sábado, 25 de setembro de 2010

Marina, a mídia e os eleitores

Ainda que explicado por dar sobrevida aos seus objetivos políticos - mantendo acessa, em fogo baixo, a possibilidade de segundo turno -, o contagiante entusiasmo da mídia por Marina Silva nos últimos dias não deixa de ter algo de tristemente irônico e contraditório.

Não que a fascinação da mídia pela candidata verde seja inusitada: como tive oportunidade de demonstrar em um artigo acadêmico apresentado ao congresso da Compolítica em dezembro último – e depois, atualizado e reformatado, ao congresso da International Association of Media and Communicaton Research (IACMR), onde foi bem recebido por brasilianistas franceses -, deslumbre é o substantivo-chave para descrever a forma como as três principais revistas semanais cobriram a candidatura da senadora acreana no primeiro mês após ser anunciada.

Tal deslumbre “apoiava-se” numa única pesquisa, de metodologia altamente questionável, feita por um obscuro instituto e que sustentava que Marina largava contando com “de 12 a 14% da intenção de votos”; em editoriais repletos de wishful thinkings, que previam, em poucas semanas, o protagonismo da candidata; e numa completa repaginação do visual de Marina, que de temerária ecologista petista passou, num passe de mágica, a produto de ponta do marketing político (a platéia da PUC/SP foi às gargalhadas quando eu mostrei, lado a lado, as fotos que Veja, IstoÉ e Época publicavam dela quando era ministra e os verdadeiros editais de moda – num deles, com Marina pousando de terninho em um bosque, sob luz trabalhada – que tiveram lugar tão logo ela anunciou ser candidata).


Longa hibernação
Porém, depois desse entusiasmo inicial veio uma longuíssima, aparentemente interminável, fase de estagnação, durante a qual nenhuma das alvissareiras previsões da grande mídia para sua candidatura se cumpriu: ela parecia incapaz sequer de alcançar os dois dígitos.

Na penúltima sexta-feira, no entanto, após mais de um ano de estagnação, Marina conseguiu superar tal barreira psicológica, atingindo 11% das intenções de voto segundo o Ibope - instituto cujas pesquisas, como as do Datafolha, têm despertado suspeitas e acusações. Uma semana depois, a acreana subiu mais dois pontos. Com 13% dos votos, continua a anos-luz de Dilma Rousseff – que, de acordo com o mesmo instituto, tem 55%, ou seja 43 pontos a mais – e mesmo de José Sera, com 31%.

Acontece, porém, que o cálculo que interessa à oposição e à mídia – que neste momento são, com raríssimas exceções, uma coisa só – é que Dilma teria, agora, 9% a mais de votos do que a soma de seus adversários – cinco pontos a menos do que tinha a semana passada. Como se sabe, se a soma dos votos dos adversários superar o número de votos de Dilma haverá segundo turno.

Desnecessário identificar que vem daí o renovado entusiasmo da mídia por Marina Silva – da mesma mídia que sempre a tratou como uma entidade política anacrônica, incompetente, “aferrada ao passado” (Leonardo Attuch ,em 2009, na IstoÉ), capaz de diagnósticos “dolorosamente temerários” (André Petry, em 2008, na Veja).


Sob a mira da história
Será uma lástima e uma triste ironia se Marina Silva, com a belíssima história de vida que tem e com a dignidade que por tanto tempo fez por merecer, venha efetivamente se prestar a esse triste papel de servir tão-somente como alavanca à pior direita, dando sobrevida ao moribundo José Serra – o político mais nocivo e potencialmente perigoso à democracia brasileira desde a abertura política, como as baixarias de sua campanha corroboram.

É preciso, neste momento, que aqueles dentre os eleitores de Marina que realmente prezam pelo futuro do país e pela evolução da sociedade em termos sociais e democráticos reflitam acerca das conseqüências colaterais de seu voto. Ele certamente não elegerá Marina, mas pode servir para encerrar uma era de acelerada inclusão social - em que mais de 30 milhões saíram da pobreza -, de projeção internacional do Brasil e de aprimoramento do diálogo com a sociedade,substituindo-a pelo retorno à insensibilidade social neoliberal, à subserviência colonizada aos EUA e ao descolamento entre governo e sociedade civil que caracterizam as administrações tucanas.

Os eleitores de Marina estão prontos para assumir o ônus desse retrocesso?

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O grito dos desesperados

O expressionismo foi um movimento surgido no final do século XIX, interessado em denunciar o estado psicológico de uma sociedade em que professores, alunos e qualquer um que protestasse, mesmo pacificamente, era surrado pela polícia a mando do governador.

Nascido na confluência da psicanálise e do darwinismo, interessava também ao expressionismo o retrato, em pinceladas fortes e tons escuros, da neurose urbana de uma época marcada pela aceleração do tempo - a não ser na Vila de São Paulo, onde blusas misteriosas faziam o Metrô parar, obriando as pessoas a caminhar sobre os trilhos.

Encimando este post está aquele que costuma ser considerado o quadro expressionista mais famoso: "O Grito", de Eduardo Mänco. Como podemos observar, a obra retrata o desespero (existencial, mental, eleitoral) do ser humano ante as agruras da existência: a solidão, a implacável passagem do tempo, a lata de lixo da história pressentida.

Perfaz, ainda, uma denúncia da perda de auto-respeito e da noção de decência que atinge o homem, premido pela certeza da surra eleitoral iminente, digo, do fantasma da morte sempre presente.

Durante décadas, críticos de arte do porte de Arnold Hauser e E. M. Gombrich vêm debatendo o impressionante quadro, perscrutando a origem da horrenda figura que o protagoniza, o sentido do dedo branco sobre sua cabeça, a apontar à direita - e, sobretudo, inquirindo-se sobre a função e a identidade do homenzinho que acena, ao fundo, na ponte.

O expressionismo, mais do que um movimento artístico, torna-se, no decorrer do século seguinte, uma tendência estética recorrente - já foi usado até para o Lobão apelar ao marketing da bandidagem para tentar vender disco. Teve, ainda, um auge cinematográfico, no cinema alemão dos anos 20, com uma profusão de temas como vampirismo, loucura, ditadores crueis. Estes, segundo o crítico Siegfried Kracauer, representariam uma prefiguração de Adolf Hitler e denotariam a ânsia de parcelas da sociedade alemã por um poder tirânico.

Mas isso, felizmente, foi há muito tempo atrás, quando o golpismo envenenava as instituições, açulado por uma mídia venal. Hoje, nada disso ocorre.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O golpismo em plena gestação

Recebo de um querido amigo, que sempre me pareceu apolítico e a quem, para minha grande alegria, reencontrei depois de anos, a mensagem-corrente que reproduzo a seguir. Intitulada "ONDE ESTÃO "AS MENINAS DO JÔ"? NÃO DEIXE DE LER".

Ela explicita o grau a que chegou o desespero eleitoral e a falta de escrúpulos da oposição. O texto está entre aspas e meu comentários em amarelo.

"LEIA, REFLITA E ENCAMINHE ESTE DEPOIMENTO A TODOS OS SEUS CONTATOS, POR AMOR AO BRASIL.

A COISA ESTÁ FICANDO PRETA. PATRULHAMENTO GERAL

O primeiro jornalista a sofrer cerceamento do direito de bem informar, em consequência dos seus verdadeiros, contundentes e procedentes comentários contra os desmandos do atual governo, foi o Boris Casoy. De acordo com o noticiário da época, ele foi demitido a pedido do próprio Lula."

De início achei que se tratasse do episódio dos garis - em que foi Bóris, após dar provas e seu apreço pelos menos favorecidos, quem pediu para sair -, mas não: refere-se à demissão da Record, em abril de 2006. Segundo a extremamente confiável opinião do próprio Casoy, ela teria ocorrido a mando de José Dirceu. Provas, indícios? Nadica de nada.
Agora, me explica uma coisa: se o governo conseguiu que Casoy fosse demitido da Record, porque deixaria que ele fosse contratado em seguida pela Band, empresa muito menor e mais fácil de pressionar?

"Entretanto aos olhos dos menos atentos, a coisa vem se agravando de maneira avassaladora e perigosa, senão vejamos: O Programa do Jô tirou do ar (sem dar qualquer satisfação ao público)o quadro "As Meninas do Jô" que era apresentado às quartas feiras onde as jornalistas Lilian Witifibe [sic], Ana Maria Tahan, Cristiana Lobo, Lúcia Hippólito e, por vezes, outras mais, traziam à público [sic] e debatiam todas as falcatruas perpetradas por essa corja de corruptos que se apossou do país."

Deixa eu ver se entendi: o fato de Jô Soares, notório entusiasta da administração petista, não ter dado satisfação ao público por retirar do ar um debate tão profundo e isento é sinal de autoritarismo de Lula? Ô, Jô, deixa de ser comunista, rapaz.

"As entrevistas sobre temas políticos não têm sido mais levadas a efeito atualmente.
Virou um programa de amenidades e sem qualquer brilhantismo".

Não sei a que canais o brilhante redator assiste, mas desconfio que ele se refere ao programa do Serra.

"O jornalista Arnaldo Jabor, considerado desafeto pelo governo atual, vem sofrendo, de forma velada e sistemática, todo tipo retaliação. Já foi processado, condenado, amordaçado e por aí vai".

Amordaçaram o Jabor? Têm certeza de que não foi algum fetiche mais intenso do rapaz? E quer dizer que o cara foi processado, condenado e... AMORDAÇADO - por quem mesmo? - mas a retaliação é "velada"? Imagino o que aconteceria com o coitado se a retaliação fosse explícita.

"Sua participação diária, às 07:10 na Rádio CBN tem se limitado a assuntos sem a relevância que tinha, haja vista que está impedido de falar sobre assuntos que envolvam a política nacional e o atual governo".

Impedido por quem? (deixa eu tentar adivinhar: pelo Lula, que manda também na Globo?) Por que só ele teria se calado e os outros continuam descendo a ripa? Será que não foi a iminência de uma surra vexaminoa da oposição que o teria feito perder a voz? (Até Arnaldo Bloch, "coleguinha" de O Globo escreveu uma coluna desabfando que não aguenta mais o pessmismo do ex-maior cineasta do Brasil (ele tem mais de 1,90m...)).

"A jornalista Lúcia Hippólito, que tinha uma participação diária, às 07:55 hs na Rádio CBN, não está mais ocupando o microfone da emissora como fazia e nenhum comunicado foi feito pelo âncora do horário, o jornalista Heródoto Barbeiro. Sorrateiramente, colocaram-na como âncora em outro horário, onde enfoca matérias mais amenas e sem a habitual, verdadeira e procedente contundência".

Enfim o Émile Zola de Belfort Roxo deu uma dentro: "puseram" a Lúcia na geladeira, como retaliação à reação dela contra o blogueiro da Veja. E quem é o patrão do blogueiro da Veja mesmo?

A tempo: e sobre a derrubada do Herótodo da bancada do Roda Viva, nem uma palavrinha?

"Diogo Mainard [sic], da Revista Veja, além de processado, vem sofrendo várias ameaças de morte por parte do jornal do MR-8 (que faz parte da base aliada ao Lula) e de integrantes dos chamados "Movimentos Sociais".

Processado? Mas que absurdo! Onde está o Estado Democrático de Direito? Como pode um jornalista, por expor de forma equilibrada e bem-fundamentada suas opiniões, sem JAMAIS incorrer em ataques pessoais, ser PROCESSADO? Mesmo que ele eventualmente se exaltasse (afinal, ninguém é de ferro) não poderia ser processado, pois a imprensa está acima a lei, não é mesmo?

O autor não dz, mas o jornalista Paulo Henrique Amorim, que processa Mainardi, certamente está agindo a mando de Lula, tá na cara, nénão?


"O jornal "Estadão" de São Paulo está sob forte censura governamental há pelo menos 300 dias. Pelo que se vê, Fidel Castro está fazendo escola na América do Sul. O primeiro a colocar em prática estes ensinamentos, aniquilando o direito de imprensa foi Hugo Chaves [sic, foi sem querer querendo], e pelo andar da carruagem o nosso PresiMENTE está trilhando pelo mesmo caminho."

Nossa, fiquei sem palavras ante tamanho autoritarismo. Manter um processo em sigilo de justiça, impedindo que se publique informações é coisa de país atrasado, como a Inglaterra e a Alemanha. E a culpa pela decisão da Justiça é, naturalmente, de Lula (aliás, PresiMENTE foi ótimo, você deveria se candidatar a redator do Casseta & Planeta).

Quanto a ANIQUILAR direito de resposta, o Gilmar Mendes, digo, o Chávez é mesmo um MONSTRO!

"Constitucionalmente:
Onde está o ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO?

Onde está o
LIVRE DIREITO DE MANIFESTAÇÃO?

Onde está a
LIBERDADE DE EXPRESSÃO?

Onde está a
LIBERDADE DE UMA NAÇÃO?"

Aqui tinha um poema do Afonso Romano de Santanna sobre a mentira. Mas, em respeito ao poeta - que não tem nada a ver com o peixe -, o suprimi.

"ESSE TEXTO DEVE-SE TRANSFORMAR NA MAIOR CORRENTE QUE A INTERNET JÁ VIU, PARA QUE, NA ÉPOCA DAS ELEIÇÕES CONSIGAMOS FREAR A ESCALADA DO MAL!!!

ACORDA BRASIL, ENQUANTO É TEMPO, E REAJA".

Enfim - e agora falando sério - , o pseudo-sub-olavo de carvalho e eu concordamos em alguma coisa: acorda, Brasil, contra os manipuladores baratos, que não hesitam em lançar mão de calúnias e deturpações para divulgar suas convicções políticas.

Desperte, Brasil, contra os que atribuem até a autoria de atos sabidamente perpetuados por seu líder a Lula e à Dilma.

Erga-se, Brasil, contra aqueles que, numa era em que a imprensa negligencia os fatos e suas diversas interpretações e, assumidamente, faz o papel da oposição, difamando a granel e aplainando o terreno para o golpismo, tentam manchar a liberdade e a democracia vigentes.

domingo, 12 de setembro de 2010

Veja e a liberdade de difamação

Publicada a três semanas da eleição, a matéria da revista Veja - mirando na ministra Erenice Guerra para atingir a candidata Dilma Rousseff - evidencia, uma vez mais, a necessidade de uma Lei de Imprensa que possibilite ao injuriado obter Direito de Resposta em tempo hábil e em volume e condições de exibição correspondentes aos da matéria que o difama.

A inexistência de tal mecanismo corresponde, na prática, a uma autorização para a difamação, a calúnia e a produção de matérias de cunho eleitoreiro, desossadas dos procedimentos mínimos determinados pela deontologia do jornalismo, e tão descompromissadas com a verdade dos fatos quanto comprometidas com interesses político-econômicos.


Factóides ao léu
É fato que, como aponta Idelber Avelar, o repetitivo padrão de comportamento pré-eleições da Veja dê mostras de esgotamento e, no caso da matéria sobre Eunice Guerra - não tendo sido até agora sequer repercutida pelos principais telejornais da Rede Globo -, afigure-se insignificante para a alteração das colocações na corrida presidencial.

É evidente também que a “grande imprensa” parece suscitar cada vez mais a desconfiança dos leitores, mostrando-se pouco influente em termos eleitorais, ao passo que a internet – a blogosfera, notadamente – dá mostras de atrair a atenção de um volume crescente de interessados em informação não manipulada por interesses corporativos.


Vácuo legal
As constatações acima, no entanto, embora alvissareiras, não servem de desculpa ou de atenuante para a necessidade de mecanismos realmente democráticos de regulação da imprensa, os quais garantam tanto a liberdade de expressão quanto sua não-transformação em liberdade de difamação, ou seja, em salvo-conduto para a transgressão legal e para o ataque desprovido de provas contra a honra alheia.

Assim como advogados não podem levar drogas para seus clientes presos ou como médicos não podem drogar suas pacientes para abusar-lhes sexualmente, não deveria ser permitido a um profissional da comunicação deliberada e comprovadamente mentir, manipular seus leitores com informações sem fatos que as corroborem, ou deixar de ouvir e explicitar os argumentos do acusado.


Exercicio de imaginação
Pois imaginemos, à guisa de exemplo, que, ao contrário do que à primeira vista se deu, o atual factóide sobre Eunice Guerra obtivesse alta repercussão, martelado no Jornal Nacional e congêneres, transformando-se na tal "bala de prata" capaz de levar a eleição presidencial ao segundo turno. Ainda como exercício mental, imaginemos que, então, um novo escândalo fabricado com matérias falsas levasse à derrota de Dilma (toc, toc, toc).

No vácuo legal em que atualmente se encontra o jornalismo, levaria ao menos
um ano para que a Justiça decidisse sobre o caso, e ainda que fossem constatadas todas as mazelas jornalísticas e a parte ofendida ganhasse pleno Direito de Resposta, as eleições – e os rumos da administração do Brasil – estariam irremediavelmente consumados.


Liberou-geral
Ou seja, o liberou-geral jurídico em que se encontra a atividade jornalística no país tem potencial de intervenção indevida no andamento institucional da democracia brasileira. Se tal potencial é factível de consumar-se ou não é irrelevante: do ponto de vista da manutenção da ordem legal-institucional do país é premente levar em conta que ele existe - e agrava-se pela ampla defasagem entre os prazos da Justiça comum e os prazos da comunicação na era digital. Tal diferencial, referente ao alcance, à velocidade e a capacidade de disseminação da comunicação contemporânea, faz com que tal campo tenha de, necessariamente, ser objeto de uma legislação específica.

E a autorregulação do setor, defendida pela plutocracia midiática como panacéia para a questão, não passa, em uma seara no qual a própria presidente do sindicato patronal admite que a imprensa faz hoje o papel de oposição, de uma piada.


Regulação da atividade jornalística
De qualquer forma - e deixando, por ora, as especulações eleitorais para lá - graças à irresponsável matéria de Veja, a honra de uma pessoa pública está sendo neste instante atacada sem provas minimamente consistentes, sem direito a “outro lado” e com a certeza da impunidade por parte do órgão acusador, pois, como já dito, a imprensa brasileira ora se encontra infesa à ação da Justiça no prazo devido.

Por isso, se o Brasil quer ser um país verdadeiramente democrático, em que todos são iguais perante a lei e os direitos individuais estão assegurados, é necessário priorizar a instauração de mecanismos modernos e democráticos de regulação da atividade de imprensa.

Do contrário é o golpismo sob o guarda-chuvas da liberdade de imprensa.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Reflexões sobre artistas, política e eleições

Começou no Twitter, nesta segunda-feira mezzo feriado: alguém repassou uma mensagem do Léo Jaime afirmando que o #DilmaFactsbyFolha – a febre satírica que tomou conta da rede social – “é a militância acusando o golpe. O caso do vazamento do sigilo é a origem desta cortina de fumaça”.

Quanto ao teor da declaração de Léo, ela denota, em primeiro lugar, ao generalizar como “militância” todos os que participaram da brincadeira, ou uma tentativa pouco democrática de desqualificar os que dele divergem em termos de política, rotulando-os, ou desconhecimento do que seja tal rede social.

Em segundo lugar, revela desconhecimento do caso ou vontade de confundir propositadamente as coisas: o escândalo da Receita está no ar desde o início da semana passada, enquanto o #DilmaFactsbyFolha só se deu ontem (domingo, 05/09), dia em que o diário paulista publicou manchete afirmando que ”Consumidor de luz pagou R$ 1 bi por falha de Dilma”. Como registram diversos blogs, foi em reação a tal “informação” – já desmentida, com documentos, pela assessoria de Dilma – que teve início a piada que chegou ao topo dos trending topics.


Arte e política
Esse contato um tanto decepcionante com um artista do qual, há muitos anos, costumava ouvir, entusiasmado, o primeiro disco – intitulado “Phodas C” e permeado de humor sacana e de romantismo – e que lançaria algumas músicas que embalaram minha adolescência, me fez refletir sobre o papel político do artista nos dias de hoje.

Parece lícito supor que, com o fim da ditadura, tem lugar uma desmobilização da classe artística – e da sociedade civil tal como então concebida -, causada, sobretudo, pelo desaparecimento de um inimigo em comum para combater (“é o bem contra o mal/E você de que lado está?”, cantava Legião Urbana na canção “1964 (Duas tribos)"). Podemos especular que ocorre, também, em termos de presença no imaginário popular, uma desvalorização qualitativa da figura do artista enquanto referência intelectual, em prol de uma valorização quantitativa da “celebridade”.

Assim, o processo de “despolitização” da vida social é duplo – uma tendência que talvez a internet esteja só agora começando a reverter. Pois, ocorrendo de forma concomitante, tanto a diminuição dos elos entre política e a arte no âmbito midiático (comparem, por exemplo, os festivais dos anos 60 com o cenário atual) quanto a velocidade, a fugacidade e a tendência ao não-aprofundamento intelectual das celebridades instantâneas levam, em última análise, à virtual dissociação entre arte e política.


Artista, mídia e eleições
Talvez a seara onde tal dissociação seja mais visível seja a eleitoral. Coincidentemente, em coluna recente, Fernando de Barros e Silva discutiu o papel do artista nas eleições. Fernando é um dos melhores textos jornalísticos do Brasil e, quando elevou o nível da crítica televisiva, mostrou-se um analista dos mais perspicazes e atentos – mas tais talentos vêm há tempos se eclipsando, sufocados pela vassalagem que presta às preferências políticas do patrão Frias Filho na deteriorada Folha de S. Paulo.

Dessa forma, sua coluna sobre artistas e política se torna, em essência, mais um dos muitos sinais da mídia de que, ante o naufrágio de Serra, Marina é o plano B dos confederados do Instituto Millenium. Após citar o apoio de Caetano Veloso à candidata do PV, Fernando filosofa:

“Não há nenhum artista da mesma estatura histórica engajado dessa maneira em favor de Dilma Rousseff ou de José Serra (...) Em parte, porque as grandes figuras da intelligentsia com inserção pública e simpatias à esquerda não devem se sentir motivadas o bastante, ou moralmente à vontade, para sair da toca e hipotecar seu apoio a uma candidata semi-desconhecida, que Lula tirou do bolso do colete”.
Pausa para as gargalhadas... O despeito da mal chamada grande mídia com uma candidata com intenções de voto suficientes para vencer no primeiro turno, derrotando José Serra, o queridinho dos barões da imprensa, está ficando cômica.

Sem falar que um jornalista profissional deveria, em nome da justeza da análise, ao menos mencionar o histórico de volubilidade eleitoral de Caetano Veloso – uma figura que, por maior que seja como artista, muitos têm dificuldade de levar a sério quando abre a boca para falar de política, justamente porque se mostrou, reiteradas vezes, leviano nessa área.

Por fim, vejam o encerramento do artigo, que primor de nonsense:

“O realinhamento histórico que Marina propõe não deixa de ser uma maneira de renovar (ou reanimar) as ilusões perdidas das classes médias letradas que fizeram sua educação sentimental e política em torno da velha e boa “MPB”.
O que será que o Fernando quis dizer com essa baboseira elogiosa? Cartas para a redação.


(Colagem de fotos de Mário Faustino retiradas daqui)

sábado, 4 de setembro de 2010

No Rio, emocionante disputa pelo Senado

A manutenção da grande distância que separa Dilma Rousseff (PT/RS) de José Serra (PSDB/SP) tem feito com que muitos analistas priorizem o exame das disputas estaduais, em detrimento do foco amplamente concentrado nas eleições presidenciais, usual no Brasil.

Com a inexplicável reticência dos paulistas em por fim aos desgovernos tucanos, Minas Gerais se converte no centro da atenção dos analistas políticos. O estado, tanto devido à acirrada disputa entre Hélio Costa (PMDB) e Antonio Anastasia (PSDB) – este o protagonista da primeira virada espetacular dessas eleições, ainda que com sua legitimidade contestada – quanto, sobretudo, por ser o domicílio eleitoral do tucano Aécio Neves, praticamente eleito para o Senado, de onde, com a eventual vitória petista, deve procurar se credenciar como o candidato da oposição em 2014.


Mudanças aceleradas
No entanto, se ao invés de pensarmos a médio prazo priorizarmos a análise dos cenários que se nos apresentam a partir do pleito em curso, será preciso dispensar maior atenção ao Rio de Janeiro, mais especificamente à disputa das eleições para o Senado.

Embora o atual governador Sergio Cabral (PMDB) deva se reeleger com folga, pondo fim às aspirações executivas do excessivamente volúvel Fernando Gabeira (PV), a disputa pelas duas vagas legislativas vinha sendo liderada com uma certa folga por Marcelo Crivela (PRB) e pelo ex-prefeito Cesar Maia (DEM), com o candidato petista Lindbergh Farias amargando, a uma boa distância, a terceira colocação.

No entanto, a última pesquisa Ibope, divulgada na terça-feira (03/09), sugere uma rápida mudança de cenário: enquanto Crivella amplia a distância em relação a seus concorrentes, chegando a 34%, Lindbergh se aproxima de Maia de forma acelerada: o demo caiu de 33% para 30%, enquanto o ex-prefeito de Nova Iguaçu subiu de 24% para 28%. Ou seja, dois pontos os separam.

Como a margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais para mais ou para menos, pode-se falar que todos os candidatos estejam em situação de empate técnico – embora a experiência histórica tenha mostrado a inexatidão por demais elástica de tal conceito.


O papel de Maia
A eventual eleição de Lindbergh tende a ser muito importante – menos pela presença do jovem político no Senado e mais por evitar um osso duro de roer para o eventual governo Dilma. Com efeito, parece não haver duvidas de que César Maia não só passaria a ser uma das vozes recorrentes da oposição nos noticiários globais – a exemplo do que foram Álvaro Dias, Arthur Virgílio e Raul Jungmann -, mas que desempenharia o papel de maneira menos obtusa e potencialmente mais danosa.
Tal impressão se deve a três fatores:

1) Se Maia, como governante, produzia factóides em profusão, desconcertando imprensa e os cidadãos a um ponto tal que ninguém sabia dizer, com certeza, o que era fato e o que não, imagine o que faria na oposição...;
2) Ele teria como parceiro privilegiado o filho Rodrigo, menos hábil do que o pai mas com bom trânsito com líderes oposicionistas. O grau de confiança entre pai e filho – irreproduzível nas relações políticas convencionais – poderia dar margem a toda sorte de armações contra o governo Dillma;
3) Colunistas políticos de diversas tendências - e mesmo seus opositores - reconhecem que Maia não só é um hábil analista político como sabe manipular a imprensa. A repercussão de seu “ex-blog” é prova patente de tais “qualidades”.


Oposição encolhe
Assim, se consolidadas como tendências eleitorais, as novidades trazidas pela recente pesquisa Ibope podem significar não apenas uma vitória partidária regional, mas se transformar em mais um elemento facilitador para a eventual gestão petista – e, em decorrência e de forma mais aguda, em mais um dos muitos fatores de constrangimento e de preocupação para uma oposição que, projeta-se, tende a encolher significativamente após o pleito.