sábado, 26 de junho de 2010

Dunga versus Globo: a guerra dos patos mancos

Essa rixa entre Rede Globo e Dunga, que tem mobilizado apaixonadamente a internet, me diz muito pouco. A princípio, sou contra os dois lados envolvidos.

É evidente que o virtual monopólio da seleção brasileira que a Rede Globo, em conluio com a CBF, sempre exerceu nas Copas do Mundo é nocivo à pluralidade jornalística e constitui um fator relevante de manutenção do poderio comunicacional da emissora, com tudo de nefasto que tal situação traz em seu bojo.

Trata-se de uma relação que emula, no âmbito nacional, as vicissitudes do inacreditável oligopólio que a FIFA exerce no futebol mundial e, de forma marcante, no torneio em questão, perpetuando um anacronismo que por um lado teima, em plena era da cibercultura, em controlar com mão de ferro os direitos de transmissão dos jogos; enquanto, por outro lado, impedindo o uso de tecnologia avançada para arbitrar os jogos, permite, aos olhos do mundo todo, excrescências como o escandaloso gol de mão que levou a ora desclassificada França à Copa, deixando a Irlanda de fora do torneio. Pessoas minimamente racionais teriam dificuldades de levar o futebol a sério como esporte depois do ocorrido.

Mas se o monopólio global no futebol é nocivo por isso e pelo que representa de arrogância e de manipulação do imaginário futebolístico segundo interesses privados – com tudo o que tal dinâmica implica em termos políticos em um país como o Brasil –, os modos truculentos de Dunga não estão menos dissociados de um arquétipo machista, patriarcal e ditatorial que teima em assombrar a nossa história enquanto país.

Seus modos ríspidos, sua agressividade latente, sua aversão a qualquer forma de hedonismo – da qual deriva o controle extremo das atividades sexuais dos jogadores - sempre me trazem à mente a pergunta em forma de canção: “Será que nunca faremos senão confirmar/A incompetência da América católica/Que sempre precisará de ridículos tiranos?”.

Tenho sérias dúvidas se é mesmo ao catolicismo que devamos cobrar o ônus da fixação nacional por tipos patriarcais repressivos, da qual o esporte é prolífico - que o digam Bernardinho, Felipão, Luxemburgo, Dunga. De minha parte, desprezo essas figuras e anseio pelo dia em que a idolatria dos anti-valores que representam saia do horizonte nacional.

Para mim, isso seria incomparavelmente mais importante do que ganhar ou perder uma Copa do Mundo – que cada vez se evidencia mais como um torneio meramente comercial, morno, com a maioria dos jogadores esgotados fisicamente ao final do calendário dos milionários torneios europeus. Para completar, a cobiça é tanta que a cartolagem não hesita em sacrificar o já parco espetáculo impondo a utilização de uma bola heterodoxa... Seria cômico se não fosse trágico...

Ademais, não acho que, em nome da luta política, tenhamos de sacrificar a educação e passar a apoiar a agressão pessoal a jornalistas (ou a membros de outra categoria profissional), que foi o que o técnico da seleção fez com Alex Escobar. Hay que endurecer... etc.

Aliás, acho curiosa a capacidade dos que ora entronizam Dunga como herói anti-corporativo de convenientemente esquecer que ele, sem um histórico mínimo como técnico, não comanda uma das principais – e mais lucrativas – seleções do planeta por meritocracia, mas tão-somente pela confiança que o ultracorporativo Ricardo Teixeira, eterno cartola-mór da CBF, nutria por ele.

Escolhido, via dedazo, por "critérios" puramente corporativos - portanto, antidemocráticos -, Dunga vira o herói anti-establishment de setores da internet - que às vezes parecem fazer questão de nutrir seus detratores com munição desqualificante.


(Imagem do técnico Yustrich retirada daqui)

domingo, 13 de junho de 2010

A Globo e o cheiro de golpismo no ar (atualizado após cobertura de lançamento de candidatura Dilma no Fantástico)

Os sete minutos que o Jornal Nacional dedicou ao lançamento da candidatura José Serra no sábado (12/06), comparados aos menos de 20 segundos dedicados a Dilma Rousseff elevam a um novo patamar o grau de preocupação quanto ao comportamento da mídia nestas eleições.

Há um cheiro de golpismo no ar, exalado pelas declarações de mais de um membro do Judiciário quanto à possibilidade de cassação da candidatura Dilma em seu nascedouro, e incensado nos vapores das sucessivas multas aplicadas pelo sistema eleitoral ao lulopetismo por campanha antecipada, sem que sejam estas acompanhadas de punição similar ao DEM e ao PPS por seus programas televisivos, em que generosa e explicitamente promoveram a candidatura de José Serra – que aliás fez, impunemente, propaganda da Sabesp até no Acre.

O telejornalismo global pode, potencialmente, se seguir com essa cobertura escandalosamente assimétrica, vir a inflamar tal atmosfera golpista.

A mídia impressa não tem mais poder de mobilização popular. Avançamos: longe se vai o tempo em que a Folha de S. Paulo burilava sua imagem às expensas das Diretas Já ou do Fora Collor. Mas é uma incógnita o que pode acontecer se a Rede Globo decidir mesmo partir para o tudo ou nada. Em 2006, mesmo com os factóides do “escândalo do mensalão” transmitidos diuturnamente pela Globo News e chegando a ocupar 2/3 da grade do Jornal Nacional, não funcionou. Mas é arriscado demais fiar-se apenas nesse caso isolado para afirmar que no pasarán.


O fator blogosfera
Parece inegável que a blogosfera – com a Carta Capital e um ou outro veículo menor - tem exercido um papel preponderante na resistência à atuação orquestrada da mídia que se seguiu ao convescote no Millenium, desmontando factóides e produzindo contra-discursos que, se não atingem milhões, chegam a muitos – incluindo uma minoria em posições-chave no jornalismo e na política.

Ao menos até agora não pudemos, infelizmente, contar, nessas eleições, com o blog de Idelber Avelar – cuja lacuna como centro plural de debates permanece impreenchida. Mas, graças a esse fenômeno de renovação autóctone da internet, além da continuidade da atuação aguerrida de Nassif, Azenha, PHA, Vianna, Guimarães e outros mais, tanto o veterano Altamiro Borges, em excelente fase, como o renovado blog de Maria Frô e o Tijolaço, do novato Brizola Neto – que herdou o destemor e a coerência do avô - têm desempenhado um papel destacado de contra-resistência midiática.

A questão, entretanto, é qual o real poder de fogo desse setores da blogosfera brasileira ante um eventual bombardeio global às hostes lulopetistas? Seja qual for a resposta a essa pergunta, a euforia que, ante a subida de Dilma nas pesquisas eleitorais, ora nutre tanto tais novos comunicadores quanto entusiastas da candidata, pode não apenas resultar infundada como contraproducente. Grandes pensadores políticos como Lênin e Gramsci alertaram que subestimar a capacidade do inimigo é um erro ainda mais grave do que superestimar a própria capacidade.

Portanto, a se confirmar a radicalização anti-Dilma na Rede Globo, com o abandono de parâmetros éticos mínimos e de uma postura que ao menos simule imparcialidade em prol de uma campanha aberta e massificada pró-Serra não restará caminho outro que a constituição de um movimento cívico que de fato mobilize a sociedade brasileira para a defesa da democracia.


Globo versus sociedade civil
A emissora em questão tem um histórico que depõe contra si. Cresceu sob a ditadura, a qual apoiou intensamente e, para ficar só nos dois episódios de maior gravidade, como analisa com o brilho costumeiro Venício A. de Lima no ótimo livro Mídia – crise política e poder no Brasil (Perseu Abramo, 2006), a Globo, em consonância com a Proconsult, tentou fraudar as eleições para governador do Rio de Janeiro em 1982, surrupiando votos de Leonel Brizola; e, ao contrário do que tenta hoje, à custa de edições posteriores, provar, negligenciou a cobertura das Diretas-Já em 1984 (e eu não precisaria ler o livro para me dar conta disso, pois lembro-me perfeitamente do fato e do momento histórico, o qual, aos 16 anos, vivi intensamente, como relato aqui - "0 povo não é bobo/abaixo a Rede Globo" era o slogan berrado a plenos pulmões contra a indiferença da emissora para com a luta pela democracia).

Convém lembrar, uma vez mais, que a TV Globo opera graças a uma concessão pública para exploração de sinal de teledifusão, concessão essa regulada pela Constituição Federal e que inclui – ou deveria incluir - não apenas a obediência à legislação eleitoral mas à deontologia, internacionalmente consagrada, do telejornalismo em relação a coberturas de eleições majoritárias.

O engajamento explícito da emissora na candidatura serrista é, portanto, uma questão que transcende os interesses político-partidários das agremiações A, B ou C e se apresenta como grave transgressão aos pilares básicos do exercício da política em uma sociedade democrática. Se tal desatino vier de fato a se concretizar nos dias que virão, será necessário uma reação à altura da sociedade civil organizada.


ATUALIZAÇÃO (14/06):
Após os 5 minutos dispensados à cobertura do lançamento da candidatura de Dilma no Fantástico, interlocutores questionaram a validade do post, e ao menos um acusou o blogueiro de leviano.

Reconheço que é auspicioso constatar que há, na Vênus Platinada, ao menos a intenção de soar equânime, ainda que tal comportamento continue aquém dos padrões que se espera de um jornalismo de alto nível, que deve de fato ao menos buscar a inatingível imparcialidade.

Isso posto, é preciso levar em conta que a cobertura do Fantástico dispensou dois minutos a menos à candidatura Dilma (tempo que é uma enormidade na TV); que no mesmo programa voltou a enfocar Serra por um tempo bem mais generoso do que os 18 segundos concedidos à petista no dia anterior; que o Fantástico não tem o "peso jornalístico" do Jornal Nacional - e, acima de tudo, que a reportagem sobre Dilma foi ao ar uma hora mais tarde e num domingo - com índices de audiência lá embaixo. Sem esquecer que o Fantástico não endossou didaticamente o programa de governo de Dilma como o JN fez com o candidato peessedebista no dia anterior.

Ademais, deve-se enfatizar que, como o bom leitor certamente se apercebeu, o post acima foi todo escrito no condicional. Faz conjecturas, ante o impacto de inéditos 7 minutos dedicados ao lançamento de uma candidatura que já está na praça há tempos e com base no retrospecto profundamente manipulador da emissora em eleições passadas. Fica no ar a questão sobre se os para alguns suficientes 5 minutos dedicados a Dilma no domingo deveu-se ou não, e em que medida, à pressão exercida em decorrência da cobertura espantosamente generosa dedicada ao tucano no dia anterior.

No final, o mais importante é não perder de vista que, somados o sábado e o domingo, o tempo dedicado à candidatura Serra (cerca de 8 minutos) foi mais de 50% maior do que o dedicado a Dilma (pouco mais de 5 minutos). E isso continua sendo, na minha opinião, uma grave distorção.

Quanto ao título infeliz, reconheço, errei. Por isso retitulei.


(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Crianças, adultos e uma imagem

O blog da deputada Manuela D’Ávila está de cara nova. Mas continuam os mesmos o endereço e os nomes – que são dois, ao gosto da freguesia: “Há uma menina...” (assim, com os três pontinhos ao final) ou “Bola de Meia, Bola de Gude”. Este último em referência à música de Milton Nascimento e Fernando Brandt cuja estrofe inicial diz:


"Há um menino, há um moleque,

morando sempre no meu coração,

toda vez que o adulto balança

ele vem pra me dar a mão".


Esses versos sempre me fazem lembrar da bela - e para mim tocante - dedicatória com que meu pai me presenteou, quando eu tinha 7 anos, o livro As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain:


“Ao meu filho Maurício,

Para que a criança de hoje

não se perca no adulto de amanhã”.


Às vezes, como nos últimos dias, tem sido muito difícil achar essa criança dentro de mim. E as forças para “firmar o nobre pacto entre o cosmos sangrento e a alma pura”, de que nos fala Mario Faustino, se dissipam em meio a mesquinharias minhas e alheias, um cansaço generalizado do mundo e trips egóticas fora de lugar. Hay dias que no se lo que me pasa.

Mas este não é um texto de lamentações pessoais: as mudanças do blog de Manuela – alguém que aliás, parece conduzir muito bem o tal “nobre pacto” -, embora para melhor, retiraram da diagramação visual um item central, que sempre capturava minha atenção por alguns instantes: a foto que encima este post.

Não sei quem é o fotógrafo por ela responsável, mas posso afirmar, sem dúvida, que é uma das minhas fotos preferidas.

O que salta à vista, em primeiro lugar, é a questão racial: a louríssima e branca Manuela em alegre e desibinida interação com uma criança negra, com a anuência entusiasmada da responsável por esta. Talvez isso não seja big deal em terras brasileiras, mas tenho certeza de que seria um exemplo maravilhoso em diversas partes do mundo.

Os contrastes no interior da imagem vão além da cor da pele: o nariz reto e um tanto pronunciado de Manuela - característica que eu acho muito atraente em algumas mulheres, talvez porque lhes confira mais personalidade -, sua altura consideravelmente maior do que a de seus interlocutores, e as posições por demais flexionadas e angulosas que assume - mais observáveis no braço e na boca bem aberta - fazem com que componha uma figura apolínea, em oposição ao jorro de felicidade relaxada e autenticamente dionisíaca que se depreende de mãe e filho, particularmente dos olhos da criança, que funciona como uma especie de centro irradiador de energia.

As roupas também nos dizem algo: enquanto o bebê, bem-penteado, ereto e vestido com uma camisa de gola, segura um papel na mão esquerda, Manuela, levemente encurvada e despojada, veste uma camisa de flanela em tom pastel - tão simbólica das gerações de jovens pós-68 -, com uma flor bordada como um adereço extra a dar-lhe, talvez, um toque meio hippie. Para os padrões convencionais, produz-se uma curiosa inversão: é como se o menino fosse o deputado e a jovem loira quem o assedia.

O nunca banal Roland Barthes, em A Câmara Clara – talvez o mais poético dos livros acadêmicos já escritos, no qual discorre sobre fotografia a partir dos poucos registros visuais de que dispõe supostamente relativos à sua mãe recém-falecida – sugere um sistema classificatório, no qual o punctum seria um dos principais elementos. Se bem me lembro, este designaria um detalhe, um ponto não central da imagem mas que, de acordo com um critério pessoal, desempenharia uma função denotativa relevante na foto.

Na minha opinião, o punctum da foto acima não está nem em Manuela nem no bebê, mas na mãe deste, mais exatamente no modo como esta france o cenho, embevecida pelo sorriso do que presumimos ser seu filho (o sorriso, aliás, é um ponto de identificação entre ela e Manuela, ambas com dentes bem brancos e alinhados, enquanto mal despontam no bebê seus primeiros dentes-de-leite frontais inferiores). É, em última análise, a reação da suposta mãe que confere autenticidade, corrobora e multiplica os sentidos epifânicos atribuíveis ao ato de interação social pela cãmera flagrado.

O resultado é uma foto tão boa que nos faz esquecer que se trata, afinal, de uma situação recorrente, e que, por botar, literalmente, o candidato bem na foto, tornou-se banalizada nos eventos políticos públicos: o afago em bebês alheios. Entretanto, a interação genuína ente Manuela e a criança, a espontaneidade alegre desta e o júbilo de sua presumível mãe nos faz relevar ou mesmo não se aperceber do clichê.

Deputada Manuela, o link pra o seu blog vai continuar ali embaixo, à direita, destacado no blogroll do Cinema&OutrasArtes. Mas não sem a certeza de que cada vez que acessá-lo sentirei falta de uma das imagens mais fascinantes e “do bem” da blogosfera. O que nos leva a constatar que certas mudanças são perfeitamente evitáveis, ao contrário do tornar-se adulto.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Obama, Serra e o imperialismo

A eleição de Barack Obama à presidência dos EUA, prenhe de significações auspiciosas, trouxe, mundo afora, esperança aos setores sociais mais progressistas.

Afinal, ao mesmo tempo em que alegadamente significava o fim do imperialismo bélico da “era Bush”, culminava, com a chegada de um negro à Casa Branca, como episódio-símbolo da consumação da luta pelos Direitos Civis que teve seu auge nos anos 60.

A jovialidade do candidato, seu sorriso fácil, o otimismo contagiante do “Yes, we can” que se seguiu ao outono neoliberal, tudo parecia indicar que até um revival, em menor escala, do otimismo inebriante do pré-1968 seria possível.

Tratava-se, hoje se sabe, de uma mera ilusão. Como fica cada vez mais evidente, o acordo que, em nome da governabilidade, o presidente se viu forçado a fazer com a linha-dura do partido democrata, encarnada por Hillary Clinton – que se torna, cada vez mais, uma figura trágica, que parece ter direcionado todas as frustrações repressadas de esposa publicamente traída à acumulação de um poder tão intransigente quanto insensível - acabou por gerar não o fim dos falcões bélicos republicanos, mas tão-somente sua substituição por seus iguais democratas. (Leia no ótimo blog de Arnobio Rocha, uma reconstituição detalhada de tal processo)


O retorno do oprimido
Dois episódios, graves e recentes, parecem confirmar tal premissa. O primeiro é a reação intempestuosa dos EUA ao acordo Brasil-Irã-Turquia. Comandada pela Secretária de Estado – que, na prática, desautorizou o próprio presidente Obama -, a tratativa em prol da adoção de sanções contra o Irã, acompanhada da retórica belicista, contraria esforços em prol da paz saudados pela maioria da comunidade e da imprensa internacionais.

Foi como se o sorriso de dentes brancos e alinhados de Obama uma máscara se revelasse, dando lugar à verdadeira face da nação – a do enrugado imperialismo bélico, invasor e antidemocrático, com um desprezo pela vida humana que só rivaliza, em intensidade, com seu grau de ganância materialista.

Nem bem as pessoas de bem se recuperaram do susto ante a carranca, a brutalidade patrocinada pelos EUA uma vez mais se manifestou, na forma do inadmissível ataque do exército israelense a um comboio marítimo pacífico, que levava víveres e remédios ao campo de concentração, digo, à Faixa de Gaza. No mínimo, nove pessoas morreram.

A reação dos EUA, que sistematicamente boicotam qualquer ação contra o terrorismo de estado israelense? O de sempre: declarações afetando indignação, mas não acompanhadas do anúncio oficial da adoção de nenhuma medida para punir o prolongado banho de sangue - entre forças covardemente desiguais - no Oriente Médio.


Imperialismo brazuca
No Brasil, por sua vez, presencia-se o retorno de um discurso lumpen-imperialista que julgávamos condenado às teias de aranha da história. Vocalizado por um cada vez mais desequilibrado José Serra, apela, a um tempo, ao imaginário preconceituoso que ainda predomina, em nossa sociedade, em relação aos povos andinos e à caricaturização que nossa imprensa faz de Evo Morales – “amigo de Lula” - para culpar a Bolívia pelo tráfico de cocaína no Brasil e, de quebra, atingir a candidatura Dilma.

Se o caso fosse mesmo acusar os países vizinhos pelo tráfico no Brasil – negligenciando, como sempre, o quanto nossa própia estrutura socioeconômica colabora para tal - o candidato tucano deveria endereçar-se não ao “índio” esquerdista Morales, mas ao seu colega colombiano Álvaro Uribe, direitista e branquinho, cujo país exporta três vezes mais cocaína ao Brasil do que seu vizinho andino.

Porém, muito mais preocupante do que essa diatribe eleitoral desesperada de Serra – que subitamente deixou de ser o pós-Lula – é a soma de sua postura destrutiva em relação ao Mercosul e belicista quanto aos nossos vizinhos sul-americanos com a defesa desabrida que faz do realinhamento automático com os EUA.

Pois, no momento em que Brasil começa a se impor de forma mais visível no cenário internacional, com os avanços e retrocessos que tal condição provoca numa arena geopolítica altamente competitiva, o retorno a uma postura submissa em relação aos EUA significaria não apenas um estímulo indevido ao imperialismo desumano do qual sua história é composta, mas a renúncia a nosso direito por reafirmarmo-nos como nação livre e autônoma no cenário internacional.