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terça-feira, 28 de julho de 2009

O “Colunismo Negativista” de Clóvis Rossi

O dia 12 de julho deveria ser decretado comemorativo para o jornalismo nacional. Nessa data, o colunista da Folha de São Paulo Clóvis Rossi surpreendeu a todos fazendo, numa mesma coluna – intitulada "No topo do mundo, mas solitários" -, não apenas uma saudação congratulatória ao Brasil mas, pasmem, um elogio explícito ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Como não poderia deixar de ser, há ironia ferina no modo como Rossi, 66 anos, saúda o ingresso do Brasil no G14: "Palmas para o Brasil, que acaba de ser lançado ao topo do mundo, o tal de G14 (por enquanto 14, mas sabe-se lá em que número vai parar)", mas ela é menos evidente nos elogios à determinação de Lula para fazer o país ingressar no grupo decisório, agora expandido, dos países mais ricos do mundo.

O duplo elogio, raríssimo – quiçá inédito – na produção diária de um colunista que é com frequência acusado de rabugice e de intransigência para com o governo federal, ocupa quase 20% do espaço da coluna (323 dos 1687 caracteres do texto). Ao final do segundo parágrafo, Rossi volta a si e, como que justificando a conjunção adversativa do título da coluna, proclama: "Chega de palmas e vamos às vaias".

O "Jornalismo do ‘mas’"
Trata-se de mais um exemplo do "jornalismo do ‘mas’", expediente recorrente na Folha de S. Paulo durante a "Era Lula", segundo o qual quando o jornal comete a ousadia de se permitir um elogio às autoridades ou ao governo, ele quase sempre é seguido de críticas que o minimizam ou contradizem. Tem ocorrido com tal frequência e até nas manchetes de capa que constitui tema potencialmente prolífico não apenas para matérias analíticas, mas para pesquisas acadêmicas de maior fôlego.

Está implícita nessa lógica do "jornalismo do ‘mas’" uma visão negativista da prática jornalística, sintetizada na famosa frase atribuída a Millôr Fernandes segundo a qual "Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos & molhados". Sob a administração do diretor de Redação Octávio Frias Filho, tal lógica tem sido levada ao paroxismo. E, embora Rossi fosse muito próximo do pai do atual publisher, Octávio Frias de Oliveira – a quem costumava chamar de "o sábio que habita esta Folha" –, ele teria se tornado, nos últimos anos, como aponta com alguma frequência o jornalista e por anos colega de trabalho Luís Nassif, o mais fiel seguidor dessa política que se baseia quase que exclusivamente na crítica negativa.

Mas as raízes da mudança de Rossi para uma postura niilista e com traços de sisudez têm motivos mais profundos e de maior dimensão histórica. Não é mera coincidência que tais mudanças tenham se tornado perceptíveis mais ou menos na época da derrocada do socialismo soviético, simbolizada pela queda do Muro de Berlim. A débâcle das esquerdas em âmbito mundial marca um ponto de inflexão na postura analítica de Rossi – suas colunas dos anos imediatamente seguintes sugerem um sentimento de rancor para com o ideário esquerdista, como se de traição pessoal se tratasse. Ao mesmo tempo, ocorre não apenas a radicalização de uma postura (a princípio saudável, quando não radicalizada, o que é o caso) de absoluto descrédito em relação às ideologias, mas também a adoção, de forma acintosa, do deboche para com elas como postura crítica recorrente.

Colunismo negativista
Não há como precisar se e a que nível o desgastante período final do regime militar e a titubeante retomada democrática também o afetaram, mas o certo é que foi durante esse longo período que se solidificou uma sua característica crítica que constitui atualmente, na minha opinião, o mais grave problema concernente ao ocupante da coluna "São Paulo", da Folha: um forte sentimento anti-Brasil (para utilizar o conceito que o notável Janio de Freitas usa para se referir à presidência de FHC) e a retroalimentação do complexo de inferioridade do país. Estes tomam forma com frequência, tanto em comparações pontuais com aspectos positivos dos países que, como repórter internacional, visita quanto na utilização recorrente da jabuticaba como metáfora para tudo que, segundo ele, só o Brasil produz – de ruim, é claro.

Utilizando de forma maniqueísta tal metáfora, desprezam-se as qualidades de um fruto a cujo sabor delicioso soma-se o prazer sensorial de espocá-la entre os dentes, antes que o rico sumo inunde o palato (para não mencionar as delícias do prazer lúdico-infantil de colher jabuticabas no pé). De forma análoga, Rossi, recorrentemente, negligencia avanços comprovados da economia e da ordem social brasileira em prol de uma visão invariável e exclusivamente negativa do país.

Tal operação baseia-se num modelo analítico no qual tem pouca ou nenhuma importância os dados da economia real ou as conquistas da sociedade civil. Ambos são relativizados através de quatro estratégias argumentativas principais:

1) A ênfase nos problemas socioeconômicos que permanecem, mesmo após eventuais
avanços (como se possível fosse reverter a brutal assimetria que caracteriza o
país no espaço de um ou dois mandatos);

2) A comparação com aspectos positivos de nações mais desenvolvidas, sem contextualização alguma;

3) A comparação entre as conquistas de determinada administração e as promessas de campanha do respectivo candidato (esta estratégia torna-se recorrente com Lula; com os governantes anteriores foi utilizada com extrema parcimônia);

4) E, sobretudo, a persistência da corrupção, este um tema obsessivo de Rossi, pois, endêmica, funciona como um álibi que lhe permite sempre criticar, e com razão, o governo – qualquer governo.

Não há como negar que se trata de quatro dos mais graves problemas do país, assim como não dá para negar que são problemas só solucionáveis a médio ou longo prazo. Além disso, não é preciso ser nenhum gênio para notar que tais critérios criam uma fixidez avaliativa que não só não permite levar em conta as alterações temporais nas conjunturas às quais está submetida determinada administração, mas impede o reconhecimento de eventuais avanços por esta alcançado.

Exemplos concretos: durante o primeiro mandato, a administração federal criou 7,5 milhões de empregos. Para Rossi, isso é avaliado negativamente, pois Lula prometera criar 10 milhões de vagas; o bolsa-família (que ele, como a maioria dos colunistas da Folha, trata pejorativamente) tirou quase 40 milhões de pessoas (11.250.623 famílias, segundo dados oficiais) da miséria ou da pobreza; para Rossi isso nada significa, pois, como repete à exaustão, o lucro do capital continua superando o lucro do trabalho. Ou seja, alhos misturados a bugalhos.

Não que tal negativismo do colunista seja voltado exclusivamente a Lula. Na “Era FHC” – sobretudo no segundo mandato – Rossi foi dos mais enfáticos críticos da administração do então presidente. Acontece que com Lula tais críticas parecem mais recorrentes e mais cheias de azedume – além de muito raramente direcionadas a outros políticos, particularmente ao governador José Serra (o que não seria de se esperar de um colunista que ocupa uma coluna intitulada “São Paulo”, mesmo sendo esta prioritariamente voltada à análise da conjuntura política nacional).

Essa ausência de parâmetros comparativos condizentes, substituídos pela supremacia do criticismo exclusivamente negativo, leva o colunista a fomentar, como já dito, um sentimento anti-Brasil e um complexo de inferioridade do brasileiro em relação ao resto do mundo. Faz, ainda, com que ele emita opiniões por vezes esdrúxulas, pois sem correspondência na realidade. Para ficar só em exemplos recentes – por conta das acusações de corrupção contra Sarney, ele afirma que o Brasil é pior do que uma república bananeira e que deve desculpas a estas por ter comparado o país com elas (coluna "É puro deboche, de 15/07); que "A África é aqui" (título da coluna de 16/07), afirmação que negligencia dados oficiais e qualquer outro parâmetro de comparação que não a alegação de o Brasil não ter, segundo ele, instituições fortes; por fim, como um último exemplo, na coluna analisada na abertura deste artigo, ele corrobora o dito de Fernando Henrique Cardoso de que o Brasil seria um país caipira, pois voltado ao próprio umbigo e com poucos participantes no fórum de Davos...

Luís Nassif, em seu blog, livre das amarras de uma propalada e questionável "ética profissional" vigente na "grande mídia" segundo a qual "colega de profissão não fala mal de colega de profissão" tem produzido, amiúde, críticas diretas aos textos de alguns colunistas, os quais disseca analiticamente, aponta contradições e contrapõe argumentos. Dora Kramer, o "professor de Deus" Alexandre Schwartsman e o colega de Rossi na Folha, Valdo Cruz, estão entre os que receberam a atenção do blogueiro. No último domingo (19/07), ele analisa a coluna que Rossi publicara naquele dia, intitulada "É proibido silenciar" e na qual, lamentando que no Brasil alegadamente não exista a cultura do "accountability" (prestação de contas) da parte de servidores públicos, evidencia o complexo de inferioridade ao qual me referi acima.

"Por que o "accountibility" demorou vinte anos para ser praticado em relação à Sarney e só se manifestou agora? E por que a Folha deu vinte anos de espaço a Sarney sem jamais tê-lo cobrado por seus atos? E por que a cobrança é apenas sobre Sarney, se todos os senadores participaram de uma lambança que tem no mínimo 14 anos?" – pergunta Nassif.

Notáveis coberturas internacionais
O talento e o currículo de Rossi são indiscutíveis quando se trata de coberturas internacionais, área em que atua há 36 dos 40 anos dedicados ao jornalismo, tanto pelo Estadão (onde foi editor-chefe) quanto pela Folha, sendo que nesta foi correspondente em Madri e em Buenos Aires (ele trabalhou ainda no Jornal do Brasil, onde exerceu outras funções). Assinou matérias de alta qualidade, como as relativas aos primeiros encontros do Fórum Econômico Mundial em Davos (Suiça) e aos atentados terroristas em Madri, em 2004 (na qual, como assinalou Carlos Chaparro em texto reproduzido no Observatório da Imprensa, "produziu uma cobertura de valiosa densidade interpretativa").

Rossi forneceu, ainda, em algumas colunas memoráveis, uma visão mais pessoal e crítica dos temas internacionais tratados, como em "Auto-retrato em corpo alheio", em que, por ocasião da Declaração sobre a Comunidade Sul-americana de Nações, em Cusco (2004), analisa a devastação social que o neoliberalismo produzira no país, ou, como voz virtualmente solitária, na corajosa analogia entre os métodos israelenses e os nazistas na coluna "Massacre no gueto de Gaza" (30/12/2008).

Sua excelência na editoria internacional – que lhe valeu o prestigioso prêmio Maria Mors Cabot em 2001 - fica uma vez mais evidente na coluna do último sábado (18/07), "Os EUA vão para o spa", em que expõe e analisa, com grande capacidade de síntese, as novas diretrizes básicas da economia norteamericana, mais voltadas à exportação do que ao consumo e com claras preocupações ecológicas.

Avaliação histórica
Mas, se o correspondente internacional tem seu nome inscrito na história do jornalismo brasileiro, é incerto como essa mesma história julgará o colunista de política Clóvis Rossi, que ao negativismo e à intransigência que de ordinário o caracterizam (manifestadas não apenas nas colunas, mas na forma agressiva com que responde a leitores que ousam questioná-lo), vem acrescentar a forma anacrônica e mais uma vez ríspida com que se relaciona com as novas mídias (que a maioria dos jornalistas de ponta reconhece como um importante fórum de debate), as quais insiste em desqualificar com afirmações preconceituosas e genéricas - que acabam por sugerir receio ou desconhecimento.

Não fosse pela coluna-exceção referida na abertura do texto, quem acompanhasse o Brasil da "Era Lula" a partir da coluna de Clóvis Rossi teria a impressão de que atravessamos um período negro da história brasileira, e não uma fase de redução substancial das desigualdades sociais – bandeira histórica da esquerda que nenhum presidente conseguiu tornar efetiva nas bases atuais -; de bom desempenho econômico reconhecido pela maioria dos economistas; de uma administração federal aprovada por 67% da população e chefiada por um presidente com 80% de aprovação pessoal, para ficar em apenas três exemplos. Como a história julgará um colunista de política que se recusa a reconhecer tais fatos, enfatizando apenas os aspectos negativos – que também são consideráveis - do governo de turno?

(Originalmente publicado no Observatório da Imprensa em 21 de julho. Fiz modificações.)

domingo, 12 de janeiro de 2014

O legado petista e a esquerda

Em artigo recente, no qual propõe uma reflexão sobre o futuro dos direitos sociais no Brasil, o filósofo Renato Janine Ribeiro alude a uma dicotomia que, às raias da campanha eleitoral, vem se consolidando no debate político do país. Trata-se da oposição entre o conservadorismo - os autointitulados "liberais", um amplo leque que reúne ex-aliados petistas, tucanos e até parte do que restou do DEM - e o petismo ora no poder, que para muitos de seus entusiastas ainda representaria a esquerda (ou centro-esquerda), por promover, via atenção ao social, uma alternativa ao neoliberalismo desbragado dos anos FHC e Collor, com destaque para as políticas de erradicação da miséria e de ascensão de cerca de 35 milhões de cidadãos à classe média.

Mas será que a relação entre esses entes políticos é, de fato, tão dicotômica quanto tais esquemas analíticos sugerem, ou oposições aparentes encobrem afinidades que os dois lados preferem camuflar? Mais: para além do desgaste conceitual de termos como "direita" e "esquerda", até que ponto, se usarmos de rigor metodológico, eles se aplicam a tais forças em oposição? Se não restam dúvidas de que os políticos que descendem da genealogia Arena/PDS/DEM têm formado, nas duas últimas décadas, em conluio com os tucanos, o núcleo duro do conservadorismo no país, isso automaticamente outorga ao petismo no poder o cetro do progressismo? Ou as sucessivas correções de rumo e guinadas conservadoras do PT de tal modo relativizam essa dicotomia que estaríamos assistindo, hoje, a um vácuo de representação no campo da esquerda?



Pobres e milionários
As políticas redistributivas implementadas em larga escala pelo PT têm se mostrado, de fato, o que de melhor os governos Lula e Dilma legam ao país, com resultados efetivos e relativamente rápidos no combate à chaga da pobreza, o pior dos males sociais gerados por séculos de negligência. Devido a relevância de seu humanismo e eficácia, trata-se de uma política que, com eventuais correções pontuais, não deveria ser abandonada no curto ou médio prazo, à revelia da coloração partidária dos futuros presidentes do país.

Sua implementação, no entanto, não se deu em consonância com a redução dos ganhos obscenos das elites historicamente responsáveis pela mencionada negligência para com o social - ou seja, através do redesenho integral da pirâmide social brasileira, de modo a torná-la, de ponta a ponta, mais justa. Pelo contrário: o que se vê são ajustes entre a base e o meio da pirâmide, à custa dos estratos médios e da dilatação do consumo causada pela própria incorporação econômica da base, num processo que, malgrado seus já citados benefícios, multiplicou os lucros do topo da pirâmide e tornou o Brasil o país que mais produz milionários no mundo. Ignorar a assimetria inerente a tal processo de combate à pobreza e tomá-lo por modelo exemplar de justiça social é tapar os olhos para os lucros extras que gera ao grande capital e aos oligopólios privados.

Essa aliança do petismo, a um tempo, com a base e o topo da pirâmide social serve de molde e metáfora tanto para a orientação de suas políticas econômicas quanto para suas alianças no âmbito da política partidária – que o digam Sarney, Collor, Calheiros, Maluf, Kátia Abreu, entre tantos outros políticos indubitavelmente associados ao conservadorismo (e à violação da ética na política). Esse duplo arranjo – e as medidas dele derivadas – relativiza, na origem, o caráter esquerdista do projeto de poder petista e evidencia a impropriedade de qualificá-lo como oposição ispsis litteris ao liberalismo.



O jogo do mercado
Mas é na seara econômica que o despropósito de tal qualificação fica ainda mais claro. Tendo recebido de Lula um governo com grande aprovação popular e, malgrado algum déficit de caixa, em situação financeira incomparavelmente melhor do que a do Brasil que FHC entregara ao primeiro presidente operário, o governo Dilma iniciou-se com o mais duro choque anticíclico de toda a era petista, um aperto fiscal de tal ordem que as de ordinário altas metas para o superávit primário deram lugar ao objetivo de zerar o déficit nominal. Mesmo economistas simpáticos ao petismo reconhecem que a reação aos revezes provocados por tal erro inicial – que, segundo Luis Nassif, quase levaram a economia à recessão – está no bojo do realinhamento das políticas macroeconômicas aos moldes desejados pelo mercado. Em decorrência dessa derrapada, encerra-se o breve ínterim durante o qual, no governo Lula, o noticiário econômico deixou de ocupar a proeminência costumeira e a encoleirar o governo.

Porém, ao promover o retorno da ortodoxia econômica como padrão orientador das politicas econômicas e, ao mesmo tempo, se recusar a regularizar a mídia em bases democráticas e de acordo com o que determina a Constituição, o governo Dilma aceitou tácita e passivamente jogar o jogo de acordo com com os parâmetros ditados pelo conluio entre mercado financeiro e mídia.



Dormindo com o inimigo
À revelia do fato de serem sustentadas pelo "critério técnico" da Secom, governistas e entusiastas continuaram a qualificar as corporações de mídia como "PIG" (Partido da Imprensa Golpista) e, num processo de autocomiseração que ora se firma como característica distintiva do petismo, a se considerarem vítimas inocentes de uma oposição midiática mancomunada com as elites. Porém, o modo deliberado como Dilma se aproximou da mídia corporativa e seu voluntarismo em resgatar a ortodoxia financeira como modelo macroeconômico fizeram com que, ao invés de vitimização, muitos enxergassem em tais gestos um movimento deliberado de aproximação para com o conservadorismo, no bojo de um processo de expansão da hegemonia do petismo em direção à direita, corroborado pelo retorno às privatizações, a subserviência ao agronegócio em detrimento dos direitos dos índios e a vista grossa para as questões de gênero em prol de pactos com o poder religioso. O sucesso dessa guinada conservadora seria atestado pelos mapas das pesquisas eleitorais pré-Jornadas de junho, com Dilma batendo recordes de aprovação em setores antes infesos ao petismo.

Mais corrobora do que desmente o caráter voluntário dessa aproximação entre Dima e o mercado a velocidade com que desistiu de baixar os pornográficos juros praticados no Brasil e, ante as primeiras acusações de Marina Silva de que gastara excessivamente, em reafirmar sua fé no tripé neoliberal de sustentação da economia, implementado pelo plano Real e composto de alto superavit primário, inflação abaixo de um dígito e câmbio flutuante. 

Tal guinada torna indistinguível, no âmbito da macroeconomia, as práticas petistas das do tucanato anteriormente no poder,  além de dissipar qualquer laivo de originalidade ou esquerdismo. O efeito se faz sentir: quem ainda acredita na oposição simplista entre a mídia e governo Dilma deveria prestar mais atenção ao comportamento dos colunistas econômicos durante os leilões do Pré-Sal ou ao fato sintomático de que, hoje, a defesa do governo Dilma na imprensa está a cargo de alguns dos jornalistas mais identificados pelos próprios petistas com o "PIG" - como Clóvis Rossi, da Folha, que, em plena batalha pré-eleitoral, foi categórico ao reafirmar o esmero de Dilma com o rigor fiscal: "o governo, supostamente irresponsável, gasta menos do que arrecada e ainda pinga 1,3% de tudo o que o país produz de bens e serviços na conta dos mais ricos e apenas 0,4% na dos pobres entre os pobres. E os ricos ainda choram."



A voz do dono
Em decorrência dessas mudanças, e sem que muitos se dessem conta, o jogo se embaralhou. Grande parte da militância petista e dos governistas, outrora tão empenhada em impulsionar o governo em direção a pautas progressistas como a disseminação da banda larga, a regularização da mídia ou a taxação das grandes fortunas, passa a se contentar em comemorar cada índice da economia: o superávit primário X, a inflação Y, os juros Z. Para isso passa a exaltar rotineiramente os mesmíssimos valores do mercado financeiro e da mídia que sempre criticara. Ou seja, sob a égide do "novo petismo", age como um torcedor fanático, jogando o jogo do grande capital para que sua legenda partidária ganhe hegemonia e poder eleitoral, à revelia das perdas ideológicas, identitárias ou programáticas.

Seja como for – e mesmo entre governistas conscientes dos danos das alianças excessivamente elásticas e da rendição à mídia e ao mercado -, resta o indefectível argumento de que os fins justificariam os meios, ou seja, de que benefícios sociais trazidos pelos petismo compensariam tais retrocessos. É um argumento a se examinar.


Direitos sociais em crise
Janine Ribeiro, no texto mencionado, intitulado "O Brasil pode dar certo?" dá a dimensão das graves lacunas sociais do país: "A Europa desenvolvida tornou realidade, na metade do século XX, direitos sociais relevantes. Ninguém precisa perder o patrimônio para ser tratado de uma doença séria, ou gastar boa parte de sua renda para se locomover. É isso o que chamo um país 'dar certo'”. Isto, para ele, corresponde "a atender à demanda da rua por transporte, educação, saúde e seguranças decentes".

Creio não ser preciso alongar o texto para constatar que, após mais de uma década sob o petismo, estamos longe, muito longe de atingir patamares básicos referentes a tais quesitos. Mesmo com a ressalva de que tal estado de coisas deriva de uma pesada herança patrimonialista, é forçoso constatar que 11 anos não são 11 dias - e que se afigura altamente questionável se a aliança entre o PT e caciques conservadores fez regredir, manteve inalterado ou expandiu a velha prática patrimonialista.



Paliativos
Reforça o parco comprometimento da administração petista com questões sociais de suma importância, caras à esquerda, o encaminhamento que o petismo tem dado a áreas como Saúde, Educação e Transportes. Em relação a esta última, fala por si a crise de mobilidade urbana, agravada pela expansão exponencial da frota de veículos patrocinada pelo crédito farto e barato e, como tal, uma das principais motivações das manifestações de junho. À revelia do marketing oficial, Saúde e Educação também apresentam graves problemas, como veremos a seguir.

Na Saúde, o Mais Médicos, longe de ser (parte de) uma política estratégica para a área, constitui um paliativo ditado pelo improviso, explorando a peculiar – e injusta – situação trabalhista dos médicos cubanos (a qual decorre, em última análise, dos efeitos do criminoso boicote imposto pelos EUA à economia da ilha). Assim como é inegável que traz benefícios à população mais pobre, não dá para ignorar o seu caráter pontual, mínimo e não sistêmico enquanto política de saúde pública. Esta, após mais de 11 anos de governo petista, permanece uma quimera, um objetivo distante cujas bases não se encontram sequer esboçadas.



Prioridade à Educação?
De modo análogo, a tão propalada expansão do ensino superior está longe de corresponder a um aumento qualitativo da educação universitária no país. O governo divulga, como se de uma grande conquista se tratasse, o fato de ter dobrado o número de universitários nas instituições federais desde 2002. No entanto, trata-se de um fato que, por si só, está longe de constituir um benefício, posto que: no mesmo período, o número de docentes contratados (que já estava em níveis baixíssimos ao final do governo FHC) tem sido percentualmente bem inferior ao de novos alunos – num processo que aponta para o risco concreto de sucateamento do sistema, posto que a proporção professor/alunos é, histórica e mundialmente, um dos pilares básicos para a qualidade do ensino e da pesquisa no âmbito das universidades.

Além dessa questão crucial, o investimento em ampliação ou na criação de novos campi não atende às demandas de tal crescimento discente, gerando situações como a da UFRB, em que os alunos foram às aulas trajados de biquíni ou sunga em protesto contra a ausência de um sistema de refrigeração, em pleno Recôncavo Baiano, seis anos após o início das obras de construção do campus. Também as bibliotecas – item essencial para o sucesso das melhores universidades do mundo – têm sido solenemente negligenciadas durante esse processo de alegada "prioridade à educação", seja nas novas universidades ou nas já existentes, com acervos incompletos, extremamente defasados e insuficientes para atender à velha demanda - o que dizer da nova. 


Pequenas divergências
O caráter não estrutural, relativo, insatisfatório, às vezes apenas cosmético dos benefícios que o petismo, após 11 anos, trouxe a áreas sociais essenciais como Educação, Saúde, Mobilidade Urbana – para não falar no imenso retrocesso reativo aos Direitos Humanos e à ecologia – faz com que hoje, após a virada conservadora do governo Dilma, haja muito mais relativa convergência do que autêntico antagonismo entre o petismo e a oposição. Ou posto de outra forma, as divergências são de ordem adjetiva, não substantiva: ambos concordam em relação à adoção do "tripé básico da economia" (, ), ambos defendem a privatização; a regularização da mídia ou a auditoria da dívida pública não está no horizonte de nenhum dos projetos. O que ocorre são divergências quantitativas: qual o ponto de regulação de juros e crédito que não tensiona a inflação?qual o nível de aumento do salário mínimo desejável? Até a desregulamentação dos encargos trabalhistas, objetivo eterno do conservadorismo, vem sendo pontual e paulatinamente adotado pelo governo petista.

Em termos político eleitorais, o principal efeito dos 11 anos de petismo é a mimetização, por este, de plataformas caras ao conservadorismo, somada, graças sobretudo aos programas de renda minima, à capacidade de manter-se (ainda) simbolicamente situado, no imaginário de uma grande parcela do eleitorado, no campo da centro-esquerda. Em decorrência, este encontra-se ora esvaziado: as eleições presidenciais de 2014 será disputada por candidatos e alianças que aceitam passivamente os principais ditames do mercado financeiro sob a égide neoliberal, no que concerne a temas fundamentais como privatização, rigor fiscal e inserção na ordem econômica mundial, entre tantos outros.



Herança
Dilma pode até ganhar as eleições, mas, após mais de uma década de petismo, a esquerda está morta no cenário eleitoral feeral, dominado pela hegemonia do liberalismo econômico em conluio com um conservadorismo moral apoiado em dogmas religiosos e que retroalimenta atrasos e preconceitos. Os prognósticos não são bons.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Lobão e o marketing cultural neocon

O irromper de uma onda conservadora na mídia tem lugar em meados dos anos 90 com o jornalismo neocon nos EUA, sob a liderança da Fox News. Logo a tendência espraia-se por boa parte do mundo e, embora ora emita sinais de crise em decorrência do papel do neoliberalismo na crise econômica mundial, no Brasil ainda teima em se manter em evidência, notadamente a partir do conluio entre a Globo de Ali Kamel, a "nova" e marcadamente ideologizada Veja e os principais diários do Sul/Sudeste.

Algumas das características distintivas dessa "modalidade jornalística" são a primazia da desqualificação sobre a argumentação, dos recortes históricos ideologicamente determinados sobre a contextualização criteriosa, de truques retóricos de seminaristas sobre o desenvolvimento dialético das análises.


Truques e esquemas
Assim, como se pode facilmente constatar folheando as publicações mencionadas ou munindo-se de paciência e prestando atenção aos comentaristas globais, sobra agressividade, juízos peremptórios e ajustes da realidade a esquemas reducionistas que negativizam o que quer que não se encaixe ao modelito neoliberal.

Em compensação, tal jornalismo carece de análises matizadas, de questionamentos que superem dicotomias reducionistas e, eventualmente, de uma saudável admissão da dúvida, mesmo porque esta muitas vezes permanece, incômoda e latente, sob o peso das certezas definitivas produzidas por tais analistas simbólicos.


Filhos de Francis
Nesse novo ambiente, o recurso desabusado a opiniões conservadoras, as mais caricaturais, torna-se uma distinção de excelência. E se antes tais excessos se limitavam a Paulo Francis e a seus imitadores menos talentosos - logo seguidos por uma plêiade de jornalistas desorientados ante a visão dos tijolos do Muro de Berlim desabando sobre as aparentes ilusões que a esquerda alimentara ao longo do século XX (caso, por exemplo, de Clóvis Rossi) -, o histrionismo retrógrado passa, na atualidade, a requisito para atrair os holofotes e as páginas da mídia.

O exemplo cabal desse jornalismo neocon é, na imprensa, o blogueiro da Veja, cuja combinação de aparente destemor, moralismo afetado e modos de bedel serve como uma luva a jovens que, à desidentificação natural com o poder – ora na mão da centro-esquerda -, aliam, muitas vezes, péssima formação cultural e agudo complexo de inferioridade, combinação perfeita para se deixarem cooptar pela retórica barata e pelo maniqueísta do "tio" de Veja, o qual uma legião idealiza.



Síndrome de Fausto
Já na TV, malgrado os esforços de Marcelo Tas e sua indignação seletiva, o personagem que melhor encarna o espírito neocon é Arnaldo Jabor, com seu ódio desmedido e democrático, voltado a Venezuela, Bolívia, Argentina, Cristina Kirchner, Lula, Dilma, sem fazer distinção.

Trata-se de alguém que claramente não acredita mais no que diz, e a sua tristeza de intelectual que se vendeu para o sistema e tem plena consciência disso é uma latência tão mal reprimida em suas falsamente escandalizadas, pseudo-cômicas performances que se impõe, epifânica, a o que quer que ele esteja dizendo, à revelia do arsenal de caretas, trejeitos e exibicionismos verbais de que lance mão.

Assim, cada aparição do "maestro epilético" (apud Emerson Luis) é sempre impregnada da tragédia de sua trajetória, de pensador exuberante e cineasta talentoso, cultuado e respeitado pelos que hoje o abominam, a triste palhaço da direita, cada vez mais previsível e monotemático – e, portanto, cada vez mais anacrônico -, sobrevivendo das sobras que a carcomida plutocracia midiática de quando em quando lhe atira.



Happening e vácuo cultural
Divulgadas hoje, as reiteradas declarações de Lobão contra os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura e os receptores de indenização pelos crimes cometidos pelo Estado ditatorial inserem-se na mesma lógica do jornalismo neocon, agora deslocada para uma atividade marqueteira na área cultural. Historicamente não se sustentam e, de tão absurdas e descoladas da realidade que são, não se credenciam – e nunca o farão, mesmo porque não é este o objetivo - para ser levadas a sério.

Tal estratagema só é bem-sucedido, é bem verdade, graças à soma de problemas estruturais do setor com as atuais fragilidades da área cultural, estas ditadas, em sua maioria, pela posição extremamente periférica que a cultura voltou a ocupar na agenda federal desde o início do governo Dilma e da recusa deste em assumir uma postura ativa, liberta das amarras ditadas pelos resquícios do neoliberalismo como orientador de políticas culturais no Brasil – do qual o modo de funcionamento das leis de incentivo que ora são o sustentáculo da quase totalidade da atividade cultural atual é o maior exemplo.



"Falem mal, mas falem de mim"
Seja como for, as declarações estapafúrdias e caricaturalmente conservadoras – além de, no caso, agressivas à verdade histórica e aos Direitos Humanos - provocam o happening e, daí, a repercussão desejada, cumprindo sua função de auto-divulgação pessoal através do escândalo.

Trata-se de um truque do qual, na música brasileira, o tropicalista Caetano Veloso é fundador e mestre, e cuja maestria ao praticá-lo só rivaliza com seu talento como compositor e cantor – mas este quesito, o talento, ainda que sempre o tivesse em doses bem mais modestas, Lobão deixou de exibir, na melhor das hipóteses, no início dos anos 90. E lá se vão duas décadas em que o ex-enfant terrible do rock nacional "sumiu", tornando-se um desconhecido para as novas gerações, que agora ele tenta conquistar com truques de marketing neocon.



Disputa acirrada
De lá para cá, portanto e para tanto, virou isso: piadinhas sobre os torturadores "que só arrancaram uma unhazinhas"; o escândalo fácil buscado, com agressividade e desrespeito pela vontade popular, a cada entrevista; o talento, decadente, reprimido sobre uma pesada carga de inautenticidade voltada a agradar a mídia corporativa.

Esta última característica é um denominador comum entre Lobão, Arnaldo Jabor e Marcelo Tas – o trio midiático que disputa com avidez, palmo a palmo, o cargo de bobo da corte da direita derrotada.


(Imagem retirada daqui)



quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A volta do "jornalismo do mas"

Ultimamente, parcela da mídia corporativa brasileira, um pouco por começar a inalar o incenso da falência, um pouco para fingir, aos ainda incautos, que pratica jornalismo equilibrado, tem procurado dissimular o ódio a Lula e a Dilma e o apoio ao tucanato e a seu candidato.

Assim, nas últimas semanas têm aparecido em setores da imprensa, com uma freqüência inaudita, artigos aparentemente justos com os fatos, e que insinuam, enfim, reconhecer méritos – esporádicos e mínimos que sejam – em uma administração federal apoiada, segundo as pesquisas, por cerca de 73% da população, em média.

O aparente equilíbrio jornalístico, porém, não resiste a um ou dois parágrafos, pois logo tem lugar o chamado “jornalismo do mas”, em que à mera menção do que possa ser positivo no governo Lula dá lugar a uma avalanche de conjunções adversativas – mas, porém, contudo, todavia, e por aí vai – que introduzem arrazoados sem razão e diabólicas diatribes na tentativa de convencer o leitor de que não é bom o país crescer, que essa história de deixar de obedecer cegamente aos EUA não vai dar certo e que o Bolsa-Família sustenta vagabundos.

Para completar, quando o jornal em questão é a Folha de S. Paulo, ao lado de uma matéria desse tipo há um box, intitulado “outro lado”, que, democraticamente, se dedica a ouvir... o mesmo lado, ou seja, os tucanos, demos e psolentos encarregados de entoar a cantilena dominante no artigo.

Na Folha, aliás, o tal “jornalismo do mas” não é novidade. Só que, no longo período em que o jornal parecia prestes a se tornar uma Veja diária – com direito a ficha falsa na capa, ataque de Frias a professores renomados, "denúncias" de Cesinha e anomalias do tipo -, essa exótica modalidade de jornalismo era de uso prioritário de seus colunistas – os quais, premidos pela necessidade de aparentar isenção, se viam, de quando em quando, obrigados a reconhecer um avanço ou outro, para logo em seguida sapecar um "no entanto" e começar a artilharia anti-Lula.

Por isso, a primeira vez que me apercebi do “jornalismo do mas” foi num artigo sobre Clóvis Rossi que escrevi para o Observatório da Imprensa e depois republiquei, com alterações, no blog. De lá para cá, tornou-se recorrente tal modalidade de apelação pseudo-jornalista, que não se restringe mais ao casmurro colunista e seus colegas que desempenham a mesma função no diário dos Frias.

Aliás, a Folha é, sem dúvida, o órgão que com mais frequência e da maneira mais deslavada tem recorrido a esse estratagema dissimulador, até para tentar convencer que à reforma gráfica recente do jornal, que tornou os infográficos ainda mais coloridos e pululantes, correspondeu uma revisão – com sinal progressista - de sua linha editorial. O que acontece, a bem da verdade, é exatamente o contrário, com colunistas mais liberais – como Paulo Nogueira Batista Jr. – tendo sido defenestrados, substituídos por imberbes colunistas de formação neocon.

O problema é que, longe dos círculos mais informados e da blogosfera de esquerda, há quem se deixe enganar pelo truque. Para meu espanto e decepção, tenho presenciado in loco tal fenômeno.

terça-feira, 9 de junho de 2009

O Colunismo Monocórdico

(Colunista da Folha exercendo com brilho seu ofício)

Ao menos desde a reforma promovida por Cláudio Abramo nos anos 70, a Folha de São Paulo passou a apresentar como uma de suas características distintivas a pluralidade opinativa. Embora a linha editorial se evidenciasse nas pautas, matérias e reportagens – e mesmo na escolha dos colunistas "da casa" –, havia espaço para uma plêiade de opiniões que cobriam virtualmente todo o espectro político-ideológico. A principal dificuldade metodológica para empreender uma pesquisa do conteúdo discursivo do jornal advinha justamente dessa tendência à pluralidade – que uns reconheciam como autêntica e efetiva, enquanto outros acusavam tratar-se de mero recurso dissimulatório para o conservadorismo do jornal e álibi para torná-lo palatável a um público mais amplo.

Essa configuração plural teve sua abrangência à esquerda paulatinamente reduzida - e tornada menos frequente - a partir de fins dos anos 90 e hoje faz parte do passado. Ora não apenas o conteúdo opinativo produzido por convidados na seção "Tendências/Debates" (pág. A3) e por não-jornalistas na página A2 tornou-se muito mais homogêneo, com amplo predomínio de representantes dos setores conservadores (em que pesem as presenças de Marina Silva e de César Benjamin), mas o próprio corpo de jornalistas responsáveis pelas colunas de opinião tem apresentado maior coesão e identificação ideológica entre si, com as honrosas exceções de Carlos Heitor Cony e, ainda com maior agudeza, de Janio de Freitas. Tal característica tem evidenciado a guinada conservadora do jornal sob o comando do diretor de redação Otavio Frias Filho, que, além de moldá-lo de acordo com sua orientação político-ideológica, vem tornando a publicação muito mais repetitiva e tendenciosa, aproximando-se temerosamente de uma certa direita raivosa até mesmo na adoção de métodos de falseamento dos fatos (como no inaceitável caso da falsa ficha policial de Dilma Roussef recebida pelo correio eletrônico e que foi publicada mesmo sem ter sua autenticidade comprovada).


Opiniões viciadas
É exemplar desse novo estado de coisas o colunismo praticado na edição da segunda-feira (01º./06), dia em que a rabujice habitual de Clóvis Rossi dá lugar à ex-grande promessa do jornalismo brasileiro Fernando de Barros e Silva. Ambos jornalistas são responsáveis por uma coluna chamada "São Paulo", mas a última coisa que o leitor vai encontrar no espaço é algo que se refira ao estado em questão, e muito menos ao governo Serra – o tema recorrente ali é a presidência de Luís Inácio Lula da Silva, sempre ferozmente criticada.

A bola da vez é, nas palavras de Barros e Silva, a "máquina de propaganda do lulismo", tema de reportagem de Fernando Rodrigues publicada pelo jornal no dia anterior (31/05), que "revelou" que o governo Lula teria adotado "uma política radical e sistemática" de aplicação da verba publicitária pública. Antes que o leitor, ante denúncia de tamanha gravidade (se é radical é grave, não é mesmo?), sinta um frio na espinha e um cheiro de falcatrua no ar, vamos aos números:
"Em 2003, a Presidência anunciava em 499 veículos; em 2009, foram 2.597 os contemplados – um aumento de 961%. Discriminada por tipo de mídia, essa explosão capilarizada da propaganda oficial irrigou primeiro as rádios (270 em 2003, 2.597 em 2008), depois os jornais (de 179 para 1.273) e a seguir o que é catalogado como `outras mídias´, entre elas a internet, com 1.046 beneficiadas em 2008”.
Repare o leitor que não há um pio quanto ao volume de capital destinado à publicidade governamental; o aumento é horizontal, ou seja, a verba foi distribuída a um número maior de órgãos, promovendo uma louvável desconcentração de recursos publicitários. Um escândalo, sem dúvida...

Ao instituir tal regionalização e democratização da publicidade estatal, o governo, na visão do colunista, "promove um arrastão e vai comprando a mídia de segundo e terceiro escalões como nunca antes neste país". Não se tem notícia de esperneio semelhante de Barros e Silva quando o governo Fernando Henrique Cardoso enchia as burras da Folha de São Paulo, e tampouco ocorreu, mesmo ao mais mal intencionado dos analistas, confundir aplicação de verbas publicitárias com compra do jornal ou transformação deste em órgão chapa-branca.

Mas ao analisar a mídia alheia, Barros e Silva faz uso de dois pesos e duas medidas (repare no estilo policialesco, como se descrevesse uma atividade criminosa, que o colunista uma vez considerado um dos melhores textos e um dos analistas mais argutos em atividade, no afã de agradar ao patrão, não demonstra o mínimo pudor em adotar):

"No subsolo do poder a engrenagem montada pelo ministro Franklin Martins se encarrega de alimentar a rede chapa-branca na base de verbas publicitárias. É o Bolsa-Mídia do governo Lula".

A ilação maliciosa entre a política publicitária do governo e seu programa de distribuição de renda é reveladora do elitismo intransigente de uma certa imprensa – da qual a Folha compõe a linha de frente – que primeiro rejeitou o programa, apelidando-o de forma pejorativa (“Bolsa-Esmola”), para, quando ele passou a ser internacionalmente saudado, passar a analisá-lo exclusivamente como medida eleitoreira.

Somada à menção gratuita e leviana – pois sem comprovação – do papel que tais verbas publicitárias teriam no "governismo subalterno de certos blogs que o lulismo pariu por aí", o texto evidencia a incapacidade (ana)crônica dos colunistas da Folha para entender dois fenômenos do Brasil atual: o governo Lula e o ativismo político na internet. Trata-se de deficiência a um tempo significativa e perigosa para o próprio jornal, pois sua posição ante tais fenômenos afigura-se fundamental para entender sua crescente perda de credibilidade e sua vertiginosa queda nas vendas.

Assim, nem a o que restou de categoria no texto de Barros e Silva consegue disfarçar o óbvio: por trás da adjetivação pesada e da argumentação tortuosa não se esconde fato escandaloso algum, mas apenas interesses empresariais contrariados – no caso, do próprio Grupo Folha. Tais artifícios não passam, portanto, de cortina de fumaça para um queixume disfarçado de indignação cívica, um esperneio de um grande grupo de mídia que não aceita ser preterido na distribuição de verbas publicitárias federais. Que colunistas aluguem seu espaço de opinião alegadamente autônoma para tal chilique corporativo é revelador do grau de contágio que a decadência moral da outrora prestigiada redação do diário paulista ora apresenta.


A culpa é do marketing

Fernando Rodrigues, em coluna logo abaixo da de Barros e Silva, vai mais longe (você pode ler as colunas dos dois fernandos aqui, ao final dó ótimo texto que Luiz Antonio Magalhães fez publicar sobre o assunto). Para o jornalista da Folha:

"A resiliência inaudita do petista não surge por geração espontânea. Tampouco é fruto apenas da capacidade de comunicação do ex-sindicalista. Tudo é resultado de uma complexa estratégia de marketing [grifos meus]. O governo brasileiro pré-PT sempre foi o maior anunciante do país. Agora, sob Lula, elevou essa condição ao paroxismo. Chega sozinho a 5.297 veículos de mídia impressa e eletrônica. O sabão em pó Omo ou políticos de oposição, por enquanto, não são páreo para Lula."

O leitor atento nota que, no texto dos dois fernandos, não há nenhum questionamento relativo ao montante de verbas empregado pelo governo, sendo que Rodrigues tem a correção de reconhecer que o governo federal sempre foi o maior aplicador de verbas publicitárias no país – embora, ao contrário do que afirma, não haja "paroxismo" algum na ação do atual governo, que ao horizontalizar a distribuição e verbas promove, pela primeira vez em âmbito federal, a alteração de um modelo concentrador e responsável por desigualdades regionais graves no campo da comunicação.

O truque das duas colunas advém justamente de tal confusão: mistura volume de verba com número de veículos contemplados por tal verba como forma de atribuir ao marketing do governo – e exclusivamente a ele, como a frase grifada do texto de Rodrigues evidencia – o sucesso da administração Lula. Tal raciocínio suspende o julgamento de seu governo, de seus méritos e pontos críticos, em prol (sic) de um subtexto óbvio: você, (e)leitor que simpatiza com o governo Lula, é um idiota que se deixa ludibriar por propaganda oficial feita com dinheiro público.

Colunismo a serviço do patrão

Depois de tantos factóides políticos que resultaram inócuos e da contra-reação espetacular da Petrobrás ao criar um blog para defender-se da artilharia tucano-midiática (desculpe, leitor, o pleonasmo), parece por ora restar aos críticos sistemáticos do governo na imprensa pouco mais do que essa falaciosa operação discursiva, que finge desconhecer que a principal mídia do país, e a única que atinge todas as classes sociais, etárias e regionais – a TV Globo – não pode ser arrolada como órgão chapa-branca por conta do agrado das verbas federais. Aliás, muito pelo contrário.

Ler as duas colunas aqui comentadas e comparar o seu conteúdo aos fatos que criticam é deparar-se com um tipo de jornalismo que distorce os fatos de uma maneira tão deliberada que fica patente a despreocupação não somente em respeitar a inteligência do leitor, mas em preservar a própria respeitabilidade como jornalista (assim como a do órgão em que trabalham, se este ainda a tivesse).

A esse colunismo desonesto, elitista e em descompasso com a dinâmica do país faria muito bem a capacidade de observação sociológica em relação à popularidade de Lula demonstrada pelo jornalista Leandro Fortes em texto fundamental sobre a polêmica do terceiro mandato (publicado originalmente em seu blog, que infelizmente não oferece hiperlink). Ele assinala que:

"Luiz Inácio conseguiu estabelecer com o eleitorado uma ponte de comunicação praticamente imune aos ruídos da mídia (...) Lula fala a língua da distribuição de renda, da segurança alimentar e da identidade nacional. De certa forma, conseguiu converter em ganho eleitoral todos os males a ele atribuídos pela zelosa elite intelectual e econômica brasileira, da falta de educação formal à aparência física".

Tudo isso, de acordo com os colunistas da Folha de São Paulo, graças às verbas pulverizadas da publicidade oficial...

(Este texto foi originalmente publicado n’Observatório da Imprensa em 04/06/09. Fiz algumas modificações).
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P.S. Na segunda-feira (08/06), dia de menor circulação de jornais, a Folha abriu espaço para que o ministro-chefe da Secom, Franklin Martins, se manifestasse sobre o assunto (íntegra do texto aqui). Sua linha argumentativa coincide, em alguns pontos, com a do texto acima, acrescentando informações relevantes, sobretudo a de que apenas 10% da verba publicitária federal são utilizados para publicidade institucional direta (leia abaixo). Destacaria os seguintes trechos:

“[Do total de verbas], 70% são investidos por empresas estatais, que não fazem publicidade do governo, mas de seus produtos e serviços, para competir com companhias privadas. Além disso, os ministérios e autarquias, que respondem por 20% da verba publicitária federal, não podem fazer propaganda institucional, só campanhas de utilidade pública (vacinação, educação de trânsito, direitos humanos etc.). Apenas a Secom está autorizada a fazer publicidade institucional. Para esse fim, seu orçamento é igual ao do governo anterior (cerca de R$ 105 milhões)”

"Não houve aumento de verbas. O que mudou foi a política (...) Esses critérios técnicos, amplamente discutidos com o TCU e entidades do setor, têm favorecido a democratização, a transparência e a eficiência nos investimentos de publicidade do governo federal. Não há privilégios nem perseguições. Tampouco zonas de sombra. Muito menos compra de consciências.”

O texto de Martins deve ser lido, questionado e criticado. Merece destaque, porém, seu destemor em justificar a estratégia de marketing oficial através da abordagem de assuntos-tabus na FSP, como a queda das vendas dos grandes jornais em comparação com o aumento da venda dos jornais interioranos e populares e o crescimento da internet como mercado publicitário. Assim, é claro, Martins acaba por desnudar a distorção deliberada do sentido dos fatos empreendida por dois colunistas que, embora alegadamente tenham independência opinativa, preferem defender os interesses econômicos da empresa em que trabalham.