Os textos deste blog estão sob licença

Creative Commons License

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A privatização do petróleo nacional: um crime de lesa-pátria

 
O Brasil está prestes a promover a maior entrega de patrimônio público de toda a sua história – e, uma vez mais, trocando um grande lucro futuro por um pequeno lucro imediato. Trata-se da privatização do campo de petróleo pré-sal de Libras, considerado "não só o maior campo do mundo, mas da história", nas palavras de Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras no governo Lula.

A negociata envolve condições específicas que a maioria dos brasileiros desconhece e que a mídia, interessada em agradar o mercado, tem negligenciado: nas explorações de petróleo convencionais, anteriores ao Pré-sal, em que se sabia da existência do óleo mas desconhecia-se em qual quantidade e sob o custo de quantas prospecções, estipulava-se, em troca do direito de prospecção, um "bônus de assinatura" – de cerca de 15% do valor estimado do petróleo - a ser pago para o governo pelo arrendatário, o qual passava a arcar com o eventual lucro (ou prejuízo), descontados os royalties. Dessa maneira, o governo garantia um lucro mínimo razoável sem ter de investir e o investidor praticava uma ação de risco: apostava na rentabilidade do investimento e, em caso de sucesso, seu lucro se confirmava e aumentava à medida que volume de petróleo prospectado superasse os custos. O jogo jogado do capitalismo.



Lucro fácil
A lógica do Pré-Sal é – ou deveria ser - outra, pois nele as perfurações-teste já foram feitas e sabe-se de antemão não só a quantidade mínima do petróleo disponível, mas o custo de sua extração. Não há risco. No caso do campo de Libra, haveria, segundo o governo, 14 bilhões de barris de petróleo, ou cerca de 3 trilhões de reais (mas denúncias feitas diretamente por técnicos de alto escalão da Petrobras alegam que o volume de petróleo chegaria ao triplo do declarado). Seja como for, o bônus de assinatura para exploração do campo foi estipulado pelo governo em meros R$ 15 bilhões (ou seja, 0,5% do valor total declarado). Em bom português: o governo está entregando voluntariamente e de mão beijada para os grupos multinacionais o direito de explorar, sem riscos e com ampla margem de lucros, a maior das riquezas nacionais recentemente descobertas, da ordem de centenas de bilhões de dólares.

Pior: a atual legislação que rege o Pré-Sal (Lei nº 12.351), a qual o governo Lula fizera aprovar, determina que, por suas características, um campo como o de Libras, justamente por sua importância para os interesses nacionais, deveria ser considerado "área estratégica", estabelecendo em seu artigo 12 que, nessa condição, "a Petrobras será contratada diretamente pela União para a exploração e produção de petróleo, de gás natural e de outros hidrocarbonetos fluidos sob o regime de partilha de produção". Com o campo de Libras aos cuidados da estatal, os lucros não só ficariam integralmente no país como os termos da partilha tenderiam a ser mais benéficos aos cofres da União.



Desprezo pela lei
Mas o governo Dilma, ávido por "fazer caixa" no curto prazo, preferiu simplesmente ignorar a lei e, indo na contramão do que sempre defendeu, privatizar. Para tanto, voltou a utilizar um modelo de privatização extremamente similar ao adotado por FHC, não fosse a diferença retórica de que se trata de uma "concessão" por tempo determinado, e não de uma transferência para sempre. Trata-se de uma dessemelhança que, no caso do pré-sal, não quer dizer absolutamente nada, já que o tempo de concessão será mais do que suficiente para dragar todo o petróleo disponível - e o valor de um poço de petróleo vazio é nulo. Ao povo brasileiro restarão as migalhas relativas aos royalties.

Enquanto os setores mais engajados - sindicalistas, acadêmicos, militantes virtuais, especialistas no tema – se movimentam para denunciar e alertar a sociedade para esse flagrante crime de lesa-pátria, boa parte dos governistas – inclusive muitos críticos ferrenhos da privatização promovida por FHC - prefere, uma vez mais, fechar os olhos para as gravíssimas consequências de um ato do governo que incondicionalmente apoiam e aquiescer calados.



Agenda partidária
O governismo consolida-se, assim, como uma força conservadora na acepção precípua do termo, privilegiando sempre a manutenção do poder nas mãos da aliança capitaneada pelo PT acima de qualquer outra agenda, ou seja, colocando os interesses do partido ao qual apoiam acima dos interesses do país e do povo brasileiro. De modo que não seria exagero situar o governismo, hoje, como uma força politica à parte - e, ao contrário de seus concorrentes à esquerda e à direita, pouco afeita aos aspectos programáticos ou ideológicos inerentes às decisões do governo que apoia. Interessa-lhes o poder pelo poder, mesmo se a manutenção deste significar abdicar dos compromissos assumidos em campanha e de meios e recursos que assegurariam um salto qualitativo às futuras gerações.

Poucos casos seriam mais ilustrativos disso do que o apoio, velado ou explícito, que dão ao atentado contra o futuro do país inerente ao leilão do campo de Libras. Ainda que se aceite, com muita boa vontade, que uma parcela dos governistas o faça por desconhecimento de causa, a maioria que apoia a outrora tão criticada privatização das riquezas naturais nacionais sabe que a troca de um grande lucro futuro por um pequeno faturamento imediato permitirá ao governo Dilma sair do aperto financeiro em que se encontra e, a menos de um ano das eleições, ter capital para, por um lado, agradar o mercado financeiro com um alto superávit primário em um contexto de juros novamente estratosféricos e, por outro, investir pesadamente em obras e marketing que hão de render forte apelo eleitoral. Pior: a parte mais enfronhada da militância intui que, de alguma forma, a milionária transação do pré-sal acabará, da alguma maneira, por beneficiar também os cofres do próprio partido, às vésperas de uma eleição que se afigura acirrada.



Às ruas!
Em resumo, o Brasil está, mais uma vez, prestes a entregar, a troco de banana, suas riquezas naturais findáveis a corporações internacionais, mesmo dispondo de uma empresa altamente capacitada para explorá-las, o que aumentaria exponencialmente o lucro para os cofres públicos. Enquanto isso, a mídia, aliada ao capital internacional, se omite, ao passo que os fanáticos da seita governista – açulados por blogueiros que se dizem de esquerda – batem palma para mais um processo de submissão do país à exploração colonial estrangeira. Desta vez, de forma voluntária.

Só o povo brasileiro pode barrar essa transação nefasta, imoral sob diversos aspectos e sobretudo contrária aos interesses da cidadania. Mais do que nunca, é preciso que os brasileiros defendam os seus direitos - junto às instituições, na internet, nas ruas - e manifestem-se de forma contundente e inequívoca contra esse ato vil de entreguismo, misto de traição eleitoral e crime de lesa-pátria cujos efeitos afetarão, por décadas, gerações de brasileiros.


(Imagens retiradas, respectivamente,  daqui , dacoládali)

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Aos 50 anos, sonho de Martin Luther King permanece


No dia de hoje o mais famoso discurso do movimento negro mundial completa 50 anos. Ponto culminante da Marcha sobre Washington, que reuniu ao menos 250 mil pessoas vindas dos mais diversos cantos dos Estados Unidos, incertas quanto ao grau de violência racial ou mesmo oficial que poderiam enfrentar, para protestar contra a segregação racial e demandar liberdade e justiça social.

"I have a dream" ("Eu tenho um sonho"), o mote repetido diversas vezes ao longo dos pouco mais de seis minutos de pungente discurso, mais que um emblema da luta pelos direitos civis em uma sociedade em que o racismo era institucionalizado, tornou-se um mantra pop político, à maneira do "Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás" de Che Guevara. Alguns anos depois, John Lennon nele se inspiraria para compor o clássico "Imagine".


Discurso de mestre
Ao proferir o discurso, Martin Luther King, que já era o mais respeitado líder do movimento pelas liberdades civis – o Dr. King, como o reverenciavam seus seguidores - soube aproveitar-se de um momento de alta exposição midiática para lançar uma mensagem que, enfatizando o pacifismo e projetando para as tensas relações raciais os princípios cristãos da comunhão e do perdão, foi capaz de, no clima favorável do nascedouro da contracultura, angariar apoio entre setores hesitantes da juventude e da classe média brancas, convencendo-as a fiar-se à possibilidade de "transformar as estridentes discórdias de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade".

Como se pode ver no vídeo legendado em português ao final do post, King, com raro senso de estratégia, substitui as costumeiras mensagens dirigidas aos próprios afro-americanos no sentido de instigá-los a se orgulharem de suas origens (na linha "say I'm black and I'm proud" ["diga: sou negro e me orgulho disso"]) por uma fala para todos, que não distingue público. E profere o discurso com um profundo domínio da técnica, em um crescendo contínuo feito de exaltações eventuais, culminando com o grand finale, e com um misto de confissão e exortação que, se não disfarçam sua formação como pastor e advogado, vêm imbuídos de um tal grau de verdade e comprometimento que acabam por se impor afetivamente.


Persistência e vitória
Nutro desde sempre uma profunda admiração pela figura de Martin Luther King e pela luta pelas liberdades civis, deflagrada em um país que, ao contrário de hoje em dia, ainda não havia se conspurcado com o sangue de tantas guerras injustas sob motivos vis. Assim, a luta contra o racismo afigurou-se uma luta épica e necessária, em oposição a um passado cruel – do qual Strange Fruit, com a interpretação sublime de Billie Holiday descrevendo as "frutas estranhas que pendem das árvores do Sul, sangue nas folhas e sangue nas raízes" é o retrato torturado - e ante um sem-número de batalhas, muitas das quais fragorosamente perdidas para o racismo institucional, antes que a tenacidade e a resilência dos afro-americanos vencesse.

Décadas depois desse período heroico, tive oportunidade de vivenciar in loco a persistência e a força remanescente dos símbolos da luta pelos direitos civis. Eu estava nos EUA, cursando pós-graduação, quando Rosa Parks (foto) morreu, e para mim foi uma experiência muito emocionante acompanhar de perto o respeito – ou mesmo devoção - que pessoas de todas as idades e "raças" demonstravam ter por essa ex-costureira do Alabama que, em 1955, ao se recusar a se levantar do assento de um ônibus para que um branco se sentasse lançou, a partir do boicote aos ônibus de Montgomery, Alabama, a fagulha que acendeu a chama de um movimento que mudaria a história do país, com repercussões em boa parte do mundo (em última análise, não teríamos política de cotas no Brasil hoje não fossem os processos decorridos desses gestos iniciais).


Exemplo atual
A luta pelo direitos civis nos EUA, para além de seus méritos (e, problemas e contradições) intrínsecos, constitui, ainda hoje, um exemplo a ser estudado pelas esquerdas, sobretudo por tratar-se, na maior parte do tempo, de uma luta essencialmente reformista, vencida após sucessivas batalhas no interior dos sistemas políticos e jurídicos de uma democracia liberal. Num mundo como o atual, em que a perspectiva revolucionária strictu sensu, rarefeita, encontra-se em profunda crise, afigura-se essencial a compreensão de como lutar e vencer batalhas nos interstícios do próprio sistema democrático. Que tal sucesso tenha se dado sob forte oposição, sob uma ordenação jurídica e institucional desfavorável e eivada de vícios, e através de alianças táticas que efetivamente resultaram em ganhos para ambas as partes é uma constatação das mais relevantes para as atuais batalhas por hegemonia particularmente no que concerne a temas ligados à biopolítica – tais como aborto, direitos matrimoniais dos gays, legalização da maconha -, que têm sido negociado com o conservadorismo na bacia das almas pelo ultrapragmatismo de nossa autointitulada centro-esquerda.

Neste momento de acirramento dos ódios classistas e de reavaliação compulsória do mito segundo o qual o Brasil não seria um país racista, a luta pelos direitos civis comandada por King deveria, ainda, servir de exemplo e de inspiração tanto para os ativistas do movimento negro em particular como, de forma geral, para aqueles que lutam por uma sociedade mais justa e sem discriminação racial. 


(Imagens retiradas, respectivamente, daqui e dali)


terça-feira, 27 de agosto de 2013

Vergonhosa agressão aos médicos cubanos


O colunista Janio de Freitas fez mais uma vez jus ao papel de decano e foi premonitório. Em coluna escrita ontem (26/08), prognosticou:

Dos argumentos polêmicos contra a vinda de médicos do exterior, dirigentes corporativos da classe médica brasileira passaram a um histerismo gaiato e primário e já estão em atitudes fronteiriças de crimes, com a incitação aos médicos a "não socorrerem erros" que, imaginam, os estrangeiros cometerão.

As reações corporativas dos médicos, se a princípio compreensíveis ou mesmo eventualmente justificadas, logo adotaram uma agressividade acima do tom, aproximaram-se da insensibilidade social, e agora, com o ódio de classe à flor da pele e o racismo indisfarçado, situam-se perigosamente para algo entre o grotesco e o ilegal.

Pois o que se viu nas últimas 24 horas, no aeroporto de Fortaleza e nas redes sociais, foi uma escalada de falta de bom senso e de civilidade, com a insanidade e o descontrole dando vazão a ódios de classe e de raça, dirigidos de forma equivocada a alvos inocentes, em um episódio constrangedor para a imagem do país e que certamente envergonharia a maioria dos brasileiros.

Quem acompanha este blog sabe das críticas que faço ao modo como o governo Dilma implementou o programa Mais Médicos, não só valendo-se da costumeira ausência de diálogo, mas de despistes, recuos e desmentidos de última hora – enfim, com procedimentos pouco transparentes que estão longe de ser o que se espera de uma coalizão de centro-esquerda em uma democracia que se quer consolidada. Portanto – e na contramão da maior parte dos blogueiros e colunistas - tenho claro que parte do ônus pelo clima bélico que se seguiu à chegada dos médicos cubanos deve ser atribuída ao governo federal. Isso posto, nada justifica a agressão direta e preconceituosa contra profissionais estrangeiros que vêm ao nosso país exercer seu nobre métier. Os médicos brasileiros justa ou injustamente indignados têm todo o direito de protestar, mas na Justiça, nas mobilizações pacíficas e nas urnas, jamais com um violento ataque à honra pessoal e coletiva de seus pares cubanos, como visto no lamentável episódio cearense [foto] e na página pessoal no Facebook de uma jornalista preconceituosa, que não acredita que gente, segundo ela, "com cara de empregada" possa exercer a medicina.

Com os protestantes tachando os cubanos de "escravos" e declarando não acreditar que eles, "com cara de empregada doméstica", sejam capaz de exercer a medicina, cai por terra, uma vez mais, o mito do pais cordial e sem racismo – e antes que venham falar que isso se deve a uma manifestação restrita a uma elite, lamento informar que as elites também são parte do país.

Para Renato Rovai, colunista e editor da Fórum, o episódio do ataque aos médicos cubanos em Fortaleza transcende o seu sentido imediato e insere no âmbito de uma discussão maior. Referind0-se à mesma foto que encima este post e lembando que os médicos que protestam e suas associações não são apenas contra a vinda dos médicos cubanos, mas contra a criação de novos cursos superiores de medicina, ele observa:

Ou seja, a foto que está ilustrando este post é significativa para pensar o país que queremos. Se queremos um Brasil da inclusão, onde seja algo normal ser atendido por médicos negros que não sejam cubanos. Se queremos um Brasil onde estrangeiros sejam recebidos com respeito. Se queremos um Brasil onde saúde seja um direito de todos. Ou se preferimos viver num país de brancos de jalecos brancos que exigem ser chamado de doutores exatamente porque se acham acima daqueles que deveriam tratar com respeito e dignidade.

Seja como for, após esses lamentáveis episódios com tonalidades racistas e classistas, a razão que eventualmente a categoria dos médicos poderia ter vai para segundo plano, ante os danos irremediáveis que tais episódios causam para sua imagem pública. No xadrez do marketing público, o jogo mudou: ou os médicos e suas associações vêm a público condenar tais agressões e desautorizá-las, desvencilhando-as de suas táticas e lutas e atribuindo a uma iniciativa isolada, ou será praticamente impossível livrarem-se da pecha de classistas e racistas que já lhes vinha sido atribuída e que os ataques aos médicos cubanos corroboram.

Se, ao contrário, o clima mantiver a fervura e as agressões persistirem, é quase certo que o caso exacerbará os limites dos embates públicos e adentrará na seara policial, o que seria um preocupante indício da falta de preparo para o exercício da democracia, mesmo no seio de uma classe profissional supostamente bem educada.


(Foto retirada daqui e editada)

domingo, 25 de agosto de 2013

A chegada dos médicos cubanos

As primeiras levas de médicos cubanos desembarcam no Brasil e o ritual de sua chegada, saudada com bandeiras dos dois países, pequeno mas entusiasmado comitê de recepção e discurso em portunhol não deixa de resultar emocionante. Em primeiro lugar, por deixar claro que, meio século depois, a mística revolucionária cubana ainda toca os corações esquerdistas, não obstante patrocinada por um investimento milionário e em condições trabalhistas no mínimo questionáveis.

Em segundo lugar, a recepção comove por demonstrar que, a despeito da guerra fratricida que precedeu a vinda dos médicos, prevaleceu o bom senso e nenhum deles foi pessoalmente destratado: podemos continuar alimentando nossa orgulhosa autoimagem de povo que a todos bem recebe.

Um terceiro motivo para a emoção – neste caso, negativa – deriva da constatação (óbvia para quem ouviu às declarações dos médicos, em que uma das doutoras, muito simpática, prometeu atender bem ao "puoblo brasileño") de que, ao contrário do que divulgou o Ministério da Saúde, os médicos cubanos que aqui aportarão não têm domínio do idioma português. Não que isso vá ser um impeditivo: certamente a comunicação se estabelecerá. Mas o que interessa reter aqui é o fato de que, ao menos nesse quesito, o governo mentiu.



Insegurança jurídica
A despeito dessa constatação tão rotineira em se tratando de políticos (e de Brasil), resta-nos desejar que a missão "humanitário-comercial" cubana obtenha sucesso e melhore a saúde de uma parte da população há séculos desassistida. Porém, como sabemos, esse sucesso depende, em primeiro lugar, de um encaminhamento satisfatório das intrincadas questões jurídicas que envolvem o caso, as quais derivam do afobamento e improvisação que são características distintivas da administração Dilma Rousseff, onde as decisões invariavelmente saem "prontas" do gabinete presidencial, sem terem sido previamente debatidas com a sociedade ou amadurecidas em seus aspectos técnicos, operacionais, logísticos e legais.

No presente momento, o imbroglio é o seguinte: a Medida Provisória que instituiu o Programa Mais Médicos prevê que, como os profissionais cubanos não revalidarão o diploma, caberá ao Conselho Regional de Medicina conceder-lhes uma permissão temporária para trabalhar. Essa entidade, porém, se recusa a fazê-lo sem avaliá-los previamente (no que está correta, pois é esta a sua função institucional). O Procurador-Geral do Trabalho insiste que o CRM terá de emitir tal documento, mas disputa-se se ele tem autoridade para exigir que este seja autorizativo ou se tal exigência feriria a autonomia do CRM, que poderia se valer de uma justificativa oficial para não conceder autorização ao exercício da medicina.



Estratégias de desqualificação
Tal confusão jurídica poderia perfeitamente ter sido evitada, bem como o clima de batalha campal que se instalou na arena pública, se o governo Dilma obedecesse aos ritos democráticos, fosse mais transparente e se dispusesse a debater com a sociedade as medidas que pretende tomar, ao invés de lançá-las direto dos gabinetes para as manchetes, como um fato consumado e uma panaceia incontestável. Poucos casos comprovam de forma mais clara tais defeitos do governo Dilma do que tudo o que até agora envolveu o Programa Mais Médicos.

Após um desastroso lançamento nos moldes acima descritos vieram reações corporativas até certo ponto compreensíveis, mas que logo degringolaram para manifestações de um elitismo atroz, além de contrárias à própria deontologia da profissão. O governo, ao invés de efetivamente negociar, passou então a praticar o mesmo jogo duplo que armara por ocasião da greve dos professores federais, em 2012, jogando para a plateia em público e atiçando fogo contra as corporações médicas nos bastidores. O resultado é um clima de agressão mútua que, açulado pela natureza belicosa das redes sociais, permanece até hoje, virtualmente impede o debate e onde as duas partes se digladiam com acusações preconceituosas ou desinformadas, que não levam a nada.

Assim, fica difícil decidir o que é mais patético: se os direitosos mais delirantes ressuscitando o perigo de uma revolução comunista na qual os médicos plantariam a semente ideológica para a revolta, ou o governismo, desta feita com forte adesão de partes da esquerda, que generaliza chamando os médicos de "coxinha de jaleco" e, como uma torcida organizada, agride em turbas quem quer que ouse criticar o que ingenuamente veem como a panaceia para a Saúde no país.



Direitos trabalhistas
Essa Fla-Flu histérico, maniqueísta e eivado de preconceitos, impede que se debata com clareza algumas questões graves associadas à importação dos médicos cubanos. A mais grave delas, a meu ver, diz respeito ao absoluto desprezo pelas leis trabalhistas do país e pela perigosa prerrogativa que isso abre para o futuro. Pois, em um momento de extrema flexibilização e desregulamentação das relações trabalhistas e de agravamento da questão do emprego como um problema global, esperava-se da esquerda que se unisse em oposição a medidas que claramente se caracterizam como terceirizantes, fora do âmbito da CLT e do sindicalismo – para não citar sua leniência com um heterodoxo sistema de exploração de mão-de-obra de um país socialista há décadas oprimido por um criminoso boicote econômico.

É preciso muita cegueira ideológica para não se aperceber, neste momento, da grave ameaça ao mercado trabalhista brasileiro inerente à brecha aberta pelo petismo, através da implementação do Mais Médicos. Com que argumentos essa dita "esquerda" reagirá na eventualidade de importação maciça de operários sul-americanos por um governo conservador futuro como forma de desmobilizar uma greve ou impedir movimentos de reivindicação salarial?

Imagine a reação dessa mesma pseudoesquerda se um ministro de um governo conservador justificasse juridicamente os termos da importação de operários dos EUA alegando que eles obedecem à legislação norte-americana, como respondeu o ministro Alexandre Padilha ao afirmar que a contratação dos médicos cubanos segue a legislação de Cuba. Seria linchado.



O fator eleitoral
Aliás, o desempenho de Padilha neste episódio, se talvez venha a lhe render mais exposição e introduza a novos eleitores sua figura articulada e inteligente, por diversas vezes resvalou num populismo raso, na aposta na ignorância jurídica da população (da qual fingir presumir que basta o contrato atender à legislação cubana é o exemplo cabal) e num antagonismo aberto contra os que se opõem ao programa que se assimilou, em forma e conteúdo, ao passado ditatorial do país. Sua declaração assegurando ter "segurança jurídica" sobre o programa e "autorizando" a crítica desde que "não venham ameaçar a saúde da população que não tem médico" é exemplar de tudo isso.

Trata-se de uma meia verdade, ou melhor, de algo que ora se transformou em verdade factual, mas só graças à inação que a precedeu. Pois essa população a qual o ministro Padilha se refere já não tinha médico quando o PT assumiu o governo, há longínquos 10 anos e oito meses - tempo mais do que suficiente para estudar o problema, debatê-lo e, na forma acordada e civilizada que caracteriza as sociedades democráticas, implementá-lo. Mas não: o governo passou mais de uma década tratando a Saúde como questão secundária, com paliativos, ora ensaiando ampliar o SUS, ora flertando com a privatização generalizada, além de sempre tratando os planos de saúde privados com extrema leniência.

Foi o choque trazido pela queda de popularidade que derivou das manifestações de junho, somada à proximidade das eleições, que fez com que a administração petista subitamente "descobrisse" que a Saúde é uma questão prioritária e que há milhões de brasileiros sem acesso a assistência alguma. E que priorizá-la permitiria ainda aumentar o cacife de um de seus ministros mais bem avaliados, "grande esperança branca" petista das próximas eleições. É este o contexto da declaração no espírito "Ame-o ou deixe-o" do ministro da Saúde, não por acaso o mais provável candidato a governador de São Paulo pelo PT.



Paliativo
Porém, em meio aos debates políticos do momento, não se deve perder de vista que se o governo tivesse priorizado a Saúde, como seus candidatos presidenciais haviam prometido nas campanhas eleitorais, e cumprisse, ano a ano, ao longo da última década, metas preestabelecidas para a área, outra seria sua situação, e não só em relação à alegada carência de médicos, mas em medidas imprescindíveis à saúde pública (embora não rendam muitos votos), como saneamento básico, atendimento ambulatorial, medicina familiar/itinerante, entre outras. (A propósito, se o governo quer tanto levar médicos às áreas carentes, porque pouquíssimas das novas universidades federais oferecem cursos de Medicina?)

Seja como for, a opção pelos médicos cubanos é um paliativo, que não resolve estruturalmente a questão ou sequer a encaminha. A solidariedade humana pede que torcemos para que resulte efetiva e melhore a saúde da população sob seus cuidados. Mas isso não significa, de forma alguma, que tenhamos de fechar os olhos ou ser leniente para com seu caráter transitório e precário, as ameaças potenciais que traz em relação aos direitos trabalhistas e sindicais e o oportunismo político-eleitoral que embute.


(Foto de Luna Larkman/G1 flagrando recepção aos médicos cubanos em Recife retirada daqui)

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Mídia Ninja e o jornalismo anacrônico

O Roda Viva que entrevistou Pablo Capilé e Bruno Torturra, do Mídia Ninja, pode ser visto como uma espécie de documentário sobre o grau de anacronismo e de elitismo do jornalismo corporativo brasileiro em sua versão corrente.

Nele, uma bancada de experimentados jornalistas, cujos problemas de autoimagem se evidenciam ao longo do programa, demonstra incapacidade não apenas de compreender, mas de dialogar e reconhecer como válido um modo de fazer jornalismo que difere sobremaneira das práticas instituídas nas corporações midiáticas.


Medo do novo
Acostumados a reportagens televisivas editadas a posteriori e que obedecem a lógicas narrativas maniqueístas pré-moldadas, os entrevistadores demonstraram incapacidade de assimilar e aceitar a dinâmica fragmentária e instantânea, sem edição ex machina, instaurada pelo jornalismo ninja, embedded, com seus celulares intermitentes e o eventual contraponto feito in loco, em perguntas diretas ao interlocutor (no caso dos protestos, frequentemente o policial em atitude de agressão).

Por não reconhecerem nessa dinâmica o respeito ao preceito sagrado de sempre ouvir o outro lado – preceito este que parecem acreditar ser fielmente cumprido pelo jornalismo convencional tal como feito no Brasil -, colocam-se numa posição de superioridade ética, num processo que, além de contrariar a visão que o jornalismo hoje usufrui junto ao público, mostra-se pouco atento não só à obediência efetiva ao "ouvir o outro lado" na corporações, mas, na eventualidade de isto ocorrer, ao modo como a edição e os elementos estruturantes da notícia manipulam - e mesmo revertem - o sentido de tal contraponto.


O mito da isenção
Levando em conta tais fatores, e no contexto das relações entre mídia e politica na última década, soou no mínimo pueril a cobrança por posicionamento político-partidário que parte da bancada fez aos entrevistados, e cínica a contraposição entre o que descreveram como o ativismo engajado destes e a postura apartidária dos jornalistas-entrevistadores em seus veículos de atuação profissional.

Assim, assumindo uma injustificada postura de superioridade ética, a bancada, com a única exceção de Alberto Dines - uma alma jovem aos 81 anos de idade -, acabou por revelar-se a um tempo agressiva e temerosa. Pois, por um lado, evidenciou que tais profissionais corroboram a crença nos ditames iluministas que o jornalismo historicamente clama para si como evidência do caráter redentor de sua missão – e que as práticas, em sua maioria de origem norte-americana, ora instituídas nas corporações efetivamente constituem a forma correta de como tal efetivá-la.


Má vontade e empáfia
Porém, por outro lado, a virulência algo gratuita, o descaso ostensivo para com o novo, somado à crença risível de superioridade ética de quando em quando ostentada, mal disfarçou o despeito, a insegurança e o medo de perder o lugar no Olimpo ao qual tais jornalistas "consagrados" creem – ou fingem crer – pertencer, sabe-se lá porquê. Mesmo porque, como testemunhas e protagonistas da maior crise da história da imprensa corporativa, seja no âmbito econômico ou de credibilidade, não têm razões para justificar tanta empáfia. Ao final, soaram anacrônicos.

Há de se lamentar, pois muito haveria a ser debatido com Capilé e Torturra, particularmente no que concerne a formas e formatos do fazer jornalístico (em detrimento das intermináveis querelas sobre conteúdo) e à relação entre jornalismo, política e as movimentações populares que fizeram a fama da Mídia Ninja. 

Afinal, se o Movimento Passe Livre merece ser reconhecido como o grande deflagrador das manifestações populares, à Mídia Ninja a cidadania e os Direitos Humanos devem o registro do abuso de poder e da violência desmedida empregada pela PM carioca - a qual, não fosse a corajosa ação, in loco, desses repórteres munidos tão-somente de seus celulares, certamente teria imposto à opinião pública uma versão fabricada dos acontecimentos.


Passado e futuro
Em relação ao desempenho da dupla de entrevistados, não obstante prejudicado pelos preconceitos e anacronismos da bancada, Capilé conseguiu fazer uma crítica contundente à hipocrisia reinante na Folha de S. Paulo e ambos morderam o calcanhar do Roda Viva ao comentar a demissão do ex-âncora Herótodo Barbeiro por motivos puramente políticos.

O futuro do programa, aliás, está sob risco, já que Augusto Nunes, que passou os últimos anos brincando de blogueiro pitbull da Veja, deve ser o novo apresentador do programa, numa clara operação de aparelhamento da estatal pelo PSDB, a 14 meses das eleições.


(Foto retirada daqui)

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Mais Médicos: o governo recua

O governo Dilma anuncia, enfim, que recuou da decisão de obrigar os futuros alunos de medicina a dois anos a mais de curso, servidos no sistema público de saúde – o que, a despeito das negativas oficiais, configuraria serviço civil obrigatório. Ao invés disso, a residência hospitalar, de igual duração, passará a ser obrigatória, com o governo se comprometendo a assegurar condições para que ela seja cumprida no SUS.

Trata-se de um lapso de sensatez em uma questão marcada, por um lado, pelo autoritarismo e falta de diálogo; e, por outro, por um corporativismo caricato com tinturas de elitismo. No anúncio do Programa Mais Médicos, o governo Dilma Rousseff, ante o impacto das manifestações que tomavam as ruas do país, agiu de uma forma que vem se tornando usual: afoita, recendendo a improvisação, autoritária – pois sem nenhum debate prévio com a sociedade, os profissionais e setores envolvidos. No momento traumático da eclosão dos protestos nas ruas, tratava-se de criar um factoide que denotasse ação.

Os médicos, evidentemente, reagiram. Não estaríamos em uma democracia se não o fizessem, ante a truculência do anúncio e o disparate de parte do conteúdo do programa. No entanto, tal reação não se restringiu ao protesto fundamentado ou mesmo a uma reação corporativa questionável mas compreensível: incluiu ataques pessoais grosseiros contra a atual e o ex-presidente da República e gritos de guerra moralmente maniqueístas e comicamente elitistas, como "Somos ricos, somos cultos. Fora os imbecis corruptos".

Para completar, enquanto o país assistia a esse triste espetáculo, foram vindo à tona reportagens documentando que médicos do setor público, nos diversos níveis federativos e em várias localidades do país, assinam o ponto mas não trabalham – em um atentado contra o erário e contra a saúde da população, o qual desautoriza a empáfia corporativista dos manifestantes de jaleco que só veem a corrupção alheia.

Ante a reação dos médicos, o governo, ao invés de acalmar os ânimos e buscar uma solução negociada para o problema – como se espera em uma democracia, ainda mais se comandada por quem se autointitula de centro-esquerda -, não teve escrúpulos em incitar a população contra os médicos: a exemplo do que fizera com os professores universitários na greve de 2012, lançou uma agressiva campanha de marketing visando desqualificar os doutores, explorando a imagem pública desgastada de parte da categoria, para o que contou com a colaboração intensa da matilha de blogueiros e simpatizantes na rede, particularmente hidrófobos após o despencar da presidente nas pesquisas.



O fator eleições
Dilma preferiu, assim, com a birra costumeira, alimentar por semanas um desgaste político perfeitamente evitável, envolvendo uma área essencial para o desenvolvimento social do país e profissionais cuja formação requer muita dedicação, para um mercado profissional que está longe de ser o mar de rosas caricaturalmente descrito pela campanha desqualificadora petista. Mas, ao final, como prevíamos, veio o recuo, com sua admissão implícita de improvisação e equívoco, a suscitar a pergunta: justifica-se, uma vez mais, por parte do governo, essa falta de planejamento e esse excesso de malabarismo ?

Afinal, é forçoso observar que a aliança comandada pelo PT não é uma novata no poder federal, pelo contrário: está a cargo do país há mais de 10 anos e meio – tempo mais do que suficiente para elaborar um diagnóstico detalhado dos problemas de uma área social que, como as pesquisas mostram, a própria população considera prioritária. E para debater com os médicos, os pacientes, a universidade, os administradores públicos e privados, os especialistas e, aí sim, elaborar e instituir democraticamente um plano alicerçado para a questão da Saúde no Brasil.

Pois não é com alegadas panaceias de última hora, que mal disfarçam seu caráter eleitoreiro e, eivadas de autoritarismo, jogam a população contra os médicos e estes contra o governo, que se irá encaminhar soluções para a gravíssima questão da Saúde em nosso país.

Não se trata de ser contra ou favor do PT ou de qualquer outro partido que venha a estar no poder. O que o presente caso evidencia transcende o jogo eleitoral e as paixões partidárias: chama a atenção para a necessidade de se aprimorar os mecanismos democráticos do país para que os candidatos a cargos executivos sejam instados a apresentar um programa efetivo, detalhado em termos de objetivos, prioridades, fontes de recursos e cronograma, para áreas essenciais como Saúde e Educação – e, após a posse, assegurar que os cidadãos e a Justiça Eleitoral tenham meios de monitorar e cobrar seu cumprimento.

Do contrário, estaremos sempre sujeitados a governos que, apesar de mais de uma década no poder, só aparentam despertar para a urgência da questão da Saúde com o povo nas ruas, os índices de aprovação despencando e, com eles, a ameaça aos planos de eleger seu ministro da Saúde governador do mais rico estado do país.

A necessidade urgente de reformar a Saúde no país, para se tornar efetiva e perdurar, obrigatoriamente tem de transcender tais interesses imediatos.


(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 30 de julho de 2013

"Se não voltar em Dilma, vai votar em quem?"

- "Se você não votar em Dilma, vai votar em quem?" - A pergunta, em tom passivo agressivo, costuma ser dirigido a quem quer que, sem identificar-se com o conservadorismo, dê mostras de estar desiludido com o atual governo e com o estágio de setores essenciais como Educação, Saúde, Meio Ambiente e Transportes após mais de uma década de administração petista.

Vem, de ordinário, acompanhada de duas listas: uma contrapõe os números da economia e de indicadores sociais ao final do governo FHC e após uma década de petismo; a outra desqualifica minuciosamente os prováveis opositores a Dilma nas eleições do ano que vem, culminando com o realçar de qualidades da atual mandatária, das óbvias às inauditas, passando pelas menos evidentes.


Distorções metodológicas
Como a primeira lista exaustivamente demonstra, não restam dúvidas de que, em termos de economia – e, sobretudo, de conquistas sociais por esta proporcionada – os petistas batem de goleada os tucanos. Isso, no entanto, não impede a constatação de algumas distorções relativas à lista.

As duas primeiras são de cunho histórico e metodológico: comparar os oito anos dos tucanos com os 10 anos e meio dos petistas denota descritério, posto que o tempo disponível aos primeiros para consolidar melhorias seria, dessa forma, cerca de 30% do que o disponível aos últimos. A comparação justa e cabível no caso seria entre a presidência de FHC e a de Lula, ambas de dois mandatos de igual duração. Neste caso, igualmente, a supremacia desta ante aquela em virtualmente todos os quesitos de economia social mostra-se pronunciada.

Deriva diretamente de tal descritério a segunda e mais grave distorção inerente às listas petistas de convencimento: ao comparar o legado de FHC com o de Lula e Dilma indistintamente e em bloco, impede-se que o eleitor tenha uma correta dimensão das falhas e acertos do governo da atual mandatária. Pois, com o perdão pela obviedade, o antecessor imediato desta não é o sociólogo de triste memória, mas, para o bem ou para o mal, Lula, o arquiteto do "novo Brasil" que aí está. Desnecessário assinalar que se trata de uma omissão deliberada, pois não só a candidata petista tende a sair muito mal na foto na contraposição a seu mentor e sucessor imediato, mas tal comparação daria ao público em geral, de forma didática, a dimensão de sua problemática administração e a explicação das razões de fundo para as manifestações populares deflagradas a partir de junho.



Meras desqualificações
Quanto à segunda lista que é volta e meia apresentada aos eleitores desencantados, novos ou antigos, ela prima pela desqualificação dos opositores ao petismo. Trata-se de uma arte que o PT sempre cultivou, mas que atingiu novos patamares com a assimilação, nos últimos anos, dos métodos do jornalismo neocon de Veja e similares, os quais implicam na ausência de limites ou bom senso e na concepção do opositor - e dos críticos do partido, mesmo se eventuais - como inimigo.

Independentemente de quem sejam os concorrentes, trata-se de um método abjeto. Se esta avaliação talvez pareça menos evidente quando o opositor em questão é, digamos, um Aécio Neves, advindo de um partido com um histórico de enfrentamento feroz com o petismo - incluindo vários golpes baixos -, ela mostra-se rigorosamente justa quando se observa o tratamento ora dispensado pelo partido e seus militantes a figuras que até ontem eram, na condição de aliados ou mesmo estrelas petistas, pelos próprios exaltadas, como, respectivamente, o governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB/PE) ou Marina Silva (sem partido), ex-senadora do Acre pelo próprio PT.



De exemplar à execrada
O caso da acriana é particularmente exemplar como evidência da memória curta, da volubilidade de critérios e da lógica "quem não está conosco está contra nós" do petismo em sua fase ultrapragmática. Quadro formador do petismo e por este formado, Marina foi durante décadas saudada como uma personalidade política especial dentro do partido: expoente amazônico e seu maior expert em políticas ambientais, compôs, durante décadas, uma espécie de arquétipo feminino de Lula, na origem humilde, na ascensão intra partidária a partir das bases, no reconhecimento internacional.

Esse era o status de Marina Silva até 2008, quando, após cinco anos de uma atuação sem precedentes, saudada e premiada nacional e internacionalmente, como ministra do Meio-Ambiente do governo Lula, pede demissão ao final de uma série de conflitos com a chefe da Casa Civil e gerentona do progressismo a qualquer custo, a hoje presidente Dilma Rousseff.

Do dia para a noite, a proeminente aliada vira persona non grata nas hostes petistas, despertando a fúria por ter ousado primeiro enfrentar, depois rejeitar um projeto político baseado na relativização da ética para alianças partidárias e em um modelo arcaico de desenvolvimentismo na área econômica. Com o lançamento de sua candidatura à Presidência em 2010, pelo PV, consuma sua transformação, aos olhos petistas, em um ser pestilento, repositório de tudo que há de repulsivo e condenável na política nacional.

- "Ela é crente!" - brada o petista típico, listas nas mãos, como se se referisse a um assassino de bebês, como se professar uma religião fosse impedimento ao exercício da Presidência, como se o próprio governo Dilma não fosse o playgound do neopentecostalismo, determinando vetos presidenciais contra kits educativos, patrocinando um vergonhoso atraso nas questões relativas a comportamento e a gêneros sexuais, zombando da cidadania e dos Direitos Humanos ao deixar, por desinteresse, um representante do atraso como Marco Feliciano presidir a comissão legislativa relativa ao tema.



Jovens eleitores x anacronismos
Em pleno 2013, a quem os petistas pensam que enganam com tais estratégias discursivas, com tais discrepâncias entre discurso e prática, com uma concepção de política em que o gozo da ética e da legitimidade pertence exclusivamente aos membros do partido, e os que a eles se opõem, na opinião pública ou na arena eleitoral, são concebidos como inimigos aos quais se destina a desqualificação e o extermínio?

Os protestos nas ruas, a despeito de sua virulência e espontaneidade, não parecem estar servindo de alerta – e isso se dá em grande parte graças à mitomania do partido, viciada em livrar-se das críticas atribuindo-as exclusivamente à má vontade da mídia, e que tem sido internamente bem-sucedida em atribuir as manifestações a novos bodes expiatórios, como o Facebook e até misteriosos organismos internacionais. Mas o fato inconteste é que, nas próximas eleições, jovens entre 18 e 25 anos devem vir a ter um papel decisivo. Para eles, que tinham entre 6 e 13 anos quando FHC transferiu o poder a Lula e passaram toda a vida sob o o governo do PT, as listas de convencimento petistas, com suas comparações maravilhosas, tendem a ser não apenas anacrônicas, mas contraproducentes: anseiam pelo novo, mas lhes é oferecido uma mirada no retrovisor, focada em um passado que sequer viveram.

- "Não votar em Dilma é votar na direita" – conclui o petista típico, em uma oração que resume de forma cabal a pobreza binária de seu raciocínio, a (por si questionável) arrogância exclusivista na qual se baseia e a escassez de alternativas as quais sua visão autocentrada deixa de enxergar.


(Imagem retirada daqui e manipulada digitalmente)

terça-feira, 23 de julho de 2013

O modelo petista em debate

No mesmo dia em que o governo Dilma promoveu cortes de R$10 bilhões no Orçamento anual, o Bradesco anunciou lucros de R$5,6 bi no semestre. Mais do que mera coincidência, a simultaneidade de eventos e de valores traz em seu bojo, para os que não se negam a ver, um retrato acabado das contradições do modelo econômico petista – e de seus limites.

O corte governamental deve-se à primazia do equilíbrio fiscal, cujo maior símbolo é a colocação, no centro das prioridades da área econômica, do cumprimento da meta de 2,3% do PIB para o superávit primário (ou seja, do saldo entre arrecadação e gastos governamentais, excetuado juros e atualização monetária). Dessa forma, destina-se ao mercado financeiro capital que seria investido em áreas relevantes para o país, tais como transportes, saúde, meio ambiente e cultura.

Já vimos esse filme diversas vezes – durante todo o governo FHC, no terço inicial da Era Lula e no primeiro ano da própria Dilma – e o final nunca nos agradou: invariavelmente deprime a atividade econômica. Felizmente, no caso dos presidentes petistas, fatores externos fizeram com que, nas vezes anteriores, deixassem de lado tal obsessão e priorizassem a tempo um receituário de expansão da economia baseado, por um lado, na incorporação de amplos estratos da população ao consumo via expansão do crédito, e, por outro, nos dividendos advindos do mercado internacional aquecido para as commodities primárias que o Brasil exporta.



Cenário deteriorado
A má notícia, porém, é que, em seu final de governo, Dilma não poderá contar com tal cenário – pois, por um lado, o endividamento das classes D e C já compromete boa parte dos salários e, por outro, a demanda por e os preços das commodities vêm despencando no mercado internacional. Pior: a arrecadação tributária tende a cair consideravelmente no ano fiscal 2013, não só em decorrência do desaquecimento da economia, mas em virtude das isenções fiscais concedidas a granel - e sem exigência de contrapartidas como manutenção de empregos ou de preços – pela área econômica sob o comando de Mantega.

O modelo de política econômica adotado pelo PT na última década chega, assim, a um impasse. Apresenta como grandes méritos a ascensão social de um volumoso percentual de brasileiros historicamente presos à base de nossa particularmente injusta pirâmide social e a manutenção de baixos índices de desemprego (ainda que, em relação a estes, um debate detalhado dos métodos de aferição e classificação mostre-se necessário, se se quer ter uma noção precisa do mercado de trabalho no país). Mas não permite mais sustentar a ilusão de que seria possível, concomitantemente, promover justiça social e desenvolver o país sem cobrar das classes mais abastadas o devido ônus pelas gorduras acumuladas em séculos de exploração. O cenário atual evidencia como falsa tal premissa, demandando medidas que visem efetivamente à redução das assimetrias socioeconômicas e que tributem as grandes fortunas, combatam o lucro excessivo e promovam a redistribuição de renda dos mais ricos para os mais pobres – o que difere, em essência, do modelo de assistencialismo estatal em que se baseiam os atuais programas de renda mínima.




O retorno ao neoliberalismo
Pior: o governo Dilma, que recebeu de Lula um país em condições incomparavelmente melhores do que as que FHC legara a seu sucessor, perdeu a oportunidade histórica de combater o neoliberalismo, o qual, a despeito dos efeitos sociais nefastos que invariavelmente lega, continua a fazer parte do receituário de países em crise. Pois ao invés de combatê-lo, a atual mandatária, com uma rapidez temerosa – pois autoritária e avessa a diálogos - preferiu ressuscitar as privatizações, agora rebatizadas, à la Orwell, de concessões.

Depois de tal retrocesso, não surpreende que suas tentativas, potencialmente redentoras, de reduzir os juros bancários tenham sido revertidas ante os primeiros espirros – reais ou fabricados – de inflação: somada à confissão de incapacidade estatal implícita às concessões de aeroportos, petróleo e portos à iniciativa privada, a recusa da presidente em encarnar, neste e em outros episódios, um Estado pró-ativo, que efetivamente agisse junto aos agentes econômicos e financeiros para trazer os juros a patamares civilizados assinalou, na prática, que o neoliberalismo permanece profundamente introjetado na concepção política petista, a despeito do aparente desejo de pontualmente contestá-lo.

O resultado é que o país chegará às eleições de 2014, após um período democrático de 30 anos, sem conhecer governo cuja política econômica não tenha orbitado em torno do neoliberalismo – e, o que é pior: com este mais reforçado e mais presente, tanto em termos de política econômica quanto de ("não")ideologia que as orientam, do que estava há quatro anos, quando Dilma recebeu a faixa presidencial.




Alianças contestadas
Porém, talvez ainda mais grave do que o desgaste do modelo econômico adotado pelo PT na última década seja, neste momento, o esgotamento da política de amplas alianças adotada pelo partido, visando criar melhores condições para a governabilidade e para a manutenção da hegemonia política.

Em primeiro lugar, porque a chamada "base aliada" já deu mostras suficientes de que não forma base alguma e não se mostra minimamente aliada ao governo federal – pelo contrário: se antes das movimentações populares deflagradas em junho cada votação no Congresso era uma batalha e uma oportunidade de pressionar o governo por mais verbas e cargos, desde a eclosão dos protestos o governo tornou-se claramente refém de sua dita "base", notadamente do PMDB. Neste exato momento, o futuro do governo Dilma – e do país – encontra-se submetido à ganância desmedida e à falta de espírito republicano desse partido cujo único ideário, desde o final da ditadura, parece ser estar sempre no poder.



Rejeição popular
O esgotamento do modelo de alianças petistas se dá, em segundo lugar, pela própria rejeição que causa a um número crescente de eleitores, notadamente os jovens, tendo sido nos últimos meses um dos motivos mais identificáveis e recorrentes dos protestos populares. Como analisa João Peres, em artigo fundamental para entender o comportamento atual do PMDB:

"O recado das ruas, à direita e à esquerda, foi claro: chega de acordão. Esgotou-se o ciclo 'ganha-ganha' do lulismo, e daqui para a frente terá de ser na base do enfrentamento dos 'velhos interesses' citados por Dilma."
Com efeito, não é preciso ser jovem para se indignar com a aliança de um partido que se crê de esquerda com figuras como Paulo Maluf, Renan Calheiros, Sérgio Cabral e uma manada de coroneizinhos e caciques regionais que mal disfarçam o autoritarismo, o anacronismo e o jogo baixo de interesses que caracterizam sua ação política – e, além disso, agem deliberadamente contra o governo que afirmam apoiar. Pois se sacrificar a ética para ganhar o apoio institucional de determinados partidos é algo a se lamentar profundamente, quanto mais no contexto da jovem democracia brasileira, que tal sacrifício não resulte efetivamente em apoio, mas em mais clientelismo e em desgaste público, aí já se trata em insistir em uma prática que foge à razão e à lógica política mais primária.




Rumos da esquerda
Não há, no horizonte, soluções fáceis nem para o impasse econômico nem para o vale-tudo político em que o país se encontra, após mais de dez anos sob a batuta de um governo que ainda é visto, por si próprio e por parte dos cidadãos, como progressista.

Mas há a esperança de que, para o futuro da esquerda, esteja agora claro que a recusa ao neoliberalismo, às privatizações e à primazia do mercado financeiro é imprescindível à orientação da economia; e que, em relação às práticas políticas, alianças ditadas por afinidade ideológica ou coesão programática são, a despeito de mais trabalhosas e menos amplas, as únicas aceitáveis ante o atual sacrifício da ética em nome do poder pelo poder.


(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O colunista Lula e os protestos populares



A estreia de Luiz Inácio Lula da Silva como colunista do The New York Times, para além de sua pontual contribuição à arena internacional, reinsere, de fora para dentro, a participação midiática do ex-presidente no debate público brasileiro, de onde tem sido sistematicamente alijada, numa operação deliberada de boicote e desqualificação comandada pela mídia corporativa.



Em seu primeiro artigo mensal, intitulado "Novas vozes no Brasil" e que repercutiu fortemente nas redes sociais, o ex-presidente se dedica a examinar o fenômeno dos protestos de ruas que irromperam em países árabes, se alastraram por democracias europeias em crise e, nos últimos dois meses, tomaram as ruas do Brasil. O "pulo de gato" do texto – e sua parte mais destacada pela imprensa – está contida neste período:

"Muitos analistas atribuem os protestos recentes a uma rejeição da política. Eu acho que é precisamente o oposto: apontam no sentido de ampliar o alcance da democracia e incentivar as pessoas a dela tomarem parte mais plenamente".

O jogo de palavras, embora não deixe de revelar perspicácia, baseia-se numa omissão: Lula finge desconhecer que, em meio a um movimento que tem como característica distintiva a diversidade de reivindicações, uma das mais identificáveis é a de que a politica contra a qual os jovens protestam é a institucional, partidária, especificamente aquela ora vigente no Brasil e da qual o ex-presidente foi um dos principais artífices, política esta que prioriza a hegemonia a qualquer custo em detrimento das identificações programáticas, dando pouca ou nenhuma atenção às implicações éticas – como a aliança entre Haddad e Maluf, apadrinhada pelo próprio Lula, exemplifica de forma icônica.



No papel de colunista estreante, ele revela estupefação pelo fato de os protestos populares não se limitarem a países não democráticos nem em aguda crise econômica – e aproveita para publicizar dados auspiciosos sobre desemprego e "expansão sem paralelo dos direitos econômico e sociais" no Brasil. Mas pouco se detém na análise dos porquês de, em um cenário tão alegadamente fabuloso em nosso belo país tropical, terem irrompido protestos em cadeia em grandes, médias e pequenas cidades brasileiras.



Negligencia, por exemplo, o quanto possa ter contribuído para tal explosão reivindicatória o caráter essencialmente antidialógico do governo Dilma Rousseff, caracterizado, em seus dois ano e meio iniciais, pelo isolamento palaciano, pela recusa sistemática ao diálogo com sindicatos, órgãos de classes, associações populares, ONGs e agências representantes de minorias; pela reação truculenta a greves e protestos, pela tendência a impor autoritariamente suas decisões - como a decretação unilateral e sem conversações prévias da MP 621, instituindo o Programa Mais Médicos, ilustra com propriedade, enfatizada pela subsequente desqualificação agressiva da classe médica, co-patrocinada pela militância petista.



A única explicação de Lula para a escalada das manifestações populares, emprestada de uma certa sociologia petista muito chegada a rotulações mas pouco a pesquisas empíricas que as corroborem, é, resumidamente, a de que justamente por ascenderem socialmente (em seu governo e no de Dilma), os jovens que vieram das classes D e E estariam mais exigentes em relação aos serviços públicos e à própria política.



Trata-se de uma explicação altamente questionável. Não fosse por outro motivo, porque supõe uma supremacia de um estrato socioeconômico muito específico nos protestos, o que não se verifica nas pesquisas sobre os eventos e contraria os diagnósticos da própria blogosfera governista, a qual cansou de martelar que as manifestações seriam eventos essencialmente burgueses, desprovidos de trabalhadores e do povão - o que seria, ainda segundo tais governistas, corroborado pela baixíssima presença de negros nos protestos.



Agora, que a análise levada a cabo por seu grande líder contraria os falsos diagnósticos que visavam servir à desqualificação dos protestos, os blogueiros mais bovinos já desdizem o que antes seguidas vezes afirmavam, saudando o petismo por mais este feito notável, o de colocar o povo nas ruas, marchando por seus direitos. Um pouco de coerência, senhores!



Lula, naturalmente, passa longe de tais picuinhas. Ainda que, no rescaldo dos protestos, não perca uma oportunidade de promover a seu governo e a de tentar retratar a reação de Dilma à melhor luz possível, procura posicionar-se, no texto, como um estadista que vê a situação de olímpica distância, alertando para o perigo da repressão violenta e das "soluções não democráticas" e procurando cooptar os jovens a quem se dirige diretamente: "quando você estiver irritado com a situação da sua cidade, do seu estado, do seu país, desanimado de tudo e de todos, não negue a política. Ao contrário, participe! Porque o político que você deseja, se não estiver nos outros, pode estar dentro de você."



Independentemente das críticas específicas que se possa pontualmente fazer às ideias e posições que Lula defende no artigo, a repercussão por este obtida mostra que a colaboração do ex-presidente com o diário novaiorquino merece ser saudada como uma novidade alvissareira, que amplia e recoloca no centro do debate a voz de um sujeito político dos mais relevantes, voz esta injustamente perseguida por uma mídia corporativa que, a despeito de suas falcatruas jornalísticas ou fiscais, segue sendo beneficiária de vultosas verbas públicas gerenciadas pela Secom – num permanente atentado à democracia brasileira que os governos petistas, por covardia ou interesses inconfessos, não lograram desarticular.



(Foto retirada daqui)