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quinta-feira, 15 de maio de 2014

O enigma da favorita vaiada

Um enigma dos mais intrigantes envolve a candidatura Dilma Rousseff neste momento. As pesquisas mostram que a presidente, mesmo sofrendo acentuada queda nas intenções de voto nos últimos meses, mantém-se favorita, com folgados 37% na última enquete do Ibope, índice que a reelegeria já no primeiro turno. Não obstante tal favoritismo, ela tem sido sistematicamente vaiada a cada aparição pública, com mais agressividade em eventos ligados à Copa do Mundo ou que reúnam um público grande e heterogêneo.

O enigma da favorita vaiada desafia interpretações e instiga questionamentos. Trata-se de um fenômeno único, que não se repete nos âmbitos estadual e municipal e não afetou seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva, cujo única vaia memorável se deu em um contexto polêmico, com fortes indícios de ter sido orquestrada pela claque de um cacique político carioca.

O ex-presidente, como se sabe, foi um dos raros presidentes a deixar o segundo mandato com aprovação na casa dos 80%, rivalizando com os índices históricos obtidos pelo ex-presidente norte-americano Ronald Reagan. Recebeu do povo, até o final, calorosas manifestações de afeto a cada vez que aparecia em público. Dilma, a despeito do carisma muito menor, parecia, no início de seu mandato, ter herdado algo de tal empatia, chegando a interagir com multidões que a saudavam.



Desinteresse midiático
Mas isso foi antes das chamadas Jornadas de Junho, as súbitas e até agora insuficientemente debatidas manifestações populares que se alastraram pelo país em 2013. Embora não se tratasse de um protesto exclusivo contra o governo, foi a a partir dali que se tornaria evidente a mudança de comportamento do público nas aparições presidenciais.

Nem os cientistas políticos, nem os colunistas dos primeiros cadernos têm prestado a devida atenção ao fenômeno das vaias, sejam estas dirigidas à presidente com alto índice de aprovação (o que Dilma foi ao menos até março) ou à candidata favorita à vitória em primeiro turno. A mídia, que supostamente teria condições de investigar e checar hipóteses, ir a campo e cobrir de maneira condizente os atos públicos presidenciais, mantém-se inebriada pela inação preguiçosa que a redução de despesas explica, mas não justifica, agravada pelo hábito de buscar respostas na internet - e em nenhum outro lugar – e pela convicção de que o país só vai se interessar pelas eleições após a Copa do Mundo.



Leque de hipóteses
Este artigo se propõe a elencar algumas hipóteses acerca da enigmática contradição que envolve a favorita Dilma e as vaias. Não tem a pretensão de esgotar o assunto ou de apresentar uma conclusão – deixa esta a cargo do leitor, caso este queira em tal tarefa se engajar. Quer apenas estimular o debate.

Uma primeira hipótese interpreta as vaias à mandatária como uma decorrência tardia justamente das Jornadas de Junho, no bojo do crescimento de uma consciência cívica que, concebendo a rua como o local de excelência da manifestação da cidadania, se mostraria ciente da importância de ocupar espaços, aproveitar oportunidades e, assim, se valer das aparições públicas da presidente para protestar.

A favor dessa hipótese há o fato, já mencionado, de que foi a partir dos protestos de junho que as aparições públicas de Dilma passaram a ser sistematicamente vaiadas. Os apupos seriam mais uma manifestação do que o sociólogo Luiz Werneck Vianna identificou, em artigo recente, como "essa difusa sensação de mal-estar e esses pequenos abalos que vêm surpreendendo a rotina do cotidiano não só nos grandes centros metropolitanos". Para além da data de início das vaias, tal hipótese, no entanto, carece de elementos objetivos que a sustentem (ou a desmintam).



Demandas reprimidas
Uma segunda hipótese para as vaias presidenciais diz respeito ao modo como a administração Rousseff vem, desde seu início, lidando com demandas populares, protestos e greves. A recusa ao diálogo, agravada por táticas de boicote e enfrentamento que com fre1uência incluem o recurso à violência, tornou-se corrente no atual governo, a despeito de comandado por um partido de denominação trabalhista.

Foi assim com a greve dos professores universitários em 2012, que se alastrou por quatro meses e incluiu espancamento de manifestantes em frente ao MEC; vem sendo assim com a corrente greve da Polícia Federal – nos dois casos, com o governo Dilma contando com a condescendência cúmplice dos principais veículos de mídia, num alinhamento eventual de posições que, se confirma a índole classista, desmente o caráter intrinsecamente antipetista que o petismo militante atribui ao jornalismo corporativo.

Tal hipótese explicativa para as recepções negativas a Dilma baseia-se em elementos concretos e, malgrado o que informa acerca do comportamento de um partido dito trabalhista em uma democracia, é a favorita nas hostes petistas, por pressupor que as vaias não seriam a manifestação de um sentimento popular disseminado, mas fruto exclusivo da ação de grupos organizados, com interesses político-partidários. Esta última assertiva, no entanto, não se confirma inteiramente se observarmos com atenção como se comporta o público em eventos de maior porte. Nesses casos, mesmo na eventualidade da ação de protestos organizados, ouvem-se apupos à mancheia em meio à massa de espectadores.



Palmas ausentes?
A configuração geopolítica da base de apoio dilmista e os efeitos eleitorais dos Programas de Transferência Condicionada de Renda (PTCs) – Bolsa Família à frente – constituem o cerne da terceira explicação para a contradição ente as vaias e os índices da presidente. De acordo com esta hipótese, a má recepção a Dilma em suas aparições públicas correlaciona-se diretamente ao fato de estas priorizarem, por razões eleitorais, médias e grandes cidades, ao passo que, como o demonstram as pesquisas, os melhores índices da presidente ocorrem em cidades pequenas e em grotões. O fato de o grosso da clientela de tais programas sociais residir, em sua maioria, justamente em localidades com tal perfil, tenderia a reforçar a hipótese de que boa parte do público que aplaudiria Dilma é escasso em tais comícios.

Com efeito, segundo projeções do próprio governo federal, o Bolsa Família beneficia hoje cerca de 14 milhões de famílias, sendo que aproximadamente 38 dos 51 milhões de cidadãos beneficiados estariam aptos a votar. É um número altamente significativo, correspondendo a 28,5% do total de 140 milhões de eleitores do país. Mesmo que, como pesquisas têm mostrado, esse total de votos não vá para o PT, a manutenção de uma maioria é reserva eleitoral mais do que suficiente para desequilibrar eleições presidenciais de ordinário concorridas.

Trata-se, assim, de uma hipótese explicativa que gera preocupação, pois, se confirmada, apontaria para uma grave distorção na atual dinâmica eleitoral do país, ocasionada por um programa cujos benefícios no combate à miséria e à pobreza têm sido internacionalmente reconhecidos. Parece justo que o PT, por tê-lo implementado em bases efetivas, mereça colher os louros eleitorais decorrentes. Mas, pela própria natureza assistencialista do programa em uma sociedade com crônicos problemas sociais, ele não pode se transformar em reserva eleitoral perpétua. A institucionalização do Bolsa Família, de política de governo em política de Estado, seria uma maneira de contornar a questão sem prejuízo nenhum para os beneficiários, sem punir arbitrariamente as forças políticas que tiveram o mérito de bancá-lo, e - mais importante – preservando uma isonomia eleitoral tão necessária quanto benéfica à democracia brasileira.



O fator desencanto
Mas a mais danosa das hipóteses acerca do descompasso entre vaias e e intenção de votos em Dilma é a que aponta para um desencanto generalizado da população para com a política. Em texto na Carta Capital, o colunista Mauricio Dias se baseia em pesquisas recentes para dimensionar a gravidade da questão:

"A soma dos porcentuais de votos brancos e nulos, de rejeição e daqueles que não quiseram ou não souberam responder, está próxima dos 40%. É um porcentual inédito e expressa, aproximadamente, quase 50 milhões de um total de 140 milhões de eleitores brasileiros (…) Dos 37% que recusaram todos os candidatos, 72% não têm nem um pouco ou quase nenhum interesse na próxima eleição de 2014. Um dos pontos mais curiosos, indicativo do desencanto do eleitor, pode ser tirado dos que responderam 'ruim e péssimo' na avaliação de Dilma: 62% não votariam em ninguém se a eleição fosse hoje."

Esses resultados expressam, portanto, uma desaprovação "a tudo que aí está", numa postura que, não obstante legítima, costuma ser terreno fértil para as tentações totalitárias. Como hipótese à questão central postada pelo artigo, aponta, portanto, para um problema generalizado, que supera não apenas a candidata Dilma Rousseff, mas a própria conjuntura político-eleitoral que ora se apresenta.

Não fornece, no entanto, resposta à pergunta sobre as razões de o fenômeno das vaias não ocorrer, com igual intensidade, nos comícios dos adversários de Rousseff e nem no dos governadores ou candidatos ao governo com altas intenções de voto.



Inquietação
Talvez essa resposta esteja não esteja particularmente em nenhuma das hipóteses acima elencadas, mas na combinação de fatores citados em algumas delas, eventualmente acrescida de quesitos que não foram aqui abordados.

A perspectiva de que uma presidente que não pode dar as caras em público seja reeleita certamente faz parte do jogo democrático. Ainda assim, não deixa de ser algo que causa justo e inquietante estranhamento, além de preocupação acerca das consequências políticas de um eventual novo mandato presidencial iniciar-se com tamanha indisposição de parcelas do povo para com a mandatária.

Afinal, se com ampla base de apoio a Presidência Dilma cedeu tanto ao conservadorismo, o que pode vir a acontecer num cenário tão conturbado?



Publicado originalmente, com pequenas alterações, no Observatório da Imprensa.

(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Gabo segundo o Jornal da Globo

O espectador sem familiaridade com o universo literário, que tenha recebido a notícia da morte de Gabriel García Márquez através do Jornal da Globo, continua sem a mínima ideia da importância do escritor colombiano, de seu blending único de memória afetiva, imaginação prodigiosa e talento narrativo, de seu universo literário a um tempo realista e mágico, fincado em povoados míticos mas de expressão universal, da posição central que a América Latina – da qual tornou-se um ícone e um dos principais representantes - ocupa em sua obra e em sua vida.

A julgar pela matéria exibida pelo telejornal noturno, a impressão que fica é que García Márquez não passava de um escritor de gosto musical deplorável (pois fã dos boleros de Nelson Ned) e com afinidades políticas igualmente execráveis, notadamente pela amizade com "ditadores", plural referente a Fidel Castro, como as imagens então exibidas corroboraram. Os altos números de vendagem de suas obras e o recebimento do Prêmio Nobel foram os únicos pontos positivos mencionados, porém sem dar ao espectador a mínima chande de saber que méritos justificaram tais conquistas.


Conservadorismo caricato
É certo que o telejornal apresentado por Christiane Pelajo e William Waack (substituído, no dia em questão, por Carlos Alberto Sardenberg) vem se tornando, há tempos, o mais politicamente retrógrado dos veículos noticiosos da emissora, em que se tornou recorrente zombar do que quer que destoe do modelito neoliberal, particularmente de temas como a administração Kirchner, o regime cubano ou o legado de Hugo Chávez na Venezuela, seja através do sarcasmo explícito de Arnaldo Jabor ou das caretas sisudas de Waack.

O contágio ideológico da atração global chegou ao ponto, há algumas semanas, de noticiar como verdadeiro o hoax segundo o qual o ditador coreano Kim Jong-un havia determinado que todos os homens do país cortassem o cabelo como ele. Mesmo após a descoberta de que se tratava de um boato, o telejornal não desmentiu a "informação" ou pediu desculpas por iludir o seu público.

Ainda assim, preferir ataques pessoais mesquinhos à oferta de um retrato minimamente condizente da importância da obra de um dos maiores escritores latino-americanos, Prêmio Nobel de literatura, justamente por ocasião do anúncio de sua morte, parece excessivo até para os baixos padrões do Jornal da Globo.



A invisibilidade da América Latina
É fato que quem tem TV a cabo teve acesso a uma cobertura bem melhor e mais informada acerca da passagem de Gabo, com destaque para um depoimento precioso de seu tradutor e amigo Eric Nepomuceno, o qual refuta o rótulo "realismo fantástico" (ou "mágico"). Mas aqui neste texto nos interessa focar de forma específica na cobertura oferecida pelo Jornal da Globo, justamente por esta ser a principal opção telejornalística para quem chega tarde em casa e não tem TV a cabo.

O que primeiro chamou a atenção na matéria veiculada pelo telejornal no dia da morte de Gabo foi o colonialismo, traduzido na absoluta ausência de um referencial latino-americano na cobertura. O primeiro correspondente a ser chamado foi Jorge Pontual, de Nova Iorque, que se limitou a citar a repercussão da notícia nos Estados Unidos. Nenhum correspondente latino-americano, nem mesmo o culto e informado Ariel Palacios, correspondente brasileiro radicado em Buenos Aires, foi convocado. Muito menos alguns dos principais críticos literários latino-americanos que se dedicaram à análise da relevância de Gabo foram entrevistados.

E tanto a Colômbia, país natal e referência recorrente na obra, quanto o México, seu lar nas últimas décadas, foram absolutamente negligenciados pela cobertura. Desnecessário assinalar que a Rede Globo, quarta maior emissora televisiva do mundo, teria todas as condições de investir em bom jornalismo e mobilizar equipes para tal, se assim o quisesse.

São erros particularmente graves em se tratando de Gabriel García Márquez, cujo histórico discurso proferido ao receber o Nobel explicita o protagonismo político e afetivo da América Latina em seu sistema de valores e um autor que deixou uma obra que propicia múltiplas interpretações, capaz de agradar ou desgostar por diferentes razões, mas que tem no ato de sublimar em fantasia, delírio e poesia a loucura latino-americana um de seus traços distintivos. Macondo, a mítica aldeia de Cem anos de solidão, é a um tempo metáfora e vetor da identidade latino-americana. Macondo somos nós.



Livros? Que livros?
Ainda mais insuficientes do que o retrato do artista e de sua relevância foram as considerações (não) oferecidas pelo Jornal da Globo acerca da literatura que García Márquez produziu durante quatro décadas.

Pode-se ponderar, com bastante boa vontade, que não é fácil, na era dos smartphones e da onipresença da internet, traduzir a um público leigo, volumoso e heterogêneo, no tempo escasso de uma matéria telejornalística, o universo temático, a especificidade estética e os efeitos inebriantes da literatura de García Márquez.

Tal dificuldade evidencia-se ainda mais intensa se levarmos em conta o padrão literário ora em voga, em que as listas de mais vendidos subdividem-se entre livros de autoajuda, fantasias esotéricas e soft erotismo, com espaço mínimo para o engenho literário de mais fôlego e a ousadia formal. Como, em tum ambiente literário tão raso e que tão pouco demanda da crítica, esperar que se sumarize em linguagem telejornalística a pletora de significados atribuíveis a Macondo e à saga dos Buendía; ou à trajetória do ditador sem nome de O Outono do Patriarca, que sobreviveu durante séculos, vendendo ao Império até o mar de seu país; ou qual a graça de se ler uma história cuja morte do protagonista tem lugar já nas primeiras páginas; ou como a triste história de Cândida Erêndira corresponde a um tratado poético sobre os mecanismos imperialistas de dominação econômica; ou porque os amores contrariados renderam mais e melhor literatura através da imaginação de Gabo?



Estética negligenciada
Porém, ainda mais do que a dificuldade para traduzir minimamente ao leitor não familiarizado o universo literário acima esboçado, a recusa em sequer tentar fazê-lo soa indicativa das limitações do telejornalismo cultural na TV aberta, tanto mais se levarmos em conta que, não faz tanto tempo assim, tais criações do realismo mágico ocuparam posições destacadas, e por longos períodos, nessas mesmas listas de best sellers ora povoadas de paulos coelhos e 50 tons de cinza.

Porém, ainda mais difícil do que abordar o universo temático de Gabo, sobretudo para um telejornalismo que concebe seu espectador como um Homer Simpson, seja fornecer uma ideia das questões propriamente formais e estilísticas que distinguem a excelência da literatura do escritor colombiano. E não por estas serem, a rigor, herméticas, posto que nela a adjetivação abundante e o recurso frequente às comparações, metáforas e hipérboles, ao mesmo tempo em que contrariam - e desmentem - algumas regras não escritas para o bem escrever, tendem a facilitar a leitura de seus textos por um público variado, cujos méritos propriamente formais do texto talvez tendam a receber pouca atenção ante a imaginação prodigiosa das histórias e o vigor narrativo ao contá-las.



Estreitamento de referenciais
Ocorre, porém, que tematizar, no ambiente telejornalístico atual, as questões de cunho propriamente literário elencadas nos dois últimos parágrafos implica no estabelecimento prévio de um código - e na existência de um repertório referencial – entre emissor e receptor.

E é forçoso reconhecer que este código estreitou-se e delimitou-se nas últimas décadas. O crítico literário Roberto Schwarz afirma, em um texto clássico, que o hiato entre o golpe militar de 1964 e a promulgação do AI-5 foi paradoxalmente caracterizado como "os anos de hegemonia cultural da esquerda". Corroborariam tal afirmação o teatro de Boal e Zé Celso, a Tropicália e a música de protesto, a literatura de Callado e Cony, entre tantos outros exemplos possíveis.

Talvez não seja despropositado sugerir que, atualmente, o paradoxo se inverteu, e os 25 anos de democracia que se seguiram ao arbítrio vêm sendo marcados pela imposição e hegemonia de valores mercadológicos à produção artístico-cultural. Verifica-se tal afirmação já na legislação de fomento à cultura vigente nas duas últimas décadas no país, em que o poder decisório foi, na prática, transferido para os diretores de marketing das empresas. E ela se solidifica se observarmos como o processo de fabricação e manutenção de megasucessos ocasionais depende diretamente do poder de marketing das corporações de mídia que mantêm propriedades cruzadas (canais de TV abertos e fechados, estações de rádio, portais, jornais, revistas, etc.).



O valor mercado
A manutenção de tal cenário por um longo tempo, sua penetrabilidade, e sua correlação a fatores como o déficit educacional no país ou o não-cumprimento de preceitos constitucionais relativos à formação cultural e educacional pelos concessionários de canais de TV acabaram não só por estreitar o repertório do referido código de comunicação entre emissores e receptores no âmbito televisivo, mas por redefinir em bases mercadológicas seu quadro de valores, seus parâmetros axiológicos.

O resultado, no âmbito da temática deste artigo, é que a riquíssima e exuberante contribuição que Gabriel García Márquez deu à literatura e à cultura universal, submetida a tal código, desaparece, na cobertura do Jornal da Globo, em prol do retrato de um artista "cafona e amigo de ditadores", cujo grande mérito passa a ser a venda de 40 milhões de livros, não por acaso uma contribuição que se correlaciona diretamente ao mercado.


Publicado originalmente e com pequenas alterações no Observatório da Imprensa.

(Imagem retirada daqui) 
 

domingo, 4 de maio de 2014

Meu candidato à Presidência

É tempo de definição das candidaturas presidenciais, e o que se vê é um museu de grandes novidades. Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos são, hoje, as únicas candidaturas com chance de vitória. Em termos programáticos, mal dá para espetar um alfinete entre as propostas de um e de outro: todos se esforçam como um cãozinho para agradar o mercado, têm ojeriza ao diálogo com a sociedade e não hesitam em jogar forças policiais contra o povo; em seus mandatos abundam denúncias de corrupção – e de agirem para impedir as respectivas investigações.

Pior: praticam a política da forma mais convencional possível: alianças com velhos caciques, comícios em que prometem mundos e fundos sem se comprometerem especificamente com nenhum programa, uso baixíssimo e pouco inteligente da internet e de suas possibilidades interativas. Os três têm horror a tudo o que se refira a políticas públicas voltadas a sexualidade, questão de gêneros ou comportamento, de forma geral. Nenhum deles foi eleito por eleição intrapartidária em que as bases tivessem pesos decisório, mas pelo velho dedazo. É quase como se estivéssemos no século XIX.

Assim, como nenhum desses candidatos atende minimamente ao que nosso maravilhoso mas sofrido país merece, e como é franqueado a todos sonhar – sendo que, para o dramaturgo barroco Calderón de la Barca, os sonhos seriam mesmo a matéria constitutiva da vida -, apresentamos, a seguir, o que seria, ao nosso entender, um programa mínimo, básico mesmo, para um(a) candidato(a) a presidente merecer o voto em nosso atual estágio de democracia, em pleno terceiro milênio.

Merece o meu voto um(a) presidente que:

      1. Preserve a autonomia em relação ao mercado financeiro, priorizando o interesse público e as demandas urgentes da sociedade em relação às dos bancos e entidades financeiras que, além de lucrarem bilhões com os juros aqui praticados, querem, com o auxílio da mídia corporativa, sua parceira no capitalismo infotelecomunicacional, mandar no país;

      2. Recuse determinantemente as privatizações - ou concessões, ou que nome a novilíngua da vez adote – do patrimônio público nacional, de forma a preservar ao máximo as riquezas naturais e a autonomia econômica e decisória do país, renegando a adoção de medidas de orientação neoliberal das quais a privatização é ícone;

      3. Adote um modelo de desenvolvimento que leve em conta a finitude dos recursos naturais, fatores bioéticos, ecológicos e a necessidade de preservação da vida e do meio ambiente para as gerações futuras;

      4. Respeite e priorize os Direitos Humanos, fazendo valer o poder do Estado para difundir sua significação e importância e para aplicá-los, com particular atenção a violência contra crianças, mulheres, homossexuais, índios, minorias e à criminalização da pobreza.

      5. Apresente, já na campanha eleitoral, um planejamento estratégico do que realizaria – e com que recursos -, em curto, médio e longo prazos, em áreas essenciais como Educação, Saúde, Cultura, Transportes, Trabalho e Segurança Pública;

      6. Priorize de fato a Educação, com garantia de investimentos vultosos e continuados; suporte aos estados na melhoria do ensino de primeiro e segundo graus; oferta de treinamento e oportunidades de atualização a professores, cuja remuneração deve ser condizente à importância social da Educação numa sociedade democrática; manutenção e ampliação do ensino universitário público sem sucatear o sistema ou diminuir a qualidade da educação oferecida, ou seja, oferecendo campi em boas condições físicas e de mobilidade, com equipamentos e bibliotecas atualizadas e preservação, em índices internacionalmente recomendados, da proporcionalidade professor/aluno; acompanhamento rigoroso dos concursos públicos para contratação de professores, de forma a coibir a vergonhosas e disseminadas fraudes; rigor na fiscalização do ensino público privado; fim dos truques marqueteiros de programas como o "Ciência Sem Fronteiras", mera oportunidade turística para graduandos;

      7. Promova efetivamente a redistribuição de renda, a partir de uma lógica rigorosamente inversora, ou seja, que tire dos mais ricos para beneficiar os mais pobres, sem prejudicar economicamente ou estimular o preconceito contra estratos socioeconômicos intermediários;

      8. Adote o combate à corrupção como uma meta prioritária do governo, mobilizando todos os esforços para coibi-la em suas diversas manifestações, sem preservar os membros de grupos políticos aliados nem se valer de estratagemas como a manipulação e o sucateamento da Polícia Federal como forma de esvaziar seu ímpeto investigativo;

      9. Dialogue com a sociedade, respeite o direito constitucional a manifestação, protesto e greve, evitando a todo custo o uso da violência física por parte do Estado; que instaure novos canais de comunicação entre sociedade e governo, ampliando os meios de democracia participativa.
      1. Promova a regulamentação da Comunicação, através de amplo debate com a sociedade e de forma a proibir a concentração de empresas midiáticas na mão de poucos donos, vetar a propriedade cruzada de meios e criar meios eficazes de acabar com a impunidade midiática e punir a difamação e a calúnia com uma velocidade condizente à da era da informação tecnológica, promovendo, assim, a democratização e a pluralização da área;
      1. Patrocine uma reestruturação das forças de segurança, reforçando a Policia Federal e coordenando junto aos estados um processo de desmilitarização da Polícia Militar, com sua substituição por uma força policial em bases profissionais, desprovida dos ranços ditatoriais e de seus vícios, erradicando a tortura como método prioritário de investigação no país e restabelecendo a hoje deteriorada confiança do povo em suas forças de segurança;

      2. Cumpra os compromissos assumidos em campanha, não agindo de forma inversa ao sentido geral do programa eleitoral divulgado, a não ser devido a emergências sistêmicas ou catástrofes. Trata-se de um item cujo cumprimento extrapola o âmbito partidário e pede a ação efetiva da Justiça Eleitoral. Pois numa democracia em evolução não se pode tolerar, como temos visto em um passado recente, que, por exemplo, um candidato faça toda sua campanha eleitoral com um discurso caracteristicamente antiprivatização - inclusive anunciando em comícios e vídeos gravados que não irá privatizar o Pré-Sal - e, no poder, não só privatize o Pré-Sal, mas rodovias, aeroportos, portos, etc. Isso depõe contra a democracia do país e impede sua evolução.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

E agora, PT?

A crise do governo Dilma, a qual temos comentado há tempos, é hoje um fato, atestado não só pelo enorme declínio na avaliação positiva da presidente e nas intenções de voto na candidata, mas pela ascensão da pior direita representada por Aécio Neves.

O jornalista Ricardo Kotscho, historicamente ligado ao PT, alude, em coluna recente, à "enxurrada de problemas enfrentados pelo governo Dilma, tanto no campo político, com rachaduras na aliança, como no econômico, em que os índices negativos se multiplicam". Trata-se de uma rara demonstração de lucidez e de capacidade de reconhecer problemas.

Enquanto isso, o grosso da militância continua a praticar o que se tornou uma espécie de hobby do petismo: culpar a mídia - vulgo PIG - e a Justiça por todos os problemas e resultados insatisfatórios obtidos pelos governos capitaneados pelo partido. Trata-se de uma reação não apenas sem eficácia, mas contraditória.

Pois o maior erro do governo Dilma, em termos estratégicos, foi não construir sua própria narrativa, deixando-se aprisionar por um sistema de valores ditado justamente pela mídia e pelo mercado. Enquanto a economia "ia bem" (segundo tal quadro valorativo) funcionou, e os militantes e entusiastas petistas vibravam como torcidas de futebol a cada divulgação de índice econômico e a cada afago de porta-vozes do mercado, fossem estes agências de classificação de riscos, colunistas da imprensa ou a The Economist - entes hoje execrados.

A partir do momento em que alguns dos fundamentos de tal sistema passaram a falhar ou a apresentar resultados fora do estabelecido pelas planilhas, disseminou-se uma sensação de que algo ia errado na área econômica, evoluindo, à medida que tal quadro se agravava, para uma percepção generalizada de crise. A responsabilidade por tal feito não é da mídia, como a militância quer fazer crer, mas do próprio governo Dilma, que endossou o quadro valorativo financista como régua para medir seu próprio desempenho, não sendo capaz – como Lula, em ampla medida, fora – de a ele contrapor uma axiologia de conquistas sociais (talvez porque estas estejam, hoje, longe do prometido).

Ante tal resultado, os mesmos entusiastas do desempenho econômico de valores mercadistas, ao invés de fazerem uma autocrítica, reconhecendo que Dilma fora ingênua e, ao sacrificar os compromissos antineoliberais da campanha em prol da ampliação da hegemonia política, caíra na armadilha da direita, passam a acusar a mídia e os oráculos do mercado financeiro, antes para eles tão confiáveis, de "fabricar" uma crise.

Ora, o debate político demanda seriedade e coerência. A transformação da mídia no bode expiatório para todo e qualquer problema da administração petista é não apenas um engodo, desmentido pelos fatos, mas uma forma covarde de deixar de assumir responsabilidades. E por três motivos:

      1. A influência da mídia é superestimada - A animosidade de grande parte da mídia para com o petismo é sobejamente conhecida, vai desde pequenas distorções editoriais à agressividade aberta dos buldogues da Veja, mas isso não impediu que o PT elegesse três presidentes em seguida e, de quebra, o prefeito da maior cidade do país. Justamente por isso, achar que a sensação de alta da inflação é "fabricada", e não uma constatação diária da população, é superestimar o poder de influência midiático e, mais grave, subestimar o grau de discernimento dos cidadãos;

      1. PT se recusa a regulamentar a mídia - Sob Dilma Rousseff, o PT acovardou-se e não levou adiante o projeto de regulamentação da atividade midiática que Franklin Martins lhe entregara. Trata-se de uma medida essencial ao aprimoramento da democracia brasileira, já que uma pequena mas conservadora plutocracia domina os meios de comunicação, a propriedade cruzada não é coibida e não há legislação específica que puna crimes midiáticos. Ao invés de implementá-la já no inicio do governo, quando tinha amplo apoio popular e base de apoio recém reestruturada, Dilma preferiu afagar os barões da mídia em seus rega-bofes e através de verbas da Secom. Quem, como este blogueiro, ousou chiar, quase foi execrado. Deu no que deu;

      1. Reclamar, sem agir, é desperdiçar poder de pressão - O tempo e a a energia que os petistas e apoiadores do governo gastam atacando a mídia poderia ser utilizado, com muito mais proveito, para pressionar e fortalecer o governo Dilma no sentido de que este saia da zona de conforto e tome (ou retome) medidas benéficas ao povo, medidas estas que exigem coragem, determinação e enfrentamento, priorizando, de fato, a agenda social em detrimento da agenda ditada pelo mercado financeiro.

Em editorial em que defende justamente a necessidade de priorizar de fato a democracia social ante as forças de mercado ("oligarquia argentária", em suas palavras), o colunista Saul Leblon assinala que "A prostração política e ideológica nas fileiras progressistas é talvez o mais grave desafio à reeleição da Presidenta Dilma".

Acostumados ao culto ao líder, a saudar acriticamente toda e qualquer medida tomada por Lula ou Dilma, e a jogar a culpa dos revezes na mídia (ou na Justiça), os petistas, em sua maioria, amoldaram-se em uma passividade que destoa da altivez aguerrida que hoje talvez seja a única forma de o partido reagir à crise em que ora está submerso.

Não irá, certamente, reconquistar eleitores para os quais o governo Dilma tornou-se um caso perdido ao trair sua promessa de campanha e privatizar, ao aderir ao economicismo de mercado, ao recusar o diálogo e reprimir grevistas, ao desprezar os Direitos Humanos dos indígenas e as questões de gênero, ao jogar o exército contra o povo, ao optar por um modelo de desenvolvimento arcaico e insustentável.

Mas nada fazer ou insistir na atual estratégia de avestruz significa jogar o jogo de acordo com regras ditadas pelo mercado – condição na qual mesmo a eventualidade da reeleição acabaria sendo uma vitória de Pirro.


(Foto clicada por Ueslei Marcelino retirada daqui)

terça-feira, 22 de abril de 2014

O retrocesso progressista

O boom dos blogs políticos, no Brasil, ocorre no bojo da disseminação da web 2.0, mais veloz e interativa, e das campanhas eleitorais que reelegeram Luiz Inácio Lula da Silva e levaram Dilma Rousseff à cadeira presidencial.

É desse ínterim que datam alguns dos principais dos então chamados "blogs progressistas", denominação que hoje, tomada ao pé da letra, configura um típico ato falho freudiano, mas que, à época, procurava indicar a identificação com um ideário político de esquerda sem circunscrevê-lo explicitamente ao petismo em ascensão.

Esse boom de blogs políticos ocorre, portanto, com um um atraso médio de sete ou oito anos em relação a fenômeno semelhante – embora de perfil distinto - nos EUA.



Personalismo e crise
Um pouco antes da ascensão da blogosfera progressista já havia, é fato, uma relativamente forte atividade blogueira em português; mas, malgrado a existência de alguns ótimos blogs com ênfase em política – como O biscoito e a massa, de Idelber Avelar, ou o de Sakamoto -, a impressão era de alterativas pontuais em um cenário com predomínio de temáticas humorísticas, de cultura pop, ou mesmo de confusão entre blog e diário adolescente.

Sobretudo não havia uma articulação conjunta em prol de um ideário político como, para o bem ou para o mal, ocorreria entre os blogs ditos progressistas.

Essa ascensão da blogosfera política se dá em um cenário de agravamento da crise da mídia convencional, seja pela concorrência com a internet – um fenômeno mundial -, seja pela perda de credibilidade ante o tendenciosismo ideológico e os falseamentos dai decorrentes – uma peculiaridade particularmente grave no Brasil e mais evidente durante a era petista.



Nouvelle Cuisine
A confluência desses dois fatores – maior oferta de blogs políticos e crise midiática – fez com que, durante um tempo, parecesse não apenas possível, mas altamente recomendável, abdicar do cardápio informativo midiático em prol de uma dieta mais saudável, cuja base nutricional seria fornecida por uma receita selecionada de blogs e sites alternativos.

A nova economia informativa exigia algum trabalho de pesquisa, garimpagem e constante atualização, é verdade, mas a promessa de acesso a informação desprovida ou menos marcada pelas distorções decorrentes do conluio entre mídia corporativa e grande capital faria, alegadamente, valer a pena.



Alternativa à mídia
Essa lógica prosperou durante um tempo, e foi com um misto de alívio e alegria que muitos constaram, por exemplo, que abdicar da leitura diária daquele jornal que considera a ditadura branda resultava não apenas em economia de alguns caraminguás, mas no benefício de trocar os repetitivos ardis da coluna da Cantanhêde pela novidade reluzente do texto de um blogueiro cuja opinião não se media pela régua do patrão.

Embora tal tendência pareça irrefreável, persevere e apresente avanços qualitativos em boa parte do mundo, essa lógica da substituição da mídia corporativa pela produção dita independente como principal fonte de informação ora claudica, na seara política, no Brasil. E pelos motivos que se seguem, coadunados entre si.



PIG do B
O primeiro, e mais grave, é que adotar como principal fonte de informação, hoje em dia, os blogs progressistas equivale a receber uma informação tão ou mais distorcida do que a oferecida pela mídia corporativa, só que com sentido político-ideológico invariavelmente pró-petista.

Isso de dá devido à constatação de que fica cada vez mais evidente que tais "progressistas", em sua maioria, não hesitam em se valer dos mesmos truques retóricos, estratégias desqualificadoras, flacidez ética e miopia ideológica que tanto criticam na mídia corporativa – a qual chamam de PIG.
Transformam, desse modo, o debate político num autêntico vale-tudo para defender as forças no poder, as quais reputam como de esquerda, a despeito das privatizações a granel, da manutenção do tripé econômico neoliberal, da repressão a greves e manifestações populares e de tantos traços identificadores da pior direita. Formam, assim, o PIG do B, na definição sarcástica da jornalista Denise Queiroz.

Pois os blogueiros progressistas, assumidos ou não como tais, abdicaram, há tempos, da análise política equilibrada, ponderada e baseada em fatos, substituída por uma lógica antimidiática e partidária de caráter meramente reativo, cujo objetivo precípuo é justificar toda e qualquer medida dos governos petistas.



Exposição na mídia
O segundo aspecto problemático da atual conformação da blogosfera política no Brasil é a própria visibilidade hegemônica da qual desfrutam os blogs progressistas, assegurada pela grande projeção midiática de alguns de seus principais blogueiros, graças à exposição (prévia ou mesmo atual) nas redes televisivas ou nas redações que tanto criticam (Paulo Henrique Amorim, Nassif, Azenha, Paulo Nogueira, Rodrigo Vianna), do maior acesso a verbas de patrocínio – em sua maioria estatais - e do fato de, não obstante conservarem alguma independência entre si, atuarem estrategicamente como um grupo uno.

Pois um dos principais traços distintivos dos blogueiros progressistas é que agem em conluio: há uma espécie de hierarquia entre eles, sendo que um repercute os posts dos outros e os articulistas cujas opiniões destoam das da manada ou que constam do índex de um não são publicados por nenhum dos outros.



Debate cerceado
Essa ação quadrilheira de tonalidades obscurantistas reduz drasticamente a visibilidade de blogs não afinados com a linha política predominante entre os progressistas – ou seja, a fé religiosa e intransigente no petismo. Comprova, ainda, que são relativas as contribuições dos progressistas para a diversidade midiática, notadamente no que se refere a temas políticos, limitados que estão não somente em publicizar o que seja de interesse chapa-branca, mas também em bloquear a difusão das críticas, mesmo se à esquerda.

Assim agindo, a blogosfera progressista emula o modus operandi do próprio petismo no poder, e com resultados semelhantes: pois, tal como o governo que apoia, traveste-se de esquerda e ocupa indevidamente o locus político que a esta de direito pertenceria, esvaziando-o. E o faz corroborando a adoção de um receituário que, com a única exceção das políticas de renda mínima, mostra-se intrinsecamente conservador, entre outros aspectos, nos terrenos da economia, da biopolítica, dos Direitos Humanos e do arcaico modelo desenvolvimentista adotado.

A blogosfera progressista é, hoje, uma força do atraso.

domingo, 20 de abril de 2014

Subsídios para o debate eleitoral

Um dos traços mais marcantes do debate público sobre política, no Brasil, tem sido a proliferação de boatos, ataques pessoais e preconceitos diversos, em detrimento da discussão de temas urgentes e concretos, associados a questões propriamente políticas, aos modelos adotados e suas alternativas e no que implicam para o nosso futuro como nação.

É fácil constatar tal processo: basta consultar as redes sociais ou puxar conversa aleatoriamente nas ruas para que cresça a possibilidade de nos defrontarmos com "fatos políticos" como a transformação de Lula de cachaceiro em milionário global (sendo que não há provas de que ele seja nem uma coisa, nem outra), de seu filho em dono de frigoríficos e corporações telefônicas, ou com a certeza, baseada no mero achismo, de que o PT é o partido que mais roubou em toda a história republicana.

Ao assim agir, a oposição trabalha contra si e facilita tremendamente a manutenção da hegemonia eleitoral petista, pois deixa de apresentar programas e projetos para o país, preferindo apostar em uma boataria difamatória que pode ate servir de válvula de escape para suas frustrações e preconceitos de classe, mas, justamente por seu vazio programático, é eleitoralmente inócua. Pior: ao apostar no escândalo moralista, perde-se a chance de apontar os muitos e graves erros do governo Dilma, que se tornam cada vez mais evidentes a parcelas do eleitorado, como mostram as pesquisas.



Por outro lado, nos escaninhos virtuais governistas e entre os petistas em geral, proliferam, como método prioritário de ação política, as outrora criticadas desqualificações pessoais de críticos e oposicionistas (mesmo dos que até ontem de manhã eram parceiros do partido). Isso, por sua vez, leva à repetição, em sentido inverso, do tipo de ataques acima citados, com a proliferação das acusações de que Aécio Neves seria um bêbado e cocainômano e caricaturando Marina Silva como uma fanática religiosa a soldo do Itaú (como se a presença – e o poder decisório - de religiosos não fosse imensa no governo Dilma e a candidatura desta não tivesse entre seus patrocinadores grandes bancos, inclusive o Itaú, terceiro maior apoiador em 2010).

Para agravar a situação, a necessária autocrítica petista deu, há tempos, lugar à eleição da mídia como bode expiatório para toda e qualquer acusação ou má avaliação que envolva o atual governo, deixando de levar em conta que foi Dilma quem deliberadamente optou por não promover a regularização da mídia, guardando na gaveta o projeto que Franklin Martins lhe entregara pronto e preferindo ingenuamente tentar cooptar os veículos corporativos com afagos institucionais e polpudas verbas da Secom.

Quem perde nesse jogo viciado entre governo e oposição é o país e seus cidadãos, de ordinário já submetidos, nas últimas décadas, a um processo de hegemonia do marketing na politica que tende a dissimular o programático e o ideológico em prol da transformação dos candidatos em embalagem e produto. Vide "Collor, o caçador de marajás" e "Lulinha paz e amor".

No entanto, após mais de 11 aos de petismo o poder – período mais do que suficiente para que o improviso fosse substituído por medidas planejadas -, há muitas e sérias questões cujo debate, preterido pela boataria ofensiva e pelo jogo de desqualificações acima descrito, mostra-se, neste momento, de fundamental importância.

Abaixo, dez questões cuja discussão acrescentaria muito ao debate pré-eleitoral, ao contrário do que acontece se o país continuar a discutir se Lulinha é dono da Friboi ou se Eduardo Campos é filho de Chico Buarque de Hollanda:

    1) Por que, após décadas de grande melhoria, os índices de analfabetismo infantil voltaram a crescer durante o governo Dilma, que alega priorizar a Educação e cujos programas de renda mínima exigem que os filhos sejam mantidos na escola?

    2) A gestão da Saúde, após 11 anos, mostra-se incapaz, por um lado, de aperfeiçoar a qualidade e expandir o atendimento prestado pelo SUS; por outro, os planos de saúde estão mais caros do que nunca, custam a muitos pacientes idosos mais da metade de seus rendimentos e frequentemente exigem que o paciente recorra à Justiça para ter acesso a procedimentos um pouco mais caros. A tal quadro o governo contrapõe o Mais Médicos, que espalhou mais de 13.000 médicos por áreas remotas para prestar atendimento básico. Devemos estar satisfeitos com tal "modelo" de gerenciamento da saúde pública?

    3) Ao menos desde o final da ditadura, o direito constitucional de protestar vinha sendo respeitado no país, com exceção de um ou outro governador tucano que usava a PM para reprimir manifestações. A partir de junho do ano passado, todo e qualquer protesto público vem sendo reprimido com violência policial, sendo que o governo Dilma tem sido pródigo em colaborar para tal quadro, inclusive com o envio da Força Nacional para reprimir manifestantes. Devemos aceitar passivamente tal afronta a direitos constitucionais?

    4) De modo similar, o governo Dilma vem, desde o início, recusando qualquer diálogo com grevistas e com o movimento sindical, não raro reprimindo-os com violência física, como fez com os professores universitários em 2012. É esse modelo de relacionamento do poder com reivindicações trabalhistas que queremos para o país?

    5) Os índios vêm sendo vítimas de um verdadeiro genocídio nos governos Lula e Dilma. Por um lado, isso se dá graças ao modelo arcaico de desenvolvimento baseado no consumo e em enormes hidrelétricas; por outro, em decorrência da aliança entre o governo e grandes latifundiários. O resultado é o menor índice de demarcação de terras desde os anos 1970 e um aumento de 271% no número de mortes de indígenas durante as presidências petistas. É assim que queremos que os índios brasileiros sejam tratados?

    6) Embora o governo alegue que a inflação está sob controle, há uma sensação disseminada de que os preços dispararam, renovada a cada ida ao supermercado, a cada viagem, a cada refeição em restaurante. Isso se deve, em grande parte, à maquiagem que o governo aplica ao cálculo dos índices inflacionários, manipulando-os de forma a baixá-los artificialmente. Além disso, é público e notório que, por razões eleitorais, o governo Dilma está segurando os preços de combustíveis e energia elétrica, num procedimento que gera tensão inflacionária constante e deve provocar estouro de custos ao consumidor em 2015. É saudável esse grau de falseamento de índices recorrente no governo Dilma ou seria desejável que estes refletissem com fidelidade o aumento dos preços?

    7) De modo análogo, há uma acentuada discrepância entre o "pleno emprego" comemorado pelo governo, os índices do DIEESE (nos quais o PT sempre se baseara antes de assomar ao poder, e cujos índices atuais são o dobro do IBGE) e a sensação geral quanto ao tema (quase todo mundo conhece muitas pessoas desempregadas). Ao contrário do que apregoa o senso comum, pesquisas independentes mostram que, no Brasil atual, quanto mais qualificado o profissional, menores as chances de ele conseguir emprego. Para além dos índices oficiais, qual é a realidade do mercado de trabalho na era petista?

    8) A mídia brasileira segue sendo uma das mais concentradas do mundo, nas mãos de seis famílias que praticamente a monopolizam. O Direito de Resposta foi abolido pelo STF e o partidarismo e a  difamação grassam nas rádios e TVs, que são concessões públicas sujeitas constitucionalmente à obediência a certos preceitos, como o caráter educativo. Na imensa maioria dos países desenvolvidos, a adoção de parâmetros que regularizam a atividade midiática é prática estabelecida, sedo que Argentina e Inglaterra criaram recentemente legislações específicas a esse respeito. Como avaliar a inação petista ante tal questão?

    9) O governo Dilma alega priorizar a Educação, e o fato que corroboraria tal afirmação seria, segundo ela, a expansão do ensino superior, cuja disponibilidade de vagas praticamente dobrou desde 2002. Porém há quem sustente - lembrando o exemplo do ensino secundário durante a ditadura - que dobrar o número de alunos sem o correspondente aumento da contratação de professores equivale ao sucateamento do sistema educacional. E antigas e novas universidades apresentam deficiências estruturais, como goteiras, falta de carteiras e ausência de bibliotecas/enorme defasagem de acervo. Além disso, permanecem intocáveis velhos problemas da universidade brasileira, como os concursos fraudados, os professores e funcionários fantasmas e a privatização disfarçada de serviços. Como avaliar a política petista para as universidades?
10) O incremento da democracia participativa foi uma das principais reivindicações das Jornadas de Junho. No entanto, embora ela fizesse parte das práticas do velho PT, foi preterida pelo governo Dilma em prol de uma gestão pública extremamente personalista e centrada, que pouco delega a assessores e não estabelece nenhuma forma direta de participação popular, quanto mais em âmbito decisório. É a manutenção desse modelo arcaico de democracia que queremos para o país?

(Imagem retirada daqui)


domingo, 30 de março de 2014

Brasil, 2014: Violência de Estado relativiza Democracia

No momento mesmo em que se completam cinco décadas do golpe militar, e após mais de 11 anos de petismo no poder, o Brasil vivencia, com uma passividade preocupante, uma combinação de ameaças e de violações consumadas aos preceitos constitucionais por parte do Estado, tanto no que diz respeito aos direitos individuais quanto aos coletivos, com particular incidência sobre os jovens.



O terror como desculpa
Três eventos da mais alta gravidade ilustram de forma clara tal processo: o primeiro - e potencialmente mais danoso, devido a seu caráter nacional - é a decretação iminente de uma legislação de exceção visando condicionar, delimitar ou mesmo proibir manifestações e protestos públicos.

Valendo-se da desculpa multiuso do combate ao terrorismo e da manutenção da ordem pública durante a Copa do Mundo, o conjunto de leis vem preocupando sindicatos, movimentos sociais e demais setores organizados da sociedade, não só por seu poder de instrumentalização pelo mais rasteiro jogo eleitoral, mas devido a seu caráter intrinsecamente totalitário. Pois, francamente contrário ao direito de livre manifestação e de protesto assegurado pela Constituição, permitiria às forças de segurança tanto a violação a priori da comunicação privada de possíveis "agitadores" – ao estilo Minority Report - quanto o incremento do tempo de detenção de "vândalos", potenciais ou efetivos, além do aumento despropositado da pena para ato ditos de terrorismo, como o ataque a fachadas de bancos, lanchonetes multinacionais e demais símbolos do capitalismo.



Bombas no campus
O segundo evento marcado por uma truculência em tudo destoante da democracia consumou-se de forma súbita em Florianópolis, na última quarta-feira: a invasão do campus da UFSC pelas polícias federal e militar (sem que nem uma nem outra tenha sido convocada, como determina a lei), com seus agentes, cônscios da impunidade, exibindo extrema brutalidade no trato de estudantes, professores e técnicos universitários.

O show de truculência incluiu gás espirrado no rosto de um professor que argumentava civilizadamente, bombas jogadas irresponsavelmente contra estudantes e crianças e até vidros de carro quebrados num ato, este sim, de puro vandalismo por parte das forças que supostamente deveriam assegurar a ordem – tudo para, ao final, autuar três jovens por porte de uma pequena quantidade de maconha.

O episódio, violador da necessária pax dos campi universitários, fornece mais uma dentre tantas provas do despreparo e do gosto pela truculência de nossas forças de segurança, que quase trinta anos após o fim da ditadura ainda não assimilaram minimamente pressupostos básicos da ação policial numa democracia, como a presunção da inocência, o respeito aos Direitos Humanos e o tratamento civilizado a inocentes e suspeitos, resguardado o uso da violência para situações de resistência e enfrentamento.



Criminalização da pobreza
A política de ocupação e repressão periférica que atende pelo singelo nome de Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) responde pelo terceiro dos episódios de violência recente a suscitar grave preocupação. Na invasão que ora o Bope, com auxílio do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, protagoniza no complexo da Maré – um conjunto de 16 favelas onde moram cerca de 130.000 pessoas - chama a atenção a utilização de mandados de busca coletivos e genéricos que, ao ignorarem a necessidade de se especificar individualmente a alegada conduta criminosa, acabam por tratar como suspeitos todos os moradores residentes em tais áreas, agravando a confusão entre pobreza e criminalidade e promovendo a violação coletiva de direitos individuais pela Constituição assegurados.

Trata-se, portanto, de uma prática que viola o Estado de Direito e remete a processos de discriminação em massa com forte laivo racista, corriqueiros na repressão israelense à Palestina e nos Balcãs dos anos 90 e cujo maior e mais horripilante exemplo vem da guetificação pré-Holocausto dos judeus pelo nazismo (a alusão é apenas histórica; nos situamos, evidentemente, em outra conjuntura - não desprovida, porém, em menor escala, de suas próprias e graves potencialidades).

Que tal ação militar conte com o aval explícito de uma presidente – e, no caso, Comandante em Chefe das Forças Armadas - egressa das fileiras da esquerda e democraticamente eleita, é um dado que evidencia o grau de naturalização e assimilação da violência institucional pelo atual governo, constatação que se torna ainda mais grave se levarmos em conta que as motivações eleitorais motivantes de tal ocupação de território são públicas e notórias.



Denúncia na OEA
A condição precípua da concessão do monopólio do uso da violência ao Estado é que ela seja usada rigorosamente de acordo com o que determina a legislação, como último recurso e com seu emprego limitado a mínimo necessário. Ou seja, exatamente o contrário do que o país se acostumou a ver, na repressão periférica, na reação oficial aos protestos, nos eventos sui generis por este texto elencados.

A tudo isso soma-se uma política de desenvolvimento tão arcaica que o seu corolário tem sido um genocídio indígena em pleno terceiro milênio. O Estado brasileiro acaba de ser denunciado na OEA por ainda usar uma lei da ditadura militar no trato com as populações indígenas – e os comentaristas governistas que corretamente condenam o passado ditatorial e as ameaças golpistas parecem não se dar conta da contradição e do autoritarismo inerentes à política desenvolvimentista ora em curso.




Estado de Exceção
Tornou-se lugar comum do discurso da direita mais hidrófoba a tentativa de classificar o governo de Dilma Rousseff como uma ditadura. Trata-se, a rigor, de uma acusação tão grave quanto falsa: a despeito da recusa à (auto)crítica e ao diálogo e da truculência no trato com setores da sociedade, estamos em uma democracia – pouco avançada, viciada, fraturada por linhas de classe, raça e gênero, mas democracia. A despeito de tal constatação, os eventos acima elencados não nos permitem ignorar o andamento de um processo de agressão a princípios básicos dessa mesma democracia, que potencialmente levam à relativização desta. Trata-se de uma evidência da mais alta gravidade, que delimita ao âmbito econômico e põe em xeque conquistas recentes das classes menos abastadas e só beneficia o grande capital e as forças do conservadorismo.

Preocupantes por si, tais violações – que claramente apontam para uma relativização da democracia no Brasil, e não para o avanço desta -, se tornam ainda mais nocivas, por um lado, por praticamente não provocar reações, deflagrando-se sob um silêncio cúmplice ou ignorante. Mereceria um exame à parte, quanto à formação dessa aprovação surda, o papel da mídia "nos mecanismos de legitimação simbólica do exercício do poder penal e do controle social", como alude Vera Malaguti Batista no prefácio do livro Punir os Pobres, de Loïc Wacquant. Uma hipótese central a se considerar seria que o papel político da mídia revelar-se-ia muito mais complexo do que os adeptos do simplismo binário "PIG contra PT" querem fazer crer – como fica particularmente claro no que concerne à cobertura ufanista, no pior estilo "support our troops", que a Rede Globo faz da invasão da Maré.

Por outro lado, o alto - e sistemático - grau de violação dos direitos sociais pelo Estado há de causar preocupação aos cidadãos e cidadãs que realmente prezam pela democracia, ainda mais ante a constatação de que tais retrocessos têm lugar em (e frequentemente são patrocinadas por) um governo dito progressista, que muitos, por fé ou hábito, anda situam na centro-esquerda, a despeito de seus atos de truculência e do retrocesso institucional por ele produzido. Minar a democracia é uma forma de golpeá-la a médio prazo.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Greve de garis expõe embates de classe

As reações à greve dos garis cariocas têm fornecido um retrato em cores vivas dos preconceitos de classes no Brasil, tanto por parte da ideologia que se depreende da ação do poder oficial quanto, em particular, da insensibilidade social que marca a visão de uma certa autodenominada elite.

Enquanto pilhas de lixo se acumulavam nas ruas e a mídia corporativa insistia em divulgar a versão oficial de que se tratava de uma greve "de grupos de garis", estes eram humilhados e agredidos por seus patrões, nas ruas, nas redes sociais, além de espancados pela polícia por ousarem valer-se do direito constitucional à manifestação pública - num tipo de reação oficial que se torna perigosamente rotineira no país.



Coesão e humilhação
Profissionais responsáveis por uma atividade cansativa, insalubre e exercida em condições estafantes, os garis entraram em greve em protesto pelo salário de fome que recebem (em torno de R$800), pleiteando um aumento para R$1.277. A Prefeitura ofereceu humilhantes R$77 de aumento, propagandeando, de forma malandra, que com o adicional de salubridade seriam alcançados R$1.200.

Foi o suficiente para que um jornalista com salário de cinco dígitos e gosto pela provocação barata declarasse, nas redes sociais, considerar um valor alto, no que foi apoiado por uma manada disposta a agredir os garis, humilhando-os por sua posição social e atividade, comparando-os a animais e tripudiando sobre seu alegado analfabetismo (não obstante a exigência de ensino médio para o cargo).

Para completar o espetáculo dantesco, com o fim da greve anunciado unilateralmente, escoltas acompanharam hoje os garis que quiseram voltar ao trabalho – para garantir-lhes proteção contra piquetes ou, pergunta a professora Ivana Bentes (UFRJ), para coagi-los a trabalhar (mais)?




Dê um rolê
A reação à greve dos garis é o terceiro de uma série de eventos ocorridos no país nas últimas semanas, sem aparente conexão entre si, a provocar comoção pública e evidenciar antagonismos e ódios classistas que põem em xeque o amálgama da nação una e pacífica, esse mito que a realidade seguidamente desmente mas que tantos ainda teimam em cultuar.

O primeiro deles foi a reação histérica de setores da sociedade aos chamados rolezinhos, a qual evidenciou que, à revelia da Constituição de 1988, vigora no país um verdadeiro apartheid, concretizado na recusa da alta classe média e dos mais endinheirados em sequer conviver, no mesmo espaço de lazer, com cidadãos pertencentes aos estratos sociais menos afortunados economicamente.




Ordenamento classista
A recusa deriva de um ordenamento social classista, impregnado de racismo, o mesmo que determina a distinção entre elevador social e de serviço ou que a família jante na copa e a criadagem coma as sobras na cozinha. Segundo essa lógica, patrões e serviçais diferem na origem e na essência – ontologicamente, portanto -, devendo, em decorrência, ser submetidos a critérios axiológicos distintos. Autoritarismo e subalternidade são os elementos definidores de tal relação, inclusive e para além de seus limites trabalhistas, os quais quanto mais opacos e indistintos mais agravam – ao mesmo tempo que menos evidenciam - a assimetria inerente a tal relação.

O rolezinho borrou tais limites. E, por isso mesmo, gerou uma histérica reação por parte de certos setores médios que emulam o ideário valorativo da elite capitalista (mesmo que esta, por sua vez, os submeta e explore). Com os porretes do Estado uma vez mais a serviço de interesses privados, e a mesma novilíngua que concebe manifestantes como vândalos transformando rolezinhos em arrastões, seus protagonistas foram expulsos dos templos do consumo – e com eles os demais jovens de aparência pobre e pele escura, agora assumidamente persona non grata nos shopping centers paulistas.



Pelourinho reloaded
O segundo evento a provocar comoção e mal-estar, mesmo quando ainda não se sabia tratar do início de uma série, foi o registro de um adolescente, nu e com o corpo repleto de hematomas, atado a um poste através de uma trava de bicicleta presa a seu pescoço. Ele furtara algo para comer, despertando a fúria de homens de passado certamente ilibado e índole pacífica, cuja ação redentora aligeirou os vagarosos trâmites de nossa Justiça. Ah, a cordialidade dos brasileiros!

Entretanto, o mal-estar causado pela imagem não foi de todo atribuído à sua própria simbologia social presente, mas, como vários analistas assinalaram, ao fato de remeter à iconografia da escravidão: mais especificamente, à terrível alusão a um negro em um tronco. Outros observadores enxergaram na brutal desumanidade física e psicológica imposta ao rapaz um reflexo do tratamento dispensado pelos nazistas a suas vitimas.



Aqui e agora
Sem diminuir a efetividade de tais paralelismos, parece-me essencial assinalar que, se por um lado ela intensifica o mal-estar ao associar a imagem a um regime de racismo institucionalizado do qual o Brasil foi, vergonhosamente, o ultimo país do mundo a se livrar; por outro, ao qualificá-la como elemento de permanência do passado, seja o oitocentismo escravocrata ou os conturbados anos 30 na Europa, ela circunscreve a violência retratada ao âmbito do anacronismo, o que não deixa de, numa estratégia psicológica escapista, ser uma forma de projetá-la para fora do violentíssimo contexto presente em que foi produzida e, assim, ainda que involuntariamente, matizá-la.

Pois ainda que o paralelo com a escravidão e o nazismo possa se mostrar procedente, o sentido profundo da tragédia do rapaz preso ao poste é que ela não pertence, a rigor, nem ao nosso passado escravocrata nem ao holocausto nazista – ainda que carregue os genes de um e talvez reverbere o outro -, mas à mais atual e presente realidade contemporânea.

Uma análise condizente do fenômeno não pode se furtar a examinar esse dado essencial: com o agravante de ter sido praticado reiteradas vezes desde então, o ato ignominioso de espancar e atar pequenos infratores a postes ocorre em nosso tempo, aqui e agora, como uma explosão de raiva coletiva de cidadãos do terceiro milênio, quase sete décadas após a Declaração de Universal de Direitos Humanos e em um país governado por forças de origem trabalhista que ainda se dizem de centro-esquerda. Gostemos ou não, esses são os fatos.



Cala-a-boca já morreu
Há de se atentar para o paradoxo de que tamanha violência simbólica – ou nem tanto - contra os que ocupam as franjas do sistema econômico se dê após mais de uma década que as estatísticas recomendariam caracterizar como de inclusão social massiva, inclusão esta que teria beneficiado justamente os que agora querem reivindicar e são brutalmente calados. Na outra ponta, seria omissão deixar de assinalar que tal furor repressivo se dá em um momento no qual o país está prestes a votar uma legislação draconiana contra toda e qualquer forma de manifestação pública, no que seria um retrocesso imensurável para nossa ainda incipiente democracia.

A reação à greve dos garis, o mal-estar ante os rolezinhos e a prática de linchar, despir e dependurar pequenos infratores são, cada um, atos plenos de simbologia, altamente reveladores das relações sociais no Brasil neste momento. Juntos e ocorridos em sequência, trazem à tona ódios classistas que camadas de patrimonialismo e repressão periférica trataram, por décadas, de manter suprimidos, enquanto moldavam em sangue a máscara de aberto sorriso da cordialidade brasileira, essa esfinge.


(Foto de autoria de Djalma Oliveira retirada daqui)