Blog sobre cinema, jornalismo, política e música, com críticas, análises e perfis.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Petistas com Freixo publicam Manifesto
domingo, 10 de junho de 2012
A falência da Espanha e seus disfarces
domingo, 12 de fevereiro de 2012
PT, Kassab e os limites da realpolitik
A experiência histórica demonstra que a recusa na composição de alianças mais abrangentes tende a reduzir dramaticamente o raio de ação do governante ou mesmo engessá-lo. O caso mais grave talvez seja o da presidência Jânio Quadros – abortada por fatos que decorrem diretamente de sua reação ao sentir-se manietado por não gozar de maioria no Congresso. Ainda hoje, em que pese o recurso (muitas vezes abusivo) a medidas provisórias, sem tal maioria, conquistada nas urnas ou atingida eventualmente por meio de conchavos, o presidente corre o risco de se tornar presa do parlamento e incapaz de imprimir uma marca à sua administração.
Trata-se, como ora reconhecido internacionalmente, de uma notável realização social, inconcebível e alegadamente inexequível há pouco mais de uma década, e que por si só evidencia a falácia dos que - à direita e à esquerda - se recusam a ver diferenças entre a administração petista e a peessedebista que a precedeu.
Em entrevista ao Estadão, o pré-candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, disserta precisamente sobre os pontos acima referidos, sublinhando a importância da composição de alianças no modelo pluripartidário em voga, ressaltando as conquistas socioeconômicas da aliança federal capitaneada pelo PT e - inquirido sobre a possível aproximação com Kassab - afirmando que o fundamental é que “alianças tem que ser pautadas de tal maneira a não comprometer o objetivo do processo”.
Ora, inexiste denominador comum programático entre PT e Kassab (como, aliás, salienta o Diretório Municipal do PT/SP); tal aliança significa algo entre a abdicação de uma plataforma expressamente político-ideológica e sua revisão conservadora, e uma questão fundamental se coloca: que avanço político-ideológico se pode esperar da aliança com uma figura que se caracterizou, à frente da Prefeitura, pela promoção, em pleno século XXI, de políticas eugenistas, por atuar como coadjuvante do PSDB na promoção da violência oficial contra os cidadãos, pela agressividade no trato com os críticos, pela negligência das demandas sociais e pela pusilanimidade oportunista (“PSD não será de direita, não será de esquerda, nem de centro”)?
Fiar-se tão-somente em uma pragmática de resultados, negligenciando os princípios éticos, como ora fazem Haddad e setores do PT, pode mostrar-se ou não eleitoralmente danoso – mas, o que é certo e muito mais grave, deve colaborar para agravar o esvaziamento ideológico de nossa sociedade e para corroborar, com o carimbo de um partido tido como de centro-esquerda e de massas, para a corroboração da tipificação do universo da política como amoral ou mesmo perverso.
O pragmatismo – administrativo ou eleitoral - tem sido, até o momento, a única resposta que setores de militância petista tem dado a críticas consistentes em relação a medidas como a privatização dos aeroportos e o namoro do PT paulista com Kassab – críticas estas advindas de militantes, aliados, ex-aliados e do próprio campo da esquerda. Essa recusa insolente pode cobrar um preço alto: a questão, aqui, não é se um eventual pacto com Kassab vai ou não fazer com que a aliança comandada pelo partido vença as eleições – o que pode até acontecer -, mas os flancos que o partido está abrindo, a curto e médio prazo, ao renunciar a bandeiras históricas e ao ameaçar aliar-se com quem até ontem representava o antipetismo. No mínimo, perderá quadros valiosos, como já vem acontecendo.
Mas mesmo o pragmatismo que tem marcado o debate tem prestado pouca atenção a duas questões fundamentais, com as quais o eleitor vai se defrontar caso se efetive a aliança com Kassab:
1) Se o PT quer se apresentar, na capital paulista, como uma alternativa ao demotucanato, como fazê-lo se aliando justamente a uma figura política que ven sendo, por muito tempo e até ontem de manhã, um dos símbolos da hegemonia demotucana em São Paulo e de muito do que o PT combate?
2) Qual o limite, para a centro-esquerda, de relativização dos valores éticos e ideológicos, e a partir de que ponto, ao adotar esse relativismo, ela mimetiza valores conservadores, os relativiza enquanto tais, e com o conservadorismo se confunde?
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Reações a doença de Lula e à PM na USP evidenciam crise ideológica e cultural
Agressões ao doente
Receber a notícia de que alguém está com câncer – ou com outra doença tida como grave – costuma despertar compaixão no ser humano. Alguns atribuem tal reação a uma suposta bondade inerente à nossa espécie, acreditando que por baixo das máscaras que adotamos para a vida em sociedade vicejam corações plenos de boa intenção; os não-rousseaunianos, mais reticentes, afirmam tratar-se de uma reação ditada pelo instinto de preservação: o temor de que venhamos a padecer da mesma enfermidade faz com que nos identifiquemos com a dor alheia como forma de esconjurá-la.
Seja como for, considera-se que festejar e regojizar-se com o anúncio da doença alheia é reação que ultrapassa todos os limites do bom senso e da convivência em sociedade. É por isso que o que se viu, na internet mas também nas redações, logo após o anúncio de que Lula está acometido de um câncer na laringe, marca um dos pontos mais baixos do debate público no Brasil. No momento de maior fragilidade do ex-mandatário, deu-se vazão a todo o ódio e preconceito de classe acumulados nos anos em que ele esteve no poder.
O texto definitivo sobre o caso veio da pena cada vez mais afiada de Maria Inês Nassif, que entre outros pontos relevantes apontou que não é de hoje que o respeito mínimo devido a todo presidente eleito não tem lugar quando se trata de Lula da Silva – e que entre os que através de tal procedimento desrespeitam a instituição mesma da Presidência está a própria mídia, que deveria dar o exemplo.
Insultos aos estudantes
Pois nem bem as forças democráticas se recuperavam de tais excessos agressivos - que levaram até jornalistas notadamente conservadores a reclamar - e o país já se via diante de um novo efeito-manada, uma onda de insultos contra estudantes da USP que, em reação contrária à decisão (tomada em assembleia própria) de desocupar o prédio administrativo da FFLCH (Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas) decidiram ocupar a Reitoria para continuar protestando contra a ação da PM no campus, com revistas constantes, que culminaram na prisão de três alunos de Filosofia flagrados com um cigarro de maconha.
Daí em diante o que se viu, mesmo entre autointitulados esquerdistas, foi uma onda de protestos contra o que chamam de “os maconheiros da USP”. Mesmo deixando de lado a generalização descabida, há, em pleno século XXI – quando as principais democracias reconhecem que o uso de maconha é questão de foro pessoal e do âmbito da saúde, não da segurança pública - algo de intrinsecamente anacrônico no uso do ajetivo “maconheiro” como forma de promover estigmatização e desqualificação. Além disso, assim como ocorreu com a doença do ex-presidente, o que o fenômeno da reação virulenta à invasão da Reitoria da USP nos traz é, uma vez mais, o ódio de classe e os recalques de fundo psicológico, vindos à tona de forma agressiva e com vocabulário tosco. A internet enquanto catarse.
A herança do desmanche
A realidade, porém, é bem mais complexa do que os histéricos querem fazer crer. Como explica de forma detalhada o professor da USP Pablo Ortallado, em ótimo artigo, a violência na instituição está diretamente ligada a um processo de restrição cada vez maior do exercício da democracia interna. Por meio deste, a USP é, hoje, uma das universidades públicas brasileiras em que professores, servidores e alunos têm o menor peso nas decisões importantes, a cargo de colegiados de membros de instâncias burocráticas superiores que se transformaram em verdadeiros feudos, onde o poder se perpetua nas mãos de poucos.
Em decorrência disso, cerceia-se ao máximo o raio de ação política dentro das regras do jogo por parte de alunos, professores e funcionários. Ora, quem já passou por uma ditadura sabe: quando as regras reprimem o exercício da democracia, é dever do democrata desobedecer e lutar pela modificação delas. Achar que a brutal repressão institucional a que a USP vem sendo submetida nos últimos 20 anos iria ser aceita passivamente é subestimar a inteligência dos uspianos.
O PSDB tem um papel preponderante nesse estado de coisas, não só porque, à frente do governo de São Paulo há 17 anos, é co-responsável pelo estágio urbanístico-social-institucional da USP, mas porque José Serra - que não nomeou o candidato a reitor que ocupava o primeiro lugar na lista tríplice, preferindo o polêmico Rodas - e Geraldo Alckmin estavam a cargo do governo nas duas vezes em que a Tropa de Choque da PM, num ato inimaginável numa verdadeira democracia, invadiu o campus – a mais recente na manhã de hoje -, utilizando de violência desmedida contra estudantes desarmados.
PM no campus
A reação de apoio à ação da polícia, mesmo nas raras vezes em que é expressada de forma polida e educada, evidencia o profundo conservadorismo que marca a sociedade brasileira atual. Trata-se de um paradoxo: no momento mesmo em que 28 milhões deixaram de ser miseráveis e 40 milhões ascenderam à classe média, e que o Brasil tornara-se efetivamente um player na política internacional, o debate sobre questões internas involui não apenas na forma (a difamação e os ataques pessoais substituindo o diálogo civilizado e a argumentação), mas também no conteúdo (com pressupostos que há pouco eram exclusivos de fanáticos de direita tornando-se de uso corrente entre os estratos médios e altos).
Seria preciso uma alta dose de auto-engano para não se aperceber que o país, tanto em termos culturais quanto ideológicos, claramente retrocedeu, se comparado àquele de 40, 50 anos atrás. Não há como comparar o nível das discussões públicas hoje, no Brasil, àquele que se deu, por exemplo, no bojo do processo de redemocratização do país.
Na verdade, a crise ideológica e cultural que hoje uma vez mais se agrava tem como origem justamente a ação sistemática da ditadura contra as formas culturais mais autênticas e mais revolucionárias, em prol do investimento vultoso na constituição de uma sociedade televisiva de massas – uma herança que os civis de direita que marcaram o longo período de transição para a democracia só açularam, muitos com proveito eleitoral.
O preço da desideologização
Há uma década, a centro-esquerda tem sido eleita, é verdade, mas, como as eleições que culminaram com a vitória de Dilma Rousseff evidenciaram de forma inconteste, não foi através de uma proposta programática de perfil ideológico - muito pelo contrário: tal como o “Lulinha Paz e Amor” de oito anos antes, a hoje presidenta submeteu-se ao regime padrão de marquetagem, chegando, ao final da campanha, ante as baixarias desmedidas de José Serra, a retroceder em questões de suma importância, como o aborto.
É precisamente quando se evidencializou de forma mais clara, àqueles que não se recusaram a ver, que a crise ideológica transcendia as questões colocadas pelo neoliberalismo, as quais dominaram o período imediatamente anterior (e, muitas delas, continuam na ordem do dia), e que a crise cultural, como qualquer crise estética, era também uma crise ética.
“Mas o importante é que eles venceram” - dirá o esquerdista pragmático. Sim, venceram, mas o preço que a sociedade brasileira como um todo vem pagando por essa recusa em um debate ideológico é uma despolitização da política, uma desideologização da esfera pública que ao final só beneficia os grandes grupos de mídia corporativa, os quais têm como interesse precípuo obter pontos no Ibope, e não levar cultura e educação ao público espectador, como “exige” a Constituição.
Dieta indigesta
A sobreposição do marketing à política e a naturalização das telecomunicações como meio de entretenimento – seja através das narrativas ficcionais das novelas ou das narrativas protojormalísticas dos telejornais – certamente desempenham um papel fundamental nesse processo de alavancagem do conservadorismo desinformado, pois não há como evoluir ética e ideologicamente com uma dieta de Datenas, Lucianos Huck, CQCs e coisas do gênero. Um país que, há 11 anos, quase para durante meses para assistir a Big Brother Brasil está profundamente enfermo em termos de ideologia, ética e estética – e negar isso em nome de uma suposta pluralidade democrática de escolhas é tapar o sol com a peneira.
E a relação entre política e mídia está diretamente imbricada na questão: cada vez que o governo Dilma demite um ministro após um factoide da Veja, não só estimula um jornalismo-denúncia - forte em escândalo mas fraco em evidências -, mas, ao fortalecer a posição da revista ante o público, está, na prática, incentivando a difusão de um ideário conservador (inerente à publicação) que transcende a política e se torna moeda corrente em questões comportamentais e culturais.
É pelas razões acima expostas que já passa da hora de os governos ditos de centro-esquerda renunciarem à ferrugem neoliberal que emperra o protagonismo do Estado na área cultural e tomarem as rédeas de um projeto de elevação do nível educacional e cultural do povo brasileiro, sob a pena não apenas de serem derrotados eleitoralmente, mas de legar ao futuro um país ainda mais conservador, ignorante e truculento do que o que herdaram.
sábado, 23 de julho de 2011
Amy e a sociedade da insatisfação permanente
Ainda que soe chocante tal afirmação, seria inexato dizer que o anúncio da morte de Amy Winehouse surpreendeu as pessoas – as inúmeras e frequentes recaídas, as rehabs mil, e o estado físico e psicológico da cantora sugeriam que esse seria um fim provável, ainda que talvez não se esperasse que ocorresse tão cedo.Mas o fato choca, é claro, pelo que diz sobre os tempos atuais, sobre a interrogação que nos lança a respeito do que nos transformamos enquanto sociedade, sobre a banalidade da vida em uma era em que o consumo de tudo – bens materiais, drogas, fama, embelezamento artificial – tem de ser intenso e insaciável, mesmo que o preço a pagar seja a própria vida.
Comparações
Nas redes sociais, neste momento, chovem comparações entre a cantora e a tríade de jovens mártires da contracultura formada por Jim Morrison, Janis Joplin e Jimi Hendrix – os “meus heróis morreram de overdose” a que se refere Cazuza, outro que cedo nos deixou.
Ainda que as drogas tenham desempenhenhado um papel fundamental em todas essas mortes (incluindo a de Amy, mesmo que a causa mortis venha a ser outra), não parece uma comparação procedente: as mortes dos três músicos dos anos 60 derivam de um mergulho tão desmedido quanto apaixonado num novo modo de vida, anticapitalista, comunitário, em que a primazia do econômico e do racional desse lugar ao cósmico, ao energético, ao intuitivo. E é justamente como meio de intensificação de manifestação destas forças (hoje novamente subvalorizadas) que as drogas - como “expansoras da consciência”, segundo o mote do “papa do LSD”, Timothy Leary -, tiveram então um papel central.
The dream is over
A tragédia maior da morte da tríade de músicos deriva, portanto, justamente da desmistificação não só do poder social das drogas, mas, em um nível muito mais profundo, da evidência da inviabilidade do projeto contracultural de transformação do mundo que Janis, Jimi e Morrison representavam.
“O sonho acabou”, decretaria John Lennon algum tempo depois, relegando os anos 60 – que o crítico neomarxista Fredric Jameson definiu como um período marcado por “uma imensa e inflacionada emissão de crédito superestrutural” - a objeto de culto de jovens de todas as idades, saudosos do que não viveram.
Porém, ainda que os neocons torçam o nariz e que os mais sensíveis se espantem com a comercialização de camisetas de grife com a face de Che Guevara estampada, o legado dos anos 60 permanece como força ideológica e política, como eventos tão díspares como a campanha presidencial de Obama e as novas relações trabalhistas adotadas por algumas das mais avançadas e bem-sucedidas empresas do mundo o demonstram.
Sob a marca do efêmero
O triste fim de Amy Winehouse, cantora de talento evidentíssimo, voz e técnica vocal únicas e excepcional presença de palco, pertence a outro âmbito, o do niilismo e da falta atual de perspectivas, no marco da passagem de “de uma sociedade da satisfação administrada para uma sociedade da insatisfação administrada”, na qual, ante a satisfação de um desejo, a recompensa do ego é tão fugaz que, mal consumado, outra demanda é imediatamente colocada, e assim sucessivamente – como diagnostica Vladimir Safatle, em sua releitura de Lacan. Amy, vida e morte, é só a parte visível de um amplo e preocupante fenômeno, cuja principal vítima é a juventude.
Deriva dessa toada a talvez mais chocante constatação ante a morte da cantora: faz só oito anos que, discretamente, o álbum Frank foi lançado, e três que o sensacional Back in Black chegou às lojas, transformando-a definitivamente em um fenômeno midiático, arrebatando legiões de fãs e fazendo com que seu visual fosse copiado por adolescentes de todo o planeta.
Talvez seja por isso que, embora Amy Winehouse nos deixe aos 27 anos de idade, a impressão é a de que morre uma adolescente. O que traz toda a sensação de desperdício e de necessidade de reflexão social que uma tal perda acarreta.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
O retorno do neoliberalismo
Falar em retorno do neoliberalismo é uma imprecisão, pois ele nunca deixou de estar entre nós.Havia, porém, em alguns setores, sobretudo após o segundo mandato de Lula, a esperança de que a ortodoxia econômica dos primeiros anos de governo - nos quais a única diferença entre Palocci e Malan era a barba – fosse página virada, e que o neokeyseanismo que dominou o segundo mandato, aprimorado, acabasse por constituir-se em modelo orientador da política econômica.
Entretanto, o anúncio de um vultoso corte de R$50 bilhões no orçamento federal, da suspensão de concursos e nomeação de aprovados e, sobretudo, da meta de zerar o déficit nominal, vem corroborar diagnósticos mais céticos, mesmo entre os que reconhecem os méritos sociais da administração Lula.
Entre os que acreditavam na possibilidade de aprofundamento das conquistas da Era Lula, com maior clareza e coesão político-ideológica, o retorno abrupto à ortodoxia neoliberal logo no início do governo e incluindo congelamento de contratações significa um tremendo retrocesso e instaura um profundo desencanto. Mesmo porque as implicações de tal decisão, levada em conta a atuação assumidamente partidária da mídia, podem ser, na prática, ainda mais graves.
Pois ao promover a volta da ortodoxia econômica Dilma facilita tremendamente a encenação do teatro midiático golpista.
Teatro midiático
Trata-se de uma peça em três atos: no primeiro contrapõe-se favoravelmente Dilma a Lula, não só exaltando o estilo da primeira em relação aos modos alegadamente broncos de seu antecessor, mas procurando também responsabilizá-lo, entre outras maldades, por uma herança maldita na forma de contas estouradas.
No segundo ato, como fez na temporada 2005, a peça assume tons histriônicos: a mídia superestima e publiciza ao máximo eventuais denúncias de corrupção no governo Dilma – que, dada a estrutura político-administrativa brasileira, fatalmente ocorrerão -, procurando jogar a responsabilidade para a presidenta.
No terceiro e último ato, estabelecida a excelência das políticas neoliberais e pespegado o rótulo de corrupta na administração dilmista, chega o momento de contrapor a capacidade administrativa da presidente “novata” e “corrupta” aos “experientes gestores” tucanos, isentos de qualquer denúncia grave de corrupção pela própria blindagem que a mídia lhes oferece. Será então a hora de fazer uso midiático não só da brigada demotucana (note-se, a respeito, que não obstante sua derrota eleitoral, Álvaro Dias continua com cadeira cativa no telejornalismo global) como dos políticos quinta-coluna que a mídia mantém na base aliada.
Passividade e intransigência
O que setores da esquerda, iludidos pela lua-de-mel entre a mídia e a presidenta, relutam em enxergar é que a estratégia econômica de Dilma está facilitando tremendamente a dramaturgia midiático-golpista, pois pertence à lógica elementar, inescapável, a constatação de que, se o aperto na economia é tão urgente quanto as medidas adotadas sugerem, é porque há, de fato, graves problemas de caixa na herança deixada pelo governo Lula. E isso fatalmente será utilizado contra a administração petista quando a mídia reposicionar suas peças no tabuleiro.
Em nome dos próprios ideias que defendem, é preciso que a sociedade e os setores progressistas que elegeram o novo governo reajam o quanto antes a esse retrocesso político, ideológico e administrativo, o qual, em um movimento inaceitável em uma democracia que se quer avançada, contraria frontalmente o discurso eleitoral de Dilma.
Ao invés disso, o que se vê é uma atitude que oscila entre a aceitação passiva, "vamos deixar como está para ver como é que fica" e a patrulha ideológica que procura desqualificar qualquer voz dissonante, como se criticar o governo Dilma significasse automaticamente realinhar-se com a mídia e os setores conservadores - quando, como sugerido acima, é precisamente o apoio às medidas anunciadas por Dilma o que mais interessa neste momento à mídia corporativa para compor sua estratégia de poder.
quarta-feira, 10 de março de 2010
Ideologia versus Técnica
“Ideologia, eu quero uma pra viver” – o grito-desabafo da música de Cazuza, prenhe de desespero, é o retrato de uma época em que o ideário neoliberal, travestido de tecnificismo – alegadamente, uma não-ideologia – instaurou-se como uma panaceia que se impunha como solução "científica" para os problemas sócio-econômicos. Os receituários anteriormente a estes aplicados tornaram-se, de súbito, descartáveis, pois infestados dos a partir daquele momento supostamente inexistentes tendencionismos políticos.Com o perdão pelo clichê e pelo sentimentalismo, só quem viveu esse período sabe da dor – intensificada pela duração aparentemente infinita da farsa,a qual tantos aderiram – que foi crescer em tal época, sem espaço para o debate, sem horizontes e ainda sob a constatação de que “meus herois morreram de overdose, meus inimigos estão no poder”.
Nesse contexto, um dos sucessos inegáveis da mídia conservadora, durante um longo, longo tempo, foi fazer crer que havia atingido um tal grau de profissionalização da atividade jornalística que tornara suas publicações infesas a influências ideológicas.
Tal premissa é parte essencial ao tal “padrão Globo de qualidade jornalística” e esteve na base do jornalismo de Veja muito antes dela tornar-se uma revista da direita mais hidrófoba. No livro Mil Dias, Carlos Eduardo Lins da Silva – profissional dos mais respeitáveis, que infelizmente deixou escapar o timing certo de deixar a função de ombudsman da Folha de S. Paulo e acabou respingado – descreve em detalhes a implementação da profissionalização de todas as etapas da produção da notícia no diário dos Frias.
Assim como a ascensão de Lula à Presidência aos poucos desanuviou a atmosfera ideologicamente opressiva descrita acima, a difusão da internet, com a blogosfera política e as redes sociais, a alterou substancialmente, evidenciando, para muitos, a fragilidade de seus pressupostos e o grau de ideologia por trás dessa exaltação da ténica.
Mas além de ainda não atingirem um amplo contingente populacional, as novas tecnologias da comunicação veem-se obrigadas a conviver com um fenômeno que, importado dos EUA, encontrou abrigo nos mesmos veículos de mídia acima referidos – na revista Veja, sobretudo. A partir daí, se dissemina com facilidade, sobretudo entre jovens avessos ao ideário socialista ou esquerdista, com baixa formação cultural e, portanto, ávidos por fórmulas simples que lhes permitam interagir na internet política: o jornalismo neocon.
Uma espécie de versão reificada do discurso neoliberal – mas caricaturalmente direitista -, a militância neocon, que não raro emula, nos comentários e posts na internet, a agressividade de seus gurus midiáticos, tem verdadeira alergia a tudo o que cheire ao que rotulam como ideologia esquerdista. Esse fanatismo ignorante e reducionista – que, à moda da Inquisição, inclui um index de autores malditos, de Marx a Paulo Freire, passando por Eduardo Galeano e Marilena Chaui - leva a curiosas distorções.
Segundo a cantilena neocon, o internacionalmente respeitado método de alfabetização de Paulo Freire – a quem, à falta de argumentos para denegri-lo no plano das ideias, apelaram, bem ao seu estilo, para acusações pessoais de baixíssimo nível – não passaria de um método de doutrinação subversivo, e a crítica incisiva e documentada de Eduardo Galeano ao processo de exploração colonialista da América Latina teria sido tornada obsoleta pelos rasos arrazoados do Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, o qual, mesmo após a devastação social que o neoliberalismo provocou no subcontinente, continuam cultuando como a um livro sagrado.
Para eles, aqueles que ensejam uma leitura do processo histórico priorizando aspectos econômicos e classistas o fazem devido a uma sub-reptícia doutrinação marxista que perpassaria, insidiosa, a formação cultural brasileira. Desnecessário dizer que os neocons, de forma geral, leram mal Marx, o confundem com o marxismo e - o que é pior - com o comunismo, sendo incapazes de distinguir tanto a exuberância utópica do "jovem Marx" quanto o caráter a priori anti-ideológico de sua produção madura. Um exemplo da argumentação neocon se apresenta na caixa de comentários de um post do blog A Moça do Sonho, intitulado “Militância x Apatia”, que inspirou este texto.
Doutrinação marxista na formação educacional brasileira? Seria cômico se não fosse trágico. Para reiterado escândalo do mundo, o Brasil, com Xuxa e congêneres, é um dos países que, há décadas, mais ostensivamente bombardeia as crianças, desde a mais tenra infância, com apelos consumistas de toda a ordem. Acompanhados de seus penduricalhos costumeiros – como o culto exagerado ao corpo e obsessão por “vencer na vida” a qualquer custo -, tais apelos têm acompanhado, diariamente, gerações de brasileiros, nas escolas particulares onde, ante a falência do ensino público, a classe média viu-se obrigada a pôr seus filhos, nas universidades particulares que não só do ponto de vista arquitetônico se assemelham a shopping centers e, de forma ininterrupta e espetacular, na produção simbólica midiática como um todo.
Mas dessa doutrinação ostensiva, feita de carros ante os quais a natureza se torna submissa e de cervejas que se confundem com louras devassas – e cujos resultados mais visíveis são consultórios psiquiátricos lotados de adolescentes com toda a sorte de desordens, para a fortuna dos laboratórios farmacêuticos - não preocupa o pensamento neocon. Afinal, a ideologia só se torna perigosa quando se anuncia contestadora ou subversiva, não é mesmo?
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Crime e Castigo
Tais pressupostos encontram-se hoje em baixa, solapados pela ideologia punitiva que vicejou sob o neoliberalismo, açulada por sua vez pela explosão populacional, “no marco de sociedades fraturadas por linhas de pobreza e aturdidas pelo florescimento de ideologias individualistas e anti-solidárias”, como observa Beatriz Sarlo em seu belo livro Cenas da Vida Pós-Moderna.
Isso é ainda mais evidente no Rio de Janeiro de Wilson Batista, ainda e sempre “berço do samba e das lindas canções”, em parte porque sua topologia e suas pronunciadas assimetrias sócioeconômicas alimentam os pesadelos paleofuturistas das metrópoles do terceiro milênio, em parte porque um grande grupo de mídia não tem escúpulos em manipular, para seus ganhos políticos, a violência e o medo que esta – ou sua iminência, real ou sugerida – causam na população, “cidadãos completamente loucos com carradas de razão”, como canta o mais celebrado herdeiro de Batista.
Nesse quadro - marcado pelo maniqueísmo e por preconceitos de classe - o debate público em torno de cidadania e direitos tende a se restringir à ótica da criminalização. Como aponta a pesquisadora Helena Singer, “os discursos e as práticas sobre os direitos humanos não chegam à população sob a forma de igualdade, felicidade e liberdade, mas sim de culpabilização, penalização e punição, integrando um movimento mundial de obsessão punitiva crescente”. Daí, a popularização da expressão "direitos humanos de bandidos" - símbolo máximo de ignorância, alienação do sujeito e desconhecimento histórico, como se só àqueles a luta de séculos pela conquista dos direitos humanos se destinasse, e como se, ao violar a lei pelos homens escrita, passassem eles a pertencer a outra ordem ontológica que não a humana.
Mas não se limita a querelas brasileiras o recrudescimento de modelos punitivos. O acirramento do debate sobre criminalização e direitos humanos está intrinsicamente ligado à emergência de um “Estado penal e policial” nos EUA, em substituição ao “Estado caritativo”, como observa Loïc Wacquant em seu estudo sobre as políticas de segurança pública norteamericana nas últimas três décadas. No período, o país vivenciou uma escalada da penalização das relações sociais que, entre outros efeitos, intensifica a confusão entre pobreza e marginalidade. Sob a hegemonia do construcionismo social, avança-se com furor sobre questões comportamentais; a inimputabilidade penal está limitada, em alguns estados, aos sete anos de idade e a privatização do sistema prisional impulsiona o aumento exponencial do número de presidiários nas últimas décadas – com o fator “raça” sendo determinante na composição da população carcerária.
Talvez poucos se deem conta de que esse modelo vem sendo paulatinamente importado pelo Brasil, aparentemente de forma menos acelerada sob Lula do que no governo de seus precursores e certamente com particular vigor no Sul - região cujo Judiciário não prima exatamente pelo liberalismo. Mas sua importação, adequando-as às tradições de violência e repressão que caracterizam a vida nacional, encontra-se em curso. A privatização dos presídios está no horizonte; na prática,a abordagem criminal do uso de drogas predomina, a despeito dos avanços legais; no Rio e em São Paulo,"silêncios solidários" saúdam operações de extermínio praticadas por forças do Estado; a tortura, energicamente combatida quando aplicada aos militantes de classe média durante o regime militar, fixou-se como prática corriqueira não só nas delegacias e prisões, mas até nas instituições para "menores", para o que muito colabora a omissão de entidades uma vez ativas (e ora em franca deterioração), como a ABI e a OAB.
Parafraseando Drummond, "A liberdade é defendida com discursos e atacada com prisões".
quarta-feira, 15 de abril de 2009
"24 Horas" volta às telas: anacronismo?

O agente Jack Bauer está de volta às telas da TV a cabo brasileira – e a primeira impressão é de um atroz anacronismo.
Na vida real, os vôos secretos da CIA para levar suspeitos de terrorismo para a tortura terceirizada eram, agora temos certeza, verdadeiros, mas acabam de ser alegadamente desativados; a Guantánamo/Doi-Codi da “era Bush” vive seus últimos dias, ao mesmo tempo em que o fim do criminoso embargo dos EUA a Cuba torna-se uma miragem mais próxima.
Em pleno reflorir da “era Obama”, as situações e personagens da série que a Fox exibe nas noites de terça, envoltos em eterna desconfiança e paranóia, com seu protagonista sempre disposto a transgredir as leis e torturar e seus presidentes (na atual temporada, uma mulher) que fazem de tudo para reafirmar a supremacia imperial norteamericana, parecem pertencer a um passado distante.
Mas talvez seja ainda cedo para tal avaliação – e isto vale tanto para o real legado de Obama quanto para o desfecho da sétima temporada de uma série que, embora sempre controversa, não se deixa sucumbir facilmente pelo criticismo.
24 Horas é certamente o programa de ficção que mais intensivamente explorou a configuração ideológica pós-11 de setembro e o inconsciente coletivo da “era Bush”. Assim que foi ao ar pela primeira vez, a série tornou-se, ao mesmo tempo, um produto midiático muito bem-sucedido em termos técnicos (e comerciais) e uma criação ficcional com implicações político-ideológicas altamente problemáticas, levando ao limite o dilema “forma versus conteúdo”.
O sucesso inicial da série parecia dever-se ao uso do “tempo real”, através do qual o tempo diegético (aquele passado no interior da trama) equivaleria ao tempo no universo habitado por nós, os espectadores, e pela utilização de múltiplas telas exibindo ações simultâneas – duas técnicas narrativas que, longe de constituir novidade, pertencem à infância do cinema, tendo sido utilizadas com brilho ao longo do tempo por cineastas diversos, como Hitchcock, Andy Warhol, Peter Greenaway e Tom Tykwer (o diretor de Corra, Lola Corra).
Mas, nas temporadas seguintes, o sucesso de público e de crítica evidenciaram que havia mais do que meros artifícios de efeito em 24 Horas. Em virtualmente todos as categorias técnicas - destacadamente na montagem, direção de arte, edição de som e fotografia - a série preenche com folga os requisitos que John Caldwell definiu como distintivos da qualidade na TV. Mais do que isso: a premiada equipe de roteiristas levou a um novo patamar o grau de complexidade das múltiplas tramas paralelas, tornando-se case study para oficinas e cursos de roteiro; a política de casting (escolha de elenco) conseguiu, ao menos até a quinta temporada, minimizar e eventualmente dirimir as acusações de racismo ou de preconceito étnico - um feito digno de nota em meio à guerrilha multicultural norteamericana; os elencos, de modo geral, tiveram um desempenho bem acima da média da televisão dos EUA (que já é alta), destacadamente Kiefer Sutherland, que, sem ser um ator de primeira linha, apresenta um trabalho de voz notável (observe que NINGUÉM fala ao celular como Jack Bauer...).
Já o conteúdo ideológico de 24 Horas tem sido há tempos apontado como veículo para difusão, para um contingente amplo de espectadores, de uma forma perniciosa de conservadorismo, como apontaram numerosas críticas, preocupadas com o papel formativo e pedagógico que o programa poderia vir a exercer na opinião pública em relação aos direitos individuais sob o pretexto da "guerra ao terror”. O fato de a série ser exibida pela Fox, cujo canal de notícias representa a “vanguarda do atraso” neocon só fez reforçar as desconfianças.
Com efeito, por mais que as estratégias compensatórias adotadas pelos responsáveis pela série dissimulem, fica difícil negar que sua produção discursiva reforça uma visão imperialista dos EUA; que estimula, por vias tranversas, o preconceito contra estrangeiros, muçulmanos sobretudo – o que gerou volumosos protestos públicos na sexta e mais polêmica temporada da série -; e, sobretudo, que são plenamente justificadas as preocupações quanto à naturalização da tortura como método investigativo, ainda mais em um produto de massa (tema de um artigo para variar irretocável de Slavoj Žižek).
Prefiguração de Obama?
Já no primeiro episódio da atual temporada, quando Jack Bauer começa a torturar um suspeito com uma caneta, não há como não dar razão a tais críticas. Porém não dá também para esquecer que, embora negros retratados como presidente dos EUA tenham aparecido amiúde no cinema norteamericano, foi 24 Horas quem apresentou, por um longo tempo, encarnado pelo carismático Dennis Haysbert (foto), o presidente negro mais charmoso, determinado e competente das telas, naturalizando, num programa de massas, a idéia de um afroamericano na Casa Branca, no que pode ser entendido como uma prefiguração justamente de... Barack Obama.
É por essas e por outras que todo cuidado é pouco ao analisar 24 Horas. Portanto, parece recomendável aguardar o final da atual temporada antes de emitir juízos de valor quanto ao eventual anacronismo do programa em relação à "era Obama". ..




