domingo, 31 de março de 2013

Vi o Mundo e a blogosfera sob ameaça

O sufoco por que passam os blogs não corporativos, fenômeno que vinha se intensificando nas últimas semanas com a condenação judicial, ainda que em primeira instância, de uma série de blogueiros – Cloaca News, Marco Aurélio Mello, Rodrigo Vianna, os irmãos Mário e Lino Bocchini (da Falha de S. Paulo ) - tornou-se uma questão de primeira ordem a partir da repercussão de um post em tom de desabafo escrito por Luiz Carlos Azenha. Nele, o jornalista e editor do Viomundo declara-se em vias de fechar o blog por alegadamente não poder arcar com os custos de um processo judicial movido por Ali Kamel, diretor-geral de jornalismo da Globo, os quais só na primeira fase já teriam somado 30 mil reais.

Mais do que trincheiras de militância política, os chamados "blogs sujos" vêm se tornando, de forma cada vez mais intensa, polos de resistência e de diversificação de enfoques e análises em um país cujo setor comunicacional, fortemente concentrado, encontra-se assumidamente partidarizado – condição que, por sua vez, no contexto do jornalismo brasileiro, gera um déficit de credibilidade que agrava ainda mais a crise estrutural da imprensa decretada pela popularização da internet.


Arena democrática
O Viomundo ocupa uma posição privilegiada nesse cenário. Em primeiro lugar porque, ao contrário do que logo se apressaram a proclamar membros de uma certa esquerda que parece sempre mais interessada em desagregar e instaurar a cizânia de modo a fazer valer suas posições, nunca foi um blog chapa-branca. Pelo contrário: as vigorosas reportagens de Conceição Lemes sobre a gestão federal da Saúde, o acompanhamento das greves nacionais e da questão sindical e a reprodução de textos selecionados de colaboradores – dentre os quais alguns dos posts mais críticos ao governo por este blog publicados – formam, hoje, somados a textos que apresentam uma visão mais simpática – mas não necessariamente menos crítica – do governo Dilma , um testemunho vivo dos erros e acertos da atual administração federal em seus mais de dois anos de vigência.

Um segundo ponto em que o Viomundo se destaca é pela qualidade de sua caixa de comentários, que acaba diversas vezes por se transformar, efetivamente, em um fórum de debates de bom nível, feito raro no atual estágio da blogosfera, em que os demais blogs políticos de grande audiência, corporativos ou independentes, estão longe de repetir, com suas igrejinhas, trolls e agressividade grassante.



Luta é pela blogsfera
É evidente que não são só por essas qualidades que lutar pela sobrevivência do Viomundo é neste momento essencial. Descrevo-as como forma de esconjurar o fantasma de seu possível encerramento através do testemunho afetivo do que ele significa para mim. Mas ainda que se tratasse de um blog minúsculo, chapa-branca e sem comentaristas – ou com comentaristas a se digladiar agressivamente – a luta se faria igualmente necessária, porque o que está em jogo aqui é a garantia de liberdade de expressão para além do universo capitalista das corporações midiáticas e a manutenção dessa experiência riquíssima de participação e debate politico que a blogosfera e as redes sociais têm propiciado no Brasil na última década.

Creio não ser preciso me alongar quanto a isso: é já dado histórico que, num passado recente, foram, em larga medida, essas novas modalidades comunicacionais que, entre tantos outros episódios, desvelaram a farsa midiática por trás de episódios como a publicação da ficha policial falsa da candidata Dilma Roussef na capa da Folha de S. Paulo; o aparelhamento político-partidário da revista Veja e sua transformação em máquina de factoides e destruição de reputações; a farsa envolvendo Lina Vieira, secretária da Receita Federal ligada ao clã chefiado por Agripino Maia (DEM/RN); a bolinha de papel que atingira o candidato José Serra (episódio em relação ao qual o próprio ex-presidente Lula, em seu histórico encontro com blogueiros, reconheceu a importância da atuação da blogosfera no restabelecimento da verdade que o Jornal Nacional estava a falsear).

Através dessa atuação a blogsfera política foi ganhando respeitabilidade, audiência, proliferando em novos blogs – e hoje, embora ainda esteja longe de oferecer em quantidade reportagens e matérias jornalísticas originais, vem superando, em termos de credibilidade e para um público maior e melhor qualificado, a mídia corporativa como fonte de análises politicas.



De arauto a grilo falante
O que parece essencial sublinhar, no esforço para contextualizar os fatores que levaram à atual crise da blogosfera, é como ela passou, ao longo de governo Dilma, de alinhada prioritária da administração federal petista à atual condição de "persona non grata" nas hostes palacianas. Um primeiro estranhamento se deu no período imediatamente posterior à eleição de Dilma, em que um esperado gesto de agradecimento da eleita para com os blogueiros que se dedicaram intensamente à sua campanha não veio (foi no intuito de preencher tal lacuna que se organizou o encontro de Lula - veja bem, de Lula, não de Dilma - com os blogueiros). Tal quadro agravou-se com a nomeação de Ana de Hollanda para o Ministério da Cultura e a adoção de uma política reacionária em relação a direitos autorais e novas tecnologias digitais, contrária à posição dos principais ativistas da causa no país, cuja mobilização pela eleição de Dilma, liderados por Marcelo Branco, fora intensa.

Mas a cereja do bolo na banana que Dilma deu à blogosfera foi sua aproximação entusiasmada para com a mesma mídia corporativa que a difamara de todas as formas durante a campanha eleitoral, incluindo uma visita ao programa Ana Maria Braga e a confraternização com a fina flor do tucanato na festa pelo aniversário da Folha de S. Paulo.

Daí por diante a blogosfera, que, embora majoritariamente unida em torno da candidatura Dilma, nunca fora o monolito ideológico que seus adversários pintam, passou a apresentar divisões internas mais nítidas. Uma porcentagem de seus membros optou pela oposição sistemática ao novo governo e, embora prevalecesse a maioria a favor, esta dividiu-se entre os blogs de apoio irrestrito ao governo, outros de apoio crítico - entre os quais se insere a maior parte dos blogs sob judice - e ainda outros que professam imparcialidade jornalística. Seja como for, o apoio entusiasmado do período de disputa eleitoral com José Serra e a pior direita deu lugar, em larga medida, à produção de demandas políticas específicas e de conteúdo crítico em relação ao governo Dilma. A blogosfera se transformara em grilo falante, definiu alguém.



Mutações do poder
Nesse ínterim, o ministro Paulo Bernardo, que no início do governo frequentava risonhamente as redes sociais prometendo disseminar a banda larga e batendo altos papos com blogueiros, dá um block geral, enclausura-se no interior do ministério em companhia dos acólitos das teles e passa a qualificar os blogueiros de "vagabundos" enquanto trama um repasse milionário do Estado para as empresas particulares de telecomunicação, recordistas de queixas nos Procons, que, com a anuência do governo, vendem banda larga a preço de internet por satélite e velocidade de conexão discada.

É no contexto dessa dinâmica que se dá, lenta e paulatinamente, o confronto entre um governo cuja secretaria de Comunicação continua a irrigar generosamente os cofres da mídia corporativa – da mesma mídia corporativa que muitos dos blogueiros chama de PIG, como "homenagem" à forma implacável como tais veículos exercem uma oposição tão cerrada quanto desqualificadora em relação ao governo federal -, enquanto mantém a torneira fechada para os blogs e demais órgãos de imprensa alternativos.



Pragmatismo x ideologia
A lógica por trás da ação governamental é cristalina, e se amolda à perfeição ao seu projeto de expansão de hegemonia político-eleitoral à revelia das questões ideológicas, priorizando alianças o mais amplas possível (ainda que´politicamente esdrúxulas ou eticamente insustentáveis), o desenvolvimentismo a qualquer custo e a manutenção prioritária dos índices econômicos. Em relação a tal programa, parte considerável da blogosfera, com suas críticas pontuais, sua memória para com compromissos de campanha e, sobretudo, o pendor com que teima em insistir numa tomada de posição ideológica por parte do governo, transforma-se de aliado de primeira hora em incômodo porta-voz de escrúpulos que se quer superados. "Com a tentativa de dar um abafa no jornalismo independente, o governo Dilma manda um recado claro para bons entendedores: a politização do debate não está nos seus planos, muito menos aquela que daria ensejo a recortes de classe, ainda que somente uma tomada de consciência", assinalou um observador arguto.

O dado paradoxal – e revelador da importância jornalística da blogosfera e do quanto é falsa sua visão como um bloco monolítico chapa-branca – é que o leitor jamais se inteiraria da dinâmica de tal processo através das fontes jornalísticas convencionais. Seria preciso investigar o retrato do governo Dilma em blogs como os agora processados, ou, por exemplo, os de Altamiro Borges e Maria Frô, ou mesmo este humilde boteco, para se inteirar de tais percalços.



Problema é antigo
No atual contexto, um eventual recuo da blogosfera ante dificuldades econômicas impostas pelo custo de processos judiciais – algo que uma eventual combinação de litigância de má-fé e proximidade das eleições pode tornar explosivo – significaria um tremendo retrocesso, com graves consequências para o debate público no país e, em decorrência, para seu próprio avanço democrático. É importante notar que tal possibilidade não se trata de um fato novo: em um texto publicado no Observatório da Imprensa no já longínquo ano de 2009, logo após o fechamento do blog A Nova Corja em virtude dos custos físicos, psicológicos e financeiros dos processos judiciais que sofrera, registrei:
A despeito do temor de alguns blogueiros de que alguma forma de representação coletiva venha a comprometer sua independência, torna-se cada vez mais urgente, devido à profusão de processos judiciários contra blogs e ao intervalo cada vez menor entre eles, a montagem de uma rede de proteção jurídica a curto ou médio prazo. Ela poderia ser erguida, por exemplo, com a participação de advogados voluntários, ligados ou não a ONGs e universidades, mas cientes da importância do papel da blogosfera independente e dispostos a contribuir com seu tempo e saber jurídico da mesma forma generosa e gratuita que tantos blogueiros se dedicam às atividades de pesquisa e redação.

Reação pungente
Esse tema foi intensamente debatido no I Encontro Nacional de Blogueiros (realizado em 2010) e, talvez com menos intensidade e menor sentido de urgência, nos encontros nacionais e regionais posteriores. Com a deflagração da atual crise da blogosfera, torna-se premente a retomada de tal debate e a efetivação concreta de medidas reativas.

O caso Viomundo provocou uma grande reação na blogosfera e nas redes sociais, mobilizando corações e mentes para uma rápida reação. Uma reunião foi marcada para a próxima terça-feira, 02/04, as 17h, no Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé (Rua Rego Freitas, 454 – 1o. Andar – conj. 13) visando a busca de soluções para o caso Viomundo e o encaminhamento de debates tendo em vista resolver tal impasse. Todos os interessados são convidados. Confira aqui a convocatória e algumas sugestões de pauta.




(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 26 de março de 2013

FHC na ABL

Sempre tive uma grande dificuldade para entender o que faz uma figura pública, ainda mais se intelectual ou artista popular, querer entrar para a Academia Brasileira de Letras.

O ridículo das vestes, o minueto social das tertúlias autobajulatórias, o chá no país do cafezinho e, sobretudo, a falta de representatividade por abrigar, sem critério ou mérito, uma profusão de ditadores, políticos e jornalistas sem o mínimo talento e em alguns casos - como os de Getúlio Vargas e Merval Pereira - até sem obra publicada levam-me a questionar o porquê de gente séria e talentosa de quando em quando se candidatar à instituição.


Ganhos indiretos
Senti uma dor no coração quando meu ídolo dos tempos de faculdade Nelson Pereira dos Santos vestiu o fardão e aboletou-se à cadeira número sete. Mas, embora não assuma publicamente, o veterano cineasta tem razões objetivas e insuspeitas para agregar-se à ABL: em um país em que a cultura dos diplomas ainda prolifera e que a produção cinematográfica encontra-se na mão dos diretores de marketing das empresas, a condição de acadêmico o credencia junto aos donos do poder e o ajuda a levantar fundos para os projetos pessoais que deseja realizar. (Note-se o absurdo de o mais longevo e mais prolífico dos cineastas brasileiros, reconhecido internacionalmente, ser, com mais de oitenta anos, obrigado a passar o pires quando quer abordar temas que não interessam ao poder.)

Mas, à revelia das exceções e casos especiais, continuo custando a entender porque pessoas inteligentes, brilhantes e informadas – como o filósofo, poeta e letrista Antonio Cícero, o compositor Martinho da Vila e o ensaísta Muniz Sodré, para citar três dentre tantos exemplos possíveis – almejam (ou almejaram um dia) a condição de imortal de academia. Apego à tradição e à simbologia? Ambição desmedida? Vaidade?


De Machado a FHC
Essa reflexão acerca da ABL veio no bojo do anúncio da candidatura do ex-sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso à instituição. Não restam dúvidas de que, comparado a alguns de seus futuros colegas de chá, o atual candidato tem, efetivamente, uma obra a apresentar, representada por sua contribuição à formulação da Teoria da Dependência, que, a partir dos anos 60, procurou explicar as relações entre metrópole e colônia a partir de uma confluência entre o legado weberiano e a releitura de Marx.

É forçoso notar, no entanto, que se trata de um arcabouço teórico que envelheceu mal, tendo sido desautorizado pelo próprio FHC, tanto em declarações ("esqueçam o que eu escrevi") quanto nas ações que tomou como presidente da República, ao abraçar o mais desbragado neoliberalismo.


Candidato único
Isso reforça a impressão de que, para além da contradição de se nomear para uma academia de letras alguém que pediu que esquecessem o que escreveu, a motivação para tal nomeação tem pouco ligação com seu legado intelectual e tudo a ver com o que oferece em termos de projeção midiática e o que significa em termos de gesto político.

É o ex-presidente, – que, num exemplo de seu espírito democrático, só aceitou candidatar-se se não houvesse concorrência passível de derrotá-lo -, e não o escritor, quem assoma à academia e à ribalta pública, a vaidade repressada no fardão como em um espartilho e a bajulação de uma dúzia de pseudointelectuais fazendo as vezes do reconhecimento popular que os brasileiros lhe negam. É altamente significativo das intenções políticas da candidatura que o ingresso de Fernando Henrique na ABL se dê no momento mesmo em que seu legado sai do anonimato forçado a que os candidatos tucanos o relegaram na última década e volta, através da candidatura, por ele impingida, de Aécio Neves à Presidência.



Luzes da ribalta
A mídia, evidentemente, vibra com a possibilidade mais manchetes positivas relativas a um de seus ídolos. Antes mesmo da confirmação da candidatura já pululavam nos portais notícias sobre o novo imortal - contrapostas a manchetes negativas sobre Lula e Dilma, como é de praxe.

Porém a inação do governo Dilma em relação à mídia e a teimosia em continuar enchendo as burras das grandes publicações enquanto a imprensa alternativa agoniza desautorizam a repetição ad infinitum das queixas contra a mídia e a vitimação do governo petista – já se passou tempo suficiente para saber que é este mesmo seu modus operandi e, há dez anos no Planalto e com ampla aprovação popular, o governo Dilma tem poder mais do que suficiente para enfrentá-la, prestando um favor à democracia.

Prefere, porém, a inação e o silêncio, entrecortado de frases acacianas de efeito. Talvez ainda mais misterioso do que compreender as razões que levam um artista ou pensador de qualidade a almejar uma vaga na ABL seja entender o porquê dessa recusa do governo petista em fazer valer a Constituição no que concerne a mídia e comunicação no país. Ou não, pelo contrário?



(Imagem retirada daqui e dali e manipulada digitalmente)

domingo, 24 de março de 2013

A alta aprovação de Dilma

Os altos índices de aprovação de que hoje goza o governo Dilma, da ordem de 63% para a administração e de 79% para a mandatária, têm sido referidos, sobretudo, como vantagem antecipada para as eleições do ano que vem – e uma ducha de água fria nas pretensões da oposição e da mídia, ultimamente tão excitadas com a eventual candidatura presidencial de Eduardo Campos (PSB/PE).



Com 85% de aprovação ao governo Dilma no Nordeste, as possibilidades do neto de Miguel Arraes diminuem drasticamente não só nas urnas, mas no nascedouro mesmo da candidatura, neste momento, em seu potencial de arregimentar apoio político e financeiro para viabilizar-se como candidato com chances reais de vitória.



O PSDB, por sua vez, mantém-se preso às divisões açuladas, por um lado, pela obsessão que o campeão de rejeição e de derrotas José Serra nutre pela Presidência e, por outro lado, pela hesitação de Aécio Neves entre continuar inalando a boa vida de playboy na "Cidade Maravilhosa" ou candidatar-se à aridez do Planalto Central, ainda mais com FHC a tiracolo, obrigando-o a defender um modelo econômico anacrônico, responsável principal pela crise global que ora aflige os EUA e a Europa.





Eleição antecipada

O anúncio dos altos índices de aprovação de Dilma e de seu governo mostra-se, portanto, alvissareiro por prognosticar que permanecerão mantidas longe do poder as forças politicas que levaram, ao longo da década de noventa e por mais de uma vez, a economia do país a um estado pré -falimentar, com graves consequências sociais – incluindo altos índices de desemprego e sucateamento das universidades e hospitais federais.



Por outro lado, de forma objetiva e levando em conta que estamos ainda a um ano e meio das eleições presidenciais, há de se questionar que benefícios os altos índices de aprovação do governo capitaneado pelo PT trazem hoje ao país, no campo da esquerda. Dilma se valerá de tal cacife para enquadrar seus aliados e exigir a obediência a padrões republicanos para as alianças políticas, com o cumprimento de acordo preestabelecidos e coibindo a chantagem no varejo a cada votação no Legislativo, pavimentando o caminho para uma futura reforma política (que, convém lembrar, era item de destaque em seu programa como candidata, já adiado para o próximo governo)?





Questões prementes

O governo Dilma aproveitará o endosso popular para, como presidente de um país às vésperas de receber três mega eventos globais (a Jornada Mundial da Juventude, a Copa do Mundo e as Olimpíadas), patrocinar uma campanha pelos Direitos Humanos que dissipe a impressão duvidosa que tem deixado nesta área e reafirmar, não apenas com declarações mas com medidas efetivas, a cidadania plena de grupos sociais que, sob a complacência silenciosa do Estado, têm sido vítimas recorrentes de violência, como os índios e os gays?



O governo Dilma utilizará do voto de confiança da população para honrar, a um tempo, outra promessa de campanha e o histórico do PT com os movimentos que lutam pela democratização do solo, contrariando os aliados de última hora advindos do agronegócio – entre os quais se incluem acusados de empregarem mão-de-obra escrava – e promovendo, com 200 anos de atraso, a reforma agrária? Fará ao menos uma reformulação nas atuais políticas agrárias, que privilegiam os mega latifúndios em detrimento dos médios e pequenos produtores?



O governo Dilma se valerá de tamanho apoio para promover um aggiornamento cultural no país, retomando e ampliando a efervescência dos Pontos de Cultura, vigorosa experiência de estímulo à produção cultural diversificada e regionalmente capilarizada levada a cabo pela gestão Gilberto Gil/Juca Ferreira e inexplicavelmente sucateada pela deplorável "administração" Ana de Hollanda no Ministério da Cultura, e pela transformação deste em moeda eleitoral nas eleições paulistanas, com a nomeação de Marta Suplicy, cuja experiência como agente cultural é nula?



E, sobretudo, o governo Dilma utilizará o reconhecimento popular de que ora desfruta para, tal como hoje acontece tanto em democracias avançadas como o Reino Unido e a Dinamarca quanto em países que vivenciam um amadurecimento democrático, como nossos vizinhos Equador, Venezuela e Argentina, patrocinar uma Lei de Meios que regularize em padrões republicanos a atuação da mídia, fazendo cumprir os preceitos constitucionais que regem a concessão de sinais de rádio e TV e, assim, coibindo o golpismo, o partidarismo e o uso recorrente de táticas de desqualificação e difamação por parte do jornalismo midiático?





Impasses e limites

Se a resposta às perguntas acima vier a ser negativa, como tudo indica, há de se questionar, por um lado, até que ponto os altos índices de aprovação do governo Dilma Rousseff merecem ser motivo de comemoração por significarem apoio e indício de garantia de continuidade de um projeto político que tem como principal mérito a promoção da inclusão socioeconômica de setores historicamente marginalizados da população brasileira.



E, por outro lado, até que ponto os índices são indício dos limites de tal projeto e de sua submissão, por interesses eleitorais, ao conservadorismo (religioso ou não), ao fisiologismo político velho de guerra, à acomodação inerte ante a oligarquia agrária e à plutocracia midiática, representantes do que há de mais arcaico na sociedade brasileira.


(Foto retirada daqui)