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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Dilma e a esquerda traída

O segundo mandato de Dilma sequer começou, mas acumulam-se evidências de que o petismo no poder empreenderá, uma vez mais e de forma ainda mais acentuada, uma guinada à direita, com a entrega do comando da economia a Joaquim Levy e a presença, no ministério, de líderes do agronegócio, da indústria e do sindicalismo patronal.

Levy, convém frisar, é um economista ultraortodoxo com fixação em corte de gastos públicos. É pós-graduado pela Universidade de Chicago, o principal polo mundial do liberalismo “puro” fortemente influenciado por Milton Friedman, guru de gerações de economistas cujo principais traços são a fé cega no mercado e a dissociação entre desempenho da economia e bem-estar da população – destarte, os preferidos por regimes totalitários (“As teorias de Friedman lhe deram o prêmio Nobel; ao Chile deram o general Pinochet”, ironizou o escritor Eduardo Galeano. A ditadura chilena serviu ainda de incubadora para o que viria a ser a doutrina neoliberal. Sobre a relação entre o legado de Friedman, o neoloiberalismo e a "nova política", assista aqui à íntegra do documentário A Doutrna do Choque, baseado no livro homônimo de Naomi Klein).



Seis por meia dúzia
Não bastasse tal pedigree, Levy foi aluno do ex-ministro do Planejamento na gestão FHC, Armínio Fraga, de quem é considerado discípulo e com quem teria contribuído amiúde na campanha de Aécio Neves; e é alto executivo do Bradesco, o banco que vem batendo sucessivos recordes de lucro na era petista, que o teria indicado à Fazenda após o presidente da instituição, Luiz Carlos Trabuco, recusar o convite ao cargo.

Para os que ainda têm fresca na memória a campanha difamatória que o marketing eleitoral petista promoveu contra Neca Setúbal e depois contra Fraga, apregoando que submeteriam o país ao comando do mercado e, literalmente, tirariam a comida dos pratos dos brasileiros para aumentar o lucro dos bancos, a hipocrisia e o descompromisso com a coerência inerentes à nomeação de Levy ficam evidentes.

Se era para colocar no ministério um aluno de Armírio ainda mais ortodoxo do que este, que se nomeasse o mestre, diz a blague.



Reação tardia
Ante a iminência da nomeação de Levy para a Fazenda, de Kátia Abreu para o agronegócio e de Amando Monteiro para a Indústria e Comércio, intelectuais e esquerdistas mobilizaram-se para um abaixo-assinado direcionado à presidente Dilma, manifestando preocupação ante a iminente guinada a um conservadorismo ainda mais atávico do que o do primeiro mandato e chamando a atenção da ex-candidata petista para seus compromissos com os setores da esquerda determinantes para que vencesse as eleições.

Não obstante a legitimidade e as boas intenções da iniciativa, trata-se de um gesto ingênuo e fadado ao mero simbolismo. Mesmo porque a esquerda, no segundo turno, por ingenuidade ou voluntarismo, foi cooptada sem estabelecer condições, se deixando enganar pelos truques marqueteiros de João Santana, mesmo após 12 anos de PT no poder, período mais do que suficientes para que mesmo um simpatizante de primeira hora e figura íntima do partido e de Lula se desencantasse:

Os avanços socioeconômicos coincidiram com o retrocesso político. Em 12 anos de governo, o PT despolitizou a nação. Preferiu assegurar governabilidade com alianças partidárias, muitas delas espúrias, em vez de estreitar laços com seu esteio de origem, os movimentos sociais.
(…)

O PT até agora robusteceu o mercado financeiro e deu passos tímidos na reforma agrária. Agradou as empreiteiras e pouco fez pelos atingidos por barragens. Respaldou o agronegócio e aprovou um Código Florestal aplaudido por quem desmata e agride o meio ambiente”


Mantra eleitoreiro
Não obstante tal implacável diagnóstico, o autor do texto, Frei Betto, está entre aqueles que, no segundo turno, não só endossaram mas repetiram obsessivamente o discurso do nós contra eles, segundo o qual a candidatura Dilma representava a única opção redentora para a esquerda, enquanto Marina ou Aécio encarnavam, ora um, ora outro, o mercado no poder e o retorno do neoliberalismo de FHC.

Apesar do primarismo do discurso – e das fartas evidências da guinada conservadora petista, agravada no primeiro governo Dilma e da qual Betto demonstra ter plena consciência -, a narrativa foi suficiente para levar amplos setores da esquerda a declarar voto em Dilma, sem sequer demandarem algo em troca. Agora se dizem traídos. Será mesmo? Ou terão traído a si próprios?

Seja como for, perderam, assim, uma oportunidade histórica de se consolidar como uma alternativa consistente à esquerda do PT e de reafirmar a persistência da dupla crítica que avultou nas Jornadas de Junho: ao modelo de desenvolvimento arcaico do neopetismo, baseado na escalada do consumo e em grandes obras, e ao modelo político de alianças aideológicas em troca do aparelhamento do Estado.



Cheque em branco
Agora, madalenas arrependidas, com a repercussão do novo ministério nas redes sociais e a sombria aproximação de Dilma com o conservadorismo mais desbragado– o que pode ser pior que Kátia Abreu? - começam a se dar conta da dimensão de seu erro e a se aperceber que forneceram um cheque em branco a uma administração que só se autointitula esquerda nas eleições, mas se mostra, na prática, cada vez mais indistinguível de seus opositores tucanos. Melhor fariam se assumissem a responsabilidade e se redimissem publicamente por seu erro, ao invés de fingirem inocência em abaixo-assinados cuja eficácia resume-se a ao aplacamento da consciência dos que o assinaram.

Pois, no mundo real, o segundo governo Dilma está prestes a começar, e seu script, já foi traçado: em mais um paradoxo típico do petismo no poder, tão logo consiga aprovar, no Congresso, o projeto que permite desobedecer às metas de superávit fiscal, o governo, num inegável retrocesso e traindo seu discurso eleitoral, nomeará a equipe econômica chefiada por Levy, e este, já no dia seguinte à posse, anunciará um pacote econômico anticíclico que afetará de maneira dramática a economia em 2015.

Nada muito diferente do que fariam Marina ou Aécio, com a diferença de que estes não contariam com o beneplácito dos inocentes úteis que compõem a a chamada “esquerda crítica” - leia-se chapa-branca. Pelo contrário: seriam implacavelmente por ela vigiados e denunciados.



(Foto retirada daqui e editada)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Casos Ipea e Bradesco marcam o pós-eleição

Na ressaca de uma campanha eleitoral marcada por ataques baixos, o governo Dilma, enquanto fala em diálogo e união, esforça-se para construir uma narrativa segundo a qual a oposição, em sua “belicosidade”, estaria dando mostras de ser uma “má perdedora”.

Enquanto isso, a mandatária reserva a si e aos seus a imagem magnâmina dos que “sabem ganhar”, ou seja, sem revanchismo ou tripudiação. Como se, no quadro atual,  repleto de adversidades, tivessem condições políticas para agir de outro modo...

Trata-se de mais um round da velha e imutável tática petista de culpar sempre os outros, recusando-se a admitir seus próprios erros, bem como qualquer atitude que recenda a autocrítica.



Cenário adverso
Para piorar a situação da nova velha presidente, sua vitória, embora legítima, não só foi muito apertada mas, somados os votos dos eleitores que anularam em protesto contra tudo que aí está, inclusive seu governo – entre os quais se encontra este blogueiro -, deu-se em um contexto em que a votação contra si supera os votos a favor.

Tal fato não torna o segundo governo Dilma menos legítimo, nem justifica os tragicômicos apelos por impeachment ou intervenção militar. Mas desenha, para a mandatária e seu partido, um cenário bem mais adverso que o do primeiro mandato, colocando um desafio concreto à frente.

Ainda mais porque, diretamente ligada à configuração pós-eleitoral, há uma conjunção de desafios para Dilma: baixo crescimento econômico e ameaça inflacionária, com aumentos de preços até então represados; a rebelião no aliado PMDB; a presença (inédita para o PT) de uma oposição motivada e de peso em Brasília, liderada pelo próprio Aécio, desejoso de vingança, e pelo sempre ardiloso Serra.



Ecos do massacre
Além disso, como analistas políticos e setores da oposição têm enfatizado, permanece fresca na memória de muitos o uso pelo PT da desqualificação enquanto método eleitoral, em detrimento a apresentação e defesa de programa de governo.

Com efeito, seria mera ilusão, ou erro de cálculo político, achar que uma campanha suja como a empreendida pelo PT contra Marina Silva (e Aécio Neves, que revidou) passaria impune, ou estaria destinada a empoeirar nas estantes da história até ser revirada por um pesquisador bisbilhoteiro, ao qual a máquina petista logo trataria de trucidar, como fez com a candidata do PSB.

Mas nem só as feridas mal cicatrizadas do passado recente dificultam à pacificação dos ânimos. Novidades ainda quentes também impedem que viremos a folha do livro das eleições e vivamos nosso radioso presente.




Incoerências impunes
Primeiro foi o convite a megabanqueiros para que assumissem o ministério da Fazenda, cargo comumente referido como o de “czar da economia”, tamanho o seu poder decisório. Depois de ter martelado uma campanha difamatória contra Neca Setúbal, educadora reconhecida e sócia minoritária do Itaú, soa a escárnio o convite de Dilma para que o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, assuma tal cargo. Ante a humilhante negativa deste, cogita-se Henrique Meirelles, o ex-presidente internacional do Bank of Boston que chefiou o BC nos governos Lula.

Ora, o cidadão, eleitor do PT ou não, tem todo o direito de cobrar coerência por parte dos governantes. É ofensivo à ética pública e à cidadania que candidatos a cargos eletivos critiquem com veemência determinados comportamentos quando estão em campanha e os repitam, de forma ainda mais grave, quando assumem o poder.

Há um perigoso parentesco entre tal comportamento e o estelionato eleitoral, e se o eleitor não se dá conta ou logo perdoa ou esquece, o próprio partido faz vista grossa e recusa a autocritica, cabe, por um lado, à Justiça eleitoral e, por outro, às oposições cobrarem coerência e denunciarem o uso de uma moral dupla.



Aparelhamento flagrante
Mas os atualíssimos esqueletos das eleições não se restringem a tal descaramento. Ontem mesmo, com a divulgação de dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre miséria e pobreza, corroborou-se o que no período eleitoral era mero boato: o outrora respeitado órgão, sob forte pressão palaciana, teria atrasado a publicação de informações oficiais que poderiam afetar a candidatura Dilma.

Trata-se de um fato duplamente grave: em primeiro lugar, pelo próprio conteúdo dos dados, dando conta de que mais de 370 mil brasileiros voltaram à condição de miseráveis. Em segundo, por evidenciar, de forma clara, o aparelhamento do Estado pelo PT e suas graves consequências, já que a atenção ao social e a redução da miséria e da pobreza estiveram entre as principais alegações para o voto em Dilma.

O Ipea é um órgão do Estado brasileiro, e a este deve se reportar e servir. Sua instrumentalização por um partido ou um mandatário – no caso, para fins eleitorais – constitui uma ameaça ao republicanismo que deve governar as relações entre entes governamentais e cidadão. Em última análise, acaba por afetar o pleno funcionamento da democracia – como o truque sujo do adiamento de dados ruins em período eleitoral evidencia de forma clara.




Provas à  mancheia
Faz mal à vida política do país que comportamentos como a hiperagressividade na campanha eleitoral, a ausência de programa de governo, a adoção de medidas ferozmente criticadas em campanha e o aparelhamento de estatais para fins eleitorais sejam tolerados por eleitores, oposição e Justiça e sigam impunes.

Aì está um material documentado que representa algo de concreto a ser cobrado de Dilma Rousseff. No primeiro mandato, ela mentiu que não privatizaria o Pré-Sal, mas privatizou sem sequer enrubecer e ficou por isso mesmo. Espera-se que as parcelas da sociedade que não estão alienadas pela hipnose petista ajam e façam valer seus direitos.



(Foto de Dilma e Temer por Valter Campanato)

domingo, 2 de novembro de 2014

A oposição nas ruas



Menos de uma semana após eleita, Dilma Rousseff defronta-se com manifestações populares em protesto contra o seu governo e a favor do seu impeachment. Em três cidades diferentes, pessoas foram às ruas, sendo que em São Paulo o número de protestantes teria chegado a 2500 cidadãos, segundo a PM.

Talvez, menos do que a relevância do evento em si – que, a começar da contradição de pedir impeachment de uma candidata eleita, tem o aroma do golpismo temperado por maus perdedores -, seja necessário situá-lo no novo contexto político-eleitoral que ora se desenha.

Este é marcado por rachas no interior da base aliada, com mágoas de candidatos peemedebistas preteridos nos estados e pela liderança vingativa de Eduardo Cunha; pela perda significativa de assentos petistas no Congresso e pelo reforço das hostes oposicionistas; e, talvez sobretudo, pelo ressaca rancorosa de uma campanha feita com navalha na liga e sangue nos olhos, que atiçou o antipetismo e confundiu opositor e inimigo.

Nesse cenário, as manifestações de ontem são apenas o ladrar da matilha ao sentir os primeiros sinais de debilidade da futura caça: além de ter de enfrentar os problemas acima elencados, Dilma inaugura, em seu segundo mandato, uma fase inédita da era petista, em que morderá seus calcanhares uma oposição experiente – sob a batuta ardilosa de José Serra –, que sai das eleições com significativo apoio popular. Se a agitação das ruas será mantida é outra historia, mas a articulação dos protestos de ontem certamente faz parte de uma estratégia nesse sentido.



Reação 
A vigilância sobre a presidente tende a multiplicar-se em tal contexto. No primeiro mandato, quando a economia favorecia o consumo, poucos pareceram se importar com as traições de Dilma para com os compromissos eleitorais – cujo exemplo maior, mas de modo algum único, foi a privatização do Pré-Sal, a qual a candidata renegara em comercial da campanha de 2010.

Agora, porém, além de um quadro econômico instável, que leva nove em cada dez economistas a apostarem em um choque anticíclico no primeiro ano, há a volta do chicote no lombo de quem mandou dar: os rancores à flor da pele indicam que não ficarão sem resposta os ataques baixos de uma campanha em que a discussão de projetos deu lugar aos ataques baixos e à desqualificação do adversário. Pois, como sumariza o jornalista Josias de Souza em um artigo notável,

"A ameaça de perder o poder e suas benesses fez com que o PT levasse às fronteiras do paroxismo a tática do ‘nós contra eles’. Rendido à marquetagem de João Santana, o partido fez da política um mero ramo da publicidade. O verbo da eleição foi desconstruir. Conjugando-o, Dilma prevaleceu sem se preocupar com a autoconstrução."



Tudo pelo poder
Quem semeia vento colhe sempre tempestade”, diz o ditado. No entanto, o cálculo ultrapragmático do marketing petista não levou em conta, em momento algum, o quanto tal estratégia – em si questionável do ponto de vista da ética republicana – acabaria por acirrar ânimos a um ponto tal que dificultasse sobremaneira ou mesmo ameaçasse a governabilidade da eventual eleita.

Pois se o deboche petista para com a classe média (mas, de forma significativa, não em relação aos ricos de fato), epitomizada no uso corrente do termo “coxinha”, anterior ao pleito, já evidenciava uma perigosa intolerância classista, o discurso do “novo Nordeste” contra a “São Paulo dos tucanos”, do “playboy mimado” contra a “defensora dos pobres”, proclamado pelo próprio Lula e repetido à exasperação pela militância, corrobora um discurso público de desqualificação que nada agrega para a criação de uma atmosfera de respeito e empatia entre governo e setores da população.



Efeito bumerangue
O rescaldo da campanha é que Dilma é vista, por setores da população que podem não ser majoritários mas se contam a dezenas de milhões, não apenas como uma governante com a qual não se simpatiza ou de cujo projeto político se discorda - mas merecedora de respeito, pois eleita -, e sim como uma inimiga a ser derrotada – e uma inimiga que não se furtou a usar os métodos mais agressivos para obter sua vitória.

Compreender esse raciocício orientador dos protestos dos derrotados não significa legitimá-lo: convém assinalar que, pós um processo eleitoral de reconhecida lisura e na ausência de qualquer acusação formal contra a presidente, não passa de golpismo oportunista cogitar impeachment.

A análise de tal cenário ajuda a entender porque o discurso de Dilma logo após a vitória foi uma conclamação à união. Com exceção da deselegância de não citar o nome do candidato derrotado (sendo que este já a cumprimentara pela vitória), a fala foi caracterizada como um aceno na direção da pacificação e da conciliação. Ato contínuo, a presidente logo anunciaria apoiar, ao menos de público, o projeto em prol de mais referendos e consultas populares, do qual o Congresso - incluindo a bae peemedebista - fará picadinho.



Desafios à frente
Com todo um mandato à frente, a mandatária sabe que não tem outra saída: sem curar feridas na própria base "aliada', sem minimizar a virulência da oposição e sem cooptar ao menos uma pequena parcela de um eleitorado dividido, pode se tornar um lame duck, e seu segundo governo um refém do Legislativo e de uma oposição barulhenta. Como, aliás, ocorreu com o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso.

Para completar, há uma bomba-relógio armada, com as investigações acerca da Petrobras. Um eventual envolvimento do nome da presidente abriria caminho para a formalização de denúncias – no que, a depender das circunstâncias, poderia significar um atalho para um processo de impeachment. No estouro do “Mensalão”, as conquistas sociais e a economia em popa colocaram Lula com índices de aprovação que o blindaram; com uma presidente enfraquecida, a economia em frangalhos e o país dividido, a história pode ser outra.

2015 promete ser um ano muito, muito tenso.


(Foto da manifestaçção:Darrio Oliveia; foto de Dilma: Cadu Gomes)



quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O ex-presidente perde a linha

Que as eleições deste ano extrapolaram no quesito baixaria é um fato consumado, cuja maior prova é a intervenção da própria Justiça Eleitoral no sentido de trazer de volta as campanhas de Dilma e Aécio para patamares civilizados. Esforço em vão, pois tardio: 'O que o TSE fez foi tentar passar a tranca depois de a porta ter sido arrombada”, definiu com precisão Dora Kramer.

No primeiro turno a baixaria foi uma quase-exclusividade petista, transformada em método de desqualificação de Marina Silva – não só a candidata, mas a pessoa, posto que a falta de ética do marqueteiro João Santana borrou tais limites. No segundo, Aécio, ao constatar a ineficácia da passividade de Marina, que quase até o final recusou-se a responder na mesma moeda, reagiu um tom acima, provocando uma escalada de ataques de parte a parte.

Escalada que agora, na reta final, atinge um ponto quase intolerável nos eventos públicos e nas redes sociais.



Adeus à razão
Tal estado de cosas ficou evidente n comício do PT em Recife, na noite de ontem (21/10). O evento marcou um ponto da campanha em que a substituição da argumentação convincente pela agressividade irracional atingiu seu paroxismo, dando vazão a um maniqueísmo caricato e a generalizações despropositadas, historicamente insustentáveis: aos brasileiros não fanatizados e que um dia admiraram o ex-presidente Lula deve causar espécie vê-lo, aos berros, bufando de raiva, comparando os adversários políticos a Herodes e a nazistas e, de acordo com a analogia por ele proposta, os petistas a ninguém menos que Jesus Cristo:

- “Os nordestinos sofrem preconceito e ofensas, como os nazistas agrediam. Eles são intolerantes. São mais intolerantes que Herodes, que mandou matar as crianças para que Jesus não nascesse” - bradou textualmente o ex-presidente, colérico.


Desprezo à simbologia
No Brasil, os ex-presidentes infelizmente não têm o costume de respeitar a simbologia do cargo. Perdem, assim, a oportunidade de se tornarem figuras referenciais, que pairam acima das paixões partidárias, e podem servir como reserva moral da Nação em momentos de crise ou intensa disputa. Cada qual à sua maneira, e guardadas as devidas proporções, Mandela na África do Sul, Felipe Gonzalez na Espanha, e Jimmy Carter nos EUA são exemplos de exercício sereno e digno da ex-presidência.

O fato de FHC, principal antagonista de Lula e seu predecessor na Presidência, também abdicar do respeito à liturgia dos ex-presidentes - no caso, cometendo artigos recheados de preconceitos de classe e de tendenciosismo partidário – não descompromete o líder petista de segui-la. Pelo contrário: ao mimetizar tal atitude, Lula perde uma oportunidade de ouro para diferenciar-se de seu rival e colocar-se acima deste, como um estadista de fato.

Porém, na presente campanha, dá-se exatamente o contrário. No ardor de uma disputa inflamada, em grande parte, por ataques desqualificadores disparados pelo próprio petismo, a belicosidade e a proverbial verborragia de Lula, nos últimos dias, extrapolaram em muito o aceitável em qualquer palanque politico – o que dizer daquele ocupado por um ex-presidente da República.



Derrota moral
Em um dos textos-chave destas eleições, Raphael Tsavkko assinala que “O PT pode vencer Aécio, mas sairá derrotado das eleições”. Para Lula, não se trata só de mera possibilidade: seja qual for o resultado do pleito, dele sairá diminuído, vulgarizado pela falta de limites de sua verborragia agressiva e pelo sacrifício do bom senso e da civilidade em prol dos ataques desproporcionais, num processo de demonização do opositor e de transformação deste em inimigo – e, assim, da disputa política democrática, que deveria ser uma arena festiva de debate de projetos, ideologias, meios e fins, em um campo de batalha onde vale tudo e o objetivo é desqualificar e aniquilar quem quer que se oponha no caminho entre o PT e o poder.

Assim, mais do que o despropósito de se comparar um dos maiores tiranos genocidas da história com meros opositores políticos em uma eleição nacional, o que chama atenção na atitude de Lula é a absoluta falta de escrúpulos em atiçar rivalidades e jogar os brasileiros uns contra os outros, com fins meramente eleitorais.

É por meio de tal atitude, infelizmente cada vez mais frequente entre líderes e militantes do PT, que a imagem de estadista que um dia Lula projetou para si – e por um breve momento pareceu fazer por merecer – desfaz-se, na prática, para dar lugar à de um militante fanático e intransigente que coloca o interesse de seu partido acima dos interesses da Nação.


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Baixaria doentia

O piripaque que acometeu a candidata Dilma ao final do debate do SBT é um daqueles eventos cuja simbologia impõe-se sobre qualquer ponderação ou questionamento: não importa se a “queda de pressão” foi autêntica ou, como querem alguns, simulada; de um jeito ou de outro, ela evidencia a desumanidade, a inaturalidade, a brutalidade de uma campanha política feita com o fígado e com sangue nos olhos, e não com projetos e programa de governo.

E embora cúmplice e co-promotor da baixaria, não se pode culpar exclusivamente o candidato Aécio Neves. A bem da verdade, a responsabilidade maior é do próprio PT, cuja campanha desqualificadora contra Marina Silva, desprovida de qualquer escrúpulo ou limite, numa abdicação deliberada do debate político em prol da calúnia, do boato e dos ataques pessoais, ditou o tom do pleito. Foi um dos mais covardes massacres que a política brasileira já assistiu, mas sua eficácia garantiu seu prolongamento e ampliação no segundo turno.

Também não se pode atribuir tão-somente ao marqueteiro João Santana o ônus de tal estratégia, como procuram fazer os petistas mais cínicos, posto que tanto a militância, virtual ou não, quanto a cúpula do partido – inclusive e de forma destacada a candidata Dilma, sem demonstrar a mínima preocupação em preservar o instituto da Presidência, pelo contrário– aderiram de corpo e alma a essa estratégia covarde, antidemocrática e negatória da Política no que esta tem de transcendental e transformador.

A confluência entre a Ciência Política e os Estudos em Comunicação nos informa que a supremacia do marketing sobre a politica atingiu, nas últimas décadas, no Ocidente, um ponto em que a transformação de candidatos e plataformas programáticas em produto vendável é a norma, e inclui o monitoramento constante da interação entre candidatos, mídias novas e antigas, militância e eleitores – de um modo tal que permita mensurar e controlar até a “espontaneidade" do candidato.

A presente campanha presidencial, porém, vai além: não contente em esvaziar qualquer proposta ou debate propriamente político, ela foi bem-sucedida em colocar a efetividade da agressão e da desqualificação como os valores máximos de avaliação do candidato.

Assim, a disputa se resumiu, até agora, a determinar qual o candidato aparentemente mais capaz de revelar podres do adversário, de manipular ou ocultar os dados do próprio governo, de açular o medo em relação ao futuro que habita o inconsciente coletivo.

Digo "aparentemente" porque, como o próprio estatuto de verdade ou de fato é desprezado nos debates – inclusive pela mídia, numa grave omissão -, substituído por uma avalanche de acusações que podem ou não ser verdadeiras, esses eventos acabam se tornando apenas mais um round de um enfrentamento catártico e rebarbativo, onde o que conta é o impacto psicológico dos golpes e a impressão de vitória que possam eventualmente causar. 

No entanto, como os juízes são os próprios eleitores, hoje em extrema polarização entre si, o resultado é um circulo vicioso em que as duas turbas comemoram a "vitória” de seu candidato, negam qualquer réstia de razão ao adversário, e se acusam mutualmente pelo baixo nível evidente. Enquanto mal disfarçam a torcida por sangue no ringue.

O mal-estar físico da candidata Dilma acabou por chamar a atenção para uma situação que muitos já consideravam intolerável. Mas, tendo ocorrida em plena campanha, a dez dias do pleito, ao invés de instigar um movimento de apaziguamento de ânimos e de cobrança por debates éticos e programáticos, acabou por recolocar o círculo vicioso de acusações, agora girando em torno de temas como a agressividade maior de um ou de outro candidato, a veracidade ou a simulação do mal-estar e as demais acusações mútuas que há tempos caracterizam a dicotomia PT versus PSDB. Tudo, menos a autocrítica.

Na reta final de uma campanha imunda, fica absolutamente claro que, seja qual for o resultado das eleições, quem perdeu foi a democracia, a cidadania e o país.

Na contramão de uma democracia mais participativa, tal como defendida nas Jornadas de Junho, os eleitores brasileiros se veem privados de tomar parte em um debate efetivo e qualitativo sobre Educação, Saúde, Mobilidade Urbana, Biopolítica e demais temas que julgar relevantes, preteridos ou ignorados na campanha, em prol de uma agressividade desqualificadora que equivale a barbárie antirrepublicana.


(Imagem retirada daqui)



quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A campanha na lama

Há tempos tornou-se frequente, no jornalismo brasileiro, uma crítica generalista à internet, tida e descrita como “terra de ninguém”, meio de expressão de ódios represados e ataques pessoais. As caixas de comentário dos portais e dos jornais e a correspondência eletrônica endereçada aos jornalistas seriam a prova cabal do baixo nível.

O choque de Chico Buarque ao se defrontar, pela primeira vez, com a agressividade na rede tem sido citado de forma recorrente por profissionais de imprensa como exemplo de que estão certos: para muitos, durante um longo período, um ídolo quase unânime, exemplo de beleza, talento e combatividade, o compositor de “Apesar de você” descobriu que um número não desprezível de internautas o considera um velho caquético e merecedor das piores pragas e impropérios. Reagiu com humor.



Esvaziamento da política
Durante anos, enxerguei nessa crítica à internet um misto de parcialidade (pois só retrata o lado negativo da web), preguiça (de pesquisar, descobrir e valorizar suas fantásticas possibilidades, comparativamente maiores) e, sobretudo, orgulho ferido de jornalistas contra o meio que lançou a imprensa e a mídia, de modo geral, em uma dupla crise: comercial, graças à diversidade e ao volume de informação oferecida, muitas vezes gratuitamente; e de credibilidade, já que ficou muito mais fácil investigar e divulgar as omissões, armações e erros midiáticos, bem como desvendar os interesses que eventualmente os motiva.

Tais ressalvas continuam, em larga medida, a parecer-me válidas, mas ora mostram-se relativizadas pelo modo como a política vem sendo instrumentalizada pela internet nas eleições atuais, num processo em que ao esvaziamento da reflexão mais aprofundada corresponde a disseminação de um festival de ataques baixos e tentativas de desqualificação do opositor, transformado em inimigo a ser aniquilado.



O protagonismo das redes
As redes sociais têm tido um papel fundamental em tal processo. Seu poder mobilizador deriva do fato de, por um lado, inserirem-se como um elemento cotidiano na vida de muitos cidadãos e, por outro, retroalimentarem tanto os marqueteiros de campanha quanto a cobertura midiática. Isso se dá, em primeiro lugar, pela própria natureza das redes sociais, velozes, voláteis e baseadas em uma lógica de agrupamento de pessoas com ideias, gosto ou preferências afins, e com tendência a facilitar a criação de “ondas”, movimentos de manada intensos, porém breves.

A duração de tais movimentos, medidos em horas, no máximo dias, faz com que sirvam como uma luva, por um lado, para o marqueteiro político, ávido por um feedback diário para fazer correções pontuais no desempenho de seu candidato; e, por outro lado, para a imprensa, notadamente a diária, cuja periodicidade tende a combinar com a do ciclo de renovação dos temas nas redes, e a mídia, engessada pelas proibições da Justiça Eleitoral e necessitada de pautas que aliem o interesse do leitor/espectador e as eleições.



Egolatria
Pode-se argumentar, como contraponto, que as redes sociais fizeram com que aumentasse o interesse geral por política. Isso pode até ser verdade, porém a política nas redes sociais tende a ser presa de uma economia libidinal tipicamente pós-moderna, sendo submetida às recompensações egoicas do internauta, renovadas em intervalos de poucos segundos, a cada “curtir” no Facebook ou “RT” ou favoritada no Twitter. Trata-se de um processo que, do ponto de vista subjetivo, encerra-se em si mesmo, porém gerando graves consequências por ocupar sub-repticiamente o lugar – e, em determinado grau, dificultar o exercício – da reflexão e do debate aprofundado sobre questões políticas.

Temos, portanto, uma lógica alimentada pelo próprio modo de operação do usuário com a rede social, em que o espaço para a explanação de projetos políticos e para o debate e o embate de propostas é, em grande parte, ocupado em prol de uma espécie de jogo competitivo cujo objetivo varia entre uma mesquinha recompensa egoica e a questionável realização de marketing eleitoral de colocar um tema entre os mais debatidos do dia.



Mercenários virtuais
Esse cenário, por si só preocupante em uma democracia com tantas urgências e com tanta carência de propostas planejadas no médio e longo prazos, agrava-se com a ação de agentes contratados pelos partidos para, no mais das vezes sem identificarem-se como tal, agir nas redes sociais em prol de determinada(s) candidatura(s).

Fora do radar da Justiça Eleitoral, operando diuturnamente e sob a coordenação do marketing das campanhas, esses agentes, frequentemente com uma formação política precária ou quase nula, pouco colaboram para o debate ou para o aprofundamento desta ou daquela questão: sua função é martelar slogans, plantar suspeitas e desferir ataques que atendam aos objetivos traçados pela estratégia de marketing do partido.



Ataque deliberado
Mas o protagonismo das redes sociais e, nelas, a indistinção entre cidadãos engajados e mercenários não seriam suficientes para explicar o baixíssimo nível das eleições presidenciais deste ano – mesmo porque as redes sociais já eram atuantes em eleições anteriores e, embora partidários de um e de outro candidato se digladiassem entre si e um certo nível de baixaria sempre houvesse, jamais praticamente monopolizaram a campanha como ocorre agora.

Pois o que nós estamos assistindo, não raro enojados, é fruto de estratégia deliberada de marqueteiros, ciente das características pouco aprofundadoras das redes sociais e do estado de “eterno presente” em que tendem a manter o internauta, engajado como que num videogame em que batalha por seu candidato.

Sabem que esse formato competitivo, baseado na recompensa egoica pessoal e na identificação de grupo, sob o comando de suas diretrizes, tem como consequências óbvias o primado dos ataques estereotipados, pespegados através de slogans martelados ad infinitum, em detrimento das nuances, ponderações e do aprofundamento necessários a um debate efetivo de projetos políticos. Assim, serve, ainda, como uma forma de acobertar a ausência de um programa de governo detalhado por parte de algumas forças políticas, desviando a atenção dos eleitores para questões incomparavelmente menos importantes, como quantas curtidas recebeu seu post no Facebook ou qual a tag que terminou o dia em primeiro lugar nos trending topics do Twitter, se a dos apoiadores de Dilma, de Marina ou de Aécio.




Estratégia da desqualificação
Nenhuma dessas três candidaturas mais competitivas está, evidentemente, isenta de um certo grau de agressividade nas redes socais – o que, de certa forma, vem a corroborar o que foi dito sobre a natureza de tal meio virtual. A rigor, seria, porém, injusto dizer que tais manifestações violentas se equivalem ou que são meramente reativas. A estratégia traçada pelos marqueteiros das campanhas acaba por influenciar de forma determinante o grau de agressividade nas redes e, desse modo, o PT assumiu, nestas eleições presidenciais, o papel que tradicionalmente era atribuído ao PSDB de José Serra, como o partido cujos militantes virtuais têm feito um uso mais agressivo da rede e sobre o qual recai o maior número de suspeitas quanto à ação de agentes pagos.

E como Marina Silva é, até o momento, a candidata que efetivamente ameaça a continuação do projeto petista de poder, a campanha contra ela, ininterrupta desde o final do velório de Eduardo Campos, atingiu um grau de agressividade que talvez só a de Fernando Collor contra Lula, em 1989, tenha logrado igualar.

Em mais uma prova de que história só se repete como farsa, o PT reedita, neste momento, contra Marina Silva, a campanha do medo da qual foi alvo em 2002. Desta feita, porém, com a própria presidente Dilma Rousseff encarnando a Regina Duarte da vez, numa tática ofensiva ao passado político do PT, à candidata petista e à liturgia da Presidência.



Enfraquecimento da democracia
Assiste-se, assim, a um verdadeiro festival de baixarias, em que o trato civilizado entre ex-aliados, hoje em oposição, dá lugar a uma catarse em que o ódio serve de alimento às agressões pessoais. Para além de seu significado em termos propriamente partidários, trata-se de um retrocesso lamentável para a ainda jovem democracia brasileira.

Pois, fenômeno global, o aspecto por demais cosmético do marketing político na atualidade, por mim abordado em outro artigo), introduz por si uma transformação – da política em objeto de consumo – altamente negativa para o avanço democrático.

A corrente despolitização das eleições, transformadas num jogo de difusão de boatos, meias verdades e tentativas incessantes de desqualificação pessoal do adversário vai além: desqualifica a própria democracia, enfraquecendo-a, num gesto irresponsável e temerário para o futuro politico do país.



Reação institucional
Urge, porém, que os setores democráticos da sociedade brasileira se unam para que medidas sejam tomadas no sentido de impedir que os ataques baixos e o esvaziamento dos debates dominem as futuras eleições no Brasil.

Há de se aprimorar a legislação eleitoral, adaptando-a a tempos cibernéticos, e de se estabelecer uma ação mais efetiva da Justiça Eleitoral: a exigência de que todos os partidos apresentem programas de governo detalhados, com indicativo da fonte de receitas e adequação a normas preestabelecidas, um maior espaço para o debate de política na mídia e nos meios educacionais, além de punições efetivas e rigorosas no sentido de coibir as campanhas difamatórias e o jogo baixo seriam medidas bem-vindas no curto prazo.

Faz-se necessário, o quanto antes, que mídia e sociedade organizada trabalhem no sentido de diminuir o peso do marketing político e das táticas de desqualificação e enfrentamento através do incentivo constante ao diálogo com o poder e ao debate de programas partidários e demandas sociais antes e durante as eleições, no sentido de resgatar, também na política, o “tempo da delicadeza” de que, em uma de suas mais belas canções, nos fala Chico Buarque.


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Publicado originalmente no Observatório da Imprensa. Foram feitas pequenas alterações.






sábado, 20 de setembro de 2014

Jogo sujo nas eleições demanda reação

"Marina vai acabar com o Bolsa-Familia e liberar o trabalho escravo; o Estado vai deixar de ser laico e virar evangélico, com gays e ateus perseguidos nas ruas; a Petrobras e o Pré-Sal serão privatizados e, com a economia estagnada para preservar o meio ambiente, o Banco Central, nas mãos do Itaú, vai mandar no governo. Ah, e vai voltar a censura".

Quem frequenta redes sociais se depara a todo momento com afirmativas muito similares às acima reproduzidas, marteladas por perfis petistas, sobre que virá a ser um futuro governo Marina Silva. Um verdadeiro Festival de Besteiras que Assolam o País (FEBEAPÁ, como diria Stanislaw Ponte Preta). Seria cômico se não fosse trágico (e uma porcentagem de eleitores nelas não acreditasse).



Na falta de realizações...
A boataria é parte da estratégia que adotaram para tentar vencer essas eleições: desqualificar e difamar ao máximo a única candidatura que ameaça a reeleição dé Dilma Rousseff, difundindo o medo. Esse jogo baixo faz com que estejamos tendo a eleição mais suja do período pós-ditadura.

Por que os petistas, tão difamados no passado, quando opunham a esperança ao medo – lembram-se?- agem desse modo?

A resposta é óbvia: após 12 anos de PT no poder, o que têm a apresentar aos eleitores não é suficiente para garantir a reeleição. A economia está em recessão técnica, com o segundo menor PIB da América Latina e percepção de inflação bem mais alta do que sugerem os índices, além de desindustrialização e sinais generalizados de retração da atividade econômica; a Petrobras,sabe-se agora, além de barbeiragens a granel, vinha sendo dilapidada pela corrupção; a violência torna-se epidêmica; a saúde alterna macas nos corredores e falta crônica de remédios, inclusive para doenças graves. Isso sem citar os efeitos da combinação de autoritarismo com modelo arcaico de desenvolvimento.

Como angariar eleitores com tal "currículo"? Resta aos petistas difamar o adversário para subtrair-lhe votos, sem a mínima consideração com a ética na política, na base do vale-tudo. Daí o fato de até a presidente Dilma Rousseff negligenciar a liturgia do cargo e, tal como uma Regina Duarte rediviva, viajar o Brasil divulgando os horrores que, segundo ela, nos trará uma presidência Marina Silva.


Tática deliberada
Acontece que a baixaria não é fruto apenas do voluntarismo de militantes aloprados. Segundo reportagem desta semana da revista Época, a campanha de ataques vem sendo coordenada a partir do Muda Mais, instituto de Franklin Martins que, por razões óbvias, primeiro quis atuar incógnito, depois foi obrigado pela Justiça Eleitoral a assumir-se como órgão petista.

As redes sociais foram privilegiadas como estratégia eleitoral justamente porque nelas a expressão individualizada disfarça as estratégias coletivas, além de serem menos suscetíveis aos rigores da Justiça Eleitoral (não obstante calúnia, injúria e difamação constituírem crimes contra a honra, convém sempre lembrar).

Os ataques, incessantes desde o final do velório de Eduardo Campos, demoraram a surtir efeito nos índices de votação de Marina Silva, mas, segundo a última pesquisa Datafolha, por fim vingaram. E, assim sendo, o marketing petista, com a sem-cerimônia que o caracteriza, já anuncia que vai ampliá-los.



Reações necessárias
Não se trata de mera questão de preferência partidária, ainda que assumidamente esta esteja também em jogo. É pelo próprio bem da democracia que a Justiça Eleitoral deveria atuar de forma mais atenta contra os abusos, repetitivos e disseminados de forma impune por avatares, blogueiros “progressistas” e tuiteiros que, renunciando a qualquer consideração ética ou preocupação quanto ao futuro de sua imagem pública, se transformaram, no vale-tudo pela reeleição de Dilma, em verdadeiros jagunços virtuais.

A campanha de Marina Silva, por sua vez, deveria não só de denunciar com mais veemência a campanha que ora sofre, mas, já que os desmentidos que a toda a hora vê-se obrigada a publicar estão longe de obter o mesmo alcance do ataque difamatório petista, mobilizar seus próprios apoiadores para que - sem incorrer no baixo nível predominante - o denuncie e refute, restaurando o primado do dito sobre o não-dito, do fato sobre o boato, da verdade sobre a mentira.

Além disso seria proveitoso, para a elevação do nível do debate politico. que os cidadãos e cidadãs que condenam tais métodos, marinistas ou não, reajam, denunciem, refutem, não deixem o difamatório e falseador prevalecer, sobretudo ante eleitores que não têm capacidade ou preparo para discerni-lo do que é verdadeiro.



Democracia sob ameaça
Estamos diante de um impasse que pode ser decisivo para o futuro da democracia e das eleições no país. Uma vitória petista conquistada a partir do uso de táticas de desqualificação, difamação e difusão de boatos inverídicos, sem que tenham sequer apresentado um Programa de Governo, representará um alvará para a baixaria, fazendo das próximas eleições um espetáculo de ataques, mistificações e engodo eleitoral digno da Republica Velha.

Chega de vale-tudo. Um governo ético começa na campanha.


(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Encontro com artistas reenergiza campanha de Marina


O encontro de Marina Silva com os artistas, no Rio, marcou um ponto de virada na campanha.

O sorriso aberto de Marina ouvindo a linda canção que Gil fez para ela foi a resposta, redentora, a semanas de artilharia pesada, com os petistas batendo, difamando, distorcendo, numa estratégia de disseminar o medo e a insegurança que diz muito sobre a transformação do partido e seu apego ao poder.

Até Fernando Henrique soube disputar com mais lealdade e encarar a possibilidade de derrota sem apelar para as baixarias hoje corriqueiras.

E qual o resultado de tanto jogo sujo, em que até a presidente esqueceu-se da liturgia do cargo e encarnou uma Regina Duarte extemporânea, fingindo temer que Marina fizesse o que jamais aventou fazer? Marina caiu um mísero ponto e Dilma, três.

Isso em termos de porcentagem de intenção de votos. No placar da decência e da ética, os números são bem diferentes.
A diferença entre o sorriso aberto de Marina, expressando a capacidade de regozijo e gozo da vida, e a face sempre contrita de Dilma, encimando uma expressão corporal travada, que sugere autoritarismo e repressão, deixa claro essas diferenças. A campanha propositiva de uma, e desqualificadora, de outra, só vem explicitar as diferenças de ânimo e caráter entre as duas candidatas.

Em 2002, o momento de virada da campanha de Lula foi também o encontro com os artistas, no Rio. Bem diferente do frio apoio burocrático que Dilma deles recebeu. Já no encontro dos artistas com Marina reinou o autêntico espírito de festa, espontâneo e contagiante, presságio de novos tempos.




Ouça a música de Gil, apresentada ao público pela primeira vez:


(Imagens retiradas, respectivamente, daqui e dali)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Marina e o bombardeio inútil

A candidatura de Marina Silva demonstra, neste momento, um grande poder de resistência, após duas semanas de incessante bombardeio: de um lado, a mídia corporativa que apoia Aécio Neves, com manchetes diárias; de outro, o petismo, com um exército de ativistas empenhados em um vale-tudo cujo objetivo maior não é divulgar as próprias propostas, mas desqualificar, assassinando a reputação da ex-aliada.

Em termos eleitorais, o resultado de quinze dias de baixaria é, até agora, pífio: Marina mantém, nas pesquisas, os mesmos percentuais de voto e Dilma oscilou um misero pontinho acima, no que foi saudado pelo militontismo delirante como “recuperação” e “virada de jogo”. Voltemos ao mundo real: no segundo turno, os prognósticos continuam sendo de uma avassaladora vitória da candidata do PSB, por 10 pontos de vantagem.



Contra o feiticeiro
Os especialistas em eleição costumam afirmar que o eleitor brasileiro não gosta de ataques baixos, os quais tenderiam a lhe parecer antes fraqueza de quem ataca, gerando resultados nulos ou mesmo contraproducentes. Esta seria uma possível explicação para a ineficácia do pega-pra-capar contra Marina aplicado diuturnamente, sem descanso, pela grande mídia e pelos ativistas petistas, alegadamente tão antagônicos entre si, mas idênticos nos métodos baixos que os últimos outrora condenavam.

Outro modo de explicar tal fenômeno seria a de que o eleitor já se deu conta de que basta uma breve mirada histórica para constatar que os petistas, após 12 anos no poder, não têm moral para fazer as acusações que fazem a Marina. Por exemplo, como pode a candidata Dilma acusar sua adversária de ser “o novo Collor” se este, apesar de seu passado na Presidência e de todo o despudor com que manipulou eleitoralmente a filha de Lula contra o ex-presidente, é hoje um aliado preferencial do Planalto?



Amnésia seletiva
Como pode a campanha do PT tentar difamar Marina por esta defender um Banco Central independente, se nos oito anos do governo Lula tal independência foi rigorosamente obedecida, e por imposição internacional? (foi uma das exigências dos EUA para avalizar um empréstimo-ponte acordado por FHC e Lula em Washington, como forma de evitar que o petista recebesse, em janeiro de 2003, um país quebrado. A escolha do nome de Henrique Meirelles foi parte do acordo).

Como pode a campanha dilmista pretender acusar Marina de submissão ao poder religioso, se um dos traços distintivos do governo Dilma foi o extremo conservadorismo das políticas de gênero e comportamentais ditado justamente pelo acordo com a bancada evangélica, responsável por episódios lamentáveis como o veto ao “kit-gay”?

A campanha petista pensa que os eleitores são idiotas, que esqueceram que o PT permitiu ao “pastor” ultraconservador Marcos Feliciano presidir a comissão de Direitos Humanos da Câmara, numa demonstração acintosa do desprezo de Dilma Rousseff por tal tema? Ou que evaporou da memória do eleitorado a presença oficial da presidente Dilma na inauguração do templo faraônico da igreja do “bispo” e dono de império de comunicação Edir Macedo?



Dilma Duarte
Em mais uma prova de que história só se repete como farsa, o PT reedita, neste momento, a campanha do medo da qual foi alvo em 2002. Desta feita, com a própria Dilma encarnando a Regina Duarte da vez. Bradam que as conquistas sociais estão sob ameaça e que a politica econômica, sob Marina, será um retrocesso ao neoliberalismo.

Trata-se de uma dupla inverdade. Em primeiro lugar, porque Marina Silva, além de manter os programas de transferência de renda que começaram, foquistas, com FHC e se avolumaram consideravelmente com Lula e Dilma, vai restabelecer interlocução e assistência a setores da população que o próprio modelo “Brasil Grande” de desenvolvimento adotado por Dilma alijou e alienou. É o caso, notoriamente, dos indígenas e das populações nativas da Amazônia, dos setores da juventude e da classe média que não se identificam com o petismo e são sacrificados pelo modelo econômico adotado (que beneficia a base e o topo da pirâmide socioeconômica), bem como pelos manifestantes que tomaram as ruas do país a partir de junho de 2013 e que o petismo primeiro renegou, depois tentou cooptar, e por fim reprimiu brutalmente, aludindo a teorias conspiratórias e sem sequer entender do que se tratava.



Truques econômicos
Em segundo lugar, porque entre o programa da candidata do PSB relativo à economia e a política econômica dos 12 anos de petismo no poder não dá pra espetar um alfinete: são rigorosamente iguais. Não há uma só proposta relativa a tal área, no Programa de Governo do PSB, que Lula ou Dilma não tenham adotado em algum momento.

A crise econômica, cuja prova mais evidente é o fato de estarmos em recessão técnica e com PIB abaixo de um por cento, não é fruto de eventual heterodoxia, mas das barbeiragens da equipe econômica do governo Dilma, que no bojo de um modelo de desenvolvimento arcaico e predatório, insiste em um padrão esgotado de estímulo ao consumo e de concessão de isenção fiscal sem exigir contrapartida por parte dos setores beneficiados – notadamente, o automobilístico e o imobiliário. E, justamente por sua falta de coragem em confrontar o mercado e oferecer uma alternativa ao modelito neoliberal, prefere renegar a todo instante segui-lo, ainda que para tal faça uso de maquiagem de índices e de truques internos ora sob investigação do Ministério Público.



Tudo pelo poder
A atual campanha ilustra de forma explicita o messianismo, o fanatismo e o apego extremo ao poder que são hoje, características distintivas do petismo. A um processo de negação da crise econômica atual e dos diversos aspectos negativos que, em longos 12 anos de administração, não tiveram competência de mitigar, soma-se a tendência a se autoatribuírem a exclusividade na concessão de benefícios sociais e em governarem para a sociedade. O maior triunfo do petismo é multiplicar a fortuna das elites financeiras e agrárias e, ao mesmo tempo e mesmo assim, convencer a tantos que é uma força de esquerda.

Essa conversa mole pode funcionar entre fanáticos da seita, entre ativistas virtuais remunerados e blogueiros temerosos de perderem o patrocínio de estatais, mas não resiste ao exame rigoroso dos fatos. O PT é hoje um partido preso a alianças elásticas (e aos compromissos que elas trazem), a ponto de se descaracterizar como força da esquerda. Adotou uma ética tão flexível que nem o trauma do “Mensalão” foi capaz de provocar uma revisão das práticas e de sua axiologia de forma a resgatar os valores de suas primeiras décadas de existência, sacrificados em prol de um ultrapragmatismo em que o que interessa é o poder pelo poder, não importa a que preço.



Maniqueísmo
Os adversários, alvo de artilharia pesada, são caricaturalmente tipificados de acordo com um maniqueísmo tão irreal quanto pouco inteligente. A caracterização que ora fazem de Marina Silva parece saída de um conto de fadas ruim: maléfica, pérfida, arrogante, hesitante, fanática. Em pleno 2014, nem uma criança acreditaria em uma personagem tão desprovida de nuances ou qualidades.

Há de se perguntar como tal bruxa repugnante pôde fazer parte da história petista por tantas décadas e com tanto destaque, sendo uma internacionalmente reconhecida ministra do Meio Ambiente nos sete anos que serviu ao governo Lula e chegando a disputar com Dilma a preferência como sucessora deste. Que mudança terrível em tão pouco tempo teria afligido a criatura?!



Sem medo do debate
Desacostumados, na última década, do saudável exercício da autocrítica, substituído pela transferência automática de culpas à mídia (que covardemente se recusaram a regulamentar) ou a Joaquim Barbosa e aos ministros do STF que condenaram os réus do “Mensalão” (em sua maioria, por Lula e Dilma nomeados), os petistas passaram a se assemelhar, cada vez mais, a uma seita, baseada em dogmas e fanatismo, mas não na leitura criteriosa do fatos e na prática ética da politica. Pois nesta, propostas, diálogo e respeito aos demais candidatos e eleitores se sobrepõem aos ataques desqualificadores.

Enquanto a baixaria petista corre solta, num desserviço às práticas políticas no país e às eleições, Marina Slva segue fazendo uma campanha sóbria, baseada em programas, sem ataques desqualificadores e comparecendo às entrevistas e debates, de modo a debater suas propostas. Pode-se ou não identificar-se com elas e na candidata votar - isso é uma decisão que pertence a alçada individual -, mas há de se reconhecer que se Dilma e o PT fizessem o mesmo, ao invés de só lançarem pedras, teríamos um confronto de ideias e de programas digno de uma democracia. Não é o caso.


(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Marina Silva: prós e contras

Nos últimos dias, muita gente tem me abordado para perguntar sobre Marina Siva. São, em sua maioria, pessoas insatisfeitas com o atual cenário político e que não simpatizam com Aécio nem querem anular; parte delas está em dúvida entre votar, no primeiro turno, em Marina ou em um dos partidos de esquerda sem chance real de vitória. A maioria já notou que a massacrante campanha de desqualificação de Marina na internet faz muito barulho, mas não levanta e muito menos desenvolve nenhuma questão relevante.

Este texto é dedicado a essas pessoas, com cujo impasse eleitoral me identifico. Sem nenhuma pretensão de "fazer cabeças" , procura contextualizar a candidatura Marina no atual espectro político, analisando com maior profundidade duas de suas limitações mas evidentes e dois aspectos claramente positivos de sua candidatura. Não é, como veremos, uma personagem desprovida de dilemas. As conclusões, é claro, ficam a cargo de cada um.



Vácuo persistente
Em primeiro lugar, há de se ter claro que a candidatura de Marina Siva não anula uma das características mais preocupantes das eleições 2014: a constatação de que, a rigor, elas não oferecem ao eleitor uma candidatura competitiva de esquerda. Isso se deve, sobretudo, à primazia que as três candidaturas com chance de vitória concedem, com insignificantes nuances entre si, a um modelo econômico de origem neoliberal e que privilegia os interesses do mercado financeiro em detrimento aos da população.

Tal modelo baseia-se no propalado "tripé econômico", constituído de metas pré-definidas de inflação, dólar flutuante (ou seja, sem intervenção estatal no sentido de manipular a taxa de câmbio) e rigor fiscal, traduzido em metas para superávit primário (a relação entre receita e despesas, excetuadas aquelas dispensadas ao pagamento de juros da dívida pública).



Ao povo, os trocados
Mais grave, ele implica, ainda, na transferência mensal ao mercado financeiro de quantias extorsivas na forma de pagamento de juros, com o agravante de que estas sobem proporcionalmente à taxa de juros oficial (Selic), a qual tem sido mantida em patamares elevados pelo Banco Central sob o pretexto de combater a inflação. Para dar uma ideia do estrago: em 2011 só os juros da dívida pública custaram ao povo brasileiro R$ 230 bilhões, o equivalente a 5,6% do Produto Interno Bruto (PIB) e a 15 vezes o total de investimento anual no programa Bolsa- Família. (Convém lembrar que quando o PT era oposição, ele propunha, como convém a um partido de esquerda, o congelamento do pagamento dos juros da dívida até que ela fosse auditada por uma consultoria independente e recalculada.)

Enquanto Aécio levaria esse modelito neoliberal ao limite e Dilma o tem transigido eventualmente, manipulando índices aqui e ali, mas, com a covardia característica, sem jamais assumir uma postura critica em relação a ele – pelo contrário, ela não cansa de jurar estar sendo fel ao tripé -, Marina já deixou claro que o manterá ao pé da letra.

Trata-se de uma decisão de fundamental importância, posto que não só reduz drasticamente os recursos para a promoção de mais justiça social e mais desenvolvimento, mas enfraquece o necessário combate político-ideológico contra a hegemonia neoliberal, combate este para o qual o Brasil, devido à sua relativa independência e à sua posição de líder regional e potência global em ascensão, teria condições de protagonizar.



Liberdades individuais
Outra questão a suscitar preocupações em relação à candidatura de Marina diz respeito às suas posições relativas aos direitos individuais e questões comportamentais no âmbito da biopolítica, aí incluídas as questões de gênero. Dados os limites espaciais deste texto, vou me limitar a citar três das mais relevantes questões a tal âmbito circunscritas: a isonomia de direitos entre heterossexuais e homossexuais, a questão do aborto e a descriminalização da maconha.

É certo que a função legislativa, a priori, não figura entre as atribuições do Executivo federal. Mas, dadas as peculiares conformações do presidencialismo vigente no Brasil, é certo também que, na prática, o poder presidencial é capaz de adiar ad infinitum a discussão de tais temas, como aliás temos assistido no país desde a redemocratzação. Com isso, enquanto o mundo avançou muto nas duas últimas décadas no trato de tais questões, o Brasil, a despeito de sua mística de país de costumes liberais, foi ficando para trás e hoje se encontra defasado em relação a boa parte do mundo democrático.

Confrontada quanto a tais temas – e em relação à incompatibilidade entre tal agenda e suas crenças religiosas pessoais – Marina respondeu, em um primeiro momento (em 2010) que submeteria tais questões a plebiscito popular; ultimamente sua assessoria tem divulgado que ela passou a suportar direitos LGBTs, mas ela própria nada declarou. A proposta de submeter tais temas a plebiscito é altamente questionável, pois, embora signifique uma forma de fazer avançar a democracia direta, o faria, contraditoriamente, em relação a questões caras a minorias, num jogo viciado que despreza a premissa contemporânea de que a democracia, além de refletir o desejo da maioria, tem por dever assegurar os direitos das minorias.



Balanço
As duas questões elencadas acima constituem os aspectos mais negativos da candidatura Marina, na opinião deste blogueiro. São suficientes para recusar o voto nela? Isso depende de cada um. Há de se levar em conta que, em relação aos mesmos quesitos elencados, nem Dilma nem Aécio oferecem melhores perspectivas – e que os candidatos que o fazem não têm chance real de vitória.

Há de se considerar, também, os pontos positivos que só a candidatura de Marina traz, dos quais dois serão comentados abaixo.



O mundo desde o fim
Com sua sólida formação em desenvolvimento sustentável, Marina poria um fim ao modelo predatório de desenvolvimento que atingiu o ápice no governo Dilma e que tem gerado danos os mais graves. Em primeiro lugar, ao próprio meio ambiente e à mobilidade urbana, na contramão de um momento histórico em que a finitude dos recursos e a necessidade de avançar sem esgotá-los são cientificamente comprovadas.

Em segundo lugar (pela ordem dos acontecimentos, não em importância), por ser responsável pela pior política indígena da história da democracia brasileira, com uma aliança nefasta entre o poder federal e o agronegócio impondo deslocamentos massivos e assassinatos, e com epidemias vitimando tribos em diversos quadrantes do país, no que não poucos antropologistas qualificam como um genocídio.



Danos ideológicos
Em terceiro lugar, pelo que tal visão "tecnocrática" de desenvolvimento, arcaica em sua essência, gerou em termos de danos político-ideológicos, ao submeter acriticamente a política ao determinismo econômico, como sublinha Moysés Pinto Neto:

"Como para Dilma a política é irrelevante, já que no final com as transformações econômicas promovidas todos lhe dariam razão, tudo que envolve um conflito é deixado de lado em torno da viabilidade desse projeto desenvolvimentista. Pior: Dilma fez preponderar no PT, que era um partido razoavelmente afinado com a causa ecológica, a mentalidade de que a preocupação ambiental está em conflito com o desenvolvimento social."
Marina Silva reúne, como poucas profissionais no mundo, condições de reverter tal quadro, tanto pelos méritos próprios internacionalmente reconhecidos, que fazem dela expert em preservação do meio ambiente, quanto por estar cercada do que de melhor o país oferece no tema. Certamente promoveria a substituição de tal modelo predatório por políticas de desenvolvimento que insiram o Brasil entre as nações que crescem de forma autossustentada, preservando o país às novas gerações. Isso significaria, necessariamente, uma revisão das políticas indígenas tanto em relação ao latifúndio quanto em prol do avanço de sua afirmação identitária e cultural.



Resgate da política
Outra área em que Marina promete inovar é em termos de práticas políticas. O fato de ela ter recebido vinte milhões de votos e, resistindo a intensas pressões, se recusado a apoiar Serra ou Dilma no segundo turno de 2010 é demonstração factual de que fala sério.

Seria um alento e um regate para um país que tanta esperança depositou no PT, para em seguida ver, desde o governo Lula, alianças políticas demasiadamente elásticas, em que toda e qualquer consideração ética foi negligenciada em prol de mais poder, abrindo espaço para figuras nocivas da vida pública brasileira, como Collor e Maluf. Nas palavras do sociólogo Luiz Eduardo Soares, "O desapreço pela mudança nos métodos políticos continuou, ajudando a jogar no pântano a credibilidade da política."

No governo Dilma, prossegue Soares, "A questão da ética pública continuou sendo abordada como capricho pequeno burguês ou simples armações políticas da grande imprensa, sem que se assumisse a sério a autocrítica que o mensalão teria exigido". Como é de conhecimento até do mundo mineral, os petistas não só deixaram de fazer a necessária autocrítica após o mensalão, mas continuam fingindo que ele nunca ocorreu nem foi julgado por um plenário em ampla maioria composto de juízes nomeados por Lula e Dilma. No universo paralelo do petismo, o mensalão é uma invenção da mídia e uma maldade do carrasco Joaquim Barbosa (ele próprio também nomeado por Lula). Acredite se quiser...



Chance única
Além da renovação per se das práticas políticas – uma demanda da sociedade brasileira tornada urgente desde as Jornadas de junho e que Marina Silva e Marcelo Freixo foram das poucas lideranças a incorporar a seus programas políticos –a candidata do PSB encara, neste momento, na prática, a única chance real de tirar o PT da Presidência.

Trata-se de uma demanda que não só se tornou legítima, mas urgente. Para o blogueiro Tsavkko, para quem Marina representa o atraso, mas Dilma é ainda pior, "O país precisa disso, a esquerda precisa disso e os movimentos sociais mais do que nunca precisam de espaço para se renovar". E, acrescento eu, dados o grau de autoilusão e de ilusionismo aos quais os governo petista, com o auxílio de sua brigada de fanáticos, tem mantido a população, só a derrota e a imprescindível e há tempos esquecida autocrítica poderá trazer tal força política de volta ao mundo real.

Pois, além de tudo o que já foi mencionado ao longo do artigo, impedir a continuidade do governo Dilma seria a resposta cívica a uma governanta que não hesitou incorrer em estelionato eleitoral ao se comprometer, em comercial de campanha, a não privatizar o Pré-Sal e, uma vez no poder, privatzar-lhe, e a troco de banana. A uma mandatária que foi fiadora e parceira dos governos estaduais na brutal repressão aos protestos populares, o pior legado da Copa a ameaçar de maneira permanente o direito constitucional à manifestação nas ruas do país. A uma presidente autoritária e arrogante, que reprimiu grevistas, destratou professores das universidades públicas e só se dispôs ao diálogo com a sociedade - de forma torta e breve - após o povo sair, de forma massiva, às ruas, num movimento que deixou claro a farsa do mundo maravilhoso do petismo, mas que estes até hoje não compreenderam.




Ventos de renovação
Como toda mudança, o voto em Marina traz algo de aposta. Não nos iludamos quanto a isso. Mas antes um risco calculado do que uma certeza representada pela continuação, por mais quatro longos anos, do péssimo governo Dilma. Teme-se que o país não aguente. Eu, embora ainda não tenha fechado questão, me encontro, a princípio, neste momento, disposto a preferir um voto pela mudança a um voto ideológico (no PSOL no primeiro turno; nulo no segundo) em que expresse meu desagrado pelos rumos da política institucional no Brasil. E você, leitor(a)?

Dentre os estímulos para tal opção, alem dos já elencados, a declaração de Luiz Eduardo Soares, figura pública que não pode ser acusado de identificação com a direita (e que foi ministro de Lula), em texto de no qual diz ver Marina na Presidência como "uma oportunidade histórica absolutamente extraordinária para retomarmos a gigantesca tarefa de imaginar, coletiva e dialogicamente, um outro mundo possível, um outro Brasil possível, respirando novos ares.". Oxalá tenha razão.



(Imagens retiradas daqui e dali e fundidas digitalmente)