quarta-feira, 29 de julho de 2009

Vale-Cultura, elitismo e pseudoesquerdismo

A implementação do Vale-Cultura pelo governo federal tem fomentado discussões acerca da relação entre cultura popular e cultura de elite nos fóruns da internet. Tais discussões, como procurarei debater ao longo deste post, suscitam temas ligados a questões essenciais – embora sistemática e propositadamente negligenciadas - para o debate dos rumos da cultura e da relação entre Estado, público e produção artístico-cultural no país.

O Projeto
O Vale-Cultura é um projeto desenvolvido no âmbito do Ministério da Cultura, baseado no modelo dos "tíquetes-refeição", pelo qual trabalhadores que recebem até cinco salários mínimos (R$2,3 mil) terão direito a um cartão magnético no valor mensal de R$50 para gastos com cultura – seja para frequentar shows, cinemas, teatros e museus, seja para compra de livros, CDs ou DVDs. [O plural é pura generosidade de minha parte; com cinquenta pratas comprarão um livro e olhe lá].

O projeto fora inicialmente criticado por prever que o governo arcasse com 30%, o empregador com 20% e o funcionário com a maior parte, 50% do custo do benefício. Porém tal distorção foi sanada e, no projeto de lei enviado ao Congresso no último dia 23, sob a chancela de “urgência urgentíssima”, o trabalhador-alvo do projeto pagará apenas 10% do valor do benefício (trabalhadores com faixas de renda maiores poderão se beneficiar do Vale-Cultura, mediante descontos percentuais progressivamente maiores). Empresas que declaram Imposto de Renda com base no lucro real terão o direito de deduzir até 1% do IR devido, e as que seguem outros regimes tributários contabilizar o valor gasto para aquisição dos Vales-Cultura como despesa operacional. O governo – que espera que o Legislativo aprove o projeto em até 45 dias - arca com a maior parte da despesa.

Os dados disponíveis sobre acesso a cultura revelam um quadro desolador. Segundo o Ministério da Cultura (que disponibiliza um blog sobre o Vale-Cultura, com clipping informativo e o projeto de lei na íntegra), apenas 14% dos brasileiros vão regularmente ao cinema; 96% não frequentam museus, 93% nunca visitaram uma exposição de arte e 78% nunca assistiram a um espetáculo de dança. O órgão estima que o benefício contemplará algo entre 12 e 14 milhões de pessoas, e espera aumentar em até R$ 600 milhões por mês o consumo cultural no país.


Preconceito e elitismo
Num post intitulado “O preconceito e o elitismo no debate sobre o Vale-Cultura”, o jornalista e blogueiro Leonardo Sakamoto debate, entre outros aspectos do novo instrumento de política cultural, o constrangimento de certos setores quanto ao destino que os beneficiários poderiam dar ao vale:


“Ouvi e li depoimentos reclamando que o ‘povão’ iria torrar os 50 mangos em besteira, em livros de auto-ajuda, shows de brega ou forró, filmes blockbusters ou neochanchadas nacionais, enfim. Que deveria ser criada uma maneira do gasto ser feito apenas em produtos de “qualidade” ou da “cultura popular” dos estados...”


Sakamoto, no post, sem abrir mão da ponderação, assume, como de costume, postura crítica e que exprime de maneira clara sua posição quanto ao tema:


“A preservação do patrimônio cultural tradicional não se resolve forçando o povão a consumir um baião tradicional a um tecnobrega, um grupo de cateretê a uma dupla sertaneja, um samba de raiz a um funk proibidão...(...).. Ampliar o leque, dando mais possibilidades de escolha para a sociedade é uma coisa. Guiar o consumo cultural para preservar uma imagem que uma elite intelectual dos grandes centros tem de como deveria ser a cultura brasileira é outra.”
Sublinhadas a qualidade e a honestidade de intenções do autor, gostaria de fazer algumas ressalvas quanto a alguns de seus argumentos. A primeira diz respeito à premissa reducionista de que as críticas ao Vale-Cultura estariam voltadas à “preservação do patrimônio cultural tradicional” e dos exemplos - “baião tradicional”, “grupo de cateretê” e “samba de raiz” - que, em decorrência de tal premissa, elenca para contrastar com as opções artísticas eleitas pelo suposto mau gosto popular. Entre estas e aqueles se interpõe, com efeito, uma enorme gama de artistas, com maior ou menor ligação à indústria cultural, os quais ele ignora – limitando-se a mencionar, no contexto de uma comparação entre cultura popular e erudita, Chico Buarque (peraí, deixa eu ver se entendi... Chico Buarque, erudito?).

E são justamente esses numerosos artistas de níveis, estilos e abrangência regional diversos que, se o governo se prestasse, de forma democrática, a fazer o seu papel de atuar como mediador cultural, azeitando a relação deles com o público, poderiam elevar quantitativa e qualitativamente o nível de consumo de cultura pelas classes menos favorecidas no país.

Sem a mínima intenção de fazer uma crítica fulanizada a Sakamoto – que é um jornalista sério, com um respeitabilíssimo histórico de denúncia de graves questões trabalhistas, incluindo o trabalho escravo –, mas no intento de apontar contradições inatas à posição que ele, como tantos outros, defende, gostaria de questionar seu conceito de elitismo, tão essencial ao artigo que é anunciado logo no título. Para ele, as críticas ao eventual destino que o beneficiário der ao Vale-Cultura têm “um lado elitista”. Concordo, têm mesmo, e este diz respeito a critério de gosto estético e à tentativa de imposição desse critério a outra classe social (Bourdieu puro).

Mas, ao descartar rapidamente, como se de uma batata quente se tratasse, qualquer análise do papel da indústria cultural, Sakamoto dá vazão, talvez inadvertidamente, a um elitismo ao meu ver muito mais grave e profundo, que diz respeito tanto a questões estruturais do mercado de bens culturais - e do lucro das corporações que nele atuam - quanto aos limites de ação de governos democraticamente eleitos em relação a tal mercado.


O retorno do oprimido
Trata-se de um daqueles debates que, embora as forças conservadoras brasileiras se esforcem para calar, de quando em quando retornam, como o oprimido de que nos fala Freud, para assombrar o presente e revelar a incipiência e a hipocrisia de nossa suposta democracia cultural.

Um dos momentos mais traumáticos de repressão a esse oprimido ocorreu, segundo pesquisadores como Dênis de Moraes, na ruptura do processo de alavancagem do nível de cultura das massas populares decretada pelo golpe de 1964 – por impedir, entre vários outros exemplos possíveis, que os Centros Populares de Cultura (CPCs) da UNE completassem a transição do realismo socialista para o realismo crítico. Tal fratura fez com que a participação das massas populares no hiato que Roberto Schwarz chama de “hegemonia cultural de esquerda” - que se deu entre o golpe e o AI-5 - não superasse os limites periféricos aos quais, com poucas e pontuais oscilações, elas estariam mais e mais confinadas ao longo das décadas seguintes.

A posição participativa de intelectuais como Moraes, Marcelo Ridenti e Carlos Nelson Coutinho – que, em entrevista publicada aqui, “continua defendendo uma cultura nacional-popular, comprometida com o exame crítico da realidade sociopolítica” -, entre outros, se contrapõe, por exemplo, à de Maria Sylvia Carvalho em seu ensaio sobre o ISEB (“Tempo de ilusões”) e, em diversos artigos e livros, à de Marilena Chaui – filósofa que, quando a questão do popular na cultura de massas retornou uma vez mais ao primeiro plano, em meados dos anos 70, exerceria uma posição crítica militante contra qualquer forma de ação paternalista por parte do governo (então militar), além de procurar desconstruir teoricamente o conceito de “massa” como entidade una e manipulável. Esse embate, como se vê redivivo, tem episodicamente voltado à tona e sendo novamente reprimido ao longo do tempo.

O mais recente retorno do oprimido deu-se no no início da madrugada do último dia 28, quando o jornalista Allon Feuerwerker, logo após recomendar publicamente (“retwitar”) o post de Sakamoto, perguntou, via Twitter: “Vale-cultura: pq tirar do pobre o direito de consumir lixo cultural, um direito garantido ao rico?”.

A que eu devolveria a pergunta (como de fato o fiz no Twitter, com outras palavras): “Pq privar o pobre do direito de NÃO consumir lixo cultural, um direito garantido ao rico?”.


O mito do dirigismo
Pois direito de consumir lixo cultural todos têm – e vão continuar tendo, pois o Vale-Cultura amplia opções, não as restringe. Mas, mais de meio século após a intervenção de Adorno e Horkheimer, será que alguém ainda acha que o povão que elege Latino, Tiririca e Kelly Key o faz por livre e espontânea vontade? Que lhe foi dada a oportunidade de conhecer outros estilos musicais e outras propostas artísticas, para daí fazer sua escolha?

Esses artistas só passaram a representar o “gosto popular” que o pseudoesquerdismo elitista defende com unhas e dentes após, à custa de muito jabá, terem tido suas encantadoras canções bombardeadas nos ouvidos do andar de baixo trocentas mil vezes ao dia, todos os dias!

Quer dizer, esse dirigismo cultural escondido, ilegal e insidioso é não apenas tolerado mas defendido. E por quê? Porque embora a rádio/teledifusão seja um serviço público e feito através de concessão pública, é considerada pertencente ao âmbito da iniciativa privada, que tudo pode; já o governo, como representante do poder público.... Devido a essa sutil diferença, a um é permitido, como citado acima, o obscuro, o ilícito e o manipulativo, enquanto ao outro é negado – sob a acusação de se tratar de autoritarismo - o direito de promover, às claras, um projeto de enriquecimento cultural de uma população de nível educacional sabidamente (sic) baixo, em comparação com o resto do mundo. Simples assim.

Destarte, tornou-se normal e plenamente aceito que a maioria de milhões de brasileiros cujo único meio de acesso à “cultura” é a TV aberta (que, convém lembrar uma vez mais, é uma concessão pública) seja diariamente submetida ao dirigismo “cultural” das grandes redes, aos datenas da vida e seus imitadores piorados (acredite, é possível) ou às novelas da Globo e derivados.

O mito do dirigismo é, portanto, um discurso de mão única: ele serve ao grande capital comunicacional, para que este adquira ainda maior liberdade de ação do que já tem, ao mesmo tempo em que reprime a adoção de qualquer medida efetiva que a tal capital ofenda por parte do governo.

Já a mera possibilidade de se criar alguma forma de direcionamento do entretenimento cutural popular por meio de ação governamental causa escândalo e protestos em setores supostamente formadores de opinião, que parecem – ou simulam parecer – não se dar conta de que repetem o mesmíssimo argumento das grandes corporações de mídia quando a administração federal faz menção de exercer seu direito legal de estabelecer parâmetros e regularizações para a atividade televisiva, como no caso da malfadada criação da Ancinav.

Será que esses críticos não se dão mesmo conta do quanto a satanização do “dirigismo” governamental, associando-o, dogmaticamente, ao stalinismo cultural, tem como contrapartida um dirigismo de facto, insidioso e adepto recorrente de práticas ilegais, comandado por grandes corporações de mídia, como abordado acima?


Paliativos, uma vez mais
Cai-se, assim, num relativismo excessivo e imobilizador, tributário não apenas do pós-modernismo, mas, sem que muitos o percebam, do neoliberalismo, em que se insiste na tecla de que não há parâmetro válido para a diferenciação valorativa entre produtos culturais, ao mesmo tempo em que se lega à indústria cultural a tarefa de impor os seus próprios valores, segundo os critérios (ou descritérios) que quiser.

Trata-se, ainda, uma vez mais, de uma medida do governo Lula que mantém intactos (ou melhor, passa a satisfazer ainda mais) os interesses do grande capital. Como colocou um blogueiro com o qual tenho muito mais divegências do que concordâncias,o Angry Brazilian, em diálogo via Twitter:

- “É mais fácil o governo mandar patrão dar 50 contos pra empregado e se eximir de fiscalizar um cinema que nos rouba, cobrando até 30 contos” – escreveu ele, emendando uma série de comentários que enfatizam o quanto o Vale-Cultura mantém intacta a capacidade da indústria do entretenimento, no Brasil, de insistir em seus preços abusiva e inexplicavelmente altos (em termos comparativos mundiais, registre-se) e em suas práticas extorsivas (como o cambismo oficial e o custo dos convidados VIPs sendo cobertos pelos otários pagantes).

Ficam duas perguntas. A primeira, que não cabe a mim responder, é: as pessoas que, por recusarem o “dirigismo”, se opõem a qualquer intervenção direta do governo para melhoria do repertório cultural popular estão satisfeitas com o nível cultural da população brasileira?

A segunda é: o Vale-Cultura, tal como está sendo proposto, despido de qualquer “dirigismo”, representa um avanço? Possivelmente, sim, mas um avanço com a marca contraditória da “Era Lula”, substancial se comparado às administrações anteriores, mas feito de medidas paliativas e que não alteram a estrutura do mercado de bens culturais. E que preservam, tanto na timidez com que asumem medidas pró-ativas para elevação do nível cultural das massas – por temer a acusação de dirigismo -, quanto na leniência para com as tarefas fiscalizantes e reguladoras de práticas e preços concernentes à indústria do entretenimento – por receio de contrariar o grande capital – um conservadorismo decepcionante e conformado, que não ousa transpassar os marcos regulatórios ditados pela ideologia neoliberal.


(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 28 de julho de 2009

O “Colunismo Negativista” de Clóvis Rossi

O dia 12 de julho deveria ser decretado comemorativo para o jornalismo nacional. Nessa data, o colunista da Folha de São Paulo Clóvis Rossi surpreendeu a todos fazendo, numa mesma coluna – intitulada "No topo do mundo, mas solitários" -, não apenas uma saudação congratulatória ao Brasil mas, pasmem, um elogio explícito ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Como não poderia deixar de ser, há ironia ferina no modo como Rossi, 66 anos, saúda o ingresso do Brasil no G14: "Palmas para o Brasil, que acaba de ser lançado ao topo do mundo, o tal de G14 (por enquanto 14, mas sabe-se lá em que número vai parar)", mas ela é menos evidente nos elogios à determinação de Lula para fazer o país ingressar no grupo decisório, agora expandido, dos países mais ricos do mundo.

O duplo elogio, raríssimo – quiçá inédito – na produção diária de um colunista que é com frequência acusado de rabugice e de intransigência para com o governo federal, ocupa quase 20% do espaço da coluna (323 dos 1687 caracteres do texto). Ao final do segundo parágrafo, Rossi volta a si e, como que justificando a conjunção adversativa do título da coluna, proclama: "Chega de palmas e vamos às vaias".

O "Jornalismo do ‘mas’"
Trata-se de mais um exemplo do "jornalismo do ‘mas’", expediente recorrente na Folha de S. Paulo durante a "Era Lula", segundo o qual quando o jornal comete a ousadia de se permitir um elogio às autoridades ou ao governo, ele quase sempre é seguido de críticas que o minimizam ou contradizem. Tem ocorrido com tal frequência e até nas manchetes de capa que constitui tema potencialmente prolífico não apenas para matérias analíticas, mas para pesquisas acadêmicas de maior fôlego.

Está implícita nessa lógica do "jornalismo do ‘mas’" uma visão negativista da prática jornalística, sintetizada na famosa frase atribuída a Millôr Fernandes segundo a qual "Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos & molhados". Sob a administração do diretor de Redação Octávio Frias Filho, tal lógica tem sido levada ao paroxismo. E, embora Rossi fosse muito próximo do pai do atual publisher, Octávio Frias de Oliveira – a quem costumava chamar de "o sábio que habita esta Folha" –, ele teria se tornado, nos últimos anos, como aponta com alguma frequência o jornalista e por anos colega de trabalho Luís Nassif, o mais fiel seguidor dessa política que se baseia quase que exclusivamente na crítica negativa.

Mas as raízes da mudança de Rossi para uma postura niilista e com traços de sisudez têm motivos mais profundos e de maior dimensão histórica. Não é mera coincidência que tais mudanças tenham se tornado perceptíveis mais ou menos na época da derrocada do socialismo soviético, simbolizada pela queda do Muro de Berlim. A débâcle das esquerdas em âmbito mundial marca um ponto de inflexão na postura analítica de Rossi – suas colunas dos anos imediatamente seguintes sugerem um sentimento de rancor para com o ideário esquerdista, como se de traição pessoal se tratasse. Ao mesmo tempo, ocorre não apenas a radicalização de uma postura (a princípio saudável, quando não radicalizada, o que é o caso) de absoluto descrédito em relação às ideologias, mas também a adoção, de forma acintosa, do deboche para com elas como postura crítica recorrente.

Colunismo negativista
Não há como precisar se e a que nível o desgastante período final do regime militar e a titubeante retomada democrática também o afetaram, mas o certo é que foi durante esse longo período que se solidificou uma sua característica crítica que constitui atualmente, na minha opinião, o mais grave problema concernente ao ocupante da coluna "São Paulo", da Folha: um forte sentimento anti-Brasil (para utilizar o conceito que o notável Janio de Freitas usa para se referir à presidência de FHC) e a retroalimentação do complexo de inferioridade do país. Estes tomam forma com frequência, tanto em comparações pontuais com aspectos positivos dos países que, como repórter internacional, visita quanto na utilização recorrente da jabuticaba como metáfora para tudo que, segundo ele, só o Brasil produz – de ruim, é claro.

Utilizando de forma maniqueísta tal metáfora, desprezam-se as qualidades de um fruto a cujo sabor delicioso soma-se o prazer sensorial de espocá-la entre os dentes, antes que o rico sumo inunde o palato (para não mencionar as delícias do prazer lúdico-infantil de colher jabuticabas no pé). De forma análoga, Rossi, recorrentemente, negligencia avanços comprovados da economia e da ordem social brasileira em prol de uma visão invariável e exclusivamente negativa do país.

Tal operação baseia-se num modelo analítico no qual tem pouca ou nenhuma importância os dados da economia real ou as conquistas da sociedade civil. Ambos são relativizados através de quatro estratégias argumentativas principais:

1) A ênfase nos problemas socioeconômicos que permanecem, mesmo após eventuais
avanços (como se possível fosse reverter a brutal assimetria que caracteriza o
país no espaço de um ou dois mandatos);

2) A comparação com aspectos positivos de nações mais desenvolvidas, sem contextualização alguma;

3) A comparação entre as conquistas de determinada administração e as promessas de campanha do respectivo candidato (esta estratégia torna-se recorrente com Lula; com os governantes anteriores foi utilizada com extrema parcimônia);

4) E, sobretudo, a persistência da corrupção, este um tema obsessivo de Rossi, pois, endêmica, funciona como um álibi que lhe permite sempre criticar, e com razão, o governo – qualquer governo.

Não há como negar que se trata de quatro dos mais graves problemas do país, assim como não dá para negar que são problemas só solucionáveis a médio ou longo prazo. Além disso, não é preciso ser nenhum gênio para notar que tais critérios criam uma fixidez avaliativa que não só não permite levar em conta as alterações temporais nas conjunturas às quais está submetida determinada administração, mas impede o reconhecimento de eventuais avanços por esta alcançado.

Exemplos concretos: durante o primeiro mandato, a administração federal criou 7,5 milhões de empregos. Para Rossi, isso é avaliado negativamente, pois Lula prometera criar 10 milhões de vagas; o bolsa-família (que ele, como a maioria dos colunistas da Folha, trata pejorativamente) tirou quase 40 milhões de pessoas (11.250.623 famílias, segundo dados oficiais) da miséria ou da pobreza; para Rossi isso nada significa, pois, como repete à exaustão, o lucro do capital continua superando o lucro do trabalho. Ou seja, alhos misturados a bugalhos.

Não que tal negativismo do colunista seja voltado exclusivamente a Lula. Na “Era FHC” – sobretudo no segundo mandato – Rossi foi dos mais enfáticos críticos da administração do então presidente. Acontece que com Lula tais críticas parecem mais recorrentes e mais cheias de azedume – além de muito raramente direcionadas a outros políticos, particularmente ao governador José Serra (o que não seria de se esperar de um colunista que ocupa uma coluna intitulada “São Paulo”, mesmo sendo esta prioritariamente voltada à análise da conjuntura política nacional).

Essa ausência de parâmetros comparativos condizentes, substituídos pela supremacia do criticismo exclusivamente negativo, leva o colunista a fomentar, como já dito, um sentimento anti-Brasil e um complexo de inferioridade do brasileiro em relação ao resto do mundo. Faz, ainda, com que ele emita opiniões por vezes esdrúxulas, pois sem correspondência na realidade. Para ficar só em exemplos recentes – por conta das acusações de corrupção contra Sarney, ele afirma que o Brasil é pior do que uma república bananeira e que deve desculpas a estas por ter comparado o país com elas (coluna "É puro deboche, de 15/07); que "A África é aqui" (título da coluna de 16/07), afirmação que negligencia dados oficiais e qualquer outro parâmetro de comparação que não a alegação de o Brasil não ter, segundo ele, instituições fortes; por fim, como um último exemplo, na coluna analisada na abertura deste artigo, ele corrobora o dito de Fernando Henrique Cardoso de que o Brasil seria um país caipira, pois voltado ao próprio umbigo e com poucos participantes no fórum de Davos...

Luís Nassif, em seu blog, livre das amarras de uma propalada e questionável "ética profissional" vigente na "grande mídia" segundo a qual "colega de profissão não fala mal de colega de profissão" tem produzido, amiúde, críticas diretas aos textos de alguns colunistas, os quais disseca analiticamente, aponta contradições e contrapõe argumentos. Dora Kramer, o "professor de Deus" Alexandre Schwartsman e o colega de Rossi na Folha, Valdo Cruz, estão entre os que receberam a atenção do blogueiro. No último domingo (19/07), ele analisa a coluna que Rossi publicara naquele dia, intitulada "É proibido silenciar" e na qual, lamentando que no Brasil alegadamente não exista a cultura do "accountability" (prestação de contas) da parte de servidores públicos, evidencia o complexo de inferioridade ao qual me referi acima.

"Por que o "accountibility" demorou vinte anos para ser praticado em relação à Sarney e só se manifestou agora? E por que a Folha deu vinte anos de espaço a Sarney sem jamais tê-lo cobrado por seus atos? E por que a cobrança é apenas sobre Sarney, se todos os senadores participaram de uma lambança que tem no mínimo 14 anos?" – pergunta Nassif.

Notáveis coberturas internacionais
O talento e o currículo de Rossi são indiscutíveis quando se trata de coberturas internacionais, área em que atua há 36 dos 40 anos dedicados ao jornalismo, tanto pelo Estadão (onde foi editor-chefe) quanto pela Folha, sendo que nesta foi correspondente em Madri e em Buenos Aires (ele trabalhou ainda no Jornal do Brasil, onde exerceu outras funções). Assinou matérias de alta qualidade, como as relativas aos primeiros encontros do Fórum Econômico Mundial em Davos (Suiça) e aos atentados terroristas em Madri, em 2004 (na qual, como assinalou Carlos Chaparro em texto reproduzido no Observatório da Imprensa, "produziu uma cobertura de valiosa densidade interpretativa").

Rossi forneceu, ainda, em algumas colunas memoráveis, uma visão mais pessoal e crítica dos temas internacionais tratados, como em "Auto-retrato em corpo alheio", em que, por ocasião da Declaração sobre a Comunidade Sul-americana de Nações, em Cusco (2004), analisa a devastação social que o neoliberalismo produzira no país, ou, como voz virtualmente solitária, na corajosa analogia entre os métodos israelenses e os nazistas na coluna "Massacre no gueto de Gaza" (30/12/2008).

Sua excelência na editoria internacional – que lhe valeu o prestigioso prêmio Maria Mors Cabot em 2001 - fica uma vez mais evidente na coluna do último sábado (18/07), "Os EUA vão para o spa", em que expõe e analisa, com grande capacidade de síntese, as novas diretrizes básicas da economia norteamericana, mais voltadas à exportação do que ao consumo e com claras preocupações ecológicas.

Avaliação histórica
Mas, se o correspondente internacional tem seu nome inscrito na história do jornalismo brasileiro, é incerto como essa mesma história julgará o colunista de política Clóvis Rossi, que ao negativismo e à intransigência que de ordinário o caracterizam (manifestadas não apenas nas colunas, mas na forma agressiva com que responde a leitores que ousam questioná-lo), vem acrescentar a forma anacrônica e mais uma vez ríspida com que se relaciona com as novas mídias (que a maioria dos jornalistas de ponta reconhece como um importante fórum de debate), as quais insiste em desqualificar com afirmações preconceituosas e genéricas - que acabam por sugerir receio ou desconhecimento.

Não fosse pela coluna-exceção referida na abertura do texto, quem acompanhasse o Brasil da "Era Lula" a partir da coluna de Clóvis Rossi teria a impressão de que atravessamos um período negro da história brasileira, e não uma fase de redução substancial das desigualdades sociais – bandeira histórica da esquerda que nenhum presidente conseguiu tornar efetiva nas bases atuais -; de bom desempenho econômico reconhecido pela maioria dos economistas; de uma administração federal aprovada por 67% da população e chefiada por um presidente com 80% de aprovação pessoal, para ficar em apenas três exemplos. Como a história julgará um colunista de política que se recusa a reconhecer tais fatos, enfatizando apenas os aspectos negativos – que também são consideráveis - do governo de turno?

(Originalmente publicado no Observatório da Imprensa em 21 de julho. Fiz modificações.)

domingo, 26 de julho de 2009

Hipocrisia e Corrupção

Rodoviária do Rio de Janeiro – um dos terminais mais feios e anacrônicos do Brasil. O sujeito, cansado após um dia de trabalho sob o calor carioca, encosta a boca no guichê da empresa de ônibus e pede uma passagem para São Paulo. Paga e fica aguardando o troco:

- "O doutorrr qué viajá sozinho ou acompanhado?"

Com um sorriso amarelo e cara de pateta, o “dr.”, que não tem grana nem pra pegar uma ponte aérea, solta um muxoxo:

- "Sozinho..."

E se afasta do guichê, deixando os R$5 e pouco como pagamento pelo “conforto extra” da viagem solitária.


Rodovia Ayrton Senna – uma das melhores vias intermunicipais do país. O Corolla “voa” no tapete de piche. Subitamente, após uma curva mais fechada, o “guarda” manda encostar:

- "'Carteira' e documento do carro" – exige o sisudo homem da lei, os olhos frios por detrás do falso Ray-Ban – "O sr. sabe a velocidade em que estava?"

- "Tava abaixo do limite, 'seu' guarda, uns 110, 120, não pode ser mais que isso...eu tava controlando..."

- "183, meu amigo, tu tava a 183" – grunhe o “polícia”, devolvendo os documentos.

Segue-se um silêncio sepulcral. Nem o motorista insiste em alegar inocência, nem o guarda começa a lavrar a multa .

- "...e..não teria como a gente resolver isso? – arrisca timidamente o motorista, embora quisesse soar como malandro escolado".

- "O sr. está tentando me subornar?" – replica, seco, o agente da lei.

Segue-se um brevíssimo momento de tensão para o motorista (“será que além da multa ele vai me prender por corrupção ativa?!!”), logo desarmado pelo sorriso irônico com que o guarda encerra o seu ato teatral.

Negocia daqui, pechincha de lá, e o motorista arranca com seu carrão, não sem antes dizer, meio como desaforo ao guarda, meio como forma de se auto-consolar:

- "É... 'vamo' ajudar o governo a construir outra estrada como essa" – (como se o dinheiro que o guarda embolsou fosse para os cofres municipais...).

[Aviso para fins legais: esta é uma história de ficção saída de minha mente excessivamente imaginativa; qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais terá sido mera coincidência.]


Os exemplos acima são ilustrações das mais pueris de um problema crônico do pais: a corrupção. Escancarada ou implícita, em espécime ou em cargo e favores, ela, secular, vem sendo, há décadas, mais e mais capilarizada, corroendo o tecido social e ferindo de morte a meritocracia.

Quanto a esse último item, a área em que o preparo e o conhecimento são substituídos de forma sistemática e há décadas pelo compadrio e pelos laços de panelagem é justamente aquela em que os primeiros são de essencial importância para o exercício da profissão: os concursos para professores das universidades públicas. Trata-se de um dos maiores escândalos continuados da história do país, digno de várias CPIs - se CPIs dignas de alguma coisa fossem; material para manchetes sucessivas nos jornais e para o Willian Bonner franzir tanto suas sobrancelhas, antes de vocalizar sua indignação, que elas ficariam com torcicolo.

Mas a mídia não dá a mínima bola para o tema, assim como se recusa a discutir as razões estruturais da corrupção, preferindo manter o foco exclusivamente voltado aos políticos, fulanizando e atendo-se sempre ao acusado da vez – como se este fosse a exceção, e não uma das milionésimas partes da regra. Afinal, business is business e o negócio do jornalismo é vender jornais. Aquela história de “um jornal a serviço do Brasil” e patranhas semelhantes que invariavelmente invocam o ideal iluminista que o jornalismo clama para si não passam de uma jogada de marketing para valorizar o produto e incrementar as vendas. Serviço público? Não me faça rir...

Em decorrência dessa dinâmica, a corrupção revela um de seus efeitos secundários: o florescimento (sic) da indústria da denúncia seletiva, que fabrica pseudo-motivos para os berros dos datenas e dos bóris, os suspiros indignados dos waacks e dos sardenbergs e a pena nervosa das elianes, lúcias, doras e demais meninas dos jôs (aaargh). Além, é claro, de municiar os animadores de auditório do Congresso, como virgílios, álvaros e até um senador gaúcho que consegue a proeza de defender a renúncia de Sarney e apoiar a governadora Yeda Crusius ao mesmo tempo. Forma-se, então, um nefasto círculo vicioso, em que corrupção e hipocrisia se confundem e se retroalimentam mutuamente, para deleite da platéia – pois trata-se de panis et circenses, como adivinha o Mello.

E assim chegamos ao escândalo da vez: é preciso ser um analfabeto político para achar que as acusações contra Sarney têm motivação outra que a mais cruenta briga política. Como aponta Luis Nassif, “a atual campanha contra ele tem propósitos nada moralizantes. O que se quer é derrubar o senador e transformar o Senado em fator de instabilidade política para 2010”. Só mesmo o PT e seu polianismo politicamente amador para querer brincar de entregar o ouro ao bandido numa hora dessas. Nâo vou nem me estender no debate do absurdo que é um político que há 44 anos protagoniza a vida pública tornar-se da noite para o dia o corrupto-mor da nação – como se todos não conhecessem suas práticas de há muito -, pois já escrevi o que penso sobre o tema. Trata-se de algo tão absurdo quanto o fato de ele não ter sido investigado antes.

Portanto, só para concluir, mesmo achando a corrupção um mal terrível, um verdadeiro câncer, um entrave ao desenvolvimento do país e uma das razões principais para que o Brasil seja o Brasil e algumas nações desenvolvidas paupérrimas em recursos naturais sejam nações sócio-economicamente desenvolvidas em âmbito mundial, sou contra a renúncia de Sarney e denuncio como hipócrita e oportunista a súbita escalada de acusações contra ele patrocinada pelo conluio entre PSDB/DEM e a “grande mídia”.

Eu apoiaria uma ação global de combate à corrupção, nos âmbitos municipal, estadual e federal, de caráter não-populista, não-neoudenista, sem caça pública às bruxas, executada estritamente dentro das margens da lei e com eventuais vazamentos de informações prejudiciais à honra de outrem rigorosamente punidos. Por razões óbvias, não creio ser possível executar algo assim nem agora nem a médio prazo, mas trata-se de uma idéia para se meditar sobre e para ser paulatinamente inserida no debate público.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A manchete que a imprensa escondeu

Imagine o seguinte acontecimento: dois Ministros de Estado de um grande país latinoamericano – um deles candidato a presidente nas próximas eleições presidenciais – viajam a Washington para um fórum econômico de cúpula que reúne os assessores para Segurança Nacional dos EUA, Jim Jones, e o para Assuntos Econômicos Internacionais, Michael Froman, além de 20 representantes de algumas das maiores empresas e grupos financeiros dos dois países, como Coca-Cola, Motorola, Cargill e Citibank. O presidente norteamericano Barack Obama decide prestigiar o evento, dele tomando parte por cerca de meia hora.

À saída, não apenas o ministro-candidato anuncia o “forte apoio” de Obama à intensificação do comércio entre os dois países e ao combate mútuo ao protecionismo, mas o próprio presidente dos Estados Unidos, que a princípio não deveria se pronunciar (na verdade, sequer costuma participar de reuniões desse tipo), faz questão de fazer uma declaração, na qual enfatiza a importância da relação bilateral entre os dois países.

Desnecessário dizer que, em linguagem diplomática, o “gesto espontãneo” de Obama tem significação clara: sinaliza a primazia do tal país latino-americano como parceiro regional. Como a confirmar tal significação, ato contínuo, o influente Council on Foreign Relations divulga nota em que sugere olhar o tal país latinoamericano “como intermediário em questões de segurança regional", pois ele “está aprendendo a equilibrar diplomacia comercial e política de modo sem precedentes".

No dia seguinte, obviamente, o assunto domina as manchetes dos grandes jornais e é explorado à exaustão pelo noticiário televisivo do país latinoamericano. Nas edições imediatamente seguintes, economistas, cientistas políticos e experts em profusão debatem as implicações, imediatas e a médio prazo, do encontro de cúpula em Washington, avalizado por ninguém menos do que o presidente da (ainda) maior potência mundial.


A imprensa descompromissada
Acontece que o país latinoamericano em questão é o Brasil, um lugar em que a imprensa, em sua maioria, tem simplesmente abdicado de seu papel de informar e questionar, preferindo agir como partido político. Para piorar, liderou a missão brasileira em Washington a ministra-candidata Dilma Rousseff, contra quem até fichas policiais falsas foram utilizadas na tentativa de denegri-la. Portanto, ao invés de manchetes, esquálidos parágrafos; no lugar de debates, um epifânico silêncio. A se basear na “grande imprensa” nativa, é quase como se os desdobramentos surpreendentemente positivos do Fórum de CEOs Brasil-EUA da segunda-feira, 21 de julho, não tivessem ocorrido.

Mas, além da imprensa norteamericana – que publicou dezenas de artigos e análises sobre o encontro -, boa parte da mídia internacional demonstrou-se muito mais atenta ao caso, fornecendo até detalhes do evento e estendendo a cobertura aos encontros de Dilma com o Secretário do Tesouro norte-americano, Tim Geithner, com o assessor econômico de Obama, Larry Summers, e com o Secretário de Comércio, Gary Locke, este ocorrido no encontro entre as câmaras de Comércio dos dois países, pela ministra coordenado.

A imprensa latinoamericana, em especial, revelou-se muito mais interessada do que os jornais brasileiros. O DiarioCritico, do México, publica uma alentada reportagem, com farta informação e direito a foto da ministra; o Buenos Aires Herald chega a ser mais específico, assinalando que “Os CEOs recomendaram que os EUA eliminassem suas tarifas para importação do etanol, mudança que beneficiaria o Brasil, mas que enfrenta grande oposição dos plantadores de milho norte-americanos”. De acordo com a agência de notícias Ansa Latina, um porta-voz norte-americano teria declarado que “Washington e Brasilia nunca tiveram uma relação tão ‘forte’ e que isso se deve à afinidade de opiniões entre os mandatários”.

A declaração de Dilma Rousseff de que ambos países devem trabalhar com "ênfase especial” em áreas relacionadas a biocombustiveis e cooperação científica e tecnológica foi destacada em matéria do site Mendonza On Line, que também ouviu o Secretário de Comércio Locke. Ele, por sua vez, ressaltou a "sociedade" entre os dos países, em particular para incentivar investimentos privados no Haiti e em várias nações africanas. Até a imprensa de países que não estão sequer na esfera geopolítica do tema, como França e Alemanha, deram mais atenção à cúpula do que a imprensa brasileira. O site informativo francês Autorecrute salientou na cobertura que “O comércio bilateral entre Estados Unidos e Brasil aumentou para 63,4 bilhões de dólares em 2008”. Pelo jeito, atingimos um ponto em que, por vezes, devido a interesses essencialmente políticos, a mídia mundial interessa-se-mais por questões brasileiras do que a própria mídia nativa...


Desinteresse ostensivo
No Brasil, o desinteresse foi ostensivo, Nos jornalões, nenhuma manchete de capa. Fotos? A única que este observador deve a oportunidade de ver – autêntica, e não referente ao encontro anterior entre Obama e Dilma, em que a ministra era parte da entourage de Lula, e que foi utilizada para ilustrar diversas matérias internacionais - estava, um tanto surpreendentemente, no portal Yahoo. O Estadão e os menos prestigiados Diário do Comércio e Correio do Povo ainda produziram uma matéria de uma lauda cada um, escondidas longe das manchetes.

A cobertura mais ardilosa foi, uma vez mais, da Folha de S. Paulo, que se valeu de um expediente editorial que se tem tornado recorrente no jornal quando quer “esconder” uma notícia: utilizar títulos que simplesmente não permitem ao leitor correlacioná-los ao tema que tratam. Dessa vez, a titulagem não dá a mínima margem para que o leitor adivinhe que a matéria é sobre o evento de comércio binacional: “Petrobrás pode assumir todos os blocos do pré-sal, diz Dilma”. O texto do usualmente bem informado e eclético Sérgio Dávila é um primor de dissimulação e contradições. Vejamos:

“À tarde, enquanto o grupo se reunia na sala do assessor de Segurança Nacional obamista, James Jones, o presidente Barack Obama apareceu no local.

Segundo relatos, ele foi simpático, mas protocolar. Perguntou aos empresários as principais dificuldades nas relações bilaterais. Disse que o país era parceiro estratégico não só em questões bilaterais mas também em regionais e globais e ressaltou a intenção de aprofundar a colaboração em biocombustíveis, na ajuda à África e ao Haiti e no combate à mudança climática”.

Relevemos que “assessor de Segurança Nacional obamista” e “assessor de Segurança Nacional dos EUA” – como a imprensa internacional se refere ao ocupante do cargo - sugerem coisas e posições hierárquicas consideravelmente diferentes, e que a duvidosa primeira denominação não permite a priori afirmar que Jones “ocupa uma das posições mais poderosas no país”, como atestou, quando da nomeação de Jones, a Time magazine. A denominação oficial do cargo é “National Security Adviser”, e não inclui, é claro, nenhuma referência a Obama. Parece-me lícito deduzir que seu ocupante, embora naturalmente nomeado pelo presidente, serve contratualmente ao país. O que vocês acham?

Como mais uma demonstração de boa vontade analítica, participemos também, como faz o colunista, da brincadeira de fazer de conta que Obama “apareceu” no local. Afinal, é divertido supor que o presidente dos EUA gosta de enlouquecer sua entourage e o Serviço Secreto, improvisando seus atos a todo momento.

Agora, a sério, vamos à pergunta que não quer calar: Obama teria sido “Simpático, mas protocolar”? A descrição da performance do presidente norte-americano no encontro, perpetuada no próprio texto de Dávila, contradiz a afirmação que o jornalista faz na abertura do parágrafo. Senão, vejamos: um dos homens mais poderosos do mundo adentra, alegadamente por vontade própria, uma reunião de cúpula, enche os empresários de perguntas, ressalta a intenção de aprofundar colaboração com o Brasil em nada menos do que quatro áreas estratégicas e faz,ainda, questão de afirmar (em público, o que a matéria omite) que o país é “parceiro estratégico não só em questões bilaterais mas também em regionais e globais” – e isso é ser “protocolar”? O que o colunista esperava, que Obama sapecasse uns beijos na Dilma?

A Folha oferece, ainda, uma sub-retranca que, uma vez mais, repete o truque da titulagem dissimulatória, dessa vez não permitindo sequer que se deduzisse qualquer interação com entes diplomáticos brasileiros: “Empresário dos EUA condenam tarifa ao etanol”.

Mesmo na blogosfera a cobertura foi decepcionante, a ponto de Luís Nassif transformar em post o comentário do internauta Clovis Campos protestando: “Nenhuma informação em lugar nenhum”. Nos 42 comentários que se seguem ao post, nenhum link para blog sobre o tema, com a exceção óbvia dos para-oficiais (intitulados “os amigos do presidente Lula” e, falta de imaginação, “os amigos da presidente Dilma”). No restante da blogosfera, há reproduções de despachos de agências e das matérias citadas acima, mas se encontram – com o perdão do trocadilho - virtualmente ausentes textos críticos. O Blog Por Simas ao menos conseguiu difundir a lista das empresas brasileiras que tomaram parte do encontro, ausente das reportagens: “Gerdau, Vale, Embraer, Coteminas, Odebrecht, Votorantim Participações, Sucocítrico Cutrale, Camargo Côrrea, Stefanini IT Solutions e Banco Safra”.


Ciclo de omissões
É lícito lembrar, ainda, que esse ciclo de omissões ocorreu no meio de uma semana particularmente pobre de grandes assuntos, na qual, estivesse o jornalismo brasileiro funcionando em condições normais de temperatura e pressão, tais fatos diplomático-comerciais teriam tudo para ser manchete dos grandes jornais, com destaque para a tradicional fotografia dos protagonistas se cumprimentando – afinal, trata-se, no mínimo, de um momento histórico para o comércio entre os dois países. Como explicar essa omissão da mídia ante um fato notório por si mesmo e que fornece tantos elementos para a discussão das relações Brasil/EUA e do realinhamento geopolítico do país em relação ao continente americano?

Há três hipóteses principais:

1) O fato não é relevante a ponto de merecer a devida atenção de nossa mídia, ocupada com denúncias mais sérias;

2) Nossa mídia é incompetente, e não foi capaz de avaliar a importância de um encontro de cúpula entre a nata do empresariado norte-americano e brasileiro com a alta burocracia dos dois países, nem de apurar que o presidente dos EUA participaria do encontro e a seu respeito se pronunciaria publicamente, conferindo-lhe importância diplomática incontestável;

3) Nossa mídia deliberadamente boicotou o evento por motivações políticas, preferindo omitir de seus leitores informações de extrema relevância para o futuro do país. Por quê? Por ser este comandado por uma ministra que é a principal opção eleitoral das forças políticas as quais, como se partido político fosse, essa mesma mídia tem sistematicamente repelido.

Vamos por eliminação: os caros leitores que têm fresca na memória as reportagens de capa (e com direito a fotos) dos grandes jornais com Pedro Malan e Armínio Fraga – de sobretudo, é claro - se reunindo com algum sub do sub do sub em Washington, que proliferaram durante as presidências de Fernando Henrique Cardoso, sabem que, devido ao número e à patente das autoridades envolvidas, o Fórum dos CEOs, vitaminado pela participação do presidente dos EUA é, comparativamente, muito mais importante. Portanto, descartemos a hipótese 1.

Sobram, portanto, duas hipóteses, que não oferecem elementos para serem categoricamante descartadas a priori: a incompetência de nossa mídia ou sua omissão por razões político-eleitorais. Minha impressão pessoal é que, a despeito do atraso técnico e dos seguidos episódios de violação da ética jornalística (que não deixam de ser uma forma particulamente nociva de incompetência), esta última não é tão grave em nossa imprensa a pon to de ignorar um fato diplomático de primeira grandeza.


Por que a cortina de silêncio?
Mas deixo aos leitores a tarefa de julgarem por si mesmos, oferecendo, em contrapartida a tão dilacerante esforço, sábias reflexões do jornalista Perseu Abramo acerca da omissão na mídia, que ele interpreta como estratégia primordial dos grandes grupos de imprensa para desinformar e, assim, manipular o leitor/espectador. Segundo trecho de seu livro Padrões de Manipulação da Mídia citado no blog do sempre combativo Altamiro Borges, trata-se de:

“Um deliberado silêncio militante sobre determinados fatos da realidade. Esse é um padrão que opera nos antecedentes, nas preliminares da busca da informação, isto é, no ‘momento’ das decisões de planejamento da edição, naquilo que na imprensa geralmente se chama de pauta... O padrão da ocultação é decisivo e definitivo na manipulação da realidade: tomada a decisão de que um fato ‘não é jornalístico’, não há a menor chance de que o leitor tome conhecimento de sua existência por meio da imprensa. O fato real é eliminado da realidade, ele não existe”.

Se por leniente incompetência ou se por má-fé eleitoreira, o fato é que a cobertura acanhada e des-hierarquizada do encontro de Dilma e Obama, além de manter desinformado o público leitor que a mídia tem por obrigação informar, é indicadora de um estado de coisas e de uma perspectiva futura temerária. Pois, se para episódios aparentemente menos consequentes envolvendo Dilma Rousseff o método adotado foi esse - transformar uma possível manchete em um fato menor, quase um não-fato -, tem-se uma idéia do que pode vir a acontecer quando os ânimos se acirrarem ao longo do pedregoso caminho que leva às eleições de outubro do ano que vem.


É preciso vigiar a mídia
Tenho sentido, ultimamente, uma certa tendência ao cansaço à crítica à mídia, a difusão de uma atitude de “deixa pra lá” e de “eles que se danem” em relação à ação da “grande imprensa”. Considero essa mentalidade – e a prática a ela associada – perigosíssima, uma fonte potencial para deixar a mídia deitar e rolar nas próximas eleições, não apenas tentando impor seus candidatos, mas o fazendo com os métodos e conluios que são nossos velhos conhecidos.

Por isso, insisto uma vez mais: é preciso refrear a euforia inconsequente que toma conta da blogosfera e substituí-la por uma marcação cerrada e articulada das práticas da mídia, pelo menos até as próximas eleições. Do contrário, eles locupletar-se-ão.


(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 21 de julho de 2009

O artista e a vespa

A literatura de Chico Buarque não é pra um dioguinho qualquer.

Como se sabe, o infante terrível da Veja andou atacando o cantor e compositor após a participação deste na Festa Literária Internacional de Parati (FLIP). Nas suas críticas, dioguito emprega o método usual: muita agressividade, pouco conteúdo (coluna disponível aqui, ao final de uma análise que a disseca com primor).

Na era da informação, no entanto, não adianta berrar, é preciso ponderar e convencer. Então proponho que analisemos com algum detalhe e recorrendo a fontes bem mais autorizadas do que dioguinho, a literatura produzida por Chico Buarque, para em seguida debatermos as razões de tanto ímpeto destrutivo contra um dos poucos grandes artistas brasileiros que não fomentam a cultura da celebridade nem o estrelismo.

A produção livresca de Chico Buarque, de acordo com a maioria dos críticos literários que se debruçaram analiticamente sobre sua obra, insere-se, com destaque, na tradição romanesca brasileira. Segundo o poeta, editor, critico literário e professor de Literatura Brasileira na USP, Augusto Massi:

“Estamos diante de um escritor de mão cheia e que, desde Estorvo, vem alterando o campo de forças da nossa tradição literária (...) no confronto com a visão de mundo de outros excelentes narradores, como Milton Hatoum e Marçal Aquino, seus livros suscitam questões mais amplas, complexas e agudas. Dentro dessa perspectiva, é preciso sublinhar que os três romances, Estorvo (1991), Benjamim (1995), Budapeste (2003), formam um ciclo narrativo notável (...) Budapeste, o mais bem realizado dos três, é o melhor romance brasileiro dos últimos 30 anos. Só Raduan Nassar alcançou o mesmo nível de realização formal.”

Confesso que me surpreendi ao ler a afirmação de Massi quanto a Budapeste. Primeiro, porque, há pouco mais de dois anos, logo após ler o livro, expressei opinião praticamente idêntica, em email a uma amiga – a professora de Jornalismo da UFF, Sylvia Moretzsohn. Segundo, e mais importante, porque cansei de ouvir, nos meios que, parafraseando o sociológo Renato Ortiz, praticam religiosidade popular nas discussões sobre cultura no Brasil, que Chico Buarque era um escritor medíocre e Budapeste o pior livro da trilogia iniciada com Estorvo. Como se vê, a vespa da intriga, como diria Orestes Barbosa, não se limita a picar certos colunistas...

Para José Miguel Wisnik - que não apenas atua na academia, mas compartilha com Chico o ofício de compositor:
“Tecnicamente, Budapeste é um romance do duplo, tema clássico na literatura ocidental desde que a identidade do sujeito tornou-se problema e enigma (...) Na criação literária, no entanto, o escritor é o duplo de si mesmo, por excelência e por definição, aquele que se inventa como outro e que escreve, por um outro, a própria obra”
É sobre esse último paradoxo, multiplicado por meio de artíficios narrativos que veremos a seguir, que o livro em questão se desenvolve.

O fato de o protagonista-narrador de Budapeste ser um ghost writer e tradutor instaura três niveis narrativos - o linguistico, o metalinguistico e trans-linguistico. Interessa mais a inventividade formal e os intrincados jogos de sentido que essa estrutura proporciona do que a história do tradutor errante e de identidade trocada em si – embora esta não deixe de ser plena de criatividade e fruição.

Budapeste não é tao tenso, tão instaurador de uma psicologia subjetiva perturbada e obsessiva a partir do narrador, como os dois livros anteriores de Chico. Mantém uma aguda e sofisticada critica social - sem explicitá-la, como nas melhores músicas do periodo ditatorial -, notadamente através do encruamento do inconsciente colonizado do brasileiro que vem à tona através do choque do protagonista com a cultura européia e, na sua volta ao Brasil, pela sua mudança de postura em relação ao país. Mas há, em comparação com os outros livros do autor, mais humor em Budapeste, às vezes auto-irônico e de quando em quando hilário (como na descrição das noitadas de música no botequim "Chamego de Gambá”).

Com um dominio seguro da técnica literária, Buarque oferece uma narrativa muito “amarrada”, muito cheia de referências pop e culturais e de jogos sub-reptícios de palavras e sentidos. A obsessão do personagem central pela impenetrável língua húngara, somada à visão que seus clientes internacionais têm do Rio, propiciam a mais deliciosamente sutil (porém incisiva) critica à globalizacao que tive o prazer de ler num livro nacional de ficção.

Mas o que mais me fascina em Budapeste é o modo como Chico se relaciona com o universo feminino, seja na descrição que faz da sensual, prática e hiperativa mulher do protagonista; no retrato da relação do protagonista-narrador com ela – marcada por um misto de atração sexual irresistível e esgotamento de qualquer outra fonte alimentadora de convivência cotidiana –; ou , sobretudo, no modo como Buarque simula reproduzir os pensamentos dela como se adentrasse no íntimo do pensar e do sentir feminino.

Essa última característica ecoa uma prática reiterada do Chico compositor – e um dos motivos que o tornaram um dos compositores favoritos das divas da canção brasileira -, herdada de uma de suas mais notáveis influências estilísticas, o grande compositor de samba dos anos 30/40 Wílson Batista: o ato de assumir, na primeira pessoa, uma subjetvidade feminina e a partir dela se expressar. (Um tanto paradoxalmente, essas incursões pelo feminino servem, em Budapeste, à confecção de um complexo retrato da condição masculina na contemporaneidade.)

A influência da música na literatura de Chico Buarque é também explorada por Samuel Titan Jr., professor de Teoria Literária na USP - e que atuou como moderador da mesa em que Chico e Milton Hatoum debateram na última Flip -, em análise do novo livro do compositor, Leite Derramado, reproduzida pelo site português Ìpsilon:
"Sem ter nada de superficialmente musical, o fraseado de Chico Buarque tem o mesmo acabamento rítmico de suas melhores canções; sem cair na oralidade fácil, sua prosa recolhe as sugestões mais poéticas e as camadas mais crassas do registro coloquial brasileiro e as transfigura segundo as necessidades da invenção romanesca". Considera ainda que, "sem o menor traço de exibicionismo letrado", os romances de Chico "revisitam e actualizam o melhor da produção literária e ensaística brasileira, do Machado de Assis de 'Dom Casmurro' aos romancistas da década de 1930, da prosa modernista ao ensaísmo da geração de seu pai, Sérgio Buarque de Holanda".

Chilique rancoroso
Mas é pra lá de óbvio que não é de literatura que se trata o chilique de dioguinho, valendo-se do auxílio luxuoso duvidoso da escritora irlandesa desconhecida com sobrenome de uísque vagabundo. Trata-se, sim, de dois sentimentos humanos, demasiadamente humanos: a inveja e o rancor.

Inveja porque Chico Buarque é inegavelmente um homem muito bonito e, mais do que isso, charmoso, inteligente, íntegro, dono de um estilo em que convivem a fina ironia e a capacidade de rir de si mesmo. Além disso, como sói acontecer com os talentos autênticos, prefere a modéstia à arrogância, esta uma muleta dos que se sabem medíocres e vendidos ao grande capital.

Rancor porque Chico Buarque é não apenas um ícone da esquerda, mas, mais do que isso, um ícone POPULAR da esquerda. Quem acompanhou as reações de reverência autêntica e de gratidão demonstrada por hordas de "populares" durante os preparativos e o desfile apotéotico que Chico fez pela Mangueira em 1998 sabe do que estou falando.

Trata-se de exemplo raro de pessoa pública que não só teve um papel preponderante no combate à ditadura mas manteve suas posições quando a política saiu de moda, substituída pelo culto às celebridades. Durante todo o período de retomada da democracia, procurou amiúde reiterar posições esquerdistas nas entrevistas que deu, sem abdicar, a um tempo, de uma análise sofisticada do contexto político e da recusa em servir de farol e líder – enfatizando a todo momento estar expressando sua visão política pessoal.

Além disso, é adepto do exercício da democracia no âmbito de sua profissão: a cada eleição presidencial, convida todos os candidatos e alguns membros da classe artística para reuniões em sua casa. Ouve as propostas de todos e, ao final do processo, sem interferir no juízo de seus colegas, comunica-se com a imprensa e declara seu voto. Deixemos a fama de Chico de lado por ora: já imaginaram o avanço democrático que poderíamos ter se os membros destacados de cada classe profissional agissem dessa maneira?

Durante a ditadura militar – que coincide com o ápice de sua carreira– foi um dos compositores mais visados pela censura vigente, mas não cansou de fustigar e ridicularizar o regime, valendo-se de artifícios os mais diversos, inclusive a invenção – com direito a entrevista ao Jornal do Brasil - de um compositor de morro inexistente, com o improvável nome de Julinho de Adelaide, para driblar a censura. É possível recriar a história dos “anos de chumbo” através das canções de Chico: a traição à democracia (“Até pensei”, “Os inconfidentes”, sobre poema de Cecília Meirelles), a tortura (“Cálice”, em parceria com Gil, “Fado tropical”, com Ruy Guerra), a insegurança de se viver num estado policial (“Acorda, amor”, sob o pseudônimo de Julinho de Adelaide), a ação da censura (“Meu caro amigo”, parceria com Francis Hime), a afirmação da esperança (“Quando o carnaval chegar”, Apesar de você”), a denúncia da mentira do “Brasil grande” (“Bye, bye, Brasil”, com Menescal) e o hino em forma de samba anunciando o fim do arbítrio (“Vai passar”), entre tantas outras músicas.

Mas é importante salientar que, ao contrário de boa parte do cancioneiro de protesto que vigeu à época em outros países latino-americanos (Argentina e Chile, destacadamente), as músicas de Chico Buarque transcendem a crítica política e sustentam-se no tempo como composições superlativas por si mesmas, à revelia do contexto político. Eis a marca do grande artista.

Desnecessário dizer que dieguinho, pena de aluguel rancoroso e de mal com o mundo, não pode nem sonhar com essas qualidades pessoais e com tamanho talento. Resta-lhe então dar asas a seu rancor e à sua inveja, ao mesmo tempo em que agrada o patrão plutocrata atacando um símbolo da esquerda. Mas chega de gastar tinta com esse peso-ameba das letras nacionais. A comparação definitiva entre dieguito e o filho de Sérgio Buarque já foi feita pelo jornalista Luiz Antonio Magalhães.

E este post não diz respeito a mediocridades, mas a um artista da mais fina cepa, um homem honrado e um autêntico ídolo popular; ao herdeiro dileto de Tom Jobim, por ele denominado "Maestro soberano": Chico Buarque de Hollanda.

(Foto retirada daqui)

domingo, 19 de julho de 2009

Adivinhe quem vem pra jantar?

Chega amanhã ao Brasil o ministro das relações exteriores de Israel, Avigdor Lieberman. A pátria amada, mãe gentil é a primeira etapa de uma viagem de 10 dias à América do Sul. Oficialmente, ele quer "diminuir a influência do Irã" na região e discutir com autoridades argentinas os rumos da investigação recém-reaberta sobre o atentado à AMIA (Asociación Mutual Israelita Argentina), que ontem completou 15 anos e foi objeto de boa matéria no El País. Extra-oficialmente, haverá tratativas com a Colômbia no sentido de reforçar o papel de base militar estratégica para o conservadorismo imperialista no continente ao qual o país dos inolvidáveis Higuita e Valderrama tem-se prestado.

Lieberman é um judeu nascido na Moldávia soviética, que na juventude trabalhou como leão-de-chácara e flertou com grupos sionistas radicais. Agora, pragmático, "refinou" suas posições: apregoa que sejam assassinados os congressistas árabes do Parlamento de Israel que se encontraram com o Hamás e afogados no Mar Morto os prisioneiros palestinos (cavalheiro como ele só, ofereceu ônibus para transportâ-los aos navios).

Quando o troglodita dá lugar ao demagogo, avultam suas ideias mais comedidas. Estas dizem respeito ao remodelamento da fronteira entre Israel e Palestina de forma a permitir ao país que ele representa instalar enormes assentamentos árabes-judeus na área. Ele defende também que tanto árabes que moram nos assentamentos quanto até mesmo judeus devem assinar um juramento de lealdade a Israel ou perder o direito a voto. Um democrata inato, como se vê.

Abaixo, algumas das pérolas do pensamento progressista de nosso próximo visitante internacional, citadas pelo maldoso Argemiro Ferreira:

- Em 1998, defende a inundação do Egito através do bombardeio da Represa de Assuã;

- Em 2002, declara aos palestinos: "Às 8 da manhã nós vamos bombardear todos os seus centros comerciais, à meia-noite as estações de gás, e às duas horas vamos bombardear seus bancos”;

- Em dezembro de 2008, defende o uso de armas químicas e nucleares contra a Faixa de Gaza, afirmando que seria “perda de tempo usar armas convencionais. Devemos jogar uma bomba atômica em Gaza para reduzir o tempo de conflito, assim como os EUA atacaram em Hiroshima na Segunda Guerra”.

Pausa para respirar.

Como (não) se sabe, a população palestina vem sendo oprimida de forma (ainda mais) intensa desde janeiro de 2006, com a vitória do Hamás nas eleições parlamentares - eleições estas consideradas honestas por observadores internacionais, incluindo o ex-presidente dos EUA Jimmy Carter. Trata-se do cúmulo do cinismo e da perversidade: assassina-se Yasser Arafat e assenta-se as bases para eleições na Palestina. Porém, o resultado, embora obtido através dos métodos democráticos que os EUA alegam seguir e defender, desagrada a Bush e Israel. Segue-se um dos piores boicotes aos palestinos em sua história plena de opressão e sangue, com fechamento de fronteiras, racionamento de petróleo e de água potável e cerceamento de socorro médico a feridos e a pacientes necessitados de atendimento de urgência - o horror em pleno século XXI.

Como consequência dessa barbárie - que dá, mais uma vez, razão ao título que o jornalista Fausto Wolff deu ao seu pequeno grande livro sobre a questão, "Palestinos, os judeus da III Guerra Mundial" - gerações de palestinos estão sendo esmagadas. Os reflexos dessa barbárie continuada e "naturalizada" mostram-se cruéis até para a psique de inocentes crianças, como texto traduzido por Cesar Schirmer aborda com contudência, ao relatar o pânico que lhes provoca a idéia de viajar de avião, por associarem o engenho a bombardeios e sofrimento e não a facilidades de transporte.

Inútil gastar palavras repisando que a cobertura da mídia - internacional ou nacional, no Brasil ou fora dele - omite-se de forma criminosa em relação ao que se passa na Palestina e quanto ao terrorismo de Estado praticado por Israel. Trata-se de um fato, há anos imutável, cujas razões - por economia de espaço e por economia emocional - não pretendo aqui examinar.

Mas quem sabe ainda valha a pena assinalar ao menos a lógica do "dois pesos, duas medidas" que rege a cobertura que a imprensa nacional destina a assuntos internos referentes ao Oriente Médio. Pois, como aponta Ferreira, "Nos meses de abril e maio passado, a mídia hegemônica fez um baita escândalo contra a visita ao Brasil do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que estava agendada há meses para assinar vários acordos comerciais de interesse dos dois países". A visita, como se sabe, não aconteceu (segundo o governo israelense, em decorrência de sua influência), embora tenha sido tema das mais prestigiosas colunas da imprensa nativa, invariavelmente expressando a ira santa dos respectivos jornalistas contra o lunático iraniano.

Agora, um silêncio bovino de nossa "grande mídia" antecede a iminente chegada de Lieberman, uma excrescência fora de seu tempo, um açougueiro brincando de chanceler; um político que, em caricaturas que proliferam na internet, é reiteradamente comparado a Hitler. Um pouco de exagero, convenhamos. Um pouco. O brigadeiro Burnier, do caso Para-SAR, talvez fosse um modelo (sic) de comparação mais apropriado.

P.S. Para não dizer que a apatia é total, há pequenas manifestações contra Lieberman planejadas para acontecer nos próximos dias - como esta, em Curitiba.

(Fotografia retirada daqui)

Prêmio "Blog de Ouro"


Neste domingo atípico em que já tive a felicidade de ver minha carta-aberta a Fernando Gabeira ser ressuscitada na blogosfera (graças, sobretudo, ao impulso inicial dado por Idelber Avelar), fui surpreendido, ainda, com a boa notícia de que o Cinema e Outras Artes foi contemplado com o prêmio Blog de Ouro.

Ele foi concedido a este humilde buteco por indicação de Alessandra Hernandez da Costa, que mantém o blog-quase-portal Crítica (non)sense da 7Arte, recheado de ótimas resenhas cinematográficas (leia o texto curto que ela escreveu sobre o novo filme de Giuseppe Tornatore para ter uma idéia do que falo).

A aceitação do prêmio implica na obediência às regras listadas abaixo, entre as quais a publicação deste post. Fico feliz e lisonjeado com o Blog de Ouro, mas, a bem da verdade, devo ressalvar que será com extrema leniência que seguirei a sexta regra, pois não faz sentido ficar vigiando o que outros fazem com os prêmios que recebem. Ou eles os merecem ou não (no caso dos blogs que indicarei, tenho certeza de que todos eles fazem por merecer).

As regras do prêmio são as seguintes:
1 – Exibir a imagem do selo “Blog de Ouro”.
2 – Postar o link do blog que te indicou.
3 – Indicar 4 blogs de sua preferência.
4 – Avisar seus indicados.
5 – Publicar as regras.
6 – Conferir se os blogs indicados repassaram o selo e as regras.

Foram três os critérios que adotei para indicar os blogs: serem espaços de exercício de inteligência e de produção de pensamento crítico, que contrariassem o senso comum; em decorrência disto, atuassem de forma politicamente contestadora; e, at last but not at least, privilegiassem a interação com o leitor e o fizessem de forma atenciosa, mesmo em se tratando de eventuais discordâncias. Assim, meus indicados são os seguintes:



1) O Descurvo, de Hugo Albuquerque;

2)Liberdade de Expressão, blog coletivo sobre a Confecom fundado por Flavia Brittes;

3) Politika etc., de Raphael Neves;

4) Conversa de Bar, de Eduardo Prado.


Parabéns a todos e espero que esse prêmio ajude a divulgar mais esses ótimos blogs.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Lula e a História

A hora de fazer um balanço do legado das duas Presidências de Luis Inácio Lula da Silva se aproxima, mas ainda não chegou. De qualquer modo, essa primeira avaliação terá lugar, inevitavelmente, em meio ao fogo cruzado de uma nova campanha presidencial e, em decorrência disso, tende a estar sujeita a toda a sorte de distorções e parcialidades ditadas pelos interesses das partes em disputa.

O próprio resultado dessa próxima eleição – vença o candidato apoiado pelo lulismo, vença seu opositor – tende a exercer um grau considerável de influência no julgamento histórico acerca da “Era Lula”, e com isso chegamos à primeira consideração sobre a especifidade do modus operandi da História – a constatação de que ela tende a variar, em relação ao seu objeto de estudo, até mesmo devido a mudanças contingenciais imediatas. Levada ao paroxismo, essa característica evoca a famosa boutade de Napoleão segundo a qual a história seria “Um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo”.

Além do papel que a dinâmica política imediata pode vir a exercer na avaliação do legado do atual presidente, há outro fator essencial a considerar: o comportamento da mídia. Este tende a ser potencialmente decisivo numa era em que informação e capital protagonizam, nas palavras de Antonio Rubim (no livro Comunicação e Política), “uma sociedade estruturada e ambientada pela comunicação, como uma verdadeira ‘Idade Mídia’, em suas profundas ressonâncias sobre a sociabilidade contemporânea em seus diversos campos” (2000, p. 29).

E há, na própria política nacional mais ou menos recente, precedentes que demonstram os efeitos potencialmente nocivos, para a memória histórica, do comportamento da mídia . Como escrevi em post anterior, considero a prefeitura de Luiza Erundina em São Paulo (1989-1992) o mais bem-sucedido exemplo do papel da mídia em legar, para o país, uma visão negativamente distorcida de uma administração que não poderia ser considerada menos do que ótima. É claro que o peso das forças antagônicas em âmbito federal e a possibilidade de continuidade do lulo-petismo no poder podem tornar esta última tendência política menos suscetível à brutalmente desonesta manipulação que vitimou Erundina. Mas todo o cuidado é pouco.

Uma terceira e última ressalva, em relação ao que a História fará do governo Lula, diz respeito ao fenômeno descrito por Eric Hobsbawn na introdução a Era dos Extremos (2000), segundo o qual as novas gerações crescem atualmente “numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação com o passado público da época em que vivem” (p. 13). Ou seja, a tendência à dispersão e ao imediatismo ditadas pelo ritmo veloz do jornalismo contemporâneo – e tão nociva a este, como aponta com brilho Sylvia Moretzsohn no livro Jornalismo em Tempo Real (Ed. Revan, 2007) – tenderia a estender seus tentáculos à História. É matéria de debate se novos ambientes comunicacionais como a blogosfera tendem a minimizar ou acirrar ainda mais esse fenômeno do “contínuo presente” - de qualquer forma, caberá ao historiador se vacinar contra ele.


Impressões atuais tendem a ser relativizadas
A despeito de tais restrições - e de todas as objeções pós-estruturalistas -, a História tem sido bem-sucedida em legar ao futuro – e ao grande público, que no âmbito deste artigo nos interessa mais – visões mais ou menos consolidadas (embora sempre passíveis de questionamentos ou matizações) dos principais fenômenos políticos, culturais, sociais e econômicos brasileiros. Não sem raridade, as interpretações mais aceitas e consagradas dos fenômenos históricos contrariam fortemente a percepção socialmente dominante no momento histórico analisado.

Tomemos dois casos como exemplo: o “Milagre econômico” de meados dos anos 1970 e a Presidência de Juscelino Kubitschek (1956-1961). O primeiro, saudado à sua época por mídia e sociedade como prova da eficiência de uma administração que tornava o Brasil a 8ª. economia do mundo, revelar-se-ia, sob perspectiva histórica, um fenômeno fugaz e artificioso proporcionado por vultoso endividamento externo, que acirrou ainda mais as desigualdades sócioeconômicas internas e levou o país a décadas de crise econômica e alta inflação por conta, sobretudo, dos custos do pagamento dos juros da tal dívida.

Já a Presidência de JK, vitimizada por três golpes de estado (abortados a tempo) e enxovalhada semanalmente em O Cruzeiro (a Veja da época, que tinha em David Nasser o seu Reinaldinho Azevedo), embora permaneça ainda hoje volta e meia questionada por humoristas que se autointitulam economistas por conta do ínfimo endividamento externo, é reconhecida pela História como a última administração produtora de um modelo de desenvolvimento orgânico e planificado que contemplou destacadamente a indústria (e pela primeira vez a automobilística), os transportes (rodovias Belém-Brasília e Régis Bittencourt), o setor de energia (hidrelétricas de Furnas e de Três Marias, aumento exponencial da produção de petróleo pela Petrobrás), além da incisiva política externa em prol da América do Sul (fundação da Operação Pan-Americana) e, mais importante, da propulsão inicial à integração nacional propiciada pela construção de Brasília (como aponta Venício A. de Lima, a cidade mais discriminada pela mídia nacional, que a confunde com os políticos que a habitam). Isso para não mencionar a democracia plena e a efervescência cultural que caracterizaram o período presidencial de JK e colaboraram sobremaneira para que este tenha acabado por receber o epíteto de “anos dourados”.


Caberá à História julgar legado de Lula
Como os exemplos acima evidencializam, os métodos históricos operam em outro diapasão em relação aos interesses políticos imediatos e ao modus operandi da mídia. Este, como tem apontado Luis Nassif, tem se caracterizado pelo que o jornalista chama de “priapismo midiático”, ou seja, a geração de um escândalo por dia para manter o leitor em permanente orgasmo. Trata-se de procedimento recorrente, mas potencialmente perigoso, como o demonstra um caso clássico da relação poder-imprensa no Brasil:

Quando o povo brasileiro foi dormir no dia 23 de agosto de 1954, o presidente era, segundo quase todos os jornais, que vendiam como nunca, o mais corrupto presidente da história do país; ao acordar no dia seguinte, e constatar que Vargas se matara, esse mesmo povo o elege seu mártir e sai em turba empastelando - ou tentando empastelar - as redações, preservando apenas a do Última Hora, único jornal que apoioara Vargas e que bateria, naqueles dias, recordes de venda.

Destarte, casos que hoje, graças ao moralismo tosco que continua dominando nossa imprensa, parecem ter uma importância vital - como Sarney no Senado, Dilma não ter renovado o Currículo Lattes, a tapioca comprada com cartão funcional e todos esses episódios que a mídia e a oposição (acredite, prezado leitor, são entidades diferentes) alardeiam como se se tratasse de motivo para impeachment de Lula - tendem, por sua própria insignificância e por dizerem respeito a práticas secularmente estabelecidas no país e não a ações do atual presidente, a desaparecer ou a virar uma vírgula no compêndio que a História reservará para a análise do que foram as duas Presidências de Lula.

Em compensação, um programa social que tirou cerca de 40 milhões de pessoas (11.250.623 famílias) da pobreza como o Bolsa-Família, a redução da mortalidade infantil em inacreditáveis 50%, o redirecionamento da política externa no sentido Sul-Sul /BRIC como forma de construir novas alianças internacionais e minimizar a influência norteamericana no país, a descentralização dos investimentos culturais para fora do eixo Rio-SP e a inédita proliferação de pontos produtores de cultura (inclusive audiovisual) nos mais longínquos rincões e a revitalização de um ensino superior quase destruído pelo governo Fernando Henrique Cardoso - seguida da criação de dezenas de universidades bem equipadas em regiões não-centrais do território - são medidas concretas, fatos comprováveis, em relação aos quais há uma chance enorme de a História demonstrar o obrigatório interesse e reconhecer o devido mérito, a despeito destes serem hoje largamente negligenciados por uma mídia tendenciosa e irresponsável como poucas vezes se viu - e, em decorrência dessa omissão, praticamente desconhecidos, em seu conjunto, da maioria da população do Brasil neste momento.

Caberá à História rever tais injustiças e estabelecer os devidos erros e os méritos da Presidência de Luis Inácio Lula da Silva.


(Fotomontagem a partir de imagens retiradas daqui e dali)

terça-feira, 14 de julho de 2009

Michael Jackson e a necrolatria coletiva

(Imagem retirada daqui)

Assim que foi anunciada a morte de Michael Jackson, a mídia mundial ocupou-se da tragédia com uma voracidade que talvez só encontre paralelo na morte da princesa Diana, em 1997. Teve início então um grande show cibernético/televisivo, com imagens de arquivo do ídolo pop misturadas a cenas de fãs em pranto, que por sua vez davam lugar a reportagens especulativas sobre as causas da misteriosa e repentina passagem, aos 50 anos de idade, de um artista ainda capaz de performances atléticas.

De início, a internet comandou o espetáculo. Anunciada em primeira mão por um pequeno site de entretenimento e fofocas sobre celebridades - chamado x17online.com -, a notícia quadruplicou o tráfico na rede mundial de computadores, “travou” ou tirou do ar dezenas de sites e colocou o nome do cantor, compositor e dançarino nas primeiras posições em virtualmente todas as principais ferramentas de busca, Google à frente. Em números absolutos – mas não percentualmente - o evento foi mais impactante na rede do que os atentados terroristas de 11/09, superando com folga a repercussão provocada pela morte da última grande celebridade mundial, a princesa Diana.

E convém lembrar que Diana não tinha contra si, ao contrário de Jackson, a ira ou o desprezo de parcelas consideráveis da opinião pública, que as arraigadas suspeitas de pedofilia legaram ao norteramericano. Se despertou compaixão como a esposa desprezada, humilhada publicamente sob a pompa dos cerimoniais reais, soube, por outro lado, tornar-se admirada pela coragem e determinação com que conduziu o divórcio, confrontando a família real, reconquistando a independência. A transição vivenciada por Lady Di, de esposa oprimida à diviorciada livre e bem-sucedida, simboliza a própria trajetória da mulher no século XX. Com um charme ímpar e uma elegância natural, era uma espécie de Jackeline Kennedy dos anos 90, com a vantagem de contrastar seu charme plebeu não com o mais carismático dos presidentes norteamericanos, mas com a mais decadente das instituições de poder: a realeza britânica. Sua morte, também abrupta, interrompera uma trajetória ascendente em termos de reconhecimento popular – como a queda-de-braço post-mortem com a família real por conta de seus funerais, tão sugestivamente reencenada no filme A Rainha (The Queen, Stephen Frears, 2006), torna evidente.

Sucesso e decadência
A trajetória de Michael Jackson desenha outra linha no gráfico da vida e da fama, na forma de um V invertido, com o pronunciado ápice a meio caminho entre a escalada inicial rumo ao sucesso e a lenta decadência das últimas duas décadas .

A infância pobre, desprovida de seu espaço específico de ludicidade e lazer – substituído pela rotina massacrante de ensaios impingida pelo pai/empresário – o leva à condição de garoto-prodígio dos Jackson 5, mais um dos tantos grupos de sucesso do cast da meca da música pop negra norteamericana, a gravadora Motown. Aos 14 anos parte para uma carreira solo concomitante à atuação no grupo, de início mediana e de sucessos eventuais (Ben, Music and Me), seguida de sua estréia como ator em 1978, no papel do espantalho numa versão afroamericana e musicada de O Mágico de Oz, dirigida pelo prestigiado Sidney Lumet e protagonizada por Diana Ross, uma misto de madrinha e de melhor amiga de Michael até o fim de seus dias. A colaboração com o maestro Quincy Jones inicia-se com festejado álbum Off the Wall (1979), que estoura nas paradas norteamericanas, mas é no disco seguinte, Thriller (1983), que Michael torna-se um fenômeno mundial.

Fenômeno esse que combina letras inventivas, às vezes malandras, a melodias “pegajosas”, com forte pegada rítmica, valorizadas pela criativa produção de Quincy Jones e pelo uso intenso do videoclip de uma forma que nenhum artista ousara antes, produzindo clássicos do gênero, que divulgariam passos de dança copiados por jovens de todo o mundo e tornariam evidente o excepcional dançarino que Michael era. Ele torna-se então um artista de projeção mundial, uma espécie de blockbuster da música pop, para usar a terminologia utilizada no âmbito cinematográfico para designar as megaproduções que angariam todo tipo de público (fenômeno que se iniciara seis anos antes , com o lançamento de Star Wars, de George Lucas). Thriller se torna o álbum mais vendido da história da indústria fonográfica, com 106 milhões de cópias comercializadas no mundo até 2005, e Michael um artista capaz de lotar estádios em virtualmente qualquer lugar do planeta.

Mas o que parecia ser o desabrochar de uma trajetória altamente promissora de um artista de primeira grandeza revelar-se-ia, nos anos seguintes, seu efêmero cume. Tanto do ponto de vista artístico e comercial quanto, sobretudo, em relação à sua vida pessoal, nos anos seguintes e até a sua morte, Michael entraria numa espiral negativa e jamais repetiria as performances memoráveis da “Era Thriller”. Seus discos de inéditas seguintes oscilaram entre repetições em escala menor de uma fórmula agastada e tentativas malsucedidas de inovação, e ainda que, assim como as sucessivas coletâneas, continuassem a vender muito, não atingiam nem metade dos números obtidos por Thriller: os álbuns Bad (1987) e Dangerous (1991) ainda conseguem atingir por volta de 40 milhões de cópías cada um, mas Blood on the Dance Floor (1997) e Invincible (2001) ficariam em torno de 15 milhões de cópias vendidas por título.

Ao mesmo tempo, as acusações de pedofilia – que se oficializam pela primeira vez em 1993, embora antes já circulassem rumores a respeito - se multiplicam nos 15 anos seguintes, afetando sua imagem, migrando-o dos cadernos de cultura para as páginas policiais e capas dos tablóides, e dilapidando boa parte de sua fortuna em custos e acordos judiciais. Além disso, parecia haver algo de sinistro por trás das profundas transformações em sua aparência física, com o embranquecimento radical da pele e as sucessivas plásticas faciais sugerindo uma psique perturbada, como que confirmada pelas bizarras situações em que volta e meia seria flagrado (no ambiente infantilizado que criara para si no seu rancho sugestivamente chamado Neverland; brincando perigosamente com seu filho Jackson II ainda bebê numa sacada de um prédio alto; vestido de mulher num banheiro em Bahrein; gastando U$10 milhões de dólares em compras numa tarde). Por fim, daria-se o outrora inacraditável anúncio de sua falência.

A morte como espetáculo
Essa dark face do ídolo, que foram o tema recorrente que a menção a seu nome costumava despertar nos últimos 15 anos, como que desapareceu por encanto com o anúncio de sua morte, dando lugar a uma espécie de “sessão nostalgia”, a um tempo celebratória e fúnebre. Michael voltou a ser referido como “um menino-prodígio”, “o artista maior”, “o maior dançarino de todos os tempos”. Nos quatro cantos do mundo, hordas de fãs improvisavam altares repletos de bilhetes e flores; 1,6 milhão de pessoas no mundo todo disputaram a tapa os 17,5 mil ingressos para seu velório - na verdade, um xaroposo e tipicamente norteamericano show fúnebre - enquanto nas multidões que ficaram de fora muitos choram copiosamente em frente às câmeras. A necrolatria se revela como neurose coletiva.

O Brasil é familiarizado com o fenômeno: a morte violenta de duas crianças no ano passado, o velório interminável, medido em semenas, de Ayrton Senna; a longa vigília por Tancredo Neves; Carmen Miranda, antes acusada de “americanizada”, voltando dos EUA em um caixão para uma cerimônia fúnebre apoteoticamente popular.

Também a santificação automática post-mortem é nossa velha conhecida. Para citar só dois dos mais gritantes exemplos: Roberto Marinho e Antônio Carlos Magalhães, vulgo Malvadeza, que por décadas foram dois dos maiores vilões, respectivamente, da mídia e da política nacionais, só faltaram ser canonizados ao falecerem. O "jornalista" Pedro Bial chega a escrever um livro para bajular o ex-patrão e aproveitar o fenômeno fúnebre.

No caso de Michael, até a pedofilia foi temporariamente despida de sua natureza abjeta e tematizada na piada algo profana, mas de uma mordacidade inocente - que circulou na internet horas após sua morte -, segundo a qual a primeira pergunta de Jackson, ao chegar ao céu, teria sido onde estava o Menino Jesus...

A Mídia como indutora da histeria necrólatra
O ombudsman da Folha de São Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, que criticou a cobertura que o jornal dispensou à morte de Michael Jackson, reconhece o papel da mídia nessa catarse necrólatra como nutridora do apetites histéricos populares. Referindo-se às idéias defendidas por Richard Sennett no livro O Declínio do Homem Público, assinala que:

“A mídia eletrônica, ensina Sennett, insufla esse ânimo coletivo que exige dos famosos um "strip-tease psíquico" público permanente (no caso de Michael Jackson, chega até o túmulo). E o faz porque a sociedade assim deseja. O jornalismo impresso deveria ser um contraponto de civilidade. É uma pena que esta Folha pareça se recusar a exercê-lo.”

A reflexão mais importante para o jornalismo diz respeito justamente à ligação entre cobertura midiática e retroalimentação desse processo de necrolatria coletiva, mesmo porque tal ligação pode estar, paradoxalmente, afetando a imagem pública da imprensa, como o demonstra o fato de que tanto em relação a Diana como a Michael Jackson a mídia foi citada - no caso de Diana, judicialmente – como diretamente responsabilizada pelas mortes: em relação à princesa, devido à perseguição que os papparazzi, na ânsia pela imagem vendável, teriam feito ao carro em que ela se encontrava; no de Jackson, justamente pelos efeitos alegadamente devastadores, em sua vida pessoal, do strip-tease público de que fala Sennett.

Ilhas de sensatez
No histerismo que caracterizou, de modo geral, a cobertura da morte de Michael Jackson, dois depoimentos formaram um oásis de sensatez e sobriedade. O primeiro foi a declaração da jornalista Glória Maria ao noticioso Em Cima da Hora, do canal a cabo Globo News, em que ela descreve as impressões colhidas do convívio com Michael por ocasião da filmagem no Brasil do clip da música They Don’t Care about Us. “Fragilidade” foi a palavra mais utilizada pela ex-apresentadora do Fantástico para descrever o artista, que segundo ela, embora se mostrasse gentil e interessado, interagindo com seus coadjuvantes brasileiros, aparentava estar muito doente, sendo visíveis os danos que o vitiligo produzira em boa parte do seu corpo e sua fadiga intermitente.

O outro exemplo vem da coluna de Carlos Heitor Cony intitulada “Modos e Modas”, publicada em diversos jornais do país no último dia 30. Sem a intenção de redigir um obituário, o jornalista produz uma análise sucinta do talento essencial de Michael, em perspectiva histórica: “Afirmo e reafirmo que ele é superior a Fred Astaire, até então o maior bailarino do audiovisual de nossa era” (...) Inventou uma expressão corporal que transcende a expressão musical (...) O detalhe da bengalinha, dos farrapos e do chapéu-de-coco em Chaplin tem equivalentes no mocassim e nas meias brancas de Michael Jackson – um detalhe que poderia parecer cafona, mas nele é marca de uma personalidade fora de série”.

No entanto, a trajetória de Michael - ao contrário, por exemplo, da princesa Diana (para utilizar o mesmo modelo comparativo utilizado no início do artigo) -, se analisada detidamente, não oferece justificativas sociais convincentes que ajudem a explicar o enigma de seu culto, para além dos limites do fascínio que desperta sua própria arte, há tempos decadente. Além do peso das reiteradas acusações de pedofilia – das quais nunca foi capaz de se dissociar de modo convincente, muito pelo contrário -, Jackson foi talvez o artista que mais teve em suasmãos o poder de brandir a bandeira da negritude como instrumento de afirmação racial – mas, sem que ele próprio tenha permitido saber se por opção pessoal ou em decorrência do vitiligo, o fato é que sua imagem ficou paras muitos ligada à negação de sua própria raça. Até a trajetória da pobreza para o sucesso milionário através do trabalho duro reverteu-se contra ele, não apenas pelos declarados traumas que a “ausência de infância” lhe causara, mas pela extrema futilidade com que administrou sua fortuna, a ponto desta alegadamente se esvair em dívidas ao final de sua vida.

Mas enquanto muitos ao redor do mundo ainda o velam, Michael Jackson, morto, volta ao topo das paradas.


(Originalmente publicado n’ Observatório da Imprensa em 07/07/2003. Fiz algumas modificações).