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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

PT, 35 anos: comemorar o quê?


O PT completa 35 anos, em um momento de profunda inquietação quanto ao futuro do partido e do país.

Os motivos para comemoração - a conquista, pela quarta vez consecutiva, da Presidência da República, a eleição do prefeito da maior cidade e do governador do terceiro maior estado do país – têm sido eclipsados pela derrocada econômica do governo Dilma, por uma crise política sem precedentes, e pelo envolvimento em graves e sucessivos casos de corrupção – destacadamente, o Mensalão e o Petrolão.



Mudança de imagem
Na última década, o partido que durante anos representou, para dezenas de milhões de brasileiros, a perspectiva de profundas mudanças sociais no país tornou-se parte do establishment. A esperança, mote de campanha, foi cedendo lugar ao conformismo e hoje, justa ou injustamente, o PT é por muitos visto como capaz de tudo pela manutenção do poder, como uma força corporativista dada a aparelhar e patrmonializar o Estado, como um símbolo máximo da corrupção.

Além dos escândalos já mencionados, colabora decisivamente para essa impressão o extremo pragmatismo como a agremiação, ao menos desde 2001, vem exercendo a chamada realpolitik, com acordos desprovidos de qualquer afinidade ideológica ou programática, e em que as plataformas originais petistas acabam sacrificadas em prol do apoio de figuras-símbolo do conservadorismo, sem que se evidencie qualquer pudor ético ou limite. Começou com Sarney e os caciques peemedebistas, “evoluiu” pra Maluf, pra Collor, pra Kassab, e agora atinge o paroxismo com o ministério da Agricultura sendo ocupado por uma líder ruralista e megalatifundiária, adversária histórica do petismo, contra quem pesam acusações que vão de desmatamento a exploração de trabalho escravo.



Alianças elásticas
Para piorar, essa estratégia das alianças sem critério soa cada vez mais ineficaz, já que se tem com frequência a impressão de que o PT, através de tais acordos, adota uma agenda conservadora em troca de nada. Pois, a despeito da alegada maioria que lhe assegurariam as “bases aliadas”, vira e mexe o partido está sendo acossado ou, nas ocasiões mais importantes, sofre derrotas históricas no parlamento – como na votação do ICMS, na era Lula, ou a recente vitória de Eduardo Cunha (PMDB/RJ) para a presidência da Câmara, na era Dilma.

Por fim, para evitar a ebulição interna que tais alianças invariavelmente provocavam, o PT foi pouco a pouco perdendo duas de suas mais admiráveis características: a interlocução direta com a sociedade, notadamente no que diz respeito aos movimentos sociais; e a democracia interna, que muitas vezes incluía choques desgastantes mas, em compensação, trazia legitimidade às suas decisões, debatidas e reformatadas até a obtenção de um consenso. Hoje, nesse quesito, o partido lembra o PRI mexicano, em que os candidatos são escolhidos à base do dedazo, com Lula determinando a cada eleição quais os “postes” que irão concorrer nas eleições, enquanto a militância bovinamente acata.



O álibi tucano
Pode-se argumentar – como os militantes fazem de forma recorrente, qualquer que seja o assunto – que no PSDB também é assim, com um grupo de caciques em torno de uma garrafa de vinho - francês, naturalmente - decidindo o futuro da agremiação. Porém, o que essa (e as demais) comparação com os tucanos dissimula é que o PT se apresentou na vida política brasileira como uma forma de superação do peessedebismo, uma alternativa melhor, e não como um partido que faz das práticas do PSDB um álibi para incorrer em práticas semelhantes - ou iguais.

Mas o que foi exposto acima não cobre toda a história do PT, dizendo respeito a desdobramentos dos últimos 12 anos, período em que o partido deixou de ser estilingue e virou janela, ocupando a Presidência da República. Seria injusto, é claro, formar um juízo de valor acerca do PT a partir de seu pior momento, de sua pior crise. Por outro lado, deixar de considerar o grau de deteriozação alcançado neste momento pelo partido seria negligenciar os efeitos últimos de suas opções ao longo do tempo, o impasse em que ora se encontra e o leque restrito de perspectivas disponíveis.



Novidade na politica
O Partido dos Trabalhadores, tal como surgido da confluência da ação do operariado do ABC capitaneado por Lula, de jovens lideranças da esquerda católica e de intelectuais, tanto acadêmicos (como Florestan Fernandes), quanto do mundo (como Carlito Maia) representou uma lufada de renovação no cenário totalitário e bipartide da ditadura, em distensão. Mas a novidade não estava desprovida de polêmicas: a suspeita de que seria instrumentalizado pelos militares para rachar a esquerda – como de fato viria a ocorrer, destacadamente nas eleições presidenciais de 1989 – vinha tanto dos comunistas quanto da oposição moderada, então representada pelo MDB.

Mas, após quase duas décadas de ditadura, em que a política oficial se limitava, como dizem maldosamente alguns, às querelas entre o “partido do 'sim' e o partido do 'sim, senhor'”, o PT do início dos anos 80 fascinava, com suas bandeiras vermelhas, seu lider operário de barba desgrenhada, rouquenho e sem papas na língua (em franca desarmonia como mundo dos generais carrancudos e políticos de fala polida e ternos mal cortados), seus broches de estrelinha, que – atenção para a penetração incipiente na juventude de classe média - as meninas dos centros acadêmicos vendiam para ajudar o partido.



Um vibrante começo
As primeiras vitórias eleitorais do PT - Maria Luiza Fontenelle em Fortaleza, Telma de Souza em Santos, Luiza Erundina em São Paulo - têm em comum o fato de corroborarem o partido como uma força à esquerda, voltada prioritariamente ao social, e de serem abruptamente descontinuadas graças à ação tanto da mídia corporativa (em um tempo em que não havia internet para fazer um contraponto) quanto dos grupos internos do partido, em um período de intensas, às vezes excessivas e contraproducentes disputas.

Erundina, sobretudo, comandou um governo cujo desempenho em áreas essenciais da administração – tais como Educação, Saúde, Transortes, Cultura – não pode ser considerada menos do que brilhante. E com um diferencial até então inédito (e jamais reproduzido em igual volume): incluindo, de forma massiva e sem exceção, as populações periféricas da cidade entre as beneficiárias da ação do poder público (aqui, um artigo detalhado sobre o que foi a prefeitura Erundina). No entanto, além de implacavelmente atacada pela mídia e, ao final, boicotada pelo partido graças a picuinhas internas, acabou sendo cristianizada pelo próprio PT no processo de reeleição.



A ascensão de Lula
Em um país escangalhado, recém-saído de uma ditadura militar e do toma-lá-dá-cá generalizado da era Sarney, com seus planos econômicos tão miraculosos quanto fugazes, a ascensão de um partido novo de esquerda, agora com alguma experiência administrativa e com um líder por demais carismático era mais do que previsível.

No entanto, as elites e as demais forças conservadoras sabiam que uma derrota para a esquerda nas eleições presidenciais de 1989, fosse para o petismo ou o brizolismo, representaria uma perda repentina de poder, e por um período incalculável. Assim, o pleito, ao mesmo tempo que se caracterizou como as eleições que alçaram Lula à posição de candidato competitivo e líder da esquerda, apoiado por um partido de massas, capaz de botar milhões nas ruas empunhando bandeiras vermelhas, por outro lado demarcarou o vale-tudo para derrubá-lo, numa operação que uniu mídia corporativa, marketing político profissional (em nível inédito no país) e golpes baixos variados.

A derrota, não obstante traumática, foi também pedagógica para o PT. Praticamente sem chances nas duas eleições presidenciais seguintes, o partido trataria, no período, de expandir suas bases e eleger o maior número de parlamentares, prefeitos e governadores, até que a oportunidade se concretizasse.



Lulinha Lá
E ela teria lugar ao final do segundo e socialmente desastroso mandato de Fernando Henrique Cardoso, ao fim do qual o país estava inadimplente externamente e com uma crise interna profunda, o Estado sucateado e o desemprego em níveis alarmantes.

O PT de 2002, porém, em muito diferia do de 1989. O poder amealhado em estados e municípios trouxera contatos e contratos, fontes de arrecadação e de compromissos; o Lula ameaçador e desgrenhado, cria das fábricas de São Bernardo, dava lugar a Lulinha Paz e Amor, criatura de barba aparada, fala macia e conciliadora e ternos bem-cortados, forjada pelo marqueteiro Duda Mendonça. As ameaças davam lugar às promessas, o discurso da auditoria da dívida externa calava-se em nome da Carta ao Povo Brasileiro (que na verdade visava acalmar o mercado financeiro). Reforma agrária, taxação de herdeiros e de fortunas, regulamentação da mídia eram preteridas – e continuariam a sê-lo nos 12 anos seguintes - em nome da conciliação nacional, que incliu um silêncio perene sobre as privatarias da era tucana.



Conformismo e desistência
Tal transformação foi aceita pela grande maioria dos petistas, um pouco porque a militância também envelhecera (não se via mais mar de bandeiras vermelhas nas ruas), outro tanto porque havia a impressão disseminada de que Lulinha Paz e Amor não passava de um truque para enganar a direita e que, uma vez no poder, o novo presidente passaria paulatinamente a colocar em prática as políticas verdaceiramente esquerdistas que o velho Lula sempre defendera.

O tempo trataria de mostrar que era pra valer: a criatura se apossara do criador. “Mas o pragmatismo funcionou e o poder fora conquistado”, repete o militante típico, que daí em diante se mostraria cada vez menos preocupado com a coesão programática e ideolólógica dos candidatos petistas, e mais interessado nas chances de ganhar as eleições, mesmo que em péssima companhia. Patrocinada por Lula, a aliança entre Haddad e Maluf para as eleições paulistanas de 2012 tornaria-se o ápice simbólico desse vale-tudo, talvez por ter sido registrada em uma foto icônica com o trio nos jardins da mansão do último.



Ápice
O governo Lula marcou o auge do petismo. O primeiro ano, e os primeiros meses do segundo ano, com Palocci na economia, repetiram o que manda a ortodoxia em termos de crise: contenção de gastos, alto superávit primário, câmbio livre. “O governo preferiu conter a subida dos precos pelo caminho ortodoxo, aprofundando as receitas neoliberais, como foi o caso da combinação de corte no gasto publico e aumento de juros em 2003”, define André Singer.

Nada que, nem de longe, recenda a esquerda ou difira do receituário adotado por FHC, com um agravante: a assimilação e reprodução acrítica das políticas ortodoxas tiram do PT a capacidade de construir, na esfera econômica, uma narrativa alternativa àquela imposta pelo neoliberalismo - cujo tripé ortodoxo ele adota afetando constrangimento, mas jamais renega (como fazia durante toda a sua história pregressa). Com a retomada das privatizações, que viria a ser disseminada na era Dilma, tal interdito se consolida.

Mas, males que vêm para o bem, a ameaça, institucional e eleitoral, representada pela crise do “Mensalão” obrigaria Lula a agir e a apostar em uma política de amplificação exponencial da securidade socioeconômica via Bolsa Família combinada a prioridade À criação de empregos e à expansão do crédito, com acelerada inclusão das classes D e E.





Saída para cima
Eureca! Estava criado um modelo em que, alegadamente e enquanto o cenário internacional,com commodities em alta, permitiu, todos ganhariam. Estatisticamente, está provado que os ganhos foram muito maiores no topo e na base da pirâmide, ou seja, para os ricos e os pobres, do que para os estratos médios e médios-altos, mas, seja como for, o país vivia uma sitação inédita, de prosperidade com inclusão social. Esta viria a ser – e é até hoje - o grande legado positivo do PT no poder: a conscientização da importância de erradicação da miséria e de diminuição substantiva da pobreza. Nenhum candidato presidencial que queira vencer pode, depois disso, pensar em simplesmente abandonar o Bolsa Família sem garantir um outro mecanismo de securidade socioeconômica.

Além disso, a sensação era de que o Brasil despontara, se tornara um player mundial, com uma ativa política Sul-Sul, representantes ascendendo a postos-chave dos organismos internacionais e a comemorada conquista de eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Na área cultural, o governo Lula se destacaria na área cultural, com os pontos de cultura e as brihantes gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira. Para completar, a descoberta de vultosas reservas de petróleo parecia confirmar a boa estrela de Lula e predizer um futuro faustoso para o país.



Fim de uma era
Com uma aprovação recorde para um presidente após dois mandatos, Lula deixou o governo no ápice. Mas que, como costuma acontecer com os auges, trazia em seu interior o germe de sua decaida. Esta seria representada, sobretudo, por quatro fatores:

  1. A economia dependente de um modelo de desenvolvimento arcaico e antiecológico, de expansão limitada, pois baseado no consumo de bens duráveis;
  1. A forma acrítica como, em suas práticas e alianças políticas, o governo se entregou ao pragmatismo aideológico, que enfraquece partidos e linhas programáticas e de onde derivam os grandes escândalos de corrupção nos quais se envolveu, com alto custo para sua imagem;

  2. A ausência de planos e políticas estruturadas a médio e longo prazos. Mesmo após 12 anos no poder, a improvisação cotidiana segue sendo a tônica, com áreas essenciais como Educação, saúde e cultura sendo submetidas aos humores e aos contingenciamentos sazonais, com eventuais avanços e retrocessos, mas sem continuidade e metas a curto, médio e longo prazos. A expansão das universidades exemplifica o processo: dobra-se o número de matrículas na graduação (o que é, a princípio, positivo), mas, sem o  investimento correspondente em professores, bibliotecas, laboratórios e equipamentos, a consequência é a queda brutal da qualidade do ensino e da pesquisa, com risco de sucateamento da universidade pública a médio prazo.
  1. A redução substancial da democracia interna no partido, somado à abrupta diminuição dos canais de diálogo entre governo, partido e sociedade.


Sucessora polêmica
Mas isso só se faria plenamente visível anos após o PT lograr um feito que seu rival tucano jamais conseguiu: eleger, pela terceira vez consecutiva, um(a) presidente da República – e a primeira mulher no cargo. Uma escolha solitária e autoritária de Lula, sem o crivo da democracia interna, que recaiu sobre uma ministra especializada em energia e cuja alegada capacidade gerencial foi ressaltada na campanha (quatro anos depois, a alegada expert, após estripulias populistas eleitoreiras com a conta de luz, ressuscitaria o temor de um apagão energético de grandes proporções). Mas ao final do governo Lula, sua escolha como candidata embora polêmica, pareceu inescapável, como observa a jornalista Denise Queiroz: 
Para qualquer conhecedor e observador da política, parecia um despropósito que uma pessoa que nunca havia disputado qualquer cargo pudesse ser eleita presidente do país. Mesmo no círculo dos cartolas do PT a escolha de Lula não foi bem recebida. Mas a verdade é que o partido havia descuidado de formar novos quadros políticos e as chances de qualquer outro nome seriam mínimas.



Dilma: direita, volver!
O governo Dilma recebeu de Lula um país em muito melhores condições do que o país que Lula recebera de FHC. Com maior apoio parlamentar e a oposição perplexa, desarticulada, tinha condições objetivas de implementar as políticas que julgasse necessárias, inclusive a regulamentação da mídia, que Franklin Martins deixara pronta para ser executada. Mas, contrariando todas as expectativas, ao invés de aprofundar conquistas e demarcar ideologicamente território, seu mandato foi caracterizado desde o início por uma tentativa de expansão da hegemonia eleitoral rumo à direita, seja esta representada pela mídia corporativa ou por partidos e políticos os mais retrógrados.

Nesse processo, passaria, pouco a pouco, a tornar rotineiras – e não só no campo econômico – práticas do pior conservadorismo, como a falta de diálogo, o autoritarismo, o desrespeito ao meio ambiente, às populações indígenas, aos DHs. A truculência foi a tônica na relação com movimentos contestatórios e com o funcionalismo federal. Um exemplo cabal disso foi o tratamento brutal dispensado aos professores universitários em 2012, recusando o dialogo, acossando-os, boicotando-os, procurando ludibriá-los com a criação de um sindicato pelego, espancando-os em frente ao MEC - tratamento que acabaria por gerar a mais longa greve da categoria em sua história.

A privatização do Pré-Sal do campo de Libras, traindo compromisso gravado em campanha, marca um momento em que, até para os mais resistentes, deixa de ser possível acreditar que a administração Dilma se tratasse de um governo de centroesquerda.



Cavalo de Troia
Para piorar, a Copa do Mundo, que no governo Lula parecera uma conquista, revela-se um imenso problema para o governo, que apela à privatização desmedida para entregar as obras de acordo com o cronograma, enquanto promove remoções forçadas e mente à população que não haveria dinheiro público no evento. Ante a combinação de renúncia total a uma plataforma de esquerda e autoritarismo incompatível com democracia, Vladimir Safatle escreve um artigo em que decreta: “O governo Dilma acabou”.

O povo brasileiro, aparentemente alheio à politica, demonstra que sua capacidade de tolerância chegara ao fim e resolve dar um basta: os protestos se espalham como um rastilho pelo país, em cidades grandes, medias e pequenas. A reação de Dilma é fazer um teatro sobre a votação urgente da reforma política – que o PT empurrrara com a barriga por 10 anos – e promessas vãs sobre melhoria da mobilidade urbana e criação de novos canais de democracia direta no PT. Nada disso era pra valer: enquanto ganhava tempo, organiza-se a repressão, que logo se mostraria brutal, com as PMs estaduais apoiadas pela Força Nacional arregimentada pelo ministro Cardozo. O saldo: hoje o Brasil tem ao menos 28 presos políticos cujo crime é exercer o direito constitucional à manifestação pública.




Progressismo” chapa-branca
O petismo não foi até hoje capaz de dimensionar e compreender a importância das jornadas de junho, a qual aplicou a costumeira tática da desqualificação, valendo-se de teorias conspiratórias que culpam desde os partidos menores de esquerda até a CIA, além da mídia, é claro. A delação de manifestantes para a polícia e o apoio à repressão brutal dos jovens que protestavam marca o ponto mais baixo da ação política dessa militância.
A partir desse momento se torna cada vez mais inegável a transformação do petismo em uma seita, em que um fanatismo passional se sobrepõe aos fatos e à razão. Ao passo que, por um lado, a crítica ao retrocesso patrocinado pelo governo Dilma vai ganhando adesão e densidade fora dos círculos petistas, por outro, os chamados “blogueiros progressistas” se consolidam como representantes não oficiais do petismo chapa branca, autênticos cães de guarda a serviço não dos interesses do país, mas do partido, faça este o que fizer.



PIG, desculpa multiuso
Disso deriva o hábito de se referir à mídia como PIG (Partido da Imprensa Golpista), rotulação que, ao assumir sempre e a priori a prática de uma grave violação ética por parte da mídia, antecipa, influencia e minimiza a importância efetiva da análise, comprometendo seu rigor; e que, ao desprezar o contexto de cada fato, concede um eterno, gratuito e injustificado álibi ao governo. Autor de um dos melhores textos sobre as transformações na militância do PT após a chegada ao poder, o cientista político Aldo Fornazieri considera tal processo uma das principais “rotas de fuga” do “neopetismo” (a outra seria a justificação da corrupção), por ele assim descrito:
Consiste na sustentação da tese de que todas as acusações não passam de uma conspiração comandada pela grande mídia – o chamado Partido da Imprensa Golpista (PIG). Qualquer crítica dirigida ao partido ou ao governo, mesmo que ela venha de petistas ou de eleitores do partido, é desqualificada com adjetivos e identificada como uma ação do PIG (…) A ação penal 470 (mensalão) é uma perseguição, o governo Dilma não errou na condução da economia, a Petrobras não foi dilapidada e assaltada por grupos corruptos etc.


A desqualificação como método
No bojo desse processo, a autocrítica e a crítica interna, essenciais para fazer qualquer governo corrigir rumos e avançar, virtualmente desaparecem em prol de um circulo vicioso em que blogueiros e militantes virtuais fazem o papel de acólitos, de “yes men” prontos a defender o governo, seja qual for a situação, mesmo que esta se revele claramente contrária aos interesses da maioria do povo e dos desvalidos. Não é preciso se estender muito para verificar o quão contraproducente tal estratégia resulta.

Além disso, desqualificação pasa a ser um conceito-chave, utilizado contra qualquer pessoa ou entidade que ouse se opor a essa omissão acrítica. Vira a regra, em níveis diversos: como já vimos, o que era, no mais das vezes, uma justa crítica contra a mídia torna-se uma muleta argumentativa visando desqualificar qualquer informação negativa advinda de um órgão de mídia (embora estes sejam rotineiramente citados quando as notícias são positivas). Sob o comando de um avatar virtual oculto sob pseudônimo e fotinho de Che Guevara, a tática precípua ante as críticas passa a ser desqualificar agressivamente o crítico, do mero palpiteiro ao mais embasado; até no julgamento do “Mensalão”, ao invés de uma defesa com argumentação jurídica, a desqualificação foi a tática: mesmo com 9 dos 13 nomes que tomaram parte do julgamento tendo sido indicados por Lula ou por Dilma, prevaleceram os ataques desquakificadores, não raro de cunho racista, contra Joaquim Barbosa.



Dilma I: terra arrasada
Havia um clima palpável de desilusão ao final do governo Dilma, mesmo entre velhos aliados: “Os avanços socioeconômicos coincidiram com o retrocesso político. Em 12 anos de governo, o PT despolitizou a nação”, assinala Frei Betto, petista de primeira hora.

Há agraventes para esse retrocesso, pois ele se deu por não priorizar o interesse público e as demandas urgentes da sociedade em relação aos dos bancos e entidades financeiras, por retomar sem delongas as anteriormente tão criticadas privatizações (ou concessões, ou o nome que a novilíngua da vez adotar), por não mostrar-se efetivo no combate à corrução (como o Petrolão deixa claro), por não priorizar efetivamente, senão com palavras, a Educação, por não regulamentar a mídia nem oferecer aos cidadãos e cidadãs do país meios de aprimoramento de sua cultura política.

Tudo isso somado forma, na opinião deste blogueiro, o pior legado que o petismo deixa ao país: a desideologização, a má formação política, a confusão entre esquerda e direita, entre governo e Estado, entre Estado e religião, entre público e privado, entre cultura e entretenimento, entre democracia e autoritarismo. Em termos de democracia política, os até agora 12 anos de PT marcam, por isso, um retrocesso inaceitável: não só deixamos de avançar o tanto que necessitamos, mas regredimos, e muito.



Por debaixo dos panos
Mas mesmo nos próprios termos axiológicos do petismo o retrocesso é evidente. As relativamente baixas taxas de desemprego (se comparadas às do tempo de FHC ou às dos países europeus mais afetados pela crise), têm relevância como amostras quantitativas, mas o aspecto qualitativo que ocultam nunca foi revelado - e muito menos debatido - com a sociedade. Se o fosse, ficaria claro que a imensa maioria dos postos de trabalho disponíveis é de baixa ou baixíssima remuneração, e que o mercado de trabalho, no Brasil petista, passa por um fenômeno atípico e perverso, em que  quanto mais qualificada a pessoa, mais risco ela corre de não conseguir um emprego de nível condizente com sua formação.
 
Tanto a anunciada erradicação da miséria (utilizando dados de 2010) quanto o combate à pobreza, com ascensão das classes D e E, retrocederam nos dois últimos anos do governo Dilma. Cerca de 45 milhões de pessoas chegaram a ser beneficiárias dos programa de seguridade socioeconômica até 2010, sendo que quase a metade disso teria saído da miséria (ou seja, recebe mais de R$70 por mês, definição por si arbitrária). Porém, de lá para cá, como o próprio Ipea reconheceu, além do ritmo muito menor de inclusão de novos beneficiados, a inflação, combinada ao não-repasse aos valores dos benefícios, fez com que ao menos 4 milhões de cidadãos tenham retornado à condição de miseráveis, e que um número igualmente significativo tenha retornado da classe C para a D. São, como apontou um colunista em matéria recente, os que sentirão mais na carne os efeitos da combinação ora vigente de alta inflação com restrição ao crédito serão justamente os pobres e miseráveis outrora resgatados pelo PT.

O que impede uma radiografia exata do grau de retrocesso econômico enfrentado pelas classes mais desabastecidas é a retomada, no governo Dilma, de uma prática politica típica da ditadura em seu pior momento: a maquiagem e o adiamento de dados oficiais. Enquanto as democracias desenvolvidas avançam rumo a uma maior transparência dos atos públicos, no Brasil funcionários do IGBE denunciaram pressões para que, durante as eleições, atrasassem a divulgação de relatóricos oficiais e modificassem critérios de medição de índices. No que concerne à inflação, estes foram manipulados de todas as formas durante a gestão dilmista, como meio de fazer, na marra, ficarem dentro da meta estabelecida. A mentira, a maquiagem e o ocultamento tornaram-se práticas de governo na era Dilma, e seriam reproduzidas sem o mínimo escrúpulo na campanha à reeleição.



O marketing do vale-tudo
A já referida estratégia desqualificadora a qual o neopetismo emprestou do jornalismo neocon e transformou em arma prioritária de luta política assomou ao papel principal do marketing político do partido durante a campanha para reeleição de Dilma. Uma campanha que logo viria a ser lembrada por promover sem pudor a dissociação entre verdade e fatos.

Aética e mentirosa, incluiu, segundo dezenas de denúncias, o uso de carros de som espalhados por pequenas e médias cidades do Nordeste para espalhar o boato de que o Bolsa Família seria cortado. Manifesto-se, ainda, de forma novamente falseadora, nos ataques pessoais contra Marina Silva e de Aécio Neves, que tiveram suas falas deliberadamente distorcidas. A campanha de 2014, a cargo de João Santana, marca o pior momento do PT, ao se igualar aos partidos usuários das táticas eleitorais mais sujas, que denotam um profundo desrespeito pelos demais candidatos, pelo sistema eleitoral e pela própria democracia.



Fundo do poço
Porém, o início do governo Dilma conseguiu ir ainda mais baixo, traindo logo de cara o discurso eleitoral e atacando direitos trabalhistas e previdenciários básicos - o que prometera não fazer durante a campanha. Para completar, Dilma acabaria de perfazer a guinada à direita do PT, colocando um economista ortodoxo oriundo da Escola de Chicago para gerir a economia, numa admissão não oficial (e jamais autoproclamada) de que suas politicas econômicas falharam, num gesto indisfarçável de derrota que torna as práticas econômicas petistas indistinguíveis das de seu rival tucano.

Das tantas contradições do "modelo" político-econômico adotado pelo petismo em seus 12 anos de governo, talvez a mais danosa diga respeito ao modo como, em um partido que se autointitula de esquerda, a crítica ao capitalismo deu lugar a uma aderência total e acrítica ao consumismo e ao desenvolvimentismo predatório como propulsores da economia. Profundamente retrógrada, numa era em que a esquerda se define não apenas por usa posição em relação ao capitalismo, mas também em termos biopolíticos, tal visão, já caramente visível no modelo em que, alegadamente “todos ganham” da Era Lula, iria se aprofundar muito no governo Dilma. Cujo futuro, assim como o do PT, é uma grande incógnita. Dado o retrospecto acima, não parece haver nenhuma razão para otimismo. Ao menos para a esquerda.



(Imagem retirada daqui)


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Dilma II: uma tragédia anunciada

A eleição de Eduardo Cunha (PMDB/RJ) para a presidência da Câmara dos Deputados marca a expansão, para o campo político, da profunda crise que vem caracterizando o início do segundo mandato de Dilma Rousseff. Vem somar-se à queda generalizada dos índices econômicos, ao retorno da crise energética e ao estopim da sensação de corrupção, deflagrado pelas denúncias do Petrolão.

Desta feita, porém, não se pode usar o subterfúgio de aludir a uma suposta crise econômica mundial – que na vida real atingiu seu ápice em 2008, e foi considerada por Lula “uma marolinha” - para disfarçar o malogro da estratégia do grupo palaciano liderado por Aloizio Mercadante. Em seu intento de conquistar a presidência da Câmara alijando o “aliado” PMDB, o trio formado por Mercadante, Pepe Vargas e Miguel Rossetto não só foi derrotado por Cunha, como deixou o PT, pela primeira vez desde 2002, sem nenhuma das 11 cadeiras da direção da Casa – o que fez até mesmo o jornalista petista Ricardo Kotscho perder a paciência e, em um artigo intitulado "E agora, Dilma? Tudo ou nada leva à solidão política", falar em "humilhanrte derrota" e condenar o amadorismo político da “tropa de choque dos trapalhões”.



Futuro incerto
São imprevisíveis, para o futuro do governo Dilma, as consequências da eleição de Cunha, um arrivista sem freios, representante do conservadorismo religioso e inimigo de longa data da mandatária, a quem chegou a ameaçar explicitamente durante a campanha pela presidência da Câmara. Empossado, terá, na prática, o poder de determinar o que será ou não votado, e em que ordem.

Com isso, na melhor das hipóteses, Dilma terá de ceder ainda mais aos setores mais fisiológicos do PMDB e do baixo clero da Câmara; na pior, e a depender do desenrolar do Petrolão, a aceitação de um pedido de impeachment contra a presidente dependerá de decisão do desafeto. (Por outro lado, paradoxalmente, o envolvimento do próprio Cunha no escândalo da Petrobras seria a melhor chance, no curto prazo, de o Planalto desidratá-lo politicamente.)



Robin Wood às avessas
Já quanto aos efeitos das medidas tomadas por Dilma para tentar colocar a economia nos eixos não há imprevisibilidade: nenhuma delas sequer roça o bolso de latifundiários, banqueiros, herdeiros ou donos de grandes fortunas. Pelo contrário, elas tornam ainda mais precária a existência de desempregados – dificultando o acesso ao seguro-desemprego – e de viúvas(os), com alterações no regime beneficiário que violam de forma flagrante direitos adquiridos – pois incidem retroativamente, um escândalo jurídico que o Brasil acostumou-se a aceitar bovinamente.

Ao diminuir o tempo de recebimento de aposentadorias para várias faixas etárias, as medidas tomadas por Dilma acabarão, no médio prazo, por agravar o fenômeno da velhice desamparada previsto para as próximas décadas, já que muitos deixarão de receber o benefício quando já tiverem idade avançada, num flagrante e cruel contrasenso. Nem FHC ousou meter a mão na aposentadoria da patuleia de forma tão descarada.



Projeções e negações
Ante esse tenebroso início de segundo mandato, incompatível com um governo que se diz de centro-esquerda (ou mesmo de centro), tornam-se cada vez mais frequentes as manifestações de arrepedimento de quem votou em Dilma, e o sumiço da outrora entusiasmada militância petista nas redes sociais já virou motivo de chacota. Ainda assim, há os que continuam defendendo o voto na candidata que agora, pela segunda vez, age de forma contrária à que apregoara na campanha eleitoral (já o fizera no primeiro mandato em relação à privatizaçáo do Pré-Sal). Dentre estes, uma justificativa recorrente é a alegação de que com Aécio seria pior.

Trata-se de de um exercício vão de futurismo, com tal impossível de ser empiricamente verificado. No segundo turno, Aécio firmara acordos com Marina Silva e com o PV de Eduardo Jorge, entre outros partidos menores. Se os cumprisse, sua gestão seria bem melhor que a de Dilma no que se refere a desenvolvimento sustentável, meio ambiente, mobilidade urbana e políticas de gênero. Mas, é claro, há a possibilidade de que ele agisse como Dilma e cometesse estelionato eleitoral (como ela o faz, entre vários e estrepitosos exemplos, ao se comprometer, na campanha, a priorizar a Educação e fazer do Brasil a “Pátria Educadora” para, empossada, cortar R$7,1 bi do orçamento da pasta, porporcionalmente a área mais afetada por suas medidas de contenção de despesas).

O fato de a traição eleitoral de Dilma ser um fato – ao atacar direitos trabalhistas, na Educação, no descaso continuado com a homofobia, entre outros temas – e a de Aécio uma mera possibilidade é uma diferença que sequer tem sido aventada pelos cada vez menos entusiasmados e quantitativamente descrecentes apoiadores da petista.



Oposição enfraquecida
Há, porém, uma diferença entre o estado de coisas do segundo governo Dilma e o que aconteceria numa eventual eleição de Aécio que supera a mera projeção. Pode-se afirmar, sem espaço para a hesitação, que se Aécio tomasse as mesmíssimas medidas que Dilma II tomou até agora, as redes sociais estariam fervendo de fúria oposicionista, e esta possivelmente logo transbordaria para as ruas. Uma forte oposição se adensaria em um período relativamente curto.

Com Dilma, ao contrário: persiste um silêncio conivente enquanto ela viola direitos previdenciários dos pobres, mente e precariza a Educação. Temperada aqui e ali pelo fanatismo dos chamados “blogueiros progressistas” - cada vez mais despidos de espírito crítico e atuando como mera linha auxiliar do petismo -, tal atitude evidencia o quão maléfica é, para o país, a transformação do petismo em uma espécie de seita, despida de autocrítica e que seus adeptos veem como infalível, cujos interesses têm sido, na prática, colocados acima dos interesses do povo e do país.



O preço do dogmatismo
A própria releição de Dilma, num momento em que o quadro de deteriorização geral ora vigente já se delineara com nitidez para os que não se recusaram a encarar a realidade, deriva, em parte, desse cadinho de cultura onde o petismo se apresenta como uma opção dogmática, para além (ou aquém) dos fatos – como o que Dilma recebeu um de Lula um país em muito melhores condições do que este recebera de FHC, mas o entregara bem pior.

As duras medidas econômicas e a crise energética, não obstante sua gravidade, são apenas duas das provas a corroborar tal afirmativa, entre outros tantos alarmes negligenciados durante o primeiro mandato, como o aumento exponencial na frequência do suicídio de índios, os recordes de desmatamento, as denúncias sobre o processo de sucateamento das universidades federais, na contramão do discurso triunfalista de democratização do acesso à universidade (como se isso, sem o correspondente investimento em professores, salas, laboratórios, bibliotecas e livros bastasse).




Ação restrita
O resultado desse dogmatismo, hoje, cobra um preço caro. Uma presidente lame duck, como dizem nos EUA quando querem se referir a um político de poder apenas aparente, alvejado, fadado ao fracasso. Até onde a vista alcança, esta é a situação de Dilma.

Não quer necessariamente dizer que ela não possa revertê-la – ao menos para a única coisa que realmente importa para o petismo já há um bom tempo, as vitórias eleitorais. Mas parece quase impossível que, com o modelo de desenvolvimento e as práticas políticas e econômicas adotadas, somadas ao grau de percepção que grande parte da população tem da relação entre petismo e corrupção, e completadas com a banalização das traições eleitorais e a insensibilidade social recente, Dilma logre reerguer nacionalmente o PT como uma força política coerente, programática, e em direta comunicação com a população.



Destino dos sem-povo
FHC tratou de enterrar, por décadas, as chances presidenciais do PSDB, levando consigo qualquer perfil social-democrata que o partido tenha um dia encarnado. É bem provável que até a hegemonia regional do partido em São Paulo chegue ao fim após o inacreditável show de hipocrisia, oportunismo eleitoral, desleixo administrativo e insensibilidade social proporcionado por Geraldo Alckmin na gestão da crise hídrica.

PSDB e PT vêm sendo, de um tempo pra cá, termos intercambiáveis, num Fla-Flu em que se equivalem e se anulam em suas cada vez menos perceptíveis diferenças. E a não ser que algo de absolutamente extraordinário aconteça, caberá a Dilma, com seu autoritarismo, sua absoluta ausência de autocrítica, seu pragmatismo despido de considerações ideológicas, o papel de coveira do petismo.


Amanhã
Seria, hoje, motivo auspicioso, de comemoração, não fosse o fato que, imerecidamente, os erros do petismo respingaram e serão, por um longo tempo, atribuídos à esquerda. Mesmo que uma verdadeira esquerda, no Brasil atual, ainda esteja pra nascer.



(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Boyhood, grande cinema

Boyhood é um filme solar. Ao retratar 12 anos na história de uma família, com filmagens com o mesmo elenco fixo principal, reunido a cada três anos, trocando a rigidez matemática dos roteiros milimetricamente construídos por uma sensação difusa de naturalismo e maleabilidade, o filme de Richard Linklater traz um sopro de novidade em um momento de profunda crise do cinemão hollywoodiano, sobrepujado pelo fenômeno das séries televisivas.

O foco privilegiado na trajetória do garoto Mason (Ellar Coltrane) – que começa o filme com cinco anos e o termina prestes a completar 18, ingressando na universidade – faz de Boyhood uma trama sobre amadurecimento, ritos de passagem, dissolução da infância na adolescência - e desta na juventude. Mas a riqueza da narrativa e a força dos personagens secundários dão relevo a outras temáticas, como relações familiares, a maternidade, sexualidade e afeto, a relação entre natureza e construcionismo social, ética pessoal versus ética coletiva, o questionamento do “sonho americano”.


Processos de identificação
A captação física dos efeitos da passagem do tempo, embora represente um desafio para a construção da profundidade psicológica dos personagens, tende, paradoxalmente, a intensificar por mimese a identificação do espectador com eles – sobretudo quando são apresentados ainda crianças, como é o caso. Facilita também o afloramento de estados emocionaism no espectador, ao invocar, através da interrelação dos personagens, emoções inerentes à passagem do tempo, como saudade, melancolia, vertigem, (receio de) perda ou de solidão – processo que, em dois ou três pontos-chave de Boyhood, culmina em epifanias.

Mas seria exagero atribuir o impacto do filme ao acompanhamento do envelhecimento do elenco ao longo de 12 anos, ou mesmo considerar isso seu mérito por excelência. Na verdade, sem um pré-roteiro bem amarrado – sujeito a revisões pontuais periódicas ditadas pela própria evçução da dinâmica da equipe - e sem um elenco afiado, as possibilidades de malogro se multiplicariam com a adoção de tal esquema.


Road movie atípico
Com uma gramática narrativa que varia entre tomadas exteriores (que por vezes funcionam como alusão ou metáfora de aspectos da vida sócio-política nos EUA no périodo, eventualmente reforçados pela trama) e tomadas interiores em que a direção de arte, determinante, chega a ter função narrativa, tipificando as mudanças de endereço e de condição social da família, Boyhood não deixa de ser, à sua maneira, um road movie. (Filiação que o nome da produtora de Linklater, Detour, corrobora ao aludir ao título de um cultuado film noir, dirigido em 1945 por Edgar G. Ulmer, e filiado a esse que é considerado o subgênero cinematográfico em que melhor confluem a tematização da identidade pessoal e da identidade nacional.)

Pois, parafraseando o diagnóstico feito por Walter Salles em um texto sobre road movies, de que “os mais interessantes são justamente aqueles em que a crise de identidade do protagonista da história reflete a crise de identidade de uma cultura, de um país”, não parece despropositado sugerir que o processo de amadurecimento, de superação da infância rumo à juventude, vivenciado pelo protagonista de Boyhood – e por cada membro de sua família – ecoa a trajetória dos Estados Unidos em busca da superação do cenário de terra arrasada da Era Bush em prol de um novo país, simbolizado pela candidatura Obama (passagem à qual, aliás, mais de um personagem alude).




Elenco em destaque


Tudo isso, somado, conflui para fazer de Boyhood um filme marcado por um humanismo profundo. E que, embora, como já dito, não se furte a eventualmente tocar emocionalmente o espectador, o faz sem a pieguice adocicada ou o moralismo recorrente em que o cinema norte-americano costuma incorrer quando tematiza relações familiares.

Num elenco em que Patricia Arquette brilha, valendo-se de muita técnica para simular naturalismo (mas sem conseguir atingir o pathos dramático desejável em duas das cenas mais intensas) e a perfomance do jovem ator principal é convincente, mas, com exceção de um ou outro momento - destsacadamente a sequência em que lembra ao pai a promessa de dar-lhe um carro - sem chegar a ser brilhante, é sobretudo através de personagens secundários que o referido humanismo aflora com mais vigor. Notadamente no que diz respeito à irmã do protagonista, vivida por Lorelei Linklater (filha do diretor, nascida no México), e desde criança tipificada como irõnica e contestadora, e ao ex-marido malandro e a princípio loser interpretado por Ethan Hawke, cujo amadurecimento ao longo da narrativa é um dos achados do filme (e valeu ao ator sua quarta indicação ao Oscar, três delas por performances em um filme dirigido por Linklater).



Imprevisibilidade
Graças a essa combinação feliz de fatores, e sem explosões, efeitos especiais de última geração ou um roteiro com rocambolescas idas e vindas no tempo – praga tarantinesca que infecta as produções hollywoodianas das duas últimas décadas - Boyhood logra algo raro no cinema hollywoodiano atual: mantém-se surpreendente do início ao final.

Tem-se, a maior parte do tempo, a impressão de que tudo pode acontecer na narrativa e mesmo os cinéfilos mais escolados em predizerem o rumo da trama através da lógica do roteiro, pelo que os padrões da mise en scène do diretor antecipam, ou mesmo pela escalação do elenco, tendem a ser surpreendidos pela fluência imprevisível da narrativa, que prende o tempo todo a atenção dos espectadores com uma história cuja beleza deriva, paradoxalmente, de ser plausível e comum.






P.S. É certo que o avanço tecnológico melhorou muito a qualidade das sessões caseiras de filmes, mas Booyhood é daqueles filmes cujas potencialidades se multiplicam e se revelam plenamente se vistas em um cinema de tela grande e som potente.


(Imagens retiradas, respectivamente, daqui, dali, de lá e dacolá

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Aldo e o desprezo pelo conhecimento

O fato de alguém sem conhecimento científico, sem a mínima experiência na área, sem sequer um curso universitário, ser nomeado ministro da Ciência e Tecnologia de uma das 10 maiores economias do mundo seria, por si, um acontecimento espantoso.

Atualmente, o perfil mínimo que se espera para tal cargo, em qualquer país decente, é ou o de um gestor científico com décadas de experiência ou o de um acadêmico responsável por pesquisas de monta, em ambos os casos com titulação mínima de doutor. Afinal, ele será a mais alta autoridade a lidar diretamente tanto com desenvolvimento tecnológico quanto com pesquisa - fora e, em parceria com o MEC, dentro da academia,  em níveis diversos, inclusive de ponta.



Na contramão do mundo
Mas o Brasil, após 12 anos sob administração petista, tornou-se um país em que, ao contrário do que acontece no resto do mundo, quanto mais qualificada a pessoa, mais risco ela corre de não conseguir emprego.

Cresce de forma exponencial, ano após ano, o número de doutores desempregados – gente que dedicou mais de uma década ao estudo e à pesquisa, fez graduação, mestrado e doutorado, para, ao final, já não tão jovem, subsistir em subempregos ou viver o drama do desemprego.



Uma comparação
O caso-síntese desse estado de coisas veio a público em um dos debates eleitorais (na Globo), em que a então candidata Dilma, respondendo pergunta de uma economista de meia idade, com doutorado, desempregada, recomendou-lhe que “se reciclasse” fazendo um curso técnico no Pronatec, menina dos olhos da mandatária. Algo como sugerir a um graduado em Engenharia da Computação que aprenda conserto de computador por correspondência.

Aldo Rebelo (PC do B/AL) não sabe consertar computador, não tem curso técnico no Pronatec, graduação, mestrado e muito menos doutorado. Sequer currículo Lattes, item mandatório para quem lida com ciência, ele tem. A formação dele é muito pior do que a da economista desempregada alvo da resposta desdenhosa de Dilma. Mas, como recompensa a tanto despreparo, a presidente decidiu nomeá-lo ministro da Ciência e Tecnologia.



Palavras ao vento
Pois, à revelia do que Aldo fará em relação a Ciência e Tecnologia, Dilma, cuja alegada prioridade à educação raramente transcende o mero discurso para além do ensino técnico, sabe que pode contar com a fidelidade canina do assessor. Afinal, ele também não entendia nada de Esporte e foi ministro da pasta.

O “novo” ministro, um nacionalista autoritário, é tão ignorante em relação à área sob sua responsabilidade que “faz parte do grupo de pessoas que nega o aquecimento global, um debate que já não faz mais parte da ciência. Comprovadamente, o aquecimento está sim acontecendo, como mostram 10.883 dos 10.885 artigos revisados por pares em climatologia em 2013” - aponta Tulio Baars, em artigo demolidor no Brasil Post.



Contra a ciência
Fica ainda pior: Aldo demonstra desconhecer a própria metodologia científica ao considerar o materialismo diáletico, método forjado por Marx a partir de bases hegelianas, uma “ciência da natureza” - algo que a própria crítica marxista de ponta há tempos revisou.

Isso justifica o temor, ora difundido no universo acadêmico-científico, de que ele venha a sobrepor ideologia à ciência. Sua relação com seu colega da Educação, Cid Gomes (PMDB/CE), ex-governador que vivia às turras com os professores, é também motivo de constrangimento e preocupação. Abaixo-assinados com milhares de assinaturas vêm circulando em tais ambientes e devem ser remetidos à Presidência.



Dupla dinâmica
Os receios se justificam. Há fortes indícios de que a principal função de Aldo, no novo cargo, será repetir a tabelinha que, em 2011, fez com a “Miss Desmatamento” Kátia Abreu (PMDB/TO) – agora sua colega da Agricultura. Na época, os dois atuaram intensamente em prol da votação do projeto de reforma do Código Florestal, a qual visava permitir o cultivo em Áreas de Preservação Permanente, diminuir a conservação da flora nas margens dos rios e isentar de multas os agricultores desmatadores.

Ou seja, ele deve funcionar como uma especie de cão de guarda junto à comunidade científica. Por um lado, concentrando esforços no sentido de estimular a produção de material de sustentação teórico-metodológica ao modelo predatório de desenvolvimento tão ao gosto de Dilma. E, por outro, retendo financiamentos e boicotando a realização ou a difusão de pesquisas que deixem claros e quantifiquem os danos ambientais inerentes a tal modelo.



O país relegado
Sua nomeação ao ministério da Ciência e da Tecnologia é um escárnio. Causa indignação, mas não surpresa, pois revela o retrato acabado de um governo que recusa sistematicamente o diálogo, e que não demonstra o mínimo pudor em sacrificar mérito, experiência e qualificação em prol da imposição acrítica e totalitária de seus objetivos. Os quais, como o caso Petrobras ilustra de forma clara, estão longe de coincidirem com o que seria melhor para o país.



(Foto de Dida Sampaio/AE, retirada daqui)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O ministério da discórdia


Como convém aos fatos que buscam baixa repercussão, o anúncio de boa parte da reforma ministerial de Dilma Rousseff teve lugar na véspera dos feriados de final de ano. Época em que os principais comentaristas políticos estão em férias, a mídia limitada a plantões e retrospectivas e as atenções da maioria da população voltadas para lazer, presentes e congraçamento social.

A escolha de tal data tem razão de ser: apesar de sucessivamente adiada, a definição dos novos ocupantes da Esplanada não só deixa de trazer as novidades ou melhorias esperadas, como revela-se profundamente decepcionante, tanto do ponto de vista qualitativo quanto, sobretudo, ético, como se depreende da análise criteriosa de cada uma das nomeações.




Ponderaçoes iniciais
Não se desconhece a dificuldade de se conciliar a escolha de quadros preparados e confiáveis com os interesses dos diversos partidos que formam aliança governista, embora as justas críticas a esse modo de fazer politica - que loteia o Estado entre aliados, qualificados ou não, e está no cerne da corrupção generalizada - se anteponham a qualquer consideração específica sobre as escolhas de Dilma. Ainda mais porque havia, no cardápio da eleição presidencial, oferta de outros modelos de adminsitração do Estado.

Também não se deixa de reconhecer os eventuais acertos: a nomeação, para o ministério da Igualdade Racial, de Nilma Leno Gomes (sem partido), pedagoga e PhD em Sociologia – e primeira afrobrasileira a assumir a reitoria de uma universidade federal (a Unilab) -, bem como a manutenção, no Turismo, de Vinicius Lage (PMDB/AL), de perfil acadêmico e egresso do Sebrae, constituem exemplos de escolhas saudadas em suas respectivas áreas. Mas, reunindo qualificação, passado ilibado e competência, são exceções que distoam dos demais nomeados, como veremos, de forma documentada, a seguir.



Descritério
Para as Minas e Energia, em que a corrupção é um tema particularmente sensível - pois a pasta lida diretamente com a Petrobras, imersa em escândalo - a presidente nomeou Eduardo Braga (PMDB/AM), um sujeito investigado pelo STF por fraude, peculato e formação de quadrilha. Assim fica realmente difícil acreditar em Dilma quando afirma priorizar o combate à corrupção.

Para escolher seu ministro do Esporte, a presidente também não demonstrou preocupação em adotar um critério que levasse em conta competência na área ou manutenção de padrões éticos. Preferiu usar a pasta para preencher a cota do PRB e da bancada evangélica, nomeando o deputado federal George Hilton (MG). Pastor midiático da IURD, ligado ao “bispo” Edir Macedo, foi expulso do PFL - vejam bem, do tolerante PFL - em 2007, após ser detido pela Polícia Federal no aeroporto de Pampulha (MG), com 11 caixas de papelão contendo R$600 mil. Alegou tratar-se de dinheiro amealhado entre os fieis.



No MEC, um inimigo dos professores
Na Educação, área que Dilma sempre afirma ser prioridade, a escolha presidencial foi das mais polêmicas, contemplando um político que já vestiu a camisa de cinco partidos políticos, inclusive, por oito anos, do PSDB. O atual responsável por coordenar a Educação no país, quando governador do Ceará, dirigiu-se a professores grevistas nos seguintes termos: “Quem quer dar aula faz isso por gosto, e não pelo salário”. E não se limitou a despautérios verbais: entrou na Justiça contra o pagamento do Piso Salarial Nacional dos Professores, aprovado pelo Congresso.

No quesito ética, não faltam escândalos à biografia d agora ministro Cid Gomes: em 2010, a Polícia Federal abriu uma investigação para apurar seu envolvimento em um desvio de R$300 milhões do Ministério da Integração Nacional quando ocupado por seu irmão Ciro. Para completar, tem o vício coronelista da censura à imprensa: após a Isto É denunciar que ele estaria envolvido no escândalo do Petrolão, processou a revista e conseguiu, graças à decisão de uma juíza de Fortaleza, que a circulação do número em questão fosse vetada em todo o país e a revista proibida de publicar matérias que ligassem seu nome ao escândalo. Posteriormente, o STF reviu a decisão, em sentença do ministro Luis Roberto Barroso, que sustentou, peremptório: “A Constituição proíbe, expressamente, a censura”.



Ideologia versus Ciência
A escolha, para a Educação, de um político com tal backgrund, somada à nomeação do nacionalista autoritário Aldo Rebelo (PC do B/AL) para o ministério da Ciência e Tecnologia, suscita, no momento, grandes preocupações no ambiente acadêmico. Autor de uma lei que visava banir o uso de palavras estrangeiras, Rebelo, na contramão da ciência contemporânea, defende com convicção que o aquecimento global não passa de “uma trapaça ambiental” promovida por “um movimento ambientalista internacional” que é”cabeça de ponte do imperialismo”. 

Soa inacreditável que, em um país com tantos cientistas e gestores científicos de alto nível, a escolha do ministro da área desconsidere qualquer credencial meritória e recaia sobre uma figura tão desinformada e jurássica como Rebelo, que, num curioso raciocínio, considera o materialismo dialético uma ciência, e a metodologia científica uma ideologia. 

 Ademais, em um momento histórico de internacionalização científica e acadêmica, todos aqueles que se preocupam com o nível de qualidade da universidade e da pesquisa científica brasileiras têm, com a dupla Rabelo e Gomes no comando de seus respectivos ministérios, ainda mais motivos para se preocupar.




Ecos malufistas
Também numerosas e ainda mais graves são as acusações que pairam sobre o novo ministro das Cidades, Gilberto Kassab (PSD/SP). Oriundo do malufismo, trata-se de um controverso político de ascensão fulminante, contra quem abundam susoeitas de improbidade administrativa e financiamento ilegal de campanha, e cujo enriquecimento rápido tem chamado a atenção da Justiça reiteradas vezes

Na primeira, quando seu patrimônio teria crescido 316% entre 1994 e 1998. Na segunda, quando chegou a ser cassado por um dia do cargo de prefeito de São Paulo devido a “Doações ilegais [à sua campanha] somariam dez milhões de reais. As empreiteiras patrocinadoras teriam recebido 243 milhões de reais em contratos já pagos pela prefeitura desde 2009”, como resume o Estadão. Na terceira – o caso Controlar – foi absolvido da acusação de reativar um contrato caduco originalmente assinado por Maluf em 1996 e que teria gerado um prejuízo de R$1 bilhão aos cofres municipais. Na quarta, foi condenado por improbidade administrativa pelo Tribunal da Justiça (SP) em junho deste ano, pelo não-pagamento de R$118 milhões em precatórios. Cabe recurso. 

Além disso, em 2013, quatro assessores de Kassab, por ele nomeados a cargos de confiança, foram presos, "acusados de integrar um esquema de cobrança de propina que gerou um prejuízo de R$ 200 milhões aos cofres públicos, segundo o Ministério Público". Pesam sobre eles crimes de corrupção, concussão, lavagem de dinheito e advocacia administrativa.

Deixou a prefeitura paulistana sob reiteradas acusações de corrupção, a ponto de seu sucessor – o petista Fenando Haddad - ter se recusado a renovar o contrato com a Controlar e criado uma força-tarefa para investigar os desmandos do aliado federal, a qual levou meses para identificar e alegadamente sanar práticas e esquemas. Agora Dilma coloca um homem público com tal folha corrida - a quem os próprios petistas reiteradas vezes se referiram como corrupto e incompetente (“O pior prefeito do Brasil”) - para administrar um ministério que controla volumoso orçamento voltado a obras públicas. Depois, quando a bomba estourar, virá a público dizer que “não rouba nem deixa roubar”?




PT e UDR, enfim juntos
Mas o nome mais polêmico do novo ministério de Dilma é, sem dúvida, o de Kátia Abreu (PMDB/TO), senadora, pecuarista e líder ruralista envolta em diversas denúncias que incluem, de forma reiterada, grilagem de terras, desmatamento ilegal e exploração do trabalho escravo. Em sua atução parlamentar, trabalhou intensamente para aprovar anistia aos violadores no Código Florestal e barrar a aprovação da PEC do Trabalho Escravo. Possuidora de 2.500 hectares de terras improdutivas, refere-se aos movimentos sociais que atuam no campo como “milícias” e “movimento dos sem lei”.

Sua nomeação suscita graves temores em relação à preservação do meio-ambiente, à justiça social no campo e ao respeito aos direitos indígenas – já violados, no primeiro mandato Dilma, em um grau só comparável ao da ditadura militar. A nomeação da "Miss Desmatamento", titulo outorgado pelos ambientalistas, tem sido motivo de protestos e abaixo-assinados e de chacota internacionais: o de ordinário sóbrio diário britânico The Guardian destacou, em manchete: “Brazil's 'chainsaw queen' appointed new agriculture minister” ["Rainha brasileira da serra elérica” indicada ministra da Agricultura].

Trata-se de uma escolha tão retrógrada e estapafúrdia que que nem mesmo alguns militantes petistas de carteirinha, daqueles que tudo aceitam e justificam, têm engolido. E é importante ressaltar que ela não foi nomeada por imposição da aliança ou pressão de seu partido, mas na cota pessoal da presidente Dilma, com quem tem laços de amizade, o que torna a escolha ainda mais escandalosa.





De outros carnavais
Causam preocupação, ainda, entre os novos ocupantes da Esplanada dos Ministério anunciados na terça-feira, o novo titular da Aviação Civil, Eliseu Padilha (PMDB/RS), ex-ministro de FHC que é réu no chamado “escândalo dos precatórios”, e Helder Barbalho (Pesca), denunciado por improbidade administrativa quando prefeito de Ananindeua (PA) e filho do “coronel” Jader Barbalho, de históricas ligações com o conservadorismo e pivô de denúncias de enriquecimento ilícito e desvios milionários da SUDAM. Em 2002, Jader chegou a ser preso e algemado pela Polícia Federal em Belém, tendo sido acusado de desviar R$9 milhões para o ranário da mulher. Soa a humor negro saber que o filho responderá, no governo Dilma, entre outros ramos da atividade pesqueira, pela ranicultura no país.

Para a Defesa, ministério com frequente interlocução com os setores militares, Dilma escalou Jacques Wagner (PT), controverso ex-governador da Bahia responsável por uma gestão truculenta, em que maltratou professores e funcionários públicos e enfrentou uma ruidosa greve da PM, contra a qual convocou o Exército. Em seu mandato, Wagner envolveu-se em nada menos do que treze escândalos de corrupção. Apesar de tal desempenho, foi recompensado por Dilma com o ministério da Defesa.



Mais do mesmo
Ricardo Berzoini (PT/SP) é a escolha de Dilma para a estratégica pasta das Comunicações. Como coordenador da campanha de reeleição de Lula, foi um dos envolvidos no “Escândalo dos aloprados”, arquivado pelo TSE por falta de provas. À frente das Comunicações, deve completar a obra de Paulo Bernardo (PT/PR), que tomou posse prometendo regularizar a mídia, enquadrar as teles e democratizar a banda larga e deixa o cargo com a Secom abastecendo os cofres da mídia corporativa, a banda larga fora do alcance da maioria da população e as teles reiteradamente anistiadas, apesar de prestarem um dos serviços mais caros e precários do mundo – líder de queixas no Procon.

Os ministros anunciados esta semana irão se somar aos novos ocupantes da área econômica, anteriormente nomeados por Dilma e liderados pelo ultraortodoxo Joaquim Levy, pupilo dileto de Arminio Fraga, a escolha antecipada de Aécio para a Fazenda execrado pelo marleting petista durante a campanha eleitoral. Grave falta de coerência ou estelionato eleitoral?



Expectativas frustradas
Tudo somado, ficam claras a falta de consistência do ministério e a forma como experiência e expertise foram preteridas em nome de um arranjo improvisado para acomodar interesses políticos, com absoluta despreocupação em dotar o país de um ministério formado pelos melhores quadros.

A tal déficit de qualificação soma-se a inexplicável demora na escolha dos nomes para, ao final, nomear sujeitos sobre os quais, em sua maioria, pairam graves suspeitas de corrupção. Do processo resulta evidente que Dilma Rpusseff encontra-se perdida e mal assessorada. O ministério por ela nomeado, além dos problemas relativos a qualificação e ética, acima apontados, é tão ou mais conservador do que seria o de seus principais adversários na eleição, seja Marina Silva ou mesmo Aécio Neves. Só não vê quem não quer.

Com um Congresso dividido, o pais em crise econômica e em meio a um caso particularmente grave de corrupção, já havia razões de sobra para temer por 2015 e pelo futuro do Brasil a médio prazo. Com a nomeação de um ministério eticamente suspeito e de baixa qualidade técnica, a presidente consegue uma façanha: torna os prognósticos ainda piores.



(Imagem retirada daqui e editada)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Playlist de Natal

Compartilho com os leitores e leitoras do blog uma playlist natalina (quase) nada piegas (será possível?). Afinal, nem todos celebram o Natal, mas música todos ouvem.

Feliz Natal aos que comemoram a data, e uma ótima semana aos que não a celebram!


Abrindo os trabalhos, A MUSA:







3) James Brown - Santa Claus go Straight to the Ghetto 

4) Ottis Redding – Merry Christmas Baby
  




6) Johnny Winter – Please come home for Christmas 

7) Ella Fitzgerald - Have yourself a Merry Little Christmas 

8) João Donato - Depois do Natal 

9) Vinicius de Moraes - Poema de Natal 

10) Caetano Veloso - In the hot sun of a Christmas Day
 

 


12) Iggy Pop – White Christmas 

13) The Ramones – Merry Christmas (I don't want to fight tonight) 




 
15) The Beatles - Jingle Bell Rock

16) Elvis Presley - Santa Claus is back in town 

17) Brenda Lee - Rockin' around the Christmas Tree


   





20) Jimmy Cricket (Cliff Richard) – When you wish upon a star 

"Hors concours") John Lennon - Happy Xmas (War is over)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Falácias alimentam tolerância à corrupção

O escândalo de corrupção da Petrobras toma proporções cada vez mais graves à medida que o teor das delações premiadas começa a vir à tona, revelando uma teia de envolvidos e um modus operandi que, com pequenas ressalvas, sugerem um novo “Mensalão”, mais descarado e em maior escala.

Com o depoimento da ex-gerente Verina Velosa, as acusações chegam à alta cúpula da estatal, atingindo diretamente a presidente Graça Foster, a qual Dilma Rousseff teima em manter no cargo, a despeito do enorme desgaste para a imagem e o desempenho mercadológico da empresa.



Liberou geral
Além de ativar contra Verina a máquina de desconstrução do partido, tão atuante nas últimas eleições, a resposta-padrão do petismo, repetida por blogueiros “progressistas” e por Carta Capital - que cada vez mais se assemelha a uma Veja chapa-branca - tem sido que o escândalo envolve políticos de todos os partidos. Trata-de de meia verdade, a serviço de uma empulhação completa.

Meia verdade porque, dos 28 nomes elencados pela delação de Paulo Roberto Costa, só um não pertence à base aliada (Sérgio Guerra, do PSDB; o ex-governador Eduardo Campos, à época das denúncias, ainda pertencia). O tucano, tudo indica, é a exceção que confirma a regra, pois o PT e o PMDB têm, cada um, oito nomes citados e o PP do aliado Maluf, 10. Mais: não há menção a nenhum político do PSOL ou dos demais partidos à esquerda.

E se trata de empulhação integral porque a (falsa) premissa implícita em tal resposta-padrão é: se todos roubam, então o PT e seus aliados não podem ser punidos. Locupletemo-nos todos e viva a impunidade!



Cadeia de comando
Tal presunção não se sustenta nem ante a Justiça nem ante a Ética – as quais pressupõem que todos os envolvidos em corrupção têm de responder por suas trangressões legais. Pior: ignora o fato de que a responsabilidade pela administação da Petrobras, estatal nacional de economia mista, cabe sobretudo ao governo federal, acinista majoritário, ao qual a empresa está subordinada e que é o responsável pela nomeação de presidente e diretores e por assegurar que as linhas-mestras ditadas para as áreas de biocombustível e tecnologia sejam por eles cumpridas a contento e com lisura.

E o governo federal está, há mais de uma década, a cargo de uma aliança capitaneada pelo Partido dos Trabalhadores – tempo mais do que suficente para conhecer bem sua maior e principal empresa e identificar os desvios milionários causados por um esquema de grandes dimensões, envolvendo planejamento, maquiagem de contas e dezenas de políticos próximos, em um verdadeiro achaque contra os cofres públicos.

Ao invés disso, prefere, a despeito dos vários alertas enviados à presidência da estatal denunciando o golpe, simular total desconhecimento, sustentando uma pouco crível argumentação segundo a qual um esquema que teria beneficiado 27 membros do alto escalão da base aliada fosse desconhecido pela presidente da empresa, pela cúpula dos partidos envolvidos e pela presidente da República, cuja familiariedade com meandros da administração petrolífera inclui não apenas seus dois anos e meio à frente do ministério das Minas e Energia, mas a chefia do conselho da Petrobras até 2006.



Bode expiatório
Outro estratagema petista para tentar desqualificar as denúncias do Petrolão é alegar que a mídia as destaca com furor, enquanto pouco ou nada fala dos escândalos protagonizados pelo PSDB, notadamente o maior deles, o “Metrolão” paulista, envolvendo 18 empresas e contratos suspeitos que somam mais de R$ 400 milhões.

Trata-se, de modo geral, de uma crítica procedente, que se refere a um grave problema da mídia brasileira. Mas mesmo em relação a isso o PT tem sua parcela de responsabilidade, pois, se não tivesse se acovardado e recuado de seu projeto de constituir um novo marco regulatório para a mídia, talvez a questão estivesse encaminhada. Mas não: parece ser cômodo para o partido que a militância berre histericamente contra o “PIG”, enquanto os cofres da Secom acariciam os bolsos dos magnatas das comunicações e Dilma faz omelete com Ana Maria Braga.

De qualquer modo, efetiva, a assimetria de tratamento que a mídia dispensa aos escândalos de um e de outro partido deve como tal ser denunciada e combatida. Mas ela não constitui, de modo algum, uma justificativa para que os escândalos de corrupção petistas deixem de ser investigados, como insinuam parte dos militantes. Pelo contrário: o que ela evidencia é a necessidade de isonomia de tratamento para a corrupção, provenha de onde provier, e de atenção a casos que recebem menos atenção da mídia, sem prejuízo do rigor para com qualquer caso de corrupção. O contrário disso é leniência e omissão – práticas tornadas lugar comum no governo Dilma, que ainda por cima, em relação ao Petrolão, quer faturar como seus os louros da investigação conduzida, por iniciativa própria, pelo Ministério Público e pela Polícia Federal.



Corrupções várias
O tempo talvez tenha embotado a memória de muitos, mas, há doze anos, a promessa de renovação que alçou o PT ao poder incluía não apenas um novo pacto social - com combate à pobreza via programas governamentais e inclusão de minorias via sistema de cotas -, mas um compromisso de lisura ética no trato da coisa pública, em consonância com o papel que o partido desempenhara junto ao Ministério Público e nas denúncias dos casos de corrupção dos governos Sarney, Collor e Fernando Henrique.

A Carta ao Povo Brasileiro, assinada pelo candidato Lula na reta final da campanha de 2002, serviu para tranquilizar o mercado e frear os ânimos anticapitalistas que até então moviam parcelas do petismo, mas, como demonstrou com propriedade o economista José Paulo Kupfer, ela se limita a firmar um compromisso de respeito às regras gerais de funcionamento do mercado. No entanto, nem mesmo nas entrelinhas, permite que se confunda a concordância com tais normas com renúncia a aperfeiçoá-las, a manipulá-las a fim de se alcançar objetivos políticos sem transgredi-las ou a combater seus efeitos colaterais – dos quais a corrupção é o mais evidente.

No governo, o modo de operar foi bem outro, e à realpolitik por demais elástica dos primeiros tempos chegamos, através da nomeação de Joaquim Levy ao ministério da Fazenda, à rendição ao mercadismo mais abjeto, tão criticado na recente campanha eleitoral, que o petismo, em sua ânsia irrefreada pelo poder a qualquer custo, transformou na mais suja da história do país. Se o golpe na mais simbólica e historicamente mais relevante empresa do Brasil – hoje reduzida, na melhor das hipóteses, à metade de seu valor de quatro anos atrás, num caso claro de ma gestão – marca o ápice da corrupção na era petista, a nomeação de Levy e, a confirmar, a de Kátia Abreu, são a expressão do grau de corrupção moral da aliança governista, descomprometida com qualquer coerência ideológica ou programática.



Exercicio mental
Isso posto, para encerrar, convido o leitor ou a leitora a fazer um exercício de projeção: imagine que um político tucano estivesse há 12 anos na Presidência e, além de não ter o mínimo pudor de trair os compromissos de campanha, fosse descoberto, durante seuu governo, um enorme caso de corrupção numa estatal, em que tivesem sido surrupiados no mínimo R$30 bilhões do povo brasileiro em prol dos bolsos dos aliados do poder. Qual seria a reação do petismo?



(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Comissão da Verdade faz história

 É um marco histórico a entrega do relatório final da Comissão da Verdade, realizada hoje (10/12), em Brasília. Sua importância simbólica e efetiva, como registro documental dos crimes perpetrados pelo Estado durante o período militar, supera as criticas que se possa fazer às condições, restrições e táticas dissimulantes das quais foi vítima desde sua tardia implementação.

O vício das conciliações por cima, traço distintivo do modus operandi das elites brasileiras, fez com que sejamos o último dos países latino-americanos a não acertar as contas com seu passado ditatorial mais ou menos recente. E, no caso, graças a uma casuística Lei de Anistia, implementada por quem dela se beneficiaria, o único em que à constatação de crimes oficiais como tortura, assassinato e ocultação de cadáver não corresponde a devida punição legal.



Desinformação política
Esse anacronismo – e o desconhecimento histórico para o qual ele contribui de froma determinante - talvez ajude a explicar porque proliferam, nas manifestações conservadoras recentes, clamores por um novo golpe militar, alegada panaceia que visaria, sobretudo, o combate à corrupção. Trata-se de um raciocínio tão denunciador, a um tempo, de ignorância histórica e de ingenuidade política de quem o perpetua que tende a soar sempre como mera provocação, trollagem de quem não tem o que fazer.

Pois foi justamente à sombra silenciosa do arbítrio que, enquanto o sangue escorria nos porões, a corrupção assumiu um caráter sistemático e gigantesco, em megaobras superfaturadas e no loteamento do acesso ao Estado. Além da relação incestuosa entre o regime militar e o sistema financeiro – que gerou casos como o Coroa-Brastel, do Banco Nacional e da falência da Panair- , proliferaram, como nunca, as concorrências viciadas, em casos como a “Operação Capemi” [referência à Caixa Pecúlio dos Militares, evidenciando envolvimento direto de militares], a construção da Ponte Rio-Niterói, e a rodovia Transamazômica, símbolo máximo do desperdício de dinheiro público, de corrupção e da falácia do projeto de desenvolvimento modelo “Brasil Grande”.



Resgate necessário
Ademais, o saudosismo golpista não é autorizado pela infeliz constatação infeliz de que o PT, em suas primeiras décadas um partido que priorizava a ética na política, tenha decidido fechar os olhos para a corrupção e adotar uma realpolitik tão elástica que inclui “fazer o que todos fazem no poder” - tática cujos resultados mais evidentes são os casos “Mensalão” e a administração pra lá de irresponsável da Petrobras.

Pelo contrário: tal constatação antes reforça a necessidade de a esquerda resgatar, nos programas de seus partidos, o caráter precípuo do combate à corrupção - não só pelo risco de se tornar, na prática, indistinguível dos partidos conservadores com histórico de grossa bandalheira, mas, com a descrença generalizada que tal indistinção propicia, fomentar a ameaça totalitária que vê em golpes militares a panaceia contra a corrupção.



Prioridade atual
A emoção profunda que acometeu a presidente Dilma em seu discurso, no ato de entrega do relatório da Comissão da Verdade, se justifica, tanto (certamente) em termos pessoais quanto cívicos: com todas as muitas críticas que se possa tecer à sua administração – e este blog não se tem furtado de fazê-la -, a cerimônia de hoje representa uma grande conquista para sua gestão e para o país.

E, importante: não só pelo imprescindível e inadiável acerto de contas com a brutalidade dos métodos ditatoriais, mas por apontar temas urgentes e atuais de máxima importância, como o fim da tortura como técnica disseminada de investigação policial, sobretudo contra os pobres, a necessidade de adoção de um modelo desmilitarizado de força policial e a urgência de se combater a hoje insuportável violência urbana sem abrir mão do respeito a direitos humanos internacionalmente consagrados. O futuro do Brasil enquanto sociedade depende disso.

(Imagens retiradas, respectgivamente, daqui, dali e dacolá)