sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

127 horas supera desafios

Se no Oscar houvesse prêmio para Melhor Abertura de Filme, 127 Horas seria o favorito. Utilizando-se da divisão de tela (split-screen) em três faixas verticais, aliada a uma pulsante trilha sonora pop, ela evidencia, em belas imagens num impressionante trabalho de montagem, o desejo humano por aventura e ainda cumpre a função narrativa de introduzir o contexto em que o jovem protagonista sai, sozinho, para uma jornada de esportes radicais (biking, montanhismo e mergulho).

O tema do filme, baseado numa história real relatada em livro por quem a protagonizou– a desventura do montanhista Aron Ralstom (encarnado com garra por James Franco), que, em um cânion deserto de Utah, teve seu braço preso a uma rocha por 127 horas, antes de tomar uma medida extrema para libertar-se – impõe um grande desafio cinematográfico na forma de não-variação espacial e de imobilidade e falta de ação do protagonista , dificuldade agravada pela relativamente baixa compressão do tempo (pouco mais de 127 horas em 92 minutos).

De início, o roteiro de Simon Beaufoy e do também diretor Danny Boyle (de Trainspotting e Quem quer ser um milionário?) convida o espectador a identificar-se com o aventureiro e compartilhar de suas sensações enquanto pedala ou caminha entre as montanhas de rocha do enorme parque nacional. Quando o protagonista conhece duas jovens perdidas no lugar e - numa sequência que remete a A praia, dirigido pelo mesmo Doyle - as leva para mergulhar em um poço azul entre as rochas, a excelência visual do filme, com as cores fortes e a iluminação eventualmente saturada que são a marca registrada do diretor, torna-se ainda mais evidente.

Porém tais sequências iniciais ocupam apenas 20 dos 92 minutos de duração do filme – que, somados aos 21 minutos pós-auto amputação do antebraço, deixam ao diretor e aos roteiristas a dura missão de entreter o espectador por longos 51 minutos tendo como tema tão somente um homem preso a uma pedra.

E a forma como eles levam a cabo tal tarefa é admirável: além de explorar com inteligência e criatividade o uso que o protagonista faz de sua câmera portátil para registrar seu drama e de otimizar o tanto a exploração gráfica do espaço adjacente às rochas quanto o uso da trilha sonora do indiano A. R. Rahman (Quem quer ser um milionário?), a narrativa vale-se de sonhos durante o sono, delírios induzidos pela degradação das condições físicas de Aron (sem água e sem comida nos últimos dias) e uma visão premonitória para, na prática, introduzir tramas paralelas que trazem diversificação dramática e espacial e permitem ao filme (e ao espectador) respirar.

Indicado a seis Oscar – filme, roteiro, ator, edição, trilha sonora, canção e edição -, 127 horas supera os desafios que o tema impunha graças, em grande parte, ao roteiro. Mas este seria apenas uma fonte literária de eventos bem encadeados, não você seu uso pela direção segura e criativa de Boyle, a qual, aliada à excelência da direção de fotografia (do equatoriano Enrique Chediak, que filmou Besouro no Brasil, e de Anthony Dod Mantle) torna o filme, de fato, um espetáculo cinematográfio grandioso. Assim, a não-indicação ao Oscar de Diretor e de Direção de Fotografia é não só uma injustiça, mas uma incongruência.


(Imagens retiradas, respectivamente, daqui e dali)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Primavera digital chega ao fim

O debate político brasileiro vive um momento tenso e contraditório. Embora seja inegável o salto qualitativo propiciado por uma maior penetração de blogs não-corporativos nos dois ou três últimos anos, certos vícios que caracterizaram a atuação de setores da blogosfera no período cobram, enfim, o custo de sua incongruência.

Pertence à lógica mais elementar, inescapável, a conclusão de que se o governo Dilma impinge ao país, neste momento, um duríssimo choque anticíclico - como não se viu igual sequer no turbulento início da presidência de Lula, herdeiro da “herança maldita” tucana – o faz porque há um grave problema com as contas deixadas pelo ex-presidente. Negar a evidência de um pronunciado déficit equivale a incorrer em desonestidade intelectual em nome de interesses político-ideológicos[1].

E distorcer os fatos em nome de tal modalidade de interesses é precisamente a acusação que, de forma muito justa, é recorrentemente feita contra a mídia corporativa. Portanto, os blogueiros que apoiam incondicionalmente o governo, não importando quão graves sejam as medidas que este toma, não estão se apercebendo do risco de se igualarem ao “Pig” que tanto criticam.


Dicotomias burras
De minha parte, estou cheio dessas divisões absolutistas e maniqueístas entre nós (os puros) e eles (os corruptos), PT x PSDB, blogosfera independente x mídia corporativa, Lula x FHC, Brasil x EUA. Que me desculpem os fanáticos, mas o mundo não é em preto e branco.

Também me encheu o simplismo fácil com que se usa o termo multiuso PIG (Partido da Mídia Golpista) como explicação para todos os males que nos afligem, como se uma atividade complexa e que envolve milhares de profissionais pudesse ser sempre, inapelavelmente, em qualquer contexto, associada a um rótulo jocoso que não poucas vezes tem servido de bode expiatório e de desculpa para que a esquerda deixe de olhar para seu próprio umbigo e reconhecer seus erros e contradições.

E, por fim, embora considere Lula, disparado, o melhor presidente que o país já teve, não estou disposto a consentir com seu processo de canonização e mitificação, em pleno andamento, e que o presume um ser perfeito, imune a mancadas ou erros e isento de responsabilidades, com uma manada feroz atacando, a la Inquisição Espanhola, quem ousa fazer qualquer restrição ou crítica. Ora, uma das grandezas maiores de Lula, tanto no espectro político quanto humano, é precisamente ter aprendido com seus erros e derrotas e a partir deles se aprimorado para se tornar o excelente presidente que foi e o notável ser humano que é. Santificar Lula, na verdade, o diminui, ao invés de engrandecê-lo.


Cai na real, blogosfera
Não bastasse essa crise ética que se manifesta em setores da blogosfera e os torna similar, em dissimulações interesseiras, à mídia corporativa que tanto criticam, Dilma Rousseff, após ter dispensado, por conta do episódio da licença Creative Commons no MinC, um tratamento no mínimo desrespeitoso aos ativistas digitais que tanto a apoiaram, presta-se ao lamentável papel de voar de Brasília para São Paulo para prestigiar, ao lado de toda a fauna tucana, os 90 anos da publicação que mais decaiu eticamente no Brasil na última década, a ponto de dar voz a um aloprado que “denunciou” Lula como estuprador e de estampar ficha policial falsa da pré-candidata Dilma na capa. E compareceu à festa na capital paulista sem um mísero pedido de desculpas em troca.

Ante a reação indignada de setores da blogosfera contra esse autêntico tapa na cara dos que, gratuita e dedicadamente, tanto lutaram pela candidatura Dilma e contra a mídia corporativa que a Folha representa, a reação foi um histérico cala-a-boca, seguido de tentativas grosseiras de desqualificação do interlocutor. Mal posso acreditar que depois de todos os escândalos e absurdos de um jornal que denunciei implacavelmente, vivi para ver alguns petistas igualarem-se a Marcelo Tas e elogiar a Folha por gozar as próprias mancadas. Foi um espetáculo doloroso.

O “argumento” dos que defendem incondicionalmente a presença de Dilma na Barão de Limeira? "Não era a pessoa Dilma Rousseff quem lá estava, mas a presidenta". Trata-se de uma premissa duplamente falaciosa: em primeiro lugar, porque não é possível dissociar uma de outra, e foi uma presidenta esquerdista, ex-guerrilheira, de um governo vilipendiado pela imprensa quem o povo brasileiro elegeu. Em segundo porque não há razão objetiva nenhuma para um presidente prestigiar a festa de um grupo privado de comunicação, ainda mais sendo este um dos principais responsáveis pela derrocada ética do jornalismo brasileiro. Se Dilma acha que com esse gesto angariará a leniência dos Frias então estamos mesmo perdidos.


Momento é de Desencanto
A nova presidente fez sua opção, e é pela mídia corporativa. Seu desprezo pela militância virtual que a ajudou a eleger-se é evidente e mesmo se algum desagravo vier a público nos próximos dias será meramente reativo, prêmio de consolação. O simbolismo do gesto da presidenta acabou por transferir a crise, da imprensa para a blogosfera.

Foi, como disse, um tapaço na cara da blogosfera – o qual, espero, derrube nossa auréola, faça-nos despertar e sair da bolha de certezas e auto-congratulação em que muitos de nós nos metemos. Aliás, uma das coisas mais assustadoras no maravilhoso mundo não tão novo dos blogs é seu excesso de certezas e escassez de dúvidas, o seu sem-número de opiniões mas sua carência de embasamento.

De minha parte, neste momento de desencanto, sinto que o momento é de voltar aos livros, buscar na sabedoria de longo prazo que só eles oferecem inspiração e subsídios para entender mais esse tremendo retrocesso da esquerda brasileira.
Eduardo Guimarães afirmou ontem que perdeu muitos negócios por conta da dedicação a seu blog e à militância virtual; eu, para me dedicar a esta e a este espaço bem mais modesto, não perdi dinheiro, mas adiei o lançamento de livros e diminuí minha produção como autor acadêmico. É momento de rever prioridades e de aquietar meu lado militante e minha identificação com movimentos e partidos. Este blog continuará, mas com uma pauta mais diversificada e com textos mais leves, fiel à paixão ao jornalismo, ao cinema e à cultura em geral.
A despeito de seu triste e revoltante final, foi gratificante tomar parte da primavera digital. Mas, como diz a canção, todo carnaval tem seu fim.

[1] No que concerne especificamente a tais problemas de caixa, a minha crítica não é a Lula por tê-la deixado – isso fatalmente aconteceria no bojo de um crescimento expressivo da economia, ainda mais em ano eleitoral -, mas à retomada da ortodoxia neoliberal promovida por Dilma para lidar com a questão, priorizando uma vez mais o mercado e o grande capital - em detrimento de assalariados e desempregados - ao invés de adotar medidas menos traumáticas, alongando o perfil do pagamento da dívida e fazendo valer o poder de barganha que o Brasil, ótimo pagador, angariou nos últimos anos. Porém, o próprio esforço dos que não admitem nenhuma crítica a Lula ou a Dilma para negar o buraco no caixa é sintomático do quão contaminados estão por premissas do ideário neoliberal no que tange à administração da macroeconomia do país. É a prova da presença insidiosa do neoliberalismo em mentes que se crêem de esquerda.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O retorno do neoliberalismo

Falar em retorno do neoliberalismo é uma imprecisão, pois ele nunca deixou de estar entre nós.

Havia, porém, em alguns setores, sobretudo após o segundo mandato de Lula, a esperança de que a ortodoxia econômica dos primeiros anos de governo - nos quais a única diferença entre Palocci e Malan era a barba – fosse página virada, e que o neokeyseanismo que dominou o segundo mandato, aprimorado, acabasse por constituir-se em modelo orientador da política econômica.

Entretanto, o anúncio de um vultoso corte de R$50 bilhões no orçamento federal, da suspensão de concursos e nomeação de aprovados e, sobretudo, da meta de zerar o déficit nominal, vem corroborar diagnósticos mais céticos, mesmo entre os que reconhecem os méritos sociais da administração Lula.

Entre os que acreditavam na possibilidade de aprofundamento das conquistas da Era Lula, com maior clareza e coesão político-ideológica, o retorno abrupto à ortodoxia neoliberal logo no início do governo e incluindo congelamento de contratações significa um tremendo retrocesso e instaura um profundo desencanto. Mesmo porque as implicações de tal decisão, levada em conta a atuação assumidamente partidária da mídia, podem ser, na prática, ainda mais graves.

Pois ao promover a volta da ortodoxia econômica Dilma facilita tremendamente a encenação do teatro midiático golpista.


Teatro midiático
Trata-se de uma peça em três atos: no primeiro contrapõe-se favoravelmente Dilma a Lula, não só exaltando o estilo da primeira em relação aos modos alegadamente broncos de seu antecessor, mas procurando também responsabilizá-lo, entre outras maldades, por uma herança maldita na forma de contas estouradas.

No segundo ato, como fez na temporada 2005, a peça assume tons histriônicos: a mídia superestima e publiciza ao máximo eventuais denúncias de corrupção no governo Dilma – que, dada a estrutura político-administrativa brasileira, fatalmente ocorrerão -, procurando jogar a responsabilidade para a presidenta.

No terceiro e último ato, estabelecida a excelência das políticas neoliberais e pespegado o rótulo de corrupta na administração dilmista, chega o momento de contrapor a capacidade administrativa da presidente “novata” e “corrupta” aos “experientes gestores” tucanos, isentos de qualquer denúncia grave de corrupção pela própria blindagem que a mídia lhes oferece. Será então a hora de fazer uso midiático não só da brigada demotucana (note-se, a respeito, que não obstante sua derrota eleitoral, Álvaro Dias continua com cadeira cativa no telejornalismo global) como dos políticos quinta-coluna que a mídia mantém na base aliada.


Passividade e intransigência
O que setores da esquerda, iludidos pela lua-de-mel entre a mídia e a presidenta, relutam em enxergar é que a estratégia econômica de Dilma está facilitando tremendamente a dramaturgia midiático-golpista, pois pertence à lógica elementar, inescapável, a constatação de que, se o aperto na economia é tão urgente quanto as medidas adotadas sugerem, é porque há, de fato, graves problemas de caixa na herança deixada pelo governo Lula. E isso fatalmente será utilizado contra a administração petista quando a mídia reposicionar suas peças no tabuleiro.

Em nome dos próprios ideias que defendem, é preciso que a sociedade e os setores progressistas que elegeram o novo governo reajam o quanto antes a esse retrocesso político, ideológico e administrativo, o qual, em um movimento inaceitável em uma democracia que se quer avançada, contraria frontalmente o discurso eleitoral de Dilma.

Ao invés disso, o que se vê é uma atitude que oscila entre a aceitação passiva, "vamos deixar como está para ver como é que fica" e a patrulha ideológica que procura desqualificar qualquer voz dissonante, como se criticar o governo Dilma significasse automaticamente realinhar-se com a mídia e os setores conservadores - quando, como sugerido acima, é precisamente o apoio às medidas anunciadas por Dilma o que mais interessa neste momento à mídia corporativa para compor sua estratégia de poder.


(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Governo Dilma: início preocupante

Não restam dúvidas de que o aumento mundial dos preços das commodities é, atualmente, um fator de inquietação a gerar tensões inflacionárias no exterior e, em decorrência, no Brasil. Tais pressões se mostram agravadas, no caso brasileiro, não só pelos efeitos deletérios da inepta sobrevalorização do real em relação ao dólar – a qual, de longa duração, tem afetado duramente setores industriais nacionais -, mas por dois fatores decorrentes da ampla expansão de crédito verificada no biênio final do governo Lula: a inflação especulativa gerada pela alta demanda por determinados produtos e serviços e (em parte como desdobramento desta) a iminente possibilidade de um estouro da bolha de consumo na forma de inadimplência em cadeia

Portanto, é forçoso reconhecer que há motivos reais de preocupação na seara econômica – a expansão do crédito interno, se foi um fator fundamental para que no Brasil a crise econômica mundial não passasse de uma “marolinha”, cobra agora, num cenário de alta inflacionária mundial, o seu preço.

É como reação a tal cenário que se inserem as principais medidas do início do governo Dilma, como a meta de zerar o déficit nominal [gastos menos despesas, incluindo pagamento de juros], em nome do qual se anuncia um corte de R$50 bilhões no orçamento (o qual, a despeito do que declara o governo, fatalmente reincidirá sobre áreas sociais); um salário mínimo sem aumento real, fixado em módicos R$545,00; e a suspensão de novos concursos e de contratação de aprovados em concursos anteriores (no âmbito federal, é claro).


Déjà-vu
Tudo isso torna o início do governo Dilma incrivelmente parecido com a primeira presidência de Lula, cujo biênio inicial no poder, com Palocci à frente do Ministério da Fazenda, foi marcado por um aperto macroeconômico de diretriz neoliberal ainda mais severo do que à época de FHC/Malan. Cristãos novos tendem a ser mais fanáticos, diz o ditado.

Como a repetir tal dinâmica, o governo Dilma anuncia que não se contentará em manter um alto superávit primário [gastos menos despesas, sem contar pagamento de juros], mas, como já mencionado, quer zerar o déficit nominal. Se levada efetivamente a cabo, trata-se de uma medida que exigirá restrições orçamentárias de efeitos sociais potencialmente devastadores.

Desnecessário assinalar que a situação enfrentada por Lula em 2003 era incomparavelmente mais grave do que a atual, com o país tendo ido à bancarrota três vezes e uma quebradeira total a la Argentina ainda antes da posse só evitada por um empréstimo tomado, com o aval do presidente norte-americano George W. Bush, junto ao FMI, o qual impôs as medidas de cunho neoliberal acima referidas, notadamente o comprometimento com um alto superávit primário e um Banco Central independente (se não no papel, na prática, como de fato se manteve, Meirelles à frente, até o final da segunda presidência de Lula).

No caso do ex-presidente, essas medidas iniciais acabaram por se provar fundamentais para que o país tivesse lastro para bancar, sobretudo via setor público, o aumento de empregabilidade, crédito e, em decorrência, mercado, que não só possibilitou superar olimpicamente a crise mundial mas promoveu a ascensão de uma nova classe média, sem deixar de reduzir de forma expressiva a pobreza via programas sociais.

Deve-se, em relação aos acontecimentos atuais, levar em conta tal dinâmica, sobretudo no que diz respeito a um governo em estágio embrionário e reiteradamente comprometido não só com o modelo de desenvolvimento socialmente includente erigido por Lula mas com a bandeira de um Estado com participação ativa na economia.


Simbologia do aumento do mínimo
Ainda assim, destrinchado o contexto e feitas tais ressalvas, a recusa por um aumento real do salário mínimo não deixa de soar como uma medida excessiva, prescindível e socialmente inadequada, além de geradora potencial de um grande desgaste político-eleitoral.

O salário mínimo de R$545,00 (cerca de U$320) é incomparavelmente maior do que na era FHC, em que a meta, poucas vezes atingida, era equipará-lo a U$100. Não passa, portanto, de oportunismo eleitoral a defesa de um mínimo de R$600 por parlamentares tucanos. Por outro lado, é também irreal (como de costume), pois inexequível, o clamor por R$700 mensais bradado pelo PSOL.

Mas se o compromisso do governo Dilma é de fato com a continuidade e o aprimoramento das conquistas da era Lula, o coerente seria a concessão de um aumento real do salário mínimo, ainda que, dadas as pressões econômicas, pequeno. Certamente há, no enorme montante de dinheiro público que escoa para os ralos do setor financeiro, um aporte de verbas qualquer capaz de permitir tal aceno simbólico aos que deram seus votos para um projeto político progressista.


Medida arbitrária
Talvez mais grave do que a questão salarial é a contingência de contratações e concursos anunciada ontem (15/02). Trata-se de uma medida perigosa para o bom funcionamento das instituições federais, em um momento em que um salto de qualidade em alguns setores parece prestes a ocorrer; é, ainda, passível de ser identificada como um flanco aberto pelo governo ao render-se ao discurso de enxugamento da máquina, que os setores conservadores berram reiteradamente, alegando aparelhamento estatal; e, mais grave, vai frontalmente contra os compromissos que a própria Dilma defendeu publicamente, inclusive no discurso da posse.

Tanto a recusa pelo aumento real do mínimo quanto, sobretudo, a suspensão de concursos e contratações soam extremamente mesquinhas - além de fornecer motivos concretos para alimentar temores quanto às posições de Dilma que a presença de Palocci no governo só faz incitar.

O governo mal se inicia, mas, é forçoso constatar, se inicia mal. Merece, sem dúvida, um voto de confiança e um prazo bem maior que um mês e meio para dizer a que veio. Porém, não reconhecer a inadequação, a orientação antissocial e o caráter intrinsicamente neoliberal das medidas acima referidas equivale à omissão.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Ronaldo e os urubus

“No Brasil, o sucesso é ofensa pessoal” – a frase, cunhada por um brasileiro bem-sucedido no país e no exterior – o “maestro soberano” Tom Jobim -, vem uma vez mais à baila no rastro das reações da mídia à aposentadoria de Ronaldo.

Dá até para entender que o casamento-relâmpago com uma beldade popular e farras sexuais que escandalizam os escandalizáveis sejam explorados à exaustão por revistas e colunas de fofocas. Agora, que publicações esportivas ou portais voltados ao público em geral insistam em tais temas no momento em que anuncia sua aposentadoria um dos maiores craques do país, duas vezes campeão mundial (e uma vice) e maior artilheiro da história da Copa do Mundo, é algo que é jornalisticamente inaceitável.

Corrobora não apenas a grave crise do jornalismo esportivo do país, dominado por figuras que se autopromovem à custa de falsas polêmicas e do neomoralismo mais tacanho, mas o quanto o complexo de inferioridade nacional – que se propagou e atingiu seu auge durante o neoliberalismo caboclo de FHC – continua a impregnar as mentes de nossos homens de imprensa, a despeito da evolução do país.

Essa inversão de valores atingiu o paroxismo no portal Ig, em que uma longa matéria elencava não o talento, os gols, as recuperações de fênix de Ronaldo após contusões seriíssimas, mas suas mancadas (ganho de peso, farras), “escândalos” (Cicarelli, travestis), polêmicas (com o ex-presidente Lula, com o “comentarista” Neto, com o inacreditável Datenão),

Tal distorção faz com que as especulações levianas acerca da sexualidade de Ronaldo dominem a cena: - “O que será que assustou a Cicarelli, he, he, he?” – Será que o negócio do “fenômeno” é traveco, ra, ra, ra? ”, perguntam-se, línguas mordazes, os que projetam suas frustrações no controle da vida alheia.

Ora, as preferências sexuais de cada um pertencem ao âmbito privado. O que há por trás da reação estridente ao caso de Ronaldo com o travesti é, sobretudo, a velha e usual homofobia em clave histérica, açulada por uma mídia leviana. O que me escandaliza nesse caso são as reações, e não o que o Fenômeno fez ou deixou de fazer.

De minha parte, no que concerne à aposentadoria de Ronaldo, prefiro ficar com o testemunho informado e elegante de um jornalista esportivo com décadas de estrada e que paira metros acima da lama corrente.


(Imagem retirada daqui)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Por uma imprensa justa

Em uma mesa de bar, entre goles de chopp e uma beliscada no filé aperitivo, dois amigos jogam conversa fora:
- Cê viu a última da nossa mídia?

- O que aprontaram dessa vez? – pergunta o outro, mais velho, com uma inflexão na voz que evidencia um certo fastio do tema.

- Deram pra exaltar a Dilma, mas só como forma de diminuir o Lula...

- Ué, mas o homem ficou oito anos no poder, o governo dela mal começou...

- Pois é, mas o negócio deles é desconstruir o Lula, com medo de 2014...

- Mas não adianta, não apitam mais nada esses caras. Quem liga para o que eles falam? O que vale é voto na urna...

- Pode até ser, mas a questão é que temos o direito de lutar por uma imprensa justa. Não vou nem dizer imparcial, que isso não existe, mas uma imprensa que retrate os fatos, que critique o criticável mas que também reconheça os méritos.


Niilismo x crítica construtiva
O diálogo acima, que não é fictício, evidencia duas das posições mais evidentes no debate público atual, no que concerne às relações entre imprensa e política: de um lado, a completa indiferença em relação à imprensa, aliada à confiança no poder decisório do povo que as três últimas eleições corroboraram; de outro, a ênfase na importância de se seguir denunciando as práticas condenáveis da imprensa e em lutar pelo aprimoramento da atividade midiática como um todo.

Grande parte da blogosfera parece se aliar ao primeiro caso: a imprensa é um inimigo a ser combatido, ponto final.


O perigo das generalizações
É exemplar disso a adoção do termo PIG (significando Partido da Imprensa Golpista), que se tornou corrente nos blogs e redes sociais para designar a grande mídia. Evito fazer uso dessa denominação por acreditá-la por demais generalizante: pretender que a imprensa aja sempre de um mesmo modo, golpista, é desclassificá-la a priori, concebendo-a de forma monolítica e impedindo qualquer análise mais nuançada. A meu ver, esse maniqueísmo pré-estabelecido entre os justos (nós) e os abomináveis (a mídia) não só torna a crítica à imprensa menos efetiva mas pouco capaz de angariar novos leitores interessados em argumentação e análise.

Por outro lado, o alto grau de pregnância do termo PIG e o quanto ele se tornou corrente evidencia que há uma percepção, amplamente difundida, de que há algo de profundamente errado, institucionalmente inaceitável, no comportamento da mídia de forma geral: uso de ficha falsa de candidata presidencial na capa da Folha de S. Paulo, a edição do Jornal Nacional referente à “bolinha do Serra”, o artigo de Cesinha difamando Lula, as denúncias jamais comprovadas que a Veja estampou em capas – os exemplos são inúmeros e de alta gravidade.


Colunismo obscurantista
Piora esse quadro a atuação dos que antigamente eram chamados de “formadores de opinião” - função que, se é que um dia foi de fato exercida, tornou-se inapelavelmente anacrônica na era da comunicação interativa. Com efeito, os colunistas de política dos grandes grupos de mídia se tornaram, de maneira geral e com raríssimas exceções, meras correntes de transmissão da ideologia (quero dizer, dos interesses) da plutocracia midiática.

Embora com diferentes origens e formações, os principais colunistas de nossa mídia hoje têm em comum a aderência cega ao ideário neoliberal (incluindo ojeriza ao setor público, ao Estado, a políticas sociais e sacralização da esfera institucional privada), antipetismo e ódio a Lula (incluindo sua formação, história, popularidade e sucesso). Jabor, Kramer, Cantanhêde, Merval, a turma da Veja... a lista é enorme e qualquer leitor/espectador eventual saberia identificá-los. Justamente devido ao seu grau de comprometimento ideológico representam o obscurantismo a que está relegada a nobre função de colunista, que idealmente deveria ser o responsável por aprofundar temas, desenvolver análises, clarificar perspectivas.

Tal fenômeno agravou-se devido ao que eu chamaria de “contágio interno” – ou seja, à tendência, dos poucos jornalistas opinativos potencialmente capazes de manter certa independência, de repercutir tão-somente a mídia corporativa, fiando-se em um discurso jornalístico viciado na origem e recusando o novo universo comunicacional sem o qual o contraditório – essencial para a comunicação democrática – praticamente não teria sido produzido nos últimos anos.


Comparações desmitificadoras
Essa terrível situação a que chegou nossa mídia tem produzido consequências negativas não só para si – o que é plenamente justo -, mas, ao instaurar uma desconfiança generalizada contra a imprensa enquanto instituição, contra a atividade jornalística como um todo. Ou seja, ao invés de combater certa estrutura comunicacional e, no interior desta, certos veículos, muitos preferem condenar o jornalismo. É como se, devido a erros médicos consecutivos, as pessoas decidissem exterminar a medicina.

Nesse cenário raivosamente anti-imprensa, grassam generalizações que não resistem a análises comparativas minimamente rigorosas.


Aspirações viáveis
Em primeiro lugar, à contraposição da imprensa brasileira à internacional. O ofício de colunista acima referido continua prestigiado tanto nas grandes publicações dos EUA e da Europa (e, por exemplo, no Página 12 da Argentina) quanto, sobretudo, em aguerridos periódicos de médio e pequeno porte – que tanta falta fazem ao panorama jornalístico brasileiro - tal como Le Monde Diplomatique, Salon, Mother Jones, entre outros.

Malgrado a indissolúvel ligação entre capitalismo e imprensa, a experiência internacional comprova que, dados os inevitáveis descontos, se não se pode sonhar com a inatingível imparcialidade, é plausível reivindicar uma imprensa justa, profissional, ética. Afinal, há toda uma deontologia do jornalismo que deve servir, também no Brasil, para algo além de motivo de piadas.

Em segundo lugar, a presunção amplamente difundida de que a imprensa brasileira sempre se comportou como “PIG”, ou seja, sempre foi extremamente tendenciosa e atrelada ao poder, se se sustenta em linhas gerais – afinal, umas poucas famílias e tipos como Assis Chateaubriand sempre mantiveram o monopólio sobre os principais veículos -, só com o auxílio da má-vontade ou do desconhecimento histórico resiste a um olhar mais detido.


Tempos idos
Afinal, como negar que, a exemplo dos veículos internacionais de pequeno e médio porte acima citados, a revista Senhor, Pif-Paf, O Pasquim, Realidade fizeram grande jornalismo? Como negligenciar o tremendo feito jornalístico (e de contra-reação cívico-política) que foi o Última Hora de Samuel Wainer, como olvidar uma trajetória jornalística como a de Pompeu de Souza, quixote de tantas batalhas e introdutor do lead na imprensa brasileira (no Diário Carioca), ou ainda, para utilizar-me de um exemplo mais recente, a resistência de Helio Fernandes e seu Tribuna da Imprensa?

O notório apoio de setores da imprensa ao regime militar (incluindo empréstimo de peruas de um jornal paulista para transportar torturados) deve, evidentemente, ser sempre lembrado e reprovado, mas daí a, valendo-se de ódios do presente (ainda que em sua maioria justificados) omitir que o grande Jornal do Brasil dos anos 60/70 e a Folha de S. Paulo (repaginada por Claudio Abramo) dos anos 80 inovaram qualitativamente a cobertura política e cultural da imprensa brasileira é apostar no obscurantismo.


Para além das ideias
E apostar no obscurantismo é igualar-se, em estratégia, ao que grande parte da mídia corporativa brasileira tem feito. Com o agravante que, ao se apostar na negação e destruição da mídia por razões político-ideológicas, negligencia-se a possibilidade de revitalização econômica de um setor com grande potencial de expansão, presença como arena pública e empregabilidade.

Na blogosfera, a guerra de muitos é contra a imprensa e a mídia - qualquer imprensa, qualquer mídia, à maneira anarquista ("Hay gobierno soy contra"), desqualificando-as a priori. Não é o caso deste blog: nossa luta é pelo aprimoramento democrático da imprensa, através da crítica à mídia via argumentação; da denúncia comprovada de seus eventuais erros, distorções e tendencionismo; da análise comparativa transnacional; e do debate de medidas governamentais para democratização do setor.

Não acreditamos em enfrentamento de forças estanques e desiguais, em ódio mútuo, mas em um combate de longo prazo, de resultados paulatinos, visando ao aprimoramento da mídia enquanto ente político-comunicacional e como setor econômico-social empregatício.


(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Novo Dicionário da Imprensa Brasileira (2a ed.)


Blogs – São sujos.

Censura – Refere-se a toda e qualquer regulação que afete o sagrado direito da imprensa de difamar, mentir e agir como partido político.

Checagem de informação – Hábito dispendioso e supérfluo. Pode perfeitamente ser substituído pela publicação da seguinte nota: “Não foi possível confirmar a informação, tampouco desmenti-la”.

Conjunções adversativas – Devem ser utilizadas sempre que for inevitável divulgar algum fato positivo referente ao governo ao qual a imprensa corporativa se opõe. Por exemplo: “Desemprego no Brasil é o menor da história, MAS quilo da banha aumenta 0,34%”.

Diploma de Jornalista – Papel pintado e sem valor. Deveria ser vendido em papelarias.

Direito à informação - Direito assegurado ao público de receber as versões dos fatos tais como auferidas, editadas e formatadas pela imprensa de modo a moldá-las aos interesses desta.

Direito de Resposta – Extinto pelo venerando Gilmar Mendes após o fim da famigerada “Lei de Imprensa”, foi substituído pelo direito da mídia de continuar reiteradamente produzindo acusações, mesmo sem provas (ver verbete Presunção de Culpa).

Ditador – Modo obrigatório de se referir a mandatários, eleitos ou não, que não se aliam aos EUA e, portanto, contrariam a visão de mundo da imprensa. Já ditadores de fato, mesmo se há 30 anos no poder (como, por exemplo, o presidente do Egito, Hosni Mubarak), sendo aliados dos EUA, devem ser tratados como “Presidente”.

Expert – Como a etimologia do termo sugere, aquele que se destaca por ser especialista em sua área. Ou seja, especialista em justificar ou defender, em linguajar a um tempo acessível (para se fazer entender) e pseudo-técnico (para simular conhecimentos superiores, inacessíveis aos demais mortais) políticas econômicas, administrativas e fiscais que interessem à corporação midiática para a qual trabalha.

Feminismo – Tema exótico, a ser tratado, com leveza e feminilidade, nas seções de variedades dedicadas às mulheres.

Hipótese – O mesmo que fato.

Imparcialidade – Diz-se da capacidade de um órgão de imprensa (e, em decorrência, de seus jornalistas) de apoiar determinado candidato ou partido político sem assumir publicamente tal apoio.

Investimento público – Despesa abominável e desnecessária, pois o Estado deve deixar que o mercado regule a economia. As únicas exceções são a verba publicitária do governo, o investimento em infra-estrutura de comunicação e o dinheiro doado a fundações dos grandes grupos de mídia.

Jornalista profissional – Serviçal mal remunerado, cuja função é repercutir os interesses da empresa em que trabalha. Servilismo, capacidade de bajulação, pouca bagagem cultural e ausência de espírito crítico são suas principais qualidades. A falta de caráter é altamente desejável.

Liberdade de expressão – Diz-se do direito da imprensa de publicar o que quiser e como quiser, de acordo ou não com parâmetros éticos e deontológicos consagrados. Inclui o direito de omitir, reduzir a trecho(s) ou editar de forma manipulatória - inclusive para produzir sentido contrário ao que foi dito ou constatado - relato de atos, fatos, discursos e falas de terceiros.

Liberdade de imprensa – Segundo tese defendida publicamente pelo ministro do STF Carlos Ayres Britto, sumarizada em artigo de Eugênio Bucci, “A liberdade de imprensa deve ser entendida como um direito não limitado por outros direitos. Ela é um direito absoluto.” Estando acima da lei, a imprensa está, portanto, livre para publicar o que lhe der na telha, mesmo se mentiroso, difamante, criminoso ou racista. Não deve satisfações a ninguém.

Manchete – Enunciado que deve divulgar, de forma sucinta e em letras garrafais (para ser lido até por quem não vai comprar jornais, só espiá-los nas bancas), fatos reais ou inventados contra as forças políticas às quais a empresa jornalística se opõe. Não é necessário que o texto ao qual a manchete se refere a corrobore.

Militante – Diz-se daquele que, nas caixas de comentário, defende ideias contrárias às da imprensa.

Nacionalismo – Quase sempre deve ser denunciado como uma aberração inominável, coisa de um povo jeca e inculto. A exceção é quando serve para denegrir as forças políticas às quais o jornal se opõe (por exemplo, criticando a presidente Dilma Rousseff por participar de evento com as Mães da Praça de Maio, na Argentina, sem que ela tenha se reunido antes com os movimentos brasileiros de recuperação da memória da ditadura).

Pesquisa eleitoral – Se feita por instituto correlato à empresa de comunicação, trata-se de evidência inquestionável do que acontecerá nas eleições. Se efetuado por terceiros, trata-se de uma simulação não confiável e tendenciosa, que deve ser posta sob suspeita e questionada judicialmente.

Populista - Designação de qualquer governante que priorizar o bem geral do povo em detrimento das demandas do mercado.

Presunção de Culpa – Inovação cívica trazida pela mídia ao anacrônico modelo jurídico do país. Ao invés de seguir o artigo 5º., inciso VLII da Constituição (“ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”), a imprensa, como Primeiro Poder que é, se dá ao direito de exigir que o acusado prove que não é culpado. Foi identificada pelo professor da UnB e crítico de mídia Venício A. de Lima.

Racismo – Não somos um país racista, portanto a imprensa não pode tratar de um não-assunto.

Radical – Modo como deve ser designado qualquer agente político que não defenda o neoliberalismo.

Tendências – Quesito particularmente importante na área econômica e em pesquisas eleitorais, deve ser auferido através da consulta a fontes, porta-vozes do mercado e eleitores em potencial que tenham em comum o fato de vocalizarem as tendências que o órgão de imprensa quer ver divulgadas em prol de seu próprio interesse.

Tragédia – Se ocorrer em estados administrados pelas forças políticas apoiadas pela imprensa, deve-se responsabilizar a fúria da natureza, os pobres e o governo federal; se ocorrer em estados a cargo das forças que a imprensa combate deve-se culpar o prefeito, o governador, os pobres e o governo federal. De qualquer modo, a cobertura deve sempre explorar ao máximo, sem nenhum pudor, a dor das vítimas e o sentimento sadomasoquista do espectador.


(Imagem retirada daqui)