domingo, 26 de maio de 2013

O papel da militância

Dois artigos publicados recentemente procuram debater, a partir de ângulos diferenciados, uma contradição essencial da política brasileira na última década: a ascensão do conservadorismo e a persistência de uma pauta neoliberal durante um período em que, graças a vitória em três eleições presidenciais sucessivas, verifica-se a hegemonia de uma aliança dita progressista, capitaneada pelo PT. Ambos os textos analisam, em maior ou menor grau, a postura e o papel da militância nesse processo e fornecem subsídios para uma reflexão mais aprofundada do tema, objetivo deste post.

O aumento de um sentimento de frustração entre a esquerda e da impressão de que os governos petistas estariam cada vez mais conservadores tornou-se ainda mais evidente nas últimas semanas, como se pode facilmente observar nos fóruns públicos e nas redes sociais. Segundo essas fontes, tal conservadorismo se manifestaria na promoção de um novo ciclo de privatizações - desta feita com o agravante de utilizar o marco regulatório do governo FHC, ao invés do de Lula -, na recusa em regularizar a mídia, nos baixíssimos níveis de assentamento de terras contrapostos às regalias concedidas ao agronegócio, no desmonte da Funai e no genocídio indígena, na primazia dos pactos com o poder religioso em relação à pauta comportamental, entre outros itens. Em São Paulo, principal vitrine do petismo no âmbito municipal, a reação truculenta de Haddad à greve dos professores estaria ajudando a disseminar a impressão de que não só o conservadorismo se impõe, mas, pior, que o petismo, que deveria combatê-lo, o reforça.



Genealogia do pragmatismo
"… E quando finalmente a esquerda chegou ao governo havia perdido a batalha das ideias."
No primeiro dos dois textos acima citados, "As esquerdas e a pauta conservadora", Roberto Amaral departe desta citação do historiador Perry Anderson - referente à França atual mas apropriadíssima para o caso brasileiro - para questionar porque, segundo o colunista, mesmo após mais de uma década de governo petista, "e apesar do agravante constituído pela tragédia europeia, é a visão neoliberal, reiteradamente desmentida pela realidade, que domina o debate, o noticiário e até mesmo ações de governo".

O articulista perfaz uma meticulosa revisão histórica das causas do fenômeno, culpando os militares e a forma como foi feita a transição à democracia, os partidos de esquerda que "fogem do debate ideológico, ensarilham suas teses, saem de campo, tudo em nome da conciliação" e, marcadamente, a mídia oligarquizada e dominada pelo ideário neoliberal. Talvez por escrúpulos decorrentes do fato de ter sido ministro da Ciência e Tecnologia entre 2003 e 2004, deixa de examinar de forma apropriada o lulismo, item prioritário em um estudo sobre a supremacia do pragmatismo ante o ideológico na política brasileira, em relação a qual oferece um diagnóstico sombrio:

"Silentes, acovardadas nossas esquerdas permitem que a direita, sucessivamente derrotada nas urnas, estabeleça a pauta nacional, e nela nos enredamos: ‘mensalão’, redução da menoridade penal, violência, fracasso da política, fracasso dos políticos... o eufemismo de ‘fracasso da democracia’."


Militantes em disputa
Já Matheus Machado, em um texto tão polêmico quanto pertinente, resume com propriedade o atual dilema entre conservadorismo e necessidade de avanços progressistas, e o papel da militância em tal quadro:

"Desde que o PT chegou à presidência escuto de meus amigos governistas que é 'um governo em disputa'. A tese era que a política de coalizão abrigaria forças muito diversas e que cabia disputar internamente e tomar cuidado com as críticas para não enfraquecê-lo. O resultado prático foi que a crítica e aguerrida militância petista acabou se abstendo das manifestações de rua e se dedicando cada vez mais a simplesmente justificar o governo. Mesmo agora, depois de dez anos no poder e com aprovação popular em torno de 70%, ainda vejo petistas mais preocupados em justificar publicamente os descalabros do que em criticar o abandono de causas históricas do Partido dos Trabalhadores, como a Previdência, os Direitos Humanos ou as bandeiras dos povos da floresta. Enquanto isso os militantes das outras forças da esfera federal, como a bancada fundamentalista, fincavam os pés, iam para as ruas e lançavam grandes campanhas para empurrar para a direita o centro do governo. A impressão que dá é que se o governo federal estava realmente em disputa, os antigos militantes petistas perderam por W.O."


Lógica binária
Há fatores que potencialmente agravaram o conformismo do petismo e de seus apoiadores, a começar da própria conjuntura político-partidária do país nas últimas duas décadas, fortemente polarizada entre PT e PSDB, o que reforça uma mentalidade do tipo "nós contra eles", binária e maniqueísta. Assim, a necessária luta interna por uma agenda mais progressista para a administração federal tendeu a ser negligenciada, substituída, como menciona Matheus, por um discurso que apregoa a defesa das plataformas da aliança capitaneada por PT e PMDB, sob o alegado risco de municiar o adversário tucano.

Tal distorção está no centro de um processo no qual, em nome de uma discutível hegemonia partidária – desmentida, na prática, a cada votação no parlamento, verdadeiras operações de guerra -, boa parte da base petista omite-se ante a cessão não só às demandas dos demais membros da aliança, mas ao exercício público da militância na defesa de suas posições no interior da coligação. O resultado prático de tal dinâmica tem sido o abandono de bandeiras históricas do PT e o conservadorismo crescente que tem caracterizado o governo Dilma Rousseff.

Ainda no bojo dessa dicotomia PT-PSDB, um dos expedientes recorrentes dos analistas simpáticos ao atual governo tem sido compará-lo, de forma reiterada, ao de FHC, mas não ao de Lula, seu antecessor direto e que lhe entregou um país em muito melhores condições do que ele recebera do cacique tucano. O fato de tal comparação fazer todo o sentido no âmbito da disputa presidencial que ora se delineia não anula o fato de que, contraposto ao de Lula, o governo Dilma apresenta, em diversas áreas, indiscutíveis retrocessos.



O fator internet
Como mencionado em post recente, há tempos pesquisas vêm demonstrando que a web 2.0, com suas possibilidades interativas que têm nas redes sociais sua expressão mais visível, estimula a formação de grupos virtuais com forte identificação ideológica.

Em decorrência de tal dinâmica, nas "igrejinhas" que de tal processo decorrem, a discordância e o dissenso, quando não negligenciados ou sequer levados em conta, tendem a ser punidos com a restrição ou bloqueio do contato de quem se coloca contra o senso comum dominante no grupo virtual. Transplantado para a seara política, esse fenômeno estaria a estimular a formação de comunidades virtuais em que prevaleceria, para cada participante, uma tendência a constituir grupos interativos marcados pela identificação com determinadas linhas, programas, ideologias, partido ou políticos, em detrimentos de outros. Desnecessário apontar que tal modelo tende a reforçar a já citada dicotomia "nós x eles", com o agravante de desestimular o conhecimento das argumentações, táticas e planos de um e de outro bloco contendor. O alerta de Lênin sobre a necessidade prioritária de se conhecer o que pensa e trama o adversário como forma de advinhar--lhe os passos têm sido irresponsavelmente negligenciado.



Revendo o conceito de "PIG"
O embate político, naturalmente, não se dá exclusivamente através das redes digitais, embora venha sendo de forma crescente por estas influenciado. Para além da dinâmica acima referida e do binarismo PT-PSDB, outro fator a agravar o imobilismo da militância petista advém do hábito, ora disseminado, de desdenhar a priori das críticas às gestões petistas, descartando-as como maquinações de uma mídia corporativa cuja ação a qualificaria como "PIG" (Partido da Imprensa Golpista). Qualquer observador criterioso da cena midiática brasileira sabe que esta é, em larga medida, a expressão de uma plutocracia associada ao grande capital e ao mercado financeiro - e, assim, infesa ao que seja reivindicação social e contrária ao programa dos partido ditos progressistas - e que as críticas a ela dirigidas, em larga medida, se justificam. Nos últimos quatro anos, boa parte do material publicado por este blog dedica-se justamente a examinar seus descalabros e denunciá-los. Ocorre, porém, que a crítica à mídia feita com rigor e caso a caso não pode ser substituída pelo hábito genérico e automático de utilizar as graves deficiências da mídia brasileira como salvo-conduto para blindar toda e qualquer medida governamental, sob o risco de substituir o frequente tendenciosismo midiático – que, repito, é condenável – pela recusa a submeter as decisões governamentais a qualquer forma de criticismo – o que é inaceitável numa democracia.

Ademais, como mencionado em um post anterior, mostra-se cada vez mais questionável a premissa segundo a qual o tal de "PIG" tenderia a se colocar invariavelmente contra os governos petistas. O silêncio quanto à truculência dos governos Dima e Haddad ante greves e o apoio entusiasmado às privatizações são sinais claros de que, quando a ideologia neoliberal que orienta a mídia corporativa e as medidas tomadas pelo governo petista se harmonizam, não há relação de oposição entre eles – pelo contrário. Alguns analistas, como o jornalista e blogueiro Luis Carlos Azenha, vão mais longe e apontam uma identidade de interesses entre a mídia corporativa e o modelo orientador da estratégia desenvolvimentista ora priorizada por Dilma.

O fato de boa parte da militância se recusar a enxergar tais nuances, substituindo o seu papel de força reivindicatória interna pela defesa incondicional do governo e pela adoção do maniqueísmo segundo o qual o "PIG" é sempre a encarnação do mal, a leva, na atual situação, a situações contraditórias, que põem a própria sustentabilidade de sua posição em xeque: no leilão do petróleo, por exemplo, sua tentativa de justificar o retorno à privatização em moldes fernandistas encontrou eco na opinião de jornalistas os quais despreza e odeia, pela negatividade e marcação cerrada que alegadamente fazem ao governo – casos de Miriam Leitão, Carlos Sardenberg e William Waack, exultantes com a medida. Ora, o fato de tal medida ser saudada por tais arautos do mercado e do neoliberalismo não deveria levar a militância a uma reavaliação reflexiva, que superasse o mero automatismo com que defende o governo Dilma?



Críticas contraproducentes
Além disso, a esta altura da peleja, parecem questionáveis os efeitos do imenso investimento da militância em desqualificar a mídia, não sendo despropositado apontar que ele resulta contraproducente em ao menos três aspectos, além dos já apontados:

      1. Mantém a esquerda e seus canais comunicacionais em uma posição meramente reativa e a reboque da mídia corporativa, que acaba por pautar-lhes;
      1. Agrava a sensação de saturação da crítica de mídia como instrumento político, saturação esta que o mencionado Azenha já diagnosticara por ocasião do primeiro encontro entre blogueiros progressistas, em 2010;
      1. Demonstrar, através da crítica de mídia e sobretudo para a própria militância, que grupos comunicacionais reconhecidamente conservadores e antipetistas são conservadores e antipetistas toma, dia após dia, um tempo e um investimento em trabalho enormes, os quais poderiam ser melhor gastos na organização de formas de pressão pública para que o governo que a militância apoia aprovasse um marco regulatório para as comunicações, bandeira histórica da esquerda e do partido e item de primeira necessidade para o aprimoramento da democracia no Brasil.


A Justiça como inimiga
Um terceiro fator a desviar a militância petista de sua prioritária missão de lutar contra o conservadorismo e pelas bandeiras históricas do partido advém dos ódios decorrentes da relações entre o partido e a Justiça – particularmente o STF -, no bojo do julgamento da AP 470, vulgo "mensalão". Não se questiona, aqui, o mérito da revolta petista contra as decisões do tribunal – cujos métodos questionáveis foram repetidas vezes por este blog criticados. E sim a constatação de que muita energia está sendo dispersada num combate diário, feito de denúncias - fundadas ou não -, tentativas de desqualificação, e acompanhamento à lupa dos mínimos gestos dos ministros do Supremo e do Procurador-Geral, sendo que é pouquíssimo provável que tal mobilização resulte em algo efetivamente proveitoso, que não o exorcismo de eventualmente justificáveis ódios e ressentimentos pessoais.

O momento é grave e apresenta desafios concretos: o tamanho e a importância da luta política contra o conservadorismo no Brasil, neste momento, pedem ações mais articuladas e objetivamente efetivas. Se a militância petista investisse na luta política interna metade da energia que diariamente gasta para desqualificar Joaquim Barbosa certamente o governo Dilma não seria reiteradas vezes tachado de conservador.



Estratégia de vitimação
A todos esses fatores, acrescenta-se um temor adicional: o de que tanto o hábito de culpar o "PIG" quanto o de acusar o Judiciário – em ambos os casos antevendo intenções golpistas - esteja levando parte considerável do petismo não só à intransigência ante críticas, mas ao hábito de se vitimar, considerando, ante críticas e ponderações, que o partido é uma vítima frequente de injustiças.

"Incrível como tudo é culpa do PT" é uma resposta ouvida com frequência entre a militância e nas redes sociais, à mínima ponderação ou crítica que se faça; resposta esta que evidencia, a um tempo, o processo de vitimação acima referido e a recusa em reconhecer que um partido no poder - e há mais de 10 anos - está naturalmente sujeito a muitas críticas e inquirições, ainda mais se ora promove um retrocesso conservador em franca contradição com sua plataforma eleitoral, tão crítica às privatizações e ao capitalismo predatório.



Da necessidade de mobilização
A reação de muitos petistas ao conservadorismo atroz do governo Dilma e a atitudes francamente contrárias ao espírito democrático petista tomadas por alguns de seus governadores e prefeitos mostra que caráter retrógrado que acometeu a atual administração federal não é um fenômeno isolado. Ele (se) reflete, cada vez mais, (n)o comportamento de uma militância que se mostra disposta a avalizar a renúncia a princípios éticos e programáticos em troca da manutenção do poder – ainda que este poder, em larga medida, esteja servindo para repor uma pauta conservadora e privatista, a qual difere tanto das bandeiras históricas do PT quanto dos compromissos eleitorais da candidata Dilma.

A militância do PT é uma força social representativa, que teria muito a contribuir para o aprimoramento da democracia brasileira caso saísse de sua posição majoritariamente conformista de hoje, em que, malgrado as raras e louváveis exceções que confirmam a regra, prevalece a defesa acéfala de toda e qualquer medida governamental. Com a ajuda dos simpatizantes e dos demais setores de esquerda que ainda se dispõem a dar um voto de confiança ao PT, a militância poderia, vindo a público, colaborar de forma decisiva no sentido de corrigir a rota excessivamente conservadora que o governo Dilma assumiu desde seu início e radicalizou ainda mais nas últimas semanas.

Mas trata-se de uma missão cuja urgência é máxima, determinada por novas privatizações no horizonte - altamente ameaçadoras à autodeterminação nacional que Dilma jurou defender - e pela necessidade de impor uma marca esquerdista efetiva à aliança liderada pelo PT, resgatando os valores históricos do petismo e evitando, assim, a fuga de um eleitorado mais à esquerda que não suporta mais o retrocesso e o descompromisso com a agenda de campanha do atual governo federal. Tal mobilização vai acontecer? Muito provavelmente não, pois o pragmatismo eleitoral tende a atropelar escrúpulos e consciências, mas o recado está dado.


(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 21 de maio de 2013

Corte de ponto de grevistas equipara PT e PSDB

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, dando sequência ao hábito petista de fazer exatamente o contrário do que promete em campanha, anunciou hoje que vai "cortar ponto" dos professores municipais em greve. O ex-ministro da Educação é mesmo um democrata, logo se vê.

Para quem não sabe, os professores paulistanos são ainda mais explorados do que seus pares na maioria dos estados do país - incluindo alguns incomparavelmente mais pobres - , recebendo um salário ridículo e trabalhando em condições precárias, além de inseguras.

Era de se esperar que o PT, partido surgido justamente do movimento grevista e da defesa do direito dos trabalhadores, ao menos reconhecesse o mérito das reivindicaçoes dos grevistas e o direito constitucional deles à greve.

Mas não: vê-se a mesma intransigência com que os partidos de direita tratam os movimentos trabalhistas e o pendor ao não-diálogo e à repressão tal como o governo federal fez com os professores federais, levando-os à greve e a prolongando desnecessariamente, por quatro longos meses, para prejuízo de alunos, professores, funcionários e pais.

Enquanto a administração municipal petista assim age, o governo Dilma, que fez toda uma campanha eleitoral criticando a privatização, privatiza o petróleo e cria meios de privatizar os portos, num estelionato eleitoral que, pelo bem da democracia, a Justiça Eleitoral deveria ter meios de coibir.

Não restam dúvidas de que o PT, através do Bolsa Família, demonstra uma atenção efetiva em erradicar a miséria, combater a pobrreza e renovar o quadro social brasileiro. Isso claramente o distingue do PSDB, cuja sensibilidade social é zero. Mas em termos de distância entre o apregoado em campanha e a conduta no governo os dois partidos são muito parecidos, e no modo truculento como tratam as justas reivindicações de trabalhadores sub-remunerados, também


Atualização: Não bastasse o tratamento truculento dispensado aos grevistas, a Prefeitura de São Paulo tem esbanjado o dinheiro público para divulgar repetidamente, na TV aberta, um comercial em que alega mentirosamente ter atendido às demandas dos professores e, como forma de confundir o telespectador, elenca números referentes aos aumentos de outros servidores. Espera-se que o Ministério Público atente para o truque.

domingo, 19 de maio de 2013

Azenha rejeita culpar PIG e vê identidade entre Dilma e mídia

As atuais relações entre o governo Dilma e a mídia foram desmistificadas e examinadas com raro rigor pelo jornalista Luiz Carlos Azenha, em um comentário postado este final de semana no Facebook, que me foi indicado pela blogueira Rosangela Basso, do Maria da Penha Neles.

O texto, que pode ser lido na íntegra aqui ou ao final deste post, rejeita o disseminado mito segundo o qual "o governo Dilma é refém da mídia ou sofre de síndrome de Estocolmo" e detalha, com argumentação e exemplos contundentes, a atual confluência de interesses entre um e outro ente a partir da aposta de Dilma em "despertar o 'espírito animal' do capital privado, nacional e internacional", como forma de alcançar o, neste momento, segundo Azenha, imprescindível crescimento econômico.

Eu teria considerações a fazer quanto à primazia exclusiva que a análise de Azenha atribui ao crescimento econômico, à necessidade de analisar mais detidamente o modelo desenvolvimentista arcaico e autoritário escolhido pelo governo Dilma para propiciar tal crescimento, bem como o fato de ele destoar do que foi prometido na campanha eleitoral – notadamente através do amplo recurso a privatizações, execradas pela então candidata - e, por fim mas não por último, à necessidade de contrastar, na análise, tais metas econômicas e tais meios para obtê-las a um crescimento que até agora tem se revelado pífio.

Mas deixemos tais reflexões para outra ocasião, pois o centro do meu interesse neste post é sublinhar causas e efeitos da negligência de parte da blogosfera e das redes sociais para a mudança nas relações entre governo e mídia, tais como apontadas por Azenha.

Se a disseminação do acesso à internet trouxe em seu bojo uma saudável desconfiança para com a mídia corporativa, por outro lado - como o demonstra uma série de pesquisas -, tem aguçado a tendência para uma certa modalidade de sectarismo ideológico e para a formação de "igrejinhas" em que os membros se congraçam por preferências, afinidades e posicionamentos em comum.

Tal dinâmica, entre diversos outros efeitos, tem feito com que um número considerável de blogueiros e ativistas de rede social continue, dia após dia, a insistir numa narrativa maniqueísta em que o centro de todos os males é o tal de PIG – a mídia corporativa -, enquanto a sacrossanta administração petista seria uma vítima inocente das deturpações alheias. Isso se dá a despeito do cada vez mais indisfarçável conservadorismo do governo Dilma e de uma relação deste com a mídia que, pelas razões que Azenha alude, há muito deixou de ser de aversão mútua e de hostilidade deliberada (como fora, em ampla medida, no tempo de Lula),

Um exemplo cabal das distorções desse processo vem da forma como o jornalismo econômico tem sido tratado, acusado de de fazer "terrorismo" com o governo Dilma como parte de seu antipetismo arraigado. Ora, a questão aqui não é se o presidente é do PT, do PSDB ou do PMDB; se ele se chama Dilma, Lula, Itamar Franco ou Figueiredo: o jornalismo econômico brasileiro é um braço do mercado financeiro global, ele ataca todo e qualquer governante e toda e qualquer medida que não se amolde ao paradigma neoliberal o qual cultua.

Se há uma maior identificação midiática com os tucanos, é, como ironiza Azenha, porque "eles prestam melhores serviços". Mas, ainda segundo ele, é evidente a identificação da mídia com o "novo PT" de Dilma e de Paulo Bernardo nos "objetivos macro".

Talvez à adoção de um critério de análises que, ao invés de adotar o antipetismo da mídia como uma premissa recorrente e onipresente, seja, atualmente, mais criterioso e preciso levar em conta fatores como o alinhamento ou não das medidas tomadas pelo governo Dilma em relação a uma agenda neoliberal e à postura que historicamente a mídia brasileira tem tomado no que concerne a questões sociais e desenvolvimentismo econômico.

Porém, ao insistirem numa visão tão maniqueísta como caricata das relações entre mídia e governo, o que esses setores da blogosfera e das redes sociais fazem é, paradoxalmente, avalizar o retrocesso conservador patrocinado pela gestão Dilma dotando-o de um viés anticorporativo e antimidiático que simplesmente não existe na atual administração federal – muito pelo contrário.

Abaixo, o texto de Azenha:


"Uma querida amiga disse num debate que o governo Dilma é refém da mídia ou sofre de síndrome de Estocolmo, a escolher. Discordei.

Acho que existe uma diferença de fundo entre os governos Lula e Dilma. Lula, sindicalista, estava aberto a atender aqui ou ali aos movimentos sociais, que o apoiaram com firmeza num momento em que os projetos sociais como o Bolsa Família enfrentaram forte oposição da direita.

Dilma sabe que seu futuro e o dos aliados depende de crescimento econômico. E claramente optou por despertar o "espírito animal" do capital privado, nacional e internacional.

Depois da ascensão social do precariado, através do fortalecimento do mercado interno, temos agora a ocupação de vazios geográficos do Brasil, especialmente no Nordeste, mas também na Amazônia.

Vi com meus próprios olhos, no caminho para Imperatriz, Maranhão, a expansão do agronegócio, nos mesmos moldes que se deu em outras regiões do Brasil: concentração de terras, transformação do pequeno agricultor em empregado e êxodo para as cidades; forte presença de empresas como a Monsanto e a Bunge, ou seja, do capital internacional que penetra no campo em associação com interesses locais. Nenhum sinal de reforma agrária.

Isso tem relação com um fenômeno que escapa ao nosso controle: o capital financeiro hj especula intensamente com o valor das commodities, da soja ao minério de ferro, do petróleo ao milho.

De tal forma que a tentativa de Hugo Chávez de interferir no preço internacional do petróleo rendeu a ele o papel de inimigo público número um da mídia internacional.

Até intangíveis "créditos de carbono" foram inventados para especular.

A especulação chega à posse da terra: é só olhar a compra ou o arrendamento de grandes extensões para a produção de alimentos na África, para atender ao imenso mercado asiático.

A ideia de que o neoliberalismo sofreu um golpe fatal com a crise de 2008 é uma farsa: a concentração de riqueza se aprofunda, com a formação de um punhado de oligopólios controlando cada setor da economia em escala global. Nunca na História deste planeta tão poucos foram tão influentes na política através da compra de mandatos populares via financiamento de campanha. Tanto faz se de partido de direita ou esquerda, republicano ou democrata, petista ou tucano.

Em vez destes mandatos moldarem o campo de jogo das grandes corporações, são elas que cada vez mais definem os limites aceitáveis da atuação política, especialmente em países nos quais o estado é historicamente frágil.

No Brasil, além da agregação de grandes áreas do Nordeste ao agronegócio, temos a continuidade do projeto dos militares para a Amazônia, que o Lúcio Flávio Pinto define como colonialismo interno: a produção de energia para uso pelas mineradoras se sobrepõe a qualquer outro objetivo estratégico do governo Dilma na região

Olhem os nomes das empresas que compõem os consórcios de construção e quais serão os grandes consumidores e vocês vão entender o jogo.

O desmonte do Ibama e do Incra, pois, não é por acaso. O distanciamento e a má vontade com os movimentos sociais não reflete autismo ou incapacidade política de Dilma: é uma escolha.

Em resumo, o PT no Executivo federal adota um rumo que não ofende, pelo contrário, que agrada tanto ao Jorge Gerdau, conselheiro da presidenta, quanto aos sócios internacionais da Vale.

Considerando que estes estão entre os grandes anunciantes da nossa mídia, faz todo o sentido que a Dilma injete dinheiro na Globo, na Veja e na Folha.

Para além das reportagens raivosas ou pisadas no tomate, que refletem a preferência dessa mídia pelos tucanos -- que, inegavelmente, prestam melhores serviços -- há uma identidade nos objetivos macro. O governo Dilma não é refém da mídia, mas parceiro, e ninguém reflete melhor isso que o ministro Paulo Bernardo, que consegue agradar ao mesmo tempo ao capital nacional (Globo) e ao internacional (teles).

Acreditem: Bernardo é Dilma e Dilma é Bernardo. Ambos representam, gostem ou não, a "nova face" do PT."

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Governo promove volta triunfante das privatizações

Os petistas e Miriam Leitão têm algo em comum: ambos estão eufóricos com a nova rodada de privatizações promovida pelo governo Dilma, que em um dia entregou à iniciativa privada a estrutura portuária brasileira e boa parte do petróleo nacional, com exceção do Pré-Sal.

Desta vez o governo petista, que contraria uma vez mais o discuso antiprivatização com o qual se elegeu, não se importou sequer em disfarçar a privatização, apelidando-a de "concessão" ou recorrendo às novas regras alteradas pelo governo Lula: fez uso do velho modelo normativo para privatização vigente durante o governo FHC, que tanto criticou e contra o qual se colocou como alternativa diferenciada.

No desenrolar dos leilões de petróleo, caiu por terra também o velho discurso nacionalista que ajudou a eleger o PT: a multinacional Exxon (EUA) arrematou um bom naco do petróleo brasileiro, assim como a OGX, do cada vez mais polêmico Eike Batista, que continua a ser inexplicavelmente subsidiada por cofres públicos, à revelia de seus monumentais prejuízos recentes e num processo altamente ilustrativo de que o governo Dilma, a exemplo de seu antecessor tucano, continua a praticar a privatização à brasileira, ou seja, financiada com dinheiro público a juros subsidiados.

Enquanto o governo Dilma continua a entregar o país ao capital privado, inclusive estrangeiro, agindo de forma exatamente contrária ao que apregoou que faria no período eleitoral - quando adotou um forte discurso antiprivatização que ora se confirma, uma vez mais, mero truque eleitoreiro -, o povo parece sequer se dar conta do que acontece, narcotizado pelas facilidades de consumo (qualquer semelhança com o "milagre brasileiro" dos militares não é mera coincidência), iludido por uma mídia que é odiada pelos petistas mas que apoia entusiasticamente tais medidas (Wiliam Waack estava radiante no Jornal da Globo), e alienado por um fla-flu político entre PSDB e PT que se mostra, cada vez mais, uma disputa entre semelhantes: um péssimo, o outro menos pior.


(Imagem retirada daqui e manipulada digitalmente de forma a produzir novo sentido semântico)

terça-feira, 14 de maio de 2013

Razão x Moralismo na Questão das Drogas

O debate sobre a questão das drogas volta a ocupar um lugar de destaque na agenda pública, no bojo da realização do I Congresso Internacional sobre Drogas, em Brasília, do noticiário sobe internação compulsória de viciados em crack no Rio e em São Paulo e às vésperas da votação de mais um projeto de lei sobre a tema, de autoria do deputado da base aliada Osmar Terra (PMDB/RS), que reinstitui a criminalização do usuário.

Como narra Walter Maierovitch, "preocupados com o projeto retrógrado do deputado", os participantes do congresso, que reuniu especialistas de todo o mundo, decidiram enviar uma carta à presidente Dilma, alertando para os riscos de um retrocesso militarista no trato do tema e defendendo a descriminalização de drogas, com seu uso sendo tratado no âmbito da saúde pública. Ainda que, com a notável exceção de Carta Capital, a maior parte da mídia corporativa tenha, como apontou Sylvia Debossan Moretzsohn em ótimo artigo sobe a questão, se mantido alheia ao debate, ele ferve nas caixas de comentários, nos blogs, nas redes sociais.



A razão relegada
Poucos temas ilustram de forma tão clara a oposição entre os argumentos da razão e os preconceitos moralistas – e a persistência destes ante aqueles - do que a discussão sobre a questão das drogas, notadamente no que diz respeito à proposta de descriminalização do uso de drogas leves, medida que passou a ser defendida pela maior parte dos especialistas no assunto após o fracasso do modelo militarista de "guerra às drogas" impostos pelos EUA nas últimas quatro décadas.

Assim, por mais que estudos e pesquisas obedientes aos mais rigorosos protocolos demonstrem, de forma cabal, a falência de tal política, e que um número expressivo de especialistas no tema afiance os benefícios econômicos, sociais e psicológicos de um modelo em que o uso pessoal de drogas deixe de ser crime e o comércio destas - como o do álcool ou do tabaco - passe a ser regulamentado e supervisionado pelo Estado, persiste, em setores da população, um grande estigma, uma ojeriza de origem moralista intrínseca a qualquer proposta que apregoe distensão na repressão ao uso de drogas.



Falência de um modelo
Além do estigma que, a partir da reação conservadora às promessas liberalizantes dos anos 60, circunda a opinião pública sobre as drogas, a retomada de uma visão mistificadora e preconceituosa do tema vem sendo, há tempos, estimulada no país, tento atingido o paroxismo no governo de Fernando Henrique Cardoso, quando uma série de campanhas publicitárias, baseadas justamente na caracterização do usuário como o dínamo financiador e primeiro elo do tráfico de drogas, foi durante anos veiculada. Que FHC tenha mudado radicalmente de opinião e seja hoje um dos principais defensores do abandono do modelo de "guerra às drogas" constitui, malgrado a incoerência, mais uma forte evidência da falência do antigo modelo.

Um comentário ao texto de Maierovitch resume a persistência de tal estratégia simplista de culpabilização: "Sem usuário não tem droga nem traficante. Cadeia para os usuários!!", escreve o leitor José Carlos Castilho. Para além de se constituir numa quimera tão irrealizável quanto totalitária, um dos principais problemas com esse tipo de raciocínio é que se baseia na premissa de que ao aumento da repressão e encarceramento de usuários corresponde a diminuição (e eventual extinção) do número de pessoas que usam drogas. Trata-se, no entanto, de uma correlação falsa, que persiste no senso comum, mas que vem sendo seguidamente desmentida pela realidade, como o comprova a experiência de diversos países em que, à revelia do investimento de fortunas em repressão, o número de usuários mantém-se estável ou mesmo aumenta ano após ano.

Ou seja, de acordo com essa lógica baseada tão-somente na repressão, o governo, além de infringir as liberdades individuais, vê-se obrigado a arcar, todo mês e de forma crescente, com uma fortuna em gasto direto – seja no aparato de segurança repressivo ao usuário, seja no custeio do encarceramento deste – e indireto – na utilização de parte da pauta do Judiciário para os trâmites legais relativos a cada autuação ou como forma de suprir o déficit na cadeia produtiva gerado pelo aprisionamento de milhares de cidadãos. E tudo isso para atingir resultados pífios ou mesmo negativos, num eterno e custoso enxugar gelo.



Direito recreativo
Em oposição a uma possível maioria que prefere se ater aos estereótipos e ao moralismo no que concerne à questão das drogas, rejeitando as evidências advindas do campo acadêmico e científico, um contingente expressivo mas aparentemente minoritário de usuários de maconha e de cidadãos que apoiam sua descriminalização não consegue entender como drogas comprovadamente mais nocivas à saúde – como o álcool e o tabaco – têm livre circulação na sociedade enquanto cidadãos podem voltar a correr o risco de ser presos pelo simples ato de ingerir fumaça de uma planta, prática que, na pior das hipóteses, pode vir a prejudicar apenas o próprio usuário e que, de qualquer maneira, por caracterizar-se como decisão individual e isenta de danos a terceiros, não deveria caber ao Estado regular.

Não parece correto, a essa minoria e a um número crescente de cidadãos, que, numa sociedade hiperconsumista, que proporciona e estimula toda sorte de vícios – muitos altamente nocivos -, alguém deva arcar com os graves custos – pessoais, profissionais, familiares, psicológicos – de uma prisão apenas por fazer uso recreativo da maconha. E afigura-lhes claro que poder fazer tal uso de forma legalizada, sem contato com a bandidagem, e em que o produto, de qualidade supervisionada, recolheria os impostos correspondentes, gerando dividendos públicos, seia o mais benéfico para o usuário, para o Estado e para a sociedade.

Além do que, assegurar o direito das minorias é uma característica distintiva das democracias avançadas. 


(Imagem retiada daqui e manipulada digitalmente) 

domingo, 12 de maio de 2013

O falso debate sobre os médicos cubanos

O anúncio de que o governo Dilma deve trazer seis mil médicos cubanos para atuarem nas regiões Norte e Nordeste, feito pelo ministro Antonio Patriota (Relações Exteriores), tem causado fortes reações, tanto dos que apoiam a medida quanto dos que a rejeitam, num embate em que o peso das paixões ideológicas - sempre abrasivas quando envolvem Cuba – com frequência se sobrepõe à reflexão criteriosa.

Assim, no bojo da repercussão do anúncio de tais medidas, ao invés de um debate de facto sobre o atual quadro geoeconômico da medicina no país, assistiu-se, por um lado, a manifestações pobres em fatos mas ricas em preconceitos contra o regime cubano e de inverdades contra seu mundialmente reconhecido sistema de saúde; e, de outro, a um esforço para impugnar o protesto de associações de médicos como "virulenta reação" de uma "elite corporativista", numa demonstração de que a desqualificação, tática-mór do jornalismo neocon, faz escola no debate público brasileiro, inclusive entre contendores que se apresentam como progressistas.



Narrativa reduciomista
Tais discussões exemplificam um processo que vem ocorrendo com uma frequência preocupante no Brasil em relação ao debate de dilemas específicos da área social: ao invés de se refletir acerca de soluções efetivas, que levem em conta a concretude do problema em seus diversos aspectos e procurem atender, na medida do possível, as demandas de todos os atores sociais envolvidos, cria-se uma narrativa maniqueísta e fortemente idealizada que, ignorando a complexidade de nosso atual quadro social, tende, por alguns, a desqualificar a priori qualquer iniciativa que não se amolde ao figurino do capitalismo neoliberal vigente no último quarto de século; e, por outros, a opor uma elite insensível e malvada ao resto da população, acrescentando a crença ingênua de que o governo petista sempre ao lado desta se coloca, com medidas invariavelmente corretas. O dogmatismo se sobrepondo à razão.

A polêmica sobre a vinda dos médicos cubanos é exemplar nesse sentido. Ante os protestos suscitados pelo anúncio da medida, criou-se uma contra-narrativa que apela para uma generalização desmedida a qual tem tipificado os médicos – tanto as dezenas de milhares de profissionais anônimos que se recusam a ir trabalhar no Norte/Nordeste, quanto os que se declaram contrários à vinda dos cubanos – como uma elite preconceituosa e socialmente insensível, a qual a vinda redentora dos idealistas e generosos médicos cubanos viria vingar.

Na internet e nas redes sociais, os fanáticos e ingênuos de plantão, que se apresentam como pertencentes à esquerda, difundem essa falácia diuturnamente, fingindo desconhecer que a situação dos médicos brasileiros, em sua ampla maioria, é bem outra, submetidos a cursos universitários de qualidade duvidosa e a um sistema de saúde que, tanto em sua versão estatal quanto privatizada, os remunera mal e oferece péssimas condições de trabalho, além de virtualmente nenhum estímulo à necessária atualização em um campo do conhecimento que se renova constantemente, com novas descobertas científicas e novos métodos e processos de cura.



Problema crônico
O Norte e Nordeste brasileiro apresentam uma grande carência na área de saúde, com um déficit de médicos e demais profissionais, em relação ao Sul/Sudeste (que concentra 70% dos doutores), em dimensões ainda mais pronunciadas do que as históricas assimetrias sócio-econômicas entre tais regiões, as quais vêm sendo reduzidas em ritmo acelerado na última década. Enquanto o Distrito Federal apresenta uma média de 4,02 médicos por mil habitantes – seguida de 3,57 em São Paulo e 2,58 no Rio de Janeiro -, em alguns estados da Amazônia Legal há um médico para cerca de 1200 habitantes.

A dificuldade para atrair médicos para essas regiões é um problema antigo e que se tem mostrado infeso às tímidas medidas até agora tomadas para combatê-lo. Ela se origina já no estágio de formação do futuro profissional, visto que pesquisas demostram uma clara tendência do  recém-formado em fixar-se em áreas próximas às quais cursou a faculdade. Se vontade política houvesse e a intenção fosse realmente trabalhar para resolver a questão , esse mal de origem poderia ser combatido pelo governo com relativa facilidade, com o MEC coibindo a concentração excessiva de cursos de Medicina no Sul/Sudeste e os oferecendo em maior número nas regiões carentes de profissionais, diretamente através das universidades federais ou de forma indireta, estimulando sua oferta através do ProUni. Atualmente, os cursos de medicina desovam todo ano 13 mil novos profissionais, dos quais menos de 3000 vão trabalhar nos estados com carência de profissionais de saúde.



Modelo híbrido
A essa questão formativa somam-se fatores estruturais, tais como a lógica mercantilista e classista que caracteriza o modelo de saúde brasileiro, mezzo público, mezzo privado; o atraso estrutural da economia do Norte/Nordeste, o qual acaba por gerar problemas eventualmente graves, que vão de falta de saneamento básico a maior dificuldade de acesso a educação e bens culturais; além dos efeitos do arraigado preconceito contra tais regiões no Sul e Sudeste, o qual tende a perpetuar uma visão anacrônica que amplifica aspectos negativos e subestima potencialidades.

Independentemente do mérito acerca da vinda dos médicos cubanos, o certo é que, por sua própria natureza transitória, ela não se apresenta como uma solução – ou sequer um encaminhamento de solução – para o caso, e sim como um mero paliativo, destinado a durar alguns meses e a gerar algum dividendo eleitoral, antes que a situação da saúde no Norte e Nordeste volte a apresentar os crônicos problemas de sempre, cuja solução o atual governo federal se comprometera a encaminhar à época das eleições, antes que o ministério da Saúde passasse a oscilar, esquizofrenicamente, entre o fortalecimento do SUS, a privatização do sistema ou a improvisação emergencial que ora ameaça se tornar a regra.



Ameaça aos direitos trabalhistas
Porém, em termos trabalhistas, o precedente que a vinda dos médicos cubanos abre é perigosíssimo. Se a moda pega, o governo – este ou os que virão, eventualmente ainda mais conservadores - pode vir a resolver importar contingentes de trabalhadores estrangeiros a cada crise setorial, o que representaria uma séria ameaça aos direitos trabalhistas, aos sindicatos, ao poder reivindicatório dos trabalhadores e ao recurso legal à greve como forma de pressão.

Assim, a repercussão do caso dos médicos cubanos evidencia o altamente contraditório apoio que tantos que se dizem de esquerda têm dado a uma medida que é, na essência, profundamente antissindical e contrária aos direitos trabalhistas - no caso, de uma classe que, embora goze de algum status e prestígio social, está muito longe, no Brasil, de receber o devido reconhecimento, seja em termos salariais ou de condições de trabalho. É certo que chegamos em um ponto da história política brasileira que muitos que se dizem de esquerda apoiam prvatizações e medidas antitrabalhistas, mas imaginemos qual seria a reação desses mesmos setores que hoje saúdam entusiasticamente a chegada dos médicos cubanos se, no futuro, um governo conservador acabar com uma mobilização de professores federais trazendo seus pares angolanos, moçambicanos ou portugueses. Ou se, ante a carência de engenheiros em determinadas regiões do país, o governo importar em massa profissionais de países capitalistas em crise.

Além disso, é preciso atentar para um paradoxo tão curioso quanto nocivo: o fato de que o governo brasileiro está, na prática, se valendo da situação anômala a qual, graças em grande parte a um criminoso boicote ditado pelos EUA, foi submetida a economia cubana  – em que os salários dos trabalhadores são simbólicos, se comparados aos padrões internacionais, sendo complementados por cotas de alimentos e de roupas e pelo acesso a um sistema de educação e de saúde de bom nível – para suprir um problema geoeconômico de um país capitalista. Problema este agravado pelo misto de falta de vontade política e incompetência gerencial  de um governo profundamente identificado com o consumismo capitalista, o qual tem estimulado ao máximo, no altar do desenvolvimentismo a todo custo, à revelia de ponderações écológicas, éticas ou sociológicas.



Com a palavra, o ministro
Ante a forte reação contrária que a proposta suscitou entre a comunidade médica e na mídia, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, fez divulgar nota afirmando que, para além da vinda dos médicos cubanos, o governo "continua analisando" medidas para a questão e formas de reverter a distribuição assimétrica de profissionais de saúde no Norte/Nordeste em relação às demais regiões do país.

Ora, o PT está no governo federal há mais de dez anos, não pode mais agir como um neófito em fase de reconhecimento do terreno. Teve tempo mais do que suficiente para analisar em detalhe um problema estrutural antigo como o da distribuição de médicos no território nacional, apresentar propostas e implementá-las. No entanto, além de não mover uma palha para reconfigurar o panorama do ensino de medicina no país, prefere, como tem feito em outras áreas, adotar a medida mais fácil e menos custosa - mesmo porque temporária e meramente profilática -, ao invés de buscar encaminhar um conjunto de decisões que vise solucionar efetivamente o problema, o que necessariamente exigiria mais investimento, mais tempo e mais supervisão, e não ofereceria as facilidades marqueteiras que a trupe de médicos em forma de anunciada panaceia proporciona.

Infelizmente, o adesismo cego tem feito com que blogueiros e colunistas simpáticos ao governo - e lenientes com a recusa deste em promover os avanços para os quais fora eleito - comprem acriticamente tais estratégias eleitoreiras e as corroborem, seja difundindo-as, seja procurando desqualificar os que as criticam, num processo inverso mas idêntico ao que acusam a mídia corporativa de fazer contra o governo.


(Desenho retirado daqui)




terça-feira, 7 de maio de 2013

Com Afif e PSD, Dilma amplia alianças à direita

O anúncio de que o vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, foi convidado para o ministério de Dilma, assumindo a Secretaria da Micro e Pequena Empresa, expande ainda mais os já dilatados limites da aliança federal capitaneada pelo PT, redesenha o cenário para as eleições presidenciais do ano que vem e causa estupor em militantes, simpatizantes e apoiadores do atual governo.

Afif é figurinha carimbada do conservadorismo paulista e uma das estrelas do PSD, a agremiação "nem de esquerda, nem de direita, muito pelo contrário" fundada por Gilberto Kassab, o qual, a despeito do péssimo desempenho à frente da prefeitura de São Paulo, mostrou-se capaz de articular o que é hoje a terceira maior bancada partidária no Congresso – numa contradição que, açulada pela voracidade com que o petismo se atirou nos braços do neoaliado, muito diz a respeito da relação entre meritocracia, ética e política no Brasil.

É difícil, para parte do eleitorado, compreender como Afif, um político que nas últimas eleições fez campanha apoiando o PSDB, tendo sido desde então nada menos do que o vice do cacique tucano Geraldo Alckmin, possa, do dia para noite - e sem maiores explicações -, ser recebido de braços abertos pela aliança petista. Não há como dissipar a impressão de que alguém foi ou está sendo enganado nessa história.



Pauta conservadora
Para além da confusão na mente de parte do eleitorado e de questões relacionadas a coerência e programa partidário, a aliança com o PSD levanta, uma vez mais e de forma aguda, dúvidas acerca de qual o limite que distingue a ampliação da hegemonia da aliança capitaneada pelo PT e a descaracterização desta através da incorporação de pautas ditadas pelos novos aliados à direita.

Sim, pois é preciso uma dose cavalar de ingenuidade – ou de ignorância política – para não se dar conta de que cada aliança selada significa a incorporação de uma pauta estranha àquela com a qual o governo foi eleito. Que tais alianças se deem com partidos à direita do espectro político – o que tem sido a norma da atual administração federal petista – implica, inescapavelmente, em mais um retrocesso em um governo que, exceção feita à política de juros, tem se caracterizado por um conservadorismo atroz.



Retrocessos
Senão, vejamos: na mesma segunda-feira em que foi anunciado o convite a Afif, César Gaviria, ex-presidente da Colômbia, deu ótima entrevista à Folha de S. Paulo em que, levando em conta a bem-sucedida experiência colombiana no trato da relação entre drogas e violência, faz duras críticas às atuais políticas brasileiras para a questão e às propostas de diminuição da maioridade penal e de punição do usuário. Deixando evidente nosso atraso em relação à América Latina no trato do tema – agravado no governo Dilma, acuado sob pressão religiosa -, chega a declarar que "Dói em mim ver o que está ocorrendo no Brasil, pensando em soluções tão contraindicadas e alheias ao que está acontecendo no mundo".

A questão das drogas e da criminalidade é apenas um exemplo do retrocesso vivido pelo país durante o governo Dilma, ao qual poderiam ser acrescidos diversos outros, em sua maioria graves, tais como:

      1. O descaso para com o genocídio indígena, seja em seu formato cotidiano (desnutrição infantil, alcoolismo, alto índice de suicídios), no enfrentamento com o aliado ruralista ou no bojo de megaobras como Belo Monte;
      1. A timidez extrema nas políticas de gênero, que continua a negligenciar a questão do aborto, adia temas já resolvidos na pauta da maioria das democracias e tem deixado homossexuais sujeitos rotineiramente à violência urbana;
      1. A leniência (ou mesmo cumplicidade) com as ameaças recorrentes ao Estado laico;
      1. O desmonte e sucateamento das políticas culturais herdadas da gestão Gil/Juca Ferrira no MinC, o retrocesso no trato dos direitos autorais no âmbito da cultura digital e a instrumentalização político-partidária da Cultura;
      1. A perpetuação e o estímulo – via ProUni – a um modelo de ensino superior privado de péssima qualidade, oligopolizado e que viola de forma recorrente a legislação trabalhista no trato que dispensa aos professores;
      1. Ameaça de sucateamento do ensino superior público, com lei que, na prática, proíbe a exigência de diplomas de mestre ou de doutor nos concursos para os novos professores das universidades federais;
      1. Sobreposição do desenvolvimentismo a todo custo aos anteparos ecológicos legais, cujo exemplo cabal é o descumprimento impune das cláusulas estipuladas nas licenças ambientais para a construção da usina de Belo Monte;
      1. Desinteresse em promover a democratização das comunicações no país, explicitada, por um lado, na recusa em promulgar uma Lei de Meios que - a exemplo do que acontece nas democracias avançadas e em vários de nossos vizinhos sul-americanos - regularize em bases republicanas a atividade midiática; e, por outro, na recusa em valer-se de outro critério que não o de audiência para distribuição das verbas publicitárias federais via Secom.


Alianças cobram seu preço
O quanto tamanho retrocesso se deve à ânsia desmedida por hegemonia político-partidária via alianças com forças da direita - e dos compromissos com estas deriva-se - é matéria que caberá aos cientistas políticos do futuro decifrar. O certo é que tal guinada conservadora contradiz vários compromissos de campanha da candidata Dilma - inclusive a recusa às então tão criticadas privatizações, as quais agora, candidamente apelidadas de "concessões", se tornaram recorrente política de Estado.

Em decorrência, a atenção do governo Dilma parece estar ora concentrada em um lugar outro que não seus compromissos programáticos, dividida entre a obsessão economicista e a prioridade à reeleição. Quanto a esta, a aliança com o PSD consagra a hegemonia parlamentar da atual administração federal e deve dar à presidente-candidata um tempo de TV consideravelmente maior ao de seus concorrentes nas eleições de 2014. Vários analistas políticos consideram que, com isso, ela passou de forte candidata a virtualmente imbatível.

Pode ser. Resta saber, no entanto, a que custo e com quais alterações programáticas. Pois, se conservando a aliança com o PMDB e premida pelos compromissos assumidos com setores religiosos, o primeiro mandato de Dilma já foi muito mais conservador do que o prometido – e um claro retrocesso em relação ao governo Lula, em áreas como Cultura, Direitos Humanos, Ecologia, Educação e Saúde - causa temor vislumbrar o que pode vir a ser um seu segundo mandato escorado na bancada evangélica e no neoaliado PSD.



Ideologia, pra viver
A um ponto tal que se mostra necessário questionar, neste momento, se um governo submetido a tais alianças pode vir a atender, de fato e em que bases, a uma pauta de centro-esquerda ou, ao contrário, se o que faz é dar fôlego ao conservadorismo em um raro momento histórico em que este se encontra claramente desprestigiado em nosso país.

Da resposta a esta pergunta – e da postura que a partir daí a esquerda e a centro-esquerda tomarem – depende a possibilidade de movimentações que alterem esse quadro em que ampla hegemonia se confunde perigosamente com cooptação e desideologização da política.



(Post atualizado às 17h52min.Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Lobão e o marketing cultural neocon

O irromper de uma onda conservadora na mídia tem lugar em meados dos anos 90 com o jornalismo neocon nos EUA, sob a liderança da Fox News. Logo a tendência espraia-se por boa parte do mundo e, embora ora emita sinais de crise em decorrência do papel do neoliberalismo na crise econômica mundial, no Brasil ainda teima em se manter em evidência, notadamente a partir do conluio entre a Globo de Ali Kamel, a "nova" e marcadamente ideologizada Veja e os principais diários do Sul/Sudeste.

Algumas das características distintivas dessa "modalidade jornalística" são a primazia da desqualificação sobre a argumentação, dos recortes históricos ideologicamente determinados sobre a contextualização criteriosa, de truques retóricos de seminaristas sobre o desenvolvimento dialético das análises.


Truques e esquemas
Assim, como se pode facilmente constatar folheando as publicações mencionadas ou munindo-se de paciência e prestando atenção aos comentaristas globais, sobra agressividade, juízos peremptórios e ajustes da realidade a esquemas reducionistas que negativizam o que quer que não se encaixe ao modelito neoliberal.

Em compensação, tal jornalismo carece de análises matizadas, de questionamentos que superem dicotomias reducionistas e, eventualmente, de uma saudável admissão da dúvida, mesmo porque esta muitas vezes permanece, incômoda e latente, sob o peso das certezas definitivas produzidas por tais analistas simbólicos.


Filhos de Francis
Nesse novo ambiente, o recurso desabusado a opiniões conservadoras, as mais caricaturais, torna-se uma distinção de excelência. E se antes tais excessos se limitavam a Paulo Francis e a seus imitadores menos talentosos - logo seguidos por uma plêiade de jornalistas desorientados ante a visão dos tijolos do Muro de Berlim desabando sobre as aparentes ilusões que a esquerda alimentara ao longo do século XX (caso, por exemplo, de Clóvis Rossi) -, o histrionismo retrógrado passa, na atualidade, a requisito para atrair os holofotes e as páginas da mídia.

O exemplo cabal desse jornalismo neocon é, na imprensa, o blogueiro da Veja, cuja combinação de aparente destemor, moralismo afetado e modos de bedel serve como uma luva a jovens que, à desidentificação natural com o poder – ora na mão da centro-esquerda -, aliam, muitas vezes, péssima formação cultural e agudo complexo de inferioridade, combinação perfeita para se deixarem cooptar pela retórica barata e pelo maniqueísta do "tio" de Veja, o qual uma legião idealiza.



Síndrome de Fausto
Já na TV, malgrado os esforços de Marcelo Tas e sua indignação seletiva, o personagem que melhor encarna o espírito neocon é Arnaldo Jabor, com seu ódio desmedido e democrático, voltado a Venezuela, Bolívia, Argentina, Cristina Kirchner, Lula, Dilma, sem fazer distinção.

Trata-se de alguém que claramente não acredita mais no que diz, e a sua tristeza de intelectual que se vendeu para o sistema e tem plena consciência disso é uma latência tão mal reprimida em suas falsamente escandalizadas, pseudo-cômicas performances que se impõe, epifânica, a o que quer que ele esteja dizendo, à revelia do arsenal de caretas, trejeitos e exibicionismos verbais de que lance mão.

Assim, cada aparição do "maestro epilético" (apud Emerson Luis) é sempre impregnada da tragédia de sua trajetória, de pensador exuberante e cineasta talentoso, cultuado e respeitado pelos que hoje o abominam, a triste palhaço da direita, cada vez mais previsível e monotemático – e, portanto, cada vez mais anacrônico -, sobrevivendo das sobras que a carcomida plutocracia midiática de quando em quando lhe atira.



Happening e vácuo cultural
Divulgadas hoje, as reiteradas declarações de Lobão contra os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura e os receptores de indenização pelos crimes cometidos pelo Estado ditatorial inserem-se na mesma lógica do jornalismo neocon, agora deslocada para uma atividade marqueteira na área cultural. Historicamente não se sustentam e, de tão absurdas e descoladas da realidade que são, não se credenciam – e nunca o farão, mesmo porque não é este o objetivo - para ser levadas a sério.

Tal estratagema só é bem-sucedido, é bem verdade, graças à soma de problemas estruturais do setor com as atuais fragilidades da área cultural, estas ditadas, em sua maioria, pela posição extremamente periférica que a cultura voltou a ocupar na agenda federal desde o início do governo Dilma e da recusa deste em assumir uma postura ativa, liberta das amarras ditadas pelos resquícios do neoliberalismo como orientador de políticas culturais no Brasil – do qual o modo de funcionamento das leis de incentivo que ora são o sustentáculo da quase totalidade da atividade cultural atual é o maior exemplo.



"Falem mal, mas falem de mim"
Seja como for, as declarações estapafúrdias e caricaturalmente conservadoras – além de, no caso, agressivas à verdade histórica e aos Direitos Humanos - provocam o happening e, daí, a repercussão desejada, cumprindo sua função de auto-divulgação pessoal através do escândalo.

Trata-se de um truque do qual, na música brasileira, o tropicalista Caetano Veloso é fundador e mestre, e cuja maestria ao praticá-lo só rivaliza com seu talento como compositor e cantor – mas este quesito, o talento, ainda que sempre o tivesse em doses bem mais modestas, Lobão deixou de exibir, na melhor das hipóteses, no início dos anos 90. E lá se vão duas décadas em que o ex-enfant terrible do rock nacional "sumiu", tornando-se um desconhecido para as novas gerações, que agora ele tenta conquistar com truques de marketing neocon.



Disputa acirrada
De lá para cá, portanto e para tanto, virou isso: piadinhas sobre os torturadores "que só arrancaram uma unhazinhas"; o escândalo fácil buscado, com agressividade e desrespeito pela vontade popular, a cada entrevista; o talento, decadente, reprimido sobre uma pesada carga de inautenticidade voltada a agradar a mídia corporativa.

Esta última característica é um denominador comum entre Lobão, Arnaldo Jabor e Marcelo Tas – o trio midiático que disputa com avidez, palmo a palmo, o cargo de bobo da corte da direita derrotada.


(Imagem retirada daqui)