"A ameaça de perder o poder e suas benesses fez com que o PT levasse às fronteiras do paroxismo a tática do ‘nós contra eles’. Rendido à marquetagem de João Santana, o partido fez da política um mero ramo da publicidade. O verbo da eleição foi desconstruir. Conjugando-o, Dilma prevaleceu sem se preocupar com a autoconstrução."
Blog sobre cinema, jornalismo, política e música, com críticas, análises e perfis.
domingo, 2 de novembro de 2014
A oposição nas ruas
quinta-feira, 19 de março de 2009
Frost/Nixon e os espectros do passado
O filme, dirigido por Ron Howard (Uma Mente Brilhante; Cocoon), recria com alguma minúcia e alguma fantasia a mais célebre entrevista de Nixon - em que ele, a princípio implacável em suas respostas, esgrimindo as perguntas com a experiência de décadas como político e advogado, vê-se subitamente acuado, acabando por confessar que sua atuação no "caso watergate" violara a lei. Num close dramático que dura intermináveis seis segundos, o ex-presidente, visivelmente abatido, pede desculpas ao povo americano. Trata-se de um momento icônico do jornalismo e de uma façanha histórica do jornalismo televisivo.
Fantasia e distorção
Porém, ao menos dois dos elementos fantasiosos da trama distorcem por demais a realidade, dando uma idéia falsa do que ocorreu: David Frost não era uma espécie de Gugu Liberato da TV australiana que eventualmente emplacava algum programa nas grades de programação britânica e norte-americana, como o filme sugere – mas um jornalista e apresentador experiente, com um currículo respeitável de entrevistas com personalidades famosas nos três países e com políticos de destaque mundial. A distorção mais grave, porém, não só por falsear a realidade mas por permitir uma caracterização menos crítica de Nixon, é sugerir que a entrevista terminou na confissão do ex-presidente, omitindo que, na parte final, ele volta ao ataque e tenta novamente jogar a culpa pela transgressão da lei nos assessores.
Não deixa deixa de ser compreensível que o filme prefira enfatizar, por propósitos dramáticos, a confissão, privilegiando o momento da entrevista que a definiu, popularizou e eternizou, com graves consequências para a carreira do entrevistado. Pois se Nixon concordou em conceder a entrevista, como o filme e, com mais ênfase, os relatos históricos sugerem, com o objetivo último de pavimentar o caminho para seu retorno à política, ela acabou por significar, ao contrário, a pá de cal em qualquer pretensão eleitoral.
Paralelos óbvios
O sentido de um filme e as ilações que a partir dele são feitas dependem, é claro, não apenas das disposições subjetivas de cada espectador, mas da conjuntura sócio-cultural em que é exibido. Assitir a Frost/Nixon no atual contexto brasileiro trouxe - não apenas este blogueiro, mas um grupo de respeitados jornalistas - a evocação de um espectro político do passado que voltou recentemente a assombrar a política nacional, levando-os a traçar um paralelo analítico entre as consequências da entrevista do ex-presidente americano Richard Nixon e a inexistência sequer de uma entrevista, quanto mais de uma satisfação à opinião pública ou declaração de arrependimento do ex-presidente brasileiro Fernando Collor, entre o momento de sua renúncia ao cargo para escapar do impeachment e o momento de sua volta trinfal ao poder (clique aqui para ler a opinião do blogueiro sobre esse retorno).
Não se trata, no entanto, de dar vazão a comparações simplistas entre uma e outra realidade, nem ao tão difundido entre nós “complexo de colonizado” - na forma de idealização do binômio "democracia avançada/imprensa livre" que caracterizaria os EUA - , até porque este blogueiro conhece suficientemente bem a sociedade norte-americana para não alimentar nenhuma ilusão quanto a tais mitos. Ainda assim, o paralelo entre os dois casos, sugerido a partir dos fatos dramatizados no filme Frost/Nixon, não deixa de ser rico em temas para o desenvolvimento de uma reflexão sobre a relação entre política, mídia e opinião pública no Brasil, como forma de fazer avançar a democracia no país.
terça-feira, 10 de março de 2009
A volta de Collor e os limites da realpolitik
Afinal, a senadora catarinense, uma das mais aguerridas vozes da base governista desde os escândalos do primeiro mandato, foi preterida por um político cujo passado evoca sérios dilemas morais não apenas em relação à honra (e, portanto, à imagem) do próprio presidente Lula, contra quem o então candidato Collor não se esquivou de usar as mais baixas táticas difamatórias – culminando com o “caso Miriam Cordeiro” – mas sobretudo no que concerne ao povo brasileiro. É uma afronta ver um ex-presidente, que, sob fortes indícios de corrupção, não teve sequer a hombridade de enfrentar o processo de impeachment (tendo renunciado antes do julgamento), voltar a usufruir das benesses do poder. Que tal excrescência se dê com a bênção do atual presidente trata-se de algo que, para muitos, se aproxima do escárnio.
Mais de quinze anos separam a renúncia de Collor do presente. Num país desmemoriado e cordial (no sentido buarqueano do termo) como o Brasil, isso equivale a uma eternidade. Tentativas de relativizar seus crimes ou mesmo de inocentá-lo e atribuir o processo que levou ao impeachment a conspirações midiáticas brotaram amiúde, até mesmo da pena de jornalistas bem-intencionados. Porém, os que viveram os desmandos de Collor, tanto os afetados pelo inacreditável e mundialmente inédito confisco monetário (que incluiu contas correntes e poupanças) quanto os que tiveram sua atividade profissional destruída pelo desmanche irresponsável do Estado por ele promovido - como é, destacadamente, o caso do setor cinematográfico – guardam bem vivas na memória as consequências dos atos de um dos mais irresponsáveis, arrogantes e nocivos presidentes que o país já teve. Para esses, a volta triunfal de Color é um insulto e uma afronta.


