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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O PSDB contra o país, uma vez mais

O fato de, no campo conservador, José Serra ter praticamente monopolizado as eleições majoritárias dos últimos anos, com seu estilo truculento, sem limites e adepto das piores baixarias, fez com que alguns analistas, mesmo entre os chamados blogueiros progressistas, acreditassem que o PSDB tenderia a renascer como partido de oposição programática uma vez livre dele, sem espaço na agremiação após sucessivas derrotas eleitorais.

Só faltou combinar com os russos, como diria o grande filósofo Garrincha. O anúncio, feito hoje à tarde, de que o governador Geraldo Alckmin (PSDB/SP) manteve a decisão de não prorrogar os contratos de concessão da CESP, criando um obstáculo ao projeto do governo federal de baratear o custo da energia elétrica, é revelador de um traço distintivo do PSDB que andava anuviado sob o personalismo serrista: o caráter antipovo e anti-Brasil das decisões do partido.

A este traço vêm se somar a insensibilidade social - tão bem exemplificada na desfaçatez com que o governo paulista impede, com a medida tomada, que cidadãos e empresas gastem menos com energia elétrica num momento de crise econômica mundial – e a primazia que concede ao grande capital, cuja manutenção de altos lucros com pouco esforço cuida de assegurar. Fechando o círculo, a mídia amiga cuida de esconder do cidadão informações essenciais à compreensão do processo, como pode ser constatado no relato que a blogueira Maria Frô faz do comportamento da Folha de S. Paulo no caso em questão.

Não é nenhuma novidade esse elitismo insensível do PSDB. Quem vivenciou os dois governos de Fernando Henrique Cardoso pôde testemunhar, estarrecido, a uma ação governamental completamente dissociada do bem público e voltada tão somente a assegurar a maximização dos lucros financeiros, à custa da dissolução do Estado brasileiro – e, portanto, do sucateamento da saúde, da educação e da infraestrutura do país – e da submissão da economia às regras do mercado – ou seja, do abandono de setores industriais e empresariais em formação, condenados à bancarrota ante a competição internacional com produtos subsidiados em seus países de origem. Tudo isso sob o beneplácito de uma mídia deslumbrada e a indiferença de uma Justiça manietada (como demonstra com propriedade este post de Cynara Menezes).

Entretanto, a despeito de não constituir novidade, e, portanto, não surpreender, causa alguma estupefação esse comportamento peessedebista por estar diretamente ligado às razões que apearam o partido do poder e por evidenciar-se contraproducente em termos eleitorais – o que afigura-se proibitivo a um partido que está há uma década afastado do poder federal e acaba de sofrer uma fragorosa derrota nas eleições municipais, perdendo a prefeitura da maior cidade do país – até então um seu feudo – para o arqui-inimigo petista.

Com Alckmin impedido de tentar voos mais altos, sob o risco de os tucanos perderem também o governo para o PT, e com uma eventual candidatura Aécio cambaleando na imaturidade viciosa do senador mineiro, o PSDB, mesmo enfrentando um de seus maiores impasses desde sua fundação como partido social-democrata (hoje não é nenhuma coisa, nem outra, mas um anacrônico arremedo de conservadorismo e neoliberalismo), segue apostando contra os eleitores e a favor do grande capital.

Muitos podem achar bom, para a esquerda e para o petismo, que assim seja, pois gera mais um fator de enfraquecimento do conservadorismo. Tenho sérias dúvidas a respeito. Penso ser prejudicial para o país não contar com uma oposição programática, que entrasse na luta pela hegemonia e buscasse afirmar posições. Creio mesmo que o vácuo que hoje o elitismo a-ideológico do PSDB deixa na política acaba permitindo que o governo Dilma, em algumas áreas – como a trabalhista e a previdenciária -, ao invés de afirmar princípios programáticos e aprofundar conquistas, acabe por mimetizar posições anteriormente assumidas pelos tucanos, ocupando espaço e ampliando sua hegemonia entre parcelas do eleitorado conservador, como a posição a favor da manutenção do fator previdenciário criado por FHC e as ameaças de flexibilização de leis trabalhistas ilustram muito bem.

O avanço da democracia, no Brasil, passa pela constituição de uma oposição menos mesquinha e que, ao contrário do PSDB, não se deixe atrelar à defesa de interesses menores, de modo a elevar o nível do debate político e a representar um desafio constante, que impila as forças ora no poder a competirem pelo eleitor e a se aprimorar. 


(Imagem retirada daqui) 

domingo, 2 de dezembro de 2012

O PT e a questão da mídia: relato de um impasse

Preservar, a virtualmente qualquer custo, os altos índices de aprovação da presidente Dilma Rousseff tem sido uma meta prioritária do governo petista, a qual, ao lado da ampliação da hegemonia via expansão das alianças partidárias, facilita sobremaneira a governabilidade. Tal processo, porém, ao impelir o governo a evitar ao máximo situações de desgaste, levando-o eventualmente à inação, à omissão e a recuos estratégicos, acaba adiando, dificultando ou impossibilitando o enfrentamento de demandas urgentes porém polêmicas – como reforma agrária, os direitos civis relativos à homoafetividade e notadamente, a promoção da democratização da comunicação. Tal estratégia, além de exasperar parcelas do eleitorado, tem como efeito colateral, como veremos, a geração de um alto custo para o partido, para a esquerda e para o país.

A criação de uma blindagem em torno da presidência, de forma a mantê-la a salvo do efeito de eventuais crises – notadamente dos casos de corrupção, reais ou não, que a mídia, de forma praticamente ininterrupta na última década, transforma em sucessão de escândalos -, não é uma inovação trazida pela gestão Dilma. Algo similar já ocorrera nos oito anos em que Luiz Inácio Lula da Silva habitou o Palácio do Planalto. O que a atual administração fez foi ampliar o já dilatado arco das alianças partidárias – o que significa avançar mais alguns passos em direção ao conservadorismo e, por conseguinte, ver-se obrigada a uma postura ainda mais conciliatória e menos incisiva em relação a determinados temas potencialmente polêmicos. As questões morais que afetam o comportamento da chamada "bancada religiosa" são um típico exemplo de tal processo – e do quanto ele pode ser danoso à verdadeira democratização dos direitos humanos no Brasil.


A condenação de inocentes
Porém, tanto com Lula como com Dilma, o comportamento do governo em relação aos escândalos político-midiáticos pouco difere. Trata-se, basicamente, de agir com celeridade e, antes que o espetáculo da corrupção ganhe repercussão massiva, demitir o(s) acusado(s), haja ou não indícios de culpabilidade. Em decorrência desse modus operandi, auxiliares do primeiro, segundo e terceiro escalão caíram como pedras de dominó na última década, contribuindo para reforçar o mito midiático de que o governo petista seria mais corrupto do que seus antecessores.

Longe de se tratar de uma medida profilática positiva, como se alardeia, essa prontidão em cortar na própria carne ante a mínima acusação ou suspeita revela, por parte do governo, baixo nível de confiabilidade em seus quadros, pouco apreço pelo princípio da presumibilidade da inocência e, sobretudo, uma tibieza e um temor ante a mídia incompatíveis com um regime verdadeiramente democrático, em que direitos e deveres são inerentes à ação da mídia e do governo, e este não se submete àquela.

Tal distorção se torna ainda mais evidente quando se leva em conta que, a exemplo do que ocorreu com a ex-secretária da Receita Erenice Guerra, com Orlando Silva, ex-ministro dos Esportes, e com o ex-chefe da SECOM, Luiz Gushiken, muitos acusados, neste últimos 10 anos, embora tenham sido execrados pelos meios de comunicação e publicamente demitidos pelo governo, acabaram inocentados pela Justiça por falta de provas. E com um agravante: além de terem suas reputações arruinadas pela mídia de forma irreversível – pois o volume de textos acusatórios, em todos os casos, foi desproporcionalmente maior do que as ínfimas linhas as quais noticiaram sua absolvição, quando o fizeram -, tais cidadãos jamais foram reincorporados ao governo do qual, por razões infundadas, foram alijados.


O PT questionado
Tais flagrantes injustiças tendem a produzir ressentimentos acumulados. E, num cenário em que um dos sustentáculos do crescimento do ativismo político na internet tem sido blogs de grande audiência em que a crítica à mídia ocupa um lugar primordial, fica cada vez mais evidente a falta de diálogo entre uma cúpula partidária que parece empenhada justamente em não mover uma palha contra os meios corporativos de comunicação e uma militância que, mais do que se mostrar convencida da ação nefasta de tais setores, cultiva – no mais das vezes justificadamente - um profundo sentimento anti-mídia, do qual a frequência e a generalização de críticas ao que chamam de PIG (Partido da Imprensa Golpista) são exemplos cabais.

Esse embate surdo parece ter atingido um ponto de saturação com o recuo, patrocinado pela presidência petista, do deputado Odair Cunha (PT/MG) na CPI do Cachoeira, desistindo de apresentar um relatório que indiciava cinco jornalistas – entre eles Policarpo Júnior, editor-chefe da Veja – e de recomendar que a "corregedoria" do MP investigasse o Procurador-Geral, Roberto Gurgel, o que levou a uma reação contrária em massa nas redes sociais e nas caixas de comentário de blogs e publicações virtuais.

O episódio parece ter difundido a certeza de que o PT não só se recusa a dar à mídia um tratamento à altura, mas omitiu-se ante o dever cívico de investigar e indiciar elos entre o crime organizado e revistas semanais. A reação estupefata de muitos, inclusive de petistas históricos, parece indicar que a tolerância para com a inação do governo está em vias de se extinguir. A possibilidade de que o PT venha a legar ao futuro um país bem melhor em termos socioeconômicos, mas com uma arena comunicacional hipertrofiada, extremamente retrógrada e concentrada em pouquíssimas mãos, como sempre foi, avulta-se, hoje, infelizmente, como plausível.


Perguntas incômodas
Em um momento em que figuras como o ex-porta-voz do presidente Lula, Ricardo Kotscho, e Mino Carta, editor do único semanário político a não embarcar no antipetismo hidrófobo, vêm a público cobrar uma autocrítica do partido, talvez seja hora de questionar se efetivamente tem fundamento o medo do governo em enfrentar a mídia e, assim, criar conflitos que arranhem seus ótimos índices de aprovação, e quais seriam os danos efetivos se isso acontecesse.

Em primeiro lugar, analisemos o receio que o governo demonstra ter da reação midiática ante uma eventual resposta petista: o que mais poderia a mídia fazer, após publicar ficha policial falsa da candidata a presidente na capa de jornal; dar voz a um desequilibrado mental para que acusasse o presidente de estuprador de menor; patrocinar "blogueiros" cuja missão primordial é difamar, desqualificar e semear o ódio; insuflar ou criar escândalos de corrupção que sabia de antemão improcedentes; insultar diuturnamente um presidente e recusar-se a reconhecer sequer um dos seus muitos feitos (que boa parte do mundo reconhece); patrocinar ou endossar armações golpistas várias? A mídia corporativa fez, faz e continuará fazendo tudo a seu alcance para enfraquecer e derrubar o governo petista, à revelia deste reagir ou não. Quem teria a perder é ela, se o governo fechasse as torneiras que, via publicidade oficial, abastecem seus cofres.

Por outro lado, será que a manutenção dos índices de popularidade está tão atrelada a ausência de polêmicas desgastantes e é assim tão primordial quanto o governo pensa, ou, como algumas pesquisas qualitativas demonstraram ao longo deste ano, são a manutenção de um quadro econômico com baixo desemprego e poder de consumo bem acima da média das décadas imediatamente anteriores os principais atrativos para um volume significativo de eleitores que nunca morreu de paixão pelo PT, mas que apoia Lula e, sobretudo, Dilma? Não deveria ser levado em conta o risco de que, num eventual agravamento do desempenho da economia que atingisse renda e emprego, essa parcela volúvel, pois descomprometida ideologicamente, do eleitorado viesse a debandar do apoio ao governo, e justamente quando o petismo já não pudesse contar com as parcelas de seu eleitorado fiel, agastadas com sua passividade covarde ante a mídia (ou em relação a temas como a reforma agrária, os direitos civis dos gays, a insensibilidade para com as populações indígenas, etc.)?

Não se pode, é verdade, atribuir exclusivamente ao PT a responsabilidade pela leniência da esquerda no trato com a mídia corporativa. Em tal seara, o maior partido de oposição à aliança petista, o PSOL, tem repetidas vezes assumido uma posição não apenas omissa em relação a práticas midiáticas inaceitáveis, mas, de quando em quando, se valido de um oportunismo em que, de mãos dados com a pior direita, endossa verdadeiras armações jornalísticas patrocinadas por um semanário que traficou a credibilidade de outrora por um panfletarismo hidrófobo que em nada se assemelha a jornalismo.


Medidas democratizantes
É importante sublinhar que o que se propõe em relação a tal campo não representa nenhum ato de força, nenhuma ruptura institucional e nem mesmo uma luta aberta do governo contra a mídia. Não se apregoa que o governo deixe de renovar a concessão pública de sinal televisivo à Rede Globo – embora este seja um seu direito constitucional - ou que mande a PF invadir a redação da Veja. Longe disso. A maioria das sugestões de ação governamental concentra-se em três políticas republicanas, concatenadas entre si e historicamente reconhecidas como necessárias ao aprimoramento da democracia brasileira. A saber:

1) Instituir, após debate com a sociedade e em sintonia com o Legislativo e o Judiciário, um marco regulatório para a mídia, o qual estabeleça claramente direitos e deveres e, no caso de transgressões destes, punições, de modo a coibir o assassinato de reputações, a calúnia, as armações jornalísticas, hoje recorrentes e impunes. É urgente reinstituir o direito de resposta, que assegure a rapidez demandada pela era do jornalismo virtual e dê à retratação espaço e destaques equivalentes aos da difamação.

2) Rever o critério de concessão de verbas publicitárias federais a órgãos de comunicação, deixando de se guiar pela chamada "mídia técnica", que as distribui de acordo com os níveis de audiência/vendagem. O atual governo não só tem mantido essa prática literalmente conservadora e continuado a encher as burras da Globo e da Abril, mas, como afirma, em um texto didático, Renato Rovai, editor da Forum, acena com cortes das verbas anteriormente destinadas a órgãos alternativos.

3) Promover a democratização da comunicação, com o governo valendo-se de seu poder econômico e regulatório para assegurar diversidade e competitividade no campo midiático, com a criação de novos canais radiofônicos e televisivos abertos que multipliquem as ofertas de produtos audiovisuais, de abordagens jornalísticas e de tendências analíticas, além da promoção de uma efetiva democratização do acesso a internet de banda larga.


Resquícios neoliberais
Convenhamos, não é pedir demais. Ainda mais de uma aliança governamental capitaneada por um partido que se soergueu e, em suas primeiras décadas de vida, ganhou projeção nacional empunhando bandeiras bem semelhantes a estas. O problema é que o mesmo governo que, em nome do economicismo que a tudo se sobrepõe, aceitou, após muita relutância, contrariar dogmas econômicos neoliberais como a independência do Banco Central, os juros altos e, ultimamente - aleluia! -, até o superávit primário, tem se recusado, fora do âmbito da economia, a promover um aggionarmento das ideologias orientadoras das políticas culturais e comunicacionais para fora do âmbito do neoliberalismo.

Destarte, tanto a política de produção cultural do país continua atrelada a um modelo de financiamento via renúncia de recursos fiscais a qual, na prática, coloca nas mãos dos diretores de marketing de empresas privadas o direito de determinar o que será e o que não será produzido – e, assim, ditar os rumos de nossa cultura -, quanto a manutenção de verbas em meia dúzia de corporações midiáticas continua sendo sustentada pela passividade de um governo que se resigna a obedecer aos critérios ditados pelo conceito de "mídia técnica", corroborando, na prática, a premissa preconceituosa e intrinsecamente neoliberal de que o Estado deve se limitar à função reguladora em tais áreas – e que assumir uma posição pró-ativa e tomar para si a função de determinar os rumos culturais e comunicacionais do país seria incorrer em "stalinismo cultural". Com uma centro-esquerda dessas, quem precisa de direita?


Danos ao país
Os maiores danos causados pela estratégia de preservação da popularidade presidencial a qualquer custo se fazem sentir é no âmbito do país. Se a década de administração federal petista lega ao Brasil um grande avanço em termos de combate à pobreza, inclusão social e reconfiguração socioeconômica dos estratos populacionais - além de um cenário futuro favorável à Educação, destinatária dos lucros futuros do Pré-Sal -, mostra-se problemática sua contribuição no âmbito do aperfeiçoamento institucional da democracia brasileira. Em relação a este, não apenas não se empenha em uma reforma política que enfrentasse de frente as vicissitudes do sistema – preferindo, ao contrário, aderir ao toma-lá-dá-cá do jogo partidário e, volta e meia, vendo-se envolvido em denúncias de corrupção e de ilegalidades -, mas, como já visto, se recusa a assumir a sua responsabilidade no processo de promoção da democratização da mídia - plutocratizada sob o comando de meia dúzia de famílias -, e, em decorrência, de criação de mecanismos que impeçam que ela siga difamando reputações, difundindo falsas acusações e fabricando escândalos por motivações político-partidárias que não coadunam nem com a ética pública nem com os princípios básicos do exercício do jornalismo.

Em um momento em que tanto países de democracia consolidada, como a Inglaterra, quanto alguns de nossos vizinhos sul-americanos, cuja democracia refloresceu após períodos ditatoriais, mostram-se cientes da necessidade de legislar sobre os limites éticos da mídia, a negligência de tal demanda no Brasil, em nome da manutenção da popularidade presidencial, representa um atraso institucional e uma ameaça permanente ao avanço da democracia no país.


(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Contradições do atual quadro político

O quadro político-ideológico brasileiro passa por um momento particularmente contraditório, em decorrência, sobretudo, de dois fenômenos correlatos:

      1. A crise dos partidos de direita apeados do poder federal, representada pelo esfalecimento do DEM e pelas consequências do prolongamento artificial do serrismo;

      1. A guinada conservadora do governo Dilma Rousseff, seja no campo econômico, em que as premissas neoliberais residuais, representadas pela obsessão pelo superavit primário, assomam à condição de políticas de Estado com as privatizações temporárias de longo prazo (“concessões”, na novilíngua petista); seja na seara administrativa, através da negligência para com áreas sociais fundamentais como Educação e Saúde e na truculência inaudita, incompatível com parâmetros democráticos, para lidar com greves no setor público.


Luta por hegemonia
O grande paradoxo que marca tal processo é que, no momento mesmo em que o enfraquecimento da direita proporcionou potencial de ampliação da hegemonia da chamada centro-esquerda, a administração Dilma, parcialmente liberta dos ódios pessoais e classistas que Lula despertava e visando assegurar o aumento da aprovação a seu governo, passou a incorporar pautas conservadoras - e, desde o início do mandato, a buscar uma aproximação com a mídia corporativa - como forma de promover sua identificação com as parcelas eleitorais órfãs do conservadorismo.

Tal dinâmica, por sua vez, gera agora um círculo vicioso, pelo qual a manutenção dos altos índices de aprovação da ex-militante de esquerda e candidata da aliança petista passa a se manter atrelada à sua modelagem como liderança neoconservadora. Nesse quadro, ideologia e coerência programática cedem de vez lugar ao pragmatismo eleitoral.


Guerra nada santa
Esse desenho começara a delinear-se já na campanha eleitoral, quando a batalha religiosa estimulada por Serra levou a então candidata a firmar um pacto com lideranças pentecostais e setores católicos conservadores, comprometendo-se a, se eleita, não utilizar o Estado de forma pró-ativa no que concerne a aborto e à expansão dos direitos dos homossexuais. Não obstante haver, entre os cientistas políticos, quem assegure que, ao neutralizar a fuga em massa do voto religioso, tal acordo teria sido imprescindível para a vitória nas urnas, seus efeitos estão no cerne do atual desprestígio de Dilma entre parcelas culturalmente qualificadas do eleitorado que valorizam questões ligadas à chamada biopolítica.

Ainda assim, a vitória de Dilma nas eleições, após uma batalha do tipo bem contra o mau contra Serra, trouxe alento aos setores politicamente progressistas do país. Afinal, ela encarnava a continuidade do governo Lula, cuja superioridade inconteste ante o do antecessor FHC evidenciava-se pela transformação vivenciada pelo Brasil, no relativamente curto prazo de oito anos, de um país periférico e subalterno aos EUA, com índices pornográficos de miséria, alto desemprego e uma economia em frangalhos a uma potência emergente no cenário internacional, promotor de uma acelerada redução da miséria e da pobreza, baixo desemprego e um desempenho econômico na contramão da crise mundial.


Heranças em debate
Como a própria presidente, num raro repente, fez questão de deixar claro na dura mas justa resposta que deu anteontem a FHC, ela recebeu uma herança bendita do governo Lula. A questão que se coloca, porém, é o que Dilma Rousseff fará de tal legado, já que, mesmo sem receber a “herança maldita” que FHC legou ao seu antecessor e mentor, ela, ao invés de aprofundar as conquistas deste, trabalhar para a criação de alternativas ao neoliberalismo e trazer a níveis aceitáveis a Saúde, a Educação, a segurança pública e o respeito aos Direitos Humanos no país, parece empenhada em retroceder ao economicismo mais tacanho, à privatização, ao conservadorismo nas questões comportamentais e à repressão truculenta aos movimentos grevistas. 

Neste exato instante, tramam-se mudanças na CLT e, devido exclusivamente à recusa de Dilma em negociar, a greve dos professores federais se alastra por inacreditáveis 112 dias, mesmo com os docentes aceitando um aumento menor e cobrando apenas a adoção de um Plano de Carreira. A inflexibilidade da presidente agrada em cheio aos setores conservadores, mas o fato é que universidades paradas por um terço do ano, além dos transtornos a alunos, servidores e professores, custam uma fortuna aos cofres públicos – e sem dar nenhum retorno. Não pode ser considerada uma boa gestora uma presidente que, por picuinhas, permite tamanho descalabro.

Tudo somado, é danosa para o governo Dilma e para o país a ausência de uma oposição à direita digna do nome – já que a atual encontra-se duplamente massacrada, pela ausência de resposta programática ao sucesso dos governos petistas junto à população e pelo fracasso do serrismo, o qual, em conluio com parte da mídia corporativa, trocou a adoção de propostas por táticas baixas e ataques desqualificadores. Mesmo se se livrar de Serra, levará um bom tempo para a oposição conservadora se recompor.


Vácuo à esquerda
Por outro lado, a desarticulação da oposição à esquerda do governo mostra-se talvez ainda mais deletéria, pois não permite que o país disponha, na arena pública, de forças capazes de contrabalançar as inclinações conservadoras as quais o governo Dilma se vê, em nome da ampliação de sua hegemonia, atraído.

Sem esse contrapeso e de olho no voto das classes médias, a aliança petista caminha para um conservadorismo atávico, em que os programas de renda mínima e as ações afirmativas vias cotas – duas criações do capitalismo liberal – seguem, isolados, como meio de promoção de políticas inclusivas – efetivas enquanto vigentes, mas que não transformam estruturalmente a qualidade e a abrangência dos serviços sociais do Estado nem alteram a brutal assimetria entre rendimento advindo do capital (leia-se mercado financeiro) e rendimento advindo do trabalho, já que as remessas bilionárias de reservas ao exterior e os lucros dos bancos continuam intocados pelo modelo de capitalismo o qual o governo se recusa a contrariar.

Tais processos têm tornado evidente a um número cada vez maior de pessoas a guinada conservadora do governo Dilma, seu desprezo pelo social e pelo público e o caráter predatório do desenvolvimentismo a todo custo que promove, baseado no endividamento limítrofe das famílias de baixa e média renda. Dívida, na novilíngua petista, é crédito. Trata-se de um modelo que claramente privilegia o desenvolvimento econômico como condição precípua para um eventual desenvolvimento social, o que evidencia o quão frágeis são suas ligações com um programa político de centro-esquerda.


Bloco dos fanáticos
Tudo isso pouco importa para a vasta gama de apoiadores incondicionais do PT, que ou fingem não ver que o partido abandonou muitas de suas bandeiras e práticas – inclusive o saudoso hábito de escolher seus candidatos através de eleições internas – ou também mandaram às favas os escrúpulos e estão interessados apenas no prolongamento da hegemonia do partido no poder, em tantas instâncias quanto possível, à revelia de como ele o exerça, privatizando ou não, privilegiando o mercado financeiro ou humilhando o servidor público, não importa. Interessa ao bloco chapa-branca é se autocongratular histericamente pelo que se entenda por cada mínimo acerto da camarada presidenta, mesmo quando beneficia os ruralistas de extrema-direita. Stalin perde.

Para esse projeto de manutenção da hegemonia – conservador por definição – vale tudo: a crítica justa à mídia se transforma na generalização do termo “PIG” como um bode expiatório para todas as horas, mesmo que hoje sejam rotineiramente usados contra os críticos do petismo os burburinhos e as mesmas táticas desqualificadoras que caracterizam o esgoto jornalístico.


Contradições evidentes
O articulista Francisco Bosco, em coluna memorável sobre o significado da candidatura Freixo enquanto reflexo da insatisfação com o petismo, assinala que “O acontecimento político mais importante para a história recente do Brasil foi a eleição de Lula para presidente, em 2002 (…) Mas é preciso lembrar o que custou de resignação ao país esse projeto. Sob alguns aspectos, o lulo-petismo tem sido a continuação da modernização conservadora do Brasil. Já sabemos as virtudes e os limites desse projeto”.

Como se vê, as contradições do atual projeto político petista ficam cada vez mais evidentes e uma hora não será mais possível adorar a dois deuses antagônicos ao mesmo tempo. A guinada à direita ora comandada por Dilma cobrará o seu preço, o tratamento humilhante a professores - uma das classes mais aviltadas de trabalhadores no país -, também. Talvez não seja nestas eleições, nem na próxima, mas isso ocorrerá um dia. 

Faz-se urgente, neste momento e de agora em diante, o fortalecimento e a união das forças de esquerda como forma de combater o neoconservadorismo petista, que se presta a fazer voluntariamente o jogo da direita, interessado apenas no poder pelo poder.



(Ilustração de origem desconhecida. Se a informarem, será publicada)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Petistas com Freixo publicam Manifesto


Um grupo de militantes do PT do Rio de Janeiro, formado apenas para atuar nas atuais eleições municipais e que se autointitula “Movimento Petistas com Freixo”, divulgou hoje um manifesto através do qual, além de explicitar e justificar as razões do apoio ao candidato do PSOL, formula uma crítica aguda e, na minha opinião, quase sempre correta, ao comportamento recente do PT no governo e, sobretudo, nestas eleições, sem deixar de reconhecer-lhe as conquistas e méritos.

Mesmo os que eventualmente discordem da posição defendida pelos signatários do manifesto poderiam tirar proveito dessa análise que, malgrado curta, certamente se situa entre as melhores recentemente publicadas a enfocar, com ênfase na questão eleitoral, os impasses do PT e os rumos da esquerda no país.

Infelizmente, as reações iniciais de petistas e simpatizantes à nota evidenciam uma intolerância e uma recusa ao diálogo que é lamentável, mas de modo algum surpreendente.

Segue abaixo, na íntegra, o manifesto, originalmente publicado no blog do movimento e que descobri através do Twitter, por indicação de @Pagu_Vitoria.

Eis o manifesto:


POR UMA CIDADE PARA OS CIDADÃOS

Somos Petistas com Freixo, porque não concordamos em apoiar uma aliança em torno da reeleição do atual Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro, decisão tomada pelo nosso partido, de forma autoritária e pouco transparente, sem consulta às bases do partido e sem amplo processo de debate interno. Somos sim, favoráveis a alianças que sejam construídas em torno de programas políticos, de projetos e de princípios, e não sejam fruto de negociatas fisiológicas e oportunistas que descaracterizam a história do nosso PT, um partido comprometido com as lutas sociais do nosso povo. Sim, somos petistas de corpo e alma, de militância histórica e tradição, alguns filiados, e outros apenas militantes e simpatizantes, e ousamos dizer não ao excesso de pragmatismo, não às conversas com Gilmar Mendes e aos abraços a Paulo Maluf, não ao vale tudo do Mensalão e dos Aloprados, não às conversas e negociatas com os Cachoeiras da vida, não à submissão à gestão antidemocrática que ora acontece em nossa Cidade. Somos petistas que acreditam que a política pode ser feita de forma diferente, com ética e com generosidade, com firmeza de princípios e com respeito à diversidade. Com a política no posto de comando, para transformar e mudar para melhor. Somos petistas que reconhecem e apoiam os avanços históricos conquistados nos Governos Lula e Dilma, que ajudamos a construir: o combate e diminuição da miséria, a distribuição de renda, a geração de empregos, as políticas sociais inclusivas; sem que isso nos faça perder nossa capacidade de criticar e de nos indignar frente aos mal-feitos.

Somos Petistas com Freixo, porque não concordamos com a privatização da saúde do Rio através das OS, gestão avaliada pelo Ministério da Saúde como a pior de todas as capitais. Não concordamos com a precarização da educação baseada em profissionais mal remunerados e onde malabarismos estatísticos procuram mostrar como positivos os resultados de uma gestão autoritária, que vai na contramão dos princípios freirianos de uma educação como prática da liberdade. Não concordamos com uma lógica de megaeventos, cujos grandes investimentos prevalecem sobre as reais e urgentes necessidades da maioria de nossa população, nem com a política de arrocho do funcionalismo público municipal. Não concordamos com uma cidade que continua partida e ferida, sem planejamento urbano e sem plano diretor amplamente discutido, na qual predomina a lógica da especulação imobiliária, o desrespeito ao meio ambiente, o trânsito caótico dominado pelos interesses da máfia dos ônibus, realidades essas que são maquiadas por gastos em publicidade e propaganda.

Somos Petistas com Freixo, porque queremos uma Cidade para os cidadãos, uma cidade de direitos, uma cidade de inclusão. Queremos uma Cidade em que as grandes decisões sejam tomadas com a participação de cidadãos e cidadãs bem informados. Queremos que haja transparência na gestão pública, com a implantação do Orçamento Participativo, marca histórica da administração municipal petista. Queremos que os Conselhos Municipais sejam de fato implementados e funcionem, e as Audiências Públicas para ouvir os cidadãos sobre os temas mais polêmicos não sejam meras formalidades. Queremos que o debate e o interesse público se imponham sobre os interesses privados e corporativos. Queremos uma Cidade mais justa, mais fraterna, uma Cidade construída com os cidadãos e para os cidadãos, uma Cidade de Direitos.

Somos Petistas com Freixo, porque acreditamos que Marcelo Freixo é o candidato da esperança e da mudança. Ele é o candidato de todos aqueles que querem mudar o Rio para melhor. Sua campanha toca profundamente os corações e mentes de homens e mulheres da nossa Cidade. É por essa razão que ele aglutina em torno de sua campanha lideranças políticas e sociais representativas, artistas e acadêmicos, juventude e profissionais liberais, militantes e ativistas dos mais diversos movimentos e segmentos sociais, além de dissidentes de vários partidos políticos que, como nós, vislumbram em Freixo as características pessoais que o credenciam para esta disputa: honestidade, coerência, firmeza e generosidade. Marcelo Freixo transcende os limites do PSOL, ele é o candidato da Cidade, dos Direitos Humanos, da Cidadania. A população do Rio vai provar que é possível vencer o poder do Capital e de uma coligação de 18 partidos, com ideias claras, garra, criatividade, esperança e vontade de mudar.

Somos Petistas com Freixo, e ousamos desafiar os atuais ‘donos’ do nosso partido em nossa Cidade, que nos ameaçam de expulsão como forma clara de intimidação. Não temos medo! Muitos de nós lutaram contra a ditadura e o autoritarismo, e ajudaram a resgatar a democracia em nosso país. Durante muitos anos, nos movimentos sociais e nas lutas do nosso povo, mas também na construção do nosso partido, e na gestão pública de Governos Municipais, Estaduais e Federal (de Lula e Dilma) demos nossa energia e nosso coração a um projeto no qual sempre acreditamos, e que alguns insistem em tentar destruir. Não nos intimidarão. O PT também é nosso! Ele é o patrimônio de mais de um milhão de filiados e muitos outros milhões de simpatizantes e eleitores. Um patrimônio da sociedade brasileira, que não pertence a este ou aquele dirigente, a esta ou aquela corrente interna. Aderimos à candidatura de Marcelo Freixo num ato de lucidez, sinceridade, esperança, desprendimento e ousadia. Estamos na luta, dentro e fora do PT, por amor à nossa bela cidade, por uma sociedade mais fraterna, mais inclusiva, mais democrática, mais justa!

UM RIO PARA OS CARIOCAS ! UM RIO PARA AS PESSOAS !
POR UMA CIDADE DE DIREITOS ! CIDADE, COLETIVO DE CIDADÃOS!

domingo, 24 de junho de 2012

O golpe asséptico e suas ameaças

O golpe de Estado contra o presidente eleito do Paraguai, para além dos graves danos que causa à evolução da incipiente democracia do país – que até 1989 esteve sob a ditadura de Stroessner e desde então só elegera mandatários do partido de centro-direita Colorado, com exceção de Lugo -, abre um precedente perigoso e potencialmente ameaçador à normalidade democrática na América do Sul.

Tal constatação é corroborada por três fatores principais: o primeiro é a natureza cosmética da deposição de Lugo, um golpe de Estado travestido de impeachment, não obstante tratar-se de mera pantomima jurídica, com o raio de ação e o tempo disponível à defesa do acusado drasticamente limitados e armado com acusações baseadas em platitudes sem definição legal ou critérios objetivos de averiguação, tais como “mau exercício do governo”.


Guess who's coming to dinner?
A velocidade recorde com que os Estados Unidos, confirmando sua autoatribuída vocação de país defensor da democracia, reconheceram o novo governo de um golpista que atende pela sugestiva alcunha de Franco é um segundo elemento a caracterizar a quartelada civil paraguaia como ameaçadora à soberania sul-americana. O reativamento da Quarta Frota, as evocações cada vez mais frequentes à Doutrina Monroe e a tentativa recente - e malsucedida – de fincar uma base militar no Equador são representativas da atenção e das intenções do país mais bélico do mundo para com a região (leia texto de Azenha sobre interesses dos EUA no golpe).

Tanto mais pelo crescimento que ora se verifica, no subcontinente, no número de regimes, democraticamente eleitos, alinhados à centro-esquerda ou à esquerda bolivariana, ambos patrocinadores, em maior ou menor grau, de projetos políticos que implicam tanto na recusa à ALCA quanto ao fim do alinhamento automático e preferencial com os EUA. 

A tal configuração, que forma o último item de nossa lista tríplice, a quartelada que depôs Lugo (foto) se contrapõe como sugestão às forças conservadoras sul-americanas ora na oposição – e a seus parceiros transnacionais – de uma promissora novidade: a armação de cenários golpistas aparentemente assépticos, sem tanques na rua, a partir do conluio entre oligarquia, parlamentares e mídia.


Reações
Ante tal quadro, duas medidas se impõem como mais do que urgentes, necessárias: a reação ao golpe paraguaio, como forma de revertê-lo, restituindo a ordem constitucional; e a tomada das devidas precauções para impedir que conspirações similares tenham lugar nos demais países da América Latina.

Quanto à reação, é forçoso constatar que a janela de reversão imediata do golpe estreita-se à medida que o tempo passa, sobretudo se se leva em conta a rapidez com que ditas potências imperialistas do hemisfério norte vêm reconhecendo o novo regime. Mesmo com a reação enfática de Argentina, Venezuela e Equador – e com nota oficial firme e ponderada do governo brasileiro – a possibilidade de ver Lugo reempossado já nos próximos dias depende agora de uma combinação extraordinária de sucessos.

De qualquer forma, hoje ou em um futuro próximo, a reversão do quadro dependerá de uma ação coordenada entre os países com governos progressistas na região e as forças legalistas paraguaias visando, a um tempo, esvaziar a autoridade dos golpistas e construir meios de recondução e bases institucionais de sustentação a Lugo. Além do enfrentamento com os próprios golpistas e com a elite paraguaia, tal operação implica numa batalha surda com os EUA e em deparar-se com delicadas e potencialmente explosivas questões - inclusive algumas diretamente relativas ao Brasil, como no caso dos brasiguaios e dos “sacoleiros” - derivadas da permeabilidade das fronteiras paraguaias e do protagonismo da questão agrária no país, tema este analisado por Chico Bicudo.


Medidas preventivas 
Já em relação a medidas preventivas contra esse tipo de golpe low profile, afiguram-se urgentes ações em três frentes: no âmbito sul-americano, numa interação coordenada entre os governos progressistas da região no sentido de, com ações de inteligência, antecipá-las e as neutralizar e de, se mesmo assim efetivadas, agir pronta e conjuntamente para esvaziá-las e as reverter.

Já em termos nacionais, a mais efetiva medida contra anomalias golpistas é o reforço das instituições democráticas, notadamente assegurar-se de dar à Justiça, ao Legislativo e ao Executivo não apenas as melhores condições para o exercício de suas funções – e isso inclui a adoção dos métodos mais democráticos para eleição ou seleção dos cidadãos e cidadãs melhor capacitados a desempenhar tais funções -, mas a preservação do equilíbrio de relações o mais harmoniosas entre os três poderes.

Ademais -e ainda no âmbito das medidas institucionais anti-golpismo - a implementação do que Norberto Bobbio denominou Direitos Humanos de quarta geração acaba por implicar, além de numa vacina anti-golpismo (não fosse este, por definição, um ato múltiplo de violação de DHs), na necessidade de efetivação do esforço de superação positiva dos meios de participação popular na democracia representativa convencional, com o recurso a uma interação maior, mais frequente e mais efetiva dos cidadãos com os poderes constituídos, para além do momento de eleição.

Por fim, a terceira frente de ação preventiva diz respeito à mídia – talvez o mais urgente e danoso dos elementos potencialmente golpistas do cenário brasileiro, hoje.


O fator mídia
O comportamento da mídia brasileira quanto ao golpe em Assunção, em sua quase totalidade, veio a corroborar sua posição de defensora dos interesses das forças conservadoras, obedientes às regras democráticas ou não. As falas de personagens como Arnaldo Jabor ou Merval Pereira no sentido de, mais do que legitimar, enaltecer o golpe acabam, por sua falta de coerência e excesso de parcialidade, a deixar ainda mais evidente que eles – como tantos de seus colegas com assento na mídia corporativa - não passam de ventríloquos travestidos de jornalistas, a vocalizar um texto ditado pelo mercado e pela corporação que lhes paga o salário. E, assim, o apreço que tais corporações nutrem pela democracia se torna evidente.

Por outro lado, como demonstrado com o brilho costumeiro e de forma cabal por Dênis de Moraes no último encontro nacional de blogueiros, o Brasil encontra-se em um estágio consideravelmente mais atrasado do que vizinhos como Venezuela, Equador e Argentina no que concerne à regulamentação e à decorrente diversificação político-ideológica da mídia [em breve farei um post específico sobre sua apresentação no evento.] É preciso muita indulgência para não reconhecer que os governos Lula, com sua resistência passiva, e Dilma, com seus esforços de cooptação, se esforçaram pouco e avançaram menos ainda na democratização e na defesa da regulamentação da mídia.

Portanto, a questão midiática certamente se mostraria problemática na eventualidade agourenta de um dia sofrermos uma tentativa de golpe aos moldes em questão – dados o grau de penetrabilidade capilar interna de parte mídia brasileira e sua conformação como corporação transnacional, com um peso e um potencial danoso exponencialmente maiores do que ora se verifica no golpe no Paraguai. Desnecessário assinalar que este forma mais uma entre tantas razões a evidenciar a urgência e a centralidade da questão midiática no Brasil, e o quanto esta demanda uma imediata e condizente atenção.



Diferença de escala
Embora seja prudente tomar todas as medidas preventivas contra a disseminação de tal espécie de golpe, é preciso ter claro, no que nos tange diretamente enquanto nação, que o Brasil não é o Paraguai.

Pois uma análise sem preconceitos mas também sem ilusões mostra-nos, de forma clara, que, comparativamente, a situação institucional é bem mais frágil no país vizinho, devido a fatores diversos - em algum grau passíveis de serem atribuídas a uma herança histórica para a qual o próprio Brasil contribuiu, quase exterminando, com sangue escravo e a soldo da Inglaterra, a população masculina adulta paraguaia, num genocídio que muito deveria nos envergonhar (e que, por isso mesmo, alguns revisionistas tentam a todo custo desmentir). 

De qualquer maneira, o fato é que a fragilidade comparativa do país vizinho é hoje gritante no tamanho da economia e na decorrente volubilidade econômica; na cultura política construída num contexto de redemocratização tardia e precária, virtualmente monopolizada pela centro-direita e marcada por episódios golpistas mais ou menos recentes - além, sobretudo, da pobreza e da miséria brutais as quais está submetida, sem colchões assistenciais efetivos, a grande maioria da população paraguaia. 


 Tais constatações, não obstante lamentáveis, se contrapostas às mostras de resilência da democracia brasileira nas últimas décadas permitem, mesmo reconhecendo que esta está longe de poder ser considerada avançada, identificar diferenças de escala entre um e outro modelo político-institucional e de estágio entre graus de evolução democrática..


No pasarán
Esta é uma razão a mais para que, embora, como já dito, devamos estar atentos para evitar ao máximo a possibilidade de que algo similar ao golpe paraguaio tenha lugar aqui, o novo modelo de insurgência das elites não possa servir para a defesa de uma postura ainda mais cordata e indulgente da esquerda em relação às forças conservadoras nacionais, impulsionada por tais temores golpistas.

Seria, na democracia, o pior dos cenários: na já excessivamente contemporizadora e, no sentido buarqueano do termo, cordial política brasileira, a inoculação do medo – e, pior, do medo golpista – como forma de impor alianças mais dilatadas entre progressistas e conservadores. Tal feito significaria não apenas a sujeição ainda maior a demandas regressivas, mas, assim, a promoção espontânea de um processo de indistinção entre esquerda e direita que só tende a beneficiar esta, enquanto descaracteriza aquela. (Não é mera coincidência que o golpe no Paraguai venha sendo utilizado nas redes sócias para justificar aliança do PT de São Paulo com Paulo Maluf, o que é o cúmulo do oportunismo – e não só porque o político em questão é, ele mesmo, produto de uma ditadura militar.)


(Imagens retiradas, respectivamente: daqui, dali, de lá e dacolá)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Lobos e cordeiros

Retorno de um período de viagens – mezzo trabalho, mezzo férias - durante o qual fiz questão de permanecer afastado da internet e das notícias. Na volta para casa, o taxista me atualiza quanto às “novidades”: chuvas torrenciais em São Paulo, nove mortes até então. Lembrei da música de Gil “as notícias que leio, conheço/já sabia antes mesmo de ler”.

Durante toda a conversa, cansado após quase 12 horas de viagem, banquei um personagem que, segundo a mãe de uma antiga namorada, desempenho à perfeição: o sonso. Limitei-me a perguntar e a dar corda, mesmo porque o nível da maioria das observações expressava um preconceito tamanho, típico de uma certa mentalidade conservadora-populista, que exigiria uma disposição argumentativa da qual, ávido por chegar em casa, no momento não dispunha.

O problema das enchentes, segundo ele, são os pobres, que moram em qualquer lugar e jogam lixo na rua. Tentei mencionar a omissão das autoridades, mas não deu ouvidos. Veio à minha mente a famosa frase de George Burns: "Pena que as pessoas que sabem o que fazer com o país estão ou cortando cabelos ou dirigindo táxis". Para o motorista-dirigente em questão a solução seria dar “uns R$200 reais’ para cada um e mandá-los de volta “pra Bahia”. Bem-vindo a São Paulo.

A conversa me fez lembrar de Marilena Chauí, mais especificamente do livro Conformismo e Resistência - que li, maravilhado, quase que numa enfiada, em dois dias, assim que entrei na faculdade (sim, faz muito tempo...). Nele, a filósofa dá espaço à sociológa e, em meio a muitas sacadas interessantes, demonstra o quanto a classe média baixa (que inclui parcelas dos pobres e “remediados” em geral), ao invés de abraçar um ideário consoante a sua condição social e que abarque as privações e opressões que sofre, tende muitas vezes a se identificar com – e adotar - a ideologia das classes dominantes (das quais aspira um dia tomar parte) como forma de se afirmar.

Pensei no quanto tal premissa se aplica ao motorista que me trouxe para meu lar, doce lar – onde, com o esqueleto recostado no sofá, tive a má ideia de ver TV, agravada pela péssima escolha de um programa da Globo News, chamado Fatos e Versões (que pode ser visto na íntegra aqui). O tema principal era a "baixaria" que teria tomado conta da política nacional durante a semana.

Tratava-se justamente da primeira matéria, e começa com imagens de Lula sentado ao lado de Dilma Rousseff, sobre as quais o narrador faz uma afirmação categórica: “O presidente Lula foi o primeiro a colocar o bloco da campanha na rua”. Tal premissa é ilustrada por um trecho de discurso do presidente dizendo:

- “É importante que a gente inaugure o máximo de obra possível”.
Em seguida, com imagens de Dilma discursando, vem o narrador de novo: “A ministra não perdeu tempo”. Dilma sai do off:

- “Mas foi o próprio presidente do partido de oposição quem afirmou que acabaria com o PAC”.
Fiquei pensando: será que esses caras – que alegam manter um tal de “padrão Globo de qualidade” - pensam que somos todos tontos? Não há, a rigor, nada errado no discurso de um presidente – qualquer presidente – que, no último ano de mandado, afirme ser importante fazer o máximo possível de obras. Já quando esse presidente pertence a um governo cujo carro-chefe é um programa de crescimento baseado em um cronograma de obras que prioriza o ano em questão, aí as afirmações do jornalismo global se mostram não apenas levianas, mas equivocadas. Se por má-fé ou por incompetência, deixo a(o) leitor(a) decidir.

Já a insinuação de que Dilma “não perdeu tempo” [em fazer campanha], ilustrada por um trecho de discurso no qual ela simplesmente constata um fato facilmente comprovável – tirado das declarações que Sérgio Guerra, o elefante na loja de cristais que preside o PSDB, fez à Veja - beira a comicidade. Será que o pessoal do jornalismo da Globo acha mesmo que consegue enganar o público com uma manipulação tão tosca?

Porém, talvez pior do que as afirmações tendenciosas que o programa leva a cabo sejam as omissões gritantes da pauta do programa que tornam a manipulação ainda mais evidente. Afinal, e as campanhas da Sabesp, veiculadas pelo governo de Serra desde meados do ano passado em vários estados da Federação? Não “botaram o bloco da campanha na rua?” E a participação do governador paulista, que não é ecologista nem chefe de Estado, no encontro em Copenhagen, posando ao lado de Schwarzenegger, se não é campanha é o quê? Medida a favor do povo paulista?

Não que a matéria não mencione o PSDB – ela o faz em seguida: com a culpa pelas "baixarias" postas na conta de Lula, o programa se permite um momento de bom jornalismo ao reconstituir a escalada dos ataques entre os tucanos e os petistas. Desnecessário, porém, dizer que tal reconstituição está prejudicada na origem.

A seguir, em mais uma tentativa tão obviamente manipulada que chega a ser engraçada, o programa, recorrendo a animações "engraçadinhas", elenca as viagens que Lula fará no Brasil e ao exterior este ano para classificar as primeiras como campanha eleitoral e as segundas como forma de afirmar sua liderança internacional. O subtexto é latente: “governar que é bom, nada”.

Durante o resto da parte nacional do Fatos e Versões (título autoexplicativo este...), enquanto os dois jornalistas convidados brincam de agradar a emissora que os convida – incluindo uma comparação totalmente descontextualizada entre Bachelet e Lula, durante a qual senti vergonha alheia -, a apresentadora Cristiana Lôbo dispara ataques diretos a Lula: “O presidente tá exagerando na campanha para Dilma”; “incita a militãncia” devido às palavras que usa, “está muito preocupado com as placas [das obras inauguradas]”, tem palanque a favor porque distribui convites (como se, com mais de 80% de aprovação popular, dependesse disso...). Tudo dito com aquele jeitão de mãezona, de tia doceira, calma como o vento goiano a soprar nas palmeiras. Qualidades que, a despeito de não contar com o voto da mãe da minha ex, tornam Lôbo uma séria candidata ao título de Sonsa da Década.

Desliguei desgostoso, lamentando que seja esse o jornalismo que temos. E que dá mostras de se encontrar, agora, ainda mais virulento e menos ético, não apenas pela redução do repasse das verbas publicitárias federais e pelo desespero advindo da perspectiva de derrota de seu candidato, mas porque a regularização efetiva das concessões públicas está cada vez mais no horizonte. Trata-se, na verdade, de uma necessidade que as distorções evidentes, o partidarismo descarado e a desinformação sistemática que o jornalismo brasileiro pratica tornam cada vez mais urgente.

Afinal, por mais ingenuamente idealista que isso soe, jornalismo não deve ser meio para manutenção de interesses políticos e corporativos, mas direito da sociedade como um todo. Um dia chegaremos lá.


(Imagem retirada daqui)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Sobre o neoudenismo

- “Não há nada pior do que o bom-mocismo!” – costuma brandir, com mordacidade e um sorriso maroto na cara de lua cheia, uma amiga de copos e papos, das mais brilhantes professoras que conheço.

Ela, como eu e tantos mais, considera a corrupção um mal dos mais abomináveis, daqueles que não devem nunca ser negligenciados – como às vezes o são por certos colunistas chapa-branca -; uma prática capilarizada em virtualmente todos os estratos sociais brasileiros e que tanto atraso causou e causa ao país.

Porém, para nós, como a frase que abre o post indica, ainda mas execrável do que a corrupção é o moralismo barato que, travestido com os modos e as intenções puritanas do bom-mocismo, a explora, a fomenta e dela se alimenta como os vermes que devoram as entranhas das crianças pançudas: o neoudenismo.

A razão de ser do neoudenismo é o escândalo, jamais a cura dos males que denuncia. A corrupção é sua moeda de troca, os dossiês produzidos na calada da noite a sua leitura; os grampos, os vazamentos e os arapongas os seus fetiches.

Assim, embora afete grande preocupação cívica, ele é, na verdade, anti-Brasil e antipovo: torce pelo pior, deseja o fracasso, anseia pela derrota, pois o sucesso e o progresso do país minam seu campo de ação, diminuem seu status público e ameaçam sua conta bancária.

São figuras que fingem se indignar com a corrupção que grassa no país que só conhecem através do vidro do carro blindado.

Rousseau concebe na espécie humana dois tipos de desigualdades: a primeira seria a natural ou física, estabelecida pela natureza, “que consiste na diferença das idades, da saúde, das forças do corpo e das qualidades do espírito, ou da alma”; a segunda, a desigualdade moral ou política, que se caracterizaria pelos diferentes privilégios de que gozam alguns em prejuízo de outros. É justamente para conservar o status quo desta – marcado por pronunciadas assimetrias - que os neoudenistas alimentam as “qualidades de seu espírito” com os sentimentos da ganância, da cobiça, da empáfia e do preconceito, devidamente dissimulados sob o manto da indignação moral.

O “eterno presente” em que, segundo Eric Hobsbawn, vivemos, ajuda a disseminar a crença segundo a qual o neoudenista seria uma cria bastarda do fla-flu político que ora ocorre no país. Ledo engano. Dá-se exatamente o contrário: a impressão de maniqueísmo binário que se depreende da política brasileira é que é, em grande parte, produzida, propositadamente, pela ação do neoudenismo.

Pois em sua corrente sanguínea fluem os vírus antidemocráticos do golpismo: já em sua gênese – o udenismo de Carlos Lacerda – a razão de sua luta era impedir um presidente democraticamente eleito de governar. Qualquer semelhança com as atuais ações de políticos ruins de voto em seus estados de origem - mas sempre com o microfone e as câmeras do Jornal Nacional à disposição - não é mera coincidência.

Os neoudenistas são um pagode de ex-comunistas (como Lacerda), ex-guerrilheiros (como um certo verde que virou queridinho da Veja), ex-cineastas (como aquele que virou comentarista tucano), ex-sabe-se-lá-o-quê. Tentam justificar sua condição de ex como um avanço, o abandono de uma posição equivocada – e, segundo eles, anacrônica – em prol de uma visão desprovida de dogmas políticos, avançada em sua tecnicidade e impecável em sua moral resoluta.

Mas não se trata de nada disso: a única coisa a que o neoudenista renuncia, quando abre mão de tal passado, é justamente à ética, e a favor de uma teleologia cujo fim único é sua autopromoção como jornalista ou político – posições em que, açulados por um oligopólio midiático sem condições para questionar sequer a ética de uma ameba, assomam ao palanque das TVs, revistas e jornais para o seu show de escândalo fácil.

Ele é basicamente um charlatão, mas ao invés de tônicos para crescer cabelos ou para fazer sumir verrugas o que ele negocia, paradoxalmente, é a certeza – verdadeira ou não - de que tudo está sendo corroído, dilapidado, fraudado. Seu público são os ingênuos, as pessoas de bom coração, aqueles brasileiros bem-intencionados e ainda capazes de se indignar e lutar por mudanças, dispostos a berrar palavras de ordem – Fora, Sarney! – sem saber que o que o neoudenista que os inflama quer é tirar um sarney inimigo para botar outro sarney amigo em seu lugar, mas jamais, nunca, em hipótese alguma, alterar as estruturas de onde vicejam sarneys – pois isso significaria o próprio fim dele, neoudenista.

O neoudenismo é como o cinema clássico visto por Laura Mulvey, em sua exploração sadístico/voyerística do corpo feminino: importa-lhe o espetáculo, não a essência; é como o circo para o palhaço: importa-lhe o picadeiro onde faz estripulias, não os bastidores onde bebe até cair; é como um cafetão que tem a moral como a prostituta a explorar visando o próprio lucro.

O neoudenista é, enfim, como o abutre, que o Houaiss define, em uma das acepções, como o “indivíduo que deseja a morte de outrem para apossar-se do que lhe pertence”. A cobiça é o seu motor, a maledicência sua profissão, o denuncismo o seu ganha-pão.

São o contrário do Brasil solar, da esperança, das 30 milhões de pessoas que saíram da pobreza nos últimos anos e constituem uma classe média em ascensão; do gole na cerveja gelada em uma tarde de domingo, das pernas quentes, do beijo molhado, de tudo o que seja sumo, umidade, calor, prazer; são o oposto dos brasileiros que aplaudem o pôr-de-sol nas praias, de jaboticaba colhida no pé, de um movimento de Daiane dos Santos, de uma crônica de Aldir Blanc ou de um chorinho de Pixinguinha.

Pois seu universo é o das vaias e do negativismo; do ressentimento e da crítica destrutiva; da vergonha de ser brasileiro e de falar português; da ojeriza a negros e a cotas; de tudo o que seja popular, massivo, alegre, bronzeado, festivo.

São uma espécime que se alimenta da escuridão e do medo, caranguejo radiativo que “vive no putrefato, lodoso mangue que o anula e o anima; na lacustre, mórbida espera”, como escreveu o poeta.

São os profetas do atraso e os arautos do caos.

São o que há de mais falso e repugnante no país.

Pois o neoudenismo é a hipocrisia em forma de indignação.

sábado, 26 de setembro de 2009

Com vocês, Mestre Caleiro!


Como não está com nada esse negócio de cinema e de jornalismo – que nem profissão é mais! – e dada a urgência em satisfazer minhas humildes necessidades materiais (dar a volta ao mundo de jato particular – acompanhado, of course -, só ficando em hotéis 6 estrelas e comendo em restaurantes de cla$$$$e internacional) decidi diversificar:

Apresento-lhes: Mestre Caleiro!!! – Prediz o futuro e traz a alma penada, digo, a pessoa amada, em 3 dias!!!

Para incentivar a clientela, a primeira consulta, versando sobre as próximas eleições presidenciais, não será cobrada – mas não vão se acostumando, não, que não existe almoço “de grátis” (ou pelo menos não existia até que esse bando de manés como eu decidiu dedicar-se à escravidão voluntária de escrever de graça em blogs).

Atenção para as palavras iluminadas de Mestre Caleiro, aquele que tudo vê:

- De agora até junho do ano que vem, a imprensa inventará 193 factóides visando difamar Dilma Rousseff. Eles surtirão pouco efeito junto ao eleitorado, com exceção das Velhinhas de Taubaté de sempre.

- Entre junho e julho de 2010, um dos candidatos nanicos irá subir como foguete nas pesquisas eleitorais. Não digo qual para preservar o suspense (re, re, re), mas será ou a Marina verde do ecológico partido do Zequinha Sarney; ou a Heloísa de branco do Partido de Suporte à Oligarquia (PSOL) - também conhecido como “criançada do Congresso”, na imortal definição de @flavio_as -, ou o Ciro que sempre morre pela boca e acaba revelando o coronelzinho enrustido.

- Em decorrência dos fatos acima previstos, os demo-gaviões (e, claro, a imprensa) vão soltar fogos. Predigo: será fogo de palha, e em agosto o(a) candidato voltará ao patamar de sempre.

- Em setembro, a menos de um mês da eleição, Serra terá 42,1% e Dilma 34,1%.

- A uma semana das eleições, acontecerão fatos bizarros em sequência: euros em cuecas, montanhas de dinheiro para comprar dossiê contra candidato já derrotado - enfim, o trivial. A imprensa cunhará um daqueles apelidos que “pegam” para designar os auxiliares de Dilma (naturalmente, os culpados): os “abilolados” do PT; Dilma cairá um pouco.

- Na sexta-feira anterior ao pleito, a Globo mostrará com exclusividade o cruel sequestro de um bebê, filho de um político do PSDB próximo a Serra: os sequestradores – entre eles uma mulher clone de Dilma – vestirão camisetas do PT e ameaçarão, ante as câmeras, mutilar a criança se o resgate não for pago. Ninguém (nem mesmo a cúpula do PT, que nessas horas se borra toda) vai perguntar como a Globo conseguiu as imagens, mas Dilma despencará. Euforia nas hostes paulistas!

- O resultado final das eleições no primeiro turno será: Serra, 48,3%, Dilma, 25,6%. Por muito pouco, haverá segundo turno.

- FHC será internado com um quadro agudo de invejite (de Serra).

- Durante as primeiras semanas da campanha eleitoral no segundo turno, os jornais, exultantes como há muito não se via, trarão análises políticas isentas em que as palavras “barbada”, “sopa no mel’ e “Serra já ganhou” serão repetidas à exaustão.

- Mas as primeiras pesquisas revelarão que, a exemplo do que ocorreu com Alckmin e Lula - e à medida em que o sequestro do bebê se revela uma armação -, Serra perderá a vantagem e Dilma subirá. Não será, no entanto, essa a tendência divulgada. Mas Mestre Caleiro, aquele que tudo vê, revela as parciais: Serra, 34,3% vs. Dilma, 47,8%.

- Num desespero de causa, os institutos de pesquisa e os jornais repetirão o que fizeram com Erundina em 1989 e ocultarão os números verdadeiros até os três últimos dias, quando Dilma terá, nas “pesquisas” divulgadas pela imprensa, uma ascensão meteórica.

- Como último lance dos demo-gaviões, rumores de militares dispostos a dar golpe de Estado em SP e no RS caso a ex-militante da esquerda vença serão divulgados com alarde, insinuando um clima de instabilidade institucional às vésperas da eleição.

- No dia 31/10/2010, Dilma vencerá as eleições presidenciais, derrotando Serra por 46,9% a 31,6%.

- FHC será internado no dia seguinte com um quadro agudo de invejite (de Dilma).

- Em 01º. de janeiro de 2011, Dilma Rousseff tomará posse como a primeira mulher eleita à Presidência da República Federativa do Brasil.


That’s all folks! E como diria o grande Raul Seixas, pra quem provar que eu tô mentindo, eu tiro o meu chapéu...

domingo, 26 de julho de 2009

Hipocrisia e Corrupção

Rodoviária do Rio de Janeiro – um dos terminais mais feios e anacrônicos do Brasil. O sujeito, cansado após um dia de trabalho sob o calor carioca, encosta a boca no guichê da empresa de ônibus e pede uma passagem para São Paulo. Paga e fica aguardando o troco:

- "O doutorrr qué viajá sozinho ou acompanhado?"

Com um sorriso amarelo e cara de pateta, o “dr.”, que não tem grana nem pra pegar uma ponte aérea, solta um muxoxo:

- "Sozinho..."

E se afasta do guichê, deixando os R$5 e pouco como pagamento pelo “conforto extra” da viagem solitária.


Rodovia Ayrton Senna – uma das melhores vias intermunicipais do país. O Corolla “voa” no tapete de piche. Subitamente, após uma curva mais fechada, o “guarda” manda encostar:

- "'Carteira' e documento do carro" – exige o sisudo homem da lei, os olhos frios por detrás do falso Ray-Ban – "O sr. sabe a velocidade em que estava?"

- "Tava abaixo do limite, 'seu' guarda, uns 110, 120, não pode ser mais que isso...eu tava controlando..."

- "183, meu amigo, tu tava a 183" – grunhe o “polícia”, devolvendo os documentos.

Segue-se um silêncio sepulcral. Nem o motorista insiste em alegar inocência, nem o guarda começa a lavrar a multa .

- "...e..não teria como a gente resolver isso? – arrisca timidamente o motorista, embora quisesse soar como malandro escolado".

- "O sr. está tentando me subornar?" – replica, seco, o agente da lei.

Segue-se um brevíssimo momento de tensão para o motorista (“será que além da multa ele vai me prender por corrupção ativa?!!”), logo desarmado pelo sorriso irônico com que o guarda encerra o seu ato teatral.

Negocia daqui, pechincha de lá, e o motorista arranca com seu carrão, não sem antes dizer, meio como desaforo ao guarda, meio como forma de se auto-consolar:

- "É... 'vamo' ajudar o governo a construir outra estrada como essa" – (como se o dinheiro que o guarda embolsou fosse para os cofres municipais...).

[Aviso para fins legais: esta é uma história de ficção saída de minha mente excessivamente imaginativa; qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais terá sido mera coincidência.]


Os exemplos acima são ilustrações das mais pueris de um problema crônico do pais: a corrupção. Escancarada ou implícita, em espécime ou em cargo e favores, ela, secular, vem sendo, há décadas, mais e mais capilarizada, corroendo o tecido social e ferindo de morte a meritocracia.

Quanto a esse último item, a área em que o preparo e o conhecimento são substituídos de forma sistemática e há décadas pelo compadrio e pelos laços de panelagem é justamente aquela em que os primeiros são de essencial importância para o exercício da profissão: os concursos para professores das universidades públicas. Trata-se de um dos maiores escândalos continuados da história do país, digno de várias CPIs - se CPIs dignas de alguma coisa fossem; material para manchetes sucessivas nos jornais e para o Willian Bonner franzir tanto suas sobrancelhas, antes de vocalizar sua indignação, que elas ficariam com torcicolo.

Mas a mídia não dá a mínima bola para o tema, assim como se recusa a discutir as razões estruturais da corrupção, preferindo manter o foco exclusivamente voltado aos políticos, fulanizando e atendo-se sempre ao acusado da vez – como se este fosse a exceção, e não uma das milionésimas partes da regra. Afinal, business is business e o negócio do jornalismo é vender jornais. Aquela história de “um jornal a serviço do Brasil” e patranhas semelhantes que invariavelmente invocam o ideal iluminista que o jornalismo clama para si não passam de uma jogada de marketing para valorizar o produto e incrementar as vendas. Serviço público? Não me faça rir...

Em decorrência dessa dinâmica, a corrupção revela um de seus efeitos secundários: o florescimento (sic) da indústria da denúncia seletiva, que fabrica pseudo-motivos para os berros dos datenas e dos bóris, os suspiros indignados dos waacks e dos sardenbergs e a pena nervosa das elianes, lúcias, doras e demais meninas dos jôs (aaargh). Além, é claro, de municiar os animadores de auditório do Congresso, como virgílios, álvaros e até um senador gaúcho que consegue a proeza de defender a renúncia de Sarney e apoiar a governadora Yeda Crusius ao mesmo tempo. Forma-se, então, um nefasto círculo vicioso, em que corrupção e hipocrisia se confundem e se retroalimentam mutuamente, para deleite da platéia – pois trata-se de panis et circenses, como adivinha o Mello.

E assim chegamos ao escândalo da vez: é preciso ser um analfabeto político para achar que as acusações contra Sarney têm motivação outra que a mais cruenta briga política. Como aponta Luis Nassif, “a atual campanha contra ele tem propósitos nada moralizantes. O que se quer é derrubar o senador e transformar o Senado em fator de instabilidade política para 2010”. Só mesmo o PT e seu polianismo politicamente amador para querer brincar de entregar o ouro ao bandido numa hora dessas. Nâo vou nem me estender no debate do absurdo que é um político que há 44 anos protagoniza a vida pública tornar-se da noite para o dia o corrupto-mor da nação – como se todos não conhecessem suas práticas de há muito -, pois já escrevi o que penso sobre o tema. Trata-se de algo tão absurdo quanto o fato de ele não ter sido investigado antes.

Portanto, só para concluir, mesmo achando a corrupção um mal terrível, um verdadeiro câncer, um entrave ao desenvolvimento do país e uma das razões principais para que o Brasil seja o Brasil e algumas nações desenvolvidas paupérrimas em recursos naturais sejam nações sócio-economicamente desenvolvidas em âmbito mundial, sou contra a renúncia de Sarney e denuncio como hipócrita e oportunista a súbita escalada de acusações contra ele patrocinada pelo conluio entre PSDB/DEM e a “grande mídia”.

Eu apoiaria uma ação global de combate à corrupção, nos âmbitos municipal, estadual e federal, de caráter não-populista, não-neoudenista, sem caça pública às bruxas, executada estritamente dentro das margens da lei e com eventuais vazamentos de informações prejudiciais à honra de outrem rigorosamente punidos. Por razões óbvias, não creio ser possível executar algo assim nem agora nem a médio prazo, mas trata-se de uma idéia para se meditar sobre e para ser paulatinamente inserida no debate público.