Os textos deste blog estão sob licença

Creative Commons License

terça-feira, 30 de julho de 2013

"Se não voltar em Dilma, vai votar em quem?"

- "Se você não votar em Dilma, vai votar em quem?" - A pergunta, em tom passivo agressivo, costuma ser dirigido a quem quer que, sem identificar-se com o conservadorismo, dê mostras de estar desiludido com o atual governo e com o estágio de setores essenciais como Educação, Saúde, Meio Ambiente e Transportes após mais de uma década de administração petista.

Vem, de ordinário, acompanhada de duas listas: uma contrapõe os números da economia e de indicadores sociais ao final do governo FHC e após uma década de petismo; a outra desqualifica minuciosamente os prováveis opositores a Dilma nas eleições do ano que vem, culminando com o realçar de qualidades da atual mandatária, das óbvias às inauditas, passando pelas menos evidentes.


Distorções metodológicas
Como a primeira lista exaustivamente demonstra, não restam dúvidas de que, em termos de economia – e, sobretudo, de conquistas sociais por esta proporcionada – os petistas batem de goleada os tucanos. Isso, no entanto, não impede a constatação de algumas distorções relativas à lista.

As duas primeiras são de cunho histórico e metodológico: comparar os oito anos dos tucanos com os 10 anos e meio dos petistas denota descritério, posto que o tempo disponível aos primeiros para consolidar melhorias seria, dessa forma, cerca de 30% do que o disponível aos últimos. A comparação justa e cabível no caso seria entre a presidência de FHC e a de Lula, ambas de dois mandatos de igual duração. Neste caso, igualmente, a supremacia desta ante aquela em virtualmente todos os quesitos de economia social mostra-se pronunciada.

Deriva diretamente de tal descritério a segunda e mais grave distorção inerente às listas petistas de convencimento: ao comparar o legado de FHC com o de Lula e Dilma indistintamente e em bloco, impede-se que o eleitor tenha uma correta dimensão das falhas e acertos do governo da atual mandatária. Pois, com o perdão pela obviedade, o antecessor imediato desta não é o sociólogo de triste memória, mas, para o bem ou para o mal, Lula, o arquiteto do "novo Brasil" que aí está. Desnecessário assinalar que se trata de uma omissão deliberada, pois não só a candidata petista tende a sair muito mal na foto na contraposição a seu mentor e sucessor imediato, mas tal comparação daria ao público em geral, de forma didática, a dimensão de sua problemática administração e a explicação das razões de fundo para as manifestações populares deflagradas a partir de junho.



Meras desqualificações
Quanto à segunda lista que é volta e meia apresentada aos eleitores desencantados, novos ou antigos, ela prima pela desqualificação dos opositores ao petismo. Trata-se de uma arte que o PT sempre cultivou, mas que atingiu novos patamares com a assimilação, nos últimos anos, dos métodos do jornalismo neocon de Veja e similares, os quais implicam na ausência de limites ou bom senso e na concepção do opositor - e dos críticos do partido, mesmo se eventuais - como inimigo.

Independentemente de quem sejam os concorrentes, trata-se de um método abjeto. Se esta avaliação talvez pareça menos evidente quando o opositor em questão é, digamos, um Aécio Neves, advindo de um partido com um histórico de enfrentamento feroz com o petismo - incluindo vários golpes baixos -, ela mostra-se rigorosamente justa quando se observa o tratamento ora dispensado pelo partido e seus militantes a figuras que até ontem eram, na condição de aliados ou mesmo estrelas petistas, pelos próprios exaltadas, como, respectivamente, o governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB/PE) ou Marina Silva (sem partido), ex-senadora do Acre pelo próprio PT.



De exemplar à execrada
O caso da acriana é particularmente exemplar como evidência da memória curta, da volubilidade de critérios e da lógica "quem não está conosco está contra nós" do petismo em sua fase ultrapragmática. Quadro formador do petismo e por este formado, Marina foi durante décadas saudada como uma personalidade política especial dentro do partido: expoente amazônico e seu maior expert em políticas ambientais, compôs, durante décadas, uma espécie de arquétipo feminino de Lula, na origem humilde, na ascensão intra partidária a partir das bases, no reconhecimento internacional.

Esse era o status de Marina Silva até 2008, quando, após cinco anos de uma atuação sem precedentes, saudada e premiada nacional e internacionalmente, como ministra do Meio-Ambiente do governo Lula, pede demissão ao final de uma série de conflitos com a chefe da Casa Civil e gerentona do progressismo a qualquer custo, a hoje presidente Dilma Rousseff.

Do dia para a noite, a proeminente aliada vira persona non grata nas hostes petistas, despertando a fúria por ter ousado primeiro enfrentar, depois rejeitar um projeto político baseado na relativização da ética para alianças partidárias e em um modelo arcaico de desenvolvimentismo na área econômica. Com o lançamento de sua candidatura à Presidência em 2010, pelo PV, consuma sua transformação, aos olhos petistas, em um ser pestilento, repositório de tudo que há de repulsivo e condenável na política nacional.

- "Ela é crente!" - brada o petista típico, listas nas mãos, como se se referisse a um assassino de bebês, como se professar uma religião fosse impedimento ao exercício da Presidência, como se o próprio governo Dilma não fosse o playgound do neopentecostalismo, determinando vetos presidenciais contra kits educativos, patrocinando um vergonhoso atraso nas questões relativas a comportamento e a gêneros sexuais, zombando da cidadania e dos Direitos Humanos ao deixar, por desinteresse, um representante do atraso como Marco Feliciano presidir a comissão legislativa relativa ao tema.



Jovens eleitores x anacronismos
Em pleno 2013, a quem os petistas pensam que enganam com tais estratégias discursivas, com tais discrepâncias entre discurso e prática, com uma concepção de política em que o gozo da ética e da legitimidade pertence exclusivamente aos membros do partido, e os que a eles se opõem, na opinião pública ou na arena eleitoral, são concebidos como inimigos aos quais se destina a desqualificação e o extermínio?

Os protestos nas ruas, a despeito de sua virulência e espontaneidade, não parecem estar servindo de alerta – e isso se dá em grande parte graças à mitomania do partido, viciada em livrar-se das críticas atribuindo-as exclusivamente à má vontade da mídia, e que tem sido internamente bem-sucedida em atribuir as manifestações a novos bodes expiatórios, como o Facebook e até misteriosos organismos internacionais. Mas o fato inconteste é que, nas próximas eleições, jovens entre 18 e 25 anos devem vir a ter um papel decisivo. Para eles, que tinham entre 6 e 13 anos quando FHC transferiu o poder a Lula e passaram toda a vida sob o o governo do PT, as listas de convencimento petistas, com suas comparações maravilhosas, tendem a ser não apenas anacrônicas, mas contraproducentes: anseiam pelo novo, mas lhes é oferecido uma mirada no retrovisor, focada em um passado que sequer viveram.

- "Não votar em Dilma é votar na direita" – conclui o petista típico, em uma oração que resume de forma cabal a pobreza binária de seu raciocínio, a (por si questionável) arrogância exclusivista na qual se baseia e a escassez de alternativas as quais sua visão autocentrada deixa de enxergar.


(Imagem retirada daqui e manipulada digitalmente)

terça-feira, 23 de julho de 2013

O modelo petista em debate

No mesmo dia em que o governo Dilma promoveu cortes de R$10 bilhões no Orçamento anual, o Bradesco anunciou lucros de R$5,6 bi no semestre. Mais do que mera coincidência, a simultaneidade de eventos e de valores traz em seu bojo, para os que não se negam a ver, um retrato acabado das contradições do modelo econômico petista – e de seus limites.

O corte governamental deve-se à primazia do equilíbrio fiscal, cujo maior símbolo é a colocação, no centro das prioridades da área econômica, do cumprimento da meta de 2,3% do PIB para o superávit primário (ou seja, do saldo entre arrecadação e gastos governamentais, excetuado juros e atualização monetária). Dessa forma, destina-se ao mercado financeiro capital que seria investido em áreas relevantes para o país, tais como transportes, saúde, meio ambiente e cultura.

Já vimos esse filme diversas vezes – durante todo o governo FHC, no terço inicial da Era Lula e no primeiro ano da própria Dilma – e o final nunca nos agradou: invariavelmente deprime a atividade econômica. Felizmente, no caso dos presidentes petistas, fatores externos fizeram com que, nas vezes anteriores, deixassem de lado tal obsessão e priorizassem a tempo um receituário de expansão da economia baseado, por um lado, na incorporação de amplos estratos da população ao consumo via expansão do crédito, e, por outro, nos dividendos advindos do mercado internacional aquecido para as commodities primárias que o Brasil exporta.



Cenário deteriorado
A má notícia, porém, é que, em seu final de governo, Dilma não poderá contar com tal cenário – pois, por um lado, o endividamento das classes D e C já compromete boa parte dos salários e, por outro, a demanda por e os preços das commodities vêm despencando no mercado internacional. Pior: a arrecadação tributária tende a cair consideravelmente no ano fiscal 2013, não só em decorrência do desaquecimento da economia, mas em virtude das isenções fiscais concedidas a granel - e sem exigência de contrapartidas como manutenção de empregos ou de preços – pela área econômica sob o comando de Mantega.

O modelo de política econômica adotado pelo PT na última década chega, assim, a um impasse. Apresenta como grandes méritos a ascensão social de um volumoso percentual de brasileiros historicamente presos à base de nossa particularmente injusta pirâmide social e a manutenção de baixos índices de desemprego (ainda que, em relação a estes, um debate detalhado dos métodos de aferição e classificação mostre-se necessário, se se quer ter uma noção precisa do mercado de trabalho no país). Mas não permite mais sustentar a ilusão de que seria possível, concomitantemente, promover justiça social e desenvolver o país sem cobrar das classes mais abastadas o devido ônus pelas gorduras acumuladas em séculos de exploração. O cenário atual evidencia como falsa tal premissa, demandando medidas que visem efetivamente à redução das assimetrias socioeconômicas e que tributem as grandes fortunas, combatam o lucro excessivo e promovam a redistribuição de renda dos mais ricos para os mais pobres – o que difere, em essência, do modelo de assistencialismo estatal em que se baseiam os atuais programas de renda mínima.




O retorno ao neoliberalismo
Pior: o governo Dilma, que recebeu de Lula um país em condições incomparavelmente melhores do que as que FHC legara a seu sucessor, perdeu a oportunidade histórica de combater o neoliberalismo, o qual, a despeito dos efeitos sociais nefastos que invariavelmente lega, continua a fazer parte do receituário de países em crise. Pois ao invés de combatê-lo, a atual mandatária, com uma rapidez temerosa – pois autoritária e avessa a diálogos - preferiu ressuscitar as privatizações, agora rebatizadas, à la Orwell, de concessões.

Depois de tal retrocesso, não surpreende que suas tentativas, potencialmente redentoras, de reduzir os juros bancários tenham sido revertidas ante os primeiros espirros – reais ou fabricados – de inflação: somada à confissão de incapacidade estatal implícita às concessões de aeroportos, petróleo e portos à iniciativa privada, a recusa da presidente em encarnar, neste e em outros episódios, um Estado pró-ativo, que efetivamente agisse junto aos agentes econômicos e financeiros para trazer os juros a patamares civilizados assinalou, na prática, que o neoliberalismo permanece profundamente introjetado na concepção política petista, a despeito do aparente desejo de pontualmente contestá-lo.

O resultado é que o país chegará às eleições de 2014, após um período democrático de 30 anos, sem conhecer governo cuja política econômica não tenha orbitado em torno do neoliberalismo – e, o que é pior: com este mais reforçado e mais presente, tanto em termos de política econômica quanto de ("não")ideologia que as orientam, do que estava há quatro anos, quando Dilma recebeu a faixa presidencial.




Alianças contestadas
Porém, talvez ainda mais grave do que o desgaste do modelo econômico adotado pelo PT na última década seja, neste momento, o esgotamento da política de amplas alianças adotada pelo partido, visando criar melhores condições para a governabilidade e para a manutenção da hegemonia política.

Em primeiro lugar, porque a chamada "base aliada" já deu mostras suficientes de que não forma base alguma e não se mostra minimamente aliada ao governo federal – pelo contrário: se antes das movimentações populares deflagradas em junho cada votação no Congresso era uma batalha e uma oportunidade de pressionar o governo por mais verbas e cargos, desde a eclosão dos protestos o governo tornou-se claramente refém de sua dita "base", notadamente do PMDB. Neste exato momento, o futuro do governo Dilma – e do país – encontra-se submetido à ganância desmedida e à falta de espírito republicano desse partido cujo único ideário, desde o final da ditadura, parece ser estar sempre no poder.



Rejeição popular
O esgotamento do modelo de alianças petistas se dá, em segundo lugar, pela própria rejeição que causa a um número crescente de eleitores, notadamente os jovens, tendo sido nos últimos meses um dos motivos mais identificáveis e recorrentes dos protestos populares. Como analisa João Peres, em artigo fundamental para entender o comportamento atual do PMDB:

"O recado das ruas, à direita e à esquerda, foi claro: chega de acordão. Esgotou-se o ciclo 'ganha-ganha' do lulismo, e daqui para a frente terá de ser na base do enfrentamento dos 'velhos interesses' citados por Dilma."
Com efeito, não é preciso ser jovem para se indignar com a aliança de um partido que se crê de esquerda com figuras como Paulo Maluf, Renan Calheiros, Sérgio Cabral e uma manada de coroneizinhos e caciques regionais que mal disfarçam o autoritarismo, o anacronismo e o jogo baixo de interesses que caracterizam sua ação política – e, além disso, agem deliberadamente contra o governo que afirmam apoiar. Pois se sacrificar a ética para ganhar o apoio institucional de determinados partidos é algo a se lamentar profundamente, quanto mais no contexto da jovem democracia brasileira, que tal sacrifício não resulte efetivamente em apoio, mas em mais clientelismo e em desgaste público, aí já se trata em insistir em uma prática que foge à razão e à lógica política mais primária.




Rumos da esquerda
Não há, no horizonte, soluções fáceis nem para o impasse econômico nem para o vale-tudo político em que o país se encontra, após mais de dez anos sob a batuta de um governo que ainda é visto, por si próprio e por parte dos cidadãos, como progressista.

Mas há a esperança de que, para o futuro da esquerda, esteja agora claro que a recusa ao neoliberalismo, às privatizações e à primazia do mercado financeiro é imprescindível à orientação da economia; e que, em relação às práticas políticas, alianças ditadas por afinidade ideológica ou coesão programática são, a despeito de mais trabalhosas e menos amplas, as únicas aceitáveis ante o atual sacrifício da ética em nome do poder pelo poder.


(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O colunista Lula e os protestos populares



A estreia de Luiz Inácio Lula da Silva como colunista do The New York Times, para além de sua pontual contribuição à arena internacional, reinsere, de fora para dentro, a participação midiática do ex-presidente no debate público brasileiro, de onde tem sido sistematicamente alijada, numa operação deliberada de boicote e desqualificação comandada pela mídia corporativa.



Em seu primeiro artigo mensal, intitulado "Novas vozes no Brasil" e que repercutiu fortemente nas redes sociais, o ex-presidente se dedica a examinar o fenômeno dos protestos de ruas que irromperam em países árabes, se alastraram por democracias europeias em crise e, nos últimos dois meses, tomaram as ruas do Brasil. O "pulo de gato" do texto – e sua parte mais destacada pela imprensa – está contida neste período:

"Muitos analistas atribuem os protestos recentes a uma rejeição da política. Eu acho que é precisamente o oposto: apontam no sentido de ampliar o alcance da democracia e incentivar as pessoas a dela tomarem parte mais plenamente".

O jogo de palavras, embora não deixe de revelar perspicácia, baseia-se numa omissão: Lula finge desconhecer que, em meio a um movimento que tem como característica distintiva a diversidade de reivindicações, uma das mais identificáveis é a de que a politica contra a qual os jovens protestam é a institucional, partidária, especificamente aquela ora vigente no Brasil e da qual o ex-presidente foi um dos principais artífices, política esta que prioriza a hegemonia a qualquer custo em detrimento das identificações programáticas, dando pouca ou nenhuma atenção às implicações éticas – como a aliança entre Haddad e Maluf, apadrinhada pelo próprio Lula, exemplifica de forma icônica.



No papel de colunista estreante, ele revela estupefação pelo fato de os protestos populares não se limitarem a países não democráticos nem em aguda crise econômica – e aproveita para publicizar dados auspiciosos sobre desemprego e "expansão sem paralelo dos direitos econômico e sociais" no Brasil. Mas pouco se detém na análise dos porquês de, em um cenário tão alegadamente fabuloso em nosso belo país tropical, terem irrompido protestos em cadeia em grandes, médias e pequenas cidades brasileiras.



Negligencia, por exemplo, o quanto possa ter contribuído para tal explosão reivindicatória o caráter essencialmente antidialógico do governo Dilma Rousseff, caracterizado, em seus dois ano e meio iniciais, pelo isolamento palaciano, pela recusa sistemática ao diálogo com sindicatos, órgãos de classes, associações populares, ONGs e agências representantes de minorias; pela reação truculenta a greves e protestos, pela tendência a impor autoritariamente suas decisões - como a decretação unilateral e sem conversações prévias da MP 621, instituindo o Programa Mais Médicos, ilustra com propriedade, enfatizada pela subsequente desqualificação agressiva da classe médica, co-patrocinada pela militância petista.



A única explicação de Lula para a escalada das manifestações populares, emprestada de uma certa sociologia petista muito chegada a rotulações mas pouco a pesquisas empíricas que as corroborem, é, resumidamente, a de que justamente por ascenderem socialmente (em seu governo e no de Dilma), os jovens que vieram das classes D e E estariam mais exigentes em relação aos serviços públicos e à própria política.



Trata-se de uma explicação altamente questionável. Não fosse por outro motivo, porque supõe uma supremacia de um estrato socioeconômico muito específico nos protestos, o que não se verifica nas pesquisas sobre os eventos e contraria os diagnósticos da própria blogosfera governista, a qual cansou de martelar que as manifestações seriam eventos essencialmente burgueses, desprovidos de trabalhadores e do povão - o que seria, ainda segundo tais governistas, corroborado pela baixíssima presença de negros nos protestos.



Agora, que a análise levada a cabo por seu grande líder contraria os falsos diagnósticos que visavam servir à desqualificação dos protestos, os blogueiros mais bovinos já desdizem o que antes seguidas vezes afirmavam, saudando o petismo por mais este feito notável, o de colocar o povo nas ruas, marchando por seus direitos. Um pouco de coerência, senhores!



Lula, naturalmente, passa longe de tais picuinhas. Ainda que, no rescaldo dos protestos, não perca uma oportunidade de promover a seu governo e a de tentar retratar a reação de Dilma à melhor luz possível, procura posicionar-se, no texto, como um estadista que vê a situação de olímpica distância, alertando para o perigo da repressão violenta e das "soluções não democráticas" e procurando cooptar os jovens a quem se dirige diretamente: "quando você estiver irritado com a situação da sua cidade, do seu estado, do seu país, desanimado de tudo e de todos, não negue a política. Ao contrário, participe! Porque o político que você deseja, se não estiver nos outros, pode estar dentro de você."



Independentemente das críticas específicas que se possa pontualmente fazer às ideias e posições que Lula defende no artigo, a repercussão por este obtida mostra que a colaboração do ex-presidente com o diário novaiorquino merece ser saudada como uma novidade alvissareira, que amplia e recoloca no centro do debate a voz de um sujeito político dos mais relevantes, voz esta injustamente perseguida por uma mídia corporativa que, a despeito de suas falcatruas jornalísticas ou fiscais, segue sendo beneficiária de vultosas verbas públicas gerenciadas pela Secom – num permanente atentado à democracia brasileira que os governos petistas, por covardia ou interesses inconfessos, não lograram desarticular.



(Foto retirada daqui)

domingo, 30 de junho de 2013

Dilma em seu labirinto

Tenho uma profunda admiração pelo ser humano Dilma Rousseff, alguém que, em plena juventude e correndo alto risco, lançou-se à luta contra um regime ditatorial que usurpou ilegalmente o poder; uma mulher que, capturada, suportou as piores sevícias, sendo física e psicologicamente torturada e, sem ter delatado companheiros de luta, encarou altivamente seus carrascos no simulacro de julgamento a que teve direito.

Embora intimamente discordasse do modo como foi escolhida como candidata – com o dedazo substituindo a saudável disputa intrapartidária – votei em Dilma Rousseff nos dois turnos e com convicção, pois a continuidade – e o aprofundamento das conquistas - da presidência Lula afiguravam-se, para mim, no contexto daquela eleição, como o único caminho então possível para a melhoria do país.


Ética e simbolismos
A importância histórica de termos, pela primeira vez em nossa história, uma mulher – e uma ex-guerrilheira - no mais alto cargo do país colaborava para a impressão de que tal voto significaria um avanço para a democracia brasileira e um bom presságio para o tratamento das questões de gênero no país.

Não tenho dúvidas de que a presidente Dilma Rousseff é uma mandatária bem-intencionada, honesta e dedicada, que quer o melhor para o país e para o povo e se empenha muito para isso.

No entanto, infelizmente, tais histórico e retidão pessoal têm se mostrado insuficientes para assegurar um bom desempenho à frente da Presidência do país – e há razões concretas e objetivas que ajudam a entender o porquê dessa lacuna, as quais, como veremos ao longo deste artigo, vão desde fatores externos, relativos à economia mundial, passam por questões de personalidade e estilo administrativo e culminam com opções econômicas e políticas questionáveis.

Estas, além de terem sacrificado no altar das coligações religiosas os esperados avanços no tratamento das questões de gênero, não raro foram ditadas, olhos nas eleições, pela ambição em ampliar a hegemonia político-partidária, associando-se a figuras públicas que protagonizam tanto as páginas de política quanto o noticiário criminal e com forças partidárias cuja identificação programática com o PT é nenhuma. E isso mesmo depois de Dilma ter assumido com uma base aliada bem maior que a de Lula em seus dois mandatos. 

Os danos à ética e os efeitos danosos em termos de desideologização da política que tal pragmatismo gera foram amplamente negligenciados à época, mas agora, nas ruas - e futuramente, nas urnas - cobram o seu preço.



Alertas em vão
Quem acompanha há tempos este blog não se espanta com a queda brutal dos índices de aprovação de Dilma (de 57% em março para 30% em final de junho, segundo o Datafolha). Pelo contrário: nos últimos dois anos e meio boa parte dos textos aqui publicados se dedicou a examinar criticamente o seu governo, a desvendar porque, ao invés de aprofundar conquistas seminais do governo Lula, a atual administração preferiu dar uma guinada conservadora que, exatamente como diversas vezes previmos, a leva agora a perder parte do eleitorado à esquerda - que se sentiu traído - e ver o recém-adquirido eleitorado conservador bater asas aos primeiros indícios de crise econômica. Se algo surpreende, é que tal queda tenha demorado tanto para ocorrer - e que ocorra de forma tão brusca.

Não é com satisfação ou orgulho que vejo tais previsões se confirmarem – pelo contrário: é com profundo pesar, pela certeza de que o governo Dilma Rousseff desperdiçou uma chance histórica única de aprofundar conquistas da esquerda e lançar pás de cal ao neoliberalismo. Preferiu, ao invés disso, apostar num modelo arcaico de desenvolvimentismo a qualquer custo, que restabeleceu o primado do economicismo sobre as políticas sociais e, cometendo o estelionato eleitoral de ressuscitar as privatizações que na campanha eleitoral combatera, embaçou a distinção com a agenda da direita e abriu flancos que o conservadorismo certamente explorará nas próximas eleições.



O contexto econômico internacional
O cenário internacional exerce, sem dúvida, um importante papel nesse retrocesso, pois a queda do preço internacional das matérias-primas tem afetado incisivamente o Brasil, que mantém um modelo exportador arcaico, baseado no agronegócio e em commodities: estima-se que, com tal baratamento, o país tenha perdido algo em torno de U$20 bilhões entre 2011 e 2013. Há ainda os fatores decorrentes da prolongação da crise na Europa, que diminuiu drasticamente investimentos no país, e, neste momento, da sinalização mais clara de recuperação da economia dos EUA, que tende a atrair parte considerável do montante financeiro internacional antes passível de ser investido no Brasil.

Por outro lado, há de se levar em conta que o momento mais agudo da crise mundial como tal foi vivenciado ao final do segundo mandato de Lula, e que o país reagira de forma consideravelmente bem ao choque – faltou, portanto, habilidade para lidar com suas decorrências. Mais importante, os demais BRICs e países situados fora da Europa – aí incluídos vários de nossos vizinhos latino-americanos, e, mais recentemente, alguns dos "tigres asiáticos" -, sob as mesmas condições internacionais vivenciadas pelo governo Dilma, vêm apresentando um desempenho econômico incomparavelmente melhor do que o Brasil, como a comparação entre os PIBs nacionais deixa claro.



O peso da personalidade
Além de sua relação com as decisões econômicas nacionais, com as alianças partidárias e com a economia mundial, um terceiro fator a ser considerado ante a crise do governo Dilma decorre de sua personalidade e seu estilo de administrar como presidente. Por algum tempo rejeitei esse tipo de crítica - e cheguei a escrever sobre isso no Observatório da Imprensa - , por interpretá-la como uma manifestação do entranhado machismo brasileiro, para o qual a mulher "dócil" e "feminina" careceria de autoridade para exercer o poder e a mulher "assertiva" e "determinada" – como Dilma - incorreria em autoritarismo. O tempo provaria que, em se tratando da atual presidente, não era esse o caso: mesmo analistas políticos os mais afinados com o governo são unânimes em apontar o excesso de autoritarismo no trato e a concentração excessiva de poder decisório – esta como método obsessivo de repressão à corrupção - como duas das características negativas principais da atual mandatária.

Trata-se de dois defeitos deletérios a uma boa gestão, que desestimulam a criatividade, a iniciativa, e coíbem a autonomia, restringindo drasticamente o raio de ação de cada ministro, fenômeno nítido na atual administração. Dilma é uma mulher muito inteligente, mas a recusa em delegar tarefas decisórias a especialistas muito mais capazes do que ela ajuda a compreender a impressão de marasmo e atrofia que se depreende de sua administração. Não acredita? Faça uma comparação caso a caso do desempenho dos ministros da era Lula com os da era Dilma. Sugiro começar contrapondo o ministério da Educação sob Haddad e sob Mercadante.



Estratégias diversionistas
Para piorar o quadro acima esboçado, setores e simpatizantes petistas que poderiam lutar internamente pela reversão de tais políticas preferiram adotar um comportamento de seita, saudando bovinamente o neoconservadorismo e toda e qualquer medida governamental e abrindo mão da necessária reflexão crítica - em prol, por um lado, de um "oba-oba, salve o rei" baseado em índices de aprovação e em projeções sobre as eleições de 2014, as quais eles consideravam favas contadas; por outro lado, pelo hábito entranhado de, ante a mínima crítica - ou mesmo apresentação de dado desfavorável ao governo -, desqualificar seu autor  e a fonte. Ficar se lamentando contra o "PIG" o STF ou Gurgel, como fizeram até agora durante todo o mandato de Lula e Dilma, pode ser uma experiência catártica redentora, mas em termos de ação politica é inócua. Equivale a perder tempo em lamentações enquanto os adversários se armam. Assim, o efeito final de tal comportamento dual foi tornar, a muitos, invisível a crise que ora explode.

O mesmo comportamento de avestruz ocorre, agora, ante as manifestações que têm lugar em todo o país. Não é por outro motivo que os blogueiros que apoiam incondicionalmente o governo, depois de inicialmente atacarem o movimento nos mesmíssimos termos utilizados por Arnaldo Jabor e de, ante a proliferação de protestos, recuarem estrategicamente para uma posição de empatia forçada e paternalismo, nas últimas semanas voltaram a procurar desqualificá-lo de todas as formas, temerosos de que o vácuo de autoridade e o caráter raivosamente antipartidário das manifestações as transformassem em um fator de desprestígio de Dilma Rousseff, como de fato ocorreu.

As manifestações, porém, são um fato: trazem um dado novo à política nacional, bagunçam o coro dos contentes e fazem as por si questionáveis previsões para 2014 tornarem-se ainda mais incertas. Mais importante: demonstram cabalmente, para quem não se recusa a ver, que há uma insatisfação difusa mas generalizada no país, a qual a fórmula conciliadora e assitencialista petista não foi capaz sequer de detectar, o que dizer de reverter minimamente. E que, para uma geração que nem tinha nascido quando o governo FHC começou (e tinha 7 ou 8 anos quando ele entregou o governo a Lula) não causa espécie ficar mostrando dados comparativos do desempenho econômico de FHC e de Lula (mesmo porque estamos no governo Dilma, cujo desempenho é não só bem pior mas muito mais conservador do que o de seu antecessor petista)



Volta às ruas?
Agora o PT promete sair as ruas, coisa que não fez nos últimos dez anos, nem mesmo quando as denúncias do "mensalão" bombardeavam o presidente Lula noite e dia, ou quando o julgamento tornou-se um reality-show com juízes aparentemente acuados ante a mídia, e nem mesmo sequer quando o tribunal, ante a escassez de evidências, inverteu o ônus da prova e recorreu a uma teoria pra lá de questionável como forma de condenar os réus. 
 
E por que o PT assim agiu? Porque, marqueteiros a postos e pesquisas de opinião à mão, não se podia criar nenhuma marola que perturbasse os índices de aprovação de Dilma. Pois estes agora estão gravemente perturbados e em um cenário de ruas ocupadas. E agora? Persistirá a tática de culpar o PIG, o Joaquim Barbosa e o Facebook pela derrocada da candidata petista ou haverá gana, espaço e disposição para enfrentar os problemas e reverter o conservadorismo gritante e suas deletérias consequências, que ora se apresentam?


(Imagem retirada daqui e manipulada digitalmente)

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O fantasma do golpe

As cenas de violência e intolerância por parte de manifestantes, que tiveram lugar nas manifestações de ontem, de forma simultânea e em diversos pontos do Brasil, evidenciam a necessidade de uma intervenção mais efetiva da sociedade civil organizada – OAB, ABI, CNBB, ONGs e entidades de Direitos Humanos -, de forma a criar canais de interlocução com os organizadores dos protestos e impedir que neles se instituam práticas antidemocráticas, como impedir a livre manifestação de pessoas com vinculação partidária ou sindical identificadas como tais.



É necessário, ainda, que a sociedade e os órgãos responsáveis – Ministério Público à frente – reflitam e investiguem sobre a natureza suspeita dos eventos de ontem: o caráter simultâneo da violência e os relatos coincidentes sobre grupos grandes com homens muito fortes e encapuzados apontam para uma ação coordenada em âmbito nacional por quem tem capacidade e meios para tal - e disso se beneficiaria. Se levarmos em conta que não é do interesse do movimento a disseminação da violência - e que esta até agora, quando não partiu da PM, vinha sendo mantida em níveis mínimos, resultando em passeatas pacíficas -, é forçoso reconhecer que ela interessa sobretudo a duas esferas: a de grupos radicais paramilitares ávidos por desestabilizar a democracia e a dos poderes estaduais e federal – que poderiam fazer uso de serviço policial reservado -, de forma a criminalizar, tornar perigosos e esvaziar os protestos.



A eclosão da violência suspeita de ontem serviu à disseminação, nas redes sociais, do alerta de que haveria perigo iminente de golpe militar – e que a mídia, rede Globo à frente, o estaria insuflando. Na ponta de lança de tais alarmes, blogueiros governistas - como Paulo Henrique Amorim e Eduardo Guimarães - que desde o início do movimento procuraram desqualificá-lo, com argumentos idênticos aos inicialmente empregados por ninguém menos que Arnaldo Jabor. Assustados com a evidência inconteste, nas ruas de todo o país, de que a presidente Dilma está longe de ter a aprovação popular que supunham e que 2014 não vai ser as favas contadas que imaginavam, agem como um "PIG do B", insuflando o temor e o clima de suposta instabilidade institucional. De concreto, só uma tática diversionista de quem não se conforma pelo PT ter perdido o monopólio da mobilização popular que acreditavam ter.



Mas não é só na relação entre política e popularidade que os fatos teimam em contrariar tais blogueiros: na cobertura dos protestos, a Globo repetiu várias de suas vicissitudes – construindo uma narrativa maniqueísta protagonizada por manifestantes bonzinhos e vândalos malvados; deixando de oferecer uma reflexão crítica minimamente aprofundada sobre as razões do protesto e da violência; reforçando as demandas populares que se referem ao governo Dilma e minimizando as que afetam governadores tucanos. Mas se mostrou longe, muito longe, neste momento, de praticar um jornalismo alarmista visando pavimentar o terreno para o golpe, como alardeiam com estridência e mentirosamente muitos governistas nas redes sociais.



Pois se há um mérito indiscutível nas manifestações é que desvelaram ao Brasil e ao mundo um alto grau de insatisfação popular por parte de jovens, os quais passaram a maior parte da vida em um país governado pelo PT – o que, justa ou injustamente e não obstante os avanços alcançados, evidencia que o país está longe de ter se transformado na maravilha que o petismo alardeia.



O fato de os protestos terem irrompido e se alastrado durante o governo Dilma Rousseff deixa cristalinamente claro que, como parte da esquerda descontente vinha denunciando, acumulavam-se problemas de monta em sua administração, e que ganhava corpo um sentimento difuso de insatisfação popular, o qual as pesquisas de opinião ainda mal haviam captado. Mas o governismo, como sempre, preferiu ignorar, enterrar a cabeça na terra e utilizar-se de seu bode expiatório favorito, o tal de "PIG", fingindo que os alertas sobre os pesados aumentos de preços, consolidados, segundo dados do próprio governo, num índice anual de inflação no quesito alimentos de 13,94% (bem maior do que a inflação total média do período FHC, de 9,24%), era "terrorismo midiático"; que é normal um governo que se elegeu criticando privatizações como um crime de lesa-pátria trair seus eleitores e sair privatizando e lesando a pátria impunemente; que vale tudo nas alianças, seja a direita religiosa, a ruralista Kátia Abreu, o símbolo da corrupção Paulo Maluf ou o prototucano Guilherme Afif Domingos, como se ninguém estivesse vendo a ética ser jogada no lixo em nome do pragmatismo eleitoral e da ampliação da hegemonia no poder (que, como assinalou Gramsci, é diferente da hegemonia política). Os governistas fanáticos fingiram não notar tais graves transgressões éticas e achavam que o povo não as percebia, mas este, sem as amarras das paixões partidárias, a tudo observou criticamente, até que sua insatisfação transbordou.



A invocação ao golpe militar, atual obsessão de blogueiros chapa-branca e de governistas acríticos, é uma reação psicológica a esse quadro, a expressão de uma necessidade de, a um tempo, desqualificar os movimentos populares que deixaram claro que o rei está nu (e que desta vez não vai haver quadro comparativo entre os governos FHC e Lula que dê jeito) e reafirmar um suposto caráter esquerdista e popular do governo Dilma, caráter este que a eventual ação golpista, paradoxalmente, legitimaria. Ou seja, o fantasma do golpe militar é, neste momento, um misto de alusão a um último e abominável ato contra um governo democraticamente eleito e, para o governismo bovino, um wishful thinking inconsciente, inconfessável e redentor.

domingo, 16 de junho de 2013

O povo nas ruas: causas e reações

O gigante adormecido acordou. Subitamente e sem aviso, a tão criticada passividade do povo brasileiro foi deixada de lado e as ruas foram invadidas por jovens que vão literalmente à luta por melhores condições de transporte e de vida. Mas alguns dos que permanecem sentados, mesmo que à esquerda, insistem, por desconhecimento, mesquinharia ou interesses inconfessáveis, em fingir que a luta dos manifestantes é por "apenas" R$0,20.

Por estes dias, há manifestações reais ocorrendo nas ruas e outras, editadas, sendo retratadas nos telejornais, sem semelhança entre umas e outras. O caráter elitista e antipovo da mídia brasileira, seu temor de o que quer que seja popular – ainda mais na seara política – assombra cada cobertura, que repete um discurso monocórdio de criminalização dos protestos.


Reações temerosas
Mas não é só a mídia corporativa - e os setores conservadores - que se esforça ao máximo para desqualificá-los, seja tipificando os manifestantes como uma burguesia desocupada, seja tomando-os como vândalos a quem cabe a responsabilidade exclusiva pela violência: setores governistas ora empenham-se avidamente em semelhante intento, temerosos, a um tempo, das consequências do protesto para a gestão Haddad, da perda do monopólio de mobilização popular na política brasileira e do estreitamento do amplo espaço que acreditam ainda ocupar na esquerda brasileira.

Para tanto, além da já costumeira desqualificação agressiva dos que ousam criticar o governo, apelam a teorias conspiratórias variadas, mas que têm em comum o fato de, como convém aos mitômanos, interpretarem tudo como um complô contra o PT. Seja tentando jogar no colo dos partidos à esquerda a responsabilidade pelos protestos populares; seja através da negação inicial de que os protestos incluíssem metrô e trem (desculpa negada já na convocação que o Movimento Passe Livre fez para os protestos e desmentida de vez na declaração pública de Alckmin de que era impossível diminuir as tarifas dos meios de transporte sob a gestão do estado); seja fingindo não perceber que Haddad e Alckmin agiram em uníssono.


O papel de Haddad
Ocorre que até blogueiros (outrora?) por eles prestigiados dirimem tais ilusões. Para Luiz Carlos Azenha, autor do melhor texto sobre os protestos,

"A classe média paulistana (...) experimentou na própria pele o comportamento autoritário, brutal e descontrolado da Polícia Militar de Geraldo Alckmin, com a conivência do PT, de Fernando Haddad e do ministro da Justiça, que ofereceu o reforço da Força Nacional."

Ao comentar tal texto, Tácito Costa, editor do ótimo site Substantivo Plural, resumiu com propriedade a reação conjunta dos mandatários:

"Discursos afinadíssimos os de Haddad e Alckmin (desde o início), defendendo a repressão ao movimento hoje no Bom Dia Brasil. Tão iguais em tudo que pareciam do mesmo partido. No final da matéria, entrou o ministro da Justiça oferecendo ajuda aos dois. Não, não era ajuda pra buscar uma saída negociada e política, mas para reprimir mesmo."

Ou seja, a cadeia de comando da PM é liderada pelo governador, porém, na maior repressão a protestos públicos desde a ditadura militar, Haddad também tem as mãos respingadas de sangue do povo.


Reação pífia
Mas, ainda que a título de hipótese, se conceda a Haddad aquilo que os próprios petistas negaram ao prefeito anterior, Kassab – em cujo mandato a repressão da PM a protestos populares foi por eles rotineiramente creditada ao alcaide -, é forçoso reconhecer que a reação de Haddad tem sido, para usar um termo ameno, tímida. Se ele não compactua com o modo como a repressão foi conduzida e está caindo em uma suposta armadilha armada por Alckmin, como setores governistas apregoam, então deveria condenar energicamente a ação da PM, reconhecer a legitimidade da demanda e dos protestos e suspender temporariamente o aumento.

Porém, não. Ao chegar de Paris, além de, como Alckmin, confirmar que não há meios financeiros para evitar o aumento, Haddad observou candidamente que "No último protesto violência foi dos manifestantes, hoje foi da PM", como se fosse um comentarista de futebol, um "craque Neto" da vida comentando Birigui x Catanduvense. Já em entrevista a O Globo, afirmou que "aparentemente, a PM não seguiu protocolos". O comportamento de Haddad lembra o de FHC quando se referia ao país eternamente em crise como um analista isento que não tivesse nada a ver com a coisa.

A tal respeito questiona Leandro Fortes, na insuspeita Carta Capital:

"Onde está o PT? Onde está o prefeito Fernando Haddad, este que já avisou, de Paris, pelo Twitter, que não irá “tolerar vandalismo”? Onde estão os vereadores, deputados e senadores do partido que nasceu nas monumentais greves do ABC paulista, em plena ditadura militar, que os chamava, ora vejam, de baderneiros? Nada. Ninguém de braços dados para enfrentar a tropa de choque. Todos quietinhos, com seus militantes sempre tão subordinados, para saber o que vai sair no Jornal Nacional e na Veja de domingo. Até lá, melhor deixar as barbas de molho. Para os que ainda têm barba, claro."


Antagônicos semelhantes
Não deixa de ser (tristemente) irônico constatar que tanto o governismo quanto a mídia corporativa (vulgo "PIG") desaprovem as manifestações, e que os termos usados por blogueiros identificados com o PT – como Paulo Henrique Amorim – em seu esforço para desqualificar os protestos tenham sido, inicialmente, os mesmíssimos utilizados por ninguém menos do que Arnaldo Jabor, figura caricata da direita midiática, ambos questionando suposta ausência de trabalhadores e alegando tratar-se de um movimento da classe média burguesa. Depois, quando se tocaram da bola fora, esses mesmos blogueiros voltaram atrás e passaram a posar de apoiadores das passeatas.

Tudo somado, a reação de setores petistas aos protestos é mais um fator a reforçar a impressão de que, por mais justa que a maioria das críticas ao comportamento da mídia seja, o hábito de transferir culpas para o "PIG" tem feito com que governistas tenham se acostumado à mania de criar, a cada impasse, subterfúgios e teorias conspiratórias visando colocar o PT na posição de vítima.


Provas do retrocesso
Mas o PT, no poder há mais de uma década, está longe de ser uma vítima, e se os protestos se deram à revelia do partido e (em parte) contra algumas de suas administrações municipais, é em decorrência direta do descompasso entre a guinada conservadora do partido e os anseios políticos de parte da juventude e da esquerda, que não parecem dispostas a compactuar com o retrocesso que tem lugar, na legenda e na administração do país, notadamente, a partir da eleição de Dilma Rousseff.

Começou, na verdade, ainda na temporada eleitoral, com o pacto com os setores religiosos, através do qual a candidata se comprometeu a abster-se de questões como direito ao aborto e ao casamento gay. E já a partir do primeiro mês de governo Dilma, a guinada à direita não parou mais: rigor fiscal pior que nos tempos tucanos, com adoção da meta de zerar o déficit nominal pressionando o orçamento e agravando os problemas de caixa que as metas de superávit primário já impunham; tentativa de composição com os piores setores da mídia corporativa, com a manutenção de vultosos recursos da Secom e o abandono do projeto de regularizar as comunicações; total falta de diálogo com sindicatos e demais entidades da sociedade civil organizada; tratamento unilateral, com recusa à negociação, corte de ponto e eventual violência policial contra grevistas, notadamente os do magistério superior, cuja greve foi prorrogada desnecessariamente por quatro longos meses; concessão de descontos prolongados de IPI para carros e eletrodomésticos sem exigir contrapartida nenhuma, seja em relação a preços ou manutenção de empregos.



Modelo híbrido
Tudo isso submetido a um modelo econômico baseado no desenvolvimentismo a qualquer custo e na concessão de crédito - leia-se endividamento - como forma de incentivar o consumo e ampliar o mercado interno, paradoxalmente combinados a um arrocho fiscal de inspiração neoliberal que vem impondo cortes anuais no orçamento os quais atrofiam o desenvolvimento de áreas sociais como Educação, Saúde e Cultura - que muito haviam progredido na Era Lula.

Pior: Dilma não teve escrúpulos em recorrer às privatizações, que condenara durante toda a campanha eleitoral: primeiro timidamente, com dois aeroportos; depois, de forma sequencial – e com o desplante de alegar necessidade de "fazer caixa" para investir -, com mais aeroportos, portos, megaobras, direitos de exploração do petróleo – e vem aí o bilionário leilão do Pré-Sal, quando o entreguismo das riquezas do país deve atingir o ápice. É o futuro do Brasil sendo comprometido: não há como um governo que privatiza regularmente se dizer de esquerda.

Corolário dessa retomada de um ideário de Brasil-Grande 40 após o "milagre econômico", o deslocamento forçado e o genocídio de indígenas, na pior política indigenista das últimas décadas.


Resultados ruins
Toda essa ginástica para obter um resultado que, se, como os governistas gostam de lembrar, é melhor do que o de economias europeias em crise, está muito aquém do conseguido por vários de nossos vizinhos latino-americanos, pelos demais países do BRIC e pelos tigres asiáticos, cono analisaremos com detalhe em um próximo texto. Só um breve exemplo, aleatório mas contundente: o PIB de 2012 foi de 6,9% no Peru; de 5,5% no Chile; de 3,9% no México; de 2,5% na África do Sul; de 2% na Coreia. No Brasil, ficou em míseros 0,9%. A economia brasileira não está tão bem e há indícios preocupantes. Isso não é alarmismo, é constatação (leia aqui o artigo "A economia repete erros", da economista Laura Macedo, da FGV, publicado em Carta Capital). Mas ao invés de debaterem os fatos e os números consolidados, os governistas acostumaram-se à solução mais fácil: acusar o PIG e o "terrorismo" midiático.

A rigor, até 0 Bolsa-Família, de fundamental importância para o combate à pobreza, retrocedeu, posto que o em si questionável valor mínimo de R$70/mês - estipulado no momento de implementação do programa, há uma década, como minimo para uma pessoa não ser considerada miserável -, se reajustado de acordo com a inflação do período faria com que cerca de 22,3 milhões de pessoas - aproximadamente 44% do total de beneficiados - voltassem a se situar abaixo da linha de miséria.


Hegemonia a qualquer preço
Já antes disso tudo, o saudável embate das convenções partidárias, tradicional no PT, deu lugar ao dedazo, antes método tucano de escolhas de candidato, agora a cargo do capo Lula, a quem uma militância cada vez mais fanatizada e menos autocrítica passou a saudar pelo talento para eleger "postes" – primeiro Dilma, depois Haddad -, fingindo não ver os danos à democracia – não só interna - e ao estímulo à participação popular nas decisões do partido. Para completar, enquanto, no plano federal, as alianças tornam-se tão elásticas a ponto de incluir a ruralista Katia Abreu, acusada de exploração de mão de obra escrava, e o vice de – vejam bem - Alckmin, Afif Domingos, na seara municipal Lula e Haddad vão à mansão do criminoso internacionalmente procurado Paulo Maluf – comprada sabe-se lá com que dinheiro – selar acordo eleitoral. A realpolitik se sobrepondo a qualquer limite ético.

Só a ingenuidade mais tacanha ou desprezo mais acerbado pelo eleitor poderiam fazer supor que não haveria consequências para tais atos de estelionato eleitoral e de lesa-esquerda. O tempo passou na janela e só o governismo petista não viu.


A força do novo
Seja como for, o fato incontornável evidenciado pelos protestos é que o monopólio da capacidade de organizar movimentações populares e o ímpeto de mudanças não mais pertencem ao PT, que se transformou no partido da ordem e do status quo, tornando-se cada vez mais, com seu retorno vergonhoso às privatizações que comprometem em décadas o futuro do país, seu conformismo e seus tímidos e parciais protestos ante o banho de sangue promovido pela PM paulista, pouco distinguível do PSDB de triste memória, o qual tanto critica.

A força do novo e do transformador, hoje, não tem partido; exala de uma juventude corajosa e persistente, que resgata não só a cidade como arena para o exercício da política – seu berço originário na Grécia Antiga -, mas a prática autenticamente esquerdista de dilatar os limites do possível e buscar o impossível como forma de transformar a sociedade.

Como homenagem do blog a esses jovens cidadãos e cidadãs que ousaram resgatar a utopia, um videoclipe que tem tudo a ver não só com o atual momento político do país, mas com os ecos, no presente, do período que retrata:




(Imagens retiradas, respectivamente, daqui, dali e dacolá)

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Quizz - Os protestos em SP segundo os governistas

O malabarismo feito por setores do governismo para desqualificar os protestos populares contra o aumento das tarifas de transporte coletivo é uma das coisas mais belas e coerentes da política brasileira recente.  Prova de caráter e um banho de democracia.

Dá mais uma mostra do quanto o petismo, tendência que nasceu de greves e, durante anos fez dos protestos públicos – nem todos pacíficos – um de seus principais meios de expressão, mantém-se coerente e alinhado aos ideais libertários da esquerda.

Reflete, assim, a coerência demonstrada pelo governo Dilma, que cumpre exatamente o que prometera na campanha eleitoral, recusando terminantemente as privatizações, dialogando com a sociedade e os movimentos sociais e priorizando a educação e os Direitos Humanos, particularmente no que se refere aos povos indígenas, tão amados por nossa mandatária.

No intuito de, a um tempo, entreter seus muitos leitores e homenagear esse saudável peleguismo, o Cinema & Outras Artes – um blog a serviço do Brasil – traz, abaixo, um quizz que aborda algumas das reações petistas aos protestos em SP para demonstrar o quanto o governismo se mostra cada vez mais progressista. Teste seus conhecimentos peleguistas e divirta-se! 

QUIZZ
Os protestos em São Paulo segundo os governistas
  1. É um movimento …............... (elitista/classe média), já que não se vê, nos protestos, …................... (trabalhadores/proletários), mas só ...…..................... (burgueses/mauricinhos), como até o nosso querido Jabor afirmou.

  2. No tempo do …............. (Kassab/Serra/Maluf) éramos contra utilizar a Tropa de Choque contra protestos populares. Agora, com Haddad, tem mais é que …............................. (descer o pau/prender e arrebentar).
  1. Por que em …............... (1994/1826/1700 e bolinha) o aumento da passagem foi maior e não houve protestos? Sinal de que o movimento é contra …............ (Haddad/o PT).

  2. Tá na cara que se trata de um ensaio para …............... (o caos social/a balbúrdia), com vistas a criar o clima para um golpe contra …................... (o PT/Dilma) patrocinado por …............. (Gurgel/Joaquim Barbosa/o PIG).

  3. Protestar, sim. Enfrentar a …............. (pacífica/amigável/carinhosa) Tropa de choque, não. Aí já é ….............. (baderna/molecagem), visando a desestabilização …........... (de Haddad/de Dilma/do país).

  4. Somos contra depredação de patrimônio público, ou seja, de …............ (quiosque de banco/rede de lanchonete gringa). Já quanto ao genocídio de …........... (índios/selvagens primitivos) somos a favor.

  5. Por que a passagem de ônibus em …................ (Santos/Campinas/qualquer cidade que não seja capital) é mais cara que em SP e lá não houve protestos? Sinal de que o movimento é contra …............ (Haddad/o PT).
  1. Mesmo sabendo que o Movimento Passe Livre fez uma convocação oficial para protestar contra o aumento das passagens de ônibus, metrô e trens, insistimos que os protestos são só contra ônibus, porque aí podemos fingir que é tudo uma armação contra …........... (Haddad/o PT) e unirmo-nos ao PIG, à direita e à classe média que tanto ridicularizamos e criticar os protestos populares como ….......................... (arruaça/baderna).

  2. Defendemos a proposta de que os protestos em São Paulo sejam realizados ….................. (no Sambódromo/na Arena Corinthians), como forma de torná-los …................... (invisíveis/ineficazes/carnavalizados).

  3. Protesto popular, só se for do …................ (PT/Partido dos Trabalhadores). O resto é …................ (molecagem/porralouquice), patrocinado pela….............. (esquerdalha/PIG/CIA).



    (Imagem retirada daqui)

domingo, 9 de junho de 2013

A queda de Dilma

Os índices de aprovação da presidente Dilma Rousseff caíram pela primeira vez desde a posse, assegura o Instituto Datafolha, cujo passado demanda cautela. Não obstante o ineditismo, foi uma queda expressiva: dos 65 pontos em março, Dilma despencou oito e agora 57% dos entrevistados avaliam seu governo como "ótimo" ou "bom" – um tombo percentual de 12,3%, ou seja, em três meses perdeu quase um oitavo dos antigos apoiadores.

O resultado, que deveria acender a luz de alerta no QG governista, foi recebido nas redes sociais com o misto de transferência de culpa (acusando o "PIG" ou a Secom que o sustenta) e tentativas diversionistas (como destacar que "Aécio só cresceu 4%") que já se tornou rotina entre a militância virtual. Trata-se de um tipo de reação que cria um círculo vicioso o qual superdimensiona o poder da mídia, bloqueia a autocrítica e, assim, tende a retardar ou dificultar que o governo detecte e quiçá corrija seus erros - em um processo que pode vir a ser particularmente danoso em uma batalha eleitoral intensa como a que o país está prestes a assistir.



Reversão de expectativas
Ainda segundo o Datafolha, no centro dos motivos para a queda de Dilma estão as expectativas quanto à economia – notadamente inflação e desemprego -, as quais refletem que parcelas do eleitorado tornaram-se menos otimistas ou mesmo receosas.

A resposta-padrão para tal questão provavelmente será que não há razões para pessimismo, já que tanto o desemprego quanto a inflação se encontram dentro das metas estabelecidas pelo governo. Ainda que eventualmente correta, não é, como demonstra a pesquisa, uma resposta que satisfaça a todos. Em relação ao desemprego isso se dá - entre outros fatores que abordarei em um post futuro sobre o tema - pelo fato de que há uma enorme discrepância entre o "pleno emprego" que a atual taxa de 5,7% sugere e o número real de pessoas desempregadas no Brasil, distorção esta causada por uma fórmula de cálculo oficial que privilegia a relação entre a população economicamente ativa e a população em idade ativa e, assim, acaba por negligenciar uma série de fatores educacionais, sazonais, etários e mercadológicos que, se devidamente computados, aumentariam exponencialmente a porcentagem real de desempregados do país.

Ignorante ou indiferente à frieza otimista dos números, mas sentindo de perto e ao redor os humores do mercado de trabalho, parte do eleitorado já percebeu - no aumento expressivo de pontos comerciais fechados porque os alugueis subiram a um ponto intolerável, na quantidade de conhecidos desempregados ou subempregados, no aumento de notícias sobre desemprego em sincronia com a diminuição dos anúncios de novas vagas - que os ventos do mercado de trabalho já não sopram como antes ou como apregoam os meteorologistas governamentais.



Feels like...
Quanto à inflação, é preciso ter claro que, para além de fenômeno econômico strictu sensu, ela não se limita ao que dizem os índices oficiais – antes se constituindo através de uma percepção social algo difusa. Assim, por mais bem-sucedido que o governo Dilma esteja sendo em seu esforço pra reduzir os índices oficiais de inflação - através de estratégias como isenção ou desoneração fiscal de itens que influenciam o cálculo do índice – e que estes sejam os números que serão brandidos na campanha eleitoral, a percepção de muitos brasileiros quanto ao aumento dos preços, neste momento, não corresponde à estabilidade fria das estatísticas.

Pode-se arguir que parte dessa percepção popular de que os preços estariam aumentando muito advém, justamente, de uma intensa campanha midiática no sentido de propagar a volta da inflação, campanha esta simbolizada no tomate – que atingiu picos de preço antes de regredir a um valor mais baixo. Penso que em alguma medida a campanha midiática possa estar surtindo efeitos, mas resisto a atribuir-lhe o ônus pela queda de Dilma, e por três motivos: o primeiro é que, como as três últimas eleições presidenciais demonstraram, o povo não parece estar dando muita bola para as campanhas da mídia, sejam estas factoides ou não. O segundo é que a mídia não criou do nada uma campanha negativa, e sim baseou-se em um fato: a ocorrência de uma percepção generalizada de aumento de preços (eu mesmo cheguei a ver o quilo do tomate sendo vendido a R$10,00 numa feira livre em São Paulo), a qual certamente procurou amplificar.



A gente não quer só comida
Mas é o terceiro fato que, feitas as reservas de praxe, reforça a possível acurácia da pesquisa Datafolha: a percepção, pessoal e de praticamente todas as pessoas com quem convivo em diversos ambientes, socioeconomicamente heterogêneos - colegas, amigos, familiares -, de que houve uma brutal escalada de preços entre o fim do ano passado e o momento atual. Alguém pode argumentar que esta percepção, além de intrinsecamente subjetiva, não é corroborada pelos índices oficiais, o que é verdade. Mas isto se dá porque, por um lado, como já explicado, houve manipulação dos impostos referentes aos produtos de maior "peso" no cálculo do índice, de modo a reduzi-lo; e, por outro lado, porque foi o preço de uma série de produtos supérfluos que pouco ou nada influenciam na constituição do índice o que subiu consideravelmente.

Os exemplos são vários e vão de chocolates a iogurtes, de cerveja a refrigerantes e sucos, de comida congelada a biscoitos, de diárias de hotéis a menus de bares e restaurantes. Em relação a tais produtos, os preços muitas vezes dispararam nos últimos meses – e a grande maioria das pessoas que sustenta uma casa pode facilmente constatar isso. Eu não estranharia se, em acordo com a atual moda de malhar a classe média - particularmente ativa entre a brigada governista -, alguém argumentasse que são todos produtos supérfluos e não gêneros de primeira necessidade. De fato. Mas uma das mais alardeadas conquistas da Era Lula/Dilma tem sido justamente a ascensão da classe D, inúmeras vezes representada pela alusão ao fato de que agora estavam, pela primeira vez, consumindo iogurte e refrigerantes, fazendo viagens aéreas e turismo, indo a restaurantes.

Negligenciar o sentimento difuso de que as classes médias, hoje, sentem-se premidas a apertar o cinto e temem perder acesso a esse admirável (ainda que modesto) mundo novo do consumo, temor este refletido na queda de popularidade de Dilma, e trocá-lo pela frieza dos números arranjados ou pela atribuição de culpa ao tal de "PIG", corresponderia a submergir numa bruma de autoilusão que pode ser danosa às pretensões eleitorais da aliança petista.



Cenário eleitoral
Na projeção que o Datafolha faz para as eleições, Dilma Rousseff teria hoje 51% dos votos (há três meses tinha 57), contra 16% de Marina Silva (estável desde março) e 14% de Aécio Neves (que cresceu quatro pontos no período, durante o qual gozou de destaque na mídia). Tais índices, como se vê, asseguram uma liderança folgada a Dilma, mas é importante observar que a erosão, em apenas três meses, de quase 1/8 de seus eleitores ante uma crise econômica que sequer entrou nos radares oficiais, situando-se por enquanto no âmbito da percepção popular, deixa claro o quanto tal eleitorado é volúvel em relação à economia, na qual o governo Dilma fez todas as suas apostas, aderindo às privatizações que tanto criticou no período eleitoral e apostando em um modelo de desenvolvimento a qualquer custo, opções que têm afugentado setores da esquerda antes simpatizantes do governo petista

A pesquisa delineia a hipótese,  que vem sendo há tempos aventada por este blog, de que uma eventual piora na saúde da economia possa afugentar o eleitorado dilmista de ocasião (conquistado nos últimos dois anos), em um cenário em que parcelas da esquerda que  apoiaram a aliança petista que elegeu Lula e Dilma já se encontrassem descontentes pela truculência, vazio ideológico e economicismo "de Brasil-Grande" que caracterizam a administração Dilma. Haverá tempo e disposição autocrítica para um rearranjo? Parece improvável.



(Foto de autoria de Beto Barata retirada daqui)