete os coitados sabem fazer – nossa sorte é que a Kibon já chegou ao país, em modernas vending machines, permitindo que provemos do verdadeiro gelato.
Em seguida fomos à Irlanda, desgovernado rincão de rebeldes. Um céu absolutamente nublado e uma chuvinha leve e gelada nos recebeu, com os termômetros marcando 8C. Infelizmente, esse clima austero e inspirador logo foi substituído por um sol totalmente fora de hora e lugar, que nos fez ficar escandalizados com a mania do populacho de deitar sobre as gramas dos parques, antes reservadas aos cães e às raposas. É preciso que a Coroa Inglesa retome com vigor o poder nesse país de beberrões, que ao invés de trabalharem para aumentar o lucro dos capitalistas ficam em pubs duvidosos se encharcando de Forster lager, Smithswick ale e, sobretudo, da abominável Guiness stout, enquanto beliscam acepipes duvidosos como cozidos de carneiro e o deplorável fish’n’chips. De minha parte, a única bebida que ingeri nos quatro dias em tal terra depravada foi o chá das cinco - sem açúcar, naturalmente.
Depois voamos – em nosso jato particular, é claro; quem dizer que foi no mercado persa aéreo chamado Ryanair está mentindo – até Praga, onde confraternizamos com nossos amigos norte-americanos – num McDonald, é claro, pois o sábio patriotismo ianque faz com que eles voem milhares e milhares de quilômetros para conhecer outros países, mas ignorem a culinária local e continuem freqüentando o T.G.I. Fridays, o KFC Chicken e o Burger King.
Tirando o delicioso Big Mac que deglutimos, Praga foi decepcionante em muitos aspectos. Sabemos que circulou, no submundo da internet, acompanhada da fotografia que ilustra este post -tirada evidentemente por um paparazzo trêmulo e escondido, quiçá bêbado -, uma versão de que fomos vistos no nefasto ambiente de um pub tcheco deglutindo um descomunal joelho de porco grelhado, preso por torniquetes e acompanhado por litros e litros de cerveja. Trata-se, evidentemente, de uma grosseira montagem patrocinada pelo photoshop lulopetista, pois jamais provaríamos a carne de tal repulsivo animal nem, tampouco, nos deixaríamos seduzir pelos tanques de Pilsner Urquell não pasteurizada, abominável liquido entorpecente que faz a alegria das classes bebedoras de Praga. Os amigos próximos sabem que o máximo que nos permitimos de luxúria alimentar, duas ou três vezes ao ano, são finas fatias de ricota com uma garafinha de água tônica.
Ainda mais absurda é a versão de que teríamos passados os dias em Praga fornicando com moçoilas tchecas, pobres criaturas desprovidas de beleza e sensualidade – sejam loiras de pele rosada e olhos claros ou morenas de tipo eslavo, com pele branca e cabelos muito negros, ambas desconhecedoras do que seja sex appeal. Nada poderia ser mais falso do que tal boato. Não só porque, como já dizia Nelson Rodrigues, “sexo é para operário”, mas porque mantivemos, nos dias passados naquela desinteressante cidade, o rigor de nosso jejum sexual, eventualmente recorrendo a instrumentos de autopunição como forma de reprimir eventuais apelos carnais, como recomendam a TFP e o dr. Alquimin (que, como Sílvio Santos, vem aí – para manter São Paulo nos trilhos).
O certo é que não conseguimos entender o que tanto atrai os turistas à capital do ex-país comunista. A única coisa de que realmente gostamos lá foi o Museu da Tortura Medieval, onde vimos uma cadeira muito interessante, na qual gostaríamos de ver sentado o molusco que nos (des)governa. Tal triste referência à realidade tupiniquim nos faz lembrar de que, após uma breve passagem pela Alemanha – pátria-mãe dos homens bons, onde os trens jamais atrasam e não há escadas rolantes que dão em lugar nenhum – chega a hora de voltar ao país que tirou seu nome de uma madeira de dar em doido e no qual eu, infelizmente, tive o azar de nascer. O consolo é que o mais preparado dos brasileiros, cuja candidatura vai de vento em popa, logo assumirá o poder, nos tirando da rota rubra do neocomunismo atroz. Alvíssaras!
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