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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

6 aforismos sobre o caso Battisti

Mentem vergonhosamente os que afirmam que vigorava o Estado Democrático de Direito na Itália dos anos 70. Como atesta a Anistia Internacional, o Estado de Exceção que vigorou no país naquele período instituiu práticas equivalentes às da ditadura no Brasil, como tortura a granel e julgamentos baseados em ritos sumários – além de ter sido instrumentalizado politicamente como meio de perseguição a dezenas de milhares de cidadãos cujo único crime era ser de oposição. Mas quem quer continuar a acreditar que um Estado cujas leis autorizavam um limite para a prisão preventiva de 12 anos era democrático, fique à vontade. A auto-ilusão, esta sim, é democrática.


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O comportamento da mídia brasileira no caso Battisti é particularmente suspeito. Poucas vezes se mentiu tanto – reafirmando tais mentiras para que em verdade se tornassem, como apregoou um certo demiurgo nazista. A histeria anti-Battisti atingiu um ponto tal que até blogueiros que militam pela não-extradição foram silenciados por hackers. É importante que todos saibam o porquê desse fanatismo da mídia – Veja à frente – e exatamente quais interesses eles satisfazem.


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Caso Lula não impeça a extradição de Battisti para a Itália estará colaborando para a consumação de um perigoso precedente, pois a reabertura da temporada de caça às bruxas dos anos 70 pelo governo do bufão Silvio Berlusconi pode vir a ser imitada por outros governantes, e se alastrar no bojo de uma eventual “onda eleitoral direitista” – que é uma possibilidade potencial na Europa atual, mas da qual o Brasil não está livre.


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A eventual deportação de Battisti produziria também uma mácula nos Direitos Humanos em âmbito transnacional, pois claro está que a prisão perpétua é praticamente certa, e indisfarçadamente em condições psicológicas ameaçadoras – incluindo tortura e ameaça de morte. Isso em pleno século XXI.


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Os danos à imagem do Brasil no exterior não se restringirão a um abalo no arquétipo de terra acolhedora de estrangeiros e propícia à boa convivência, nem aos efeitos de declarações compreensivelmente ressentidas de intelectuais de peso – como Antonio Negri. O desrespeito à dignidade humana que a possível deportação implica depõe contra o estágio da Justiça do Brasil, num momento de projeção e afirmação do país em âmbito global.


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Há uma contradição evidente – mas que não se dá a ver à primeira vista – entre o fato de a esquerda brasileira querer, com razão, a punição aos torturadores do regime militar mas pouco se mobilizar quando um preso político de outro país está prestes a ser torturado por um delito cometido em nome da luta política. Não se trata de comportamento inusual: essa mesma esquerda se mobilizou em peso para denunciar a tortura quando aplicada a presos políticos; mas agora, quando tais "métodos investigativos" continuam sendo rotineiramente utillizados contra presos comuns, excetuando ações pontuais como a do grupo Tortura Nunca Mais, se cala.

sábado, 14 de novembro de 2009

Imprensa: apagão ou desabamento ético?

Um blecaute que abrangeu dois países e 18 estados brasileiros, durando, em média, mais de três horas, é um acontecimento grave, preocupante. Tentar negar isso, como muitos entusiastas do governo de Luís Inácio Lula da Silva fazem, significa incorrer no mais potencialmente perigoso dos erros políticos: o da auto-ilusão.

O fato de o evento ser relevante não permite equipará-lo, no entanto, como a “grande mídia” em peso vem fazendo, ao chamado “apagão” que teve lugar durante a Presidência de Fernando Henrique Cardoso. Essa impossibilidade dá-se pelo caráter episódico, acidental da falta de luz da última terça-feira, que, ao contrário do que ocorrera durante o mandato do peessedebista, não se liga a um déficit estrutural no fornecimento de energia - como os dados oficiais o demonstram - nem demanda um rigoroso racionamento para evitar colapso do sistema, como o que então foi imposto à população brasileira.

Perpassado por uma euforia que mal se disfarça, o comportamento da mídia, porém, utilizando rápida e repetidamente o pregnante substantivo “apagão” para designar um episódio isolado, produzindo à mancheia manchetes que vocalizam acriticamente o pensamento da oposição, e procurando atribuir culpas a uma ministra responsável pela Casa Civil (função na qual não pode nem deve responder pela área de Energia) não condiz minimamente com a função da imprensa.


Imprensa age como partido político
Embora muitos hoje hesitem em acreditar, houve um tempo em que tal instituição preservava um certo interesse investigativo e ao menos a necessidade de aparentar neutralidade - embora, como parte do sistema capitalista tanto no âmbito estrutural quanto superestrutural, já servisse a interesses escusos os mais variados. Se agisse como em seus bons momentos de outrora. a imprensa constataria que a explicação de que o blecaute foi causado pela coincidência infeliz de três raios em áreas mais ou menos próximas umas das outras na estação de Itaberá (SP), embora não deva ser aceita acriticamente - e afigure-se, segundo o senso comum, absurda como hipótese -, tem explicações técnicas e evidências físicas consistentes a sustentá-la e que, segundo o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp, “Nenhum sistema do mundo é planejado e dimensionado para este tipo de ocorrência, é muito antieconômico pela baixa probabilidade de acontecer”.

Caso resolvesse cumprir seu papel e não agir como partido político, a imprensa poderia se interessar também pela hipótese de que o blecaute teria sido um ato de sabotagem com fins eleitorais e que teria ocorrido boicote na recusa em ligar o sistema anti-blecaute paulista. Por fim, se atrás da verdade dos fatos estivesse é mister constatar que a mídia teria então de se interessar até mesmo por sua própria – e suspeitíssima – mobilização pré-blecaute, curiosidade que seria, sabemos, uma impossibilidade.

Talvez o leitor possa estar agora pensando: isso tudo cheira à teoria da conspiração. Pode ser, meu caro, pode ser, mas uma das funções precípuas da imprensa é precisamente investigar os fatos para impedir a divulgação de versões falsas e tendenciosas (não que as hipóteses acima arroladas necessariamente o sejam).


Dois pesos, duas medidas
Três dias depois do blecaute, por volta das 22 horas da sexta-feira, um acidente de grandes proporções tem lugar no Rodoanel, a obra paulista que levou anos para ficar pronta e sobre a qual, segundo o Tribunal de Contas da União, pairam indícios de superfaturamento. Três vigas de 80 toneladas e 40 metros de comprimento cada uma desabam (e uma quarta fica pendente), fazendo a pista ceder, interditando por quase doze horas a rodovia Régis Bittencourt, atingindo vários carros e deixando alegadamente três pessoas feridas (número que eu coloco sob suspeita). De qualquer forma, as conseqüências foram muito menos desastrosas do que poderiam ser se o tráfico fosse intenso no trecho na hora do acidente, como é freqüente ao final da tarde e nas vésperas de feriado.

Trata-se do segundo desabamento de grandes proporções em uma obra do atual governo paulista (o primeiro deu-se nas obras da estação Pinheiros do metrô, resultando em ao menos 7 vítimas fatais). Como reage a imprensa? Após uma demora inexplicável para noticiar um fato sobre o qual já se conheciam detalhes nas redes sociais da internet, oferece uma ou outra manchete pouco informativa, numa cobertura incomparavelmente menos crítica e pouquíssimo curiosa se comparada àquela concedida ao blecaute três dias antes.

No início da tarde do dia seguinte, enquanto os destaques noticiosos do portal Terra fingiam desconhecer o assunto, a inacreditável manchete do portal UOL era: “Petistas usam acidente para atacar José Serra” - ou seja, além de negligenciar informações sobre um acidente em relação ao qual paira uma série de questões não respondidas, promove-se uma total reversão de valores, em que o mandatário que deveria estar sendo questionado sobre o segundo desabamento grave em seu governo passa a ser a vítima, e seus opositores os algozes. É o cúmulo da manipulação "jornalística"!

Já no portal Yahoo!,o destaque era, inicialmente, “Vítimas de desabamento passam bem e Régis é liberada”- o que poderia até ser uma manchete passável, se o padrão de velocidade de cobertura da imprensa brasileira fosse este e ela tivesse, nos dias que se seguiram ao blecaute, soltado ao menos uma manchete como “Energia elétrica é restabelecida e país volta à normalidade”. Mas o Yahoo! iria mais longe, e enquanto referências ao desabamento no Rodoanel desapareciam da sua grade com as 10 principais notícias, o portal logo substituiria a manchete quase passável por outra: “Governo trabalha para preservar Dilma após apagão”. Sobre Serra, menos de 24 horas após um grave acidente numa obra sob responsabilidade do estado em que governa, nenhuma palavra.


Mídia alimenta polarização
Como afirmei no post anterior, considero esse fla-flu Lula vs. FHC, PSDB vs. PT empobrecedor. É algo que tolhe o debate sobre as potencialidades do país e suas múltiplas possibilidades políticas, estéticas e culturais. Mas ante tamanha assimetria de tratamento de fatos pela mídia, com claros propósitos eleitorais, fica impossível abordar assunto outro além da atuação de nossa desacreditada e aparentemente incorrigível imprensa, entidade em franca decadência e que só faz açular a nefasta dicotomia referida no início do parágrafo, obrigando os cidadãos e cidadãs de bem a valerem-se da democratização da comunicação possibilitada pela internet para demonstrar que não são tontos e reagir ante tamanha manipulação de fatos.


(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Erundina e a Justiça no Brasil

Luiza Erundina é uma das figuras públicas mais injustiçadas da história da política brasileira.

Nas eleições à Prefeitura de São Paulo, em 1988, a mídia moveu-lhe pesada campanha antes, durante e depois de sua gestão à frente do mais alto cargo ocupado por essa assistente social que iniciou sua militância política nas míticas Ligas Camponesas de Francisco Julião e foi, por isso, perseguida pela ditadura.

Primeiro os jornais manipularam descaradamente as pesquisas pré-eleitorais até quando puderam: as últimas parciais divulgadas apontavam vitória de Paulo Maluf por margem razoável – mas nas urnas, três dias depois, refletindo o sentimento que pulsava nas ruas, a então candidata petista venceria por uma diferença ainda maior de votos. A imprensa fez que não era com ela, o Judiciário idem, e ficou por isso mesmo.

Para desespero do conservadorismo paulista e da mídia corporativa - sua porta-voz -, um partido de esquerda assomava à Prefeitura da maior cidade do país pela primeira vez após a ditadura. Tais forças incumbiram-se da tarefa de tudo fazer para desestabilizá-la.


A Prefeitura de São Paulo

Acompanhei a gestão Erundina muito de perto. Morei na cidade durante 3 dos 4 anos em que ela esteve à frente da Prefeitura, utilizando regularmente - assim como uma das minhas irmãs - o sistema público de transporte, cujas empresas inicialmente a boicotaram de todas as maneiras e depois, enquadradas, foram obrigadas a oferecer o melhor serviço de ônibus que a cidade teve nas duas últimas décadas (vingaram-se rodando de madrugada com os coletivos vazios, de forma a fazer a Prefeitura – que passou a pagar por quilômetro rodado – encher-lhes as burras).

Minha mãe era professora primária municipal, e forneceu-me provas irrefutáveis de que a Educação, que tinha como Secretário Municipal ninguém menos do que Paulo Freire, foi de fato tratada como prioridade, como nunca mais seria: estruturou-se o Plano de Carreira – uma reivindicação velha de décadas -, permitindo que os bons professores progredissem na estrutura organizacional; foram aumentados substancialmente seus salários (bem como os dos funcionários), que pela primeira vez superaram os da rede estadual; e, o mais importante, aprimorou-se substancialmente a qualidade do ensino (oferecendo cursos de aprimoramento aos professores, distribuindo em definitivo farto material didático e garantindo a presença de uma Coordenadora Pedagógica em todos os turnos); do uniforme (2 jogos completos distribuídos gratuitamente) e da merenda (que, ao contrário dos arremedos de lanche oferecidos pelas administrações subseqüentes, era composto de uma refeição completa – incluindo suco e sobremesa -, mais um lanche com leite e bolachas ao final do turno).

Além dissso, os chamados MOVAs - Movimentos de Alfabetização, baseados no método internacionalmente reconhecido desenvolvido por Freire, promoveram instrução massiva a adultos de forma inédita em âmbito municipal.

Também a gestão de Marilena Chauí à frente da Secretaria de Cultura não pode ser considerada menos do que brilhante. Levou, pela primeira vez na história da cidade, arte à periferia, montando programações anuais completas. A utilização de parques municipais para programações artísticas foi otimizada, e locais originalmente a elas destinados – destacadamente o Centro Cultural São Paulo, no Paraíso, hoje periférico na ordem cultural da cidade – ferviam de atrações gratuitas ou a preços simbólicos. (Lembro de lá ter assistido, pela primeira vez, a um filme de Nelson Pereira dos Santos, cineasta que seria, anos depois, objeto de estudo recorrente em minha vida acadêmica e sobre quem dirigi um documentário. Na fila à minha frente, muito baixinha, Regina Duarte, então considerada de esquerda...).

Nunca depois desse período foi dada a oportunidade à população paulistana em geral de assistir a tantas peças de teatro (arte que hoje tem preços proibitivos ao cidadão comum), nem oferecida uma interação tão azeitada entre produção acadêmica e universo cultural, com palestras e congressos memoráveis.

Na área da saúde, os avanços foram inegáveis: os postos passaram a funcionar no horário devido e com a equipe completa, acrescida de fonoaudiólogos e neurologistas; consulta e tratamento dentário regulares a estudantes da rede pública tornaram-se um fato cotidiano, e não uma quimera prevista na letra morta da lei.


Distorções midiáticas
Mas não é essa a imagem da administração Erundina legada à posteridade. Numa época em que não havia a internet para produzir contraposições ao enfoque adotado pela mídia corporativa, a prefeita sofreu uma campanha implacável, liderada pela Folha de São Paulo. O foco era exclusivamente negativista. A dissociação entre fato e notícia era total e a manipulação evidente a qualquer pessoa com senso crítico.

Pode-se ponderar que uma ou outra tese acadêmica escondida numa biblioteca universitária qualquer desmente essa distorção grosseira – mas quantas pessoas têm acesso a tais trabalhos? Muito me entristeceu constatar, anos depois, em conversa com um então professor que considero um dos maiores intelectuais brasileiros, com mais de uma dezena de livros publicados, que essa visão distorcida da administração Erundina prevalece, até fora do estado de São Paulo e mesmo entre pessoas progressistas - evidência que se corroboraria repetidas vezes nos anos seguintes.


Avis rara

O próprio PT, sempre titubiante em relação à auto-imagem, acabaria por introjetar tais críticas, delas se valendo para justificar o pragmatismo eleitoral do tratamento dispensado a Erundina. Num processo desgastante, o partido primeiro a suspendeu pelo período de um ano, "de todos os deveres e direitos partidários" por ela ter aceitado o cargo de ministra-chefe da Secretaria de Administração Federal na Presidência Itamar Franco, em 1993. Quatro anos depois, logo após ter sido abandonada por setores do PT nas eleições municipais de 1997 (o que facilitou sobremaneira a vitória do candidato que viria a ser o pior prefeito da história de São Paulo, Celso Pitta), ela deixa o partido e ingressa no PSB.

A saída de Erundina marca um dos pontos mais baixos da história do PT e um erro crasso - como o próprio partido acabaria por admitir, nas várias e malfadadas tentativas de aproximação que tiveram lugar nos últimos anos. Resultou na perda de um quadro político do mais alto gabarito e eticamente inatacável.

Palpável à época, o ódio contra a paraibana Erundina vem não apenas do preconceito de classe, mas do machismo e, talvez sobretudo, do preconceito contra nordestinos – que foram úteis à cidade quando, em posições subalternas, ajudaram a construí-la, mas agora são tratados como câncrios a importunar a paulistanidade. Justiça poética, são justamente esses segmentos populacionais que têm garantido a Erundina votações expressivas nas sucessivas eleições à Câmara Federal, onde sua atuação como deputada tem sido reiteradamente reconhecida e premiada por ONGs e por comitês de jornalistas.

Mas, nas duas vezes que concorreu novamente à Prefeitura, seu eleitorado – em que também se destacam militantes socialistas, setores da juventude de esquerda e a velha guarda do professorado municipal - não foi suficiente para elegê-la. Isso se deve, notadamente, à divisão da esquerda patrocinada pelo PT. Nesse processo, não bastasse a cerrada oposição da direita corporativa, até Marta Suplicy, com a arrogância típica que a impede de realizar voos mais altos, destratou grosseiramente Luiza Erundina na campanha eleitoral à Prefeitura, em 2004. Ainda assim, a candidata do PSB não hesitou em apoiar a petista no segundo turno, demonstrando, uma vez mais, sua retidão de caráter e sua coerência ideológica.


Condenação absurda
Agora, aos 75 anos, essa avis rara da vida nacional – um dos poucos interlocutores com os quais se pode conversar olhos nos olhos, certo de que franqueza e sabedoria se receberá em troca -, enfrenta um duro e inesperado desafio, na forma de uma condenação judicial que a obriga ao pagamento de inacreditáveis R$350 mil.

Seu pecado? Numa época em que os jornais e TVs vetavam-lhe acesso e que a direita praticamente monopolizava as administrações municipais e estaduais, com livre divulgação de suas posições políticas, ter publicado material comunicacional divulgando que a a Prefeitura de São Paulo, como instituição - e não ela, Erundina - apoiava a greve geral convocada pelas centrais sindicais. Ou seja, por uma prática rotineira nos âmbitos municipal, estadual e federal, que tem lugar cada vez que Lula utiliza a radiodifusão pública para expressar a posição da Presidência sobre determinado fato político ou cada vez que Serra utiliza-se do porta-voz - que é sustentado por dinheiro público - para condenar, por exemplo, a atuação do Banco Central em relação ao câmbio. Que, como observa André Borges Lopes em comentário que você, caro(a) leitor(a), pode ler aqui (clique em "Leia Mais", ao final do post), a situação político-comunicacional da época fosse particularmente peculiar, é um dado que só torna a condenação mais absurda.

Para pagar essa dívida, foi penhorado seu único apartamento, seu carro e imposto um desconto mensal a seu salário – mas, ainda assim, a quantia arrecada é insuficiente, e entidades e amigos mobilizam-se para ajudá-la. Foi aberta uma conta bancária para arrecadar contribuições: Banco do Brasil, agência 4884-4, conta corrente 2009-5, em nome de “Luiza apoio você”.

Como parte dessa movimentação, ontem à noite teve lugar um jantar de desagravo a Erundina, voltado à arrecadação de fundos para ajudá-la a honrar a dívida judicial. O evento - ao qual, infelizmente, não pude comparecer - foi, como reporta Luís Nassif, um enorme sucesso, com lotação esgotada, o que prova o reconhecimento e o carinho que a homenageada fez por merecer.

Mas essa revoltante punição a uma cidadã honesta e coerente, que passou a vida dedicando-se à construção de um país melhor, enquanto tantos pistoleiros, bandidos políticos da pior espécie, continuam impunes, é um retrato acabado do absurdo chamado Brasil.



(Foto, da autoria de Antonio Cruz, retirada daqui)

domingo, 8 de novembro de 2009

Uniban e a urgência da questão de gêneros

O ensino privado superior, no Brasil, se transformou há tempos em big business. Seus prédios pós-modernos, multicoloridos, que se assemelham a shopping centers, são fachada para transações escusas: compra-se a alma ansiosa de milhões de jovens, ávidos pelo ticket de entrada na ordem dos bípedes com formação superior: um papel pintado que atende pela alcunha de diploma universitário; vende-se um ensino de qualidade risível, na forma de aulas-espetáculo. De lambuja, a confusão de matrículas trancadas, mensalidades atrasadas, bolsas de isenção y otras cositas más abre espaço para uma série de manobras contábeis, incluída, majestosa no carro-chefe, a lavagem de dinheiro.

Assim, naturalmente, esses shopping centers – digo, essas respeitosas entidades de ensino superior – estão, no mais das vezes, nas mãos de uma fauna peculiar, afeita a tais alpistes: bicheiros, mafiosos em geral, figurões da extrema-direita. Não por acaso, o elo comum entre várias dessas figuras é um certo político paulista, sempre às voltas com a Justiça, e que, segundo o dito popular, “rouba mas faz”.

Essa pouca-vergonha, que se multiplicou exponencialmente durante a desastrosa gestão de Paulo Renato no MEC, continuou a todo vapor no atual governo, e açulada então pela transferência de fundos públicos à iniciativa privada que é o ProUni. Este assunto não comporta, portanto, o fla-flu político-ideológico e a decorrente atmosfera de turba que tem empobrecido sobremaneira o debate: FHC e Lula dividem a culpa pelo desastre.

Atmosfera de turba, aliás, foi precisamente o que se verificou à entrada de Geisy Arruda, toda-toda de ultraminisaia, nos corredores da Uniban – e quem pensa que o embate político-ideológico citado acima e a reação enfurecida dos universitários não se relaciona, talvez devesse refletir melhor: são ambos manifestações de um estágio pré-fascista, em que a intolerância para com o discordante se manifesta em intransigência e agressividade.

Pela intransigência também prima a reação da mercearia de diplomas que atende pelo nome de Uniban. Com a desculpa caracteristicamente fascista de que “a educação se faz com atitude e não com complacência” (e eu que sempre pensei que se fizesse com conteúdo e ética...), pune a vítima e não os agressores, tendo o desplante de dar um puxão de orelhas na mídia por ter, segundo a universidade (sic), perdido a oportunidade de realizar um debate "sério e equilibrado". O comunicado, travestido de anúncio de decisão punitiva, em ode ao linchamento moral se torna ao afirmar que “a atitude provocativa da aluna resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar”.

Provocativa? Reconheçamos: Geisy Arruda é gostosa. Não possui, é fato, aquele tipo de beleza física que a mídia definiu como padrão – mas, materialista como ela só, esta entidade decrépita tem uma visão muito peculiar e distanciada da realidade do que sejam sexo e amor: concebe o primeiro como uma espécie de ginástica aeróbica localizada - para a qual fornece, inclusive, mapas detalhados - e o segundo como uma trama sentimental de boas maneiras e promessas de felicidade constante. Exagera no açúcar.

Na vida real, porém, Geisy, a despeito de seus quilinhos extras - que a tornam uma espécie de Carla Perez com umas polegadas a mais -, atrai a atenção masculina, certamente muito mais do que uma modelo magérrima o faria. Tem aquele tipo de sex appeal evidente, uma carnalidade algo ostensiva, que tende a provocar manifestações e assobios quando passa por uma obra em construção (algo que, segundo um delicioso post de Camila Pavanelli, não ocorreria se ela morasse nos EUA...).

A menção à ex-dançarina do É o Tchan! não é vã: Geisy pertence a uma geração de crianças que cresceram no auge do sucesso do grupo: a “dancinha da garrafa” era um hit nos aniversários infantis do período. A classe média soi disant elite cultural e as pessoas cultas de forma geral tendem a desprezar o fenômeno da axé music não só por razões musicais, mas por este ser essencialmente popular – e, verdade seja dita, por considerá-lo lascivo e vulgar, como os estudantes da Uniban consideraram os trajes de Geisy -, mas ele tem uma dimensão bem maior do que à primeira vista sugere: não só a (duradoura) moda das “falsas loiras” foi disseminada a partir desse cadinho de cultura, como ele definiu um padrão de vestimenta, de comportamento nas pistas de dança e de exibição do corpo feminino em determinadas classes sociais. Não é preciso esforço para enxergar tal influência na persona sexual de Geisy.

Questiona-se, em uma série de textos, a alegada inadequação dos trajes de Geisy ao ambiente acadêmico (mote que rendeu a melhor análise que li sobre o caso – escrita por Raphael Neves, do blog Politikaetc), mas seria reducionista creditar a um contexto isolado tanto tal suposta inadequação quanto a assustadora reação dos estudantes (que você pode ver aqui, comentada). Significaria, implicitamente, adotar a suposição de que aquele grupo específico de alunos obedece, por alguma exótica razão, a uma ética própria, a qual não é partilhada por outros setores da sociedade. Ilude-se quem quer.

Espera-se que a descabida reação do armazém de aulas, de um moralismo arcaico, que pune a linchada e não seus linchadores, seja alvo não apenas de processo por danos morais (que o advogado de Geisy Arruda já se declarou disposto a mover), mas de investigação e punição por parte do MEC. Ainda antes do anúncio comunicando a decisão da Uniban, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) do governo federal já havia divulgado nota afirmando que o episódio fere princípios constitucionais. Seu parágrafo de abertura é definitivo:

“Justificar qualquer crime ou mesmo discriminação contra a mulher só faz propagar a cultura sexista de gênero, pois afasta a culpa dos agressores, transmitindo-a a fatores secundários como o uso inadequado de roupas, comportamento provocativo ou ainda à conduta da mulher”.
Se a reação dos alunos da Uniban já era intolerável, a decisão do mercadinho de ensino de punir Geisy Arruda demonstra, de forma cabal, que a questão de gêneros no Brasil ainda engatinha - e é tema de extrema urgência.


(Imagem retirada daqui)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

De autoritarismo e ditadura


Ao acusar, com argumentação pífia, o atual governo de “autoritarismo” e comparar suas práticas às da ditadura, FHC, além de municiar seu circo de trolls amestrados - que, incapazes de pensar por si mesmos e covardemente ocultos pelo anonimato, repetem como papagaios acéfalos as palavras do mestre-bufão -, transpõe os limites da razão, do bom senso e da verdade histórica.

Como príncipe dos sociólogos, o ex-presidente sabe que não há, na teoria política, categorias que permitam pespegar no atual governo o rótulo de autoritário – muito pelo contrário. Vivemos a democracia plena. Mais do que isso: Lula tem aturado uma mídia corporativa que transgride todos os limites da ética jornalística com uma passividade que muitos consideram excessiva. E a democracia pressupõe direitos e deveres que dizem respeito a todas as instituições - inclusive à imprensa.

Assim como fingimos não notar que o Supremo Intelectual da Pátria, em seu texto-esperneio, concorda “A enxurrada” com “talvez levem” e atribui a Hamlet uma fala de Polônio, simulemos não perceber o absurdo de alguém do mesmo PSDB da lei protofascista do fumo promulgada por Serra ousar acusar outrem de autoritarismo, e de um membro do partido que elege seus candidatos com quatro caciques em torno de uma garrafa de vinho francês num restaurante cinco e$trela$ acusar Lula de “dedazo” na escolha de Dilma Rousseff (como se não fosse ela a ungida pelas correntes majoritárias do PT). A senilidade pede compaixão.

Ainda assim, algumas interrogações se impõem: o que é, de fato, autoritário: nomear, como o atual presidente fez, um Advogado-Geral da União que não se deixou intimidar por eventuais pressões do partido no poder e denunciou à Justiça os envolvidos no chamado “Mensalão” ou, como FHC preferiu fazer, colocar na função uma figura que de lá saiu denominado pelo autoexplicativo apelido de “Engavetador-Geral da República”?

O que é autoritário: privatizar, “no limite da irresponsabilidade”, o patrimônio público, sem que se saiba até hoje o destino do numerário arrecadado no processo - então a alegada panaceia que nos levaria ao “Primeiro Mundo” - ou discutir caso a caso com a sociedade o destino a ser dado ao patrimônio que é dela, como ora se faz?

O que é um “pequeno assassinato”, como brada o príncipe uspiano? Procurar resguardar os dividendos do Pré-Sal através de emenda proposta ao Congresso após mais de um ano de elaboração, como fez o atual governo, ou, como nos lembra O Hermenauta, resolver a privatização das telecomunicações brasileiras - então o filet mignon do patrimônio público - atropeladamente, em quatro meses, como fez FHC?


Brutalidade da ditadura desautoriza FHC
Porém muito mais grave, do ponto de vista ético e histórico, do que essas risíveis acusações do panfleto ressentido publicado pela "grande imprensa" é a comparação das políticas em curso com “autoritarismo militar”. Pois este se traduziu em atos de extrema crueldade, como arrancar os dois olhos de Bacuri na tortura, para tentar forçar uma delação (em vão; era um bravo); a enfiar um cano na vagina de uma presa e nele colocar um rato, vedando a outra extremidade do cano, para que o animal roesse-lhe as entranhas; a torturar Stuart Angel arrastando-o com a boca amarrada ao escapamento de um jipe, matando-o por asfixia por monóxido de carbono; a assassinar "Jonas" - que chefiou o sequestro do embaixador norte-americano - aos poucos, atirando-o sucessivas vezes contra uma parede de cimento. A reduzir presos políticos indefesos a farrapos humanos, arrancando-lhes a dignidade e impondo-lhes o terror físico e psicológico – este, de longa duração, e que levaria pessoas de alma mais sensível como Frei Tito a suicidar-se anos depois das sevícias sofridas.

Isso, sim, é autoritarismo militar. E suas práticas estão muito bem atestadas em pesquisas como o projeto Brasil, Nunca Mais , internacionalmente reconhecido como a mais abrangente pesquisa sobre os porões do regime (conheça também o ótimo blog de Maria Frô - de onde tiramos a terrível foto acima -, para conhecer as histórias dos torturados e constatar, nas fotos de seus cadáveres, o grau de brutalidade empregado).

Enquanto seus "companheiros de luta" sofriam tais destinos, FHC, após uma temporada no melhor estilo "esquerda festiva" no Chile, alheio a tais autoritarismos de fato, se empanturrava de Veuve Clicquot e foie gras na França.

Aliás, um dos mistérios que cercam a história brasileira diz respeito à trajetória de certos soi disant esquerdistas – notadamente políticos hoje pertencentes ao PSDB paulista - que, ao conseguirem sair ilesos, sabe-se lá como, do Brasil ditatorial para o exílio, pobres, remediados, dele retornaram ricos. FHC, por exemplo, era um mero professor - que dava aula, segundo testemunhas oculares, apresentando-se com as meias furadas.

Pois esse membro remediado de uma das classes trabalhistas mais vilipendiadas, quando volta do exílio arrotando camembert, estava bem nutrido, altivo e já apresentando aquela empáfia de príncipe que tanto excita – sexualmente, inclusive - os colunistas nativos (respeitemos as parafilias alheias). Quem sustentou FHC, Serra e cia. no exterior? Às custas de quais acordos? Em troca de quê? A historiografia nacional nos deve as respostas a essas perguntas. (No Vi o Mundo, o respeitabilíssimo jornalista Altamiro Borges mostra os indícios de que, em plena ditadura, FHC era sustentado pelos dólares da CIA. Leia aqui.)

Após passar da quase-mulambagem à elite no exílio, FHC - que tem como hobbie colecionar aposentadorias, especialmente as polpudas - foi brindado com uma compensação financeira mensal devido às privações que lhe teria imposto a ditadura. Já herois como o capitão Sérgio Macaco (clique aqui para conhecer sua incrível história) sofreram por anos a fio para ser reconhecidos, e muitos dos torturados e dos que foram de fato perseguidos, como não são ricos nem dispõem de influência política, continuam na fila da merecida aposentadoria especial; alguns, como ocorreu com a viúva Cerveira, sofrem até hoje perseguições e boicotes.


A coerência do ex-presidente
Mas, a bem da verdade, devemos reconhecer: pode-se acusar FHC de muitas coisas, mas não de incoerente. O desprezo que demonstra pela democracia e pelos que sofreram na ditadura, ao atirar, sem o mínimo critério, acusações de autoritarismo a governos democratas, relaciona-se com sua própria história de vida: enquanto os esquerdistas de fato contavam seus mortos, tratavam-se das chagas da tortura ou, não suportando o trauma, se suicidavam, ele assomava à alta burocracia peemedebista (depois peessedebista).

Do mesmo modo, a raiva que manifesta em seu artigo contra a aprovação popular do governo e contra o fato da autoestima do brasileiro ter aumentado é plena de coerência. Afinal seu governo, anti-Brasil e anti-povo, sempre necessitou de uma população envergonhada de sua própria terra para que pudesse submetê-la, em posição subalterna, à ordem (sic) econômica mundial capitaneada pelos EUA.

Portanto, ao fazer tais acusações descabidas contra um governo democraticamente eleito e que mantém as liberdades plenas no país, FHC não traz à luz fato algum, exceto em relação a seu próprio caráter – ou à falta dele.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Digressões sobre os anos 80


O fascínio em moda pelos anos 80, vigente já há uns 3, 4 anos e observável na profusão de festas temáticas e no sucesso de filmes como Meu nome não é Johnny, embora compreensível e não de todo injustificado, é seletivo: esquece o que a década teve de desolador e depressivo, de vitória do establishment e do yuppismo contra o que restara da contracultura pós-1968.

O que esse culto aos anos 80 procura resgatar é, na verdade, a atmosfera do período inicial da década – uma fase particularmente rica em diversidade musical, com uma profusão de bandas de alto nível e com uma estética multicolorida e inventiva no cinema e na moda, em que mesmo o clima soturno de certos grupos pós-punk e de alguns cineastas de vanguarda era cultuado com enlevo.

Essa “Primavera de Praga” transnacional foi abruptamente interrompida.

Pois a coincidência, num mesmo momento, do surgimento da AIDS e do estabelecimento do neoliberalismo como ideologia e prática política hegemônica representou um duríssimo golpe para o exercício pleno da sociabilidade humana nos âmbitos afetivo e material. Este é um tema que está longe de ser satisfatoriamente debatido e a memória do que era a dinâmica social do sexo antes da AIDS continua, com raríssimas exceções, praticamente restrita à história oral. Eis um desafio aos historiadores.

A queda do Muro de Berlim, que ora faz 20 anos, lançou as esquerdas numa crise de rumos que se arrastaria por décadas, e, além dos efeitos já citados, a expansão da AIDS representou, no momento em que foi vivida como trauma, um duro golpe às lutas das minorias e à liberdade sexual plena, favorecendo o discurso moralista e os embustes religiosos; a ecologia, que anos antes parecia caminhar rumo ao status de política prioritária, dada sua importância para a sobrevida da raça humana, viu-se relegada pelos governos e confinada pela mídia, sob o rótulo de causa política de chatos. No Brasil, o governo Sarney havia tornado a corrupção endêmica aos olhos de todos (na ditadura, sob censura, só o era aos olhos de poucos). Enquanto o yuppismo alçava o sucesso material como meta máxima da existência humana, as crianças brasileiras aprendiam com Xuxa como é importante ser linda, magra e loira, competir e vencer sempre, e ter toda a linha de produtos da apresentadora.

A ascensão de Fernando Collor à Presidência, no bojo da onda direitista latinoamericana, representou a inserção do Brasil nessa nova ordem mundial . Nosso jovem, “elegante” (sic) e yuppie presidente, eleito, iria caçar marajás, acabar com a corrupção e, como se dizia, levar o país ao Primeiro Mundo. No primeiro dia lançou um plano econômico inédito nos anais da história econômica mundial, confiscando patrimônio privado no varejo. No segundo acabou com o cinema nacional. No terceiro...

Um filme que captura de forma magnífica esse estágio crepuscular do que restava de rebelde e de contestador em meio à ganância individualista que tomaria forma final nos anos 90 é Os Renegados, ou Sans toi ni loi (Sem teto nem lei, em tradução literal), dirigido em 1985 - ou seja, no momento mesmo da ruptura conservadora - pela primeira-dama do cinema francês Agnès Varda. Não é minha intenção discorrer aqui sobre esse que é um dos filmes que mais amo na história do cinema, considerado por Susan Flitterman-Lewis o “Cidadão Kane feminista”. Talvez eu o faça um dia - por enquanto, leia o belo texto de Rafaela Camelo sobre Agnés e Sans toi ni loi. De qualquer modo, fica a dica: a história da garota mochileira (encarnada com garra por Sandrine Bonnaire, no papel de sua vida), contada em flashback a partir do momento em que seu corpo, morto pelo frio, é achado em um vinhedo, é, a um tempo, um libelo e um epitáfio a 1968 e aos que, em qualquer época, ousaram tentar transformar seus sonhos de liberdade em realidade.

Um feito que, em meio ao individualismo materialista predominante, as festas temáticas sequer conseguem invocar.

(Imagem de Sandrine Bonnaire como Mona retirada daqui)

domingo, 1 de novembro de 2009

Para onde vai Fernando Henrique Cardoso?

De ex-presidentes é esperado um comportamento discreto, respeitoso para com seus sucessores, que paire acima dos ódios políticos e colabore para o avanço do país. Se um deles eventualmente discordar do modo como o país é conduzido e não consegue ou não quer guardar para si tal discordância, deve manifestá-la de forma polida, racional, colaborativa, sem qualquer laivo de agressividade ou ataque pessoal.

Os EUA têm dado, ao menos nesse quesito, uma demonstração de civilidade democrática. Em sua grande maioria, seus ex-presidentes mantêm uma postura respeitosa para com os chefes de estado que os sucedem. Alguns, como Jimmy Carter e Bill Clinton, continuam servindo ao país em fóruns internacionais mesmo quando este é governado pela oposiç.ão. Até na fase terminal, lame duck,  do pior mandatário da história norteamericana, George W. Bush, quando as críticas se fizeram inevitáveis, elas não deixaram de obedecer, no mais das vezes, a certos protocolos e de manter o respeito pela Presidência enquanto instituição.

Tais digressões vêm à tona no contexto da repercussão do artigo “Para onde vamos?”, escrito pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e publicado neste domingo pelos jornais O Globo, O Estado de São Paulo e Zero Hora, entre outros, e reproduzido em diversos blogs, a começar do de Luís Nassif, que lembra:

“Quando os novos governadores tucanos foram eleitos, alertei: tomem o PSDB de FHC; exercitem a retórica da negociação, da civilidade. FHC só terá a oferecer a retórica vazia da guerra. Eis aí um caso clássico da miséria do discurso”.

Eu recomendaria ao leitor que ainda não leu o hidrófobo artigo do ex-presidente, que o fizesse no blog O Hermenauta, que oferece uma leitura crítica contrapondo as acusações do peessedebista a Lula aos atos pregressos do próprio governo chefiado por FHC.  

Confesso que tive dificuldades para levar a sério a argumentação crítica do ex-presidente, primeiro porque a acusação difusa e imprecisa de autoritarismo que perpassa o artigo nãoé sustentada por nenhum ato institucional ou prova material produzidos pelo governo de turno, constituindo, portanto, mera estratégia retórica de choque empregada pelo dublê de articulista. “Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária”, escreve FHC, como a sugerir, numa lógica torta, que só os governos sob vaias seriam democráticos. 

Ora, conquista hegemônica de poder, respeitadas as regras democráticas institucionais – e FHC não fornece evidência alguma de que estas não estejam sendo seguidas -, é o jogo jogado. A leitura de seus arrazoados acaba por dar a impressão de que a ambição – no caso, da aliança liderada por PT e PMDB – de continuar no poder tem algo de intrinsicamente autoritário. Mas não foi Sérgio Motta quem anunciava aos quatro ventos que o projeto do PSDB era de 20 anos na Presidência? Dois pesos e duas medidas?

Segundo porque parece-me indisfarçável que o que move o peessedebista não é, de forma alguma, a razão e as alegadas preocupações com o presente estado e o futuro do país, mas os humanos, demasiadamente humanos sentimentos figadais da inveja, do ciúme, do despeito e do orgulho ferido.

Bastariam para atiçar tais rancores o sucesso da política econômica – com o Brasil sendo o primeiro país a sair da crise mundial -, das políticas sociais que tiraram mais de 30 milhões de pessoas da pobreza, da diplomacia que colocou o Brasil efetivamente como player mundial (um feito que FHC se esforçou por lograr e não conseguiu) e, talvez acima de tudo, a projeção internacional de Lula, reconhecida tanto pelos principais órgãos da mídia mundial como por governantes de modo geral, Barack Obama à frente.

Mas há mais: FHC começa, finalmente, a ser preterido e renegado por seu próprio partido, o qual tenta manter sob seu controle desde que deixou a Presidência. Vinha sendo bem sucedido até então, apesar do ônus que impôs, respectivamente,  a José Serra e a Geraldo Alkimin nas eleições presidenciais em que, pesando como uma pedra no lombo dos candidatos peesedebistas, colaborou sobremaneira para o duplo naufrágio. Nesta semana, porém, o PPS impôs como condição ao apoio a Serra na próxima corrida ao Planalto que o PSDB se desvencilhe do fardo FHC. Ele acusou o golpe.

Se se tratasse do grande intelectual e da personalidade política que seus acólitos e a mídia de forma geral apregoam, FHC poderia ter evitado se prestar a esse papel constrangedor, que será julgado pela História. Tivesse mantido uma postura serena e madura – ainda que eventual e respeitosamente crítica -, o tempo encarregar-se-ia de envolver em um véu de esquecimento sua Presidência de raros acertos e colossais erros, entre eles os que levaram o país à insolvência três vezes e legaram um índice altíssimo de desemprego, que ora atinge seu menor nível histórico.  

Substituindo os ataques pessoais e a manifestação histérica de sentimentos à rés do chão por uma atitude urbana, civilizada, condizente com a de um ex-mandatário máximo do país, conseguiria, com o apoio das forças comunicacionais das quais dispõe, preservar sua própria imagem através dos tempos.

Para assim agir, no entanto, é necessário ser um estadista. Coisa que Fernando Henrique Cardoso já deu mostras evidentes de que não é.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Diretas-Já


Eu tinha 16 anos, dezenas de namoradas e cantava em uma banda de punk rock. Minha vida era plena de hedonismo. A principal preocupação era impedir que uma namorada descobrisse a(s) outra(s) – algo que hoje me parece sem sentido, pois é óbvio que elas sabiam, mas na época eu não atinava com isso.

Lembro perfeitamente do dia do comício das Diretas-já: era uma tarde quente, e eu estava no pátio da escola, beijando uma namorada – que era tipo a número 1. Aproximou-se a mais temida das inspetoras de alunos (que nós chamávamos “serventes”, o que hoje me parece preconceituoso), dona Elza, e começou a berrar com ela, me esculachando: que ela era a terceira garota que eu beijava naquele dia, se ela não tinha auto-respeito, o que a mãe dela ia pensar disso e por aí vai. Achei que a garota fosse embora, mas não. Ela sorriu. E continuamos ali, nos divertindo. No meio da tarde a levei pra casa e depois fui buscar outra garota, chamada Ana. Foi com ela que fui ao comício (sinto-me incrivelmente canalha escrevendo isso, mas é a verdade).

Aninha me presenteou com um chapéu de feltro vermelho, que eu adorava, e o utilizei o tempo todo. Havia no ar, desde o momento em que pegamos o ônibus, uma atmosfera especial, que parecia nos dizer: hoje é um dia único, vocês estão protagonizando a história.

A praça da Sé estava apinhada. Ficamos de frente para a catedral, do lado direito, e ainda hoje, quando olho uma grande fotografia aérea que tenho emoldurada, costumo brincar, apontando um ponto em meio ao mar de gente, dizendo: “Este aqui sou eu”.

É vívida na minha memória a voz do locutor Osmar Santos – que foi um dos grandes fenômenos radiofônicos do país antes de sofrer um grave acidente - gritando: “Diretas quando, São Paulo?”, e todos respondendo, em uníssono, “Já!!!!”. E das tentativas de, cantando o refrão: “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”, derrubar uma perua da vênus platinada, emissora que jamais cobrira o movimento popular até então – embora hoje, apelando até a truques de edição posteriores, tente renegar isso.


Lembro bem da emoção que provocou o discurso de Franco Montoro, então governador de São Paulo – e um político anos-luz à frente do que o PSDB, então inexistente, se transformaria. Ouço ecos de Faoro, de Bicudo, de personalidades que eu ou intuía ou sabia devido à militância de meu pai serem figuras importantes, mas que não tinha elementos para julgar por mim mesmo. Havia também momentos indefectíveis, como “Coração de estudante”, de Milton Nascimento, e o hino nacional cantado por Fafá de Belém, que já àquela época pareciam algo piegas (embora, a bem da verdade, no calor do ato cívico, não deixassem de ter seu encanto).

Lembro também que havia uma enorme bandeira do Brasil, que passava de tempos em tempos, nos encobrindo por vários minutos, permitindo que Aninha e eu nos agarrássemos de forma mais ousada. Num desses “amassos” roubaram meu chapéu... Que raiva!

A minha memória das Diretas-Já é assim: mescla personagens e situações históricas e memórias de uma sexualidade adolescente vivida ingenuamente e sem culpas.

Mas o dia da votação da emenda Dante de Oliveira no Congresso não teve nada de erótico. Foi triste, muito triste. Lembro do sentimento de derrota que nos acometeu ao final da noite, quando, embora a votação fosse avançar madrugada adentro, estava evidente que seríamos derrotados. Lembro de faces com lágrimas escorrendo, de um sentimento de uma derrota que nos custaria anos, como de fato custou. Lembro de um abraço longuíssimo e doloroso de uma pessoa de que eu gostava muito, cujo sentido era claro e se confundia com o político: poderíamos ter sido muito felizes, mas não fomos. Nunca mais, nesses anos todos, a vi de novo.

Figueiredo foi o mais burro e o mais inapto dos mandatários brasileiros. Poderia ter passado à história como o presidente que promoveu a transição democrática, mas não. Passou como um bronco, que dizia preferir o cheiro dos cavalos ao do povo.

Respeito a posição do PT à época, de recusar as eleições indiretas no Congresso. Era o que um partido de esquerda tinha a obrigação de fazer. Mas nunca comprei a versão – aparentemente consolidada - de que Tancredo seria “mais do mesmo”, como afirmam tanto blogueiros imaturos quanto comentaristas suspeitos, como Nelson Motta – cuja alma matter de todas as horas, a Rede Globo, foi a principal fiadora e apoiadora de Sarney.

Primeiro porque personalidade conta muito em política. Dilma não será Lula, Eduardo Gomes não foi JK. Segundo porque Tancredo tinha uma história política consolidada: principal ministro do Getúlio eleito, negociador da posse de Goulart sob o parlamentarismo. Um centrista, um conciliador. Não dá para comparar com Sarney, egresso da Arena – partido de apoio ao regime militar – e coronel do estado mais pobre da federação (e, como alguém já observou, o mais insensível socialmente dos coronéis, pois até ACM legou o Pelourinho e uma Salvador modernizada aos baianos, enquanto as magníficas construções de São Luís caem aos pedaços e a pobreza grassa no Maranhão).

De qualquer forma, a derrota nas Diretas-Já, seguida da trágica e altamente suspeita morte de Tancredo foram episódios traumáticos e de consequências nefastas para o país – as décadas perdidas, como a história as denominou e como os inegáveis avanços propiciados pelo governo Lula – em relativamente pouco tempo – confirmam. O quanto poderíamos ter avançado se tívéssemos tido um presidente eleito em 1985?

Apesar de tudo, confesso que sinto um grande orgulho de ter participado das Diretas-Já. Foi uma luta justa, que – numa época em que não havia internet – uniu amplos contingentes da população em oposição ao governo de turno e à então toda-poderosa Rede Globo.

Na minha opinião, tratou-se de um movimento mais autêntico do que aquele contra Collor – no qual, embora eu também viesse a tomar parte como cara-pintada, foi, hoje se constata, excessivamente manipulado pela imprensa, Folha de São Paulo à frente. As Diretas-já foram mais intensas, expressaram desejos coletivos longamente repressados e que poderiam vir a ter consequências certamente maiores, se bem sucedidos.

Perdemos a batalha, mas de coração jovem e nobre e de cabeça erguida.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

De volta

Como os frequentadores certamente notaram, o blog diminuiu muito o ritmo recentemente (pela primeira vez, ficamos mais de uma semana sem postar). Isso se deveu a três fatores:

1) Fui surpreendido por uma das mais irritantes pequenas tragédias que acometem o ser humano contemporâneo: a perda total do HD de seu computador pessoal. Havia, é claro, um backup, mas ele stava - como sói acontecer com os backups - defasado e não continha os posts que eu deixara quase pronto para abastecer o blog durante as férias;

2) Por falar em férias, estas são a segunda razão da paralisia do blog. Não foram, é verdade, férias com F maiúsculo, mas, aproveitando 2 dias na Bahia para um congresso, sete dias de folga encaixados antes e depois do dito. Ainda assim, o post sobre o jornalismo da Globo News foi produzido numa Lan Hause (com “a” mesmo!) na Chapada Diamantina – um super lugar, um oásis em pleno semi-árido, que mostra o quanto a natureza brasileira pode ser surpreendente.

Recomendo a todos, desde que evitem as agências (que agem como cartel) e seus pacotes que promovem maratonas apressadas entre uma beleza natural e outra e optem pelo slow tourism, contratando, se necessário, os mais eficientes e simpáticos (além de muito mais baratos) guias independentes. Afinal, não faz sentido conhecer uma cachoeira deslumbrante no interior de uma reserva natural baiana se não podemos passar um bom par de horas imerso em suas águas, não é mesmo?

3)E das férias decorre ainda o terceiro fator de semi-paralisia do blog: ao voltar, o acúmulo de trabalhos era tal que foi impossível dar conta de tudo e ainda manter-me ativo na blogosfera.

De qualquer modo, estamos de volta - o blog e eu -, um tanto perplexos com a patética tentativa de, após pesquisar bastante a agenda da moça, ressuscitar o “caso” (êpa) Lina-Dilma e com os esforços da “grande mídia” para culpar o governo federal pelo que a imprensa chama de “crise de violência no Rio” (e que não é nem a primeira nem a segunda nem a última, pois trata-se tão-somente das consequências de uma política de segurança pública equivocada e executada por forças policiais despreparadas para tal, que contam ainda com o álibi do combate ao tráfico como uma desculpa para toda transgressão da lei e abuso cometido contra cidadãos inocentes, porém pobres). Em trecho de um artigo acadêmico escrito em 2000 eu comento o processo:

“Vive-se atualmente, em relação às drogas, no país, uma situação à beira do pânico, de iminente e explosiva irrupção social, uma urgência de crise açulada pelo noticiário sensacionalista sobre violência: fala-se em 'guerra civil', em 'inescrutável poder do tráfico', confunde-se pobreza e marginalidade. Insiste-se muito em repressão e muito pouco em políticas conjunturais efetivas.

Como enfatiza Marilena Chaui: 'Esse horror à realidade das contradições se exprime no modo como a classe dominante brasileira elabora as situações de crise. Uma crise nunca é entendida como resultado de contradições latentes que se tornam manifestas pelo processo histórico e que precisam ser trabalhadas social e politicamente. A crise é sempre convertida no fantasma da crise, irrupção inexplicável e repentina da irracionalidade, ameaçando a ordem social e política. Caos. Perigo' (Conformismo e resistência - Aspectos da Cultura Popular no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 60)".

De qualquer forma, o blog retorna, a partir de hoje, à atividade normal. Em breve postarei um texto, de tom algo saudosista (that's the mood that I'm in...), sobre aquela que foi a maior manifestação pública que os de minha geração tiveram a oportunidade de presenciar: os comícios gigantescos pelas Diretas-Já.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Globo News oferece versão oficiosa da violência no Rio

Quem, como este assaz viajante blogueiro que vos fala, foi obrigado a (ou optou deliberadamente por) inteirar-se através do canal a cabo Globo News dos confrontos entre policiais e traficantes nos morros cariocas - que culminaram com o abate de um helicóptero -, defrontou-se, uma vez mais, com um jornalismo quase oficioso, majoritariamente baseado em uma única fonte – os órgãos de “segurança pública” do Rio de Janeiro – e que subestima a inteligência do telespectador.

Claro está que as informações concernentes à “guerra ao tráfico” no Rio sofrem de um problema estrutural, que não se restringe ao jornalismo global e seria de difícil solução em tempos normais, mais amenos, tornando-se quase incontornável sob os ânimos acirrados do presente: a premissa básica jornalística de que se deve ouvir – e publicar também a versão do – outro lado é sistematicamente ignorada ante a constatação de que este é composto de bandidos. Há como resolver tal dilema?

Longe se vai o tempo em que o repórter policial se destacava justamente por trafegar, com igual desenvoltura, pelas delegacias e pelo submundo do crime, utilizando-se da informação neles amealhada como moeda de troca com um e outro universo, revelando ao seu público detalhes e antecipando estratégias de confronto entre as forças do crime e da lei.

Tal mítico personagem, iconizado, na própria Rede Globo, pelo repórter Waldomiro Pena, vivido com garra por Hugo Carvana (e cantado em verso e prosa pelo então chamado Jorge Ben) no seriado dos anos 80 Plantão de Polícia, pertence definitivamente ao passado. Hoje em dia, na improvável hipótese de o jornalismo da Globo querer empregar tais estratégias investigativas, correria o risco de ser enquadrado na figura legal da “associação para o tráfico de drogas” – excrescência jurídica que serve para reprimir qualquer manifestação das classes periféricas e poderia muito bem, se fosse o caso, servir também para calar a imprensa. Felizmente, não há risco de que tal truculência ocorra...

Mas os problemas da cobertura concernente à segurança pública carioca vão muito além da negligência da premissa de “ouvir o outro lado”, evidenciando algumas deficiências inatas a esta: os amplos contingentes populacionais que, não pertencendo à “bandidagem”, se veem em meio ao fogo cruzado entre polícia e traficantes são mais uma prova de que às vezes não se limitam a dois os lados a serem ouvidos.

E nesse quesito a cobertura oferecida pela Globo News revela mais uma vez sua tendenciosa fragilidade: não que os moradores do morro não se fizessem presentes, nas imagens, correndo desesperados em meio ao tiroteio; o que não lhes é concedido é voz – a voz analítica que sai de uma ou mais vozes, ou emana do choque polifônico de opiniões. Ninguém que estivesse no morro ou se apresentasse como morador de lá foi ouvido nas edições do jornalístico “Em Cima da Hora” apresentadas entre 7 e 9 horas da manhã e na edição do meio-dia do domingo (18/10) para algo mais do que afirmar o medo das balas perdidas. Para o jornalismo global, é como se ele fosse um não-cidadão, sem direito ou capacidade analítica para conjecturar sobre o que o aflige.

Ao contrário da espinhosa questão de ouvir ou não o outro lado quando este é um criminoso, estamos aqui diante de um problema bem mais simples, de fácil solução se a Globo se prestasse a produzir um jornalismo um pouco mais democrático e – para utilizar termos que a emissora tanto gosta de empregar - que promova a cidadania. Mesmo se, numa atitude entre zelosa e o preconceituosa, seus repórteres fossem instruídos a não ouvir qualquer morador do morro (pois este poderia ter ligação com o tráfico), eles continuariam tendo à disposição uma série de organizações civis e de ONGs que atuam nos morros cariocas, algumas delas capazes de viabilizar canais de comunicação entre a emissora e moradores ou mesmo de produzir análises bem mais complexas e diversificadas do confronto do que a simplificação grosseira oferecida pela Globo News.

Um terceiro aspecto problemático da cobertura do episódio vem da escolha do indefectível expert chamado para comentá-lo. No domingo, a honra coube ao sociólogo Gláucio Soares, que, enquanto tratava o telespectador como uma criança, chamando a atenção para aspectos que, segundo ele, este não se daria conta, dizia acreditar que uma “revanche corporativista” da polícia (que já teria produzido duas mortes no próprio domingo) deveria ser entendida como “compreensível”.

O mínimo a esperar de um intelectual (ainda que “à sombra do poder”, para utilizar a classificação proposta por Carlos Nelson Coutinho), notadamente em questões de segurança pública, é que ele invoque os pressupostos da razão – aí incluídos os Direitos Humanos -, do tecnicismo e do equilíbrio, sobretudo em uma situação de extrema tensão e revolta; quando ele é leniente com a vendetta coletiva de forças públicas armadas não apenas esvai-se de sua função mas, no caso, incita a barbárie à qual deveria se opor.

É preciso uma dose enorme de ingenuidade para deixar de notar que a escolha dos experts que se sentam à bancada da Globo News obedece a um filtro ideológico rigoroso, acabando por funcionar como uma ferramenta editorial das mais eficientes. Isso não justifica, no entanto, no que se refere à violência carioca, que o principal canal a cabo de jornalismo do país negligencie sistematicamente o conhecimento sobre segurança pública e criminologia produzido por pelo menos cinco institutos de alto nível no estado do Rio, em nome da manutenção de uma visão fundamentalista da questão, visão esta que, como instrumento de manipulação da opinião pública, acaba servindo a seus interesses políticos no estado e na cidade.

Sem fontes outras que esse jornalismo monocórdio, ao espectador da Globo News é continuadamente impingida a versão da polícia – nem sempre relativizada pelo álibi “segundo a Secretaria de Segurança”: à medida que a cobertura avança ao longo do dia, algumas matérias incorporam informações de tais fontes sem nomeá-las.

De minha parte, adoraria poder confiar nas versões da polícia fluminense e do simpático e articulado secretário José Mariano Beltrame. Mas, convenhamos, um aparato de repressão que teve, em cargos e períodos diversos, comandantes como Newton “bandido bom é bandido morto” Cerqueira, como o atual membro da tropa de choque serrista Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), e como Álvaro Lins, que deixou o cargo de chefe da Polícia Civil para usufruir dos serviços de hospedagem de Bangu 8, precisa reconstituir sua imagem e mostrar serviços – e por esta expressão não quero dizer extermínio indiscriminado, mas punição a criminosos dentro dos marcos da lei e proteção a inocentes, sejam estes pobres ou não – para ganhar respeitabilidade e confiança.

Porém, é a uma força com tal currículo – e quase que exclusivamente a ela – que a Globo News recorre para “informar” seus espectadores. Isso não se chama jornalismo. Lamento pelos que se deixam acreditar.


(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Méanrreatan Conéquition

Nem Chiquititas, nem Otávio Mesquita, nem Ataíde Patrese e seu microfone de ouro: o programa mais jeca da história da TV brasileira é o Méanrreatan Conéquition.

Além de jeca, é anacrônico, tendo em vista que sua razão de existir é a exaltação do modo de vida – perdão, uêi ófi láife – de um país que se encontra em plena decadência econômica, cultural e imperial.

Pois longe se vai o tempo em que se acreditava na “América” como a terra prometida. O sonho americano transformou-se num pesadelo real, que inclui, além dos preconceitos étnicos de praxe, um sistema de saúde excludente e desumano, a criminalização da pobreza e da negritude, e uma economia que respira por aparelhos.

No, literalmente, front externo, a política americana, mesmo comandada por um presidente laureado com o Nobel da Paz, consiste numa trama belicista aberta (como no Iraque e no Afeganistão) ou dissimulada (como na Colômbia, na reativação da 4ª Frota e nos golpes de estado fomentados aqui e acolá) cujo fim é alimentar a indústria de armamentos – que segue de vento em popa em plena crise - e cujo principal efeito colateral é a morte, a granel, de jovens inocentes. Nada de novo sob o sol.

Mais os quatro patetas embasbacados continuam lá, na bancada do Méanrreatan, com aquela postura de súdito colonizado falando sobre a sede do império e aquela empáfia deslumbrada de jeca tatu em noviorque (ou, o que é ainda pior, em Nova Jersey, no caso do inacreditável Caio Blinder - aquele que ficou triste porque as Olímpiadas não vão ser em Chicago, mas no Rio).

Muda o sentido do fluxo de imigração – agora os brasileiros retornam em massa, fugindo da crise norteamericana -, muda o pêndulo da economia mundial em direção à China (que detém milhões da dívida norteamericana), diminui o peso imperial dos EUA com a ascensão dos países emergentes – Brasil, inclusive.

Mas toda semana tem Méanrreatan Conéquition teimando em nos informar sobre Wall Street e o falido mercado financeiro, Broadway e o chatérrimo teatro mainstream americano, além daqueles artistas plásticos exóticos de noviorque cujo único mérito indiscutível é a cara-de-pau para afirmar que o que fazem é arte.

Os apresentadores, sempre empenhados em gritar ao mesmo tempo e o mais alto possível, são escolhidos a dedo. Para chefiar a trupe de deslumbrados, Lucas Mendes. Fosse eu um Houaiss ou, melhor, um Aurélio, e a mim coubesse escrever um dicionário, o primeiro sinônimo de “insosso” seria “Lucas Mendes”. O homem é mais serviçal do que um mordomo zumbizado.

Há Caio Blinder, que tem a personalidade de uma mosca e a quem um ex-colega de bancada, Paulo Francis, chamava de inseto e tapava os ouvidos com os dedos enquanto ele falava (diga-se o que dizer de Francis, era um reacionário dos piores, mas ao menos tinha cultura, personalidade e humor, quesitos em falta na bancada do Méanrreatan Conéquition).

Ah, tem também aquele economista com cara de moleque, que acha as demandas do mercado mais importantes do que as das pessoas, e o indefectível dioguinho. Mas sobre este me recuso a falar, afinal este é um blog familiar e temos de manter um certo nível. A única pergunta que não resisto a fazer é: se ele gosta tanto de noviorque, porque não fica por lá mesmo, escrevendo no Times? Não precisa responder...

Méanrréatan Conéquition é um programa chato, com uma pauta desinteressante, apresentadores sem apelo ou wit, e que insiste em cultuar uma relação de deslumbre com a cultura e a sociedade norteamericanas, perpetuando a exaltação a "coisas do Primeiro Mundo!". Ele fazia sentido durante os anos de hegemonia neoliberal, em que os políticos no poder e boa parte do país estavam convencidos que o destino do Brasil era seguir a reboque dos EUA, e em posição subalterna.

Os tempos são outros, e se a TV brasileira não se antenar com os rumos contemporâneos, quem vai ficar defasada e deixar de se comunicar com seus espectadores - que já migram em massa para a internet - é ela.

O fato de o Méanrreatan Conéquition ter-se tornado objeto de humor e escárnio é apenas mais um dentre tantos indicativos de que a hegemonia neoliberal chegou ao fim e um multiculturalismo de fato - e não apenas de discurso - toma forma. Passa da hora da TV brasileira atentar para o fenômeno.


(Imagem retirada daqui)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Sobre o neoudenismo

- “Não há nada pior do que o bom-mocismo!” – costuma brandir, com mordacidade e um sorriso maroto na cara de lua cheia, uma amiga de copos e papos, das mais brilhantes professoras que conheço.

Ela, como eu e tantos mais, considera a corrupção um mal dos mais abomináveis, daqueles que não devem nunca ser negligenciados – como às vezes o são por certos colunistas chapa-branca -; uma prática capilarizada em virtualmente todos os estratos sociais brasileiros e que tanto atraso causou e causa ao país.

Porém, para nós, como a frase que abre o post indica, ainda mas execrável do que a corrupção é o moralismo barato que, travestido com os modos e as intenções puritanas do bom-mocismo, a explora, a fomenta e dela se alimenta como os vermes que devoram as entranhas das crianças pançudas: o neoudenismo.

A razão de ser do neoudenismo é o escândalo, jamais a cura dos males que denuncia. A corrupção é sua moeda de troca, os dossiês produzidos na calada da noite a sua leitura; os grampos, os vazamentos e os arapongas os seus fetiches.

Assim, embora afete grande preocupação cívica, ele é, na verdade, anti-Brasil e antipovo: torce pelo pior, deseja o fracasso, anseia pela derrota, pois o sucesso e o progresso do país minam seu campo de ação, diminuem seu status público e ameaçam sua conta bancária.

São figuras que fingem se indignar com a corrupção que grassa no país que só conhecem através do vidro do carro blindado.

Rousseau concebe na espécie humana dois tipos de desigualdades: a primeira seria a natural ou física, estabelecida pela natureza, “que consiste na diferença das idades, da saúde, das forças do corpo e das qualidades do espírito, ou da alma”; a segunda, a desigualdade moral ou política, que se caracterizaria pelos diferentes privilégios de que gozam alguns em prejuízo de outros. É justamente para conservar o status quo desta – marcado por pronunciadas assimetrias - que os neoudenistas alimentam as “qualidades de seu espírito” com os sentimentos da ganância, da cobiça, da empáfia e do preconceito, devidamente dissimulados sob o manto da indignação moral.

O “eterno presente” em que, segundo Eric Hobsbawn, vivemos, ajuda a disseminar a crença segundo a qual o neoudenista seria uma cria bastarda do fla-flu político que ora ocorre no país. Ledo engano. Dá-se exatamente o contrário: a impressão de maniqueísmo binário que se depreende da política brasileira é que é, em grande parte, produzida, propositadamente, pela ação do neoudenismo.

Pois em sua corrente sanguínea fluem os vírus antidemocráticos do golpismo: já em sua gênese – o udenismo de Carlos Lacerda – a razão de sua luta era impedir um presidente democraticamente eleito de governar. Qualquer semelhança com as atuais ações de políticos ruins de voto em seus estados de origem - mas sempre com o microfone e as câmeras do Jornal Nacional à disposição - não é mera coincidência.

Os neoudenistas são um pagode de ex-comunistas (como Lacerda), ex-guerrilheiros (como um certo verde que virou queridinho da Veja), ex-cineastas (como aquele que virou comentarista tucano), ex-sabe-se-lá-o-quê. Tentam justificar sua condição de ex como um avanço, o abandono de uma posição equivocada – e, segundo eles, anacrônica – em prol de uma visão desprovida de dogmas políticos, avançada em sua tecnicidade e impecável em sua moral resoluta.

Mas não se trata de nada disso: a única coisa a que o neoudenista renuncia, quando abre mão de tal passado, é justamente à ética, e a favor de uma teleologia cujo fim único é sua autopromoção como jornalista ou político – posições em que, açulados por um oligopólio midiático sem condições para questionar sequer a ética de uma ameba, assomam ao palanque das TVs, revistas e jornais para o seu show de escândalo fácil.

Ele é basicamente um charlatão, mas ao invés de tônicos para crescer cabelos ou para fazer sumir verrugas o que ele negocia, paradoxalmente, é a certeza – verdadeira ou não - de que tudo está sendo corroído, dilapidado, fraudado. Seu público são os ingênuos, as pessoas de bom coração, aqueles brasileiros bem-intencionados e ainda capazes de se indignar e lutar por mudanças, dispostos a berrar palavras de ordem – Fora, Sarney! – sem saber que o que o neoudenista que os inflama quer é tirar um sarney inimigo para botar outro sarney amigo em seu lugar, mas jamais, nunca, em hipótese alguma, alterar as estruturas de onde vicejam sarneys – pois isso significaria o próprio fim dele, neoudenista.

O neoudenismo é como o cinema clássico visto por Laura Mulvey, em sua exploração sadístico/voyerística do corpo feminino: importa-lhe o espetáculo, não a essência; é como o circo para o palhaço: importa-lhe o picadeiro onde faz estripulias, não os bastidores onde bebe até cair; é como um cafetão que tem a moral como a prostituta a explorar visando o próprio lucro.

O neoudenista é, enfim, como o abutre, que o Houaiss define, em uma das acepções, como o “indivíduo que deseja a morte de outrem para apossar-se do que lhe pertence”. A cobiça é o seu motor, a maledicência sua profissão, o denuncismo o seu ganha-pão.

São o contrário do Brasil solar, da esperança, das 30 milhões de pessoas que saíram da pobreza nos últimos anos e constituem uma classe média em ascensão; do gole na cerveja gelada em uma tarde de domingo, das pernas quentes, do beijo molhado, de tudo o que seja sumo, umidade, calor, prazer; são o oposto dos brasileiros que aplaudem o pôr-de-sol nas praias, de jaboticaba colhida no pé, de um movimento de Daiane dos Santos, de uma crônica de Aldir Blanc ou de um chorinho de Pixinguinha.

Pois seu universo é o das vaias e do negativismo; do ressentimento e da crítica destrutiva; da vergonha de ser brasileiro e de falar português; da ojeriza a negros e a cotas; de tudo o que seja popular, massivo, alegre, bronzeado, festivo.

São uma espécime que se alimenta da escuridão e do medo, caranguejo radiativo que “vive no putrefato, lodoso mangue que o anula e o anima; na lacustre, mórbida espera”, como escreveu o poeta.

São os profetas do atraso e os arautos do caos.

São o que há de mais falso e repugnante no país.

Pois o neoudenismo é a hipocrisia em forma de indignação.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

MST e laranjas

O MST é detestado por todos: da direita ruralista à esquerda chavista, passando por tucanos, petistas, psolentos, verdes, azuis e amarelos. Mesmo os que fingem apoiar o MST o detestam.

Isso porque há uma antipatia ancestral e inata contra o MST, esse arquétipo de nosso inconsciente coletivo, esse cancro irremovível que insiste em nos lembrar, mesmo nos períodos de bonança, que fomos o último país do mundo a abolir a escravidão e continuamos sendo uma porcaria de nação que jamais fez a reforma agrária.

O MST é o espelho que reflete o que não queremos ver.

Há duas questões, na vida nacional, que contradizem qualquer discurso político da boca pra fora e revelam qual é, mesmo, de verdade, a tendência ideologica de cada um de nós, brasileiros: a violência urbana e o MST. Diante deles, aqueles que até ontem pareciam ser os mais democráticos e politicamente esclarecidos passam a defender que se toque fogo nas favelas, que se mate de vez esse bando de baderneiros do campo, PORRA, CARAJO, MIERDA, MALDITOS DIREITOS HUMANOS!

O MST nos faz atentar para o fato de que em cada um de nós há um Esteban de A Casa dos Espíritos; há o ditador, cuja existência atravessa os séculos, de que nos fala Gabriel García Márquez em O Outono do Patriarca; há os traços irremovíveis de nossa patriarcalidade latinoamericana, que indistingue sexo, raça, faixa etária ou classe social:

O MST é o negro amarrado no tronco, que chicoteamos com prazer e volúpia.

O MST é Canudos redivivo e atomizado em pleno século XXI.

O MST é a Geni da música do Chico Buarque - boa pra apanhar, feita pra cuspir – com a diferença de que, para frustração de nossa maledicência, jamais se deita com o comandante do zeppelin gigante.

E, acima de tudo, O MST é um assassino de laranjas!

E ainda que as laranjas fossem transgênicas, corporativas, grilheiras, estivessem podres, com fungos, corrimento, caspa e mau hálito, eles têm de pagar pela chacina cítrica! Chega de impunidade! Como o João Dória Jr., cansei!


Jornalismo pungente
Afinal, foi tudo registrado em imagens – e imagens, como sabemos, não mentem. Estas, por sua vez, foram exibidas numa reportagem pungente do Jornal Nacional - mais um grande momento da mídia brasileira -, merecedora, no mínimo, do prêmio Pulitzer. Categoria: manipulação jornalística. Fátima Bernardes fez aquela cara de dominatrix indignada; seu marido soergueu uma das sobrancelhas por sob a mecha branca e, além dos litros de secreção vaginal a inundar calcinhas em pleno sofá da sala, o gesto trouxe à tona a verdade inextricável: os “agentes“ do MST são um bando de bárbaros.

(Para quem não viu a reportagem, informo,a bem da verdade, que ela cumpriu à risca as regras do bom jornalismo: após uns dez minutos de imagens e depoimentos acusando o MST, Fátima leu, com cara de quem comeu jiló com banana verde, uma nota de 10 segundos do MST. Isso se chama, em globalês, ouvir o outro lado.)

Desde então, setores da própria esquerda cobram do MST sensatez, inteligência, que não dirija seu exército nuclear assassino contra os pobres pés de laranja indefesos justo agora, que os ruralistas tentam instalar, pela 3ª vez, como se as leis fossem uma questão de tanto bate até que fura, uma CPI contra o movimento (afinal, é preciso investigar porque o governo “dá” R$155 milhões a “entidades ligadas ao MST”, mesmo que ninguém nunca venha a público esclarecer como obteve tal informação, como chegou a esse número, que entidades são essas nem qual o grau de sua ligação com o MST: O Incra, por exemplo, está nessa lista como ligado ao MST?).


A insensatez dos miseráveis
Ora, o MST é um movimento social nascido da miséria, da necessidade e do desespero. Eles estão em plena luta contra uma estrutura agrária arcaica e concentradora. Não se pode esperar sensatez de movimentos sociais da base da pirâmide social, que lutam por um direito básico do ser humano. Pelo contrário: é justamente a insensatez, a ousadia, a coragem de desafiar convenções que faz do MST um dos únicos movimentos sociais de fato transgressores na história brasileira. Pois quem só protesta de acordo com os termos determinados pelo Poder não está protestando de fato, mas sendo manipulado. Se os perigosos agentes vermelhos do MST tivessem sensatez, vestiriam um terno e iriam para o Congresso fazer conchavos, não ficariam duelando com moinhos de vento, digo, pés de laranja.

Mas é justamente por isso que o MST incomoda a tantos: ele, ao contrário de nós, ousa desafiar as convenções: ele é o membro rebelde de nossa sociedade que transgride o tabu e destroi o totem. Portanto, para restituição da ordem capitalista/patriarcal e para aplacar nossa inveja reprimida, ele tem de ser punido. Ele é o outro.Quantos de nós já se perguntaram como é viver sob lonas e gravetos – em condições piores do que nas piores favelas -, à beira das estradas, em lugares ermos e remotos, sujeito a ataques noturnos repentinos dos tanto que os detestam? Quantos já permaneceram num acampamento do MST por mais do que um dia, observando o que comem (e, sobretudo, o que deixam de comer), o que lhes falta, como são suas condições de vida?

Poucos, muito poucos, não é mesmo? Até porque nem a sobrancelha erótica do Bonner nem o olhar-chicote da Fátima jamais se interessaram pelo desespero das mães procurando, aos gritos, pelos filhos enquanto o acampamento arde em fogo às 3 da madrugada, nem pelas crianças de 3,4 anos que amanhecem coberta de hematomas dos chutes desferidos pelos jagunços invasores, ao lado do corpo de seus pais, assassinados covardemente pelas costas e cujo sangue avermelha o rio.

Para estes, resta, desde sempre, a mesma cova ancestral, com palmos medidas, como a parte que lhes cabe neste latifúndio.

Para a mídia, pés de laranja valem mais do que a vida humana, quero dizer, a vida subumana de um miserável que cometeu a ousadia suprema de lutar para reverter sua situação.

Mas os bárbaros, claro está, são o MST.

Por isso, haja o que houver, o MST é o culpado.


(Foto dos marginais-mirins do MST, por Sebastião Salgado, retirada daqui; foto das mansões dos assassinos de laranja retiradas daqui)