segunda-feira, 24 de maio de 2010

Frias e a reforma da Folha

A Folha de S. Paulo está de cara nova. Agora, além dos infográficos pululando em profusão, há todo um design padronizado, privilegiando o azul. Impossível não pensar em Dorian Gray, personagem de Oscar Wilde que mantém uma bela e jovem aparência física a ocultar uma essência putrefata e carcomida.

Não passa de coincidência, é claro, que azul seja a cor primária do PSDB e que, embora a mais recente pesquisa eleitoral presidencial divulgada pelo enquadrado Datafolha tenha constatado empate em 37%, Serra, em foto favorável (na medida do possível, é claro...), continue ocupando o canto superior esquerdo, em harmonia com o azul dominante que lhe é graficamente destinado, enquanto Dilma, em sisudo close, venha depois, devidamente borrada com o vermelho do comunismo comedor de criancinhas.

Como se sabe, o leitor do diário da Barão de Limeira – essa espécie de mulher de malandro que adora ser enganada - só foi informado do empate entre Serra e Dilma porque o outrora soi disant respeitável Datafolha, agora na mira do Ministério Público, subitamente divulgou números bem diferentes dos alegadamente auferidos por suas pesquisas anteriores. O receio que o motiva, porém, não é tanto a ponto de o site do instituto atualizar manchetes. Lá, a mais recente - das que dizem respeito às eleições presidenciais - é de 03/05 e faz companhia a outras em que Serra continua bem à frente. Ficam lá, mofando, misto de saudade e wishful thinking vindo do passado.

Mas não sejamos maldosos: talvez a demora em atualizar a página se deva à concepção anacrônica que os Frias têm da internet. A se basear nas palavras do intelectual da famiglia sobre o jornalismo na web, talvez eles sequer saibam o quão fácil é renovar um site. Vejam o que o chefe do clã, após cometer a declaração desprovida de clichês de que o jornalismo tem sete vidas, escreveu:

“Muito desse novo jornalismo tem qualidade discutível, quando não é produto de mera pirataria. Os blogs e o jornalismo cidadão parecem oportunidades promissoras, mas quase sempre seu alcance fica limitado, seja em termos de recursos ou abrangência, seja porque expressam visões demasiado particulares e engajadas. Para piorar, o jornalismo que emerge está eivado de entretenimento, culto à celebridade, inconsequência”.
O velho Freud deve estar se remoendo no túmulo! Até um primeiroanista em Psicologia reconheria o quanto há de projeção referente a seu próprio jornal na fala de Frias. Faça um favor, leitor(a): releia o trecho pensando na Folha e gargalhe junto comigo.

Poderíamos utilizar a lógica para contrapôr à afirmação de que muito do jornalismo virtual teria qualidade discutível, a constatação decorrente de que há ilhas de qualidade – certamente muito mais recorrentes e de melhor qualidade do que na própria Folha, onde tal coisa é artigo rarefeito. Ou nos resfestelar apontando a contradição de alguém responsável há tantos anos pela Ilustrada e pelo Folhateen – que fazem um tal culto aos ídolos do pop/rock estrangeiro que até o nada nacionalista Caetano Veloso se viu instado a criticar-lhes – acusar o culto à celebridade. Mas minha parte favorita é quando Frias acusa os blogues de expressarem visões engajadas. Vindo de quem vem, é hilário.

Certamente para evitar tal risco, a reforma do jornal incluiu a demissão até do Paulo Nogueira Batista e a contratação de colunistas afinados com a linha editorial da Veja, digo, da Folha.

Frias prossegue, evidenciando que a sua teimosia em ser publisher está privando o público brasileiro de um humorista de mão cheia:

“Conforme mais pessoas imergem no oceano de dados e versões que giram pela rede, maior a demanda por um veículo capaz de apurar melhor, selecionar, resumir, analisar e hierarquizar. Esse veículo, no papel ou na tela, se chama jornal”.
Ou seja, tal qual uma Maria Antonieta recomendando ao povo que coma brioches, o publisher da Folha ainda acredita que seu diário, violador sistemático da ética jornalística, tem a função de hierarquizar a notícia de forma a conduzir o leitor – uma pretensão reveladora não apenas de seu anacronismo, mas de suas tendências autocráticas.

Ao ler o artigo de um dos próceres da plutocracia midiática, fica evidente que a crise da imprensa brasileira é ainda pior do que se imagina: ele não está entendendo nada, absolutamente nada da nova dinâmica da comunicação na era digital.

Mas numa coisa eu concordo com Frias Filho: o jornalismo tem sete vidas. A Folha está na sétima.


(Imagem retirada daqui)

sábado, 22 de maio de 2010

Dilma em ascensão: os obstáculos à frente

A constatação do avanço da candidatura de Dilma Rousseff nas pesquisas, corroborado até pelo relutante Datafolha, merece ser saudada pelos que acreditam ser a candidata a única postulante capaz de dar continuidade – e talvez aprimorar – o legado positivo da Presidência de Luiz Inácio Lula da Silva – sintetizado na ascensão social de mais de 30 milhões de pessoas e no combate à miséria como nenhum governo o fizera antes.

A felicidade pela escalada eleitoral de Dilma não pode, no entanto, sob o risco de ameaçar a sua vitória em outubro, transformar-se em euforia, salto alto e já-ganhou. Riscos concretos, maximizados pela velocidade de sua ascensão em relação à derrocada serrista, apresentam-se no horizonte.

Há informações seguras de que, de maneira similar ao que vem fazendo na internet – com um exército de cibermercenários voltados à trolagem e à difamação – a oposição vai recorrer a baixezas inomináveis no afã de associar Dilma ao terrorismo, não só sem fornecer a mínima contextualização histórica – como de ordinário o faz, com o auxílio da mídia amiga - mas incluindo imagens de alegadas vítimas e depoimentos de seus supostos familiares. Tudo devidamente banhado em sangue e em retórica apelativa, Datena-style.

É incerto o quanto contará que a história já tenha provado que Dilma jamais tomou parte de tais ações. Pois tende a importar o espetáculo e as imagens, sobretudo se, ao final do período de propaganda eleitoral, não houver tempo hábil para a resposta dos difamados.

Há precedentes na utilização de tais táticas: nas eleições passadas, sequestradores de Abílio Diniz foram forçados a vestir a camisa do PT às vésperas do pleito; e, em uma das armações eleitorais mais óbvias e delirantes, uma montanha de dinheiro materializou-se ante as lentes globais, alegadamente para compra de um dossiê contra o opositor de um candidato que as projeções já previam vitorioso. Velhinhas de Taubaté em peso caíram - e ainda caem - nesse conto tosco da carochinha.


O "fator tapetão"
O outro perigo a ameaçar a candidatura lulopetista localiza-se na seara judiciária. Claro está, desde a pré-campanha, que, à mínima desculpa, o demotucanato vai recorrer ao TSE. O que inicialmente afigurava-se como uma tentativa de calar o lulopetismo – ao mesmo tempo em que comerciais como o da Sabesp são exibidos país afora, com propósito eleitoral evidente - configura, cada vez mais, uma tentativa de “judicializar” a eleição, criar elementos para contestar sua lisura e preparar o terreno para, com o jogo perdido, apelar ao tapetão.

Gostaria de escrever que não existe esse risco, que podemos confiar em nossa Justiça, mas isso, infelizmente, não é possível, ao menos como regra geral: há, nos diversos âmbitos do Ministério Publico e nos juizados e tribunais, profissionais do mais alto gabarito, em sua maioria bem-intencionados. Porém as omissões, desmandos e mesmo falcatruas (como a que envolveu o juiz Nicolau dos Santos Neto), somadas ao estrelismo e ativismo político de figuras como Gilmar Mendes, fazem com que de dúvidas e de reticências componha-se a imagem de tal Poder junto à população. Não sem razão.

Nos últimos dias surgiram indícios de que o lulopetismo começa a acordar para tal ameaça e a também marcar presença no TSE, o que é essencial para descaracterizar, aos olhos do público, a impressão de transgressões unilaterais da lei eleitoral. Ainda assim, como tem demonstrado o excelente blog de Brizola Neto – que nessas eleições tem desempenhado na internet um papel fundamental, similar ao que o blogueiro Idelber Avelar protagonizara em 2006 –, o PT tem negligenciado as batalhas nos tribunais estaduais e, na seara jurídica como um todo, a balança tem pendido para Serra, no que ressoa à adoção de dois pesos, duas medidas.

Subir nas pesquisas é alvissareiro e promissor, ainda mais quando se constata que mais de 10% dos eleitores votariam no candidato de Lula, mas ainda não sabem quem é. Porém é necessário atenção de todos – eleitores, militantes, políticos da base aliada e das próprias corregedorias eleitorais – para os perigos em potencial acima apontados. A eleição presidencial que se aproxima, particular e especialmente decisiva para a história do Brasil, demandará mais do que votos.


(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 18 de maio de 2010

Woody Allen e Chico Xavier

Assisti a dois filmes no final de semana: Tudo Pode Dar Certo, último de Woody Allen a aportar por aqui, e Chico Xavier, mais do mesmo do fordismo cinematográfico da Globo Filmes.

Tinha ouvido muitos elogios ao filme de Allen, de quem sou fã de carteirinha, e as altas expectativas que alimentava em relação a Whatever Works podem ter contribuído para a leve decepção que tive.

Há, sem dúvida, algo do frescor e o tipo único de experimentalismo formal dos woodies dos anos 70 (época em que o roteiro foi escrito), aí incluído o modo ostensivo como é violada a regra de que os atores não devem jamais olhar diretamente à câmeraa (ou seja, ao espectador). Tal estratagema pareceu-me um dos escassos atrativos do filme, ao lado da deliciosa ninfeta burra encarnada por Evan Rachel Wood – uma southern belle em crise, com o inacreditável nome de Melodie St. Ann Celestine, um sotaque hilário e uma voluptuosa obsessão pela culinária cajun.

Mas não basta: Tudo Pode Dar Certo, por mais que Allen se esforce para mitigar – inclusive fazendo referência explícia, em forma de blague, à fonte inspiradora – não passa de mais uma versão do Pigmaleão de Bernard Shaw, com polos adjacentes um pouco mais desenvolvidos e trama ambientada em upper Manhattan.

Ressenti-me, em primeiro lugar, da escolha do ás da comédia Larry David como o desencantado e frankfurteanamente pessimista protagonista (em papel na verdade concebido para Zero Mostel, com quem Allen atuou em Testa de Ferro por Acaso e que viria a falecer em 1977). São compreensíveis as razões dramatúrgicas da escolha, mas eu as preferia negligenciadas em prol do prazer de ver – e rir com – o próprio Woody Allen como o cáustico Boris Yellnikoff, gênio da Física e ex-professor da Columbia ora dedicado a gritar ofensas à inteligência dos pirralhos aos quais ensina xadrez.

Mais grave do que o miscasting, porém, pareceu-me o esquematismo fácil que toma conta do roteiro à medida em que se forma o insólito par romãntico e as tramas paralelas começam a se desenvolver. Isso acontece sobretudo após a repentina chegada da mãe de Melodie (Patrícia Clarkson, que quase rouba o filme): de religiosa fanática, esposa traída e alcoólatra ela logo passa a artista de vanguarda, expondo fotos de nus nas galerias do Soho e co-habitando com dois homens em um prazeiroso menage à trois.

Porém esgota-se aí o verdadeiro centro de interesse do filme. Os quiprocós de seu desenlace, a despeito do esforço por soarem subversivos – ou por isso mesmo – resultam não apenas previsíveis mas algo datados. Afinal, o que poderia soar transgressor em matéria de sexualidade e religião (ou ausência desta) há 30 anos hoje é moeda corrente das microguerrilhas culturais.

Além de tudo isso, a trilha sonora, sempre um quesito em destaque nos filmes do diretor, é, com a exceção do uso de Beethoven para uma boa gag sonora, das menos sedutoras de sua filmografia. E para, literalmente, completar, o happy end, além de abrupto, deixa uma indelével sensação de déjà vu. Allen já fez melhor – muito melhor.


O "nosso cinemão"
Já com o filme sobre Chico Xavier aconteceu comigo o que de ordinário ocorre quando vejo as produções da Globo Filmes: nada. Não sei se é a narrativa extremamente convencional, ou talvez a mesmice de um alto nível técnico que se evidencia apenas como protocolo e jamais como ousadia, mas vi-me, uma vez mais, tomado de uma mornice tão amorfa que sequer chega a entendiar.

E olha que tenho um fascínio pela figura do biografado, notadamente após assitir à íntegra do Pinga-Fogo por ele protagonizado – que tem trechos reproduzidos ao final do filme -, que me surpreendeu como há muito um produto audiovisual não o fazia.

Acho lamentável que uma linhagem de filmes tão convencionais como os da Globo Filmes esteja ocupando, no setor de exibição, o lugar das produções mais inventivas do cinema brasileiro - além de parcela do “cinema de arte” internacional –, ao invés de avançar sobre um espaço indevidamente preenchido pelas sobras deploráveis de Hollywood, impingidas junto com os blockbusters.

Mas isso é um problema de mercado de distribuição/exibição e não invalida o mérito de termos um cinema industrial, o qual sempre defendi. Pois, de qualquer forma, e por mais que isso talvez soe excessivamente nacionalista, parece-me, via de regra, mais condizente que os brasileiros vejamos filmes que têm como tema Chico Xavier, Lula ou A Guerra de Canudos do que aqueles que enfocam a ação de marines, os jogos de baseball ou o patrotismo norte-americano.

Agora, que pitadas de ousadia formal não lhe fariam mal nenhum – nem, creio, afugentariam o público -, é uma constatação inevitável.

Na falta dessas, destaca-se no mecanicismo de Chico Xavier pouco mais do que a mediúnica atuação de Nelson Xavier e, acima de tudo, a trilha sonora de Egberto Gismonti, belíssima como um pôr-de-sol nas serras mineiras. O cinema comercial brasileiro também já fez melhor - muito melhor.


(Imagens retiradas, respectivamente, daqui e dali)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A contribuição de Ana Cristina César aos Estudos de Cinema

Ana Cristina César não só deixou um belo legado de poemas em que questões existenciais e a natureza feminina são tematizadas de forma a um tempo rascante e lírica, mas traduções (de poetisas inglesas, notadamente), ensaios críticos, textos de prosa poética e um livro, pelo qual tenho particular estima, que, embora usualmente classificado como de crítica literária, sintetiza uma pesquisa na área dos estudos de cinema, Literatura Não é Documento (Rio de Janeiro: Funarte, 1980)

Em suas meras 121 páginas, Ana, demonstrando grande poder de síntese, procura, através da análise de um campo cinematográfico específico - a produção de documentários sobre autores literários nacionais -, investigar as relações entre cinema e Estado.

Após atentar para os aspectos educacionais do documentário “literário”, Ana sublinha o crescimento da importância do subgênero em momentos de afirmação da identidade nacional. Esboça, assim, a premissa lógica que orientou, em dois momentos ditatoriais distintos e distantes no tempo (o Estado Novo getulista e o pós-AI-5, anos 70 adentro), as relações entre cinema e produção cultural no Brasil.

Publicado em 1980 - quando os ventos da Abertura trouxeram ares menos sensíveis a críticas ao regime -, o livro fora escrito entre 1977/1978 (portanto, nos anos subsequentes à adoção do Plano Nacional de Cultura, vigente desde 1973 e que levaria o cinema brasileiro à sua melhor década em termos de público e de ocupação de mercado). Apresenta surpreendente distanciamento crítico para uma observadora inserida no momento observado.


Radiografando a relação Estado-cinema
Buscando investigar a dinâmica da relação Estado-cinema, Ana analisa, historicizando, os orgãos criados em quatro décadas dessa interlocução, priorizando o exame dos critérios normativos responsáveis pela filtragem estatal dos projetos aprovados.

A produção estadonovista, baseada no Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE) e chefiada pelo pioneiro Humberto Mauro, iniciara-se em 1937, com curtas metragens produzidos de forma ininterrupta. Relativamente uniformes, voltavam-se, a priori, à educação escolar, sendo distribuídos de graça às escolas, por sua vez dotadas de projetores cinematográficos. É a essa fase que pertence a primeira versão, em P&B, de Carro de Boi, que, refilmado em cores em 1974, seria o derradeiro filme dirigido por Mauro - o “nosso Griffith”, no dizer de Paulo Emílio Salles Gomes.

Já a produção documental dos anos setenta, não obstante estar ligada ao processo de busca por legitimização cultural por parte do regime, constituiria, segundo Ana Cristina César, “mais um surto, menos um bloco patrocinado”, dizendo mais respeito à “busca de uma eficácia perdida num esquema repressivo” do que a aspectos especificamente educacionais. O relativo pluralismo dessa produção abarca desde filmes presos ao convencionalismo formal (exaltação da personalidade do escritor; fetichização de sua presença; etc.), até obras experimentais arrojadas - embora estas quase sempre tenham sido, como é dado a constatar no desenrolar do livro, submetidas a périplos tortuosos de financiamento.


Inquietude radical
Encerrando a primeira parte do livro, no momento de confluência entre os estudos de cinema e a crítica literária, aflora a inquietude radical que marcou a trajetória pessoal e literária da autora, na forma de uma análise provocativa e original do conformismo da produção cine-documental brasileira, “sem produto que veicule uma crítica radical à visão circulante de literatura”. Questionando a possibilidade ou não de se introduzir diferenças no interior do documentário, põe o dedo na ferida ao inter-relacionar, através da contraposição, tal possibilidade à natureza estatal da produção.

Destaca-se, no livro, a percepção do quociente de manipulação inerente à escolha de projetos pela EMBRAFILME. Através de entrevistas, a autora permite entrever uma combinação de critérios que, embora simulem um catalisador modelar comum à heterogênea produção da estatal, acabam, devido à sua flexibilidade excessiva, passíveis de direcionamento para atender a interesses clientelistas. Simplista falar em cooptação, ingênuo desprezá-la.

Embora, nas décadas que se seguiram à publicação de Literatura Não é Documento, autores como José Mário Ortiz Ramos (Cinema, Estado e Lutas culturais, Paz e Terra, 1983), Anita Simis (Estado e Cinema no Brasil, Anablume, 1996) e Tunico Amâncio (Artes e Manhas da Embrafilme, EdUFF, 2000) tenham aprofundado sensivelmente a análise das contradições e especifidades dos anos Embrafilme, o livro de Ana Cristina César conserva sua contundência e originalidade, revelando potencialidades que o suicídio da autora, aos 31 anos, tragicamente abreviou.


(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Serra como o "pós-Lula", ou o cinismo como marketing eleitoral

A tentativa de José Serra de “vender-se” como o pós-Lula, elogiando publicamente e com frequência o atual presidente, embora não deixe de apresentar aspectos risíveis, põe em prática uma das operações de marketing político mais cínicas da história das eleições brasileiras.

Ofensiva ao eleitorado brasileiro - ao qual trata como um ignorante político e um desmemoriado - o oportunismo de Serra no episódio, demeritório para si próprio e para seu passado, equivale a uma desautorização pública de seu partido - que vive, há 8 anos, às turras com Lula.

Se tivéssemos uma imprensa de fato, com um mínimo de vergonha na cara, ela estaria hoje desmascarando essa farsa, com a arma do sarcasmo que tal fanfarrice demanda e com o amplo apoio dos arquivos e dos fatos, sejam estes bem recentes (quando o candidado tucano era governador de São Paulo) ou distantes (referentes ao longo antagonismo não só entre PT e PSDB, mas, incluindo embates eleitorais, entre as figuras de Lula e de Serra).

Porém, em relação a tamanha hipocrisia, os colunistas de política da “grande imprensa”, sempre tão moralistas, fiscalizadores das mínimas derrapadas verbais dos políticos com os quais seus patrões antipatizam – notadamente o presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff -, ostentam um silêncio tão sepulcral quanto epifânico.


Dois pesos, duas medidas
Compara-se a reação desses mercenários do jornalismo com a que tiveram quando o PT passou a flexibilizar suas alianças e orientação política - rumo a um neoliberalismo menos ortodoxo do que o então praticado pelo PSDB – para se ter uma idéia dos reais valores (ou dos valores em reais, como queiram) que regem suas opiniões. Não que a “lulização de Serra” e a “neoliberalização do PT” sejam equivalentes: esta, sem deixar de ser eventualmente criticável, representa um processo de correção de rumo face às condições históricas vivenciado por um número significativo de partidos políticos (como as sociais-democracias européias e o trabalhismo inglês, para ficar em dois exemplos óbvios), enquanto a metamorfose de Serra em admirador de Lula pertence a outra ordem de coisas: a das farsas grotescas.

E não basta invocar a estratégia “Lulinha paz e amor”, proposta por Duda Mendonça e posta em prática pelo candidato petista em 2002, para autorizar a estratégia serrista de marketing, não só porque até tal estratagema o candidato tucano copia – por meio da tal campanha da “meiguice” -, mas porque suavizar o discurso, como o hoje presidente fez, é bem diferente de negar não apenas o próprio passado mas o do partido ao qual é filiado, e passar a forçar a barra para uma identificação com o líder do partido opositor. Seria como se Lula tentasse fingir concordar com Fernando Henrique Cardoso em 2002 – o que nunca fez, até porque, com a popularidade que o ex-presidente tinha, seria um péssimo negócio.


"Última esperança branca"
Se quer ganhar a eleição, Serra não tem mesmo outra alternativa: identificar-se como o tucano que é significa evidenciar sua filiação ao legado de FHC, a quem o povo brasileiro detesta, por conta de seu governo anti-povo, privatista, recessivo, no qual o desemprego bateu recordes (atualmente continua a batê-los, mas em sentido inverso: o de março foi o menor da história desde que o índice começou a ser medido).

Não ter alternativas não é, no entanto, justificativa para a manutenção dessa pantomima ofensiva à democracia. A decência pede, com mais ênfase aos homens públicos, que assumam o seu passado e suas posições político-ideológicas, mesmo que à custa de eventuais sacrifícios eleitorais.


Olho vivo
Denunciar a farsa grotesca do Serra lulista - e enfatizar seus laços com FHC e com o neoliberalismo ortodoxo, inclusive no passado recente como governador paulista - deve ser a prioridade número um da candidatura de Dilma. Isso se também esta não se vir vítima do “tapetão” judiciário ao qual o PSDB tem sistematicamente apelado – e o qual pede redobrada atenção da sociedade civil quanto aos procedimentos da Justiça Eleitoral.

Pois, segundo os jornais de hoje, o programa de TV do PT pode, se o TSE acatar o entendimento da procuradora Sandra Cureau, não ir ao ar devido às acusações que fez ao governo FHC de “só ter governado para os ricos” (ué, cadê os defensores histéricos da liberdade de imprensa agora? sumiram?). Ora, se isso for suficiente para vetar o horário petista, a transformação de Serra em lulista desde criancinha serve com folga ao impedimento do horário tucano. Basta acessar os arquivos e rodar o VT.