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quarta-feira, 18 de março de 2015

Guia Militonto para Desqualificar Protestos

Centenas de milhares de pessoas saíram às ruas protestando contra o governo que você venera?


Não se aflija, aqui damos todas as dicas para você reagir do modo mais democrático: desqualificando os protestos e os manifestantes:


1) Culpe a mídia.


2) Diga que só teve classe média coxinha e demais não-cidadãos.


3) Escolha os cartazes mais absurdos, classistas, retrógrados e sem noção e associe toda a multidão à ideologia que apregoam.


4) Use um critério racial diferenciado: quem não for retinto, é branco. E rico.


5) Lembre-se: um bom Photoshop vale mais que mil palavras: faça desaparecer os cartazes sensatos, dê uma embranqueçada geral nas pessoas, coloque drinks com guarda-chuvinha na mão delas; desenhe bigodes de Hitler nos rapazes e polvilhe uns símbolos proibidos aqui e ali.


6) Culpe a mídia (mas não mencione a Secom, porque alguém pode divulgar a fortuna que o governo repassa às empresas de comunicação e pegar mal).


7) Minta sobre o tamanho da Paulista. Se alguém falar em 2,8 Km solte um “QUE ISSO!?” indignado e, de bate-pronto: “Nem a metade disso!”, emendando com um marketing básico: “E a parte central tá toda em obras: o Haddad vai implementar as ciclovias. Coisa de primeiro mundo!"


8) Cite o menor público possível, mesmo se o único instituto que o afiancie seja ligado àquele jornal da ditabranda e tenha, sempre, chutado pra baixo o número de participantes dos movimentos da esquerda.


9) Faça um vídeo: entreviste só a Opus Dei, populares com aparência de psicopata, defensores do golpe militar, gente que leva o Aécio a sério. Edite de modo a dar impressão que os outros 99,8% dos participantes são assim. Ah, e coloque ao fundo uns efeitos sonoros de comício nazista.


10) Faça como o grande lider deputado Sabá: atribue tudo a armação da CIA: IANQUES, GO HOME!


11) Classifique os protestantes com rótulos pregnantes: “Coxinha”, “Bebedor de Black Label”, “Patricinha com faixinha”, “Playboy indignado”, “Frequentador de sanduicheria”, "Sommelier de ceviche", “Ruralista escravocrata” (não, pera...).


12) Denuncie todo o tempo o GOLPE iminente, dizendo coisas como “isso sempre acontece quando o povo está no poder”.


13) Minta que você fez uma pesquisa entre os manifestantes e deu: Melhor Artista: Lobão; Melhor grupo: Engenheiros do Hawaii; Melhor cantor: Agnaldo Timóteo; Menção honrosa: Dom e Ravel.


14) Indigne-se com a indignação coletiva contra o Petrolão, bradando: “E sobre a água, nada?”, “Me engana que são todos honestos...”, “Quando vão protestar contra os trens do Alckmin?”


15) Culpe a mídia (mas não dê um pio sobre sua regulamentação, porque alguém pode lembrar que o PT dá no poder há mais de 12 anos e nunca mexeu uma palha nesse sentido). 

16) Tenha semprem em mente a lição do marqueteiro oficial: debate civilizado é para os fracos; o negócio, na democracia, é desqualificar. 

P.S. "A pedidos", incluo mais um item: Frisar que SÓ NESSES PROTESTOS se vê socialites com peitos turbinados de fora, coisa raríssima no Brasil.


(Imagem retirada daqui)

domingo, 15 de março de 2015

Porque sou contra o impeachment de Dilma


 Uma das maneiras mais justas e eficazes de se avaliar um governo é comparar o país que recebeu de seu antecessor com o país que entregou a seu sucessor.

Por esse critério, o primeiro governo Dilma foi péssimo: recebeu, segundo a própria historiografia petista, um país eufórico, um player ascendente no cenário global, com uma economia pungente, que superara a quase-falência dos anos FHC e para a qual a crise mundial não passara alegadamente de “uma marolinha”. Uma nação onde toda uma classe social composta de dezenas de milhões de pessoas acabara de ascender; um exemplo mundial de integração da pobreza e de combate à miséria.

Entregou, quatro anos depois, o que aí está: um país economicamente estagnado, que mais uma vez, como fizera durante os ano 80 e 90, sacrifica os direitos dos cidadãos em prol do pagamento de juros bancários, com a condução da economia de novo entregue à sanha ortodoxa dos neoliberais, aos quais o PT fora eleito para se contrapor (mas que Dilma prefere acomodar na Fazenda).

Uma nação trespassada pela corrupção, com sua maior empresa, estatal de capital aberto, no pivô de um dos grandes escândalos da história mundial, com consequências graves e diretas para a própria dinâmica da economia industrial do país.

Um território onde o misto de arcaismo e populismo na administração dos recursos energéticos, somado ao absoluto desprezo pelas questões ambientais leva, ao mesno tempo, a secas de efeitos catastróficos e a inundações devastadoras.

Uma pátria moralista, que enquanto o mundo debate a descriminalização da maconha e a plena integração dos cidadãos e cidadãs à revelia de sua sexualidade, vê crescer o preconceito religioso e a perigosa união entre poder político e poder religioso, sob patrocinio governamental.

Uma terra de ninguém, onde direitos humanos só valem para certos estratos socioeconômicos, enquanto os pobres são diariamente aniquilados pela repressão periférica que orienta a ação das polícias e os últimos índios vêm sendo exterminados de forma incólume.

Mas, para o bem ou para o mal – e a não ser que se prove de forma documentada um envolvimento direto de Dilma no escândalo da Petrobras – ser uma péssima governante, incoerente com o que passou a vida defendendo e negligente até mesmo na área em que é especialista não justificam o impeachment. O remédio contra tudo isso são as eleições, escolhendo melhor em quem votar.




Mentiras a granel
Os argumentos contra Dilma, porém, não se restringem à sua inaptidão administrativa: listam comportamentos impróprios a candidatos e ocupantes da Presidência. Trata-se, por exemplo, de uma figura pública que mente constantemente e sem sequer enrubescer: em sua primeira campanha eleitoral, prometeu de forma reiterada (há gravações em vídeo) não privatizar o Pré-Sal, mas, uma vez no poder, o privatizou, e com marcos regulatórios fernandistas.

Na segunda campanha, prometeu que não faria aquilo que afirmava que os adversários fariam: atacar direitos dos trabalhadores. Empossada, já no primeiro mês anunciou um brutal arrocho sobre direitos previdênciários e trabalhistas, afetando justamente os mais pobres com medidas referentes ao seguro-desemprego, ao seguro de pescadores e a pensão por morte.

Desde o primeiro mandato, afirma, a cada discurso, priorizar a Educação, mas qualquer pessoa da área sabe não passar de truque retórico, dela e de seus marqueteiros, cientes de que o povo valoriza o investimento em tal atividade.

A realidade é bem outra: os professores universitários vêm sendo mantidos a páo e água, sem um aumento sequer, desde que ousaram recorrer ao direito de greve para protestar; as “novas” universidades servem de ilustração contemporânea ao dito de Lévi-Strauss (“aqui tudo parece que é ainda construção, mas já é ruína”), com suas salas inacabadas, laboratórios improvisados em contêineres, goteiras, ausência de climatização em regiões tórridas, número abusivo de professores substitutos e absoluto desleixo com o acervo das bibliotecas.

O Ciência Sem Fronteiras, truque de marketing em que, sem a mínima justificação pedagógica, graduandos iam fazer “turismo educacional” no exterior, e o FIES, programa questionável já em sua concepção, ao transferir vultosos recursos públicos a universidades particulares - muitas de qualidade pra lá de duvidável -, sofrem agora cortes abruptos e repentinos, frustrando dezenas de milhares de estudantes aos quais fora garantido expectativa de acesso.

Apesar desse cenário de caos, Dilma não hesita em fazer divulgar o slogan “Pátria Educadora”, num momento em que o arrocho determinado por Levy faz com que, nas federais, falte água, papel higiênico e até verba para as contas de energia elétrica e os serviços terceirizados de limpeza e segurança.

Mas, uma vez mais, é preciso reconhecer: para o bem ou para o mal, ser uma mentirosa contumaz, entregar o nosso petróleo e promover uma manipulação cosmética da Educação não são motivos para impeachment.


Impunidade eleitoral
Talvez já passe da hora de se rever a respectiva legislação e de a Justiça Eleitoral assumir uma atitude mais pró-ativa nos pleitos, coibindo as desqualificações agressivas e mentirosas que vimos nas últimas eleições e adotando medidas para impedir que um candidato se comprometa a não fazer o que alega que seus concorrentes fariam e, no poder, um mês depois, vir a fazer exatamente isto, sem que o cenário tenha drasticamente mudado.

Alguns qualificam tal atitude como estelionato eleitoral. Mas, por enquanto, as leis e a justiça eleitorais não punem tais trasngressões, o que dizer com impeachment. Portanto, contra tais males, o remédio segue sendo o voto.



Para além do aqui-agora
A ausência de projetos de médio e longo prazos, preteridos em prol de um improviso constante, frutoso quando a economia ajuda, socialmente cruel em períodos de vacas magras, como o atual, tampouco são motivos para impeachment. Se tais projetos não passarem a compor a pauta governamental, e logo, dificilmente o Brasil poderá voltar a sonhar, no curto prazo, em ser uma nação bem-sucedida, ou seja, com menos desigualdade interna, com Educação e Saúde de qualidade, com soluções urbanas e níveis de violência que permitam às pessoas – homens, mulheres e transgêneros - caminhar pelas ruas a qualquer hora do dia e da noite, como é comum nos paíes verdadeiramente civilizados do globo.

O governo Dilma quase nada tem contribuído para a melhoria de tal quadro – ao contrário, com a crise e a insegurança que provoca, tem retrocedido. Sò que  isso também não é motivo para impeachment. De novo: a solução está no voto.


Impeachment: não à banalização
Porém, os motivos que me fazem ser contra o impeachment de Dilma, embora repute como muito ruim o seu governo, incluem e transcendem a constatação de que a ação da presidente não apresenta condutas que justifiquem, do ponto de vista legal, a invocação de impeachment.

O principal desses motivos é a convicção de que, como apregoa a Constituição, o impeachment é medida de extrema exceção, um ato ao qual só se deve recorrer em situações de indubitável excepecionalidade, como atitude comprovadamente criminosa do presidente no exercício do cargo ou algo de similar gravidade.

O recurso ao impeachment em qualquer outro contexto abre precedentes perigosos e tende a enfraquecer ainda mais a democracia brasileira, ainda tão precária em termos eleitorais, participativos e institucionais.

O próprio impeachment de Collor deu início a um jogo de derruba-presidentes do qual nenhum de seus antecessores se livrou (praticado inclusive pelo PT, na campanha “Fora FHC"). Foi péssimo para o país, pois, erigido em meio a guerras de dossiês, tomou o lugar do que deveria ser um debate de projetos e propostas.

Pouco mais de 20 anos depois, reeditar esse rito sumário seria enfraquecer ainda mais a democracia e o voto, açulando, nos anos seguintes, uma guerra política em torno não de agendas programáticas, mas de constrangimentos e armadilhas voltados a pressionar, chantagear e, no limite, decretar o impeachment dos presidentes vindouros. Um filme já visto, em eterno looping.


Cría Cuervos
Por fim, há uma razão propriamente partidária, menor, que me faz ser contra o impeachment de Dilma: o petismo, sobretudo após o “mensalão”, passou a difundir, como parte da estratégia desqualificadora que emprestou do neoconservadorismo e aplica a adversários, um discurso vitimizante, chamando de “golpista” a mídia, o Judiciário ou quem quer que critique, contrarie ou se oponha ao partido. A cada reação negativa que medidas de Lula ou Dilma provocam, os militantes veem um golpe de Estado.

Um eventual impeachment de Dilma iria tranformar em realidade a paranoia petista, perpetuando fantasmagorias e criando um mártir eterno para o partido e, a despeito da orientação social liberal dos governos petistas, também para certos setores que se dizem de esquerda. Há razões de sobra para supor que essa espécie de peronização da politica brasileira seria altamente nefasta, ao perpetuar mitos e, ainda que falsa, a mística da salvadora injustiçada.

Dilma é apenas uma presidente ruim em um péssimo momento, o qual até o jornalista e ex-porta-voz petista Ricardo Kotscho reconhece: “desde a sua posse para o segundo mandato, isolada e autossuficiente, a presidente tem conseguido errar 100%.” Não merece, portanto, ser brindada com um impeachment para que vire mártir. 

Não votei em Dilma e lamento pelos que o fizeram, mas há de se reconhecer que ela é a presidente legalmente eleita, em pleito internacionalmente reconhecido como honesto. 

Quem não está satisfeito pense melhor na próxima vez em que for votar.


(Imagem retirada daqui


segunda-feira, 9 de março de 2015

Petrolão e a crise do modelo bipolar

Um dos principais problemas de se viver em uma sociedade em que a política é polarizada, marcadamente dominada por duas forças partidárias – como ocorre no Brasil – é a ausência de nuances, ponderação e precisão.

Tão necessárias ao diagnóstico de problemas e da eficácia dos programas para combatê-los, tais considerações têm sido rotineiramente substituídas, nos fóruns políticos, por pareceres definitivos e incontrastáveis, ora de irrestrita apovação, ora de desqualificação (a principal tática retórica de nossos dias, que os marqueteiros políticos importaram do jornalismo neocon, tornando ainda mais despolitizadas e agressivas as campanhas eleitorais, como acabamos de testemunhar no pleito presidencial).

Instaura-se assim uma lógica binária fortemente contrastada, ou branco ou preto, sem espaço para as demais tonalidades, o cinza que muitas vezes melhor espelha o real. Isso, por sua vez, acaba por gerar um contágio, uma vicissitude no campo político, onde os graus de positividade ou negatividade dos eventos são forte e particularmente determinados pela perspectiva adotada pelo observador: mesmo os analistas que não professam nem o credo petista nem o dogma neoliberal dos tucanos acabam tendo, com raríssimas exceções, suas análises contaminadas por esse binarismo emocional e primário.



Décadas de bipolarização
Ao longo de mais de duas décadas de polarização entre PT e PSDB, multiplicam-se os exemplos do quanto tal dinâmica tem sido prejudicial ao debate político – sobretudo àquele mais interessado no avanço do país do que no sucesso ou fracasso desta ou daquela linha política, blog ou ego.

Atualmente, repete-se uma vez mais tal processo, no bojo do debate em torno da corrupção, com os escândalos do Petrolão e do HSBC mobilizando militantes que agem como torcedores fanatizados. Não disputam quem foi mais honesto, mas quem roubou menos, como se cada coincidência entre um tucano e um petista corruptos magicamente anulasse o “malfeito”, significasse equivalência e produzisse uma redução – e não um aumento – desse câncer que corrói a vida pública brasileira, com reflexos diretos na qualidade de vida que o Estado proporciona aos cidadãos e em nossa evolução como nação.

Tal estratégia negadora, que não passa de um truque de retórica, oculta, ainda, a natureza deveras diversa entre si dos escândalos do Petrolão e do HSBC – e o encaminhamento diferenciado que cada um deles requer.



Naturezas diversas
O caso da Petrobras é um exemplo “clássico” de corrupção, com corruptores bilionários de um lado - sendo pela primeira vez devidamente flagrados e processados - e gestores corruptos de outro, aparelhados em uma empresa estatal de capital aberto por partidos ou lideranças políticas. O X da questão é justamente a acusação de que tais entes políticos se benefeciaram diretamente das negociatas, recebendo quantias exorbitantes, no que seria, pelo volume de recursos financeiros, duração e grau de sistematização, o maior escândalo de corrupção do planeta.

O caso HSBC, embora também grave, é bem diferente, por tratar-se antes de indício de fraude fiscal - e, em decorrência, de suspeita de fundos obtidos de forma ilegal - do que de um caso tentacular de corrupção, delatado por depoimentos de envolvidos e corroborado por documentação. Mesmo porque, como o rigor jornalístico exige que se registre, não há absolutamente nada de errado em manter contas numeradas na Suíça, como fazem milionários e bilionários do mundo todo. Este blogueiro, se um dia vier a ganhar sozinho na Sena, certamente vai guardar parte do dinheiro lá, como medida de proteção contra a insegurança criminal e monetária reinante em nosso país. Ocorre, porém, que, no caso dos brasileiros, o montante lá guardado tem de ser declarado à Receita Federal – do contrário, o não-declarante estará cometendo crime fiscal. Sabe-se que ao menos algumas dezenas dos nomes da lista de correntistas que vazou incorreram em tal crime. Em relação a esses, sim, será necessário traçar a origem do dinheiro e investigar se se origina ou não de corrupção - e, em caso afirmativo, fazer valer o rigor da lei.



Petrolão: um escândalo da base aliada
Não é preciso muita expertise para se aperceber que os dois casos são de natureza e estágios de investigação bem diferentes, e que não há razâo objetiva para assumir que um anula o outro – pelo contrário, eles se somam como indicio (ou, eventualmente, provas) de ilegalidades e da forma endêmica como a corrupção manifesta-se no país.

O escândalo da Petrobras já avançou bem mais nas investigações. A primeira fornada de acusados, cujos nomes foram divulgados pelo STF na sexta, mostra o envolvimento profundo dos governos Lula e Dilma: dos 47 investigados, só três não pertencem a partidos da base aliada (mas sendo que um deles, o reincidente Fernando Collor, tem rotineiramente apoiado o governo).



Fora do mundo
Ainda assim, a militância virtual petista, cada vez mais desconectada da realidade, prefere martelar nas redes sociais o nome de Aécio Neves, cujas investigações foram arquivadas pela Procuradoria-Geral da República por falta de provas. Afinal, uma mentira, deveras repetida, em verdade se transforma, já disse um “filósofo” alemão. Por outro lado, e sem exceção, “passou desapercebido” a tal militância que a mesma PGR declarou, no âmbito da Operação Lava Jato, não poder investigar a presidente Dilma por "atos estranhos ao exercício de sua função", ou seja, devido a impedimento constitucional (e não a presunção de inocência); mas, no bojo da investigação sobre Antonio Palocci (PT/SP) efetivamente requisitou apuração sobre a arrecadação de recursos para a campanha presidencial de 2010. Curto e claro: o fato é que Dilma ainda está sob investigação; Aécio não.

Não obstante o envolvimento de 44 membros da base aliada no Petrolão, o petismo, assim como fizera no Mensalão, recusa qualquer autocrítica ou pedido público de desculpas por permitir (ou, na melhor das hipóteses, não se dar conta, o que denotaria grave incompetência) que vultosas quantias de dinheiro público fossem assacadas ilegalmente de uma empresa estatal de capital aberto para favorecer interesses individuais e políticos. Em vez de qualquer gesto que denote civismo, arrependimento e respeito pelo cidadão, o petismo no poder prefere adotar a estratégia apelativa e desavergonhada de tentar jogar no colo de um presidente que deixou o poder há bem mais de uma década, pois um dos depoentes afirma ter recebido propina já em sua gestão.



“Heranças malditas” e impunes
Ora, seria cômico se não fosse trágico: mais de 12 anos se passaram após FHC ter passado a faixa presidencial a Lula, o qual sempre afirmou ter recebido uma “herança maldita” mas jamais moveu uma palha para investigar a privataria tucana ou a alegada compra de votos para a eleição. Ao contrário: acovardou-se em nome da governabilidade, essa desculpa multiuso que o petismo utiliza para todo e qualquer retrocesso.

Agora, quando o esquema da Petrobras estoura e cobra-se o preço pela realpolitik por demais elástica que reabilitou Collor e prestigiou o PP de Maluf (partido líder em investigados na Lava-Jato, com 32 nomes), o governo procura descolar-se da aliança que o sustentou até aqui e fingir desconhecer o que acontecia na estatal nos últimos 12 anos, mesmo com Dilma tendo egressado da área energética e tendo presidido o conselho da estatal. Acredita quem quer.



Jogo pra plateia
Se as investigações levarem ao governo FHC é evidente que ele deve ser investigado e, se culpado, punido. Mas, como ocorre em qualquer lugar do mundo, prioriza-se a investigação do caso concreto e atual de corrupção, avançando-se retroativamente à medida que se punem os culpados, dos atuais aos mais antigos.

O jogo bipolar de troca de acusações e transferência de responsabilidades entre petistas e tucanos pode funcionar junto aos setores da militância de ambos os partidos que, espellhando seus dirigentes, abdicaram, há tempos, da fidelidade a coesão ideológica e programática e da capacidade de autocrítica, em prol de uma guerra diária onde o que conta é a capacidade de desqualificação do outro e o número de views e de curtidas obtido nos blogs e redes sociais.



Siameses
Mas, como aponta o sociológo Marcelo Castañeda, “A saída mais simples é dizer que todos os problemas começaram com o PSDB e FHC. Ao reforçar essa polarização perniciosa da representação, esvaziadora de qualquer debate e comprometedora da construção de outras vias, somos colocados cada vez mais num deserto de alternativas. (...) É hora de romper com o simplismo esquemático da polarização, que se perpetua como um moto contínuo entre dois lados que se definem pela negação belicosa do outro”

Com efeito, qualquer observador de bom senso apontaria, após duas décadas, o esgotamento tanto do modelo tucano quanto do modelo petista, mesmo porque, culminando com a volta da ortodoxia econômica via Joaquim Levy, esses dois polos se tornam, paradoxalmente, cada vez mais indistinguíveis um do outro – e não só em sua completa submissão aos desígnios do chamado “mercado financeiro”, mas no descompromisso com qualquer política de Estado concebida a partir de metas, parâmetros e diretrizes ideológicas claros, de curto, médio ou longo prazo. Exatamente do tipo que o Brasil desesperadamente precisa.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

PT, 35 anos: comemorar o quê?


O PT completa 35 anos, em um momento de profunda inquietação quanto ao futuro do partido e do país.

Os motivos para comemoração - a conquista, pela quarta vez consecutiva, da Presidência da República, a eleição do prefeito da maior cidade e do governador do terceiro maior estado do país – têm sido eclipsados pela derrocada econômica do governo Dilma, por uma crise política sem precedentes, e pelo envolvimento em graves e sucessivos casos de corrupção – destacadamente, o Mensalão e o Petrolão.



Mudança de imagem
Na última década, o partido que durante anos representou, para dezenas de milhões de brasileiros, a perspectiva de profundas mudanças sociais no país tornou-se parte do establishment. A esperança, mote de campanha, foi cedendo lugar ao conformismo e hoje, justa ou injustamente, o PT é por muitos visto como capaz de tudo pela manutenção do poder, como uma força corporativista dada a aparelhar e patrmonializar o Estado, como um símbolo máximo da corrupção.

Além dos escândalos já mencionados, colabora decisivamente para essa impressão o extremo pragmatismo como a agremiação, ao menos desde 2001, vem exercendo a chamada realpolitik, com acordos desprovidos de qualquer afinidade ideológica ou programática, e em que as plataformas originais petistas acabam sacrificadas em prol do apoio de figuras-símbolo do conservadorismo, sem que se evidencie qualquer pudor ético ou limite. Começou com Sarney e os caciques peemedebistas, “evoluiu” pra Maluf, pra Collor, pra Kassab, e agora atinge o paroxismo com o ministério da Agricultura sendo ocupado por uma líder ruralista e megalatifundiária, adversária histórica do petismo, contra quem pesam acusações que vão de desmatamento a exploração de trabalho escravo.



Alianças elásticas
Para piorar, essa estratégia das alianças sem critério soa cada vez mais ineficaz, já que se tem com frequência a impressão de que o PT, através de tais acordos, adota uma agenda conservadora em troca de nada. Pois, a despeito da alegada maioria que lhe assegurariam as “bases aliadas”, vira e mexe o partido está sendo acossado ou, nas ocasiões mais importantes, sofre derrotas históricas no parlamento – como na votação do ICMS, na era Lula, ou a recente vitória de Eduardo Cunha (PMDB/RJ) para a presidência da Câmara, na era Dilma.

Por fim, para evitar a ebulição interna que tais alianças invariavelmente provocavam, o PT foi pouco a pouco perdendo duas de suas mais admiráveis características: a interlocução direta com a sociedade, notadamente no que diz respeito aos movimentos sociais; e a democracia interna, que muitas vezes incluía choques desgastantes mas, em compensação, trazia legitimidade às suas decisões, debatidas e reformatadas até a obtenção de um consenso. Hoje, nesse quesito, o partido lembra o PRI mexicano, em que os candidatos são escolhidos à base do dedazo, com Lula determinando a cada eleição quais os “postes” que irão concorrer nas eleições, enquanto a militância bovinamente acata.



O álibi tucano
Pode-se argumentar – como os militantes fazem de forma recorrente, qualquer que seja o assunto – que no PSDB também é assim, com um grupo de caciques em torno de uma garrafa de vinho - francês, naturalmente - decidindo o futuro da agremiação. Porém, o que essa (e as demais) comparação com os tucanos dissimula é que o PT se apresentou na vida política brasileira como uma forma de superação do peessedebismo, uma alternativa melhor, e não como um partido que faz das práticas do PSDB um álibi para incorrer em práticas semelhantes - ou iguais.

Mas o que foi exposto acima não cobre toda a história do PT, dizendo respeito a desdobramentos dos últimos 12 anos, período em que o partido deixou de ser estilingue e virou janela, ocupando a Presidência da República. Seria injusto, é claro, formar um juízo de valor acerca do PT a partir de seu pior momento, de sua pior crise. Por outro lado, deixar de considerar o grau de deteriozação alcançado neste momento pelo partido seria negligenciar os efeitos últimos de suas opções ao longo do tempo, o impasse em que ora se encontra e o leque restrito de perspectivas disponíveis.



Novidade na politica
O Partido dos Trabalhadores, tal como surgido da confluência da ação do operariado do ABC capitaneado por Lula, de jovens lideranças da esquerda católica e de intelectuais, tanto acadêmicos (como Florestan Fernandes), quanto do mundo (como Carlito Maia) representou uma lufada de renovação no cenário totalitário e bipartide da ditadura, em distensão. Mas a novidade não estava desprovida de polêmicas: a suspeita de que seria instrumentalizado pelos militares para rachar a esquerda – como de fato viria a ocorrer, destacadamente nas eleições presidenciais de 1989 – vinha tanto dos comunistas quanto da oposição moderada, então representada pelo MDB.

Mas, após quase duas décadas de ditadura, em que a política oficial se limitava, como dizem maldosamente alguns, às querelas entre o “partido do 'sim' e o partido do 'sim, senhor'”, o PT do início dos anos 80 fascinava, com suas bandeiras vermelhas, seu lider operário de barba desgrenhada, rouquenho e sem papas na língua (em franca desarmonia como mundo dos generais carrancudos e políticos de fala polida e ternos mal cortados), seus broches de estrelinha, que – atenção para a penetração incipiente na juventude de classe média - as meninas dos centros acadêmicos vendiam para ajudar o partido.



Um vibrante começo
As primeiras vitórias eleitorais do PT - Maria Luiza Fontenelle em Fortaleza, Telma de Souza em Santos, Luiza Erundina em São Paulo - têm em comum o fato de corroborarem o partido como uma força à esquerda, voltada prioritariamente ao social, e de serem abruptamente descontinuadas graças à ação tanto da mídia corporativa (em um tempo em que não havia internet para fazer um contraponto) quanto dos grupos internos do partido, em um período de intensas, às vezes excessivas e contraproducentes disputas.

Erundina, sobretudo, comandou um governo cujo desempenho em áreas essenciais da administração – tais como Educação, Saúde, Transortes, Cultura – não pode ser considerada menos do que brilhante. E com um diferencial até então inédito (e jamais reproduzido em igual volume): incluindo, de forma massiva e sem exceção, as populações periféricas da cidade entre as beneficiárias da ação do poder público (aqui, um artigo detalhado sobre o que foi a prefeitura Erundina). No entanto, além de implacavelmente atacada pela mídia e, ao final, boicotada pelo partido graças a picuinhas internas, acabou sendo cristianizada pelo próprio PT no processo de reeleição.



A ascensão de Lula
Em um país escangalhado, recém-saído de uma ditadura militar e do toma-lá-dá-cá generalizado da era Sarney, com seus planos econômicos tão miraculosos quanto fugazes, a ascensão de um partido novo de esquerda, agora com alguma experiência administrativa e com um líder por demais carismático era mais do que previsível.

No entanto, as elites e as demais forças conservadoras sabiam que uma derrota para a esquerda nas eleições presidenciais de 1989, fosse para o petismo ou o brizolismo, representaria uma perda repentina de poder, e por um período incalculável. Assim, o pleito, ao mesmo tempo que se caracterizou como as eleições que alçaram Lula à posição de candidato competitivo e líder da esquerda, apoiado por um partido de massas, capaz de botar milhões nas ruas empunhando bandeiras vermelhas, por outro lado demarcarou o vale-tudo para derrubá-lo, numa operação que uniu mídia corporativa, marketing político profissional (em nível inédito no país) e golpes baixos variados.

A derrota, não obstante traumática, foi também pedagógica para o PT. Praticamente sem chances nas duas eleições presidenciais seguintes, o partido trataria, no período, de expandir suas bases e eleger o maior número de parlamentares, prefeitos e governadores, até que a oportunidade se concretizasse.



Lulinha Lá
E ela teria lugar ao final do segundo e socialmente desastroso mandato de Fernando Henrique Cardoso, ao fim do qual o país estava inadimplente externamente e com uma crise interna profunda, o Estado sucateado e o desemprego em níveis alarmantes.

O PT de 2002, porém, em muito diferia do de 1989. O poder amealhado em estados e municípios trouxera contatos e contratos, fontes de arrecadação e de compromissos; o Lula ameaçador e desgrenhado, cria das fábricas de São Bernardo, dava lugar a Lulinha Paz e Amor, criatura de barba aparada, fala macia e conciliadora e ternos bem-cortados, forjada pelo marqueteiro Duda Mendonça. As ameaças davam lugar às promessas, o discurso da auditoria da dívida externa calava-se em nome da Carta ao Povo Brasileiro (que na verdade visava acalmar o mercado financeiro). Reforma agrária, taxação de herdeiros e de fortunas, regulamentação da mídia eram preteridas – e continuariam a sê-lo nos 12 anos seguintes - em nome da conciliação nacional, que incliu um silêncio perene sobre as privatarias da era tucana.



Conformismo e desistência
Tal transformação foi aceita pela grande maioria dos petistas, um pouco porque a militância também envelhecera (não se via mais mar de bandeiras vermelhas nas ruas), outro tanto porque havia a impressão disseminada de que Lulinha Paz e Amor não passava de um truque para enganar a direita e que, uma vez no poder, o novo presidente passaria paulatinamente a colocar em prática as políticas verdaceiramente esquerdistas que o velho Lula sempre defendera.

O tempo trataria de mostrar que era pra valer: a criatura se apossara do criador. “Mas o pragmatismo funcionou e o poder fora conquistado”, repete o militante típico, que daí em diante se mostraria cada vez menos preocupado com a coesão programática e ideolólógica dos candidatos petistas, e mais interessado nas chances de ganhar as eleições, mesmo que em péssima companhia. Patrocinada por Lula, a aliança entre Haddad e Maluf para as eleições paulistanas de 2012 tornaria-se o ápice simbólico desse vale-tudo, talvez por ter sido registrada em uma foto icônica com o trio nos jardins da mansão do último.



Ápice
O governo Lula marcou o auge do petismo. O primeiro ano, e os primeiros meses do segundo ano, com Palocci na economia, repetiram o que manda a ortodoxia em termos de crise: contenção de gastos, alto superávit primário, câmbio livre. “O governo preferiu conter a subida dos precos pelo caminho ortodoxo, aprofundando as receitas neoliberais, como foi o caso da combinação de corte no gasto publico e aumento de juros em 2003”, define André Singer.

Nada que, nem de longe, recenda a esquerda ou difira do receituário adotado por FHC, com um agravante: a assimilação e reprodução acrítica das políticas ortodoxas tiram do PT a capacidade de construir, na esfera econômica, uma narrativa alternativa àquela imposta pelo neoliberalismo - cujo tripé ortodoxo ele adota afetando constrangimento, mas jamais renega (como fazia durante toda a sua história pregressa). Com a retomada das privatizações, que viria a ser disseminada na era Dilma, tal interdito se consolida.

Mas, males que vêm para o bem, a ameaça, institucional e eleitoral, representada pela crise do “Mensalão” obrigaria Lula a agir e a apostar em uma política de amplificação exponencial da securidade socioeconômica via Bolsa Família combinada a prioridade À criação de empregos e à expansão do crédito, com acelerada inclusão das classes D e E.





Saída para cima
Eureca! Estava criado um modelo em que, alegadamente e enquanto o cenário internacional,com commodities em alta, permitiu, todos ganhariam. Estatisticamente, está provado que os ganhos foram muito maiores no topo e na base da pirâmide, ou seja, para os ricos e os pobres, do que para os estratos médios e médios-altos, mas, seja como for, o país vivia uma sitação inédita, de prosperidade com inclusão social. Esta viria a ser – e é até hoje - o grande legado positivo do PT no poder: a conscientização da importância de erradicação da miséria e de diminuição substantiva da pobreza. Nenhum candidato presidencial que queira vencer pode, depois disso, pensar em simplesmente abandonar o Bolsa Família sem garantir um outro mecanismo de securidade socioeconômica.

Além disso, a sensação era de que o Brasil despontara, se tornara um player mundial, com uma ativa política Sul-Sul, representantes ascendendo a postos-chave dos organismos internacionais e a comemorada conquista de eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Na área cultural, o governo Lula se destacaria na área cultural, com os pontos de cultura e as brihantes gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira. Para completar, a descoberta de vultosas reservas de petróleo parecia confirmar a boa estrela de Lula e predizer um futuro faustoso para o país.



Fim de uma era
Com uma aprovação recorde para um presidente após dois mandatos, Lula deixou o governo no ápice. Mas que, como costuma acontecer com os auges, trazia em seu interior o germe de sua decaida. Esta seria representada, sobretudo, por quatro fatores:

  1. A economia dependente de um modelo de desenvolvimento arcaico e antiecológico, de expansão limitada, pois baseado no consumo de bens duráveis;
  1. A forma acrítica como, em suas práticas e alianças políticas, o governo se entregou ao pragmatismo aideológico, que enfraquece partidos e linhas programáticas e de onde derivam os grandes escândalos de corrupção nos quais se envolveu, com alto custo para sua imagem;

  2. A ausência de planos e políticas estruturadas a médio e longo prazos. Mesmo após 12 anos no poder, a improvisação cotidiana segue sendo a tônica, com áreas essenciais como Educação, saúde e cultura sendo submetidas aos humores e aos contingenciamentos sazonais, com eventuais avanços e retrocessos, mas sem continuidade e metas a curto, médio e longo prazos. A expansão das universidades exemplifica o processo: dobra-se o número de matrículas na graduação (o que é, a princípio, positivo), mas, sem o  investimento correspondente em professores, bibliotecas, laboratórios e equipamentos, a consequência é a queda brutal da qualidade do ensino e da pesquisa, com risco de sucateamento da universidade pública a médio prazo.
  1. A redução substancial da democracia interna no partido, somado à abrupta diminuição dos canais de diálogo entre governo, partido e sociedade.


Sucessora polêmica
Mas isso só se faria plenamente visível anos após o PT lograr um feito que seu rival tucano jamais conseguiu: eleger, pela terceira vez consecutiva, um(a) presidente da República – e a primeira mulher no cargo. Uma escolha solitária e autoritária de Lula, sem o crivo da democracia interna, que recaiu sobre uma ministra especializada em energia e cuja alegada capacidade gerencial foi ressaltada na campanha (quatro anos depois, a alegada expert, após estripulias populistas eleitoreiras com a conta de luz, ressuscitaria o temor de um apagão energético de grandes proporções). Mas ao final do governo Lula, sua escolha como candidata embora polêmica, pareceu inescapável, como observa a jornalista Denise Queiroz: 
Para qualquer conhecedor e observador da política, parecia um despropósito que uma pessoa que nunca havia disputado qualquer cargo pudesse ser eleita presidente do país. Mesmo no círculo dos cartolas do PT a escolha de Lula não foi bem recebida. Mas a verdade é que o partido havia descuidado de formar novos quadros políticos e as chances de qualquer outro nome seriam mínimas.



Dilma: direita, volver!
O governo Dilma recebeu de Lula um país em muito melhores condições do que o país que Lula recebera de FHC. Com maior apoio parlamentar e a oposição perplexa, desarticulada, tinha condições objetivas de implementar as políticas que julgasse necessárias, inclusive a regulamentação da mídia, que Franklin Martins deixara pronta para ser executada. Mas, contrariando todas as expectativas, ao invés de aprofundar conquistas e demarcar ideologicamente território, seu mandato foi caracterizado desde o início por uma tentativa de expansão da hegemonia eleitoral rumo à direita, seja esta representada pela mídia corporativa ou por partidos e políticos os mais retrógrados.

Nesse processo, passaria, pouco a pouco, a tornar rotineiras – e não só no campo econômico – práticas do pior conservadorismo, como a falta de diálogo, o autoritarismo, o desrespeito ao meio ambiente, às populações indígenas, aos DHs. A truculência foi a tônica na relação com movimentos contestatórios e com o funcionalismo federal. Um exemplo cabal disso foi o tratamento brutal dispensado aos professores universitários em 2012, recusando o dialogo, acossando-os, boicotando-os, procurando ludibriá-los com a criação de um sindicato pelego, espancando-os em frente ao MEC - tratamento que acabaria por gerar a mais longa greve da categoria em sua história.

A privatização do Pré-Sal do campo de Libras, traindo compromisso gravado em campanha, marca um momento em que, até para os mais resistentes, deixa de ser possível acreditar que a administração Dilma se tratasse de um governo de centroesquerda.



Cavalo de Troia
Para piorar, a Copa do Mundo, que no governo Lula parecera uma conquista, revela-se um imenso problema para o governo, que apela à privatização desmedida para entregar as obras de acordo com o cronograma, enquanto promove remoções forçadas e mente à população que não haveria dinheiro público no evento. Ante a combinação de renúncia total a uma plataforma de esquerda e autoritarismo incompatível com democracia, Vladimir Safatle escreve um artigo em que decreta: “O governo Dilma acabou”.

O povo brasileiro, aparentemente alheio à politica, demonstra que sua capacidade de tolerância chegara ao fim e resolve dar um basta: os protestos se espalham como um rastilho pelo país, em cidades grandes, medias e pequenas. A reação de Dilma é fazer um teatro sobre a votação urgente da reforma política – que o PT empurrrara com a barriga por 10 anos – e promessas vãs sobre melhoria da mobilidade urbana e criação de novos canais de democracia direta no PT. Nada disso era pra valer: enquanto ganhava tempo, organiza-se a repressão, que logo se mostraria brutal, com as PMs estaduais apoiadas pela Força Nacional arregimentada pelo ministro Cardozo. O saldo: hoje o Brasil tem ao menos 28 presos políticos cujo crime é exercer o direito constitucional à manifestação pública.




Progressismo” chapa-branca
O petismo não foi até hoje capaz de dimensionar e compreender a importância das jornadas de junho, a qual aplicou a costumeira tática da desqualificação, valendo-se de teorias conspiratórias que culpam desde os partidos menores de esquerda até a CIA, além da mídia, é claro. A delação de manifestantes para a polícia e o apoio à repressão brutal dos jovens que protestavam marca o ponto mais baixo da ação política dessa militância.
A partir desse momento se torna cada vez mais inegável a transformação do petismo em uma seita, em que um fanatismo passional se sobrepõe aos fatos e à razão. Ao passo que, por um lado, a crítica ao retrocesso patrocinado pelo governo Dilma vai ganhando adesão e densidade fora dos círculos petistas, por outro, os chamados “blogueiros progressistas” se consolidam como representantes não oficiais do petismo chapa branca, autênticos cães de guarda a serviço não dos interesses do país, mas do partido, faça este o que fizer.



PIG, desculpa multiuso
Disso deriva o hábito de se referir à mídia como PIG (Partido da Imprensa Golpista), rotulação que, ao assumir sempre e a priori a prática de uma grave violação ética por parte da mídia, antecipa, influencia e minimiza a importância efetiva da análise, comprometendo seu rigor; e que, ao desprezar o contexto de cada fato, concede um eterno, gratuito e injustificado álibi ao governo. Autor de um dos melhores textos sobre as transformações na militância do PT após a chegada ao poder, o cientista político Aldo Fornazieri considera tal processo uma das principais “rotas de fuga” do “neopetismo” (a outra seria a justificação da corrupção), por ele assim descrito:
Consiste na sustentação da tese de que todas as acusações não passam de uma conspiração comandada pela grande mídia – o chamado Partido da Imprensa Golpista (PIG). Qualquer crítica dirigida ao partido ou ao governo, mesmo que ela venha de petistas ou de eleitores do partido, é desqualificada com adjetivos e identificada como uma ação do PIG (…) A ação penal 470 (mensalão) é uma perseguição, o governo Dilma não errou na condução da economia, a Petrobras não foi dilapidada e assaltada por grupos corruptos etc.


A desqualificação como método
No bojo desse processo, a autocrítica e a crítica interna, essenciais para fazer qualquer governo corrigir rumos e avançar, virtualmente desaparecem em prol de um circulo vicioso em que blogueiros e militantes virtuais fazem o papel de acólitos, de “yes men” prontos a defender o governo, seja qual for a situação, mesmo que esta se revele claramente contrária aos interesses da maioria do povo e dos desvalidos. Não é preciso se estender muito para verificar o quão contraproducente tal estratégia resulta.

Além disso, desqualificação pasa a ser um conceito-chave, utilizado contra qualquer pessoa ou entidade que ouse se opor a essa omissão acrítica. Vira a regra, em níveis diversos: como já vimos, o que era, no mais das vezes, uma justa crítica contra a mídia torna-se uma muleta argumentativa visando desqualificar qualquer informação negativa advinda de um órgão de mídia (embora estes sejam rotineiramente citados quando as notícias são positivas). Sob o comando de um avatar virtual oculto sob pseudônimo e fotinho de Che Guevara, a tática precípua ante as críticas passa a ser desqualificar agressivamente o crítico, do mero palpiteiro ao mais embasado; até no julgamento do “Mensalão”, ao invés de uma defesa com argumentação jurídica, a desqualificação foi a tática: mesmo com 9 dos 13 nomes que tomaram parte do julgamento tendo sido indicados por Lula ou por Dilma, prevaleceram os ataques desquakificadores, não raro de cunho racista, contra Joaquim Barbosa.



Dilma I: terra arrasada
Havia um clima palpável de desilusão ao final do governo Dilma, mesmo entre velhos aliados: “Os avanços socioeconômicos coincidiram com o retrocesso político. Em 12 anos de governo, o PT despolitizou a nação”, assinala Frei Betto, petista de primeira hora.

Há agraventes para esse retrocesso, pois ele se deu por não priorizar o interesse público e as demandas urgentes da sociedade em relação aos dos bancos e entidades financeiras, por retomar sem delongas as anteriormente tão criticadas privatizações (ou concessões, ou o nome que a novilíngua da vez adotar), por não mostrar-se efetivo no combate à corrução (como o Petrolão deixa claro), por não priorizar efetivamente, senão com palavras, a Educação, por não regulamentar a mídia nem oferecer aos cidadãos e cidadãs do país meios de aprimoramento de sua cultura política.

Tudo isso somado forma, na opinião deste blogueiro, o pior legado que o petismo deixa ao país: a desideologização, a má formação política, a confusão entre esquerda e direita, entre governo e Estado, entre Estado e religião, entre público e privado, entre cultura e entretenimento, entre democracia e autoritarismo. Em termos de democracia política, os até agora 12 anos de PT marcam, por isso, um retrocesso inaceitável: não só deixamos de avançar o tanto que necessitamos, mas regredimos, e muito.



Por debaixo dos panos
Mas mesmo nos próprios termos axiológicos do petismo o retrocesso é evidente. As relativamente baixas taxas de desemprego (se comparadas às do tempo de FHC ou às dos países europeus mais afetados pela crise), têm relevância como amostras quantitativas, mas o aspecto qualitativo que ocultam nunca foi revelado - e muito menos debatido - com a sociedade. Se o fosse, ficaria claro que a imensa maioria dos postos de trabalho disponíveis é de baixa ou baixíssima remuneração, e que o mercado de trabalho, no Brasil petista, passa por um fenômeno atípico e perverso, em que  quanto mais qualificada a pessoa, mais risco ela corre de não conseguir um emprego de nível condizente com sua formação.
 
Tanto a anunciada erradicação da miséria (utilizando dados de 2010) quanto o combate à pobreza, com ascensão das classes D e E, retrocederam nos dois últimos anos do governo Dilma. Cerca de 45 milhões de pessoas chegaram a ser beneficiárias dos programa de seguridade socioeconômica até 2010, sendo que quase a metade disso teria saído da miséria (ou seja, recebe mais de R$70 por mês, definição por si arbitrária). Porém, de lá para cá, como o próprio Ipea reconheceu, além do ritmo muito menor de inclusão de novos beneficiados, a inflação, combinada ao não-repasse aos valores dos benefícios, fez com que ao menos 4 milhões de cidadãos tenham retornado à condição de miseráveis, e que um número igualmente significativo tenha retornado da classe C para a D. São, como apontou um colunista em matéria recente, os que sentirão mais na carne os efeitos da combinação ora vigente de alta inflação com restrição ao crédito serão justamente os pobres e miseráveis outrora resgatados pelo PT.

O que impede uma radiografia exata do grau de retrocesso econômico enfrentado pelas classes mais desabastecidas é a retomada, no governo Dilma, de uma prática politica típica da ditadura em seu pior momento: a maquiagem e o adiamento de dados oficiais. Enquanto as democracias desenvolvidas avançam rumo a uma maior transparência dos atos públicos, no Brasil funcionários do IGBE denunciaram pressões para que, durante as eleições, atrasassem a divulgação de relatóricos oficiais e modificassem critérios de medição de índices. No que concerne à inflação, estes foram manipulados de todas as formas durante a gestão dilmista, como meio de fazer, na marra, ficarem dentro da meta estabelecida. A mentira, a maquiagem e o ocultamento tornaram-se práticas de governo na era Dilma, e seriam reproduzidas sem o mínimo escrúpulo na campanha à reeleição.



O marketing do vale-tudo
A já referida estratégia desqualificadora a qual o neopetismo emprestou do jornalismo neocon e transformou em arma prioritária de luta política assomou ao papel principal do marketing político do partido durante a campanha para reeleição de Dilma. Uma campanha que logo viria a ser lembrada por promover sem pudor a dissociação entre verdade e fatos.

Aética e mentirosa, incluiu, segundo dezenas de denúncias, o uso de carros de som espalhados por pequenas e médias cidades do Nordeste para espalhar o boato de que o Bolsa Família seria cortado. Manifesto-se, ainda, de forma novamente falseadora, nos ataques pessoais contra Marina Silva e de Aécio Neves, que tiveram suas falas deliberadamente distorcidas. A campanha de 2014, a cargo de João Santana, marca o pior momento do PT, ao se igualar aos partidos usuários das táticas eleitorais mais sujas, que denotam um profundo desrespeito pelos demais candidatos, pelo sistema eleitoral e pela própria democracia.



Fundo do poço
Porém, o início do governo Dilma conseguiu ir ainda mais baixo, traindo logo de cara o discurso eleitoral e atacando direitos trabalhistas e previdenciários básicos - o que prometera não fazer durante a campanha. Para completar, Dilma acabaria de perfazer a guinada à direita do PT, colocando um economista ortodoxo oriundo da Escola de Chicago para gerir a economia, numa admissão não oficial (e jamais autoproclamada) de que suas politicas econômicas falharam, num gesto indisfarçável de derrota que torna as práticas econômicas petistas indistinguíveis das de seu rival tucano.

Das tantas contradições do "modelo" político-econômico adotado pelo petismo em seus 12 anos de governo, talvez a mais danosa diga respeito ao modo como, em um partido que se autointitula de esquerda, a crítica ao capitalismo deu lugar a uma aderência total e acrítica ao consumismo e ao desenvolvimentismo predatório como propulsores da economia. Profundamente retrógrada, numa era em que a esquerda se define não apenas por usa posição em relação ao capitalismo, mas também em termos biopolíticos, tal visão, já caramente visível no modelo em que, alegadamente “todos ganham” da Era Lula, iria se aprofundar muito no governo Dilma. Cujo futuro, assim como o do PT, é uma grande incógnita. Dado o retrospecto acima, não parece haver nenhuma razão para otimismo. Ao menos para a esquerda.



(Imagem retirada daqui)


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Dilma II: uma tragédia anunciada

A eleição de Eduardo Cunha (PMDB/RJ) para a presidência da Câmara dos Deputados marca a expansão, para o campo político, da profunda crise que vem caracterizando o início do segundo mandato de Dilma Rousseff. Vem somar-se à queda generalizada dos índices econômicos, ao retorno da crise energética e ao estopim da sensação de corrupção, deflagrado pelas denúncias do Petrolão.

Desta feita, porém, não se pode usar o subterfúgio de aludir a uma suposta crise econômica mundial – que na vida real atingiu seu ápice em 2008, e foi considerada por Lula “uma marolinha” - para disfarçar o malogro da estratégia do grupo palaciano liderado por Aloizio Mercadante. Em seu intento de conquistar a presidência da Câmara alijando o “aliado” PMDB, o trio formado por Mercadante, Pepe Vargas e Miguel Rossetto não só foi derrotado por Cunha, como deixou o PT, pela primeira vez desde 2002, sem nenhuma das 11 cadeiras da direção da Casa – o que fez até mesmo o jornalista petista Ricardo Kotscho perder a paciência e, em um artigo intitulado "E agora, Dilma? Tudo ou nada leva à solidão política", falar em "humilhanrte derrota" e condenar o amadorismo político da “tropa de choque dos trapalhões”.



Futuro incerto
São imprevisíveis, para o futuro do governo Dilma, as consequências da eleição de Cunha, um arrivista sem freios, representante do conservadorismo religioso e inimigo de longa data da mandatária, a quem chegou a ameaçar explicitamente durante a campanha pela presidência da Câmara. Empossado, terá, na prática, o poder de determinar o que será ou não votado, e em que ordem.

Com isso, na melhor das hipóteses, Dilma terá de ceder ainda mais aos setores mais fisiológicos do PMDB e do baixo clero da Câmara; na pior, e a depender do desenrolar do Petrolão, a aceitação de um pedido de impeachment contra a presidente dependerá de decisão do desafeto. (Por outro lado, paradoxalmente, o envolvimento do próprio Cunha no escândalo da Petrobras seria a melhor chance, no curto prazo, de o Planalto desidratá-lo politicamente.)



Robin Wood às avessas
Já quanto aos efeitos das medidas tomadas por Dilma para tentar colocar a economia nos eixos não há imprevisibilidade: nenhuma delas sequer roça o bolso de latifundiários, banqueiros, herdeiros ou donos de grandes fortunas. Pelo contrário, elas tornam ainda mais precária a existência de desempregados – dificultando o acesso ao seguro-desemprego – e de viúvas(os), com alterações no regime beneficiário que violam de forma flagrante direitos adquiridos – pois incidem retroativamente, um escândalo jurídico que o Brasil acostumou-se a aceitar bovinamente.

Ao diminuir o tempo de recebimento de aposentadorias para várias faixas etárias, as medidas tomadas por Dilma acabarão, no médio prazo, por agravar o fenômeno da velhice desamparada previsto para as próximas décadas, já que muitos deixarão de receber o benefício quando já tiverem idade avançada, num flagrante e cruel contrasenso. Nem FHC ousou meter a mão na aposentadoria da patuleia de forma tão descarada.



Projeções e negações
Ante esse tenebroso início de segundo mandato, incompatível com um governo que se diz de centro-esquerda (ou mesmo de centro), tornam-se cada vez mais frequentes as manifestações de arrepedimento de quem votou em Dilma, e o sumiço da outrora entusiasmada militância petista nas redes sociais já virou motivo de chacota. Ainda assim, há os que continuam defendendo o voto na candidata que agora, pela segunda vez, age de forma contrária à que apregoara na campanha eleitoral (já o fizera no primeiro mandato em relação à privatizaçáo do Pré-Sal). Dentre estes, uma justificativa recorrente é a alegação de que com Aécio seria pior.

Trata-se de de um exercício vão de futurismo, com tal impossível de ser empiricamente verificado. No segundo turno, Aécio firmara acordos com Marina Silva e com o PV de Eduardo Jorge, entre outros partidos menores. Se os cumprisse, sua gestão seria bem melhor que a de Dilma no que se refere a desenvolvimento sustentável, meio ambiente, mobilidade urbana e políticas de gênero. Mas, é claro, há a possibilidade de que ele agisse como Dilma e cometesse estelionato eleitoral (como ela o faz, entre vários e estrepitosos exemplos, ao se comprometer, na campanha, a priorizar a Educação e fazer do Brasil a “Pátria Educadora” para, empossada, cortar R$7,1 bi do orçamento da pasta, porporcionalmente a área mais afetada por suas medidas de contenção de despesas).

O fato de a traição eleitoral de Dilma ser um fato – ao atacar direitos trabalhistas, na Educação, no descaso continuado com a homofobia, entre outros temas – e a de Aécio uma mera possibilidade é uma diferença que sequer tem sido aventada pelos cada vez menos entusiasmados e quantitativamente descrecentes apoiadores da petista.



Oposição enfraquecida
Há, porém, uma diferença entre o estado de coisas do segundo governo Dilma e o que aconteceria numa eventual eleição de Aécio que supera a mera projeção. Pode-se afirmar, sem espaço para a hesitação, que se Aécio tomasse as mesmíssimas medidas que Dilma II tomou até agora, as redes sociais estariam fervendo de fúria oposicionista, e esta possivelmente logo transbordaria para as ruas. Uma forte oposição se adensaria em um período relativamente curto.

Com Dilma, ao contrário: persiste um silêncio conivente enquanto ela viola direitos previdenciários dos pobres, mente e precariza a Educação. Temperada aqui e ali pelo fanatismo dos chamados “blogueiros progressistas” - cada vez mais despidos de espírito crítico e atuando como mera linha auxiliar do petismo -, tal atitude evidencia o quão maléfica é, para o país, a transformação do petismo em uma espécie de seita, despida de autocrítica e que seus adeptos veem como infalível, cujos interesses têm sido, na prática, colocados acima dos interesses do povo e do país.



O preço do dogmatismo
A própria releição de Dilma, num momento em que o quadro de deteriorização geral ora vigente já se delineara com nitidez para os que não se recusaram a encarar a realidade, deriva, em parte, desse cadinho de cultura onde o petismo se apresenta como uma opção dogmática, para além (ou aquém) dos fatos – como o que Dilma recebeu um de Lula um país em muito melhores condições do que este recebera de FHC, mas o entregara bem pior.

As duras medidas econômicas e a crise energética, não obstante sua gravidade, são apenas duas das provas a corroborar tal afirmativa, entre outros tantos alarmes negligenciados durante o primeiro mandato, como o aumento exponencial na frequência do suicídio de índios, os recordes de desmatamento, as denúncias sobre o processo de sucateamento das universidades federais, na contramão do discurso triunfalista de democratização do acesso à universidade (como se isso, sem o correspondente investimento em professores, salas, laboratórios, bibliotecas e livros bastasse).




Ação restrita
O resultado desse dogmatismo, hoje, cobra um preço caro. Uma presidente lame duck, como dizem nos EUA quando querem se referir a um político de poder apenas aparente, alvejado, fadado ao fracasso. Até onde a vista alcança, esta é a situação de Dilma.

Não quer necessariamente dizer que ela não possa revertê-la – ao menos para a única coisa que realmente importa para o petismo já há um bom tempo, as vitórias eleitorais. Mas parece quase impossível que, com o modelo de desenvolvimento e as práticas políticas e econômicas adotadas, somadas ao grau de percepção que grande parte da população tem da relação entre petismo e corrupção, e completadas com a banalização das traições eleitorais e a insensibilidade social recente, Dilma logre reerguer nacionalmente o PT como uma força política coerente, programática, e em direta comunicação com a população.



Destino dos sem-povo
FHC tratou de enterrar, por décadas, as chances presidenciais do PSDB, levando consigo qualquer perfil social-democrata que o partido tenha um dia encarnado. É bem provável que até a hegemonia regional do partido em São Paulo chegue ao fim após o inacreditável show de hipocrisia, oportunismo eleitoral, desleixo administrativo e insensibilidade social proporcionado por Geraldo Alckmin na gestão da crise hídrica.

PSDB e PT vêm sendo, de um tempo pra cá, termos intercambiáveis, num Fla-Flu em que se equivalem e se anulam em suas cada vez menos perceptíveis diferenças. E a não ser que algo de absolutamente extraordinário aconteça, caberá a Dilma, com seu autoritarismo, sua absoluta ausência de autocrítica, seu pragmatismo despido de considerações ideológicas, o papel de coveira do petismo.


Amanhã
Seria, hoje, motivo auspicioso, de comemoração, não fosse o fato que, imerecidamente, os erros do petismo respingaram e serão, por um longo tempo, atribuídos à esquerda. Mesmo que uma verdadeira esquerda, no Brasil atual, ainda esteja pra nascer.



(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Boyhood, grande cinema

Boyhood é um filme solar. Ao retratar 12 anos na história de uma família, com filmagens com o mesmo elenco fixo principal, reunido a cada três anos, trocando a rigidez matemática dos roteiros milimetricamente construídos por uma sensação difusa de naturalismo e maleabilidade, o filme de Richard Linklater traz um sopro de novidade em um momento de profunda crise do cinemão hollywoodiano, sobrepujado pelo fenômeno das séries televisivas.

O foco privilegiado na trajetória do garoto Mason (Ellar Coltrane) – que começa o filme com cinco anos e o termina prestes a completar 18, ingressando na universidade – faz de Boyhood uma trama sobre amadurecimento, ritos de passagem, dissolução da infância na adolescência - e desta na juventude. Mas a riqueza da narrativa e a força dos personagens secundários dão relevo a outras temáticas, como relações familiares, a maternidade, sexualidade e afeto, a relação entre natureza e construcionismo social, ética pessoal versus ética coletiva, o questionamento do “sonho americano”.


Processos de identificação
A captação física dos efeitos da passagem do tempo, embora represente um desafio para a construção da profundidade psicológica dos personagens, tende, paradoxalmente, a intensificar por mimese a identificação do espectador com eles – sobretudo quando são apresentados ainda crianças, como é o caso. Facilita também o afloramento de estados emocionaism no espectador, ao invocar, através da interrelação dos personagens, emoções inerentes à passagem do tempo, como saudade, melancolia, vertigem, (receio de) perda ou de solidão – processo que, em dois ou três pontos-chave de Boyhood, culmina em epifanias.

Mas seria exagero atribuir o impacto do filme ao acompanhamento do envelhecimento do elenco ao longo de 12 anos, ou mesmo considerar isso seu mérito por excelência. Na verdade, sem um pré-roteiro bem amarrado – sujeito a revisões pontuais periódicas ditadas pela própria evçução da dinâmica da equipe - e sem um elenco afiado, as possibilidades de malogro se multiplicariam com a adoção de tal esquema.


Road movie atípico
Com uma gramática narrativa que varia entre tomadas exteriores (que por vezes funcionam como alusão ou metáfora de aspectos da vida sócio-política nos EUA no périodo, eventualmente reforçados pela trama) e tomadas interiores em que a direção de arte, determinante, chega a ter função narrativa, tipificando as mudanças de endereço e de condição social da família, Boyhood não deixa de ser, à sua maneira, um road movie. (Filiação que o nome da produtora de Linklater, Detour, corrobora ao aludir ao título de um cultuado film noir, dirigido em 1945 por Edgar G. Ulmer, e filiado a esse que é considerado o subgênero cinematográfico em que melhor confluem a tematização da identidade pessoal e da identidade nacional.)

Pois, parafraseando o diagnóstico feito por Walter Salles em um texto sobre road movies, de que “os mais interessantes são justamente aqueles em que a crise de identidade do protagonista da história reflete a crise de identidade de uma cultura, de um país”, não parece despropositado sugerir que o processo de amadurecimento, de superação da infância rumo à juventude, vivenciado pelo protagonista de Boyhood – e por cada membro de sua família – ecoa a trajetória dos Estados Unidos em busca da superação do cenário de terra arrasada da Era Bush em prol de um novo país, simbolizado pela candidatura Obama (passagem à qual, aliás, mais de um personagem alude).




Elenco em destaque


Tudo isso, somado, conflui para fazer de Boyhood um filme marcado por um humanismo profundo. E que, embora, como já dito, não se furte a eventualmente tocar emocionalmente o espectador, o faz sem a pieguice adocicada ou o moralismo recorrente em que o cinema norte-americano costuma incorrer quando tematiza relações familiares.

Num elenco em que Patricia Arquette brilha, valendo-se de muita técnica para simular naturalismo (mas sem conseguir atingir o pathos dramático desejável em duas das cenas mais intensas) e a perfomance do jovem ator principal é convincente, mas, com exceção de um ou outro momento - destsacadamente a sequência em que lembra ao pai a promessa de dar-lhe um carro - sem chegar a ser brilhante, é sobretudo através de personagens secundários que o referido humanismo aflora com mais vigor. Notadamente no que diz respeito à irmã do protagonista, vivida por Lorelei Linklater (filha do diretor, nascida no México), e desde criança tipificada como irõnica e contestadora, e ao ex-marido malandro e a princípio loser interpretado por Ethan Hawke, cujo amadurecimento ao longo da narrativa é um dos achados do filme (e valeu ao ator sua quarta indicação ao Oscar, três delas por performances em um filme dirigido por Linklater).



Imprevisibilidade
Graças a essa combinação feliz de fatores, e sem explosões, efeitos especiais de última geração ou um roteiro com rocambolescas idas e vindas no tempo – praga tarantinesca que infecta as produções hollywoodianas das duas últimas décadas - Boyhood logra algo raro no cinema hollywoodiano atual: mantém-se surpreendente do início ao final.

Tem-se, a maior parte do tempo, a impressão de que tudo pode acontecer na narrativa e mesmo os cinéfilos mais escolados em predizerem o rumo da trama através da lógica do roteiro, pelo que os padrões da mise en scène do diretor antecipam, ou mesmo pela escalação do elenco, tendem a ser surpreendidos pela fluência imprevisível da narrativa, que prende o tempo todo a atenção dos espectadores com uma história cuja beleza deriva, paradoxalmente, de ser plausível e comum.






P.S. É certo que o avanço tecnológico melhorou muito a qualidade das sessões caseiras de filmes, mas Booyhood é daqueles filmes cujas potencialidades se multiplicam e se revelam plenamente se vistas em um cinema de tela grande e som potente.


(Imagens retiradas, respectivamente, daqui, dali, de lá e dacolá