Há tempos tornou-se frequente, no jornalismo
brasileiro, uma crítica generalista à internet, tida e descrita
como “terra de ninguém”, meio de expressão de ódios represados
e ataques pessoais. As caixas de comentário dos portais e dos
jornais e a correspondência eletrônica endereçada aos jornalistas
seriam a prova cabal do baixo nível.
O choque de Chico Buarque ao se defrontar, pela
primeira vez, com a agressividade na rede tem sido citado de forma
recorrente por profissionais de imprensa como exemplo de que estão
certos: para muitos, durante um longo período, um ídolo quase
unânime, exemplo de beleza, talento e combatividade, o compositor de
“Apesar de você” descobriu que um número não desprezível de
internautas o considera um velho caquético e merecedor das piores
pragas e impropérios. Reagiu com humor.
Esvaziamento da política
Durante anos, enxerguei nessa crítica à internet
um misto de parcialidade (pois só retrata o lado negativo da web),
preguiça (de pesquisar, descobrir e valorizar suas fantásticas
possibilidades, comparativamente maiores) e, sobretudo, orgulho
ferido de jornalistas contra o meio que lançou a imprensa e a mídia,
de modo geral, em uma dupla crise: comercial, graças à diversidade
e ao volume de informação oferecida, muitas vezes gratuitamente; e
de credibilidade, já que ficou muito mais fácil investigar e
divulgar as omissões, armações e erros midiáticos, bem como
desvendar os interesses que eventualmente os motiva.
Tais ressalvas continuam, em larga medida, a
parecer-me válidas, mas ora mostram-se relativizadas pelo modo como
a política vem sendo instrumentalizada pela internet nas eleições
atuais, num processo em que ao esvaziamento da reflexão mais
aprofundada corresponde a disseminação de um festival de ataques
baixos e tentativas de desqualificação do opositor, transformado em
inimigo a ser aniquilado.
O protagonismo das redes
As redes sociais têm tido um papel fundamental em
tal processo. Seu poder mobilizador deriva do fato de, por um lado,
inserirem-se como um elemento cotidiano na vida de muitos cidadãos
e, por outro, retroalimentarem tanto os marqueteiros de campanha
quanto a cobertura midiática. Isso se dá, em primeiro lugar, pela
própria natureza das redes sociais, velozes, voláteis e baseadas em
uma lógica de agrupamento de pessoas com ideias, gosto ou
preferências afins, e com tendência a facilitar a criação de
“ondas”, movimentos de manada intensos, porém breves.
A duração de tais movimentos, medidos em horas,
no máximo dias, faz com que sirvam como uma luva, por um lado, para
o marqueteiro político, ávido por um feedback diário para
fazer correções pontuais no desempenho de seu candidato; e, por
outro lado, para a imprensa, notadamente a diária, cuja
periodicidade tende a combinar com a do ciclo de renovação dos
temas nas redes, e a mídia, engessada pelas proibições da Justiça
Eleitoral e necessitada de pautas que aliem o interesse do
leitor/espectador e as eleições.
Egolatria
Pode-se argumentar, como contraponto, que as redes
sociais fizeram com que aumentasse o interesse geral por política.
Isso pode até ser verdade, porém a política nas redes sociais
tende a ser presa de uma economia libidinal tipicamente pós-moderna,
sendo submetida às recompensações egoicas do internauta, renovadas
em intervalos de poucos segundos, a cada “curtir” no Facebook ou
“RT” ou favoritada no Twitter. Trata-se de um processo que, do
ponto de vista subjetivo, encerra-se em si mesmo, porém gerando
graves consequências por ocupar sub-repticiamente o lugar – e, em
determinado grau, dificultar o exercício – da reflexão e do
debate aprofundado sobre questões políticas.
Temos, portanto, uma lógica alimentada pelo
próprio modo de operação do usuário com a rede social, em que o
espaço para a explanação de projetos políticos e para o debate e
o embate de propostas é, em grande parte, ocupado em prol de uma
espécie de jogo competitivo cujo objetivo varia entre uma mesquinha
recompensa egoica e a questionável realização de marketing
eleitoral de colocar um tema entre os mais debatidos do dia.
Mercenários virtuais
Esse cenário, por si só preocupante em uma
democracia com tantas urgências e com tanta carência de propostas
planejadas no médio e longo prazos, agrava-se com a ação de
agentes contratados pelos partidos para, no mais das vezes sem
identificarem-se como tal, agir nas redes sociais em prol de
determinada(s) candidatura(s).
Fora do radar da Justiça Eleitoral, operando
diuturnamente e sob a coordenação do marketing das campanhas, esses
agentes, frequentemente com uma formação política precária ou
quase nula, pouco colaboram para o debate ou para o aprofundamento
desta ou daquela questão: sua função é martelar slogans, plantar
suspeitas e desferir ataques que atendam aos objetivos traçados pela
estratégia de marketing do partido.
Ataque deliberado
Mas
o protagonismo das redes sociais e, nelas, a indistinção entre
cidadãos engajados e mercenários não seriam suficientes para
explicar o baixíssimo nível das eleições presidenciais deste ano
– mesmo porque as redes sociais já eram atuantes em eleições
anteriores e, embora partidários de um e de outro candidato se
digladiassem entre si e um certo nível de baixaria sempre houvesse,
jamais praticamente monopolizaram a campanha como ocorre agora.
Pois o que nós estamos assistindo, não raro
enojados, é fruto de estratégia deliberada de marqueteiros, ciente
das características pouco aprofundadoras das redes sociais e do
estado de “eterno presente” em que tendem a manter o internauta,
engajado como que num videogame em que batalha por seu candidato.
Sabem que esse formato competitivo, baseado na
recompensa egoica pessoal e na identificação de grupo, sob o
comando de suas diretrizes, tem como consequências óbvias o primado
dos ataques estereotipados, pespegados através de slogans martelados
ad infinitum, em detrimento das nuances, ponderações e do
aprofundamento necessários a um debate efetivo de projetos
políticos. Assim, serve, ainda, como uma forma de acobertar a
ausência de um programa de governo detalhado por parte de algumas
forças políticas, desviando a atenção dos eleitores para questões
incomparavelmente menos importantes, como quantas curtidas recebeu
seu post no Facebook ou qual a tag que terminou o dia em
primeiro lugar nos trending topics do Twitter, se a dos
apoiadores de Dilma, de Marina ou de Aécio.
Estratégia da desqualificação
Nenhuma dessas três candidaturas mais
competitivas está, evidentemente, isenta de um certo grau de
agressividade nas redes socais – o que, de certa forma, vem a
corroborar o que foi dito sobre a natureza de tal meio virtual. A
rigor, seria, porém, injusto dizer que tais manifestações
violentas se equivalem ou que são meramente reativas. A estratégia
traçada pelos marqueteiros das campanhas acaba por influenciar de
forma determinante o grau de agressividade nas redes e, desse modo, o
PT assumiu, nestas eleições presidenciais, o papel que
tradicionalmente era atribuído ao PSDB de José Serra, como o
partido cujos militantes virtuais têm feito um uso mais agressivo da
rede e sobre o qual recai o maior número de suspeitas quanto à ação
de agentes pagos.
E como Marina Silva é, até o momento, a
candidata que efetivamente ameaça a continuação do projeto petista
de poder, a campanha contra ela, ininterrupta desde o final do
velório de Eduardo Campos, atingiu um grau de agressividade que
talvez só a de Fernando Collor contra Lula, em 1989, tenha logrado
igualar.
Em mais uma prova de que história só se repete
como farsa, o PT reedita, neste momento, contra Marina Silva, a
campanha do medo da qual foi alvo em 2002. Desta feita, porém, com a
própria presidente Dilma Rousseff encarnando a Regina Duarte da vez,
numa tática ofensiva ao passado político do PT, à candidata
petista e à liturgia da Presidência.
Enfraquecimento da democracia
Assiste-se, assim, a um verdadeiro festival de
baixarias, em que o trato civilizado entre ex-aliados, hoje em
oposição, dá lugar a uma catarse em que o ódio serve de alimento
às agressões pessoais. Para além de seu significado em termos
propriamente partidários, trata-se de um retrocesso lamentável para
a ainda jovem democracia brasileira.
Pois, fenômeno global, o aspecto por demais
cosmético do marketing político na atualidade, por mim abordado em
outro
artigo), introduz por si uma transformação – da política em
objeto de consumo – altamente negativa para o avanço democrático.
A corrente despolitização das eleições,
transformadas num jogo de difusão de boatos, meias verdades e
tentativas incessantes de desqualificação pessoal do adversário
vai além: desqualifica a própria democracia, enfraquecendo-a, num
gesto irresponsável e temerário para o futuro politico do país.
Reação institucional
Urge, porém, que os setores democráticos da
sociedade brasileira se unam para que medidas sejam tomadas no
sentido de impedir que os ataques baixos e o esvaziamento dos debates
dominem as futuras eleições no Brasil.
Há de se aprimorar a legislação eleitoral,
adaptando-a a tempos cibernéticos, e de se estabelecer uma ação
mais efetiva da Justiça Eleitoral: a exigência de que todos os
partidos apresentem programas de governo detalhados, com indicativo
da fonte de receitas e adequação a normas preestabelecidas, um
maior espaço para o debate de política na mídia e nos meios
educacionais, além de punições efetivas e rigorosas no sentido de
coibir as campanhas difamatórias e o jogo baixo seriam medidas
bem-vindas no curto prazo.
Faz-se necessário, o quanto antes, que mídia e
sociedade organizada trabalhem no sentido de diminuir o peso do
marketing político e das táticas de desqualificação e
enfrentamento através do incentivo constante ao diálogo com o poder
e ao debate de programas partidários e demandas sociais antes e
durante as eleições, no sentido de resgatar, também na política,
o “tempo da delicadeza” de que, em uma de suas mais belas
canções, nos fala Chico Buarque.
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