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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

De greves e golpismos

O direito à greve é uma conquista dos trabalhadores que levou séculos para ser obtido e que demandou muitos embates ideológicos e físicos, muito sangue derramado, para se concretizar, no início exclusivamente – porém de modo não universal – em setores em que as relações de produção dependiam muito de mão-de-obra, notadamente o industrial.

Ainda assim, nessa trajetória marcada por variadas táticas de persuasão e pressão, de lado a lado, entre trabalho e capital, e por calorosos debates – como o que opôs Marx e o anarquista Bakunin, defensor da greve geral -, é só na segunda metade do século XX, no bojo da instauração dos Direitos Humanos universais, que o direito à greve se consolida e se difunde para além do mundo ocidental desenvolvido.

Tal histórico ajuda a entender tanto porque o poder de pressão das greves quanto o protagonismo público dos sindicatos – uma força política central, em boa parte do mundo, durante a maior parte do século XX – entram, de maneira geral, em crise a partir do final dos anos 80, quando coincidem a instauração do neoliberalismo e o salto qualitativo da revolução da tecnologia digital e da robótica, fazendo com que, respectivamente, os universos financeiros e midiáticos passassem a dominar a arena pública e centenas de milhões de empregos fossem substituídos pela automação.


Sindicalismo, Estado e Política
No Brasil, houve, desde as primeiras greves do início do século XX, comandadas por imigrantes italianos anarquistas, uma forte confluência entre sindicalismo e política, exemplificada particularmente por dois momentos históricos distintos: o primeiro no hiato 1931-1964, em que, após tomar corpo sob auspícios estatais (sindicatos oficiais, criação do imposto sindical) na era getulista, enfrenta altos e baixos, se amplia, diversifica e intensifica sua ação nas décadas seguintes, até ser brutalmente reprimida pela ditadura – que, já em 1964, teve os líderes sindicais entre seus primeiros alvos.

Já a insurgência dos metalúrgicos de São Bernardo dos Campos nos anos 1970 vai demarcar justamente a confluência entre a luta trabalhista e o combate à ditadura. Seguida pela greve na Companhia Siderúrgica Nacional, na década seguinte, viria a exercer profunda influência na vida política do país, estando na raiz tanto da fundação do PT – partido que surge da aliança entre classe trabalhadora e intelectualidade, como o demonstram o fato de que sua primeira ficha de inscrição foi assinada pelo crítico de arte Mário Pedrosa  e que contava com o apoio de luminares uspianos, como Antonio Cândido – quanto do surgimento de Luiz Inácio Lula da Silva como figura nacional, que logo se tornaria emblemática da “nova esquerda” (dentro de uma perspectiva que compreende uma figura como Leonel Brizola como pertencente à “velha esquerda” que fora derrotada pela ditadura).

Essa confluência entre luta antiditadorial e movimentos grevistas talvez ajude a explicar porque consolidou-se, nos meios progressistas, uma certa tolerância ao recurso à greve mesmo por categorias profissionais que a Constituição vigente considera impedidas de exercê-lo, como é o caso dos policiais militares.


Greve sim, banditismo não

O movimento protagonizado pela PM baiana nos últimos dias, no entanto, extrapola os limites do tolerável por caracterizar-se não como uma paralisação legítima, mas por atentar contra o próprio instituto da greve, extrapolando-o a favor um verdadeiro banditismo praticado com fardas e armas oficiais, “tocando o terror” contra os cidadãos. Parafraseando Chico Buarque, “chama o ladrão, chama o ladrão”.

Agrava ainda a mais o problema a comprovação de que as suspeitas sobre a orquestração politiqueira do movimento são reais e têm graves implicações políticas – como se pôde constatar em reportagem vinculada ontem, no Jornal Nacional, cujo inaudito vigor jornalístico não disfarça o esforço de livrar a cara dos partidos conservadores, responsabilizando a oposição à esquerda.

Claro está que a documentada orquestração vai além de uma em si questionável estratégia interestadual para deflagração de greves em outros estados, como forma de pressionar o Congresso pela votação da PEC 300 (que estabelecerá o piso nacional da categoria); seu objetivo precípuo – e inconfessável, pois situado fora dos limites legais da democracia representativa - é, na verdade,minar politicamente a presidência de Dilma Rousseff , responsabilizando o governo estadual por um “crescente” caos na segurança pública provocado pela propagação de greves da PM em vários estados da federação.

Antes de analisar esses graves fatos, é preciso examinar responsabilidades e erros estratégicos dos governos estadual e federal na condução do caso, não só porque, como observa o professor e blogueiro Chico Bicudo, não cheira bem a “tentativa de blindar e de santificar o governador Jaques Wagner, só porque ele é do PT” e devido ao fato de que ocultá-los não é saudável para a democracia e a verdade histórica, mas para que não venham a se repetir. .


Reação morosa
“Velho amigo de Wagner desde a primeira campanha presidencial de Lula, em 1989”, o neste caso insuspeito Ricardo Kotscho aponta que o governador baiano foi imprudente em, estando certamente informado da possibilidade de greve, não só não ter agido a contento, mas ter abandonado o estado para incorporar-se à comitiva da viagem oficial de Dilma a Cuba – uma falha que se agrava quando se leva em conta que, como lembra Kotscho, a própria origem de Wagner é o sindicalismo. Além disso, mesmo quando de volta à capital, seu tempo de reação foi claramente inferior àquele demandado pela urgência da situação.

Assim, “a sensação que fica é de uma mistura de soberba com descaso e desdém, algo como 'vamos empurrar com a barriga, não vai dar em nada, deixa estar para ver como é que fica'”, assinala Bicudo. Agrava tal impressão a amnésia seletiva em relação à greve da PM promovida pelo partido em 2001, quando era oposição, e a insistência em jogar na conta do carlismo a conta dos revezes na segurança pública. A esse respeito, em artigo significativamente intitulado "ACM já morreu",  pergunta a jornalista Cynara Menezes:

“Que a polícia baiana é truculenta, todo mundo sabe. O problema é fazer pouco ou nada para mudar isso. Até quando os petistas, no poder no Estado há cinco anos, irão dizer que qualquer questão envolvendo a Polícia Militar é resultado dos desmandos de Antonio Carlos Magalhães? Chega de governar olhando o retrovisor.”
Convém ainda frisar que, ao contrário do que a militância chapa-branca nas redes sociais quer fazer crer, a comprovação da manipulação politiqueira e de má-fé da greve da PM não anula as falhas de Wagner na administração do processo.  Parafraseando e wxpandindo o provocativo convite à reflexão com o qual Chico Bicudo encerra seu referido post, já imaginaram se a a PM paulista entrasse em greve e Geraldo Alckmin reagisse do modo errático como Jaques Wagner reagiu, o que estaríamos escrevendo nos blogs e redes sociais?


Ausência de malícia
Embora a rigor correta e bem-intencionada, é preciso também tecer algumas considerações acerca da conduta do governo federal no caso, já que ela acabou por colocá-lo em uma posição vulnerável, a mercê de golpes abaixo da linha da cintura (ou seja, que jogam às favas qualquer republicanismo) das oposições e da maior parte da mídia e, em decorrência, presa de um jogo de manipulação da opinião pública.

Pois a ânsia do governo Dilma em evitar reveses eleitorais para o aliado acabou por chamar para si parte considerável da responsabilidade pela resolução do conflito. É louvável que tenha agido com presteza no cumprimento do dever de fornecer segurança a uma população momentaneamente sujeita não somente à inação das forças policiais estaduais, mas a atitudes criminosas por estas protagonizadas.

Faltou, no entanto, tato político para impedir  que o envolvimento de tropas federais se transformasse, aos olhos do público, em obrigação de assumir o ônus da situação – e de todos os erros, desmandos, hesitações e retrocessos a ela inerentes.  

Trata-se de duas coisas distintas, já que, constitucionalmente, o comando das polícias militares e civis pertence à esfera estadual. No entanto, o crônico problema de comunicação do governo federal, o excesso de declarações - incluindo, como observou Walter Maierovitch, "um ministro da Justiça que diz obviedades ('não serão admitidos crimes e violências') (...) e um penduricalho denominado Secretaria Nacional de Segurança Pública" -, somados à manipulação dos fatos por uma mídia corporativa que, no mais das vezes, age como partido de oposição, facilitou tremendamente a tarefa partidário-midiática de jogar a bomba no colo de Dilma Rousseff.

Tal operação colocou o governo em uma posição potencialmente frágil, a partir da qual a geração de crises de segurança pública em âmbito – e, teoricamente, sob responsabilidade – estadual pode vir a atingi-lo pesadamente. É precisamente essa vereda que os partidos de oposição à direita  - auxiliados por um partido que se diz de esquerda mas atua como linha-auxiliar da pior direita - dão mostras de querer explorar, apostando numa escalada de movimentos grevistas das PMs estaduais e confiantes na falta de conhecimento popular sobre o pacto federativo.


O fator militar
O incitamento ao terrorismo de forças policiais militares contra a população e contra alianças políticas eleitas é incompatível com a democracia. É em nome do Estado Democrático de Direito – e não do mandato do partido X ou do partido Y – que é urgente que o governo Dilma Rousseff lance mão, com determinação, dos recursos legais e executivos cabíveis para por fim não apenas ao ato de banditismo ocorrido na Bahia, mas da conspiração golpista de âmbito nacional que, instrumentalizando a peculiar posição institucional da PM, se delineia a partir da ação – fora dos limites da democracia representativa - tanto da direita quanto da esquerda que a direita adora.

Se greve e política são indissociáveis, no caso do movimento dos PMs baianos - bem como da corrente ameaça de paralisação de seus colegas fluminenses - ao fator greve (de um serviço público essencial) vem a se somar o potencialmente explosivo fator militar – o que evidencia, uma vez mais, a necessidade de desmilitarização da polícia, como defendi em post recente).

Convém, ainda, nunca esquecer que, no Brasil, o fator sindical e a sublevação militar estiveram no cerne das motivações que depuseram o último presidente a ousar medidas progressistas, antes de ser deposto pelo golpe de estado que deu início a uma longuíssima e tenebrosa noite política.

Eram, certamente, outros tempos. Mas, particularmente neste caso, é prudente levar em conta a experiência histórica, pois a apropriação, pelas forças oposicionistas, do às duras penas conquistado direito de greve como meio de concretizar desejos golpistas contra um governo democraticamente eleito demonstra, de forma cabal, que é preciso agir com determinação para que aos erros pregressos não seja dada a oportunidade, ainda que farsesca, de repetição.


(Foto da primeira greve geral no Brasil, em 1917, retirada daqui)

domingo, 15 de maio de 2011

Quando era dureza ser de esquerda...

Houve um tempo em que era duro ser de esquerda.

Éramos barbados, sofridos e, pior, quase nunca ganhávamos eleições. Vira e mexe, confundiam-nos com os hippies e até com mendigos (vi uma vez tentarem dar uma esmola ao Plínio Marcos, que, com uma barba enorme e de havaianas, vendia seus livros na rua; ele reagiu furioso).

Como, por muitas décadas, ser de esquerda significava ser socialista ou comunista (portanto ateu e comedor de criancinhas) era quase uma heresia anunciar-se como tal em público. Senhoras se benziam, cavalheiros mudavam de calçada. Pra não dar bandeira, o negócio era embrulhar o Livro Vermelho do Mao com a capa do Eram os Deuses Astronautas e ir tocando a vida.

Por falar em tocar a vida, era um tempo em que as pessoas de esquerda, em sua maioria, eram (ou se consideravam) intelectuais, e, portanto, iam ao bar, não à praia – e jamais às academias de ginástica. Frequentá-las seria desmoralização total:

- “Autocrítica, companheiro, olha essa preocupação burguesa com a beleza física”.

Quem estipulou essa de que intelectual bebe, ao invés de ir à praia, foi o Jaguar, cartunista, bebedor contumaz, e editor d’O Pasquim, o jornal que os esquerdistas liam em êxtase, convencidos de que eram tão inteligentes quanto o pessoal que lá escrevia.

Era um tempo em que os meio intelectual, meio de esquerda frequentavam aqueles bares meio ruins que o Antônio Prata imortalizou numa crônica serelepe. Na época não existiam esses botecos chiques nem esses festivais de comida de boteco, que prometem tira-gostos divinos mas exigem que todos eles tenham como ingredientes determinada marca de maionese e um desses salgadinhos de pacote que imitam nachos – o que acaba transformando a ida ao boteco num insólito confronto com uma espécie de nouvelle cuisine perisqueira, com o Sushi de Mignon Marinado concorrendo com as Trouxinhas de carne seca com camembert e pimenta-de-dedo. Salvai-nos, São Moacyr Luz!

Mas, se os botecos pioraram, em compensação ser de esquerda ficou bem mais fácil. Pra começar, exceção feita à minoria de prefeituras e estados governados pelo PSDB, em nossos protestos não precisamos mais enfrentar cavalaria, porrada e gás lacrimogêneo.

Basta nos refestelaremos confortavelmente numa poltrona made in China, abrir o laptop e, um mouse na mão e uma ideia na cabeça, navegar pela aguerrida blogosfera, assinar as campanhas da Avast e esgrimir argumentos e links nas redes sociais.

Antigamente, quando éramos oposição, aí era bem mais difícil. Tínhamos muitos e mais poderosos inimigos: o capitalismo, os EUA, o FMI, a ditadura militar, o Nelson Rodrigues, a UDN, o Roberto Campos, o Paulo Francis e Amaral Neto, o repórter.

Hoje, nossos inimigos são, basicamente, dois: o PIG e o José Serra (alguns, mais radicais, incluem FHC e o PSDB, como se eles ainda apitassem alguma coisa...). Assim, para exercermos a tal da práxis política, não precisamos mais dominar o jargão marxista nem ter lido todo o catálogo da Civilização Brasileira. Temos as respostas (para qualquer pergunta ou acusação) na ponta da língua:

A ministra da Cultura está jogando no lixo os avanços na produção e circulação de cultura?
- Culpa do PIG!

A inflação está pela hora da morte?
- Invenção do Serra!

O corte nas verbas da educação começa a comprometer o nível do ensino superior e os avanços do governo Lula na área?
- Invenção do PIG!

Com essa argumentação sofisticada, honesta, salpicada de elogios eventuais a nossos novos aliados – Delfim Netto, Bresser Pereira, Kátia Abreu, Kassab – ser de esquerda continuará a ser, por um bom tempo, sopa no mel, enquanto Aldo Rebelo adula os ruralistas e Palocci, o mercado financeiro.

Afinal, num tempo em que até a dita esquerda no poder vira e mexe adota medidas neoliberais, ficou mesmo muito fácil ser de esquerda. Tão fácil que a gente até desconfia.

domingo, 21 de março de 2010

PORNOCHANCHADA!!!

Ao ressuscitar a pornochanchada, após décadas de ostracismo, as madrugadas do Canal Brasil repõem em circulação um período atípico do cinema brasileiro, em que evocações alegóricas e o interesse por temáticas sociais deram lugar ao entretenimento barato, de apelo erótico mas de uma sensualidade pudica para os padrões atuais, que fez a alegria de mais de uma geração de adolescentes atravessando aquela fase de, digamos, intensa atividade mano-sexual...

Ao contrário da versão que se tornou mais corrente (e que a Wikpiédia “compra”), a pornochanchada surge no final dos anos 60, com um pólo carioca (Reginaldo Faria, Pedro Carlos Rovai), de temáticas mais “malandras”, praianas e descompromissadas, seguido, já na década seguinte, por um pólo paulista, na “Boca do Lixo”, em que se destacam os produtores A. P. Galante, Alfredo Palácios e Osvaldo Massaini e que acabaria por incorporar, em alguns filmes, um subtexto político.

Um dado interessante das produções da Boca - feitas com orçamentos apertados e prazos bem curtos - é que, apesar de no mais das vezes não serem co-financiadas pelo Estado, elas respondem por cerca de 60% da produção nacional entre 1972 e 1982 (quando a estatal Embrafilme dominava o mercado), pagando-se na bilheteria, um luxo ao qual o grosso do cinema brasileiro atual não pode sequer sonhar.


Experimentalismo e política
Numa primeira fase, o gênero iria servir de plataforma de lançamento para diretores talentosos que iriam trilhar o caminho de um cinema mais autoral ou atuar no Cinema Marginal, com o qual a pornochanchada inicialmente às vezes se confunde. É destacadamente o caso de Carlos Reichenbach – o mais bem-sucedido estética e ideologicamente dos realizadores que dialogavam com a pornochanchada - mas também de João Callegaro (O Pornógrafo) e do porno-horror de José Mojica Marins (o "Zé do Caixão').

Com o tempo, a produção pornochanchadesca iria consagrar um elenco de realizadores identificados com o gênero , como Jean Garret (que dirigiu o "clássico" A ilha do desejo), Alfredo Sterheim, Ody Fraga (que tomou parte na direção dos dois A noite das taras), Fauzi Mansur, o hoje novelista Sílvio de Abreu, Tony Vieira, entre tantos outros.


Gêneros e popularidade

Como anota Nuno César de Abreu no verbete “Pornochanchada” do Dicionário do Cinema Brasileiro, “Servindo-se de um erotismo implícito, combinando títulos com duplo sentido, situações e quiprocós amorosos, piadas maliciosas e gags imaginosas, a pornochanchada condensa um imaginário que chega ao público ‘popular’ de forma precisa”.

Os títulos dos filmes filiados a tal produção fornecem uma ilustração que permite entrever tal relação: Reformatório das Depravadas; Tem Bububu no bobobó; O bem-dotado, o homem de Itu; Oh! Rebuceteio; O beijo da mulher piranha; Emoções sexuais de um jegue e por aí vai.


Musas eternas
A razão de ser das pornochanchadas são suas musas, que inspirariam gerações de adolescentes espinhudos, espectadores da Sala Especial da TV Record. Vera Fisher, no auge da beleza, fez filmes memoráveis, que de certa forma sobreviveram bem ao tempo, como A Superfêmea e Anjo Loiro (refilmagem soft-pornô de O Anjo Azul, com Vera no papel que fora de Marlene Dietrich). Helena Ramos (foto à esquerda)) reinava soberana entre as morenas, ao lado de Matilde Mastrangi, Zaira Bueno, Cristina Aché (que estreou o “clássico” Coisas eróticas, em que o protagonista se “apaixona” por uma... melancia)... Mas Aldine Muller - que anos depois, num ato de alta traição, tingiu os cabelos de loiro - também era páreo duro.

Adele Fátima, protagonista do clássico Histórias que nossas babás não contavam (analisado aqui pela pena do mestre Luiz Antonio Simas) reinava absoluta entre as negras (a rigor, Zezé Motta nunca fez pornochanchada, embora Xica da Silva dialogue com o gênero, como a campanha de marketing do filme de Cacá Diegues evidenciava).

Quanto às loiras, havia a belíssima Monique Lafond, a arrasa-quarteirões Vera Gimenez (mãe da não menos vuluptuosa apresentadora Luciana), as classudas Kate Lyra e Maria Lúcia Dahl (última foto) e a sumida Nádia Lippi (cuja foto encima este post, pois, com seus dentinhos proeminentes e olhos verdes, era uma favorita deste blogueiro), entre tantas outras musas.

Entre os homens (argh!), eram figurinhas carimbadas Nuno Leal Maia, Reginaldo Farias, Jece Valadão (que fazia o tipo machão e, para inveja dos pobres mortais, era casado com Vera Gimenez), Toni Tornado (um raro galã negro, exceção ao racismo dominane) e David Cardoso (que era também um bem-sucedido produtor).

Respeitabilidade e decadência
Havia ainda, em meio a toda essa produção, o caso dos filmes situados numa zona limítrofe entre o drama ou a comédia erótica e a pornochanchada, mas não necessariamente rotulados como esta. É o que ocorre com da obra de Walter Hugo Khouri, repleta de influências do cinema de arte europeu dos anos 60. Ela antecede e supera a época da pornochanchada mas dela se beneficiou até em termos de marketing – o qual invariavelmente enfatizava o harém de belas mulheres em cenas eróticas (a mais famosa delas, protagonizada por uma tal de Xuxa). Também ocupam essa zona limítrofe os filmes do já citado Carlão Reichenbach e, notadamente, dois filmes dirigidos pelo grande batalhador Neville D'Almeida: A Dama do Lotação (estrelado pela musa suprema Sônia Braga e que continua entre as três maiores bilheterias da história do cinema nacional) e Os Sete Gatinhos (1980), este último com um elenco de belas mulheres reunidas para uma sequência de taras de exaurir os aborrescentes mais atléticos. Troféu Pelo na Mão 1970!

A partir dos anos 80, uma série de razões – o advento do videocassete, a competição dom o pornô hardcore de baixo custo importado e, segundo alguns autores, até mesmo a democratização política (?!) – transformaria a pornochanchada no reino do sexo explícito. Ainda assim, alguns talentos excêntricos, como Sady Baby e Juan Bajon, e algumas “musas perversas”, como Sandra Morelli e a hiperfogosa Márcia Ferro se destacariam – mas com temáticas e abordagens não digeríveis por qualquer público.


Desatenção e culto
O preconceito contra a pornochanchada diminuiu nos últimos anos, e até pesquisadores das pós-graduações acadêmicas têm deixado a afetação blasé de lado e demonstrado interesse – ainda pontual e insuficiente – pelo período. Mas são necessárias muita pesquisa e sistematização para propiciar uma visão apurada e sincrônica desse período obscuro do cinema nacional. Fora da universidade, as informações são fragmentadas e imprecisas.

Quando, em meio a um zapping madrugadeiro, me deparo ocasionalmente com filmes da pornochanchada, não raro eles me agastam e não prendem minha atenção, mas às vezes encontro autênticas jóias de criatividade, humor e erotismo – e de uma certa espontaneidade e improvisação que andam faltando no cinema nacional atual, muito pseudo-hollywoodiano pro meu gosto.


(Crédito das fotos, em ordem de apresentação: 1, 2, 3, 4, 5, 6)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A volta das patrulhas ideológicas

O termo “patrulhas ideológicas” tornou-se corrente a partir de agosto de 1978, quando, em plena Abertura, o cineasta Carlos Diegues, em entrevista ao Jornal do Brasil, utilizou-o para se referir à insistente cobrança que vinha sofrendo para que dirigisse filmes de cunho explicitamente político, ao invés de crônicas de costumes como Chuvas de Verão – obra que toca, com sensibilidade, na rara temática do amor e sexo na velhice.

Trinta e um anos depois da entrevista de Cacá – cujas repercussão e ilações críticas podem ser lidas no excelente livro Patrulhas Ideológicas Marca Reg, resenhado aqui -, o termo por ele popularizado – e do qual a pior direita apoderar-se-ia nas décadas seguintes - voltou com tudo à minha mente devido às reações vivenciadas após mencionar, de forma breve, minhas impressões pessoais sobre um filme.

Fui assistir a Lula, o filho do Brasil com grande expectativa: o personagem, a história, a significação da sua trajetória enquanto exemplo e metáfora para a de milhões de brasileiros, as ilações pós-filme para com a figura do hoje bem-sucedido presidente e líder político reverenciado mundo afora – tudo apontava, potencialmente, para um grande filme.

Mas o que tive diante dos olhos foi um espetáculo decepcionante, irregular e morno, de narrativa truncada e arrastada, desatento aos detalhes, com um roteiro mal concebido e que, no intuito de provocar empatia com o público, perfaz uma abordagem histórica questionável e a meu ver diminuidora de seu personagem principal.

Por conta dessa impressão decepcionante, não pretendia (e não pretendo: este post não é uma crítica cinematográfica) escrever sobre o filme – embora, evidentemente, pudesse falar sobre minhas impressões em conversas informais ou no universo virtual, como veio a acontecer.

“Fui assistir ao filme do Lula. Achei muito, muito ruim. #prontofalei” – estas 11 palavras, postadas no Twitter, foram o pavio que acendeu a pólvora.

Mesmo evitando voltar a tocar no assunto – pois frequento a tal rede social para me divertir, não para ficar entrando em confrontos - algumas das reações que obtive, na hora e nos dois dias seguintes, por emitir essa simples opinião pessoal, valem por um tratado da intransigência político-ideológica vigente.


Reações vão do palavrão à tentativa de desqualificação
Pouparei o leitor da reprodução das respostas explicitamente agressivas – afinal, este é um blog familiar (rs...). Vou destacar apenas duas reações, incisivas mas sem hostilidade aberta.

Logo após publicar o tuite acima reproduzido e ver-me cobrado a explicitar as razões de minha insatisfação com o filme – as quais elenquei mais ou menos à maneira do quarto parágrafo deste post -, uma das pessoas que se apresentaram como interlocutores – minha seguidora de longa data - questionou se eu tinha certeza de haver entendido o filme. Respondi com um “Por favor, né?”, ao qual ela retrucou com um taxativo “Acho que não”. Conclui com uma pergunta que ficou sem resposta: “Quer dizer que a idolatria é tamanha que uma pessoa não gostar do filme é sinal de que não o entendeu?”.

No dia seguinte, enquanto pipocavam pela blogosfera opiniões negativas ou positivas a respeito de Lula, o filho do Brasil , assistiu-se a um movimento tão contraditório quanto questionável de desqualificação dos críticos do filme: de Nassif e outros, afirmava-se não terem qualificação para fazer crítica de cinema; já dos que são críticos de cinema ou têm relação profissional com a sétima arte dizia-se que ou se tratava de mera “inveja” ou que a “obsessão” com “questões técnicas” obnubilava a necessária sensibilidade para com uma obra que contava a história de um “homem do povo”. O fato de que tais estratagemas pseudo-desqualificadores poderiam ser igualmente aplicados aos que avaliavam positivamente o filme foi algo que não passou pela cabeça dos patrulhadores.


Gostaria de fazer duas observações:

1) Minhas restrições ao filme, assim como a de várias outras pessoas do meio, não foram exclusivamente de ordem técnica - para mencionar apenas alguns quesitos, a fotografia (Gustavo Habda), o som e o casting do filme são excelentes -, mas também de como a obra foi por mim recebida do ponto de vista sensorial e afetivo;

2) A tentativa de desqualificar a opinião de profissionais de cinema por conta de uma suposta picuinha invejosa em relação a Fábio Barreto (por cuja recuperação médica eu torço muito) é não apenas um argumento pífio e uma generalização tão descabida que chega a ser engraçada, mas um procedimento revelador dos métodos autoritários utilizados pelas “patrulhas”, que não toleram os que delas discordam.


Intolerância e direito de opinião
Sempre tive para mim que Lula, o filho do Brasil era um produto cultural em forma de filme, que contava uma bela história. Essa era uma das razões que me fazia minimizar a importância da discussão sobre o financiamento privado à produção: trata-se, como já apontei, de um personagem fascinante, com uma trajetória exemplar, com a qual tantos brasileiros se identificam. O fato de o retratado ainda ocupar a Presidência levanta questões éticas relativas à relação do governo federal com as empresas financiadoras do filme? Talvez sim, mas me parece pouco provável a hipótese de que uma produção cinematográfica, com um orçamento insignificante em relação ao montante dos negócios de tais empresas com a administração federal, pudesse vir a influenciar qualquer negociata. Afinal, tratava-se, eu supunha, de um mero filme, sobre uma história por demais conhecida pelos brasileiros; um produto cultural que certamente agradaria a uns e a outros desagradaria, antes que a vida continuasse.

As patrulhas ideológicas convenceram-me do contrário: o fato de se tratar de mais um filme no mercado é o de menos, pois como as paixões e ódios que compõem o fanatismo vêm demonstrando, trata-se, na verdade, de um objeto de culto à personalidade de um líder político e de estímulo à polarização maniqueísta não apenas do debate político-ideológico, mas esfera cultural adentro. “Aos que gostam do filme, tudo; aos que não gostam, a desqualificação grosseira”.

O fato de eu reconhecer os muitos méritos do governo Lula não impede que eu me preocupe com tal processo, que traz em seu bojo ecos getulistas (e, neste caso, isto não é um elogio, pois refiro-me ao processo de captura da esfera cultural promovida pelo então ditador, e não, como de ordinário setores da direita e da academia paulista o fazem, preconceituosamente, às suas políticas sociais).

Tal atmosfera tende a exacerbar os processos de radicalização discursiva aos quais me referi no post Internet e a atmosfera de turba, dos quais novas mostras foram dadas esta semana, com o jornalista Mário Magalhães recebendo ataques injustos - pois, na verdade, estes deveriam ser dirigidos ao jornal em que trabalha, que publicou, na capa da edição nacional, um artigo referente a um contexto regional sem contextualizá-lo, de forma a beneficiar José Serra, cuja atuação em relação à tragédia em São Luiz do Paraitinga é ainda pior do que a de Sérgio Cabral Filho no Rio (que Magalhães comparou a de Bush em relação a New Orleans).

O que está em jogo, no caso do filme sobre Lula, é o direito de emitir impressões pessoais sobre um produto cultural sem receber como resposta um bombardeio de insultos e de cobranças referentes a sua posição política. Um direito básico de opinião que está sendo tolhido a quem da obra não gostou.

Eis a volta triunfal das patrulhas ideológicas.


("Rosas para Stalin", de Boris Vladimirskij (1949), retirado daqui)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Serra e Ahmadinejad

No dia da visita de Ahmadinejad ao Brasil, a Folha de São Paulo exibe chamada de capa para um artigo do governador de São Paulo, José Serra, atacando pesadamente o presidente Luís Inácio Lula da Silva por recepcionar o presidente iraniano.

Não há dúvidas de que Ahmadinejad representa posições inaceitáveis no mundo atual: repressão e condenação a homossexuais, opressão às mulheres e ao feminismo, supremacia do poder religioso sobre a esfera leiga; sob seu governo, a censura, que esteve ativa desde a Revolução Islâmica, tornou-se ainda mais intransigente, levando até cineastas consagrados à prisão.

Mas, por paradoxal que pareça, é justamente para não acirrar tais posições que a recepção que o Brasil proporciona ao presidente iraniano é importante. Pois isolá-lo, na atual conformação internacional, significa colaborar para levar o Irã a um duplo radicalismo: o da extremamente conservadora teocracia panárabe; e, como líder-mártir que ousou confrontar o Império norteamericano e como uma das principais forças políticas contrárias a Israel, ao do terrorismo internacional patrocinado pela Al-Qaeda.

É precisamente contra esse duplo perigo que se insere a estratégia da diplomacia brasileira, que de quebra ganha a simpatia de importantes setores do Oriente Médio e da Liga Árabe para postular uma vaga no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O que está em jogo, portanto, é mais um passo no realinhamento da posição do Brasil no mundo, de forma particular em relação aos Estados Unidos, país que, por razões diversas – notadamente suas relações com o grande capital judaico, neste momento delicado da economia norteamericana - não pode e não quer adotar publicamente uma política soft power em relação ao Irã.

Não há como entender o fenômeno iraniano sem recapitular as relações que os EUA mantiveram com o país. Ao patrocinar, via agentes infiltrados da CIA, a derrubada do moderado primeiro-ministro Mohammed Mossadegh, em 1953 – naquele que é considerado por muitos analistas internacionais como o maior erro na história da política externa norteamericana – o, com o perdão da ironia, país-líder do “mundo livre” acirrou ódios maniqueístas no Oriente Médio, reforçando sem querer a radicalização de uma posição pró-Palestina, ao mesmo passo em que ajudou a colocar no comando do Irã a ditadura do xá Reza Pahlavi, cuja brutalidade agravou-se a partir dos anos 70, com milhares de mortos, torturados e mutilados pelo regime.

É do esgotamento desse modelo ditatorial – durante o qual o povo iraniano foi levado a aderir maciçamente a credos religiosos, pois, entre outras razões, eram essas das poucas manifestações populares então permitidas no país - que brota a Revolução Islâmica levada a cabo pelo Ayatolah Khomeini, em 1979. Caracterizada não apenas pela forma aberta com que se opôs aos EUA (em que pese o caso Irã-Contras) mas pela progressiva radicalização do conservadorismo religioso, a Revolução está nas raízes tanto do extremo conservadorismo de Ahmadinejad quanto do terrorismo de bin Laden (pois foi como forma de combatê-la que os EUA deram armas e poder a Sadam Hussein, decisão cuja consequência última foi a criação de um exército-reserva para o terrorismo).

Portanto, a diatribe eleitoreira de José Serra – a quem Luis Nassif acusa de, com o artigo em questão, ter aderido ao jornalismo neocon – é não apenas descontextualizada em termos históricos como ignorante das sutis dinâmicas da política internacional. Além de hipócrita para um governante que recebeu líderes sionistas acusados de assassinato, revela o despreparo do mandatário paulista para lidar com o sofisticado universo das relações exteriores.


(Imagem retirada daqui)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Lula e a História

A hora de fazer um balanço do legado das duas Presidências de Luis Inácio Lula da Silva se aproxima, mas ainda não chegou. De qualquer modo, essa primeira avaliação terá lugar, inevitavelmente, em meio ao fogo cruzado de uma nova campanha presidencial e, em decorrência disso, tende a estar sujeita a toda a sorte de distorções e parcialidades ditadas pelos interesses das partes em disputa.

O próprio resultado dessa próxima eleição – vença o candidato apoiado pelo lulismo, vença seu opositor – tende a exercer um grau considerável de influência no julgamento histórico acerca da “Era Lula”, e com isso chegamos à primeira consideração sobre a especifidade do modus operandi da História – a constatação de que ela tende a variar, em relação ao seu objeto de estudo, até mesmo devido a mudanças contingenciais imediatas. Levada ao paroxismo, essa característica evoca a famosa boutade de Napoleão segundo a qual a história seria “Um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo”.

Além do papel que a dinâmica política imediata pode vir a exercer na avaliação do legado do atual presidente, há outro fator essencial a considerar: o comportamento da mídia. Este tende a ser potencialmente decisivo numa era em que informação e capital protagonizam, nas palavras de Antonio Rubim (no livro Comunicação e Política), “uma sociedade estruturada e ambientada pela comunicação, como uma verdadeira ‘Idade Mídia’, em suas profundas ressonâncias sobre a sociabilidade contemporânea em seus diversos campos” (2000, p. 29).

E há, na própria política nacional mais ou menos recente, precedentes que demonstram os efeitos potencialmente nocivos, para a memória histórica, do comportamento da mídia . Como escrevi em post anterior, considero a prefeitura de Luiza Erundina em São Paulo (1989-1992) o mais bem-sucedido exemplo do papel da mídia em legar, para o país, uma visão negativamente distorcida de uma administração que não poderia ser considerada menos do que ótima. É claro que o peso das forças antagônicas em âmbito federal e a possibilidade de continuidade do lulo-petismo no poder podem tornar esta última tendência política menos suscetível à brutalmente desonesta manipulação que vitimou Erundina. Mas todo o cuidado é pouco.

Uma terceira e última ressalva, em relação ao que a História fará do governo Lula, diz respeito ao fenômeno descrito por Eric Hobsbawn na introdução a Era dos Extremos (2000), segundo o qual as novas gerações crescem atualmente “numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação com o passado público da época em que vivem” (p. 13). Ou seja, a tendência à dispersão e ao imediatismo ditadas pelo ritmo veloz do jornalismo contemporâneo – e tão nociva a este, como aponta com brilho Sylvia Moretzsohn no livro Jornalismo em Tempo Real (Ed. Revan, 2007) – tenderia a estender seus tentáculos à História. É matéria de debate se novos ambientes comunicacionais como a blogosfera tendem a minimizar ou acirrar ainda mais esse fenômeno do “contínuo presente” - de qualquer forma, caberá ao historiador se vacinar contra ele.


Impressões atuais tendem a ser relativizadas
A despeito de tais restrições - e de todas as objeções pós-estruturalistas -, a História tem sido bem-sucedida em legar ao futuro – e ao grande público, que no âmbito deste artigo nos interessa mais – visões mais ou menos consolidadas (embora sempre passíveis de questionamentos ou matizações) dos principais fenômenos políticos, culturais, sociais e econômicos brasileiros. Não sem raridade, as interpretações mais aceitas e consagradas dos fenômenos históricos contrariam fortemente a percepção socialmente dominante no momento histórico analisado.

Tomemos dois casos como exemplo: o “Milagre econômico” de meados dos anos 1970 e a Presidência de Juscelino Kubitschek (1956-1961). O primeiro, saudado à sua época por mídia e sociedade como prova da eficiência de uma administração que tornava o Brasil a 8ª. economia do mundo, revelar-se-ia, sob perspectiva histórica, um fenômeno fugaz e artificioso proporcionado por vultoso endividamento externo, que acirrou ainda mais as desigualdades sócioeconômicas internas e levou o país a décadas de crise econômica e alta inflação por conta, sobretudo, dos custos do pagamento dos juros da tal dívida.

Já a Presidência de JK, vitimizada por três golpes de estado (abortados a tempo) e enxovalhada semanalmente em O Cruzeiro (a Veja da época, que tinha em David Nasser o seu Reinaldinho Azevedo), embora permaneça ainda hoje volta e meia questionada por humoristas que se autointitulam economistas por conta do ínfimo endividamento externo, é reconhecida pela História como a última administração produtora de um modelo de desenvolvimento orgânico e planificado que contemplou destacadamente a indústria (e pela primeira vez a automobilística), os transportes (rodovias Belém-Brasília e Régis Bittencourt), o setor de energia (hidrelétricas de Furnas e de Três Marias, aumento exponencial da produção de petróleo pela Petrobrás), além da incisiva política externa em prol da América do Sul (fundação da Operação Pan-Americana) e, mais importante, da propulsão inicial à integração nacional propiciada pela construção de Brasília (como aponta Venício A. de Lima, a cidade mais discriminada pela mídia nacional, que a confunde com os políticos que a habitam). Isso para não mencionar a democracia plena e a efervescência cultural que caracterizaram o período presidencial de JK e colaboraram sobremaneira para que este tenha acabado por receber o epíteto de “anos dourados”.


Caberá à História julgar legado de Lula
Como os exemplos acima evidencializam, os métodos históricos operam em outro diapasão em relação aos interesses políticos imediatos e ao modus operandi da mídia. Este, como tem apontado Luis Nassif, tem se caracterizado pelo que o jornalista chama de “priapismo midiático”, ou seja, a geração de um escândalo por dia para manter o leitor em permanente orgasmo. Trata-se de procedimento recorrente, mas potencialmente perigoso, como o demonstra um caso clássico da relação poder-imprensa no Brasil:

Quando o povo brasileiro foi dormir no dia 23 de agosto de 1954, o presidente era, segundo quase todos os jornais, que vendiam como nunca, o mais corrupto presidente da história do país; ao acordar no dia seguinte, e constatar que Vargas se matara, esse mesmo povo o elege seu mártir e sai em turba empastelando - ou tentando empastelar - as redações, preservando apenas a do Última Hora, único jornal que apoioara Vargas e que bateria, naqueles dias, recordes de venda.

Destarte, casos que hoje, graças ao moralismo tosco que continua dominando nossa imprensa, parecem ter uma importância vital - como Sarney no Senado, Dilma não ter renovado o Currículo Lattes, a tapioca comprada com cartão funcional e todos esses episódios que a mídia e a oposição (acredite, prezado leitor, são entidades diferentes) alardeiam como se se tratasse de motivo para impeachment de Lula - tendem, por sua própria insignificância e por dizerem respeito a práticas secularmente estabelecidas no país e não a ações do atual presidente, a desaparecer ou a virar uma vírgula no compêndio que a História reservará para a análise do que foram as duas Presidências de Lula.

Em compensação, um programa social que tirou cerca de 40 milhões de pessoas (11.250.623 famílias) da pobreza como o Bolsa-Família, a redução da mortalidade infantil em inacreditáveis 50%, o redirecionamento da política externa no sentido Sul-Sul /BRIC como forma de construir novas alianças internacionais e minimizar a influência norteamericana no país, a descentralização dos investimentos culturais para fora do eixo Rio-SP e a inédita proliferação de pontos produtores de cultura (inclusive audiovisual) nos mais longínquos rincões e a revitalização de um ensino superior quase destruído pelo governo Fernando Henrique Cardoso - seguida da criação de dezenas de universidades bem equipadas em regiões não-centrais do território - são medidas concretas, fatos comprováveis, em relação aos quais há uma chance enorme de a História demonstrar o obrigatório interesse e reconhecer o devido mérito, a despeito destes serem hoje largamente negligenciados por uma mídia tendenciosa e irresponsável como poucas vezes se viu - e, em decorrência dessa omissão, praticamente desconhecidos, em seu conjunto, da maioria da população do Brasil neste momento.

Caberá à História rever tais injustiças e estabelecer os devidos erros e os méritos da Presidência de Luis Inácio Lula da Silva.


(Fotomontagem a partir de imagens retiradas daqui e dali)

sábado, 30 de maio de 2009

"Memória para Uso Diário" e a questão da tortura no Brasil

O Canal Brasil tem exibido o documentário Memória para Uso Diário (2007), excelente filme que debate e sugere importantes reflexões sobre a ditadura militar e a questão da tortura no Brasil – não só quando aplicada contra presos políticos, mas em sua persistência nos dias atuais como forma indiscriminada de repressão às classes periféricas.

A estrutura narrativa em forma de mosaico, embora a princípio um pouco confusa, possibilita a cobertura de aspectos diversos do tema – como a importância e abrangência da atuação do grupo Tortura Nunca Mais (que co-patrocina a produção), as consequências psicológicas para os torturados, a questão da memória pessoal e sentimental, as estratégias do aparato militar para sonegar informações e a leniência dos governos civis para aprovar leis que as liberem, a formação dos torturadores no Brasil e na Escola das Américas (EUA), e a persistência da tortura e das execuções sumárias nos dias atuais, resultando numa abordagem densa e multifacetada do tema, que utiliza com inventividade depoimentos, reportagens televisivas, material gráfico e de arquivo.

Tema difícil de ser tratado em termos cinematográficos, a dor da “tortura a longo prazo” a que são submetidas as famílias dos “desaparecidos” – particularmente as mães -, impedidas de enterrarem seus entes queridos, é enfocado com tato e sem pieguice. Ele está diretamente conectado ao principal fio condutor da trama, a trajetória de d. Ivanilda - uma senhora que durante 31 anos percorre os arquivos do Estado em busca de informações sobre o marido, militante do “partidão" desaparecido em 1975. Sua luta evidencia a importância que tem, em termos emocionais e psicológicos, o reconhecimento, pela Justiça, da responsabilidade do Estado nas mortes dos familiares desaparecidos, medida incomparavelmente mais significativa para as viúvas e filhos do que a concessão de “indenização” financeira que de ordinário a acompanha – e que tem sido, quase sempre, o único e malicioso interesse da mídia corporativa no que concerne à questão.




Dois dos momentos mais sublimes do filme dirigido por Beth Formaggini - que recebeu diversos prêmios no Brasil e no exterior, incluindo Melhor Longa Documentário - Voto Popular, no Festival do Rio 2007 - advém de depoimentos de mães que tiveram seus filhos mortos pelas forças de repressão. No primeiro deles, uma franzina senhora, cujo filho foi morto pela repressão, muito emocionada e humildemente argumenta que aceitaria que ele fosse julgado pelos eventuais crimes pelos quais fora acusado, mas que não pode se conformar com sua execução sumária, sem direito a julgamento. O depoimento desmonta, em poucos segundos, um dos argumentos mais falaciosos ora utilizado pelos setores de direita em sua tentativa de justificar o injustificável – o de que a morte de militantes se justificaria por se tratar de criminosos. Ainda que, apenas como exercício de retórica, aceitássemos que de crime se trata a luta contra um regime arbitrário, o depoimento da senhora encerra a questão: a punição não poderia jamais dar-se na forma de tortura ou de assassinato sumário praticados pelas forças do Estado, e sim exclusivamente através da obediência aos devidos ritos judiciais.

Mas a pedra de toque do filme – e um de seus momentos mais dilacerantes – vem da direta relação que perfaz entre a repressão no período militar e a violação dos direitos humanos hoje; entre a tentativa de se anular a subjetividade psicológica do preso por meio da tortura, objetivo dos interrogatórios durante a ditadura, e o atual desprezo pela identidade dos habitantes das favelas e periferias, vítimas de assassinatos sistemáticos perpetuados por policiais militares e grupos de extermínio. Efetivada através do depoimento de uma jovem mãe negra, habitante da favela da Maré, que teve seu filho de 17 anos assassinado a sangue frio por forças policiais, a relação entre passado e presente se evidencia ainda através dos métodos empregados: se antigamente se “montava uma cena” para alegar que o militante torturado já morto reagira à prisão, atualmente basta rotular o jovem assassinado como traficante (como se fosse possível distinguir à primeira vista pessoas honestas de traficantes - e como se a lei brasileira autorizasse a execução sumária destes, dispensando o rito judicial). Por sua vez, a mídia, como enfatiza a jovem mãe com lágrimas nos olhos, “só passa para contar o número de mortos”.

Um crítico chato talvez sublinhasse que uma edição mais enxuta e objetiva e maior apuro formal fariam bem a Memória..., mas são detalhes desimportantes em uma obra que, além do mérito indiscutível de tratar de assunto tão difícil com fluência, emoção e até humor, é tão rica em questões de fundamental importância para o avanço democrático do país. Um filme para ser visto e revisto - sobretudo pelas novas gerações, e não apenas com a máxima atenção, mas com o mesmo coração aberto com que, há quase 40 anos, jovens idealistas pegaram em armas e deram suas vidas numa luta – certamente ingênua, comprovadamente equivocada, mas indubitavelmente generosa – por um país melhor, livre do jugo ditatorial que tantos males legou à nação, da corrupção desenfreada à disseminação da tortura como prática policial.

Um filme cujo título corresponde à împortância dos temas que debate: memórias para uso diário.

terça-feira, 17 de março de 2009

Arletty, A Eterna Garance

Uma das grandes divas do cinema, Arletty (Léonie Bathiat) alcança rapidamente o estrelato no teatro parisiense, obtendo algum destaque no cinema comercial francês dos anos 1930, em comédias de Sacha Guitry e Jacques Feyder. A consagração vem através dos filmes psicologicamente densos, esteticamente rebuscados e sociologicamente atentos do Realismo Poético Francês, movimento do qual se torna uma das principais estrelas, com performances marcantes em produções em sua maioria dirigidas por Marcel Carné e roteirizadas por Jacques Prévert.

Assim como Jean Gabin representa um novo padrão de masculinidade no cinema, os papéis por ela desempenhados no período elevam o padrão da representação feminina nas telas, então fortemente atado a estereótipos. Tanto como a recorrente femme fatale quanto como as prostitutas Raymonde, de Hôtel du Nord (Hotel do Norte, 1938) e Clara, de Le jour se lève (Trágico Amanhecer, 1939), Arletty dota seus personagens de profundidade psicológica e de contradições e idiossincrasias, à revelia das caracterizações que se confundem com as de sua própria persona: a bela mulher de origem humilde e humor rascante, cujos aparentes niilismo e objetividade não deixam de sugerir um espírito romântico e uma sexualidade intensa.

Sua luminosa atuação como a Garance no clássico Les enfants du paradis (O Boulevard do Crime, Marcel Carné, 1945), valorizada pela direção de fotografia de Roger Hubert (cuja química com Arletty produz um verdadeiro tratado de fotogenia), representa o ápice de sua carreira e a performance que a inscreve, definitivamente, na história do cinema.

Queda
Dona de uma biografia cuja dramaticidade rivaliza com a das personagens que encarnou na tela, sofre, aos 16 anos, o choque de ver o namorado morrer no terceiro dia da I Guerra Mundial, o que a faria jurar nunca se casar, “para não me tornar uma viúva da guerra ou, o que seria ainda pior, a mãe de um soldado”. Embora tenha tido uma vida amorosa intensíssima, cumpre, ao menos oficialmente, a promessa. Esta, no entanto, não lhe poupa dos dissabores causados pela explosiva combinação de amor e guerra: embora identificada com os setores artísticos simpáticos à Resistência Francesa, é acusada, ao final da II Guerra, de ser amante de um oficial alemão.

Na ocasião, declara: “Meu coração é francês, mas minha bunda é internacional” [Mon cœur est français, mon cul est international] – frase que, décadas depois, a tornaria objeto de culto entre as feministas euro-americanas.

O caso, porém, tem graves consequências: acusada de traição, é encarcerada no campo de concentração de Drancy e depois em uma prisão, onde permanece quatro meses. Proibida de trabalhar por quase três anos, é abrigada por amigos ligados à Resistência. Não chega sequer a tomar parte na première de Les enfants du paradis – ironicamente, um filme construído como uma crítica à França sob Vichy e que pode ser lido como uma alegoria anti-repressão e um libelo pela liberdade.

Embora retomasse a carreira, esta nunca mais seria a mesma, em parte porque o cinema francês jamais voltaria a produzir aqueles filmes plenos de atmosfera, a um tempo classudos e contundentes, que estrelara em fins dos anos 30; em parte porque o público, traumatizado pelas feridas da guerra, não mais se dispôs a prestigiar um ídolo que via como praticante da então chamada “colaboração horizontal” com o inimigo.

Suas atuações como a Inês de Hui Clos (Jacqueline Audry, 1954) ou a Blanche de L’air de Paris (Além do vidro vazio, Marcel Carné, 1954) não deixam dúvidas quanto ao seu grande talento, mas este dá mostras de não bastar. O declínio de sua carreira acentua-se com a irrupção iconoclasta da Nouvelle Vague. Deixa de atuar como atriz em 1963, após um acidente em que quase perde a visão durante ensaio da peça de Jean Cocteau, Le Monstre sacrés. Três anos depois, perde seu único filho e, em seguida, Jean-Pierre, o companheiro “de altos e baixos” com quem nunca casara. Sobrevive trabalhando como narradora.

Retorno Mas o tempo acaba por lhe fazer justiça: morre aos 94 anos, superando a maioria de seus contemporâneos e os traumas de seu tempo de estrelato. Publica duas autobiografias cujos títulos resumem sua mudança de espírito em relação ao passado (e acabam por refletir a transformação na relação do público com ela): Défense [Defesa] em 1971, e Je suis comme je suis [Sou como sou], em 1987.

Quase centenária, vive mais do que o suficiente para certificar-se de que se tornara um dos maiores ícones femininos do cinema, saudada por seus pares em documentários e depoimentos e objeto de culto internacional, despertando particular devoção entre cinéfilos, gays e feministas. A eterna Garance.