Os textos deste blog estão sob licença

Creative Commons License
Mostrando postagens com marcador impeachment. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador impeachment. Mostrar todas as postagens

domingo, 2 de novembro de 2014

A oposição nas ruas



Menos de uma semana após eleita, Dilma Rousseff defronta-se com manifestações populares em protesto contra o seu governo e a favor do seu impeachment. Em três cidades diferentes, pessoas foram às ruas, sendo que em São Paulo o número de protestantes teria chegado a 2500 cidadãos, segundo a PM.

Talvez, menos do que a relevância do evento em si – que, a começar da contradição de pedir impeachment de uma candidata eleita, tem o aroma do golpismo temperado por maus perdedores -, seja necessário situá-lo no novo contexto político-eleitoral que ora se desenha.

Este é marcado por rachas no interior da base aliada, com mágoas de candidatos peemedebistas preteridos nos estados e pela liderança vingativa de Eduardo Cunha; pela perda significativa de assentos petistas no Congresso e pelo reforço das hostes oposicionistas; e, talvez sobretudo, pelo ressaca rancorosa de uma campanha feita com navalha na liga e sangue nos olhos, que atiçou o antipetismo e confundiu opositor e inimigo.

Nesse cenário, as manifestações de ontem são apenas o ladrar da matilha ao sentir os primeiros sinais de debilidade da futura caça: além de ter de enfrentar os problemas acima elencados, Dilma inaugura, em seu segundo mandato, uma fase inédita da era petista, em que morderá seus calcanhares uma oposição experiente – sob a batuta ardilosa de José Serra –, que sai das eleições com significativo apoio popular. Se a agitação das ruas será mantida é outra historia, mas a articulação dos protestos de ontem certamente faz parte de uma estratégia nesse sentido.



Reação 
A vigilância sobre a presidente tende a multiplicar-se em tal contexto. No primeiro mandato, quando a economia favorecia o consumo, poucos pareceram se importar com as traições de Dilma para com os compromissos eleitorais – cujo exemplo maior, mas de modo algum único, foi a privatização do Pré-Sal, a qual a candidata renegara em comercial da campanha de 2010.

Agora, porém, além de um quadro econômico instável, que leva nove em cada dez economistas a apostarem em um choque anticíclico no primeiro ano, há a volta do chicote no lombo de quem mandou dar: os rancores à flor da pele indicam que não ficarão sem resposta os ataques baixos de uma campanha em que a discussão de projetos deu lugar aos ataques baixos e à desqualificação do adversário. Pois, como sumariza o jornalista Josias de Souza em um artigo notável,

"A ameaça de perder o poder e suas benesses fez com que o PT levasse às fronteiras do paroxismo a tática do ‘nós contra eles’. Rendido à marquetagem de João Santana, o partido fez da política um mero ramo da publicidade. O verbo da eleição foi desconstruir. Conjugando-o, Dilma prevaleceu sem se preocupar com a autoconstrução."



Tudo pelo poder
Quem semeia vento colhe sempre tempestade”, diz o ditado. No entanto, o cálculo ultrapragmático do marketing petista não levou em conta, em momento algum, o quanto tal estratégia – em si questionável do ponto de vista da ética republicana – acabaria por acirrar ânimos a um ponto tal que dificultasse sobremaneira ou mesmo ameaçasse a governabilidade da eventual eleita.

Pois se o deboche petista para com a classe média (mas, de forma significativa, não em relação aos ricos de fato), epitomizada no uso corrente do termo “coxinha”, anterior ao pleito, já evidenciava uma perigosa intolerância classista, o discurso do “novo Nordeste” contra a “São Paulo dos tucanos”, do “playboy mimado” contra a “defensora dos pobres”, proclamado pelo próprio Lula e repetido à exasperação pela militância, corrobora um discurso público de desqualificação que nada agrega para a criação de uma atmosfera de respeito e empatia entre governo e setores da população.



Efeito bumerangue
O rescaldo da campanha é que Dilma é vista, por setores da população que podem não ser majoritários mas se contam a dezenas de milhões, não apenas como uma governante com a qual não se simpatiza ou de cujo projeto político se discorda - mas merecedora de respeito, pois eleita -, e sim como uma inimiga a ser derrotada – e uma inimiga que não se furtou a usar os métodos mais agressivos para obter sua vitória.

Compreender esse raciocício orientador dos protestos dos derrotados não significa legitimá-lo: convém assinalar que, pós um processo eleitoral de reconhecida lisura e na ausência de qualquer acusação formal contra a presidente, não passa de golpismo oportunista cogitar impeachment.

A análise de tal cenário ajuda a entender porque o discurso de Dilma logo após a vitória foi uma conclamação à união. Com exceção da deselegância de não citar o nome do candidato derrotado (sendo que este já a cumprimentara pela vitória), a fala foi caracterizada como um aceno na direção da pacificação e da conciliação. Ato contínuo, a presidente logo anunciaria apoiar, ao menos de público, o projeto em prol de mais referendos e consultas populares, do qual o Congresso - incluindo a bae peemedebista - fará picadinho.



Desafios à frente
Com todo um mandato à frente, a mandatária sabe que não tem outra saída: sem curar feridas na própria base "aliada', sem minimizar a virulência da oposição e sem cooptar ao menos uma pequena parcela de um eleitorado dividido, pode se tornar um lame duck, e seu segundo governo um refém do Legislativo e de uma oposição barulhenta. Como, aliás, ocorreu com o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso.

Para completar, há uma bomba-relógio armada, com as investigações acerca da Petrobras. Um eventual envolvimento do nome da presidente abriria caminho para a formalização de denúncias – no que, a depender das circunstâncias, poderia significar um atalho para um processo de impeachment. No estouro do “Mensalão”, as conquistas sociais e a economia em popa colocaram Lula com índices de aprovação que o blindaram; com uma presidente enfraquecida, a economia em frangalhos e o país dividido, a história pode ser outra.

2015 promete ser um ano muito, muito tenso.


(Foto da manifestaçção:Darrio Oliveia; foto de Dilma: Cadu Gomes)



quinta-feira, 19 de março de 2009

Frost/Nixon e os espectros do passado

Atualmente em cartaz no Brasil, Frost/Nixon (2008) não passa de um filme bem-feito, com montagem e direção de arte acimas da média e, principalmente, um elenco de primeira, liderado pelo canadense Martin Sheen no papel do entrevistador britânico David Frost e por Frank Langella, cuja mediúnica performance como o ex-presidente americano rendeu-lhe indicações aos principais prêmios de Melhor Ator nos EUA, incluindo o Oscar.

O filme, dirigido por Ron Howard (Uma Mente Brilhante; Cocoon), recria com alguma minúcia e alguma fantasia a mais célebre entrevista de Nixon - em que ele, a princípio implacável em suas respostas, esgrimindo as perguntas com a experiência de décadas como político e advogado, vê-se subitamente acuado, acabando por confessar que sua atuação no "caso watergate" violara a lei. Num close dramático que dura intermináveis seis segundos, o ex-presidente, visivelmente abatido, pede desculpas ao povo americano. Trata-se de um momento icônico do jornalismo e de uma façanha histórica do jornalismo televisivo.


Fantasia e distorção
Porém, ao menos dois dos elementos fantasiosos da trama distorcem por demais a realidade, dando uma idéia falsa do que ocorreu: David Frost não era uma espécie de Gugu Liberato da TV australiana que eventualmente emplacava algum programa nas grades de programação britânica e norte-americana, como o filme sugere – mas um jornalista e apresentador experiente, com um currículo respeitável de entrevistas com personalidades famosas nos três países e com políticos de destaque mundial. A distorção mais grave, porém, não só por falsear a realidade mas por permitir uma caracterização menos crítica de Nixon, é sugerir que a entrevista terminou na confissão do ex-presidente, omitindo que, na parte final, ele volta ao ataque e tenta novamente jogar a culpa pela transgressão da lei nos assessores.

Não deixa deixa de ser compreensível que o filme prefira enfatizar, por propósitos dramáticos, a confissão, privilegiando o momento da entrevista que a definiu, popularizou e eternizou, com graves consequências para a carreira do entrevistado. Pois se Nixon concordou em conceder a entrevista, como o filme e, com mais ênfase, os relatos históricos sugerem, com o objetivo último de pavimentar o caminho para seu retorno à política, ela acabou por significar, ao contrário, a pá de cal em qualquer pretensão eleitoral.


Paralelos óbvios
O sentido de um filme e as ilações que a partir dele são feitas dependem, é claro, não apenas das disposições subjetivas de cada espectador, mas da conjuntura sócio-cultural em que é exibido. Assitir a Frost/Nixon no atual contexto brasileiro trouxe - não apenas este blogueiro, mas um grupo de respeitados jornalistas - a evocação de um espectro político do passado que voltou recentemente a assombrar a política nacional, levando-os a traçar um paralelo analítico entre as consequências da entrevista do ex-presidente americano Richard Nixon e a inexistência sequer de uma entrevista, quanto mais de uma satisfação à opinião pública ou declaração de arrependimento do ex-presidente brasileiro Fernando Collor, entre o momento de sua renúncia ao cargo para escapar do impeachment e o momento de sua volta trinfal ao poder (clique aqui para ler a opinião do blogueiro sobre esse retorno). Não se trata, no entanto, de dar vazão a comparações simplistas entre uma e outra realidade, nem ao tão difundido entre nós “complexo de colonizado” - na forma de idealização do binômio "democracia avançada/imprensa livre" que caracterizaria os EUA - , até porque este blogueiro conhece suficientemente bem a sociedade norte-americana para não alimentar nenhuma ilusão quanto a tais mitos. Ainda assim, o paralelo entre os dois casos, sugerido a partir dos fatos dramatizados no filme Frost/Nixon, não deixa de ser rico em temas para o desenvolvimento de uma reflexão sobre a relação entre política, mídia e opinião pública no Brasil, como forma de fazer avançar a democracia no país.

terça-feira, 10 de março de 2009

A volta de Collor e os limites da realpolitik

O papel do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na eleição de Fernando Collor para presidente da Comissão de Infrae$trutura do Senado (responsável por analisar, entre outros itens, os projetos do PAC), sua ostensiva recusa em agir em prol da candidatura da senadora petista Ideli Salvatti, preferindo afagar o PMDB de Sarney e de Renan Calheiros em troca da promessa de dividendos eleitorais no Nordeste na próxima eleição presidencial, torna urgente a reflexão acerca dos limites da realpolitik que caracteriza o modo lulista de fazer política.

Afinal, a senadora catarinense, uma das mais aguerridas vozes da base governista desde os escândalos do primeiro mandato, foi preterida por um político cujo passado evoca sérios dilemas morais não apenas em relação à honra (e, portanto, à imagem) do próprio presidente Lula, contra quem o então candidato Collor não se esquivou de usar as mais baixas táticas difamatórias – culminando com o “caso Miriam Cordeiro” – mas sobretudo no que concerne ao povo brasileiro. É uma afronta ver um ex-presidente, que, sob fortes indícios de corrupção, não teve sequer a hombridade de enfrentar o processo de impeachment (tendo renunciado antes do julgamento), voltar a usufruir das benesses do poder. Que tal excrescência se dê com a bênção do atual presidente trata-se de algo que, para muitos, se aproxima do escárnio.

Mais de quinze anos separam a renúncia de Collor do presente. Num país desmemoriado e cordial (no sentido buarqueano do termo) como o Brasil, isso equivale a uma eternidade. Tentativas de relativizar seus crimes ou mesmo de inocentá-lo e atribuir o processo que levou ao impeachment a conspirações midiáticas brotaram amiúde, até mesmo da pena de jornalistas bem-intencionados. Porém, os que viveram os desmandos de Collor, tanto os afetados pelo inacreditável e mundialmente inédito confisco monetário (que incluiu contas correntes e poupanças) quanto os que tiveram sua atividade profissional destruída pelo desmanche irresponsável do Estado por ele promovido - como é, destacadamente, o caso do setor cinematográfico – guardam bem vivas na memória as consequências dos atos de um dos mais irresponsáveis, arrogantes e nocivos presidentes que o país já teve. Para esses, a volta triunfal de Color é um insulto e uma afronta.