sábado, 23 de julho de 2011

Amy e a sociedade da insatisfação permanente

Ainda que soe chocante tal afirmação, seria inexato dizer que o anúncio da morte de Amy Winehouse surpreendeu as pessoas – as inúmeras e frequentes recaídas, as rehabs mil, e o estado físico e psicológico da cantora sugeriam que esse seria um fim provável, ainda que talvez não se esperasse que ocorresse tão cedo.

Mas o fato choca, é claro, pelo que diz sobre os tempos atuais, sobre a interrogação que nos lança a respeito do que nos transformamos enquanto sociedade, sobre a banalidade da vida em uma era em que o consumo de tudo – bens materiais, drogas, fama, embelezamento artificial – tem de ser intenso e insaciável, mesmo que o preço a pagar seja a própria vida.


Comparações
Nas redes sociais, neste momento, chovem comparações entre a cantora e a tríade de jovens mártires da contracultura formada por Jim Morrison, Janis Joplin e Jimi Hendrix – os “meus heróis morreram de overdose” a que se refere Cazuza, outro que cedo nos deixou.

Ainda que as drogas tenham desempenhenhado um papel fundamental em todas essas mortes (incluindo a de Amy, mesmo que a causa mortis venha a ser outra), não parece uma comparação procedente: as mortes dos três músicos dos anos 60 derivam de um mergulho tão desmedido quanto apaixonado num novo modo de vida, anticapitalista, comunitário, em que a primazia do econômico e do racional desse lugar ao cósmico, ao energético, ao intuitivo. E é justamente como meio de intensificação de manifestação destas forças (hoje novamente subvalorizadas) que as drogas - como “expansoras da consciência”, segundo o mote do “papa do LSD”, Timothy Leary -, tiveram então um papel central.



The dream is over
A tragédia maior da morte da tríade de músicos deriva, portanto, justamente da desmistificação não só do poder social das drogas, mas, em um nível muito mais profundo, da evidência da inviabilidade do projeto contracultural de transformação do mundo que Janis, Jimi e Morrison representavam.

“O sonho acabou”, decretaria John Lennon algum tempo depois, relegando os anos 60 – que o crítico neomarxista Fredric Jameson definiu como um período marcado por “uma imensa e inflacionada emissão de crédito superestrutural” - a objeto de culto de jovens de todas as idades, saudosos do que não viveram.

Porém, ainda que os neocons torçam o nariz e que os mais sensíveis se espantem com a comercialização de camisetas de grife com a face de Che Guevara estampada, o legado dos anos 60 permanece como força ideológica e política, como eventos tão díspares como a campanha presidencial de Obama e as novas relações trabalhistas adotadas por algumas das mais avançadas e bem-sucedidas empresas do mundo o demonstram.


Sob a marca do efêmero
O triste fim de Amy Winehouse, cantora de talento evidentíssimo, voz e técnica vocal únicas e excepcional presença de palco, pertence a outro âmbito, o do niilismo e da falta atual de perspectivas, no marco da passagem de “de uma sociedade da satisfação administrada para uma sociedade da insatisfação administrada”, na qual, ante a satisfação de um desejo, a recompensa do ego é tão fugaz que, mal consumado, outra demanda é imediatamente colocada, e assim sucessivamente – como diagnostica Vladimir Safatle, em sua releitura de Lacan. Amy, vida e morte, é só a parte visível de um amplo e preocupante fenômeno, cuja principal vítima é a juventude.

Deriva dessa toada a talvez mais chocante constatação ante a morte da cantora: faz só oito anos que, discretamente, o álbum Frank foi lançado, e três que o sensacional Back in Black chegou às lojas, transformando-a definitivamente em um fenômeno midiático, arrebatando legiões de fãs e fazendo com que seu visual fosse copiado por adolescentes de todo o planeta.

Talvez seja por isso que, embora Amy Winehouse nos deixe aos 27 anos de idade, a impressão é a de que morre uma adolescente. O que traz toda a sensação de desperdício e de necessidade de reflexão social que uma tal perda acarreta.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Meia-noite em Paris, meio-dia na alma

A fase internacional de Woody Allen, que se inicia com o thriller classudo Match Point, logo após uma trilogia de filmes que representou o ponto mais baixo de sua carreira, evidencia, a um tempo, uma capacidade única de abordar com leveza e humor temas universais e, a despeito de seu cosmopolitismo – ou justamente por causa dele-, uma percepção aguda e irônica das particularidades dos locais-temas de suas novas produções, sejam Paris, Barcelona (Vicky Cruistina Barcelona) ou Londres (além de Match Point, a subvalorizada comédia Scoop e o surpreendente Você vai conhecer o homem dos seus sonhos).

Com seu novo filme, Meia-noite em Paris, ocorre, porém, algo mais: como evidenciam os deslumbrantes cinco minutos iniciais – compostos de tomadas plásticas da cidade-luz, de dia, à noite, de grandes bulevares e de pequenas vielas, de cartões-postais e de endereços anônimos, sempre sob um jazz orquestral dos anos 20 – a cidade de Paris é a principal personagem do filme.

Para dar conta de tão fascinante tema, o diretor promove uma incursão estética, sentimental e cultural à capital francesa, em diálogo, a um tempo, com a riqueza de seu passado e com a unicidade de seu fascínio eterno.

Para tanto, a exemplo do que fizera em Rosa Púrpura do Cairo e em Desconstruindo Harry, o diretor novaiorquino vale-se do fantástico. Pois, a partir do momento em que um escritor californiano em crise, Gil (um surpreendentemente sóbrio Owen Wilson), perdido e ébrio numa madrugada parisiense, embarca num calhambeque Peugeot, é transferido para o passado dos seus sonhos, onde passa a conviver com Scott Fitzgerald, a disputar o amor de uma parisiense com Hemingway, a ter seus escritos revistos por Gertrude Stein e a manter diálogos surreais com os jovens Man Ray, Buñuel e Dali (papel no qual Adrien Brody quase rouba a cena, confirmando o grande ator que é).

Ao contrário do que ocorre com alguma frequência em se tratando de Woody Allen, as piadas de Meia-noite em Paris não soam como sketches postiços adaptados à trama, mas retiram sua graça de elementos a ela próprios (como quando Gil sugere a Buñuel um filme no qual os personagens, convidados para um jantar, não conseguissem deixar a casa do anfitrião – sugestão a qual o futuro diretor de O Anjo Exterminador reage com atônita perplexidade).

Woody confirma, uma vez mais, seu incrível faro para boas atrizes no auge do sex appeal, habilidade que se evidenciara em sua carreira diversas vezes antes, com Mira Sorvino em Poderosa Afrodite, com Charlize Theron em Celebridades, Drew Barrymore em Todos dizem eu te amo e, sobretudo, com Demi Moore e Elisabeth Shue em Desconstruindo Harry. Em Meia-noite em Paris a escolhida é Rachel McAdams (de Sherlock Holmes e Díário de uma paixão), a fútil e esnobe noiva de Gil, a quem a câmera enfoca com avidez fetichista, incluindo uma tomada politicamente incorreta para flagrar o derrière da moça e seu rebolado ao caminhar.

Item sempre em destaque nos filmes de Woody, a música, onipresente, é quase uma protagonista a mais em Meia-noite em Paris. Seja no interior da trama (diegética), com Cole Porter ao piano ou Josephine Baker cantando, seja na trilha sonora que vai de Lucienne Boyer a charlestons; nos típicos acordeons da música popular francesa, em guitarras que promovem uma fusão do flamenco com o jazz, ou nas versões solo e orquestrais deste, a impressão que se tem é de uma seleção refinada do melhor da música produzida na Paris do início do século XX, em diálogo, contraponto ou reforço com o universo das imagens.













Em relação a estas, os que ainda alimentavam saudades do grande Carlo Di Ponti, responsável pelos filmes melhor fotografados de Woody – incluindo Todos dizem eu te amo, primeira incursão do diretor novaiorquino por cenários parisienses – têm agora um motivo de alento: a direção de fotografia do iraniano Darius Khondji (A Praia; Delicatessen; Beleza Roubada) dialoga com a tradição pictórica francesa e aposta em cores quentes – laranja e amarelo, notadamente - para a iluminação de rostos e corpos, de forma a destacá-los de um segundo plano escuro e”frio”, com tons predominantes de marrom e verde. O resultado é uma sinfonia visual de alto nível, que atinge seu ponto mais alto na ronda noturna de Gil e da musa dos vanguardistas Adriana (Marion Cottilard, cuja atuação é irregular).

Meia-noite em Paris é um filme para ser visto de bem com a vida, de preferência a dois, para, tal qual os personagens no filme, sair do cinema e continuar vivendo a atmosfera de romantismo e efervescência que Paris evoca e que contagia a todos na tela.


(Imagens retiradas,m respecrtivamente, de 1, 2, 3, 4, 5, 6)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Crise na Europa: alerta para Dilma

A expansão e o agravamento da crise econômica na Europa, com desemprego galopante, recrudescimento da xenofobia e perspectiva de caos social ante os efeitos do receituário neoliberal deveriam servir, no Brasil, como um alerta aos rumos do governo Dilma Rousseff.


Capitalismo midiático
A mídia corporativa permanece atrelada ao projeto neoliberal ao qual aderiu desde que o muro de Berlim ruiu, numa aliança que transcende qualquer fervor ideológico e encontra sua justificativa no fato de o receituário derivado do Consenso de Washington priorizar a multiplicação do capital em detrimento do atendimento a demandas sociais. E mídia e capital, nos dias de hoje, fazem parte de uma simbiose cuja finalidade principal é o acúmulo de poder e de divisas.

Esse posicionamento da mídia gera vicissitudes significativas, impeditivas do exercício do bom jornalismo: em termos de cobertura internacional, significa uma chancela ao receituário recessivo, defensor do Estado mínimo, forjado pelo neoliberalismo, bem como o esforço para desqualificar entes políticos que neste não se enquadrem ou a ele se oponham.


Vozes do mercado
A cobertura que a Rede Globo tem fornecido em relação à crise na Grécia é altamente ilustrativa a esse respeito: o povo, a protestar violentamente nas ruas contra o que entende como uma afronta a seus direitos, é tratado como um ingênuo: "Será que eles sabem o que vai acontecer se a Grécia der o calote?", pergunta Leilane Neubarth, antes de um daqueles seres engravatados e seriíssimos que personificam o mercado assegurar que, independentemente da decisão do parlamento grego (que a semana passada aprovou o tal plano econômico) os bancos e o FMI já haviam se decidido a "ajudar a Grécia". Trata-se de uma "ajuda" que reduz em dois terços as aposentadorias e viola direitos constitucionais, mas isso não é mencionado.

Agora é Portugal quem tem seus títulos da dívida pública rebaixados, por uma agência de classificação de risco, para a categoria “junk” – ou seja, lixo, na tradução sem hipocrisia de Rodrigo Viana. Embora noticie com gravidade tal rebaixamento, a mídia corporativa, uma vez mais, deixa de fazer sua obrigação e “se esquece” de questionar o porquê dessas mesmas agências não terem previsto a crise das hipotecas nos EUA, que levou tantos investidores à bancarrota e está no cerne da presente crise econômica mundial, e nem porque os próprios EUA, que há dezenas de meses não conseguem sair do buraco em que se meteram, a despeito de um estrilho teatral, continuam a receber bons graus de investimento.

A mídia não o faz, desnecessário dizer, porque tanto quanto tais agências de classificação de risco são uma criação do próprio mercado financeiro - em aliança com os países ricos -, para imposição de seus próprios ditames, os meios de comunicação se transformaram, nas últimas décadas, em correia de transmissão do financismo internacional, instrumentalizado para, como observa Muniz Sodré, naturalizar, difundir e assegurar a hegemonia da economia neoliberal de mercado.


Outro mundo é possível?
Enfrentar os grandes grupos de mídia e buscar soluções que preservem direitos humanitários para a crise de endividamento de economias nacionais, contrapondo-se assim à ditadura do pensamento único que as corporações financeiro-midiáticas tentam impingir, são, portanto, medidas imprescindíveis na agenda da esquerda mundial.

É preciso levar em conta tais fatores para contextualizar corretamente a decepção que o governo Dilma vem causando a setores cada vez mais volumosos da esquerda brasileira. Pois, herdeira e continuação de um governo que, em plena crise econômica mundial, ousou ir na contramão e postar na expansão do crédito, na ampliação dos programas sociais e no fortalecimento do Estado, esperava-se da mandatária que comandasse, tanto no contexto nacional quanto no âmbito de sua liderança internacional, o aprofundamento de um modelo alternativo ao neoliberalismo.


Promessas ao léu
Trata-se de uma possibilidade perdida, pois o que se vê, de fato, é uma inação condescendente aos desígnios do mercado, traduzida em uma série significativa de incompatibilidades entre promessas e ação:

  1. Ao contrário do que foi prometido em campanha, sacrifícios no orçamento para atingir superávits tão volumosos quanto desnecessários;
  2. Ao contrário do que foi prometido em campanha, a volta das privatizações, agora acompanhada da moda – estranhíssima em uma democracia – dos contratos sigilosos;
  3. Ao contrário de uma campanha que prometia prioridade à educação, a contenção de despesas relativas às novas universidades federais, abastecidas de professores temporários com salários de substitutos e direitos trabalhistas precários, ao invés dos mestres e doutores que estudaram anos e anos para cumprir tal função;
  4. Diferentemente do prometido em campanha (e exaustivamente repetido pelo ministro Paulo Bernardo), um PNBL fajuto, feito com internet móvel “onde não for possível instalar internet fixa” e sem possibilidade efetiva de controle (e punição em caso de não-cumprimento do previsto) por conta do governo. Ou seja, perfeitamente de acordo com as premissas que os neoliberais adoram: tudo na mão da iniciativa privada e sem possibilidade de intervenção do Estado.

Governo de centro-esquerda?

Nesse cenário, Dilma Rousseff permanece impassível enquanto a oposição e os setores mais conservadores da mídia praticam o costumeiro jogo de derruba-ministros. O que muitos vêem de forma positiva, como uma postura cool e finamente discreta da presidente, tem, na verdade, gerado um vácuo e um silêncio que vêm sendo espertamente ocupados por vozes do mercado financeiro, que voltaram a ter, hoje em dia, o protagonismo midiático do qual desfrutaram até o final do primeiro governo Lula.

Ou seja, a hegemonia discursiva já está de novo na mão do neoliberalismo - resta saber, levando em conta que setores crescentes do funcionalismo público acenam com protestos e greves, se e o que Dilma vai fazer quando a insatisfação crescente dos que a apoiaram vier à tona: se dizer a que, enfim, o seu governo alegadamente de centro-esquerda veio, ou fechar com o conservadorismo velho de guerra que deu o tom de seu primeiro e decepcionante semestre à frente do país.