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domingo, 14 de março de 2010

A manipulação da ética no "caso Folha x Nassif"

Que após o convescote no Café Millenium o comportamento da mídia se tornou ainda mais agressivo, irresponsável e distante, muito distante, do que se espera de um setor encarregado da nobre missão de informar a sociedade, parecem não restar dúvidas.

Os inacreditáveis factóides em sequência de O Globo - culminando com “notícia” de que Lula se licenciaria e Sarney assumiria por dois meses - e a chamativa capa de Veja afirmando que a casa do partido X caiu, para já na mesma semana ser desmentida por decisão judicial que não apenas recusou as denúncias, mas repreendeu o promotor pelo parco embasamento da denúncia, além de confirmamem a nova fase suscitam urgente discussão sobre quais os limites da imprensa.

A insistência de Veja na denúncia recusada pela Justiça, na edição agora nas bancas, leva-nos a uma questão ainda mais inquietante: estaria a mídia brasileira acima da Justiça? Pois em qualquer sociedade de fato democrática, após os acontecimentos da semana passada envolvendo as denúncias do promotor Blat, a revista estaria judicialmente obrigada a ostentar na capa um desmentido cabal das acusações peremptórias, feita em linguagem da marginália, na semana anterior. Alheia aos fatos e à honra alheia, segue impunemente com a “denúncia”.

Nesse cenário, o ataque da Folha de S. Paulo a Nassif, no melhor estilo vendetta mafiosa mas travestido de matéria jornalística, embora ofensivo à honra do jornalista e blogueiro, não surpreende. Apenas corrobora a degringolada ética da mídia brasileira.

Muito foi comentado, na blogosfera, sobre o caso. Não creio que eu tenha algo de substancialmente inovador a acrescentar. Miguel do Rosário escreveu um post curto mas definitivo; o Blog do Len, de forma corajosa e contundente, encaminhou diretamente à Folha uma série de perguntas sobre o “jornalismo” que tem praticado, perguntas que embora não digam respeito apenas ao “caso Nassif”, debatem temas éticos a este correlatos; e o próprio Nassif defendeu-se com prontidão, argumentação convincente e a objetividade costumeira.

No entanto, como veremos a seguir, o enfrentamento de Nassif pela Folha tem razões de fundo ainda não discutidas em profundidade, conectadas a um embate ideológico mais insidioso, ora muito tensionado pelas proximidades das eleições presidenciais.


Maniqueísmos éticos
Um dos êxitos mais duradouros do Brasil pós-ditadura militar foi ter levado cidadãos e cidadãs de todos os estratos sociais e faixas etárias a assimilar um alto grau de precaução ética em relação ao que diga respeito à esfera estatal e aos bens públicos. Essa postura, que deveria ser saudada como um avanço positivo rumo a um maior exercício da cidadania democrática, não propiciou, no entanto – em grande parte devido ao fato de ter-se dado durante o período de hegemonia neoliberal - , uma atenção equivalente à ética das relações corporativas privadas (e do quanto afetam o bem público, não apenas no âmbito material) nem anticorpos que propiciassem uma atenção redobrada quanto ao tanto que a mídia poderia explorar a atenção da sociedade à ética da esfera pública como forma de fazer valer seus interesses privados.

Assim, o que poderia ser uma oportunidade para uma revolução ética nas práticas político-insitucionais brasileiras tornou-se, pouco a pouco, terreno fértil para o neomoralismo de tons udenistas, feito de indignações seletivas, anti-sociais e classistas.

As acusações da Folha contra Nassif servem-se precisamente desse cadinho de ideologia, ainda enfronhado tanto no inconsciente coletivo quanto nos parâmetros valorativos de setores da população – notadamente, da classe média: desconfiado de tudo o que diga respeito à esfera pública, mas extremamente permissivo em relação ao âmbito corporativo privado.

Tais setores, cuja maioria luta arduamente para receber minguados caraminguás ao final do mês, tendem, assim, à humana, demasiadamente, humana indignação moral – que segundo a boutade de George Wells Herbert “é a inveja com uma auréola” – ao serem informados que um jornalista supostamente recebe R$ 55 mil por mês pagos com dinheiro público. Que daí ele seja acusado de fazer um jornalismo chapa-branca não é questão de constatação factível, mas de hipótese "lógica" decorrente.

Talvez todo esse moralismo pré-dirigido impeça alguns leitores de se aperceberem do quão contraditório é um órgão jornalístico que por décadas foi beneficiário de contratos milionários de publicidade governamental - graças a seu então notório saber em imprimir tinta no papel e vender jornal - lançar suspeitas sobre um jornalista respeitadíssimo no mercado, com anos de atuação destacada na própria Folha e reiteradamente premiado pelos próprios colegas – portanto, um profissional com notório saber - por este ter sido contratado para produzir, por um valor que o jornal finge julgar alto, programas para a TV Brasil, que é pública (mas, como tem reiteradamente demonstrado, serve ao Estado, e não ao governo, como se espera de um órgão estatal).

O jornal tinha a obrigação de saber que o montante do contrato entre a TV Brasil e a agência Dinheiro Vivo, da qual Nassif é proprietario, está rigorosamente dentro dos valores cobrados pelo mercado. Para isto, bastaria ter consultado algumas das principais produtoras do país. Mas sejamos indulgentes: consideremos que foi um descuido. Já quando a “matéria” deliberadamente confunde os custos do programa televisivo com salário de Nassif, aí não há como ignorar a manipulação, pois o caso passa a deixar a esfera jornalística e abrir interessantes perspectivas no âmbito judicial.


Acusações hipócritas
Resta, por fim, a acusação de chapa-branca, talvez a mais grave das contidas na matéria, pois potencialmente danosa à carreira de um jornalista. Mas que, n o caso, não deixa de ter um certo sabor humorístico, por advir de um órgão que, sendo vergonhosamente tendencioso em relação ao governador e pré-candidato à Presidência José Serra, com quem tem relações de longa data, não tem moral para acusar ninguém.

Nassif deixou a Folha, onde por mais de uma década ocupou espaço de destaque, após inúmeros entreveros – inclusive judiciais, quando Sarney era presidente - com os governos de turno. Isso é ser chapa-branca?

Deixou de renovar contrato com a TV Cultura – esta, sim, uma emissora pública aparelhada politicamente, que fala a linguagem do governo, não do Estado, como o demonstram seus telejornais - por ter feito críticas ao governador. Isso é ser chapa-branca?

Quem lê com assiduidade o blog do Nassif sabe que ele, com frequência, critica aspectos essenciais do governo Lula, notadamente em relação à não-adoção de um planejamento estratégico de longo prazo para o país, à política industrial, à política de cotas e, sobretudo, à valorização artificial do dólar e à política de juros, temas que vem tratando há anos, com diagnósticos desfavoráveis à atual administração federal. Além disso, republicou, no último mês, 2 artigos com o mesmo título de “A herança maldita de Lula” (um por Julia Dualibi, outro, no link, por Yoshiaki Nakano) e tem alertado para o perigo de que a recusa de de Lula em adotar uma política efetiva para o câmbio acabe por gerar graves problemas no médio prazo, à semehança do que ocorreu com FHC, com potencial danos à imagem que a história legará ao atual presidente. Isso é ser chapa-branca?

É fato que Nassif não se furta a elogiar os pontos positivos da administração Lula, nem a criticar o governo Serra, nem a analisar negativamente o comportamento da mídia. Estas três práticas jornalísticas – reconhecer acertos do governo de turno, ao invés de só criticá-lo; não poupar, por interesses próprios, críticas à administração de um possível candidato a presidente; e denunciar as práticas sujas e contrárias ao jornalismo democrático levadas a cabo pela mídia corporativa -, de tão rarefeitas no momento atual de nossa imprensa, talvez soem como heréticas. E heréticos não podem ser acusados de serem chapa-branca.

I rest my case.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

"Quem tem medo do Estado forte?" - Mídia anacrônica e seu auto-engano

A mais recente – mas de modo algum nova – estratégia adotada pela mídia corporativa como forma de denegrir a candidatura de Dilma Rousseff é pespegar-lhe o rótulo de “estatizante”.

Como demonstrou com propriedade Celso Lungaretti, tal empreitada não se baseia no retrato fiel da visão que a candidata tem sobre a questão, expressada em um livro-entrevista, em discursos, em interlocuções com jornalistas, políticos e empresários ou mesmo no modo como vem gerenciando o PAC. Esta, quando levada em conta, é reiteradamente distorcida de modo a sugerir uma espécie de stalinismo econômico, em que a intromissão pervasiva do Estado nos diversos setores da economia dá-se por intermédio de métodos autoritários.

A Folha de S. Paulo é o órgão de imprensa que mais vem insistindo em tal tecla, na base do “se colar, colou”, tal como faz com as fantasias plenas de distorção que alimenta em relação a um terrível passado da terrorista Dilma, as quais têm lugar uma vez mais na manchete deste ensolarado domingo.

Trata-se, ao meu ver, de uma estratégia duplamente reveladora do grau de auto-engano em que se encontra (sic) a chamada grande imprensa em sua fase atual, em que, em bloco e explicitamente partidarizada, repete à exaustão, para um círculo cada vez menor e mais elitista de leitores, um ideário neoliberal desautorizado pela crise econômica mundial e - tal como o candidato presidencial que apoia, ele próprio a tais mantras ainda preso - anacrônico e em franca decadência.

Tal anacronismo, insistente na defesa de um receituário que se revelou falho em âmbito global e catástrófico em termos de América Latina – Brasil inclusive – é o primeiro indício do duplo auto-engano midiático acima mencionado. As desrazões que sustentam tal manutenção de ideologias em estado de putrefação se aliam em cadeia:

- Seu motivo precípuo é, na era do que Dênis de Moraes chama de “capitalismo infotelecomucacional”, a ligação estrutural entre mídia corporativa e capital “telefinanceiro”;

- Sua consequência regional é o apoio não assumido mas explícito ao candidato presidencial do PSDB, partido que há muito abandonou uma incipente plataforma social-democrata como forma de se tornar linha política auxiliar do mercado financeiro;

- E seu ponto cego é a recusa em enxergar que, a despeito da persistente relutância do governo Lula em deslocar-se para fora da órbita neoliberal, a ênfase sociologizante que sua administração imprimiu às políticas de Estado equivalem a uma reificação do neoliberalismo tal como preconizado pelo Consenso de Washington – como, aliás, tem sido amplamente reconhecido nos fóruns internacionais.

O segundo indício do auto-engano de nossa mídia é o profundo desconhecimento do estado de ânimos da maioria da população em relação a esse feixe de temas conectados à dicotomia privatização-estatização. A “naturalização” da visão positiva acerca de um estado mínimo e das privatizações foi, na verdade, um longo processo de convencimento da opinião pública, top-down, promovido pela mídia corporativa (na época em que não havia o contraponto proporcionado pela internet), um tanto paradoxalmente sob o patrocínio estatal do governo Collor e, a seguir, do duplo mandarinato fernandista.

Nunca se soube se tal processo massificado de lavagem cerebral foi bem-sucedido. O certo é que as pesquisas feitas de 2008 em diante mostram que a rejeição da população a privatizações é da ordem de 70%, em média. Talvez ela se sinta enganada pela alegada panaceia das privatizações do patrimônio público - que salvariam o país mas o levaram à insolvência.

De qualquer modo, migrando da miséria dos tempos de FHC – quando a energia elétrica era racionada e as estradas estavam intransitáveis – para a bonança dos últimos anos – quando o consumo explodiu e as classes C e D ascenderam -, é muito provável que, ao contrário do que as editorias jornalísticas pensem, a defesa de um Estado forte, marca do período, soe como música aos ouvidos da maioria da população, que tende a associá-las a melhorias sociais e estruturais e à criação de empregos.

Mas a mídia corporativa brasileira, como sabemos, nutre um total desprezo pela opinião pública – até porque leva a sério a boutâde de Millôr Fernandes segundo a qual “opinião pública é a opinião que se publica”.

Temos assim que a tentativa de desqualificar Dilma Rousseff exagerando seus pendores estatizantes tem tudo para ser mais um tiro no próprio pé da mídia.

domingo, 29 de novembro de 2009

Cesinha na Folha: a ética no lixo

2009 é um ano marcado, na imprensa brasileira, pela degringolada inconteste da Folha de São Paulo. Foram nada menos do que cinco episódios de extrema gravidade, que atentam contra os parâmetros éticos mínimos que deveriam reger a atividade jornalística:

1) Em fevereiro, a adoção do neologismo “ditabranda” para se referir à ditadura militar brasileira, numa clara tentativa de promover um revisionismo histórico à direita e de relativizar a gravidade das práticas levadas a cabo por um regime que usurpou o poder democrático e utilizou-se do Estado para perseguir, torturar e assassinar opositores;
2) Em seguida, a agressiva reação do diretor de redação Octávio Frias Filho a carta de protesto contra a utilização do termo “ditabranda” enviada pelos eminentes professores Maria Victoria Benevides e Fabio Konder Comparato. Como procurei demonstrar em texto escrito no calor da hora, a truculência trazia em seu bojo uma tentativa de restringir e dirigir o debate público, além de reforçar o processo de relativização da ditadura em curso;
3) Em maio, a perda de referenciais éticos mínimos se evidencia com a utilização de ficha policial falsa da ministra e pré-candidata Dilma Rousseff, em matéria fantasiosa e jornalisticamente insustentável sobre um seqüestro que jamais ocorreu. Após peritos da UnB e da Unicamp atestarem que a ficha era falsa, o jornal produz uma pérola de cinismo ao afirmar que não podia confirmar a autenticidade da mesma nem sua falsidade – o que corresponde a admitir como lícita a publicação de qualquer material, verdadeiro ou não (leia post certeiro de Nassif sobre o caso);
4) O show de desrespeito a normas básicas do jornalismo – e a transformação deste em atividade político-partidária – prossegue no segundo semestre com a sustentação, semanas a fio, de um factóide dos mais grosseiros – o alegado encontro de Dilma com a ex-Secretária da Receita Federal Lina Vieira -, baseado tão-somente na palavra desta, que fora demitida pela acusada. Apesar dos rocambolescos esforços e das diversas tentativas, seguidas de desmentidos, não foi possível encontrar uma data na agenda da esposa do ex-ministro de FHC para sequer tornar plausível o encontro. Após exploração intensa, o assunto morreu, como sói acontecer com factóides.

Embora muitos não cressem que a Folha poderia descer ainda mais, eis que, covardemente travestida de “análise” do filme Lula, o Filho do Brasil, o jornal publica, com grande destaque e no primeiro caderno, artigo melífluo de César Benjamin – candidato à vice-Presidência pelo PSOL nas últimas eleições -, com acusações tão graves quanto risíveis acerca do passado do presidente Luís Inácio Lula da Silva, que, segundo a mente doentia de “Cesinha”, teria estuprado um preso em 1979.

As fantasiosas acusações não ficaram em pé 24 horas, tendo sido desmentidas tanto pelos que conviveram com Lula na prisão – incluídos o delegado, o potencial “estuprado’ e diversos colegas de cela, até um membro do PSTU que, mesmo na oposição a Lula, fez questão de desmentir Cesinha - quanto pelos que presenciaram o momento em que Lula, descontraído em uma mesa de bar, anos antes de ser presidente, fez uma piada “sacaneando” um companheiro e tentando escandalizar um conviva norteamericano.


Que eu saiba a histeria politicamente correta ainda não chegou a um ponto tal que alguém deva ser condenado por uma piada de mau gosto contada há 14 anos... Mas, na combinação de sanha oposicionista e abandono de valores jornalísticos que ora caracteriza nossa imprensa, o artigo de Cesinha repercutiu nas vejas e globos da vida.

O texto é exemplar de um processo que venho há tempos apontando: o quanto os métodos da extrema-esquerda brasileira atual coincidem com os da pior direita, além de coadunarem com os da “grande mídia”, ao qual se submetem para perpetuar ataques contra o inimigo comum, fingindo não perceber que são majoritariamente os setores mais conservadores que se beneficiam de tal estratagema. Como levar a sério o discurso ético que a extrema-esquerda reiteradamente chama para si, se, na prática, se presta a atos tão deploráveis?

Para compreender o que leva um ser humano a incorrer na leviandade cometida por Cesinha é preciso conhecer essa figura trágica da esquerda brasileira. Entrou na luta armada aos 14 anos e, preso três anos depois, foi submetido a longas e brutais torturas, que lhe tiraram a audição de um ouvido. Findo o período das sevícias físicas, foi mantido em solitária, completamente isolado de qualquer contato com o mundo exterior, por três dos cinco anos em que ficou preso. Evidentemente, tal experiência foi traumática para uma mente adolescente e não é possível precisar a extensão das seqüelas que possa ter causado.

O fato é que o desequilíbrio e a tendência a lançar mão de acusações levianas e estratagemas questionáveis em nome da luta política são há décadas uma constante em sua trajetória. O jornalista com J maiúsculo Luiz Antonio Magalhães traçou um imperdível perfil de Cesinha em sua fase madura (no sentido etário, evidentemente, pois imaturidade política é um traço constante em sua trajetória, que inclui rompimento com o PT - que ajudara a fundar - em 1995 e filiação em 2004 ao PSOL, partido do qual, numa demonstração de grande coerência e caráter, sairia dois anos depois, atirando baixarias para todos os lados). Hoje, Cesinha - que, segundo vários relatos, alimenta ódio obsessivo em relação a Lula - é uma daquelas espécimes curiosas da fauna brasileira: o soi disant esquerdista que detesta um governo que tirou mais de 30 milhões da pobreza, consumando assim uma das bandeiras precípuas da esquerda e promovendo, em plena crise mundial, um ajuste estrutural na divisão social brasileira, com a ascensão de um volume significativo das classes D e E à classe média.

Porém, nunca é demais reforçar, o absurdo maior não é a redação de um artigo tão desqualificado – que jamais seria aceito por qualquer publicação séria do planeta, já que não obedece a premissas básicas do jornalismo –, mas sim o fato de ter sido publicado – e com destaque - sem que as graves acusações contra um cidadão tenham sido minimamente checadas ou que o outro lado tenha sido ouvido, como manda o próprio Manual de Redação da Folha. Trata-se de matéria baseada no "juridicamente espúrio" julgamento pelo testemunho, como assinala Diego Calazans num promissor novo blog político.

Que o cidadão em questão seja o presidente da República constitui um dado que só reforça um dano colateral dessa temporada de insanidade ética da mídia: o desrespeito pela instituição Presidência da República. Ademais, note-se que a mesma imprensa que preservou a vida privada do presidente Fernando Henrique Cardoso (apesar da notícia sobre seu filho com a jornalista da Globo despertar potenciais questões de interesse público, concernentes à relação entre mídia e governo) investe agora em um episódio do passado privado de Lula que, além de altamente improvável, é irrelevante para a administração do país (mas talvez não para a popularidade do presidente e para questões eleitorais).

Evidenciada pelos episódios acima retratados, a perda de referencial ético da mídia se efetiva, prioritariamente, devido a seus interesses político-partidários, que alimentam não apenas objeções ideológicas e de classe ao governo de turno, mas uma guerra movida por interesses materiais, já que os maiores órgãos de imprensa têm sido duramente atingidos em seu faturamento, pois, pela primeira vez na história do país, a administração federal decidiu pulverizar verbas em pequenas e médias publicações e rádios do interior do país, ao invés de concentrá-las nos “grandes órgãos de imprensa” do Sudeste.

É preciso levar em conta, porém, que tamanha liberdade de ação da mídia só foi propiciada pela impunidade garantida por recentes decisões do STF, que enfraqueceram ainda mais o parco controle sobre a atividade jornalística. Infelizmente, até pessoas que se dizem de esquerda vibraram com o fim da exigência do diploma para jornalista determinado pelo STF, em decisão que levou de roldão também o direito de resposta – único meio para obtenção de espaço para se defender de ataques oriundos da imprensa. Tais pessoas não se apercebem que quanto mais regulada e mais regulamentada a atividade jornalística, menor é a chance de tais excrescências como as praticadas pela Folha este ano ocorrerem. Não é por outra razão que a plutocracia midiática da qual Frias Filho faz parte vibrou com a decisão do STF e bloqueia sistematicamente qualquer tentativa de regulamentação da atividade jornalística – como o fez no início do governo Lula e faz agora em relação à Confecom.



(Imagem retirada daqui)

sábado, 14 de novembro de 2009

Imprensa: apagão ou desabamento ético?

Um blecaute que abrangeu dois países e 18 estados brasileiros, durando, em média, mais de três horas, é um acontecimento grave, preocupante. Tentar negar isso, como muitos entusiastas do governo de Luís Inácio Lula da Silva fazem, significa incorrer no mais potencialmente perigoso dos erros políticos: o da auto-ilusão.

O fato de o evento ser relevante não permite equipará-lo, no entanto, como a “grande mídia” em peso vem fazendo, ao chamado “apagão” que teve lugar durante a Presidência de Fernando Henrique Cardoso. Essa impossibilidade dá-se pelo caráter episódico, acidental da falta de luz da última terça-feira, que, ao contrário do que ocorrera durante o mandato do peessedebista, não se liga a um déficit estrutural no fornecimento de energia - como os dados oficiais o demonstram - nem demanda um rigoroso racionamento para evitar colapso do sistema, como o que então foi imposto à população brasileira.

Perpassado por uma euforia que mal se disfarça, o comportamento da mídia, porém, utilizando rápida e repetidamente o pregnante substantivo “apagão” para designar um episódio isolado, produzindo à mancheia manchetes que vocalizam acriticamente o pensamento da oposição, e procurando atribuir culpas a uma ministra responsável pela Casa Civil (função na qual não pode nem deve responder pela área de Energia) não condiz minimamente com a função da imprensa.


Imprensa age como partido político
Embora muitos hoje hesitem em acreditar, houve um tempo em que tal instituição preservava um certo interesse investigativo e ao menos a necessidade de aparentar neutralidade - embora, como parte do sistema capitalista tanto no âmbito estrutural quanto superestrutural, já servisse a interesses escusos os mais variados. Se agisse como em seus bons momentos de outrora. a imprensa constataria que a explicação de que o blecaute foi causado pela coincidência infeliz de três raios em áreas mais ou menos próximas umas das outras na estação de Itaberá (SP), embora não deva ser aceita acriticamente - e afigure-se, segundo o senso comum, absurda como hipótese -, tem explicações técnicas e evidências físicas consistentes a sustentá-la e que, segundo o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp, “Nenhum sistema do mundo é planejado e dimensionado para este tipo de ocorrência, é muito antieconômico pela baixa probabilidade de acontecer”.

Caso resolvesse cumprir seu papel e não agir como partido político, a imprensa poderia se interessar também pela hipótese de que o blecaute teria sido um ato de sabotagem com fins eleitorais e que teria ocorrido boicote na recusa em ligar o sistema anti-blecaute paulista. Por fim, se atrás da verdade dos fatos estivesse é mister constatar que a mídia teria então de se interessar até mesmo por sua própria – e suspeitíssima – mobilização pré-blecaute, curiosidade que seria, sabemos, uma impossibilidade.

Talvez o leitor possa estar agora pensando: isso tudo cheira à teoria da conspiração. Pode ser, meu caro, pode ser, mas uma das funções precípuas da imprensa é precisamente investigar os fatos para impedir a divulgação de versões falsas e tendenciosas (não que as hipóteses acima arroladas necessariamente o sejam).


Dois pesos, duas medidas
Três dias depois do blecaute, por volta das 22 horas da sexta-feira, um acidente de grandes proporções tem lugar no Rodoanel, a obra paulista que levou anos para ficar pronta e sobre a qual, segundo o Tribunal de Contas da União, pairam indícios de superfaturamento. Três vigas de 80 toneladas e 40 metros de comprimento cada uma desabam (e uma quarta fica pendente), fazendo a pista ceder, interditando por quase doze horas a rodovia Régis Bittencourt, atingindo vários carros e deixando alegadamente três pessoas feridas (número que eu coloco sob suspeita). De qualquer forma, as conseqüências foram muito menos desastrosas do que poderiam ser se o tráfico fosse intenso no trecho na hora do acidente, como é freqüente ao final da tarde e nas vésperas de feriado.

Trata-se do segundo desabamento de grandes proporções em uma obra do atual governo paulista (o primeiro deu-se nas obras da estação Pinheiros do metrô, resultando em ao menos 7 vítimas fatais). Como reage a imprensa? Após uma demora inexplicável para noticiar um fato sobre o qual já se conheciam detalhes nas redes sociais da internet, oferece uma ou outra manchete pouco informativa, numa cobertura incomparavelmente menos crítica e pouquíssimo curiosa se comparada àquela concedida ao blecaute três dias antes.

No início da tarde do dia seguinte, enquanto os destaques noticiosos do portal Terra fingiam desconhecer o assunto, a inacreditável manchete do portal UOL era: “Petistas usam acidente para atacar José Serra” - ou seja, além de negligenciar informações sobre um acidente em relação ao qual paira uma série de questões não respondidas, promove-se uma total reversão de valores, em que o mandatário que deveria estar sendo questionado sobre o segundo desabamento grave em seu governo passa a ser a vítima, e seus opositores os algozes. É o cúmulo da manipulação "jornalística"!

Já no portal Yahoo!,o destaque era, inicialmente, “Vítimas de desabamento passam bem e Régis é liberada”- o que poderia até ser uma manchete passável, se o padrão de velocidade de cobertura da imprensa brasileira fosse este e ela tivesse, nos dias que se seguiram ao blecaute, soltado ao menos uma manchete como “Energia elétrica é restabelecida e país volta à normalidade”. Mas o Yahoo! iria mais longe, e enquanto referências ao desabamento no Rodoanel desapareciam da sua grade com as 10 principais notícias, o portal logo substituiria a manchete quase passável por outra: “Governo trabalha para preservar Dilma após apagão”. Sobre Serra, menos de 24 horas após um grave acidente numa obra sob responsabilidade do estado em que governa, nenhuma palavra.


Mídia alimenta polarização
Como afirmei no post anterior, considero esse fla-flu Lula vs. FHC, PSDB vs. PT empobrecedor. É algo que tolhe o debate sobre as potencialidades do país e suas múltiplas possibilidades políticas, estéticas e culturais. Mas ante tamanha assimetria de tratamento de fatos pela mídia, com claros propósitos eleitorais, fica impossível abordar assunto outro além da atuação de nossa desacreditada e aparentemente incorrigível imprensa, entidade em franca decadência e que só faz açular a nefasta dicotomia referida no início do parágrafo, obrigando os cidadãos e cidadãs de bem a valerem-se da democratização da comunicação possibilitada pela internet para demonstrar que não são tontos e reagir ante tamanha manipulação de fatos.


(Imagem retirada daqui)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

De autoritarismo e ditadura


Ao acusar, com argumentação pífia, o atual governo de “autoritarismo” e comparar suas práticas às da ditadura, FHC, além de municiar seu circo de trolls amestrados - que, incapazes de pensar por si mesmos e covardemente ocultos pelo anonimato, repetem como papagaios acéfalos as palavras do mestre-bufão -, transpõe os limites da razão, do bom senso e da verdade histórica.

Como príncipe dos sociólogos, o ex-presidente sabe que não há, na teoria política, categorias que permitam pespegar no atual governo o rótulo de autoritário – muito pelo contrário. Vivemos a democracia plena. Mais do que isso: Lula tem aturado uma mídia corporativa que transgride todos os limites da ética jornalística com uma passividade que muitos consideram excessiva. E a democracia pressupõe direitos e deveres que dizem respeito a todas as instituições - inclusive à imprensa.

Assim como fingimos não notar que o Supremo Intelectual da Pátria, em seu texto-esperneio, concorda “A enxurrada” com “talvez levem” e atribui a Hamlet uma fala de Polônio, simulemos não perceber o absurdo de alguém do mesmo PSDB da lei protofascista do fumo promulgada por Serra ousar acusar outrem de autoritarismo, e de um membro do partido que elege seus candidatos com quatro caciques em torno de uma garrafa de vinho francês num restaurante cinco e$trela$ acusar Lula de “dedazo” na escolha de Dilma Rousseff (como se não fosse ela a ungida pelas correntes majoritárias do PT). A senilidade pede compaixão.

Ainda assim, algumas interrogações se impõem: o que é, de fato, autoritário: nomear, como o atual presidente fez, um Advogado-Geral da União que não se deixou intimidar por eventuais pressões do partido no poder e denunciou à Justiça os envolvidos no chamado “Mensalão” ou, como FHC preferiu fazer, colocar na função uma figura que de lá saiu denominado pelo autoexplicativo apelido de “Engavetador-Geral da República”?

O que é autoritário: privatizar, “no limite da irresponsabilidade”, o patrimônio público, sem que se saiba até hoje o destino do numerário arrecadado no processo - então a alegada panaceia que nos levaria ao “Primeiro Mundo” - ou discutir caso a caso com a sociedade o destino a ser dado ao patrimônio que é dela, como ora se faz?

O que é um “pequeno assassinato”, como brada o príncipe uspiano? Procurar resguardar os dividendos do Pré-Sal através de emenda proposta ao Congresso após mais de um ano de elaboração, como fez o atual governo, ou, como nos lembra O Hermenauta, resolver a privatização das telecomunicações brasileiras - então o filet mignon do patrimônio público - atropeladamente, em quatro meses, como fez FHC?


Brutalidade da ditadura desautoriza FHC
Porém muito mais grave, do ponto de vista ético e histórico, do que essas risíveis acusações do panfleto ressentido publicado pela "grande imprensa" é a comparação das políticas em curso com “autoritarismo militar”. Pois este se traduziu em atos de extrema crueldade, como arrancar os dois olhos de Bacuri na tortura, para tentar forçar uma delação (em vão; era um bravo); a enfiar um cano na vagina de uma presa e nele colocar um rato, vedando a outra extremidade do cano, para que o animal roesse-lhe as entranhas; a torturar Stuart Angel arrastando-o com a boca amarrada ao escapamento de um jipe, matando-o por asfixia por monóxido de carbono; a assassinar "Jonas" - que chefiou o sequestro do embaixador norte-americano - aos poucos, atirando-o sucessivas vezes contra uma parede de cimento. A reduzir presos políticos indefesos a farrapos humanos, arrancando-lhes a dignidade e impondo-lhes o terror físico e psicológico – este, de longa duração, e que levaria pessoas de alma mais sensível como Frei Tito a suicidar-se anos depois das sevícias sofridas.

Isso, sim, é autoritarismo militar. E suas práticas estão muito bem atestadas em pesquisas como o projeto Brasil, Nunca Mais , internacionalmente reconhecido como a mais abrangente pesquisa sobre os porões do regime (conheça também o ótimo blog de Maria Frô - de onde tiramos a terrível foto acima -, para conhecer as histórias dos torturados e constatar, nas fotos de seus cadáveres, o grau de brutalidade empregado).

Enquanto seus "companheiros de luta" sofriam tais destinos, FHC, após uma temporada no melhor estilo "esquerda festiva" no Chile, alheio a tais autoritarismos de fato, se empanturrava de Veuve Clicquot e foie gras na França.

Aliás, um dos mistérios que cercam a história brasileira diz respeito à trajetória de certos soi disant esquerdistas – notadamente políticos hoje pertencentes ao PSDB paulista - que, ao conseguirem sair ilesos, sabe-se lá como, do Brasil ditatorial para o exílio, pobres, remediados, dele retornaram ricos. FHC, por exemplo, era um mero professor - que dava aula, segundo testemunhas oculares, apresentando-se com as meias furadas.

Pois esse membro remediado de uma das classes trabalhistas mais vilipendiadas, quando volta do exílio arrotando camembert, estava bem nutrido, altivo e já apresentando aquela empáfia de príncipe que tanto excita – sexualmente, inclusive - os colunistas nativos (respeitemos as parafilias alheias). Quem sustentou FHC, Serra e cia. no exterior? Às custas de quais acordos? Em troca de quê? A historiografia nacional nos deve as respostas a essas perguntas. (No Vi o Mundo, o respeitabilíssimo jornalista Altamiro Borges mostra os indícios de que, em plena ditadura, FHC era sustentado pelos dólares da CIA. Leia aqui.)

Após passar da quase-mulambagem à elite no exílio, FHC - que tem como hobbie colecionar aposentadorias, especialmente as polpudas - foi brindado com uma compensação financeira mensal devido às privações que lhe teria imposto a ditadura. Já herois como o capitão Sérgio Macaco (clique aqui para conhecer sua incrível história) sofreram por anos a fio para ser reconhecidos, e muitos dos torturados e dos que foram de fato perseguidos, como não são ricos nem dispõem de influência política, continuam na fila da merecida aposentadoria especial; alguns, como ocorreu com a viúva Cerveira, sofrem até hoje perseguições e boicotes.


A coerência do ex-presidente
Mas, a bem da verdade, devemos reconhecer: pode-se acusar FHC de muitas coisas, mas não de incoerente. O desprezo que demonstra pela democracia e pelos que sofreram na ditadura, ao atirar, sem o mínimo critério, acusações de autoritarismo a governos democratas, relaciona-se com sua própria história de vida: enquanto os esquerdistas de fato contavam seus mortos, tratavam-se das chagas da tortura ou, não suportando o trauma, se suicidavam, ele assomava à alta burocracia peemedebista (depois peessedebista).

Do mesmo modo, a raiva que manifesta em seu artigo contra a aprovação popular do governo e contra o fato da autoestima do brasileiro ter aumentado é plena de coerência. Afinal seu governo, anti-Brasil e anti-povo, sempre necessitou de uma população envergonhada de sua própria terra para que pudesse submetê-la, em posição subalterna, à ordem (sic) econômica mundial capitaneada pelos EUA.

Portanto, ao fazer tais acusações descabidas contra um governo democraticamente eleito e que mantém as liberdades plenas no país, FHC não traz à luz fato algum, exceto em relação a seu próprio caráter – ou à falta dele.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Brasil e Honduras: dogmas em destaque

O filósofo e historiador Tzvetan Todorov distingue o dogmatismo e o relativismo como duas tendências extremas e polarizadas entre si no exercício da crítica. Ele afirma, não sem mordacidade, que, se instado a escolher entre o debate com um crítico dogmático ou um relativista, escolheria este, já que, ao contrário do que acontece com os dogmáticos, haveria ao menos a possibilidade de estabelecer um diálogo.

Búlgaro radicado na França desde meados dos anos 1960, o hoje francês naturalizado Todorov, no belo discurso que proferiu ao receber o prêmio Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais, em 2008 (ao qual é possível assistir aqui, em espanhol), fez uma veemente defesa do direito dos estrangeiros que vivem na Europa à plena cidadania, aí incluídos o direito ao reconhecimento de sua condição de entes produtores de cultura e ao diálogo desta com a cultura do país em que vivem.


Estripulias ardilosas
A evocação de Todorov foi causada pela leitura do material produzido pelos principais jornais, revistas e blogs do país acerca do grave episódio internacional envolvendo a volta a Honduras do presidente constitucional do país, José Manuel Zelaya, o abrigo concedido a ele e sua família na embaixada brasileira em Tegucigalpa e os ataques de que esta vem sendo vítima.

Antes, porém, de examinarmos as estripulias de nossa ardilosa imprensa, convém reconectar algumas verdades essenciais aos fatos, já que elas se perderam em meio ao cipoal de desinformação, alusões fantasiosas e teorias conspiratórias a estes pespegados.

Como reconhece Mauro Santayana, em artigo-oásis no Jornal do Brasil (que respira com a ajuda de aparelhos), Zelaya não pretendia, no referendo que deveria ter ocorrido em julho, disputar um segundo mandato presidencial, mas sim a colocação de uma quarta urna para votar a convocação ou não de uma Assembléia Constituinte. Já estava definido que esta, se instalada, não teria efeito vinculante (ou seja, caso viesse a decidir pela alteração da duração ou do estatuto da reeleição presidencial, tal medida não beneficiaria Zelaya, mas seu sucessor).

Esse esclarecimento é necessário, pois, na euforia midiática que teve lugar, no Brasil, após o golpe de Estado em Honduras - logo transformada em tibieza em condená-lo -, o principal "argumento" utilizado para justificar o golpe de Estado – como se estes justificáveis fossem – era que Zelaya tentaria um segundo mandato, patrocinado por Hugo Chávez, a nova panacéia editorial do continente, como aponta Leandro Fortes em mais um artigo para ler e guardar. Tal premissa levou alguns colunistas mais afoitos a gastar tinta para falar em uma nova modalidade de golpe de estado alegadamente em voga na América Latina: o golpe institucional, que se daria através da alteração das leis, mas mantendo os militares nos quarteis (até agora, Álvaro Uribe, da Colômbia, que esses tais colunistas adoram, é o único responsável pela "voga").

Ainda que a suspeitíssima Suprema Corte hondurenha tenha desautorizado o tal plebiscito – como, agarrando-se a tal argumento como um náufrago a uma bóia, insistem os setores de direita com pouco apreço pela democracia -, isso configuraria um confronto, rotineiro nas democracias, entre dois dos três Poderes: a solução teria de ser negociada, como de ordinário o é em tais países. Nada justifica a destituição de Zelaya - ou de qualquer presidente eleito - na calada da noite, sem nenhum rito público e sob a mira de armas de fogo. Países democráticos podem até depôr seus mandatários, desde que cumprido o ritual processual do impeachment.


Cobertura dogmática
Ao contrário do que afirmam certos blogs que cultuam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu governo como entidades sagradas e infalíveis, é lícito, sim, questionar a necessidade do envolvimento do Brasil no caso, como o faz a imprensa – na verdade, esta é, idealmente, uma de suas funções precípuas: avaliar as decisões governamentais tendo como horizonte o que julga ser melhor para o país. (Não que sejam esses os motivos para a indignação de nossa imprensa...)

Portanto, é sustentável, na teoria – embora não necessariamente correta –, a posição segundo a qual em nome do restabelecimento da ordem democrática em um país insignificante do ponto de vista comercial ou estratégico, tanto a soberania quanto a instabilidade institucional brasileiras estariam sendo desnecessariamente postas à prova.

Por outro lado, causa estranhamento que a imprensa aja virtualmente como bloco, e que a posição acima descrita seja praticamente unânime. Pois haveria de passar pela cabeça de alguns articulistas que, se o Brasil quer mesmo assumir sua posição de player no cenário internacional, é mais do que recomendável que atue com firmeza para restabelecer a ordem democrática num país sob sua área de influência geopolítica no qual ela foi claramente violada – e através de um tipo de golpe de Estado clássico, que julgava-se condenado aos anais empoeirados da história.

Como meus poucos mas inteligentes leitores já devem ter notado, com essas ponderações acima, uma no cravo, outra na ferradura, estou a fazer um exercício de relativismo, talvez com a pretensão, decerto excessiva, de contrapô-lo ao dogmatismo reinante em nossa "grande imprensa".


Nacionalismo e imprensa
O cenário se complica, porém, ao se constatar que, concedido o abrigo diplomático a Zelaya, a embaixada passa a sofrer represálias por parte do governo golpista (que nossa mídia chama de "governo de facto", o que sugere uma autoridade que ele não tem). Como se sabe, a representações diplomáticas no exterior os tratados internacionais garantem inviolabilidade. Mesmo em golpes de Estado os mais brutais – como no Chile de Salvador Allende, em 1973 – tal jurisprud~encia internacional foi, a princípio, respeitada.

Não que a imprensa tenha a obrigação de defender o Brasil por nacionalismo ou patriotismo. Estas duas modalidades de paixão coletivas, tornadas execráveis em terras nacionais durante a longa hegemonia neoliberal e que agora ensaiam um retorno, podem, de fato, trazer consigo um danoso potencial de manipulação ideológica, do qual a história é farta de exemplos extremos. Como se sabe, os EUA são o único país do mundo cuja população – e a mídia – tem o direito de ser nacionalista e patriota, o que talvez se justifique pelo seu passado pacifista. Imperialista, como nos informa a revista Veja, em matéria de capa, é o Brasil.

Ironias à parte, admitamos que o nacionalismo e o patriotismo não obriguem a imprensa brasileira a tomar uma posição de defesa dos interesses nacionais – embora o fato de a Folha de São Paulo seanunciar como "um jornal a serviço do Brasil" nos permitir meditar sobre a instrumentalização que a imprensa faz de tais conceitos quando de seu interesse. Tal admissão colide, porém, com o que foi afirmado parágrafos acima – que uma das funções precípuas da imprensa seria, idealmente, "avaliar as decisões governamentais tendo como horizonte o que julga ser melhor para o país" – e, portanto, contraditoriamente, com a própria justificativa na qual se baseia a condenação da imprensa à ação diplomática brasileira em Honduras, evidenciando suas reais motivações.


Agressões negligenciadas
Mas o cenário ficaria ainda pior com a reação truculenta dos golpistas ora ainda no poder contra a ação diplomática brasileira. Quando a imprensa negligencia duplamente a agressão a uma embaixada – ao oferecer uma cobertura insatisfatória das graves denúncias contra o governo hondurenho (que incluiria até lançamento de gás venenoso) e ao subestimar a gravidade da violação de leis internacionais – ela transpõe o limite que separa a em si aviltante adoção de uma linha dogmática na cobertura do caso e a conivência com ações inaceitáveis à luz do Direito e da Razão. Viola, portanto, os próprios pressupostos iluministas que sempre conclamou como orientadores básicos da própria atividade jornalística.

O desenrolar da cobertura a partir da consumação do ataque ao território brasileiro no exterior e de sua decorrente condenação pela OEA chegou às raias da irresponsabilidade. Promove-se, desde então, uma tal inversão de valores que se procura fazer crer que o presidente democraticamente eleito e expulso à ponta de baioneta é quem é o provocador, de dentro da embaixada brasileira e, ainda assim, sempre sob o comando do onipresente Chávez. Para completar, as reações internacionais contra um governo que não foi reconhecido por nenhum país vêm sendo minimizadas a favor da repercussão de um jornalismo neocon que é, neste momento, na melhor das hipóteses, continental.

As manchetes oscilam entre o cinismo implícito e a manipulação evidente, tornando-se às vezes peças de humor involuntário – é o caso da Folha de São Paulo de 25/09: "Golpistas acusam Lula de intromissão". O que os editores do diário paulista esperavam que eles fizessem? Saudassem fraternalmente o mandatário do país que dá abrigo ao inimigo que depuseram do poder?

Assim agindo, a imprensa brasileira, em sua militante cobertura do caso hondurenho, torna-se, em última análise, cúmplice da truculência de um governo golpista contra a democracia hondurenha, a soberania do Brasil e as leis internacionais.


Nova doutrina diplomática
Isso justamente em relação a uma operação diplomática que contraria, de forma inédita, uma doutrina estabelecida há mais de cem anos pelo barão do Rio Branco e promove a expansão efetiva da área de influência do Brasil para a América Central, evidenciando assim a posição dúbia do governo Obama em relação ao golpe – em relação ao qual pesam suspeitas de ação de agentes dos serviços secretos norteamericanos.

O leitor que restringe suas leituras à mal chamada “grande imprensa” nacional simplesmente não pôde atinar com os complicados meandros, o ineditismo e o papel primordial que o Brasil vem exercendo para o restabelecimento da ordem democrática no país caribenho e do confronto sutil mas fundamental que tal ação provocou na posição dos EUA, expondo-a e praticamente forçando uma tomada de posição efetiva. A revogação do estado de sítio anunciada hoje é o até agora mais forte indício da efetividade da ação diplomática brasileira.

Fechada em seus dogmas, atrelada tão-somente à defesa de seus interesses, a imprensa assim agindo se iguala ao racista intransigente de que fala Todorov: é um ente em decadência, presa de seu próprio anacronismo e de sua intransigência, cavando a cova de seu próprio descrédito.



Atualização de artigo publicado no Observatório da Imprensa em 29/09.

(Imagem retirada daqui)

sábado, 15 de agosto de 2009

O Ombudsman no jornalismo atual

Meses após a criação do cargo de Ombudsman pela Folha de São Paulo, há 20 anos, uma piada circulava nos meios jornalísticos: “o Estadão já tem o seu ouvidor, falta a Folha arrumar o dela”. O chiste dizia respeito à alegada tendência do primeiro ocupante do cargo, Caio Túlio Costa (1989/1991), de reiteradamente criticar o jornal concorrente ou de comparar instisfatoriamente a cobertura que o jornal dos Mesquita fazia de determinado assunto em relação à oferecida pela Folha.

O gracejo me veio novamente à cabeça ao ler coluna do atual Ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva, intitulada “A internet a serviço do jornalismo”. Como seu título indica, nela são elencados, nas palavras do jornalista, “ exemplos de como a internet pode contribuir muito positivamente para melhorar a qualidade do jornalismo e das relações entre a sociedade e seus governantes”.

Tais exemplos advêm do jornalismo norteamericano e não há qualquer correlação à atividade de imprensa no Brasil nem ao órgão em que Lins da Silva trabalha e o qual está incumbido de criticar, alegadamente em nome do leitor e do aperfeiçoamento do jornal. Essa omissão leva a curiosas distorções. Por exemplo: Lins da Silva afirma, corretamente, que “Há quem enxergue na internet um inimigo do jornalismo. É um erro conceitual e estratégico”. Mas tal afirmação não é correlacionada a exemplos recorrentes de profissionais que alimentam tal anacronismo, facilmente encontráveis entre alguns colunistas do jornal, destacadamente na outrora “nobre” página A-2. Perde-se, portanto, uma oportunidade efetiva de agir de acordo com as prerrogativas do cargo, criticando objetivamente aspectos preconceituosos e datados vigentes em setores do jornal.

Embora haja os que defendem a licicitude de tal prática, não considere correto que, dada sua posição de representantedo leitor, um Ombudsman ocupe uma coluna semanal com temas genéricos sem correlacioná-los às práticas do veículo em que trabalha. No caso particular do ouvidor da Folha, a tal discordância vem somar-se o receio de que a incursão por aspectos genéricos do jornalismo internacional funcione como sintoma de cerceamento das possibilidades de intervenção do Ombudsman no jornal e/ou de esgotamento da disposição crítica do próprio Lins da Silva em decorrência do efeito de tais limitações, tornadas evidentes na forma como a Folha vem sistematicamente ignorando suas sugestões, objeções e críticas. Ou seja, de fatores que apontam para a exaustão do modelo de ouvidoria jornalística representado pela adoção do cargo de Ombudsman pela Folha de São Paulo.


Marketing iluminista
A criação do Ombudsman, em 1989, mostrou-se uma bela jogada de marketing, de grande repercussão, numa fase em que o jornal acabara de perder alguns dos profissionais que, em cerca de vinte anos, transformaram um diário pouco expressivo num dos líderes de venda e – em grande parte graças à postura da Folha durante a campanha pelas “diretas já” – de credibilidade, fazendo muita gente levar fé em seu lema de inspiração iluminista de que se tratava de um jornal a serviço do Brasil.

Ao contrário do que a campanha publicitária e o próprio jornal martelavam a cada oportunidade, não se tratava do primeiro Ombudsman da imprensa brasileira. Muito possivelmente era a primeira vez que a denominação de origem sueca era aplicada a um profissional nativo, mas a atividade de analisar de forma crítica a própria imprensa já fora exercida antes, e na mesma Folha, por Alberto Dines, no caderno dominical Jornal dos Jornais, que durou de julho de 1975 a setembro de 1977, como aponta Celso Lungaretti, em texto repleto de informações valiosas sobre a experiência.

De qualquer forma, o caráter aparentemente institucional do cargo e um contrato com cláusulas que impedia o profissional que o exercesse de ser demitido - garantindo, ainda, sua permanência no jornal por um determinado período após o término das atividades de ouvidor - acabaram por afiançar a credibilidade da “inovação democrática” junto ao público.

No início, tinha-se a impressão de que as críticas surtiam efeito: pareciam ocorrer alterações significativas, por exemplo, no relacionamento dos colunistas com determinados temas e um cuidado maior (embora ainda insatisfatório) com a interlocução com o leitor; as restrições do citado Túlio Costa ao estilo, digamos, pouco afeito a convenções de Paulo Francis – então considerado por muitos o principal articulista do país, com sua cultura enciclopédia, seu texto de alto nível e um estilo que prefigurava, em nível bem mais alto do que corrente, a moda neocon - foram o principal motivo por ele alegado para sua transferência para o Estadão, em 1990.

Seguiu-se um longo perído durante o qual jornalistas de renome ou com a carreira em ascensão se revezaram no cargo, uns mais incisivos, outros mais parcimoniosos, uns agradando a gregos, outros desagradando a troianos, mas sem que provocassem grande celeuma (veja aqui a lista completa de ouvidores, seu tempo no cargo e a primeira e última coluna de cada um deles).


Figura decorativa
O caldo começou a entornar com a posse e a disposição crítica demonstrada pelo nono Ombudsman, Mario Magalhães (2007/2008), que se recusou a compactuar com o jornalismo partidário que a Folha insiste em praticar desde a posse de Luís Inácio Lula da Silva. Seguiu-se uma queda-de-braço entre Redação e Ombudsman, culminando com a decisão daquela de restringir ao “público interno’ a circulação da crítica diária. Para Magalhães, foi o estopim e ele não renovou o contrato, tornando-se o primeiro Ombudsman do jornal “a deixar o posto por não compactuar com sua descaracterização e esvaziamento”, nas palavras de Lungaretti.

Sua substituição por Lins da Silva inicialmente causou apreensão. Embora se tratasse de um profissional com um currículo jornalístico e acadêmico dos mais respeitáveis, temia-se que o fato de assumir o cargo com suas funções originais parcial mas gravemente reduzidas, somado à sua relação de proximidade com o jornal, pudesse significar uma postura de anuência para com o jornalismo praticado pela Folha, acusado, com frequência e intensidade inéditas, de tendencioso e antiético. Afinal, quando o diário dos Frias criou o cargo de Ombudsman, em 1989, Lins da Silva havia acabado de publicar em livro sua tese de livre-docência, sob o título de Mil Dias: Os Bastidores da Revolução em um Grande Jornal e a “orelha” do volume o apresentava aos leitores como “Um dos líderes da equipe que provocou profundas transformações na Folha de S. Paulo (onde é diretor-adjunto de redação)”. São precisamente tais transformações – em relação às quais a criação do cargo de Ombudsman é uma espécie de culminância –, enfocadas criticamente como um processo de profissionalização da produção jornalística em todos os níveis, incluindo o ético, o tema do livro.

As suspeitas em relação ao novo Ombudsman logo revelar-se-iam infundadas, com Lins da Silva assumindo postura crítica em relação não apenas a questões mais comezinhas, mas a episódios extremamente graves como a utilização do neologismo “ditabranda” para se referir à ditadura militar, o ataque aos professores Maria Victoria Benevides e Fabio Konder Comparato, e a utilização de ficha policial falsa da ministra e pré-candidata Dilma Roussef em reportagem sobre sequestro hipotético que nunca ocorreu.

O problema é que a postura correta e incisiva do atual Ombudsman não tem surtido efeito algum, com a Redação ignorando de forma olímpica o resultado de suas análises e suas objeções. É motivo passível de constrangimento não apenas para o próprio Lins da Silva, mas para o leitor, logrado em sua representação junto ao jornal, a manutenção do Ombudsman como mera figura decorativa.

Assim, só me resta concordar com Lungaretti quando, em outro artigo, publicado em seu blog em 31/07 e desta feita acerca do “caso Sarney”, afirma:


“Infelizmente, os leitores há muito deixaram de ser representados no jornal, que só mantém a seção do ombudsman para não passar recibo de que sua arrogância olímpica é incompatível com os limites que jornais mais sérios impõem a si próprios. Criou tal seção, apresentou-a como um grande avanço na democratização dos meios de comunicação, depois arrependeu-se do que havia feito e a esvaziou, mantendo-a apenas como fachada.

Então, de nada adianta Carlos Eduardo estar sempre com a posição correta, salvo em benefício de sua biografia como profissional de dignidade exemplar. Mas, a única obrigação da redação da Folha tem sido a de escutar pacientemente suas ponderações; depois, age como bem entende”.

Em decorrência das constatações elencadas acima, duas questões se impõem:


1) Por que um profissional de primeiro nível e um homem público da estatura
ética de Carlos Eduardo Lins da Silva se presta a tomar parte dessa pantomima?

2) Ombudsman, para quê?

(Artigo originalmente publicado no Observatório da Imprensa. Fiz mínimas modificações).

Adendo (15/08):
A quase totalidade das respostas a este artigo, na ocasião – em comentários ou via email –, ressalvaram que a função que o atual Ombudsman exerce diretamente junto aos leitores, dando encaminhamento e respondendo às suas queixas, seria de suma importância e justificaria a manutenção do cargo e de Lins da Silva, ainda que este tivesse suas demandas praticamente ignoradas pela Redação.

O próprio Lins da Silva, com uma urbanidade e firmeza que confirmam as considerações acerca de seu caráter feitas ao longo do texto, dedicou coluna dominical comemorativa dos 20 anos da criação do cargo de Ombudsman na Folha aos temas cobertos por mim e por Lungaretti (coluna disponível aqui, infelizmente só pára assinantes do UOL ou da Folha). Embora admita "que experimente frustração vez ou outra ao ver minhas sugestões e linha de raciocínio ignoradas", Lins da Silva não apenas corrobora a visão dos leitores acima citada - afirmando que "Mesmo que nunca a Redação acatasse as opiniões do ombudsman, ainda assim ele teria um papel importante" - como, traçando analogias com o o mito grego de Cassandra e com o personagem Grilo Falante, de Pinóquio, aponta a importância histórica das críticas, concluindo: “Mas Cassandras, grilos e alter egos só têm valor quando são atendidos?”.

Como o perfil do público do blog costuma divergir consideravelmente do dos leitores do Observatório e como há o dado novo das considerações de Lins da Silva, republico o artigo aqui para um renovado exame da questão e nova coleta de opiniões.

(Imagem retirada daqui)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A manchete que a imprensa escondeu

Imagine o seguinte acontecimento: dois Ministros de Estado de um grande país latinoamericano – um deles candidato a presidente nas próximas eleições presidenciais – viajam a Washington para um fórum econômico de cúpula que reúne os assessores para Segurança Nacional dos EUA, Jim Jones, e o para Assuntos Econômicos Internacionais, Michael Froman, além de 20 representantes de algumas das maiores empresas e grupos financeiros dos dois países, como Coca-Cola, Motorola, Cargill e Citibank. O presidente norteamericano Barack Obama decide prestigiar o evento, dele tomando parte por cerca de meia hora.

À saída, não apenas o ministro-candidato anuncia o “forte apoio” de Obama à intensificação do comércio entre os dois países e ao combate mútuo ao protecionismo, mas o próprio presidente dos Estados Unidos, que a princípio não deveria se pronunciar (na verdade, sequer costuma participar de reuniões desse tipo), faz questão de fazer uma declaração, na qual enfatiza a importância da relação bilateral entre os dois países.

Desnecessário dizer que, em linguagem diplomática, o “gesto espontãneo” de Obama tem significação clara: sinaliza a primazia do tal país latino-americano como parceiro regional. Como a confirmar tal significação, ato contínuo, o influente Council on Foreign Relations divulga nota em que sugere olhar o tal país latinoamericano “como intermediário em questões de segurança regional", pois ele “está aprendendo a equilibrar diplomacia comercial e política de modo sem precedentes".

No dia seguinte, obviamente, o assunto domina as manchetes dos grandes jornais e é explorado à exaustão pelo noticiário televisivo do país latinoamericano. Nas edições imediatamente seguintes, economistas, cientistas políticos e experts em profusão debatem as implicações, imediatas e a médio prazo, do encontro de cúpula em Washington, avalizado por ninguém menos do que o presidente da (ainda) maior potência mundial.


A imprensa descompromissada
Acontece que o país latinoamericano em questão é o Brasil, um lugar em que a imprensa, em sua maioria, tem simplesmente abdicado de seu papel de informar e questionar, preferindo agir como partido político. Para piorar, liderou a missão brasileira em Washington a ministra-candidata Dilma Rousseff, contra quem até fichas policiais falsas foram utilizadas na tentativa de denegri-la. Portanto, ao invés de manchetes, esquálidos parágrafos; no lugar de debates, um epifânico silêncio. A se basear na “grande imprensa” nativa, é quase como se os desdobramentos surpreendentemente positivos do Fórum de CEOs Brasil-EUA da segunda-feira, 21 de julho, não tivessem ocorrido.

Mas, além da imprensa norteamericana – que publicou dezenas de artigos e análises sobre o encontro -, boa parte da mídia internacional demonstrou-se muito mais atenta ao caso, fornecendo até detalhes do evento e estendendo a cobertura aos encontros de Dilma com o Secretário do Tesouro norte-americano, Tim Geithner, com o assessor econômico de Obama, Larry Summers, e com o Secretário de Comércio, Gary Locke, este ocorrido no encontro entre as câmaras de Comércio dos dois países, pela ministra coordenado.

A imprensa latinoamericana, em especial, revelou-se muito mais interessada do que os jornais brasileiros. O DiarioCritico, do México, publica uma alentada reportagem, com farta informação e direito a foto da ministra; o Buenos Aires Herald chega a ser mais específico, assinalando que “Os CEOs recomendaram que os EUA eliminassem suas tarifas para importação do etanol, mudança que beneficiaria o Brasil, mas que enfrenta grande oposição dos plantadores de milho norte-americanos”. De acordo com a agência de notícias Ansa Latina, um porta-voz norte-americano teria declarado que “Washington e Brasilia nunca tiveram uma relação tão ‘forte’ e que isso se deve à afinidade de opiniões entre os mandatários”.

A declaração de Dilma Rousseff de que ambos países devem trabalhar com "ênfase especial” em áreas relacionadas a biocombustiveis e cooperação científica e tecnológica foi destacada em matéria do site Mendonza On Line, que também ouviu o Secretário de Comércio Locke. Ele, por sua vez, ressaltou a "sociedade" entre os dos países, em particular para incentivar investimentos privados no Haiti e em várias nações africanas. Até a imprensa de países que não estão sequer na esfera geopolítica do tema, como França e Alemanha, deram mais atenção à cúpula do que a imprensa brasileira. O site informativo francês Autorecrute salientou na cobertura que “O comércio bilateral entre Estados Unidos e Brasil aumentou para 63,4 bilhões de dólares em 2008”. Pelo jeito, atingimos um ponto em que, por vezes, devido a interesses essencialmente políticos, a mídia mundial interessa-se-mais por questões brasileiras do que a própria mídia nativa...


Desinteresse ostensivo
No Brasil, o desinteresse foi ostensivo, Nos jornalões, nenhuma manchete de capa. Fotos? A única que este observador deve a oportunidade de ver – autêntica, e não referente ao encontro anterior entre Obama e Dilma, em que a ministra era parte da entourage de Lula, e que foi utilizada para ilustrar diversas matérias internacionais - estava, um tanto surpreendentemente, no portal Yahoo. O Estadão e os menos prestigiados Diário do Comércio e Correio do Povo ainda produziram uma matéria de uma lauda cada um, escondidas longe das manchetes.

A cobertura mais ardilosa foi, uma vez mais, da Folha de S. Paulo, que se valeu de um expediente editorial que se tem tornado recorrente no jornal quando quer “esconder” uma notícia: utilizar títulos que simplesmente não permitem ao leitor correlacioná-los ao tema que tratam. Dessa vez, a titulagem não dá a mínima margem para que o leitor adivinhe que a matéria é sobre o evento de comércio binacional: “Petrobrás pode assumir todos os blocos do pré-sal, diz Dilma”. O texto do usualmente bem informado e eclético Sérgio Dávila é um primor de dissimulação e contradições. Vejamos:

“À tarde, enquanto o grupo se reunia na sala do assessor de Segurança Nacional obamista, James Jones, o presidente Barack Obama apareceu no local.

Segundo relatos, ele foi simpático, mas protocolar. Perguntou aos empresários as principais dificuldades nas relações bilaterais. Disse que o país era parceiro estratégico não só em questões bilaterais mas também em regionais e globais e ressaltou a intenção de aprofundar a colaboração em biocombustíveis, na ajuda à África e ao Haiti e no combate à mudança climática”.

Relevemos que “assessor de Segurança Nacional obamista” e “assessor de Segurança Nacional dos EUA” – como a imprensa internacional se refere ao ocupante do cargo - sugerem coisas e posições hierárquicas consideravelmente diferentes, e que a duvidosa primeira denominação não permite a priori afirmar que Jones “ocupa uma das posições mais poderosas no país”, como atestou, quando da nomeação de Jones, a Time magazine. A denominação oficial do cargo é “National Security Adviser”, e não inclui, é claro, nenhuma referência a Obama. Parece-me lícito deduzir que seu ocupante, embora naturalmente nomeado pelo presidente, serve contratualmente ao país. O que vocês acham?

Como mais uma demonstração de boa vontade analítica, participemos também, como faz o colunista, da brincadeira de fazer de conta que Obama “apareceu” no local. Afinal, é divertido supor que o presidente dos EUA gosta de enlouquecer sua entourage e o Serviço Secreto, improvisando seus atos a todo momento.

Agora, a sério, vamos à pergunta que não quer calar: Obama teria sido “Simpático, mas protocolar”? A descrição da performance do presidente norte-americano no encontro, perpetuada no próprio texto de Dávila, contradiz a afirmação que o jornalista faz na abertura do parágrafo. Senão, vejamos: um dos homens mais poderosos do mundo adentra, alegadamente por vontade própria, uma reunião de cúpula, enche os empresários de perguntas, ressalta a intenção de aprofundar colaboração com o Brasil em nada menos do que quatro áreas estratégicas e faz,ainda, questão de afirmar (em público, o que a matéria omite) que o país é “parceiro estratégico não só em questões bilaterais mas também em regionais e globais” – e isso é ser “protocolar”? O que o colunista esperava, que Obama sapecasse uns beijos na Dilma?

A Folha oferece, ainda, uma sub-retranca que, uma vez mais, repete o truque da titulagem dissimulatória, dessa vez não permitindo sequer que se deduzisse qualquer interação com entes diplomáticos brasileiros: “Empresário dos EUA condenam tarifa ao etanol”.

Mesmo na blogosfera a cobertura foi decepcionante, a ponto de Luís Nassif transformar em post o comentário do internauta Clovis Campos protestando: “Nenhuma informação em lugar nenhum”. Nos 42 comentários que se seguem ao post, nenhum link para blog sobre o tema, com a exceção óbvia dos para-oficiais (intitulados “os amigos do presidente Lula” e, falta de imaginação, “os amigos da presidente Dilma”). No restante da blogosfera, há reproduções de despachos de agências e das matérias citadas acima, mas se encontram – com o perdão do trocadilho - virtualmente ausentes textos críticos. O Blog Por Simas ao menos conseguiu difundir a lista das empresas brasileiras que tomaram parte do encontro, ausente das reportagens: “Gerdau, Vale, Embraer, Coteminas, Odebrecht, Votorantim Participações, Sucocítrico Cutrale, Camargo Côrrea, Stefanini IT Solutions e Banco Safra”.


Ciclo de omissões
É lícito lembrar, ainda, que esse ciclo de omissões ocorreu no meio de uma semana particularmente pobre de grandes assuntos, na qual, estivesse o jornalismo brasileiro funcionando em condições normais de temperatura e pressão, tais fatos diplomático-comerciais teriam tudo para ser manchete dos grandes jornais, com destaque para a tradicional fotografia dos protagonistas se cumprimentando – afinal, trata-se, no mínimo, de um momento histórico para o comércio entre os dois países. Como explicar essa omissão da mídia ante um fato notório por si mesmo e que fornece tantos elementos para a discussão das relações Brasil/EUA e do realinhamento geopolítico do país em relação ao continente americano?

Há três hipóteses principais:

1) O fato não é relevante a ponto de merecer a devida atenção de nossa mídia, ocupada com denúncias mais sérias;

2) Nossa mídia é incompetente, e não foi capaz de avaliar a importância de um encontro de cúpula entre a nata do empresariado norte-americano e brasileiro com a alta burocracia dos dois países, nem de apurar que o presidente dos EUA participaria do encontro e a seu respeito se pronunciaria publicamente, conferindo-lhe importância diplomática incontestável;

3) Nossa mídia deliberadamente boicotou o evento por motivações políticas, preferindo omitir de seus leitores informações de extrema relevância para o futuro do país. Por quê? Por ser este comandado por uma ministra que é a principal opção eleitoral das forças políticas as quais, como se partido político fosse, essa mesma mídia tem sistematicamente repelido.

Vamos por eliminação: os caros leitores que têm fresca na memória as reportagens de capa (e com direito a fotos) dos grandes jornais com Pedro Malan e Armínio Fraga – de sobretudo, é claro - se reunindo com algum sub do sub do sub em Washington, que proliferaram durante as presidências de Fernando Henrique Cardoso, sabem que, devido ao número e à patente das autoridades envolvidas, o Fórum dos CEOs, vitaminado pela participação do presidente dos EUA é, comparativamente, muito mais importante. Portanto, descartemos a hipótese 1.

Sobram, portanto, duas hipóteses, que não oferecem elementos para serem categoricamante descartadas a priori: a incompetência de nossa mídia ou sua omissão por razões político-eleitorais. Minha impressão pessoal é que, a despeito do atraso técnico e dos seguidos episódios de violação da ética jornalística (que não deixam de ser uma forma particulamente nociva de incompetência), esta última não é tão grave em nossa imprensa a pon to de ignorar um fato diplomático de primeira grandeza.


Por que a cortina de silêncio?
Mas deixo aos leitores a tarefa de julgarem por si mesmos, oferecendo, em contrapartida a tão dilacerante esforço, sábias reflexões do jornalista Perseu Abramo acerca da omissão na mídia, que ele interpreta como estratégia primordial dos grandes grupos de imprensa para desinformar e, assim, manipular o leitor/espectador. Segundo trecho de seu livro Padrões de Manipulação da Mídia citado no blog do sempre combativo Altamiro Borges, trata-se de:

“Um deliberado silêncio militante sobre determinados fatos da realidade. Esse é um padrão que opera nos antecedentes, nas preliminares da busca da informação, isto é, no ‘momento’ das decisões de planejamento da edição, naquilo que na imprensa geralmente se chama de pauta... O padrão da ocultação é decisivo e definitivo na manipulação da realidade: tomada a decisão de que um fato ‘não é jornalístico’, não há a menor chance de que o leitor tome conhecimento de sua existência por meio da imprensa. O fato real é eliminado da realidade, ele não existe”.

Se por leniente incompetência ou se por má-fé eleitoreira, o fato é que a cobertura acanhada e des-hierarquizada do encontro de Dilma e Obama, além de manter desinformado o público leitor que a mídia tem por obrigação informar, é indicadora de um estado de coisas e de uma perspectiva futura temerária. Pois, se para episódios aparentemente menos consequentes envolvendo Dilma Rousseff o método adotado foi esse - transformar uma possível manchete em um fato menor, quase um não-fato -, tem-se uma idéia do que pode vir a acontecer quando os ânimos se acirrarem ao longo do pedregoso caminho que leva às eleições de outubro do ano que vem.


É preciso vigiar a mídia
Tenho sentido, ultimamente, uma certa tendência ao cansaço à crítica à mídia, a difusão de uma atitude de “deixa pra lá” e de “eles que se danem” em relação à ação da “grande imprensa”. Considero essa mentalidade – e a prática a ela associada – perigosíssima, uma fonte potencial para deixar a mídia deitar e rolar nas próximas eleições, não apenas tentando impor seus candidatos, mas o fazendo com os métodos e conluios que são nossos velhos conhecidos.

Por isso, insisto uma vez mais: é preciso refrear a euforia inconsequente que toma conta da blogosfera e substituí-la por uma marcação cerrada e articulada das práticas da mídia, pelo menos até as próximas eleições. Do contrário, eles locupletar-se-ão.


(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 14 de julho de 2009

Michael Jackson e a necrolatria coletiva

(Imagem retirada daqui)

Assim que foi anunciada a morte de Michael Jackson, a mídia mundial ocupou-se da tragédia com uma voracidade que talvez só encontre paralelo na morte da princesa Diana, em 1997. Teve início então um grande show cibernético/televisivo, com imagens de arquivo do ídolo pop misturadas a cenas de fãs em pranto, que por sua vez davam lugar a reportagens especulativas sobre as causas da misteriosa e repentina passagem, aos 50 anos de idade, de um artista ainda capaz de performances atléticas.

De início, a internet comandou o espetáculo. Anunciada em primeira mão por um pequeno site de entretenimento e fofocas sobre celebridades - chamado x17online.com -, a notícia quadruplicou o tráfico na rede mundial de computadores, “travou” ou tirou do ar dezenas de sites e colocou o nome do cantor, compositor e dançarino nas primeiras posições em virtualmente todas as principais ferramentas de busca, Google à frente. Em números absolutos – mas não percentualmente - o evento foi mais impactante na rede do que os atentados terroristas de 11/09, superando com folga a repercussão provocada pela morte da última grande celebridade mundial, a princesa Diana.

E convém lembrar que Diana não tinha contra si, ao contrário de Jackson, a ira ou o desprezo de parcelas consideráveis da opinião pública, que as arraigadas suspeitas de pedofilia legaram ao norteramericano. Se despertou compaixão como a esposa desprezada, humilhada publicamente sob a pompa dos cerimoniais reais, soube, por outro lado, tornar-se admirada pela coragem e determinação com que conduziu o divórcio, confrontando a família real, reconquistando a independência. A transição vivenciada por Lady Di, de esposa oprimida à diviorciada livre e bem-sucedida, simboliza a própria trajetória da mulher no século XX. Com um charme ímpar e uma elegância natural, era uma espécie de Jackeline Kennedy dos anos 90, com a vantagem de contrastar seu charme plebeu não com o mais carismático dos presidentes norteamericanos, mas com a mais decadente das instituições de poder: a realeza britânica. Sua morte, também abrupta, interrompera uma trajetória ascendente em termos de reconhecimento popular – como a queda-de-braço post-mortem com a família real por conta de seus funerais, tão sugestivamente reencenada no filme A Rainha (The Queen, Stephen Frears, 2006), torna evidente.

Sucesso e decadência
A trajetória de Michael Jackson desenha outra linha no gráfico da vida e da fama, na forma de um V invertido, com o pronunciado ápice a meio caminho entre a escalada inicial rumo ao sucesso e a lenta decadência das últimas duas décadas .

A infância pobre, desprovida de seu espaço específico de ludicidade e lazer – substituído pela rotina massacrante de ensaios impingida pelo pai/empresário – o leva à condição de garoto-prodígio dos Jackson 5, mais um dos tantos grupos de sucesso do cast da meca da música pop negra norteamericana, a gravadora Motown. Aos 14 anos parte para uma carreira solo concomitante à atuação no grupo, de início mediana e de sucessos eventuais (Ben, Music and Me), seguida de sua estréia como ator em 1978, no papel do espantalho numa versão afroamericana e musicada de O Mágico de Oz, dirigida pelo prestigiado Sidney Lumet e protagonizada por Diana Ross, uma misto de madrinha e de melhor amiga de Michael até o fim de seus dias. A colaboração com o maestro Quincy Jones inicia-se com festejado álbum Off the Wall (1979), que estoura nas paradas norteamericanas, mas é no disco seguinte, Thriller (1983), que Michael torna-se um fenômeno mundial.

Fenômeno esse que combina letras inventivas, às vezes malandras, a melodias “pegajosas”, com forte pegada rítmica, valorizadas pela criativa produção de Quincy Jones e pelo uso intenso do videoclip de uma forma que nenhum artista ousara antes, produzindo clássicos do gênero, que divulgariam passos de dança copiados por jovens de todo o mundo e tornariam evidente o excepcional dançarino que Michael era. Ele torna-se então um artista de projeção mundial, uma espécie de blockbuster da música pop, para usar a terminologia utilizada no âmbito cinematográfico para designar as megaproduções que angariam todo tipo de público (fenômeno que se iniciara seis anos antes , com o lançamento de Star Wars, de George Lucas). Thriller se torna o álbum mais vendido da história da indústria fonográfica, com 106 milhões de cópias comercializadas no mundo até 2005, e Michael um artista capaz de lotar estádios em virtualmente qualquer lugar do planeta.

Mas o que parecia ser o desabrochar de uma trajetória altamente promissora de um artista de primeira grandeza revelar-se-ia, nos anos seguintes, seu efêmero cume. Tanto do ponto de vista artístico e comercial quanto, sobretudo, em relação à sua vida pessoal, nos anos seguintes e até a sua morte, Michael entraria numa espiral negativa e jamais repetiria as performances memoráveis da “Era Thriller”. Seus discos de inéditas seguintes oscilaram entre repetições em escala menor de uma fórmula agastada e tentativas malsucedidas de inovação, e ainda que, assim como as sucessivas coletâneas, continuassem a vender muito, não atingiam nem metade dos números obtidos por Thriller: os álbuns Bad (1987) e Dangerous (1991) ainda conseguem atingir por volta de 40 milhões de cópías cada um, mas Blood on the Dance Floor (1997) e Invincible (2001) ficariam em torno de 15 milhões de cópias vendidas por título.

Ao mesmo tempo, as acusações de pedofilia – que se oficializam pela primeira vez em 1993, embora antes já circulassem rumores a respeito - se multiplicam nos 15 anos seguintes, afetando sua imagem, migrando-o dos cadernos de cultura para as páginas policiais e capas dos tablóides, e dilapidando boa parte de sua fortuna em custos e acordos judiciais. Além disso, parecia haver algo de sinistro por trás das profundas transformações em sua aparência física, com o embranquecimento radical da pele e as sucessivas plásticas faciais sugerindo uma psique perturbada, como que confirmada pelas bizarras situações em que volta e meia seria flagrado (no ambiente infantilizado que criara para si no seu rancho sugestivamente chamado Neverland; brincando perigosamente com seu filho Jackson II ainda bebê numa sacada de um prédio alto; vestido de mulher num banheiro em Bahrein; gastando U$10 milhões de dólares em compras numa tarde). Por fim, daria-se o outrora inacraditável anúncio de sua falência.

A morte como espetáculo
Essa dark face do ídolo, que foram o tema recorrente que a menção a seu nome costumava despertar nos últimos 15 anos, como que desapareceu por encanto com o anúncio de sua morte, dando lugar a uma espécie de “sessão nostalgia”, a um tempo celebratória e fúnebre. Michael voltou a ser referido como “um menino-prodígio”, “o artista maior”, “o maior dançarino de todos os tempos”. Nos quatro cantos do mundo, hordas de fãs improvisavam altares repletos de bilhetes e flores; 1,6 milhão de pessoas no mundo todo disputaram a tapa os 17,5 mil ingressos para seu velório - na verdade, um xaroposo e tipicamente norteamericano show fúnebre - enquanto nas multidões que ficaram de fora muitos choram copiosamente em frente às câmeras. A necrolatria se revela como neurose coletiva.

O Brasil é familiarizado com o fenômeno: a morte violenta de duas crianças no ano passado, o velório interminável, medido em semenas, de Ayrton Senna; a longa vigília por Tancredo Neves; Carmen Miranda, antes acusada de “americanizada”, voltando dos EUA em um caixão para uma cerimônia fúnebre apoteoticamente popular.

Também a santificação automática post-mortem é nossa velha conhecida. Para citar só dois dos mais gritantes exemplos: Roberto Marinho e Antônio Carlos Magalhães, vulgo Malvadeza, que por décadas foram dois dos maiores vilões, respectivamente, da mídia e da política nacionais, só faltaram ser canonizados ao falecerem. O "jornalista" Pedro Bial chega a escrever um livro para bajular o ex-patrão e aproveitar o fenômeno fúnebre.

No caso de Michael, até a pedofilia foi temporariamente despida de sua natureza abjeta e tematizada na piada algo profana, mas de uma mordacidade inocente - que circulou na internet horas após sua morte -, segundo a qual a primeira pergunta de Jackson, ao chegar ao céu, teria sido onde estava o Menino Jesus...

A Mídia como indutora da histeria necrólatra
O ombudsman da Folha de São Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, que criticou a cobertura que o jornal dispensou à morte de Michael Jackson, reconhece o papel da mídia nessa catarse necrólatra como nutridora do apetites histéricos populares. Referindo-se às idéias defendidas por Richard Sennett no livro O Declínio do Homem Público, assinala que:

“A mídia eletrônica, ensina Sennett, insufla esse ânimo coletivo que exige dos famosos um "strip-tease psíquico" público permanente (no caso de Michael Jackson, chega até o túmulo). E o faz porque a sociedade assim deseja. O jornalismo impresso deveria ser um contraponto de civilidade. É uma pena que esta Folha pareça se recusar a exercê-lo.”

A reflexão mais importante para o jornalismo diz respeito justamente à ligação entre cobertura midiática e retroalimentação desse processo de necrolatria coletiva, mesmo porque tal ligação pode estar, paradoxalmente, afetando a imagem pública da imprensa, como o demonstra o fato de que tanto em relação a Diana como a Michael Jackson a mídia foi citada - no caso de Diana, judicialmente – como diretamente responsabilizada pelas mortes: em relação à princesa, devido à perseguição que os papparazzi, na ânsia pela imagem vendável, teriam feito ao carro em que ela se encontrava; no de Jackson, justamente pelos efeitos alegadamente devastadores, em sua vida pessoal, do strip-tease público de que fala Sennett.

Ilhas de sensatez
No histerismo que caracterizou, de modo geral, a cobertura da morte de Michael Jackson, dois depoimentos formaram um oásis de sensatez e sobriedade. O primeiro foi a declaração da jornalista Glória Maria ao noticioso Em Cima da Hora, do canal a cabo Globo News, em que ela descreve as impressões colhidas do convívio com Michael por ocasião da filmagem no Brasil do clip da música They Don’t Care about Us. “Fragilidade” foi a palavra mais utilizada pela ex-apresentadora do Fantástico para descrever o artista, que segundo ela, embora se mostrasse gentil e interessado, interagindo com seus coadjuvantes brasileiros, aparentava estar muito doente, sendo visíveis os danos que o vitiligo produzira em boa parte do seu corpo e sua fadiga intermitente.

O outro exemplo vem da coluna de Carlos Heitor Cony intitulada “Modos e Modas”, publicada em diversos jornais do país no último dia 30. Sem a intenção de redigir um obituário, o jornalista produz uma análise sucinta do talento essencial de Michael, em perspectiva histórica: “Afirmo e reafirmo que ele é superior a Fred Astaire, até então o maior bailarino do audiovisual de nossa era” (...) Inventou uma expressão corporal que transcende a expressão musical (...) O detalhe da bengalinha, dos farrapos e do chapéu-de-coco em Chaplin tem equivalentes no mocassim e nas meias brancas de Michael Jackson – um detalhe que poderia parecer cafona, mas nele é marca de uma personalidade fora de série”.

No entanto, a trajetória de Michael - ao contrário, por exemplo, da princesa Diana (para utilizar o mesmo modelo comparativo utilizado no início do artigo) -, se analisada detidamente, não oferece justificativas sociais convincentes que ajudem a explicar o enigma de seu culto, para além dos limites do fascínio que desperta sua própria arte, há tempos decadente. Além do peso das reiteradas acusações de pedofilia – das quais nunca foi capaz de se dissociar de modo convincente, muito pelo contrário -, Jackson foi talvez o artista que mais teve em suasmãos o poder de brandir a bandeira da negritude como instrumento de afirmação racial – mas, sem que ele próprio tenha permitido saber se por opção pessoal ou em decorrência do vitiligo, o fato é que sua imagem ficou paras muitos ligada à negação de sua própria raça. Até a trajetória da pobreza para o sucesso milionário através do trabalho duro reverteu-se contra ele, não apenas pelos declarados traumas que a “ausência de infância” lhe causara, mas pela extrema futilidade com que administrou sua fortuna, a ponto desta alegadamente se esvair em dívidas ao final de sua vida.

Mas enquanto muitos ao redor do mundo ainda o velam, Michael Jackson, morto, volta ao topo das paradas.


(Originalmente publicado n’ Observatório da Imprensa em 07/07/2003. Fiz algumas modificações).

terça-feira, 9 de junho de 2009

O Colunismo Monocórdico

(Colunista da Folha exercendo com brilho seu ofício)

Ao menos desde a reforma promovida por Cláudio Abramo nos anos 70, a Folha de São Paulo passou a apresentar como uma de suas características distintivas a pluralidade opinativa. Embora a linha editorial se evidenciasse nas pautas, matérias e reportagens – e mesmo na escolha dos colunistas "da casa" –, havia espaço para uma plêiade de opiniões que cobriam virtualmente todo o espectro político-ideológico. A principal dificuldade metodológica para empreender uma pesquisa do conteúdo discursivo do jornal advinha justamente dessa tendência à pluralidade – que uns reconheciam como autêntica e efetiva, enquanto outros acusavam tratar-se de mero recurso dissimulatório para o conservadorismo do jornal e álibi para torná-lo palatável a um público mais amplo.

Essa configuração plural teve sua abrangência à esquerda paulatinamente reduzida - e tornada menos frequente - a partir de fins dos anos 90 e hoje faz parte do passado. Ora não apenas o conteúdo opinativo produzido por convidados na seção "Tendências/Debates" (pág. A3) e por não-jornalistas na página A2 tornou-se muito mais homogêneo, com amplo predomínio de representantes dos setores conservadores (em que pesem as presenças de Marina Silva e de César Benjamin), mas o próprio corpo de jornalistas responsáveis pelas colunas de opinião tem apresentado maior coesão e identificação ideológica entre si, com as honrosas exceções de Carlos Heitor Cony e, ainda com maior agudeza, de Janio de Freitas. Tal característica tem evidenciado a guinada conservadora do jornal sob o comando do diretor de redação Otavio Frias Filho, que, além de moldá-lo de acordo com sua orientação político-ideológica, vem tornando a publicação muito mais repetitiva e tendenciosa, aproximando-se temerosamente de uma certa direita raivosa até mesmo na adoção de métodos de falseamento dos fatos (como no inaceitável caso da falsa ficha policial de Dilma Roussef recebida pelo correio eletrônico e que foi publicada mesmo sem ter sua autenticidade comprovada).


Opiniões viciadas
É exemplar desse novo estado de coisas o colunismo praticado na edição da segunda-feira (01º./06), dia em que a rabujice habitual de Clóvis Rossi dá lugar à ex-grande promessa do jornalismo brasileiro Fernando de Barros e Silva. Ambos jornalistas são responsáveis por uma coluna chamada "São Paulo", mas a última coisa que o leitor vai encontrar no espaço é algo que se refira ao estado em questão, e muito menos ao governo Serra – o tema recorrente ali é a presidência de Luís Inácio Lula da Silva, sempre ferozmente criticada.

A bola da vez é, nas palavras de Barros e Silva, a "máquina de propaganda do lulismo", tema de reportagem de Fernando Rodrigues publicada pelo jornal no dia anterior (31/05), que "revelou" que o governo Lula teria adotado "uma política radical e sistemática" de aplicação da verba publicitária pública. Antes que o leitor, ante denúncia de tamanha gravidade (se é radical é grave, não é mesmo?), sinta um frio na espinha e um cheiro de falcatrua no ar, vamos aos números:
"Em 2003, a Presidência anunciava em 499 veículos; em 2009, foram 2.597 os contemplados – um aumento de 961%. Discriminada por tipo de mídia, essa explosão capilarizada da propaganda oficial irrigou primeiro as rádios (270 em 2003, 2.597 em 2008), depois os jornais (de 179 para 1.273) e a seguir o que é catalogado como `outras mídias´, entre elas a internet, com 1.046 beneficiadas em 2008”.
Repare o leitor que não há um pio quanto ao volume de capital destinado à publicidade governamental; o aumento é horizontal, ou seja, a verba foi distribuída a um número maior de órgãos, promovendo uma louvável desconcentração de recursos publicitários. Um escândalo, sem dúvida...

Ao instituir tal regionalização e democratização da publicidade estatal, o governo, na visão do colunista, "promove um arrastão e vai comprando a mídia de segundo e terceiro escalões como nunca antes neste país". Não se tem notícia de esperneio semelhante de Barros e Silva quando o governo Fernando Henrique Cardoso enchia as burras da Folha de São Paulo, e tampouco ocorreu, mesmo ao mais mal intencionado dos analistas, confundir aplicação de verbas publicitárias com compra do jornal ou transformação deste em órgão chapa-branca.

Mas ao analisar a mídia alheia, Barros e Silva faz uso de dois pesos e duas medidas (repare no estilo policialesco, como se descrevesse uma atividade criminosa, que o colunista uma vez considerado um dos melhores textos e um dos analistas mais argutos em atividade, no afã de agradar ao patrão, não demonstra o mínimo pudor em adotar):

"No subsolo do poder a engrenagem montada pelo ministro Franklin Martins se encarrega de alimentar a rede chapa-branca na base de verbas publicitárias. É o Bolsa-Mídia do governo Lula".

A ilação maliciosa entre a política publicitária do governo e seu programa de distribuição de renda é reveladora do elitismo intransigente de uma certa imprensa – da qual a Folha compõe a linha de frente – que primeiro rejeitou o programa, apelidando-o de forma pejorativa (“Bolsa-Esmola”), para, quando ele passou a ser internacionalmente saudado, passar a analisá-lo exclusivamente como medida eleitoreira.

Somada à menção gratuita e leviana – pois sem comprovação – do papel que tais verbas publicitárias teriam no "governismo subalterno de certos blogs que o lulismo pariu por aí", o texto evidencia a incapacidade (ana)crônica dos colunistas da Folha para entender dois fenômenos do Brasil atual: o governo Lula e o ativismo político na internet. Trata-se de deficiência a um tempo significativa e perigosa para o próprio jornal, pois sua posição ante tais fenômenos afigura-se fundamental para entender sua crescente perda de credibilidade e sua vertiginosa queda nas vendas.

Assim, nem a o que restou de categoria no texto de Barros e Silva consegue disfarçar o óbvio: por trás da adjetivação pesada e da argumentação tortuosa não se esconde fato escandaloso algum, mas apenas interesses empresariais contrariados – no caso, do próprio Grupo Folha. Tais artifícios não passam, portanto, de cortina de fumaça para um queixume disfarçado de indignação cívica, um esperneio de um grande grupo de mídia que não aceita ser preterido na distribuição de verbas publicitárias federais. Que colunistas aluguem seu espaço de opinião alegadamente autônoma para tal chilique corporativo é revelador do grau de contágio que a decadência moral da outrora prestigiada redação do diário paulista ora apresenta.


A culpa é do marketing

Fernando Rodrigues, em coluna logo abaixo da de Barros e Silva, vai mais longe (você pode ler as colunas dos dois fernandos aqui, ao final dó ótimo texto que Luiz Antonio Magalhães fez publicar sobre o assunto). Para o jornalista da Folha:

"A resiliência inaudita do petista não surge por geração espontânea. Tampouco é fruto apenas da capacidade de comunicação do ex-sindicalista. Tudo é resultado de uma complexa estratégia de marketing [grifos meus]. O governo brasileiro pré-PT sempre foi o maior anunciante do país. Agora, sob Lula, elevou essa condição ao paroxismo. Chega sozinho a 5.297 veículos de mídia impressa e eletrônica. O sabão em pó Omo ou políticos de oposição, por enquanto, não são páreo para Lula."

O leitor atento nota que, no texto dos dois fernandos, não há nenhum questionamento relativo ao montante de verbas empregado pelo governo, sendo que Rodrigues tem a correção de reconhecer que o governo federal sempre foi o maior aplicador de verbas publicitárias no país – embora, ao contrário do que afirma, não haja "paroxismo" algum na ação do atual governo, que ao horizontalizar a distribuição e verbas promove, pela primeira vez em âmbito federal, a alteração de um modelo concentrador e responsável por desigualdades regionais graves no campo da comunicação.

O truque das duas colunas advém justamente de tal confusão: mistura volume de verba com número de veículos contemplados por tal verba como forma de atribuir ao marketing do governo – e exclusivamente a ele, como a frase grifada do texto de Rodrigues evidencia – o sucesso da administração Lula. Tal raciocínio suspende o julgamento de seu governo, de seus méritos e pontos críticos, em prol (sic) de um subtexto óbvio: você, (e)leitor que simpatiza com o governo Lula, é um idiota que se deixa ludibriar por propaganda oficial feita com dinheiro público.

Colunismo a serviço do patrão

Depois de tantos factóides políticos que resultaram inócuos e da contra-reação espetacular da Petrobrás ao criar um blog para defender-se da artilharia tucano-midiática (desculpe, leitor, o pleonasmo), parece por ora restar aos críticos sistemáticos do governo na imprensa pouco mais do que essa falaciosa operação discursiva, que finge desconhecer que a principal mídia do país, e a única que atinge todas as classes sociais, etárias e regionais – a TV Globo – não pode ser arrolada como órgão chapa-branca por conta do agrado das verbas federais. Aliás, muito pelo contrário.

Ler as duas colunas aqui comentadas e comparar o seu conteúdo aos fatos que criticam é deparar-se com um tipo de jornalismo que distorce os fatos de uma maneira tão deliberada que fica patente a despreocupação não somente em respeitar a inteligência do leitor, mas em preservar a própria respeitabilidade como jornalista (assim como a do órgão em que trabalham, se este ainda a tivesse).

A esse colunismo desonesto, elitista e em descompasso com a dinâmica do país faria muito bem a capacidade de observação sociológica em relação à popularidade de Lula demonstrada pelo jornalista Leandro Fortes em texto fundamental sobre a polêmica do terceiro mandato (publicado originalmente em seu blog, que infelizmente não oferece hiperlink). Ele assinala que:

"Luiz Inácio conseguiu estabelecer com o eleitorado uma ponte de comunicação praticamente imune aos ruídos da mídia (...) Lula fala a língua da distribuição de renda, da segurança alimentar e da identidade nacional. De certa forma, conseguiu converter em ganho eleitoral todos os males a ele atribuídos pela zelosa elite intelectual e econômica brasileira, da falta de educação formal à aparência física".

Tudo isso, de acordo com os colunistas da Folha de São Paulo, graças às verbas pulverizadas da publicidade oficial...

(Este texto foi originalmente publicado n’Observatório da Imprensa em 04/06/09. Fiz algumas modificações).
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P.S. Na segunda-feira (08/06), dia de menor circulação de jornais, a Folha abriu espaço para que o ministro-chefe da Secom, Franklin Martins, se manifestasse sobre o assunto (íntegra do texto aqui). Sua linha argumentativa coincide, em alguns pontos, com a do texto acima, acrescentando informações relevantes, sobretudo a de que apenas 10% da verba publicitária federal são utilizados para publicidade institucional direta (leia abaixo). Destacaria os seguintes trechos:

“[Do total de verbas], 70% são investidos por empresas estatais, que não fazem publicidade do governo, mas de seus produtos e serviços, para competir com companhias privadas. Além disso, os ministérios e autarquias, que respondem por 20% da verba publicitária federal, não podem fazer propaganda institucional, só campanhas de utilidade pública (vacinação, educação de trânsito, direitos humanos etc.). Apenas a Secom está autorizada a fazer publicidade institucional. Para esse fim, seu orçamento é igual ao do governo anterior (cerca de R$ 105 milhões)”

"Não houve aumento de verbas. O que mudou foi a política (...) Esses critérios técnicos, amplamente discutidos com o TCU e entidades do setor, têm favorecido a democratização, a transparência e a eficiência nos investimentos de publicidade do governo federal. Não há privilégios nem perseguições. Tampouco zonas de sombra. Muito menos compra de consciências.”

O texto de Martins deve ser lido, questionado e criticado. Merece destaque, porém, seu destemor em justificar a estratégia de marketing oficial através da abordagem de assuntos-tabus na FSP, como a queda das vendas dos grandes jornais em comparação com o aumento da venda dos jornais interioranos e populares e o crescimento da internet como mercado publicitário. Assim, é claro, Martins acaba por desnudar a distorção deliberada do sentido dos fatos empreendida por dois colunistas que, embora alegadamente tenham independência opinativa, preferem defender os interesses econômicos da empresa em que trabalham.