domingo, 29 de agosto de 2010

Viajando nos road movies

Convidado para organizar uma pequena mostra de road movies, acabei me empolgando e fazendo uma pesquisa sobre o subgênero que acabou por produzir muita reflexão prazerosa e, para minha surpresa, uma lista não de quatro, como originalmente acordado, mas de mais de 40 títulos que eu gostaria de exibir...

Os dois filmes que lideraram a lista – e que, de certo modo, foram a razão de ser da mostra – são o cultuado (mas pouco visto no Brasil) Detour (Curva do Destino) - um noir dirigido por Edgar G. Ulmer em 1945, o qual comento aqui - e Sans toi ni loi, a a um tempo dilacerante e maravilhosa elegia a 1968 dirigida por Agnès Varda em 1995 e  que a dispensável criatividade nacional para títulos renomeou Os Desajustados (depois, ao descobrir que já havia um filme com esse nome - dirigido por John Huston -, passou para Os Renegados). Para quem gosta de ler textos acadêmicos, na revista paranaense ÍNTERIN há um artigo meu (em pdf) sobre esse filme tão rico em questões feministas, existenciais, éticas, étnicas, políticas.


Buscando a essência do subgênero
Em um primoroso texto sobre road movies, Walter Salles – que logo acrescentará mais um título à lista, com o lançamento do suado On the Road, baseado no clásico beatnik de Jack Kerouac -, além de citar alguns títulos que possivelmente me escapariam - como O Mundo, dirigido pelo chinês Jia Zhang-Ke e Neste Mundo, dirigido por Michael Winterbottom em 2002 -, desenvolve não só um histórico mas uma espécie de taxonomia da evolução do subgênero.

Ele observa, por exemplo, que “road movies são raramente guiados por conflitos externos” e que os “mais interessantes são justamente aqueles em que a crise de identidade do protagonista da história reflete a crise de identidade de uma cultura, de um país”. Penso que Gosto de Cereja, dirigido pelo mestre iraniano Abbas Kiarostami em 1997, poderia ser apontado, em relação ao chamado “cinema de arte” internacional, como a quintessência modelar de tal linhagem de filmes.

Mas em termos de cinema americano - epicentro do subgênero - o western seria, segundo tal definição, o habitat primário do road movie - Walter, canônico, cita Rastros de Ódio, de John Ford –, a partir de onde se diversificaria em novas versões.

Exemplares disso – e do processo de dupla significação personagem-nação aludido por Salles – são os retratos e questionamentos da sociedade norte-americana perpetuados por filmes que, citados em sequência cronológica, acabam por formar um painel crítico evolutivo do tema nas últimas quatro décadas: Acorrentados (Stanley Kramer, 1958, um dos melhores filmes sobre o racismo produzidos em Hollywood), o emblemático Easy Rider (Dennis Hopper, 1969), Espantalho (Jerry Schatzberg, 1973, com Gene Hackman e Al Pacino amargando o refluxo pós-1968), Estranhos no Paraíso (Jim Jarmusch, 1984), Rain Main (Barry Levinson, 1988, contrapondo, no momento de afirmação do neoliberalismo, o yuppie Tom Cruise e o autista mas milionário Dustin Hoffman), A História Real (David Lynch, 1999, flagrando a morte de uma geração), Confissões de Schmidt (2002) e Sideways (2004), ambos dirigidos por Alexander Payne e tematizando, respectivamente, a velhice e a meia-idade; além do hit Pequena Miss Sunshine (2006), que prefigura – ou ao menos parece querer prefigurar, um novo país.


A questão da motivação

Eu tenderia a relativizar a generalização de Walter sobre a não-preponderância dos conflitos externos nos road movies e a distinguir, no subgênero, a modalidade acima citada daquela em que a crise de identidade de um país também aparece como tema central, mas não deriva, necessariamente, de uma crise individual. É o caso, notadamente, de dois grandes filmes latino-americanos, Bye Bye Brasil (Cacá Diegues, 1979, com seu instantâneo da controversa modernidade do país como nova "aldeia global") e Guantanamera (Tomás Gutiérrez Alea e Juan Tabío, 1995, com seu retrato mordaz das mazelas e da burocracia cubanas). Incluiria nessa lista, ainda, Coração Selvagem (1990), que faz uma crítica explícita – na medida do possível em se tratando de David Lynch – ao moralismo norte-americano e o surpreendente retrato da globalização de Quase uma história de amor, produção de Hong Kong de 1996 dirigida por Peter Chan e estrelada pela deusa do cinema chinês Maggie Cheung.Argumentaria, ainda, que nos filmes brasileiros Iracema, Uma Transa Amazônica (Jorge Bodanzky e Orlando Sena, 1976), Central do Brasil (Walter Salles, 1998) e Cinema, Aspirinas e Urubus (Marcelo Gomes,2005) são antes os condicionamentos externos que acabam por fazer aflorar dilemas individuais passíveis de se metaforizarem em manifestação de crise de identidade do país.


Estradas do Oriente
Do normalmente negligenciado cinema asiático fiz uma seleção, creio, atípica. Talvez o leitor não concorde comigo, mas considero Era uma vez em Tóquio (1953), uma das obras-primas de Ozu, um road movie da terceira idade, com direito a profunda meditação sobre a crise de identidade da sociedade japonesa do pós-Guerra. De modo semelhante – e invocando historiadores do cinema como Pierre Sorlin e minha saudosa professora Michèle Lagny, os quais entendem que um filme, mesmo com a ação localizada em um passado remoto, sempre nos diz muito sobre o presente –, incluo O Intendente Sansho (1954), do super esteta Mizoguchi, como um incomum road movie pelas paisagens do Japão feudal. Resistindo muito para não incluir nenhum título do meu ídolo Takeshi Miike, finalizo a seleção nipônica com o plástico Hana-Bi (1997), de Takeshi Kitano.

Filmes como Mâe Índia (Mehboob Khan , 1957) e Engraxates (Prakash Arora, 1954) seriam opções óbvias em se tratando do cinema indiano – no Brasil, na minha opinião, de longe a mais maltratada das cinematografias nacionais. Pois nem em cultuadas revistas nacionais de cinema nem da pena de especialistas a quem admiro costumam sair textos que reflitam minimamente a riqueza do cinema indiano. Por alguma razão que me escapa parece haver, para além do mero desconhecimento – ou, quem sabe, prevenção -, uma forte incompatibilidade entre os parâmetros críticos brasileiros e o cinema indiano. Pior: para minha profunda irritação, predomina o deboche, até mesmo na academia. Mas tenho convicção de que uma platéia minimamente familiarizada com as peculiaridades do cinema indiano se emocionaria com a história do cientista de ponta que, morando confortavelmente nos EUA e trabalhando na Nasa, faz uma visita à terra natal que modificará sua vida para sempre – tema de Uma Luz do Passado (Ashutosh Gowariker, 2004). Ou que vibraria e torceria pelo carismático Shah Rukh Khan como o muçulmano disposto a, por amor, superar o ódio entre paquistaneses e indianos em Veer-Zaara (Yash Chopra, 2004).

À seleção asiática incluí, ainda, o ótimo filme sul-coreano Bombom Hortelã-Pimenta (Lee Chang-dong) - o qual, a exemplo de Detour, tem narrativa em flashback (com a trajetória do protagonista sendo recontada a partir de seu aparente suicídio) - e o cult A Última Vida no Universo, do diretor malaio Pen-ek Ratanuruang, protagonizado pelo astro japonês Asano Tadanobu e com a participação especial de Takashi Miike como vilão-mór.


Narratividade e gênero
Além do contundente tratamento que recebe de Agnès Varda no citado Sans toi ni loi, a questão de gêneros tem sido tematizada, se não de forma tão recorrente, com enfoques privilegiados na seara dos road movies. O exemplo icônico é, claro, Thelma & Louise (Riddley Scott, 1991), mas entre os imprescindíveis eu incluiria o esquecido Sexy e Marginal, primeiro longa de Scorsese, o mexicano E a sua mãe também (2001), de Alfonso Cuarón, e Bonneville/A força da amizade (Christopher Rowley, 2006, uma espécie de Sideways feminino), além de dois filmes dirigidos por Bernardo Bertolucci: O Céu que Nos Protege (1990), com grande atuação de Debra Winger e o dilacerante La Luna (1979) - para mim, o melhor filme do cineasta italiano. No que concerne ao universo gay, não podem faltar Garotos de Programa (1991), do supervalorizado Gus Van Sant e a hipercolorida produção australiana Priscilla, A Rainha do Deserto (Stephan Elliott, 1994). Tudo isso supondo que não me deixariam exibir uns três episódios de Star Trek e de Perdidos no Espaço, séries que me parecem essenciais para debater tanto os road movies quanto a questão de gênero...rs....

Voltemos ao texto de Walter Salles. Ele sustenta que:
“Pelo fato de que road movies procuram registrar a transformação interna dos seus personagens, a maioria dos filmes que pertence a esse gênero não é sobre aquilo que pode ser verbalizado, mas sobre aquilo que deve ser sentido - sobre o invisível que complementa o visível. Nesse sentido, road movies contrastam drasticamente com os filmes comerciais contemporâneos - aqueles em que ações são criadas a cada três minutos para segurar a atenção do espectador. Em filmes de estrada, um momento de silêncio é geralmente muito mais importante do que a ação mais elaborada”.
Ao contrário do que tais assertivas podem sugerir, isso não se traduz, necessariamente, em filmes “arrastados”, de narrativa contemplativa. Pensemos, por exemplo, em Na Natureza Selvagem, um dos mais belos filmes produzidos nos EUA nos últimos anos, ao qual a direção de Sean Penn impõe um andamento que, sem afugentar o tal espectador contemporâneo, consegue transmitir com intensidade o universo interior do personagem principal, que abandonou tudo pela vida livre nas geleiras do Alasca.
Além disso, há filmes com levada contemporânea, capazes de prender o espectador pós-MTV, que são ótimos road movies, como Assassinos por Natureza, roteirizado por Quentin Tarantino e dirigido por Oliver Stone em 1994 – e que atualiza, em ritmo frenético, algumas das ousadias do clássico road movie Bonnie & Clyde (Arthur Penn, 1967) -, a comédia besteirol (adoro!) Caindo na Estrada (Todd Phillips, 2000), o contracultural à la anos 80 Totalmente Selvagem (Jonathan Demme, estrelado por Melanie Griffith no auge da sensualidade) ou mesmo o retrato do jornalismo gonzo de Medo e Delírio (Terry Gilliam, 1998). Eu optei, ainda, por incluir na lista filmes de ação antigos, tais como o noir Dentro da Moite (Raoul Walsh, 1940) e o clássico francês O Salário do Medo (Henri-Georges Clouzot, 1953).


Grande arte na estrada
Por fim – e sem querer fornecer uma lista exaustiva das tipificações do road movie -, há aqueles em que a uma viagem na forma de deslocamento físico no tempo presente corresponde outra viagem, esta retrospectiva e operando no âmbito da memória. Morangos Silvestres, o clássico de Bergman – no qual Woody Allen se inspirou para realizar Desconstruindo Harry (1997) - é exemplar nesse sentido, com sua sucessão de imagens e situações ora diáfanas, ora assustadoras no presente e no fluxo de memória de um velho professor que viaja para receber um prêmio.

Entre o seleto time de road movies que investem tanto no cinema como grande arte quanto em perscrutar questões profundas da existência eu incluiria, ainda, Passageiro, Profissão Repórter (1975), de Antonioni, mestre do tempo cinematográfico como indutor de reflexões existenciais e que dirigiu outro cultuado - e enigmático - road movie: Zabriskie Point (1970); o cultuadíssimo Paris, Texas, de Win Wenders, um dos filmes-símbolo dos anos 80; e, por fim, uma obra algo obscura, perdida nos escaninhos dos festivais de cinema, mas pelo qual nutro uma espécie de culto: Navegador – Uma Odisséia Medieval, co-produção entre Austrália e Nova Zelândia, dirigida por Vincent Ward em 1988, em que, liderados por um garoto vidente, habitantes da Idade Média empreendem uma viagem (de ida e volta) a uma metrópole contemporânea – certamente, o trajeto mais longo dentre todos os road movies aqui elencados.


(Créditos das fotos, em ordem de apresentação: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Eleições: redes sociais dão mostras de saturação

Torna-se cada vez mais notório, nas redes sociais da internet, o quanto as atuais eleições vêm se tornando um fator de fastio e de monotonia para muitos. Há meses já se ouvia queixas nesse sentido, mas ultimamente até pessoas que acompanham o cenário político e gostam de discutir o tema têm reclamado.

De maneira ainda mais intensa e polarizada do que acontece com fenômenos como a repercussão do Big Brother Brasil – que a tantos, incluindo este blogueiro, agasta -, o efeito multiplicador de blogues e Twitter, somado ao caráter contínuo e incessante do fluxo de mensagens na rede, tende a levar o tema eleições à saturação – para o que muito contribui o longo tempo de campanha, que na internet começou, de fato, há meses.

Fazer tal constatação não significa desmerecer ou diminuir a importância da militância virtual, nem deixar de ressaltar que – ao contrário do que afirma o trololó serrista de “blogs sujos financiados pelo governo” – trata-se de um fenômeno largamente espontâneo.

Pelo contrário: é justamente a preocupação com o caráter politicamente alienador do fenômeno que se intenta ressaltar – pois se o objetivo da militância é justamente amealhar atenção, simpatia e votos para o seu candidato mas o resultado é, para muitos, o tédio e o “não agüento mais isso” é porque a ação virtual-eleitoral, dada sua virulência e onipresença, está resultando, ao menos em parte, contraproducente.

Desnecessário, no âmbito da abordagem aqui desenvolvida, assinalar que ao menos parcialmente tal efeito se liga ao alheamento de setores da sociedade em relação à política. Ainda assim, para ao menos amenizá-lo seria talvez recomendável que à ininterrupta postagem de dados, especulações e análises a favor ou contra os candidatos não apenas correspondesse um incremento do nível e da diversidade de abordagens acerca das ilações entre candidaturas e futuro do país, mas que fosse dirimida a impressão, generalizada nesses setores enfastiados com as eleições na internet, de que o bombardeio de mensagens de cunho político-eleitoral está tomando lugar de algo muito mais atraente e prazeroso, que vou chamar de fluxo de conteúdos culturais, com a cultura entendida aqui em sua acepção ampla.

Trata-se, portanto, de uma questão complexa, cujo melhor equacionamento passa não apenas pelo incremento das práticas comunicacionais nas redes virtuais e por um maior interesse social na política – duas mudanças em relação às quais não há garantias efetivas de que um dia virão a ocorrer -, mas por uma calibragem no próprio conceito de utilização da web para fins eleitorais, seja a partir de uma perspectiva institucional ou individual.

Uma coisa é certa: se muitos não agüentam mais o excesso de retórica vazia e de belicismo de baixo nível verificável nas hostes virtuais/eleitorais, a própria onipresença das eleições como tema cotidiano - com frequência vivenciado como se de torcidas arquivais em jogo de futebol se tratasse – é, para outros tantos, motivo de exasperação. Não me parece correto culpá-los por isso.

domingo, 22 de agosto de 2010

Música: ótimos lançamentos da safra 2010

Quatro álbuns recém-lançados mostram que a música brasileira vai bem, obrigado.

Nina Becker, vocalista da cultuada Orquestra Imperial, lança dois álbuns ao mesmo tempo, ambos primando por desenhos melodiosos extremamente cuidados: um se chama Azul, é tem um clima "frio", noturno, intimista sem ser melancólico. Destacam-se a regravação soft de "Samba Jambo", de Jorge Mautner e Nelson Jacobina e a deliciosa faixa de abertura, composta pela própria Nina, "Ela adora" (ouça na página dela no myspace).

O outro disco, intitulado "Vermelho" é um pouco mais quente, mas não abrasivo: um sol de inverno colorindo uma paisagem melódica de fim de tarde. Há, não apenas nessa ênfase na melodia, mas no controle da emissão, algo da Gal Costa de "Cantar" (1974, na minha opinião seu melhor disco) - impressão que a inclusão de "Lágrimas negras" (Mautner/Jacobina) parece corroborar. Essa leveza solar dá o tom do álbum, que é uma sucessão de canções suaves e envolventes, que flertam com o pop sem jamais se prostituirem.

Os arranjos - e a mixagem - merecem atenção especial, às vezes com um insuspeito protagonismo da bateria, ou um uso criativo do xilofone. Tirando a chatinha "Tropical poliéster", os dois dicos são uma amostra cabal que não serestringe ao superestimado cenário musical pernambucano as mais promissoras faces da música brasileira.



Música de gente grande
Confesso que eu tenderia a não prestar a minima atenção ao Pato Fu, mas a originalidade da proposta do último disco da banda, "Música de brinquedo", comentado no blog de Idelber Avelar, despertou minha curiosidade - e surpreendeu!

Utilizando-se de instrumentos musicais infantis - incluindo uma mini-bateria, aqueles "saxofones" coloridos e bugigangas várias -, do uso econômico e pontual dos backing vocals de uma garota e de um menino de seis anos, e de uma Fernanda Takai que - tendo achado o tom certo para sua pesona cool - está cantando cada vez melhor, o resultado final é do tipo que não dá vontade de parar de ouvir.



A escolha do repertório é algo a parte: minha favorita - que você pode ouvir acima - é a versãode "Live and let die" (que Paul e Linda McCartney compuseram para um filme de Bond, James Bond), com um hilário backing vocal gritado do garoto. Mas tem muito mais: "Rock and roll lullaby", "Twiggy, twiggy", "My girl" parecem canções novinhas em folha. Já a versão de "Ska" dos Paralamas é coisa de gente grande, com Fernanda brilhando, com uma dicção que explicita trechos da letra perdidos na interpretação original de Herbert Vianna, ao mesmo tempo em que valoriza a melodia.

O álbum vem se somar a Adriana Partimpim e ao disco de Arnaldo Antunes com Edgard Escandurra e Taciana barros como exemplo do que de melhor e mais criativo inspiração no universo infantil pode trazer à música.



O eclético Zeca
Por fim, há Zeca Baleiro: "Concerto" mostra que o formato acústico não diminui ou modula a versatilidade do artista maranhense.

A abertura, magistral, valoriza a bela combinação de melodia e letra de "Barco" (Chico César):

"Choro contigo, barco pela praia que deixas/
pelo sol que se deita, longe das pedras do cais/

(,,,) Choro saber que os açudes não são o mar/
Que não se pode guardar em alguidares de areia/
Choro o destino da sereira e o desatino do astrolábio/
Choro saber que o homem sábio pode morrer se não souber nadar/

Choro contigo e parto, nas ondas vagas e incertas/
As nossas velas abertas são ferramentas do caos/
Chore comigo, barco, a sina de todas as naus").

Zeca canta em inglês - "Best ou you", dos Foo Fighters -, espanhol - a paródia "Milonga del mejor", dele e de Vanessa Bumagny - e, vá lá, francês - "Tem francesa no morro" (do compositor dos anos 30 Assis valente); reverencia Cartola ("Autonomia") e Walter Franco ("Respore fundo"), além de investir, é claro, na alquimia brega-chique ("Chuva", de Gílson e Joran, que você pode ouvir abaixo).



Há uma ou outra idiosincrassia - notadamente, "Eu não matei Joana D'Arc", do Camisa de Vênus - compensados por momentos plenos de humor, como em "Armário" (sobre o medo de sair deste que acomete um rapaz cujo irmão foi skinhead), na genial "Bangalô", e, combinado com uma certa melancolia - como só Zeca sabe fazer -, em "Mais um dia cinza em São Paulo".

Ao final, fica a vontade de pedir bis.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

As entrevistas dos candidatos no Jornal Nacional

Para fazer uma análise justa das entrevistas do Jornal Nacional com os candidatos à Presidência pareceu-me necessário aguardar que a última delas fosse ao ar e a série se encerrasse. Cri que só assim, ciente do tratamento dispensado a cada um dos candidatos, poderia formular, de forma condizente, juízos de valor acerca do evento.

Entrevistas televisivas em série, cada dia com o candidato de uma coligação - como as que o telejornal se propôs -, demandam, necessariamente, a adoção de um mesmo e pré-determinado padrão de conduta por parte dos entrevistadores, seja qual for o entrevistado.

Ainda que, de acordo com o perfil, as alianças e a história de cada candidato, o feixe de perguntas necessariamente varie, a postura dos entrevistadores em relação aos inquiridos, o modo como formulam as perguntas e seu grau de incisividade devem apresentar a menor variação possível, sob pena de suscitar acusações de tendenciosismo, favorecimento e discriminação, as quais minam o alegado esforço para inteirar a massa de espectadores sobre as candidaturas presidenciais que se apresentam ao país.

É fato que cada entrevista tem uma dinâmica própria, mas, se o entrevistado não tergiversa nas respostas ou não agride o perguntador, a obediência a um padrão minimamente igualitário de tratamento aos diferentes candidatos é condição sine qua non para assegurar confiabilidade. Quem assistiu às três entrevistas conduzidas por Fátima Bernardes e William Bonner com, respectivamente, os candidatos Dilma Rousseff (PT/RS), Marina Silva (PV/AC) e José Serra (PSDB/SP) sabe que tais regras básicas de conduta jornalística foram largamente negligenciadas.


Dilma e a entrevista-inquérito
Senão, vejamos: Dilma Rousseff, que inaugurou a série, foi submetida a algo mais parecido com um inquérito policial, durante o qual mal começava a formular um raciocínio já era cortada pelos entrevistados, um dos quais chegou às raias da grosseria, a ponto de ser interpelado por sua parceira de trabalho e esposa. Isso gerou um grave problema técnico para a entrevista, identificável por qualquer estudante de Jornalismo: interrupções excessivas que não deixavam a entrevistada se expressar e aproximavam a duração de suas falas da duração das perguntas dos jornalistas.

Em termos temáticos, a entrevista com a petista denotou menos o interesse em informar o espectador e mais a tentativa de pespegar em Dilma o rótulo de “autoritária” e de dependente de Lula. Tratou-se, assim, tanto em termos jornalísticos quanto eleitorais, de uma entrevista duplamente mal-sucedida. Em primeiro lugar porque os Bonner poderiam perfeitamente – na verdade, deveriam – mostrar-se incisivos, perscrutórios, mas sem abrir mão da educação e da polidez no trato.

Em segundo, porque perderam uma ótima chance de inquirir a candidata acerca dos projetos através dos quais pretende dar continuidade a uma administração que, embora apoiada pela maioria da população, não é desprovida de problemas. Ao final, o espectador terminou desinformado sobre o que realmente importa, administrativa e eleitoralmente.


Marina e as reticências
O tom dos apresentadores já era outro no dia seguinte, na entrevista com a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva. Enquanto Fátima, aparentando menos nervosismo, mantinha a postura entre firme e ponderada, Bonner, bem mais educado do que no dia anterior, já em sua primeira pergunta pediu perdão à candidata por inquirir sobre a falta de apoio de outros partidos que não o PV. Ainda assim, Marina, talvez receosa de se ver seguidamente cortada por ele sem poder formular seu raciocínio - como o fora Dilma -, passou a insistir em responder, ignorando os apartes do jornalista e cobrindo sua voz. Por conta disso, teve lugar uma espécie de jogo de disputa de palavras entre os dois.

Do ponto de vista técnico, os Bonner subestimaram a um tempo a atual dinâmica de financiamento de campanhas e a urgência da agenda ambiental ao perguntar como a candidata faria para “convencer o eleitor de que a sua candidatura é para valer” e não apenas "para marcar posição nessa questão do meio ambiente?”. Tal impressão foi reforçada pelo dissimulado espanto de Fátima ante a descrição das graves consequências, para a sociedade brasileira, do aumento da temperatura da Terra, segundo Marina. Reforçou-se, assim, traços de uma postura do casal de jornalistas em relação à candidata do PV que eu descreveria como "reticente-leniente".

Além disso, ao invés de aprofundar a discussão dos abundantes temas espinhosos para a candidatura verde, os jornalistas perderam vários minutos discutindo o ex-partido de Marina, de forma particular o indevidamente chamado “mensalão do PT” – tema, aliás, recorrente nas três entrevistas. Ao final, não restaram dúvidas de que a postura e o grau de incisividade do casal para com a entrevistada fora outro, em relação ao do dia anterior.


Serra e a subserviência global
Mas foi a entrevista com Serra que evidenciou, de maneira clara, o descritério “três pesos, três medidas” que o jornalismo global reservou aos candidatos. O ex-governador foi poupado não apenas de quase todos os temas espinhosos suscitados por sua péssima gestão, mas de sua polêmica passagem pelo Ministério da Saúde.

Na entrevista, enquanto Fátima fingia desempenhar, de forma tíbia e elegante, o papel de bad cop (mas “esquecendo” o quase-vice Arruda e o mensalão tucano de Eduardo Azeredo), Bonner substituia a grosseria de segunda-feira por uma amabilidade tão exagerada quanto imprópria.

Os cortes bruscos e ríspidos com que ele seguidas vezes interrompeu a fala de Dilma deram lugar a intervenções em voz de travesseiro, incluindo um “o senhor me permita” quase ganido. Ao final, quando Serra, mesmo ciente há dias de que disporia de 30 segundos para se despedir, “estourou’ o tempo, a subserviência atingiu seu grau máximo, com o apresentador-galã se desmanchando em desculpas pela interrupção: “Me perdoe... me perdoe”. Patético.


Vitrine para seu candidato
A assimetria de tratamentos verificada no trato com os candidatos na série de entrevistas do JN é particularmente grave por se dar no telejornal de maior audiência do país, em uma TV aberta – ou seja, que opera graças a concessão pública de um bem pertencente ao povo brasileiro. Claro está que isso não é o bastante para frear o ímpeto da Globo de manipular o jornalismo e tentar “vender” seu candidato, utilizando como vitrine para tal o principal programa jornalístico da emissora.

O cúmulo da cara-de-pau, na verdade, é que a Vênus Platinada segue alegando isenção e qualidade, como se os brasileiros fossem trouxas. E daqui a alguns anos, quando o esperneio dos críticos contra tal assimetria tiver passado, a emissora reescreverá o seu passado - como fez com as Diretas-Já -, editando uma fala ou outra da "série de entrevistas que contribuiu para a democracia brasileira". E comemorará, em grande estilo, os 75 anos do padrão Globo de qualidade.

No entanto, o absurdo do "três pesos, três medidas" não se limita a interesses de fundo eleitoral e corporativo. Há também marcados traços ideológico-culturais a estimulá-lo. Numa campanha em que duas mulheres estão entre os três primeiros colocados nas pesquisas, as entrevistas do JN, através dos diferentes tratamentos dispensados aos candidatos, evidenciaram, uma vez mais, a premência da questão de gêneros e a persistência dos “valores” machistas em nossa - com o perdão do oximoro - cultura jornalística.


Machismo e questão de gêneros
Pois se a insistência do bad cop Bonner quanto ao alegado autoritarismo de Dilma trouxe, latente, o culto ao estereótipo de que mulheres, mesmo no comando, devem ser “femininas” e “delicadas” – como se isso tivesse alguma importância no exercício de cargos administrativos - e a feminilidade delicada de Marina acabou por lhe render um tratamento que não poucas vezes soou paternal e leniente – como se de um ser essencialmente frágil e, fica implícito, medianamente competente se tratasse -, Serra, por outro lado, foi tratado como um autêntico patriarca.

A interação do casal de entrevistadores com ele – da qual o tímido o “ senhor me permita”, vocalizado por Bonner, é expressão cabal de subserviência - claramente reverenciou “o político experiente”, “o administrador”, “o realizador”, encarnações do poder fálico decidido e destemido, o qual, ao contrário do que ocorre, na visão do JN, com as candidatas mulheres, não precisa mostrar a que veio.

Se isso não é uma demonstração cabal de ideário machista, a se somar a interesses classistas e empresariais, eu sou o Pato Donald.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A volta do "jornalismo do mas"

Ultimamente, parcela da mídia corporativa brasileira, um pouco por começar a inalar o incenso da falência, um pouco para fingir, aos ainda incautos, que pratica jornalismo equilibrado, tem procurado dissimular o ódio a Lula e a Dilma e o apoio ao tucanato e a seu candidato.

Assim, nas últimas semanas têm aparecido em setores da imprensa, com uma freqüência inaudita, artigos aparentemente justos com os fatos, e que insinuam, enfim, reconhecer méritos – esporádicos e mínimos que sejam – em uma administração federal apoiada, segundo as pesquisas, por cerca de 73% da população, em média.

O aparente equilíbrio jornalístico, porém, não resiste a um ou dois parágrafos, pois logo tem lugar o chamado “jornalismo do mas”, em que à mera menção do que possa ser positivo no governo Lula dá lugar a uma avalanche de conjunções adversativas – mas, porém, contudo, todavia, e por aí vai – que introduzem arrazoados sem razão e diabólicas diatribes na tentativa de convencer o leitor de que não é bom o país crescer, que essa história de deixar de obedecer cegamente aos EUA não vai dar certo e que o Bolsa-Família sustenta vagabundos.

Para completar, quando o jornal em questão é a Folha de S. Paulo, ao lado de uma matéria desse tipo há um box, intitulado “outro lado”, que, democraticamente, se dedica a ouvir... o mesmo lado, ou seja, os tucanos, demos e psolentos encarregados de entoar a cantilena dominante no artigo.

Na Folha, aliás, o tal “jornalismo do mas” não é novidade. Só que, no longo período em que o jornal parecia prestes a se tornar uma Veja diária – com direito a ficha falsa na capa, ataque de Frias a professores renomados, "denúncias" de Cesinha e anomalias do tipo -, essa exótica modalidade de jornalismo era de uso prioritário de seus colunistas – os quais, premidos pela necessidade de aparentar isenção, se viam, de quando em quando, obrigados a reconhecer um avanço ou outro, para logo em seguida sapecar um "no entanto" e começar a artilharia anti-Lula.

Por isso, a primeira vez que me apercebi do “jornalismo do mas” foi num artigo sobre Clóvis Rossi que escrevi para o Observatório da Imprensa e depois republiquei, com alterações, no blog. De lá para cá, tornou-se recorrente tal modalidade de apelação pseudo-jornalista, que não se restringe mais ao casmurro colunista e seus colegas que desempenham a mesma função no diário dos Frias.

Aliás, a Folha é, sem dúvida, o órgão que com mais frequência e da maneira mais deslavada tem recorrido a esse estratagema dissimulador, até para tentar convencer que à reforma gráfica recente do jornal, que tornou os infográficos ainda mais coloridos e pululantes, correspondeu uma revisão – com sinal progressista - de sua linha editorial. O que acontece, a bem da verdade, é exatamente o contrário, com colunistas mais liberais – como Paulo Nogueira Batista Jr. – tendo sido defenestrados, substituídos por imberbes colunistas de formação neocon.

O problema é que, longe dos círculos mais informados e da blogosfera de esquerda, há quem se deixe enganar pelo truque. Para meu espanto e decepção, tenho presenciado in loco tal fenômeno.

sábado, 7 de agosto de 2010

À espera do Encontro Nacional de Blogueiros

Ontem fiz minha inscrição para o I Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas. Alimento uma ansiedade boa em relação ao evento e estou com grande expectativa – creio que será mais do que uma oportunidade de conhecer e confraternizar com outros blogueiros e entusiastas das novas comunicações, mas um evento histórico.

Só o fato de se realizar tal encontro, com uma programação de três dias e reunindo centenas de pessoas, já merece ser saudado como uma prova a mais de que, definitivamente, há uma nova força a se contrapor aos jornalões e grandes corporações midiáticas, com suas manipulações a favor do capital e de seus próprios interesses empresariais.


Desafios e conquistas
É evidente, no entanto, que se trata de uma luta de Davi e Golias. Talvez não nos encontremos mais em uma fase meramente embrionária da comunicação alternativa via web, mas, sendo realista, ainda são incipientes as bases materiais, legais e institucionais que permitiriam a constituição de um sustentáculo à atividade blogueira a médio e longo prazo. Muito precisaremos caminhar para nos consolidar como força capaz de vencer a longa luta da blogosfera por viabilização profissional, segurança jurídica, capacidade de se manter infesa ao poder do grande capital e de resistir contra as tentativas de intimidação e censura, entre outros desafios.

Assim como muitos têm afirmado, tenho a impressão de que o Encontro será o primeiro passo concreto e abrangente para a concepção de ações articuladas para começar a enfrentar de forma objetiva tais demandas. O incansável jornalista Altamiro Borges, dono de um dos melhores blogs de política do pedaço, acrescenta, em entrevista ao site Vermeho, a oportunidade para atacar uma questão premente da blogosfera: “o blog produz muita opinião e pouco conteúdo informativo. Para Miro, trata-se de uma ótima oportunidade para a articulação de uma agência de notícias.


Festa e confraternização
Como se não bastasse a oportunidade de nos unirmos e agir para a melhoria da blogosfera, teremos uma festa de abertura ao som de chorinho, com um grupo comandado por ninguém menos do que Luís Nassif (ao bandolim), com canjas de quem entende do riscado (infelizmente, não é o meu caso...).

Quem está querendo ir e não sabe como fazer para se inscrever, arrumar hotel e passagens em conta, etc., é só clicar no banner grandão lá encima ou aqui, que a minha grande amiga @Maria_Fro (a.k.a. Conceição Oliveira) explica tudim procê, como se diz aqui em Minas!

Miro, Nassif e Frô fazem parte da comissão de organização do evento, que conta ainda com as presenças do prezado Diego Casaes, de Paulo Henrique Amorim, Rodrigo Vianna, Eduardo Guimarães e Luiz Carlos Azenha - todos, desnecessário dizer, de parabéns pela capacidade, persistência e raça para viabilizar o encontro.


Pauta variada
Azenha, aliás, em post sobre suas perspectivas quanto ao encontro, observou, de forma realista e na contramão de análises mais derramadas, que “a blogosfera é muito diversa e é difícil encontrar dois blogueiros que concordem absolutamente sobre um único tema. Por isso, quem imagina que os 200 blogueiros já inscritos vão se submeter a algum tipo de controle, de comando centralizado ou de “ordens superiores” decididamente não conhece a blogosfera”. Para ele, os pontos fundamentais seriam: interação entre blogueiros, com troca de informações e de ensinamentos visando aprimorar os blogs, discussão sobre “a viabilidade comercial da blogosfera” e debate acerca das “as ameaças já existentes à blogosfera”.

De minha parte, insisto – pois já abordei o tema aqui - na importância da constituição de um sistema permanente de defesa jurídica para a blogosfera. Não se trata, a meu ver, de mais um tema entre outros de igual importância, mas de uma necessidade premente, pois têm sido recorrentes – e em intervalos cada vez menores - os processos contra blogueiros, uns poucos por descuido próprio (e aí faltou orientação legal sobre que cuidados tomar para exercer jornalismo sem infringir a lei), mas uma maioria como forma de intimidar e calar o escriba. Que, um dia, tais estratégias venham a tomar a forma de uma ação articulada visando censurar e desarticular a blogosfera - através de uma enxurrada de processos e com as armas do poder econômico - é mera questão de tempo. Arrisco dizer que isso só não aconteceu nas eleições em curso porque, para os agentes do grande capital capazes de financiar tal empreitada, o naufrágio da candidatura da direita se evidenciou muito cedo – muito antes que as pesquisas eleitorais o detectassem.


A hora é essa!
Essas e outras questões serão certamente debatidas nos três dias de encontro e, ainda que muita polêmica e até algumas discussões devam ocorrer, estou certo de que sairemos de São Paulo mais fortes e com projetos concretos para o aperfeiçoamento e fortalização da blogosfera, que nestas eleições têm mostrado seu tremendo potencial como força de comunicação interativa e livre de interesses corporativos.

Quem ainda não se decidiu, esta é a hora (inscrições só até dia 13/08)!