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domingo, 27 de julho de 2014

Os sem-candidato

As eleições presidenciais deste ano apresentam uma peculiaridade que suscita preocupações: nunca, no período pós-ditadura, um número tão grande de eleitores vê-se desprovido de candidaturas que atendam às suas prioridades políticas.

Embora tal fenômeno seja mais perceptível entre parcelas à esquerda – desde ex-comunistas e brizolistas, passando por adversários históricos do neoliberalismo e por desencantados com o "novo PT" -, ele está longe de se restringir a tais estratos, incorporando desde tecnocratas e administradores com perfil mais conservador até pessoas sem coloração política, mas que têm, em comum, a ânsia por uma maior clareza de prioridades e planificação efetiva na administração do Estado, a médio e longo prazos.

Como demonstram as pesquisas, soma-se a esse grupo um volumoso contingente de jovens entre 16 e 22 anos, que se sentem atraídos à política, mas não se identificam nem com os partidos mais conservadores nem com a autointitulada esquerda capitaneada pelo PT, a qual assomou ao poder quando ainda eram crianças e tende a lhes parecer parte integrante do establishment.



Carência de planejamento
Para além da diferentes visões de mundo e da orientação que cada grupo gostaria que fosse dada às principais políticas públicas, os une a exasperação com o eterno improviso, a postura meramente reativa que tem caracterizado as políticas federais desde a volta da democracia, seguida da convicção de que se faz necessário, para o próprio avanço institucional desta, que ao menos os setores prioritários – Saúde, Educação, Segurança, Economia, Transportes – passem a ser objeto de políticas e metas predeterminadas, para além do imediatismo estatístico e dos resultados forjados para efeitos eleitorais.

Embora, como já sugerido, a insatisfação reprimida que gerou tal demanda – explicitada nas Jornadas de Junho – seja da responsabilidade de todas as forças políticas que se revezaram no poder ao menos desde a redemocratização, ela é particularmente aguda no que se refere ao PT, já que a aliança comandada pelo partido, que se elegeu prometendo grandes mudanças, está prestes a completar 12 anos no comando do país, porém sem efetivar transformações estruturais em nenhuma dessas áreas, quanto mais planejadas a médio e longo prazos.

Ao contrário: a hesitação (para regulamentar a atividade midiática, por exemplo), os avanços e recuos (como na tentativa, logo abandonada, de reduzir os juros a níveis civilizados) e a sensação de improviso e de imediatismo eleitoral têm dado o tom das administrações Lula e Dilma, que têm o mérito de se diferenciar das anteriores por priorizarem o social – notadamente o combate à pobreza -, mas mantendo intacto o lucro dos situados no topo da pirâmide e sem reestruturar efetivamente as áreas sociais sob alçada do Estado.



O caso da Saúde
Tomemos o exemplo da Saúde, cuja profunda crise é admitida até por José Gomes Temporão, ministro da pasta durante todo o segundo governo Lula: a prometida reforma e expansão do SUS, de forma a torná-lo um sistema verdadeiramente universal de saúde pública de qualidade, foi deixada de lado como projeto, substituído pela adoção do Mais Médicos. Este programa tem o mérito de levar atendimento básico a regiões historicamente desassistidas, mas está longe de configurar um avanço tanto na estrutura laboratorial e hospitalar quanto no tratamento sistêmico e avançado de patologias de média e alta gravidades (sem deixar de frisar que se vale de condições empregatícias sui generis, que clamam pela ação do Ministério Público do Trabalho, se este tivesse independência e coragem para tal).

Para completar, concomitantemente à implementação do Mais Médicos, teve lugar, no interior do sistema público de saúde, uma questionável reformulação de prioridades e de horários de atuação de profissionais, além de um claro retrocesso em áreas que o Brasil vinha tendo um desempenho acima da média - como o combate à AIDS ou o fornecimento contínuo e gratuito de medicamentos de primeira necessidade. Hoje, ao contrário do resto do mundo, os casos de AIDS crescem no Brasil e abundam relatos de falta de medicamentos, inclusive daqueles usados para dores crônicas em pacientes com câncer.

Concomitante a tais problemas, há a negligência governamental com os planos de saúde para os quais são impelidos setores que vão da baixa classe média pra cima, temerosos do festival de horrores do SUS, com suas macas em corredores e óbitos à porta de hospitais. Tornaram-se rotina, nos últimos anos, os aumentos abusivos, muito acima da inflação, que levam ao desespero a clientela de aposentados cujos rendimentos são reajustados a conta-gotas. Também tornou-se rotina, entre conveniados, a necessidade de se recorrer à Justiça para conseguir a autorização para cada exame ou procedimento mais caro que o paciente vier a necessitar. E são frequentes as denúncias de que as administradoras dos planos retaliam os clientes que as processam judicialmente. Tudo isso sob a vista grossa do Ministério da Saúde de um governo dito de centro-esquerda e trabalhista.



Mais do mesmo
Esse processo ao qual se assiste no campo da Saúde – da abdicação de um projeto verdadeiramente democratizante e reestruturador em prol de medidas de baixo custo, porém de impacto eleitoral – se repete, em formatos diferentes mas dinâmica similar, em todas as outras áreas sociais ditas prioritárias. No ensino superior, por exemplo,, ao aumento exponencial do número de universitários - alardeado como intrinsecamente positivo - não corresponde um aumento minimamente proporcional de professores, laboratórios e bibliotecas, num modelo que, a pretexto de expandir o ensino superior, o está, na prática, sucateando. Colabora para tanto a defasagem salarial dos professores universitários, tratados a pão e água pelo governo Dilma desde que ousaram se valer do direito constitucional à greve para obrigar a mandatária a dialogar. Em vão.

Ao eleitor que hoje desaprova esse estado de coisas na Saúde e na Educação não é oferecida alternativa pelos candidatos oposicionistas. E é isso que torna as eleições em curso particularmente frustrantes: nenhum dos três candidatos hoje competitivos – Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos – apresenta, em seus respectivos programas de governo, um planejamento efetivo para Saúde, Educação e demais áreas sociais que se diferencie, em linhas gerais, das práticas governamentais correntes para tais setores. É inevitável a sensação de mais do mesmo.



Sob o jugo do neoliberalismo
Mas a área que mais evidencia a ausência de propostas alternativas de governo é a economia. Enquanto Aécio encarna o retorno ao neoliberalismo mais estreito, cujos efeitos sociais devastadores sentiram na carne os brasileiros que viveram a presidência Fernando Henrique, os discursos da dupla Eduardo Campos e Marina Silva parecem antes apontar para o retorno à ortodoxia de manual do que oferecer uma alternativa ao "neoliberalismo arrependido" praticado pelos governos petistas. Estes podem até eventualmente ter ousado expandir o investimento público, mas, ante o mínimo rugido do mercado, se apressaram a reafirmar a fidelidade ao tripé econômico neoliberal – altos superávits primários, dólar flutuante e metas de inflação - e demais badulaques herdados do Consenso de Washington os quais o PT, na oposição, sempre abominou.

O eleitor que vislumbra na atual crise mundial a oportunidade da ascensão de um modelo de gerenciamento econômico que supere a orientação neoliberal e o que ela significa de submissão estrutural da América Latina à "ordem" imperial se vê, uma vez mais, em estado de orfandade, em um cenário eleitoral intrinsecamente conservador.

E isso é particularmente grave não apenas pelos efeitos em si de tais orientações macroeconômicas – e pelas questões de submissão colonialista mencionadas - , mas porque delas derivam a forma como serão tratados temas de suma importância neste momento do país, com destaque para aqueles derivados da relação entre modelo de desenvolvimento, direitos humanos e políticas públicas.





Retrocesso democrático
Com efeito, o (primeiro?) governo Dilma chega ao fim com um grave déficit na área dos Direitos Humanos, derivado de um modelo de desenvolvimento no pior estilo "Brasil Grande", arcaico e impositivo, que legou ao país um genocida indígena extemporâneo e forneceu o combustível que alimentou os protestos de Junho. E a truculência com a qual os protestos foram tratados pelo governo federal desde então, sob o patrocínio do ministério da Justiça de Cardozo e o uso indiscriminado da Força Nacional e das Forças Armadas contra a população desdobra-se, hoje, numa criminalização dos moimentos sociais incompatível com a democracia e patrocinada, nos âmbitos estadual e federal, por partidos e políticos que orbitam (ou até há pouco orbitavam) tanto em torno da situação petista quanto da oposição tucana. Campos e Marina, de sua parte, têm sido pouco claros e enfáticos em condenar tal retrocesso democrático.

Inclusive e para além do que significa como retrocesso institucional, afetando a própria evolução da democracia brasileira, a soma de tal repressão com o conservadorismo atávico no trato das políticas públicas torna a um tempo mais evidente e mais intenso o viés retrógrado que hoje afeta a relação entre política e cidadania no país. Ao impedir a renovação da prática administrativa no interior do campo político institucional e a, ao mesmo tempo, cercear a plena incorporação da política pelos cidadãos, tal mecanismo revela-se o grande responsável pela manutenção estrutural de nossa democracia em termos precários e relativos.

Pois a concepção da política como arena de choques, alianças e inter-relações entre micropoderes, forjada por Foucault, implica não somente na expansão de seu locus para além dos limites da política institucional, mas na atomização e inter-relação de seus próprios entes (e temas) no interior desta. Foi no bojo de tal processo que a dicotomias básicas do cardápio político-eleitoral – destacadamente comunismo x capitalismo, ou marxismo x liberalismo – vieram a se somar, ao longo dos anos 70, na forma de partidos ou organizações, as plataformas ecológicas ou feministas, entre outras de menor destaque.



Políticas arcaicas
De tal cadinho de cultura deriva a expansão da plataforma política para além dos temas sociais clássicos mencionados parágrafos acima, com a incorporação de demandas conectadas à sexualidade, ao corpo, ao comportamento, à apreensão estético-biológica do social em sua mediação com as Leis e a Política. Eis porque, enquanto boa parte da arena pública do mundo civilizado debate temas como isonomia de direitos ente heterossexuais e homossexuais, legalização da maconha ou descriminalização do aborto, entre tantos outros, no Brasil tal agenda vem sendo sistematicamente travada por todos os partidos e seus candidatos, temerosos do poder do voto religioso.

Que isso ocorra com a maioria dos candidatos competitivos nas eleições 2014 é algo lastimável, mas até certo ponto compreensível. Que não haja sequer uma candidatura competitiva capaz de ousar um programa que inove quanto aos temas clássicos e, ao mesmo tempo, dê a devida atenção à biopolítica, é revelador de nosso atraso institucional e do quanto a democracia pós-ditadura tem falhado em fazer avançar a prática política no pais.

Tudo somado, no pleito atual os eleitores parecem condenados a optar entre a manutenção do poder pelo poder nas mãos petistas, sua outorga à oposição tucana elitista e de proverbial insensibilidade social, ou ao museu de grandes novidades da dupla Campos/Marina, que até anteontem compartilhavam o poder de turno. É isso ou o voto nulo de protesto.




(Imagem retirada daqui)

domingo, 22 de junho de 2014

Copa vibrante oculta graves violações e ameaças

Enquanto as atenções da maioria da população se concentram numa Copa do Mundo repleta de emoções, com muitos gols e resultados surpreendentes, tornam-se cada vez mais graves os relatos acerca da repressão oficial aos protestos públicos no país, direito constitucional que ora se encontra sob constante ameaça.

Cada dia que passa recebemos notícias mais graves da suspensão dos direitos civis no Brasil. Desde a semana da abertura da Copa, quase todas as manifestações públicas programadas foram dissolvidas preventivamente, ou seja, foram impedidas por força policial de se concentrarem, numa flagrante violação da Constituição. Centenas de ativistas em todo o território nacional estão sendo regularmente visitados de maneira intimidatória pela polícia que também os está intimando a depor coercitivamente durante datas de manifestação com o intuito de privá-los de um direito que deveria ser sagrado em qualquer democracia. Até a Polícia Federal está fazendo uso da infame Lei de Segurança Nacional, um dos mais abjetos resquícios da ditadura militar. Tudo isso para que um torneio de futebol ocorra "sem transtornos".

O relato acima, de autoria do professor da USP Pablo Ortellado, divulgado em três idiomas, sintetiza algumas das principais ocorrências envolvendo os protestos públicos no país, quase diários e no mais das vezes alvo de baixíssima e tendenciosa atenção midiática. Com táticas e padrão de brutalidade policial comuns a estados e no âmbito federal, fica claro tratar-se de operações concatenadas entre os entre os governos estaduais e central, operação essa que não distingue bandeiras partidárias em seu desrespeito a pressupostos básicos dos direitos humanos e de cidadania.

"Todos os níveis de governo, os meios de comunicação de massa, o judiciário e a esquerda aliada ao governo federal estão se calando contra as gravíssimas violações aos direitos civis", prossegue Ortellado. Cabe observar que o último grupo, governistas cujo esquerdismo mostra-se cada vez mais pra lá de duvidoso, não só tem ignorado o grau de violência do Estado contra seus concidadãos, mas, como se observa com facilidade nos blogs ditos progressistas, embarcado em um ufanismo tão despropositado quanto nocivo, celebrando em urros o alegado sucesso da Copa como uma vitória petista contra a oposição e a mídia (como se esta não fosse parceira comercial privilegiada e principal elemento difusor do torneio e do ufanismo que lhe é inerente).

O resultado é que, uma vez mais, a redução de questões nacionais ao binarismo "governismo petista versus oposição midiática" cobra um alto preço. Se antes as críticas às obras atrasadas e ao superfaturamento eram pelo primeiro à última atribuídas, agora é como se o fato de os jogos se realizarem - e agradarem - anulasse a gravidade do descumprimento do calendário das obras, a não-entrega de obras vitais para a mobilidade urbana e os fortes indícios de corrupção associados à preparação do torneio.

Não anulam: o superfaturamento, o atraso e a não-entrega de obras para a Copa são um fato consumado, e não uma invenção da mídia que o eventual sucesso do torneio possa mitigar. E é simples constatá-los: basta consultar a lista com os prazos e preços originais e compará-la com o que está pronto e a que custo, em plena Copa. Há casos de estádios que custaram quatro vezes mais do que o inicialmente orçado, num superfaturamento que só a complacência para com a corrupção explica.

Mas o torneio trouxe danos sociais ainda mais graves, associados à dimensão e à brutalidade dos processos de remoção forçada de populações, imposto pela organização da Copa: "Oficialmente, 50 mil famílias foram removidas de suas residências para que a Copa acontecesse por aqui -- estamos falando de 200 mil pessoas, um em cada mil brasileiros. Boa parte foi mandada para longe -- alguns não foram indenizados e a maioria contesta o valor da indenização. Por outro lado, a FIFA e seus parceiros comerciais receberam mais de um bilhão de reais de isenção tributária, valor que permitiria aumentar em 20 mil reais a indenização para cada uma das famílias "oficialmente" removidas", compara Ortellado.

Além disso, devido à truculência implacável na repressão às manifestações, todos esses problemas vêm acompanhados de uma ameaça ainda maior: como o diário britânico The Guardian assinalou, a realização da Copa do Mundo pode deixar como legado um retrocesso estrutural na democracia brasileira, particularmente no que concerne ao direito de protesto público. Seria um atraso inaceitável para uma democracia em afirmação, que só agora começa a enfrentar frontalmente os fantasmas do período ditatorial.

Ante tá quadro, como assinala Ortellado, "Um pequeno grupo de vozes dissidentes que inclui ativistas, movimentos sociais e organizações de direitos humanos segue isolado e falando para as paredes enquanto a direita, a maior parte da esquerda e quase todas as instituições democráticas fingem que nada acontece."

Tal silêncio conivente representa um erro perigoso, a gestação de um ovo de serpente. Pois o que está em jogo não é apenas mais um round da peleja PT x PSDB, ou mesmo só mais um episódio do enfrentamento dos que querem mudanças contra as forças conservadoras - neste caso, como em tantos outros, unidas -, mas o presente e o futuro do direito constitucional das pessoas saírem às ruas e se manifestar. Omitir-se, neste momento, equivale a grave omissão; fazê-lo por interesses partidários, a mesquinhez, fata de senso cívico e descomprometimento com o futuro da democracia no Brasil.





domingo, 8 de junho de 2014

PT e a crise na esquerda

Por paradoxal que possa aparecer, após três mandatos presidenciais petistas a esquerda vive um momento de crise: estamos às vésperas de uma eleição em que os candidatos com chance competem entre si para ver quem agrada mais ao mercado.

Em tal cenário, as pautas reformistas, o pendor (auto)crítico e a capacidade de sonhar deram lugar a um pragmatismo pretensamente "aideológico", no qual temas como privatização, alianças políticas de interesse e fórmulas de controle da macroeconomia - o chamado "tripé", de gênese neoliberal – tornam-se itens comuns à pauta de todas as forças políticas em conflito.



Mudar para conservar
O pragmatismo petista que há 12 anos soava como uma maneira inteligente de levar a esquerda ao poder perpetuou-se como mais um dentre tantos "acordos por cima" de nossa história política, com suas práticas conciliatórias que jamais foram revistas em prol sequer de um reformismo moderado. Lampedusa nos trópicos.

Do cavalo de Troia não desceram sorrateiros ativistas e a esperteza foi transmutada em rendição, grafada na Carta ao Povo Brasileiro, declaração de princípios que afinal mostrou não se tratar de despiste, mas, assim como os acordos com grupos religiosos que ferem a laicidade constitucional do Estado, de compromisso inquebrantável (já a promessa de não privatizar o Pré-Sal, publicamente assumida por Dilma em 2010, esta sim, revelou-se engodo eleitoreiro).

Pior: o preço cobrado pelo pragmatismo e pelo desprezo à ideologia que se tornaram características distintivas do petismo neste século mostra-se, enfim, altíssimo, do qual a ausência ou invisibilidade de uma plataforma de esquerda no atual cenário eleitoral é apenas uma mostra.



Régua alheia
O que os militantes que postam gráficos contrapondo o péssimo governo FHC ao que consideram os maravilhosos governos Lula e Dila não entendem é que a grande tragédia do PT não está relacionada a sua eficácia ou não no plano administrativo, mas ao fato de ter sucumbido ao quadro valorativo do status quo conservador; ao medir-se a si mesmo – e permitir que outros assim o meçam - pela régua do mercado; ao se acovardar, recusando-se, durante longos 12 anos, ao debate ideológico e ao desfralde das bandeiras históricas do partido e da esquerda.

Enquanto, insuflado pelo fanatismo cego da militância, o PT se contentava com a meta medíocre de ser melhor que FHC nos quesitos econômicos, desperdiçava, com o retorno à privatização e ao fiscalismo, a oportunidade de colocar um prego no caixão do neoliberalismo na América Latina, trazendo uma alternativa original à questão, como por um fugaz momento o governo Lula pareceu fazer.

E esse retrocesso não foi imposto de fora para dentro, mas fruto de uma decisão deliberada tomada no início do governo Dilma, com vistas a ampliação da hegemonia eleitoral, com a incorporação de setores conservadores antes refratários ao PT. Vem daí a cômoda e para alguns inexplicável determinação não só de não regular a mídia, mas de mantê-la regiamente regada com as verbas da Secom.



O menos pior dos iguais?
A aproximação estratégica com o conservadorismo, somado ao comodismo da renúncia de inovar e de promover mudanças estruturais, reduz drasticamente o diferencial do petismo para com as demais forças em competição, com as diferenças reduzindo-se ao plano quantitativo.

Argumenta-se que o petismo se distinguiria por ter promovido a ascensão de setores pobres e miseráveis, via programas de seguridade social como Bolsa-Família, e, através da ampliação do acesso ao crédito num contexto de salário mínimo indexado, ter patrocinado a emergência de uma classe média com poder de compra.

Para além dos questionamentos objetivos – como os que dizem respeito aos baixos valores que determinam a passagem de uma classe social a outra - parece não restar dúvidas de que o combate a miséria e à pobreza constitui o ponto mais meritório da administração petista e uma questão nacional prioritária.

Talvez nada corrobore mais tal afirmação do que a própria postura dos adversários de Dilma na corrida presidencial em relação ao tema, com tanto Aécio quanto Eduardo Campos se comprometendo com a manutenção de tal combate – e, ainda que a sinceridade de tais intenções possa e deva ser posta em questão, a erradicação da miséria e da pobreza não pode resumir-se a trunfo eleitoral de um partido (embora a contribuição deste para a questão deva ser reconhecida inclusive nas urnas, vis-à-vis demais quesitos relevantes).



Fim de ciclo
Já quanto à política econômica, ora esgota-se o modelo petista, intrinsecamente pró-capitalista, de expandir a economia via acréscimo do consumo, para assim – e com o auxílio dos mencionados programas de renda mínima – incorporar à classe média parte da base da pirâmide. E esgota-se por três razões:

  1. O acesso ao consumo se mostra uma forma apenas parcial de promover tal redesenho social, já que as demais demandas imprescindíveis à plena cidadania permaneceriam inacessíveis ou precárias para tais estratos socioeconômicos. Da insatisfação daí gerada derivariam, segundo a maioria dos cientistas sociais, os protestos deflagrados a partir de junho;

  1. Como ocorre neste exato momento, a ascensão via consumo torna-se lenta ou estanca-se à medida que cresce o endividamento das famílias ou que, satisfeitas necessidades básicas de consumo (eletrodomésticos, carro), este passa a ser mais seletivo e ocasional, inclusive devido ao amadurecimento no modo de lidar com os encargos de novos endividamentos (juros, taxas, impossibilidade de poupar);

  1. As grave assimetrias sociais do pais sempre se expressaram de forma mais aguda na base e no topo da pirâmide, cume onde uma parcela ínfima da população detém mais da metade da riqueza do país. O modelo petista concentrou-se apenas na base, não só mantendo intactos, mas aumentando os ganhos dos ricos e milionários, sem taxar fortunas ou adotar qualquer medida de compensação pelos lucros pornográficos de bancos, corporações e teles (cujas multas pelo péssimo e caro serviço oferecido têm sido sistematicamente perdoadas pelo governo).



Bolhas e turbas
Tudo somado, o legado é que as eleições 2014, como já dito, não apresentam nenhum candidato competitivo realmente de esquerda, ou seja, que se oponha frontalmente ao capitalismo de mercado e à ideologia neoliberal de forma ora mais, ora menos explícita orienta as atuais políticas econômicas. Tal papel fora desempenhado não só pelo próprio Lula, mas eleições anteriores à sua transformação em Lulinha Paz e Amor (2002), mas, com mais propriedade, pelo saudoso Leonel Brizola, que prometia "instaurar uma auditoria na Rede Globo na primeira manhã do primeiro dia do meu mandato".

Mas isso são águas passadas. Na atual gestão petista, a autocrítica pública foi simplesmente abandonada, substituída pelo que chamo de "síndrome do coitadismo", cujos sintomas são uma tendência a atribuir à mídia ou à Justiça o ônus por todo e qualquer revés sofrido pelo partido, mesmo quando o comportamento deste contraria os compromissos eleitorais, a ética política ou mesmo as leis. Açulado pela atmosfera de turba das redes sociais, com sua recusa intrínseca ao convívio com o pensamento dissidente ou contrário, o grau de negação e de autoilusão petista atingiu nos últimos meses proporções tamanhas que talvez só a derrota nas eleições presidenciais tenha o poder de chamá-los à realidade e gerar efetivamente uma autocrítica e uma redefinição programática para além da busca do poder pelo poder.



Votos da esquerda
Agora, que as intenções de voto fugazmente conquistadas junto ao eleitorado conservador bateram asas e voaram – à mínima constituição de uma candidatura em seu próprio campo, como este blog cansou de alertar que aconteceria – busca-se desesperadamente o voto dos setores dissidentes da esquerda, vilipendiados durante todo o atual governo, para os quais agora se acena com a regularização da mídia negligenciada durante 12 anos e com políticas participativas que nem o susto com as Jornadas de junho foi capaz de efetivar.

No entanto, não há razões objetivas para que se acredite que o petismo, em sua aliança com o conservadorismo do PMDB, Maluf e companhia, vá efetivamente fazer uma coisa nem outra, nem que tudo não passe de promessa eleitoreira a ser posta de lado uma vez no poder, como Dilma fez com o compromisso de não privatizar o Pré-Sal, a prioridade à educação e a banda larga boa e barata para todos, entre tantos outras promessas da campanha de quatro anos atrás. Por que desta vez seria diferente?


(imagem retirada daqui)

sexta-feira, 30 de maio de 2014

A guerra de marketing nas eleições 2014

Os comerciais que, enquanto a Justiça Eleitoral permitiu, o PT exibiu durante o mês de maio inauguram, de forma efetiva, a guerra do marketing eleitoral que deve caracterizar uma campanha das mais acirradas. Televisionados em um momento de crise na candidatura governista, cujo favoritismo vê-se ameaçado pela diminuição da vantagem de Dilma ante os demais candidatos, as peças publicitárias apostam na estratégia de difundir o medo do retrocesso através da contraposição entre um presente idílico, de comercial de margarina, e um passado de penúria, com a era tucana representada com alusões a um clássico filme de vampiros do expressionismo alemão.

O tom dos comerciais diverge portanto, da estratégia característica do marketing petista desde a corrida presidencial de 2002, baseada na premissa, atestada em pesquisas, de que o brasileiro não gosta de campanhas agressivas (como eventualmente soavam, até então, as do próprio PT ). "A esperança venceu o medo" e "Lulinha Paz e Amor" são, mais do que truísmos, achados publicitários a resumirem tal correção de rumo - a qual resultaria, seguidas vezes, vitoriosa.


Reação dos opositores
A reação dos candidatos opositores foi imediata: Eduardo Campos (PSB/PE) afirmou que "a ideia de incutir o medo é uma proposta atrasada" e que está preparado para o "jogo pesado" da campanha, do qual a agressividade da campanha petista seria um indício.

Por sua vez, Aécio Neves (PSDB/MG) subiu o tom, afirmando ser "triste ver um partido que não se envergonha de assustar e ameaçar a população para tentar se manter no poder. Esse comercial é o retrato do que o PT se transformou e o espelho do fracasso de um governo que, após 12 anos de mandato, só tem a oferecer medo e insegurança porque perdeu a capacidade de gerar confiança e esperança".



A cobertura da mídia
Já o tom de predominante surpresa com que a guinada do marketing petista foi recebida pela mídia tornou ainda mais evidente que, a despeito do papel primordial do marketing político nas eleições recentes, e mesmo com o país na iminência de uma eleição presidencial que promete ser acirrada, o jornalismo político tem prestado pouca atenção a quem são os marqueteiros dos principais candidatos e quais suas estratégias e táticas.

Trata-se de grave omissão: afigura-se essencial ao aprimoramento da democracia e à elevação do nível dos embates políticos, nos dias atuais, não apenas a informação acerca de tal tema, mas o aprofundamento das análises a ele correlatas, além da denúncia tanto dos eventuais falseamentos no âmbito do conteúdo discursivo das campanhas quanto do teor de inautenticidade inerente à primazia do marketing no campo político.



Papel primordial
Pois há tempos o marketing político assumiu o primeiro plano nas campanhas eleitorais, tornando-se um ramo altamente rentável das Comunicações e influenciando decisivamente no quadro político. A transformação de políticos em produtos vendáveis, se dinamiza a economia e renova o repertório técnico e semiológico da publicidade, não se dá, por outro lado, sem danosos efeitos colaterais, talvez o maior deles o agravamento da escassez de programas políticos orientados por um norte ideológico. Em uma era marcada pela crise das ideologias, a programática dá lugar ao pragmático.

Assim, contemporâneo da globalização econômica, o marketing político praticado nas últimas décadas é transnacional: campanhas bem-sucedidas em um contexto ou país são copiadas e remodeladas para reaproveitamento em outros, muitas vezes em contextos muito diferentes entre si, o que vem a corroborar a primazia dos aspectos cosméticos sobre o conteúdo programático no atual modelo político-publicitário.



Estudos de caso
Devido a seu sucesso, tornaram-se case studies do marketing político as campanhas presidenciais de Bill Clinton em 1992, de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 e de Barack Obama em 2008. Elas têm em comum o êxito de conseguir fixar nos eleitores uma imagem, forte e positiva, de cada um dos candidatos, imagem esta que se provou capaz de tornar atraente candidatos relativamente pouco conhecidos (no caso dos norte-americanos) ou de neutralizar, ao menos temporariamente, aspectos negativos anteriormente "colados" aos postulantes.

No caso de Clinton, tal imagem pode ser reduzida na frase de efeito "é a economia, estúpido!", que o estrategista da campanha James Carville imprimiu em letras garrafais, emoldurou e fez pendurar no ponto mais visível do principal escritório eleitoral do candidato do Arkansas. Ela, a um tempo, indicava o foco da campanha e colocava em segundo plano questões como experiência e projeção nacional, nas quais Clinton tenderia a levar a pior ante George Bush, pai. A frase aludia a uma lógica prioritária que viria a se confirmar decisiva: para os eleitores, seus próprios bolsos vazios eram, afinal, o principal problema a ser revertido.



Lula e Obama
Já em relação a Lula, o desafio era ainda maior, por implicar na reformulação de imagem de uma figura pública nacionalmente conhecida e que por décadas primara por um discurso um tanto áspero e por uma combatividade quase agressiva aos olhos de determinadas parcelas do eleitorado. Ao aparar sua antes desgrenhada barba, vesti-lo em ternos bem cortados e modular seu tom de voz e seu discurso, agora conciliador, o publicitário Duda Mendonça forjou o que o próprio candidato petista autodenominou "Lulinha Paz e Amor": uma imagem que não só o tornou palatável a parcelas do eleitorado, mas foi por ele incorporada - com muito sucesso, reconheça-se - desde então.

Quanto a Obama, a exploração inteligente de dois fatores seria decisiva: o primeiro, a questão racial, com os signos de novidade e superação de preconceitos associados à eleição do primeiro presidente negro; o segundo, a otimização do recurso à internet, tanto para fins arrecadatórios quanto propriamente publicitários, neste caso particularmente em relação aos setores jovens. A campanha tornou-se icônica, assim, por somar a uma imagem facilmente identificável, associada a grandes mudanças – resumida no dístico "Yes, We Can" –, uma utilização até então inédita, na política mainstream, de recursos interativos inerentes aos aplicativos e redes sociais da web 2.0 – aí incluída uma arrecadação de mais de U$500 milhões online. A estratégia, concebida pelo nerd Ben Self, revelou-se inovadora e de grande apelo popular, e vem sendo copiada mundo afora desde então, embora sem o mesmo sucesso.



Avaliação administrativa
Como fica evidente, a imagem que tais campanhas afixaram, em cada um dos candidatos, para um público amplo e heterogêneo, era una e facilmente identificável, como pede a era das informações digitais: Clinton, o redentor da economia; Lula, o conciliador; Obama, a novidade. A contrapartida desse tipo de marketing político é que ele dificulta, ou mesmo se esforça por dispensar, a elaboração de um discurso político elaborado e programático acerca do que o candidato virá a fazer, de que modo e com quais recursos – o que, ao final das contas, será o que importa e o que afetará as vida dos cidadãos.

Ainda que, nos três casos, o marketing político continuasse ativo mesmo após os eleitos assumirem as respectivas presidências, sua eficácia ante o público a partir daí revelar-se-ia consideravelmente menor. Afinal, não se tratava mais de uma aposta idealizada em um candidato, sem possibilidade de checagem prévia, e sim da concretude da vida sob os efeitos das decisões administrativas que tais eleitos tomassem. Embora todos tenham conseguido se reeleger, a diferença entre os índices de aprovação de cada um ao deixarem a presidência - um quesito no qual o brasileiro se destaca - mostra-se um exemplo eloquente a corroborar tal diferença.



Novo tom petista
Voltando ao cenário das atuais eleições presidenciais em nosso país, o maior desafio para o marketing político, neste momento e em relação às eleições presidenciais, talvez seja o da candidatura Dilma Rousseff (PT/RS), e não só porque, após quatro anos no poder, tanto suas qualidades quanto suas deficiências já são por demais conhecidas, mas por representar a continuidade do poder nas mãos de uma determinada força politica por um longo período de tempo - 11 anos e 9 meses, na data da eleição -, o que talvez tenda a gerar uma certa "fadiga de material". Para piorar ainda mais as coisas, seu governo atravessa o pior momento, em termos de aprovação popular.

Ainda é cedo para saber se a mudança de tom verificada nos comerciais da última quarta-feira veio para ficar ou não passou de um experimento. Em última análise, o que vai decidir isso é a reação qualitativa aos comerciais, auferida por pesquisas ora em processamento. Mesmo se pontual, ela representa uma mudança concreta de atitude por parte do marketing petista, que sai do tom apaziguador costumeiro para uma atitude desafiadora, de confronto. Decide correr o risco de soar agressivo e negativo junto ao eleitorado por ter a convicção de que, numa comparação item a item, sai-se indubitavelmente melhor do que o PSDB de FHC.

Resta saber em que medida a comparação com o passado tucano de 12 anos atrás pode influenciar o voto de uma população às voltas com problemas concretos que, em boa parte, tornaram-se evidentes no decorrer dos últimos dois anos - especialmente o dos referentes aos eleitores com menos de 26 anos, que eram crianças de 14 quando a presidência de FHC acabou. Resta também constatar até que ponto as salvaguardas sociais exponencialmente ampliadas nos governos petistas – Bolsa Família à frente – têm efetivo poder de mobilização eleitoral.



O fator FHC
Seja como for, a jogada do marketing petista consiste, essencialmente, em reavivar a memória popular quanto à "herança maldita" de FHC, jogando-a no colo de Aécio. Nas três últimas eleições presidenciais, o ex-presidente foi "escondido" pelos postulantes tucanos, mas o ex-governador mineiro já deu mostras de querer reabilitá-lo, sob a alegação de que os governos petistas acabaram por adotar algumas das principais políticas que criticavam no governo que os precedeu - notadamente as privatizações e a manutenção do tripé neoliberal de controle da economia (formado por superávit primário, controle da inflação e dólar flutuante)

As respostas-padrão do marketing tucano, diversionistas, encontram-se virtualmente bloqueadas: o alegado "choque de gestão", que já não se sustentaria ante o sofrível desempenho das áreas sociais em Minas Gerais, seria cabalmente desmentido pela alusão ao show de incompetência que levou ao esgotamento das fontes de água em São Paulo. E o hábito de citar escândalos petistas – "mensalão" à frente – para pespegar no adversário o rótulo de campeão da corrupção encontraria na menção ao escândalo do cartel do metrô de São Paulo uma resposta capaz de impor de antemão um cúmplice silêncio. Que alternativas adotará o marketing peessedebista?



O potencial de Campos
Para além de mais uma rodada no Fla-Flu enter petistas e tucanos que o embate Dilma versus Aécio representa, corre por fora a candidatura de Eduardo Campos. Estritamente do ponto de vista do marketing político, ele é o candidato com maior potencial. Em primeiro lugar por não ter sobre seus ombros nem o desgaste de 12 anos em seguida na Presidência, nem a responsabilidade pelo trauma da falência social que marcou o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. Em segundo, por contar como vice com uma candidata que, sem grande estrutura de campanha, obteve vinte milhões de votos nas últimas eleições presidenciais. Em terceiro, por ter um histórico de ligação com o lulismo, mas sem estar envolvido na crise de governabilidade vivenciada por Dilma.

Somados à sua ótima aprovação no governo de Pernambuco e à mística de neto e herdeiro político de Miguel Arraes, tais quesitos permitiriam a um marqueteiro habilidoso "vendê-lo" como uma relativa novidade, particularmente a eleitores cansados do binarismo PT-PSDB e a setores jovens do eleitorado. Resta saber se sua campanha, na eventualidade de um crescimento efetivo das intenções de voto no candidato, teria condições de enfrentar o fogo mútuo com que as milionárias campanhas tucana e petista fatalmente lhe alvejariam.



Papel da mídia
Mas, para além do que o futuro nos reservar nas eleições presidenciais, seria essencial que a mídia dedicasse maior e mais rigorosa atenção à ação do marketing político na campanha, procurando explicitá-la, desvendá-la e desmistificá-la.

Sobretudo porque a omissão em relação ao que deveria ser uma cobertura crítica e desmistificadora da ação do marketing político corre com frequência o risco de degringolar para o endosso – intencional ou não – às estratégias e truques de um ou outro marqueteiro, num processo que penaliza não apenas o desejável tratamento igualitário a todos os candidatos, mas sobretudo a democracia e a cidadania como um todo.



(Imagem retirada daqui)

Publicado originalmente, com modificações pontuais, no Observatório da Imprensa.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

O enigma da favorita vaiada

Um enigma dos mais intrigantes envolve a candidatura Dilma Rousseff neste momento. As pesquisas mostram que a presidente, mesmo sofrendo acentuada queda nas intenções de voto nos últimos meses, mantém-se favorita, com folgados 37% na última enquete do Ibope, índice que a reelegeria já no primeiro turno. Não obstante tal favoritismo, ela tem sido sistematicamente vaiada a cada aparição pública, com mais agressividade em eventos ligados à Copa do Mundo ou que reúnam um público grande e heterogêneo.

O enigma da favorita vaiada desafia interpretações e instiga questionamentos. Trata-se de um fenômeno único, que não se repete nos âmbitos estadual e municipal e não afetou seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva, cujo única vaia memorável se deu em um contexto polêmico, com fortes indícios de ter sido orquestrada pela claque de um cacique político carioca.

O ex-presidente, como se sabe, foi um dos raros presidentes a deixar o segundo mandato com aprovação na casa dos 80%, rivalizando com os índices históricos obtidos pelo ex-presidente norte-americano Ronald Reagan. Recebeu do povo, até o final, calorosas manifestações de afeto a cada vez que aparecia em público. Dilma, a despeito do carisma muito menor, parecia, no início de seu mandato, ter herdado algo de tal empatia, chegando a interagir com multidões que a saudavam.



Desinteresse midiático
Mas isso foi antes das chamadas Jornadas de Junho, as súbitas e até agora insuficientemente debatidas manifestações populares que se alastraram pelo país em 2013. Embora não se tratasse de um protesto exclusivo contra o governo, foi a a partir dali que se tornaria evidente a mudança de comportamento do público nas aparições presidenciais.

Nem os cientistas políticos, nem os colunistas dos primeiros cadernos têm prestado a devida atenção ao fenômeno das vaias, sejam estas dirigidas à presidente com alto índice de aprovação (o que Dilma foi ao menos até março) ou à candidata favorita à vitória em primeiro turno. A mídia, que supostamente teria condições de investigar e checar hipóteses, ir a campo e cobrir de maneira condizente os atos públicos presidenciais, mantém-se inebriada pela inação preguiçosa que a redução de despesas explica, mas não justifica, agravada pelo hábito de buscar respostas na internet - e em nenhum outro lugar – e pela convicção de que o país só vai se interessar pelas eleições após a Copa do Mundo.



Leque de hipóteses
Este artigo se propõe a elencar algumas hipóteses acerca da enigmática contradição que envolve a favorita Dilma e as vaias. Não tem a pretensão de esgotar o assunto ou de apresentar uma conclusão – deixa esta a cargo do leitor, caso este queira em tal tarefa se engajar. Quer apenas estimular o debate.

Uma primeira hipótese interpreta as vaias à mandatária como uma decorrência tardia justamente das Jornadas de Junho, no bojo do crescimento de uma consciência cívica que, concebendo a rua como o local de excelência da manifestação da cidadania, se mostraria ciente da importância de ocupar espaços, aproveitar oportunidades e, assim, se valer das aparições públicas da presidente para protestar.

A favor dessa hipótese há o fato, já mencionado, de que foi a partir dos protestos de junho que as aparições públicas de Dilma passaram a ser sistematicamente vaiadas. Os apupos seriam mais uma manifestação do que o sociólogo Luiz Werneck Vianna identificou, em artigo recente, como "essa difusa sensação de mal-estar e esses pequenos abalos que vêm surpreendendo a rotina do cotidiano não só nos grandes centros metropolitanos". Para além da data de início das vaias, tal hipótese, no entanto, carece de elementos objetivos que a sustentem (ou a desmintam).



Demandas reprimidas
Uma segunda hipótese para as vaias presidenciais diz respeito ao modo como a administração Rousseff vem, desde seu início, lidando com demandas populares, protestos e greves. A recusa ao diálogo, agravada por táticas de boicote e enfrentamento que com fre1uência incluem o recurso à violência, tornou-se corrente no atual governo, a despeito de comandado por um partido de denominação trabalhista.

Foi assim com a greve dos professores universitários em 2012, que se alastrou por quatro meses e incluiu espancamento de manifestantes em frente ao MEC; vem sendo assim com a corrente greve da Polícia Federal – nos dois casos, com o governo Dilma contando com a condescendência cúmplice dos principais veículos de mídia, num alinhamento eventual de posições que, se confirma a índole classista, desmente o caráter intrinsecamente antipetista que o petismo militante atribui ao jornalismo corporativo.

Tal hipótese explicativa para as recepções negativas a Dilma baseia-se em elementos concretos e, malgrado o que informa acerca do comportamento de um partido dito trabalhista em uma democracia, é a favorita nas hostes petistas, por pressupor que as vaias não seriam a manifestação de um sentimento popular disseminado, mas fruto exclusivo da ação de grupos organizados, com interesses político-partidários. Esta última assertiva, no entanto, não se confirma inteiramente se observarmos com atenção como se comporta o público em eventos de maior porte. Nesses casos, mesmo na eventualidade da ação de protestos organizados, ouvem-se apupos à mancheia em meio à massa de espectadores.



Palmas ausentes?
A configuração geopolítica da base de apoio dilmista e os efeitos eleitorais dos Programas de Transferência Condicionada de Renda (PTCs) – Bolsa Família à frente – constituem o cerne da terceira explicação para a contradição ente as vaias e os índices da presidente. De acordo com esta hipótese, a má recepção a Dilma em suas aparições públicas correlaciona-se diretamente ao fato de estas priorizarem, por razões eleitorais, médias e grandes cidades, ao passo que, como o demonstram as pesquisas, os melhores índices da presidente ocorrem em cidades pequenas e em grotões. O fato de o grosso da clientela de tais programas sociais residir, em sua maioria, justamente em localidades com tal perfil, tenderia a reforçar a hipótese de que boa parte do público que aplaudiria Dilma é escasso em tais comícios.

Com efeito, segundo projeções do próprio governo federal, o Bolsa Família beneficia hoje cerca de 14 milhões de famílias, sendo que aproximadamente 38 dos 51 milhões de cidadãos beneficiados estariam aptos a votar. É um número altamente significativo, correspondendo a 28,5% do total de 140 milhões de eleitores do país. Mesmo que, como pesquisas têm mostrado, esse total de votos não vá para o PT, a manutenção de uma maioria é reserva eleitoral mais do que suficiente para desequilibrar eleições presidenciais de ordinário concorridas.

Trata-se, assim, de uma hipótese explicativa que gera preocupação, pois, se confirmada, apontaria para uma grave distorção na atual dinâmica eleitoral do país, ocasionada por um programa cujos benefícios no combate à miséria e à pobreza têm sido internacionalmente reconhecidos. Parece justo que o PT, por tê-lo implementado em bases efetivas, mereça colher os louros eleitorais decorrentes. Mas, pela própria natureza assistencialista do programa em uma sociedade com crônicos problemas sociais, ele não pode se transformar em reserva eleitoral perpétua. A institucionalização do Bolsa Família, de política de governo em política de Estado, seria uma maneira de contornar a questão sem prejuízo nenhum para os beneficiários, sem punir arbitrariamente as forças políticas que tiveram o mérito de bancá-lo, e - mais importante – preservando uma isonomia eleitoral tão necessária quanto benéfica à democracia brasileira.



O fator desencanto
Mas a mais danosa das hipóteses acerca do descompasso entre vaias e e intenção de votos em Dilma é a que aponta para um desencanto generalizado da população para com a política. Em texto na Carta Capital, o colunista Mauricio Dias se baseia em pesquisas recentes para dimensionar a gravidade da questão:

"A soma dos porcentuais de votos brancos e nulos, de rejeição e daqueles que não quiseram ou não souberam responder, está próxima dos 40%. É um porcentual inédito e expressa, aproximadamente, quase 50 milhões de um total de 140 milhões de eleitores brasileiros (…) Dos 37% que recusaram todos os candidatos, 72% não têm nem um pouco ou quase nenhum interesse na próxima eleição de 2014. Um dos pontos mais curiosos, indicativo do desencanto do eleitor, pode ser tirado dos que responderam 'ruim e péssimo' na avaliação de Dilma: 62% não votariam em ninguém se a eleição fosse hoje."

Esses resultados expressam, portanto, uma desaprovação "a tudo que aí está", numa postura que, não obstante legítima, costuma ser terreno fértil para as tentações totalitárias. Como hipótese à questão central postada pelo artigo, aponta, portanto, para um problema generalizado, que supera não apenas a candidata Dilma Rousseff, mas a própria conjuntura político-eleitoral que ora se apresenta.

Não fornece, no entanto, resposta à pergunta sobre as razões de o fenômeno das vaias não ocorrer, com igual intensidade, nos comícios dos adversários de Rousseff e nem no dos governadores ou candidatos ao governo com altas intenções de voto.



Inquietação
Talvez essa resposta esteja não esteja particularmente em nenhuma das hipóteses acima elencadas, mas na combinação de fatores citados em algumas delas, eventualmente acrescida de quesitos que não foram aqui abordados.

A perspectiva de que uma presidente que não pode dar as caras em público seja reeleita certamente faz parte do jogo democrático. Ainda assim, não deixa de ser algo que causa justo e inquietante estranhamento, além de preocupação acerca das consequências políticas de um eventual novo mandato presidencial iniciar-se com tamanha indisposição de parcelas do povo para com a mandatária.

Afinal, se com ampla base de apoio a Presidência Dilma cedeu tanto ao conservadorismo, o que pode vir a acontecer num cenário tão conturbado?



Publicado originalmente, com pequenas alterações, no Observatório da Imprensa.

(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Gabo segundo o Jornal da Globo

O espectador sem familiaridade com o universo literário, que tenha recebido a notícia da morte de Gabriel García Márquez através do Jornal da Globo, continua sem a mínima ideia da importância do escritor colombiano, de seu blending único de memória afetiva, imaginação prodigiosa e talento narrativo, de seu universo literário a um tempo realista e mágico, fincado em povoados míticos mas de expressão universal, da posição central que a América Latina – da qual tornou-se um ícone e um dos principais representantes - ocupa em sua obra e em sua vida.

A julgar pela matéria exibida pelo telejornal noturno, a impressão que fica é que García Márquez não passava de um escritor de gosto musical deplorável (pois fã dos boleros de Nelson Ned) e com afinidades políticas igualmente execráveis, notadamente pela amizade com "ditadores", plural referente a Fidel Castro, como as imagens então exibidas corroboraram. Os altos números de vendagem de suas obras e o recebimento do Prêmio Nobel foram os únicos pontos positivos mencionados, porém sem dar ao espectador a mínima chande de saber que méritos justificaram tais conquistas.


Conservadorismo caricato
É certo que o telejornal apresentado por Christiane Pelajo e William Waack (substituído, no dia em questão, por Carlos Alberto Sardenberg) vem se tornando, há tempos, o mais politicamente retrógrado dos veículos noticiosos da emissora, em que se tornou recorrente zombar do que quer que destoe do modelito neoliberal, particularmente de temas como a administração Kirchner, o regime cubano ou o legado de Hugo Chávez na Venezuela, seja através do sarcasmo explícito de Arnaldo Jabor ou das caretas sisudas de Waack.

O contágio ideológico da atração global chegou ao ponto, há algumas semanas, de noticiar como verdadeiro o hoax segundo o qual o ditador coreano Kim Jong-un havia determinado que todos os homens do país cortassem o cabelo como ele. Mesmo após a descoberta de que se tratava de um boato, o telejornal não desmentiu a "informação" ou pediu desculpas por iludir o seu público.

Ainda assim, preferir ataques pessoais mesquinhos à oferta de um retrato minimamente condizente da importância da obra de um dos maiores escritores latino-americanos, Prêmio Nobel de literatura, justamente por ocasião do anúncio de sua morte, parece excessivo até para os baixos padrões do Jornal da Globo.



A invisibilidade da América Latina
É fato que quem tem TV a cabo teve acesso a uma cobertura bem melhor e mais informada acerca da passagem de Gabo, com destaque para um depoimento precioso de seu tradutor e amigo Eric Nepomuceno, o qual refuta o rótulo "realismo fantástico" (ou "mágico"). Mas aqui neste texto nos interessa focar de forma específica na cobertura oferecida pelo Jornal da Globo, justamente por esta ser a principal opção telejornalística para quem chega tarde em casa e não tem TV a cabo.

O que primeiro chamou a atenção na matéria veiculada pelo telejornal no dia da morte de Gabo foi o colonialismo, traduzido na absoluta ausência de um referencial latino-americano na cobertura. O primeiro correspondente a ser chamado foi Jorge Pontual, de Nova Iorque, que se limitou a citar a repercussão da notícia nos Estados Unidos. Nenhum correspondente latino-americano, nem mesmo o culto e informado Ariel Palacios, correspondente brasileiro radicado em Buenos Aires, foi convocado. Muito menos alguns dos principais críticos literários latino-americanos que se dedicaram à análise da relevância de Gabo foram entrevistados.

E tanto a Colômbia, país natal e referência recorrente na obra, quanto o México, seu lar nas últimas décadas, foram absolutamente negligenciados pela cobertura. Desnecessário assinalar que a Rede Globo, quarta maior emissora televisiva do mundo, teria todas as condições de investir em bom jornalismo e mobilizar equipes para tal, se assim o quisesse.

São erros particularmente graves em se tratando de Gabriel García Márquez, cujo histórico discurso proferido ao receber o Nobel explicita o protagonismo político e afetivo da América Latina em seu sistema de valores e um autor que deixou uma obra que propicia múltiplas interpretações, capaz de agradar ou desgostar por diferentes razões, mas que tem no ato de sublimar em fantasia, delírio e poesia a loucura latino-americana um de seus traços distintivos. Macondo, a mítica aldeia de Cem anos de solidão, é a um tempo metáfora e vetor da identidade latino-americana. Macondo somos nós.



Livros? Que livros?
Ainda mais insuficientes do que o retrato do artista e de sua relevância foram as considerações (não) oferecidas pelo Jornal da Globo acerca da literatura que García Márquez produziu durante quatro décadas.

Pode-se ponderar, com bastante boa vontade, que não é fácil, na era dos smartphones e da onipresença da internet, traduzir a um público leigo, volumoso e heterogêneo, no tempo escasso de uma matéria telejornalística, o universo temático, a especificidade estética e os efeitos inebriantes da literatura de García Márquez.

Tal dificuldade evidencia-se ainda mais intensa se levarmos em conta o padrão literário ora em voga, em que as listas de mais vendidos subdividem-se entre livros de autoajuda, fantasias esotéricas e soft erotismo, com espaço mínimo para o engenho literário de mais fôlego e a ousadia formal. Como, em tum ambiente literário tão raso e que tão pouco demanda da crítica, esperar que se sumarize em linguagem telejornalística a pletora de significados atribuíveis a Macondo e à saga dos Buendía; ou à trajetória do ditador sem nome de O Outono do Patriarca, que sobreviveu durante séculos, vendendo ao Império até o mar de seu país; ou qual a graça de se ler uma história cuja morte do protagonista tem lugar já nas primeiras páginas; ou como a triste história de Cândida Erêndira corresponde a um tratado poético sobre os mecanismos imperialistas de dominação econômica; ou porque os amores contrariados renderam mais e melhor literatura através da imaginação de Gabo?



Estética negligenciada
Porém, ainda mais do que a dificuldade para traduzir minimamente ao leitor não familiarizado o universo literário acima esboçado, a recusa em sequer tentar fazê-lo soa indicativa das limitações do telejornalismo cultural na TV aberta, tanto mais se levarmos em conta que, não faz tanto tempo assim, tais criações do realismo mágico ocuparam posições destacadas, e por longos períodos, nessas mesmas listas de best sellers ora povoadas de paulos coelhos e 50 tons de cinza.

Porém, ainda mais difícil do que abordar o universo temático de Gabo, sobretudo para um telejornalismo que concebe seu espectador como um Homer Simpson, seja fornecer uma ideia das questões propriamente formais e estilísticas que distinguem a excelência da literatura do escritor colombiano. E não por estas serem, a rigor, herméticas, posto que nela a adjetivação abundante e o recurso frequente às comparações, metáforas e hipérboles, ao mesmo tempo em que contrariam - e desmentem - algumas regras não escritas para o bem escrever, tendem a facilitar a leitura de seus textos por um público variado, cujos méritos propriamente formais do texto talvez tendam a receber pouca atenção ante a imaginação prodigiosa das histórias e o vigor narrativo ao contá-las.



Estreitamento de referenciais
Ocorre, porém, que tematizar, no ambiente telejornalístico atual, as questões de cunho propriamente literário elencadas nos dois últimos parágrafos implica no estabelecimento prévio de um código - e na existência de um repertório referencial – entre emissor e receptor.

E é forçoso reconhecer que este código estreitou-se e delimitou-se nas últimas décadas. O crítico literário Roberto Schwarz afirma, em um texto clássico, que o hiato entre o golpe militar de 1964 e a promulgação do AI-5 foi paradoxalmente caracterizado como "os anos de hegemonia cultural da esquerda". Corroborariam tal afirmação o teatro de Boal e Zé Celso, a Tropicália e a música de protesto, a literatura de Callado e Cony, entre tantos outros exemplos possíveis.

Talvez não seja despropositado sugerir que, atualmente, o paradoxo se inverteu, e os 25 anos de democracia que se seguiram ao arbítrio vêm sendo marcados pela imposição e hegemonia de valores mercadológicos à produção artístico-cultural. Verifica-se tal afirmação já na legislação de fomento à cultura vigente nas duas últimas décadas no país, em que o poder decisório foi, na prática, transferido para os diretores de marketing das empresas. E ela se solidifica se observarmos como o processo de fabricação e manutenção de megasucessos ocasionais depende diretamente do poder de marketing das corporações de mídia que mantêm propriedades cruzadas (canais de TV abertos e fechados, estações de rádio, portais, jornais, revistas, etc.).



O valor mercado
A manutenção de tal cenário por um longo tempo, sua penetrabilidade, e sua correlação a fatores como o déficit educacional no país ou o não-cumprimento de preceitos constitucionais relativos à formação cultural e educacional pelos concessionários de canais de TV acabaram não só por estreitar o repertório do referido código de comunicação entre emissores e receptores no âmbito televisivo, mas por redefinir em bases mercadológicas seu quadro de valores, seus parâmetros axiológicos.

O resultado, no âmbito da temática deste artigo, é que a riquíssima e exuberante contribuição que Gabriel García Márquez deu à literatura e à cultura universal, submetida a tal código, desaparece, na cobertura do Jornal da Globo, em prol do retrato de um artista "cafona e amigo de ditadores", cujo grande mérito passa a ser a venda de 40 milhões de livros, não por acaso uma contribuição que se correlaciona diretamente ao mercado.


Publicado originalmente e com pequenas alterações no Observatório da Imprensa.

(Imagem retirada daqui)